Roma XXVI

11 Surpresa


Ela se levanta disposta a enfrentar o que tiver que enfrentar. Minhas mãos suadas deslizam pelo seu braço e eu agarro o ar. Helena passa a mão pelos olhos. Os músculos do seu rosto fazem o maior esforço possível para não demonstrar medo ou insegurança. Tenta focar o olhar na face sorridente de Ariadne, mas seus globos oculares oscilam, como que involuntariamente, para baixo.

— Vamos, querida! — Diz ela. — Vamos já!

Ela passa por mim e por uma fileira de cadeiras. Todos a olham, com pena. Helena ajeita o capacete na cabeça e segue para o túnel. Uma sensação de solidão me assalta. Se ela morrer, e aí? E eu? Se eu ganhar? Eu não vou, se ela não conseguir eu também não conseguirei.

Aperto o braço da cadeira, olhando para todos os rostos a minha volta. Sérios, inexpressivos, marcados por cicatrizes e marcas abstratas no olhar. Tristes. Alguns um pouco confiantes. Rômulo conversa com outro homem e sorri. O sorriso logo evolui para uma gargalhada. Como alguém pode ser tão frio? Terá facilidade aqui. Tenho que aprender a ser mais assim.

O telão acende, exibindo o Coliseu. O palco do massacre está diferente. Não é mais de terra e areia, mas sim de grama com algumas árvores. Um lugar bem mais agradável para morrer, e para matar. É impossível subir nestas árvores, senão ficaria fácil de mais. O tronco é liso e as folhas estão bem na ponta. De um lado, eis que surge um homem grande, negro, armado com dois machados, pronto para arrancar a cabeça de alguém.

Do outro lado, Helena carrega um punhal e tem um arco nas mãos e uma aljava nas costas. Ela saberia atirar flechas? Teria sido nas aulas que eu faltei. Como eu estou despreparada! Os olhos dela estão frios, e sua boca está congelada, assim como o resto do seu corpo. O seu nome aparece no vídeo, Helena, e depois muda para o homem, com os dentes a mostra e respiração que move todo o tronco. Calígula, o nome de um antiquíssimo imperador de Roma, cujo nome sobreviveu ao tempo. Ele gira os dois machados, demonstrando uma habilidade enorme com as armas. Mas, entretanto, não parece muito inteligente. Quem luta com machados sempre é violento, mas não domina táticas complexas. Talvez Helena possa ganhar.

A câmera foca Constâncio IV abocanhando uma uva, alegremente. Depois volta para a arena. Os dois correm, Helena já com uma flecha apontada para Calígula. Sem parar de correr por um minuto, ela atira a flecha, que corta o ar e se crava no chão à um metro do alvo. Helena é muito rápida, e não vai fazer a briga corpo-a-corpo que ele realmente quer. Calígula parece furioso por isso. Ela continua a correr, fazendo um arco na grama enquanto Calígula a persegue, mas por ser muito pesado é deixado para trás. Ele atira o machado, mas erra o alvo e manda a arma para cima. Bem para cima.

Helena permite um sorriso e corre para apanhar a arma que caiu ao seu lado, com a lâmina enraizada na terra. Não! Ela não percebeu a tática de Calígula. Enquanto se abaixa para pegar o machado, sem nenhuma chance de Calígula alcança-la, estando muitos metros atrás, um ruído de madeira quebrando ecoa pelo Coliseu II. E então, um galho pesado cai, girando no ar, em direção de Helena. Ela percebe em segundos e desliza para o lado, mas o pesado galho prensa sua perna esquerda contra o solo e ela grita, um grito alto e desesperado na sua tentativa frustrada de empurrar o galho. Ela puxa a perna, e machuca sua pele, mas ela não parece se importar. Calígula está a poucos segundos dela e seu tornozelo ainda se encontra preso. Mesmo pregada ao chão, ela retira uma flecha da aljava e a envia, zumbindo, pelo ar em direção a perna do gladiador. Ele urra de dor, e diminui um pouco a corrida, mas o tiro passou de raspão e fez um corte mediano em sua panturrilha. Ele xinga e continua correndo, no exato momento em que Helena desliza o pé, deixando a sandália presa.

Ela corre, com um dos pés descalços, pela arena, mancando com um filete de sangue escorrendo pela perna. Ela segura com força o punhal e para subitamente. Calígula vem em sua direção com ferocidade, e ela vai em sua direção com um ódio ainda maior. A câmera oferece uma visão horizontal. Os dois correm um em direção ao outro. Me dou conta de que não estou respirando há muito tempo, e inspiro ar, colocando os punhos rente aos olhos.

— Eles vão colidir. — Sussurra alguém.

Abro os olhos, vendo a cena da colisão. Helena salta ao lado de Calígula, apoiando uma das mãos no seu ombro, parece tentar empurrá-lo, mas ele disfere um golpe com o machado nas suas costas atirando-a um metro a frente. Ela rola pela grama, deixando cair o arco, o rosto expressando desespero. Seu sangue escorre pela armadura. Com muito esforço, ela se levanta. Não parece ter sido muito grave. Calígula vem em sua direção, correndo com velocidade implacável. Helena cambaleia. Está acabado. Ela encara o rosto do oponente.

Em décimos de segundo, quando Calígula está a poucos centímetros da gladiadora, Helena salta para cima, mas não em sua direção. O rosto de Calígula colide com o tórax de Helena, que o abraça com as pernas. Surpreso, Calígula deixa cair o machado na grama. Toda a plateia está silenciosa, esperando os poucos segundos que decidirá quem continuará na Gladius e quem irá embora. Helena joga o seu peso para frente, derrubando Calígula de costas, e golpeando-o com os punhos com toda a força que lhe resta. Sangue sai de suas costas quando o oponente dá socos na sua lombar, no local do ferimento, machucando as próprias mãos no metal retorcido pelo golpe de machado.

Isso é desespero. O desespero mais puro que existe. O instinto humano de sobrevivência e sua tentativa incessante de obter a vitória e demonstrar seu poder. Helena morde o ombro de Calígula, na altura protegida por um fino tecido branco, mas por pouco tempo, pois sangue o tinge de uma cor vermelho-escuro o ombro do gladiador, que urra e uiva de dor como um animal. Com os cotovelos colados, Helena o golpeia no peito . E é quando Calígula junta os pés no abdômen da gladiadora e a joga para trás.

Helena geme deitada no chão, com o rosto sujo de sangue e terra. Sua boca está inteiramente vermelha e a saliva escorre pelo canto de sua boca. No momento em que seu oponente se joga sobre ela, Helena rola para o lado, mas Calígula agarra seu pescoço com a mão direita. Ele começa a enforca-la, enquanto ela esperneia e arranha as mãos do oponente tentando desvencilhar-se, mas em vão. Após alguns segundos de agonia plena, seu corpo estica, ela fecha os olhos, e não torna a abri-los.

Calígula solta a mão do pescoço de Helena e se levanta, vitorioso. Engulo em seco, olho para o chão esperando que o pesadelo acabe e eu acorde em um beco qualquer de Nova Roma. O pescoço de Helena tem manchas, e a silhueta da mão de Calígula é vista perfeitamente. Agora sei de duas coisas: Eu vou vencer a minha luta, e eu vou matar Calígula com as minhas próprias mãos, dentro da arena ou fora da arena. Pode não ser justo, é claro que ele luta pela própria sobrevivência e fez o que qualquer um faria, mas... É humano. Vingança.

E então falas começam a surgir no salão. Volto o olhar para o telão e percebo que, atrás de um Calígula alegre que acena para a multidão, há uma Helena com fogo nos olhos e um punhal afiadíssimo nas mãos. Um de seus olhos está um pouco fechado, e seu rosto ainda roxo com a boca semiaberta pingando sangue. Ela eleva o punhal, silenciosa, com as duas mãos e o crava na altura da clavícula do oponente, afundando até o cabo. E trata-se de um punhal enorme. Ela tomba para trás e cai apoiando-se com os cotovelos. Ela vai sobreviver, sim. Não acredito que conseguiu.

Calígula está semiconsciente, balançando a cabeça sem parar. Ele não parece saber o que o atingiu.