Roma XXVI
6 O Sorteio
Notas iniciais
Sobressaltada, pulo da cama e fico de pé por um segundo, mas minhas pernas cedem sob o peso do meus corpo e caio de joelhos no chão. O impacto parece formar uma corrente de energia elétrica que percorre o meu corpo enquanto tremo subitamente. Minha visão embaralha e sou incapaz de discernir um único objeto à minha frente. Os sons se misturam e causam dor, o chão frio me faz tremer mais ainda embora esteja calor. Mãos frias e úmida me agarram e me levantam firmemente do chão como se eu fosse uma boneca de pano. Caio sentada na cama.
— Calma. — Sussurra Helena. Ela repete várias vezes, até que minha respiração fique normal. — Eles não podem te obrigar a lutar. Você não está preparada. Não é justo.
— Você, por um acaso, acha que eles estão preocupados em justiça? Eles nos puseram aqui para morrer para divertir os outros!
Ela continua em silêncio. Sinto um gosto amargo e desagradável na boca, mas continuo.
— Não ficaria surpresa se eles colocassem Ícaro para lutar na Gladius, também. — Digo. — Agora ele é um detento. E eu sei por que.
— Diga pra mim. — Pede ela.
— Ele me arrastou até a sala dele e... — Helena tapa a boca com uma das mãos. — Tentou me contar algo sobre este projeto, a Gladius. Mas um homem apareceu. Ele me socou. Eu não sei bem por que. Mas socou. Acho que para o velho não pensar que ele estava contribuindo, e sim castigando. Mas ele ouviu.
Cruzo as pernas sobre a cama.
— Não faço ideia do que vou fazer. Vou tomar banho.
— Então vá. Eu te espero para nosso último treinamento.
Entro no banheiro. Escovo os dentes até que o gosto amargo desapareça e entro no chuveiro, ficando lá por um longo tempo. Ao sair, coloco as roupas do dia, desta vez calças grossas de couro e uma camisa ligeiramente masculina de um tecido sintético e resistente. Faço um rabo-de-cavalo e encontro Helena no quarto.
— Vamos. — Chama ela. — Já está melhor?
— Não é essa a exatamente a expressão, mas sim. Estou bem na medida do possível.
Saímos do quarto. Algumas mulheres estão a atravessá-lo.
— Para onde vamos? — Pergunto.
— Hoje teremos uma palestra televisionada. Vão nos maquiar e nos vestir para parecermos bonitas e explicar como será a primeira etapa da Gladius. —Ao sair do corredor, já nos encontramos no grande salão, repleto de estilistas e maquiadores assim como no primeiro dia em que chegamos aqui.
— Olá, querida! — Chama uma mulher atrás de mim. — Vamos dar um trato em você.
Ela me arrasta até uma cabine pequena e bem iluminada. Ela fica na porta.
— Tire essa roupa horrível e ponha esta. — Ela me entrega um par de sapato de salto vermelhos e um vestido da mesma cor.
Assinto e sigo suas instruções. Pareço desengonçada com o salto alto, tomara que não me obriguem a lutar com isso. Seria impossível. Saio do provador e mãos me agarram instantaneamente. Jogam-me em uma cadeira e atiram camadas e camadas de maquiagem no meu rosto e ombros. Cremes estranhos, pós-coloridos. Realmente, devo estar parecendo uma palhaça. Seguram meu rosto com duas mãos e passam um batom amarelo nos meus lábios.
— Prontinha. — Diz o maquiador. — E desculpe, temos que ser rápidos.
Se tivesse energia, diria que não foi nada mesmo que tivesse sido algo. Pensando bem, eles quase me sufocaram. Foi algo.
Ando pelo salão. Ariane está na extremidade, apontando freneticamente para um portão de ferro ao lado. Não havia percebido sua existência.
— Por aqui, idiotas! — Resmunga ela.
Sigo pelo túnel bem iluminado. Todas as mulheres usam vestidos formais e salto alto. Os homens estão de terno e gravata. Estão nos enfeitando tão bem, mas metade de nós estará morta em alguns dias.
Andamos por um longo tempo. O cheiro está desagradável, a temperatura alta e meus pés doem sem parar. Dou graças à Deus quando chegamos ao fim do túnel. Arrependo-me quando percebo que estamos no Coliseu II. Desta vez parece menos uma arena, parece um programa de tevê.
Pessoas lotam o auditório. Um palco está a frente de muitas cadeiras, e algo me diz que são duzentas. Tomamos nossos lugares. Escolho uma cadeira no meio, para passar o máximo despercebida.
Um homem baixo e atarracado vem sentar-se ao meu lado.
— Não. — Digo, com a voz baixa, porém firme. — Minha amiga é aqui!
Ele se senta na cadeira ao lado.
— Fale assim comigo de novo e arranco o seu pescoço.
— Se tiver sorte, poderá fazer isso em uma luta. Mas não, obrigado. Prefiro que seja eu a arrancar o seu pescoço.
Carrancudo, se vira para frente. Helena logo chega e se senta ao meu lado.
— Você está bonita. — Indico seus cabelos pretos encaracolados e seu vestido justo.
— Você também.
Quando todos já se acomodaram, um homem desponta do palco. O mesmo velho que prender Ícaro. Ao começar a falar, sua voz não é calma como no dia anterior. Ou melhor, cinco dias atrás. É pesada, forte e nenhum pouco rouca. Parece até mais forte que antes e mais jovem.
— Competidores! A partir de hoje, vocês se chamarão gladiadores. Eu, como o grande idealizador deste evento e braço direito de nosso querido, adorado, aclamado e amado, o magnífico Imperador Constâncio IV! — Urros e gritos de alegria. Essas pessoas parecem cegas em querer ver pessoas morrendo e se divertindo com isso. — Receberemos vossa magnificência aqui, para contar a vocês e a todos a essência desta competição. A Gladius Innovatore!
O rosto sorridente de Constâncio IV aparece no palco. O homem lhe entrega o microfone.
— Obrigado Morfeu, obrigado a todos. — Começa ele. — Bom, quando me veio o projeto desta competição, eu adorei de imediato. Todos adoraram. Temos passado por uma terrível crise nos últimos anos, e eu, como imperador transparente e preocupado, expus isso a toda a população de Nova Roma. Uma demonstração de humildade a ser seguido por todos.
— Humildade? — Sussurro. — Isso?
—Porém, o mais importante é manter na memória dos romanos o que fomos no passado para que possamos ser novamente no futuro! O futuro está próximo e todos nós fazemos parte dele! — Grita, com entusiasmo. Ele se vira para nós. — E um de vocês. — Seu tom de brincadeira me faz querer enfiar a cabeça em um buraco e chorar. Todos riem, inclusive alguns idiotas dos concorrentes.
Constâncio continua em seu discurso ridículo:
— Sim, sim, sim meus queridinhos. Um de vocês será o vencedor. Aclamado, respeitado, adorado e amado. — Ele continuar a falar, brincando. — Não tanto quanto eu, que seria abuso. — Desenterra seu tom de voz normal. — Mas, — ele passa a língua pelos dentes e expõe um dos punhos — para isso terá que ser o mais forte, o mais rápido, o mais astuto e inteligente. Terá que ser o melhor de todos. Disseram-me que era covardia colocar mulheres no meio da brincadeira, mas não se engane. Elas são perigosas. Minha mulher, por exemplo, consegue atirar um sapato na minha cabeça com precisão à dez metros de distância.
Um coro de risadas explode, até mesmo Helena esboça um sorriso, mas eu não rio. Isso é abusar da nossa fragilidade. Ele chamou a Gladius de brincadeira? Pessoas vão morrer aqui. É um absurdo! Pessoas como ele, como Morfeu e como Ariane. A lembrança da voz daquela mulher diminuta me causa nojo. É irritante.
— Como eu ia dizendo, a Gladius Innovatore será nosso passaporte para o futuro! — Esclareceu, toscamente. — Depois deste breve discurso, teremos o sorteio das duplas que terão suas batalhas iniciadas amanhã. Que venha o sorteio.
Uma mulher jovem e loura sobe ao palco. Ela exibe um sorriso enorme e ostenta roupas caríssimas. Todos ficam de boca aberta. É impossível não reconhece-la. É Lara Foster, a topmodel romana e símbolo de Nova Roma. Ela carrega uma prancheta. Uma tela atrás se abre instantaneamente.
— Olá. — É só o que diz, acenando como uma miss.
Com certeza posso afirmar que ela não fará nada ali, só ficará olhando com cara de boba enquanto os competidores são divididos em duplas.
— As duplas serão anunciadas neste telão. — Anuncia o imperador.
Diversos quadrados surgem quando sua fala termina. Não tarda a surgir nomes e fotos. Não há ninguém que eu conheça. Não parece ter nenhuma ordem. Homens contra homens, mulheres contra mulheres, homens contra mulheres. Tudo aleatório. A foto de Helena surge. Ela cobre a boca com as mãos. Ao seu lado aparece o rosto sério de um homem negro. Eu já o vi, é amigo de Rômulo e tem um tamanho descomunal, ainda maior que o colega. Não consigo deter o pensamento ruim. Helena não tem chance, e ela sabe disso também.
Mas o pior sou eu. Eu não tenho nenhuma chance. Sou pequena, fraca e ainda por cima destreinada. Mais e mais rostos surgem. O concorrente de Rômulo demora para aparecer. Começo a ficar nervosa. Se for eu? Serei morta só de olhar para ele. Minhas expectativas não são atendidas. Um homem lutará com ele. Será um combate duro, o outro também é um grande competidor. Ao meu lado várias pessoas estão pasmas e choram.
O último quadrado que aparece na tela é o meu. Prendo a respiração. Um rosto aparece. Um rosto masculino. Não o reconheço, mas alguém na cadeira da frente se vira. É ele, com certeza.
— Bom pra mim, boneca. — Murmura ele ao passar a língua pelos lábios.
Um candidato dos mais fortes, com toda a certeza. Braços musculosos, pernas torneadas, rosto repleto de cicatrizes e uma pele parecida com couro. Chego a pensar que nem mesmo uma faca é capaz de perfurá-la. É o meu fim, sim. É o meu fim. Afasto o pensamento para não demonstrar o medo.
— O que acha? — Pergunta ele, ao flexionar os bíceps. —Sabe correr?
— Sim, sei. — Respondo, e me surpreendo ao notar que minha voz é firme. Endureço o olhar o máximo que posso para parecer durona. Não deve dar muito certo. No meu íntimo, finjo que sou capaz. Com meu tamanho devo parecer uma garotinha raivosa, sem falar que sou pelo menos dez anos mais jovem que ele. — Mas não sou eu quem vai correr. Eu vou acabar com você.
Levanto-me com uma postura ereta. A palestra ainda não deve ter terminado, mas dane-se. Ando rapidamente para o túnel, sem olhar para trás.
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