Roma XXVI

5 Doeu por dentro


— O último a derrotar o autômato vai ser penalizado! — Grita Ícaro, enquanto se levanta.

Neste exato momento, Rômulo destroça a cabeça do autômato com uma ferocidade inigualável. Destroços voam e um emaranhado de fios coloridos fica exposto. Ele se levanta, com o suor pingando da testa.

— Sou o primeiro? — Pergunta ele à Ícaro. Parece não ter se dado conta de mim. Não me espanta, ele estava totalmente engajado na luta.

— Não. — Ele me indica com a cabeça. O olhar de Rômulo se move até mim.

Neste instante uma raiva e indignação passam pelo seu rosto. Ele suspira, murmura um xingamento e se vira, ofegando como se clamasse por mais ar.

Movo minha visão até Helena. Ela está deitada no chão golpeando a máquina com ambas as mãos, enquanto prende o tronco do autômato com as pernas. Luta praticamente ganha. Ambos os braços do robô estão arrancados e jazem ao lado. Posso estar enganada, mas um pedaço da bota está manchado de sangue. Mas Helena não está machucada...

Expulso o pensamento. Os outros competidores não estão tão ruins. Um homem ligeiramente gordo parece perder para o autômato, duas ou três mulheres já perderam a luta e fogem desesperadas enquanto as máquinas as perseguem incansavelmente.

— Acho que mereço este dia de folga. — Murmuro.

— A Gladius dispensa os dias de folga. — Fala Ícaro. — Mas tenho que admitir, o nível de vocês está bem alto.

— Somos detentos. — Digo. — Nosso nível tem que ser alto. Por isso nos mandaram para essa competição. Não acredito que...

— Não são só vocês que são escravos disso. — Diz ele.

— Como? — Pergunto, visivelmente curiosa.

—Não tenho permissão. Foi somente um devaneio. Desconsidere. — Seu tom de voz rígido parece ceder por um momento para um sofrimento contido.

Reflito sobre suas palavras. Com certeza são um tanto reveladoras.

— Você não me engana. — Revelo, ao apontar o dedo para ele. — Eu vou descobrir o que é. Mas ainda assim não acredito que faz parte disso.

— Eu também não. — Ele olha para o teto, e posso jurar que vi um ressentimento brilhar em sua íris. Ele olha para o nada, congelado, por um longo tempo. — Venha.

Ele me agarra com o punho e me puxa para uma sala no final do salão.

As paredes são pintadas de azul, há uma mesa ao fundo, uma estante cheia de livros que parece prestes a explodir, imagens coladas na parede ao lado e uma imensa janela de vidro.

Ando até as imagens emolduradas por lindas estruturas de ferro, prata e ouro. Uma delas mostra um homem no centro de uma arena, mutilado, enquanto outro homem se ergue sobre ele brandindo o gládio. Um outro quadro representa um leão atacando dois homens, que tentam se defender inutilmente com suas lanças.

— O que você quer, hein? — Pergunto.

— Já percebi que você é especial. — Disse ele.

— Especial? Cara, quem é especial? Ninguém! Vamos todos morrer. Estou tentando aceitar isso e fingir que não existe, e você vem com esse papo de você é especial... Idiota. — Faço menção de ir embora, mas ele segura o meu braço.

— É sério. Você precisa saber, preciso te explicar. Você conta pra sua amiga depois se quiser.

De mal grado, concordo.

— Você nem imagina o que te espera. — Diz ele, em tom revelador.

— Não? — Minha voz é irônica. — Pior que não mesmo. Eu só vou ter uma morte lenta e humilhante, enquanto você assiste comendo pipoca. Realmente, — bato palmas — não imagino o que me espera.

— Mas por que você acha que está aqui? Você acha que os argumentos que Constâncio usou foram, no mínimo, plausíveis?

— É claro que não! Mas não te interessa, você está do lado deles.

— Se fosse tão simples... — Ele volta a encarar um ponto fixo no nada. — Estamos no mesmo barco.

— Então me explique o que está acontecendo! Você só está nos ensinando a bater.

— É. Mas o objetivo disto tudo não é esse. Oferecer diversão para a população? Reduzir o número de encarcerados? Resgatar nossas raízes históricas? Absurdo!

— Então me conte qual é!

Ícaro abre a boca, mas neste momento a porta se abre. Um homem velho vestido de terno cinza com um aspecto imponente se mostra. Ele parece furioso. Ele ouviu tudo? Será?

— Meu caro, — sua voz é calma e rouca, mas ameaçadora e me causa arrepios — você pode me explicar o que está acontecendo aqui?

Olho para o professor, ele está pasmo. Mas logo sua feição volta ao normal, um pouco raivosa de mais.

— Bem, ela andou dando problemas nas aulas. Decidi dar problemas para ela também.

Sem um único olhar em minha direção, ele desfere um inesperado e forte soco no meu rosto. Cambaleio, a dor me dominando. A escuridão me devora.

Ao acordar, percebo que estou deitada na cama do meu quarto. Helena está ao lado, me olhando. As luzes fortes do quarto me causam tontura. Sinto que meus músculos parecem rígidos, está muito calor e um sabor amargo está na minha boca. Faço uma careta.

— Acordou, dorminhoca?

— Parece que sim. Onde está Ícaro? — Este é o pensamento que mais me atormentou nos vinte segundos em que me mantive acordada.

Ela me envia um olhar triste ao amarrar o tênis. Sua pele morena parece brilhar de encontro com a luz proveniente do sol que entra pela janela.

— Ele, bem... — Ela se encolhe. — Ele foi, de certa forma, preso. — Arreglo os olhos, mais do que meus músculos faciais permitem, chega a doer. — Mas está aqui. Não está em nenhum presídio. Embora preso.

— Eles não podem!

— Eles podem. Eles mandam aqui. Nas nossas ações, nas nossas vidas, em tudo... Só o magnífico imperador está fora dessa.

—Oh, Deus! — Grito. — Eu perdi a aula!

— Não tem mais aula nenhuma. Ou quase.

— Como assim?

— Me desculpe. — Ela parece chorar. Ela chora, chora realmente. — Me desculpe, mas eu não podia fazer nada. Você só veio para cá hoje de manhã.

— Como? Onde eu estava?

Todos esses segredos e esse comportamento estranho de Helena começam a me irritar.

— A pancada foi forte. As enfermeiras não me deixaram vê-la. Eu implorei, mas nada. Você dormiu.

— Dormi? Quanto? — Uma dor percorre todo o meu corpo ao me sentar na cama.

— Cassandra, — ela suspira — você dormiu por cinco dias. A Gladius começa amanhã.