Rodrigo e o horror de Scuti
6 Companheiro bichano
Planeta Obdia-6
Centenas de prisionareiros ficaram na terrível torre do lamento. O local era em forma de cilindro, com até 1 quilômetro de altura e 100 metros de diâmetro. Todos os piores prisioneiros do império foram deixados ali para o resto de suas vidas, enfrentando castigos inimagináveis.
Harold do Carmo, nome humano de Haroldd, ficou sozinho numa cela escura e úmida. Ele permaneceu incólume mesmo com as dificuldades da prisão. Sentado e meditando, apesar de estar com fome e não ter comido o alimento na bandeja oferecido por Mordecai.
Os espectros reptilianos saudaram Mordecai quando ele surgiu no corredor com paredes de pedra.
— Como ele está?
— Não provou da comida que o senhor ofereceu. Ele é um sujeito tolo — falou o espectro jacaré bípede.
— Haroldd não é tolo. Ele é um sujeito muito esperto. Não pense que ele está apenas querendo passar fome por querer.
A porta de pedra abriu. Mordecai entrou no recinto. Havia cinco celas e cada qual com um prisioneiro.
— Olá, Haroldd — falou Mordecai ao chegar na última cela — Vejo que preferiu ficar com essa aparência humana. Gostou mesmo de ser um cidadão que paga imposto e pai de família. Mas agora não passa de um inseto preso a sete chaves por pura desobediência. Você era o melhor entre os mensageiros, mas preferiu se casar com aquela estúpida Maria.
Haroldd sorriu. O homem se levantou e caminhou para perto do vilão. À medida que caminhava, seu corpo se transformava e voltava à verdadeira forma. Haroldd tinha duas asas pretas como de morcegos, chifres na cabeça e uma pele vermelha com inúmeras tatuagens brancas em forma de traçados, seus olhos eram amarelos, orelhas pontudas, dentes afiados e unhas grandes. O que não mudava eram os cabelos ainda pretos penteados de lado.
— Não me interesso por essa sua conversa idiota, garoto. Esqueceu que foi o meu aprendiz?
— E muito obrigado por me ensinar tudo o que sei. Graças a sua fraqueza, tornei-me mensageiro de Scuti e líder do planeta Reva-77.
— Aposto que você é o pior líder possível. Ter um planeta só pra ti foi excessivo, não é? Sempre se comportou como se fosse alguém. Mordecai, você é mais comum do que imagina — Haroldd chutou a bandeja com a comida, sujando o chão. — Avisa aos seus lacaios que não preciso desse luxo. Quero ser tratado como qualquer prisioneiro comum. Vai lá. Volta com o rabinho abanando pro Scuti.
Tais palavras provocadoras de Haroldd deixaram Mordecai desconfortável, porém não podia expressar a sua indignação e deixar escapar um fialho de fraqueza diante dos subordinados.
— Melhor agir bonzinho. Você só está vivo por causa de mim. Acha mesmo que o imperador vai querer que fique vivo depois da traição?
Haroldd mostrou o dedo do meio para o jovem mensageiro e sentou na cama.
— Ele não quer o banquete que propiciei. Dê a lavagem normal.
— Certo, chefe.
Mordecai parou de caminhar e olhou o seu sapato preto lustrado. Havia sujeira de comida. O espectro apertou o punho enquanto Haroldd ria ao fundo.
...
Planeta Megav-011
O mais impressionante do aumento extremo de força do protagonista era a inteligência dele criar uma casa na árvore. Era uma verdadeira mansão! Foram preciso cinco árvores para servirem de apoio. Os corredores davam de uma árvore à outra como passarelas. E tudo feito de madeira.
— Eu até me acostumei a morar aqui — entregou um pouco de chá para Amarilys beber.
— Estou impressionada. Sua mãe tinha razão quando apostou em treinar você — ela se sentou num sofá artesanal feito de raízes.
— Como ela está?
— Não está bem. Perdi contato com ela há dois dias quando estava na Argentina.
— Argentina?
— Sua mãe já foi uma líder eficaz em toda América do Sul e uma das melhores do mundo. Abdicou para se casar com o seu pai e estudar medicina.
— Ah é...
— Mas ela não é de morrer facilmente. Não deve se preocupar com ela. Já o seu pai...
— O que tem ele?
— Seu pai deve estar no planeta pessoal do imperador. Sabe que ele já foi um subcomandante do império, mas que abdicou para viver com Sílvia? Para os espectros do império, tal ato é considerado imperdoável. Pense na pena ao ser descoberto por estar se relacionando com uma maria!
Rodrigo imaginou sobre o seu pai. Não tardaria muito até ele ser executado. Tinha que salvá-lo a qualquer custo. Também estava preocupado com o estado do seu amigo Heitor.
— Tenho que voltar pra Fortaleza.
— Esquece! Fortaleza foi totalmente destruída. Milhões estão mortos. Eu... eu... fugi — Amarilys engoliu a saliva, culpando-se por perder amigos — Desculpa... não sou forte o suficiente.
O agora homem parou na janela e observou as copas das árvores.
— Eles mexeram comigo, mexeram com o cara errado. Não posso simplesmente entrar numa lutinha random e tentar passar de fase como num jogo. O meu desejo agora é enfrentar pessoalmente esse tal Scuti.
— Idiota!! Nem com o poder de todas as Marias juntas seria suficiente para acabar com ele. Scuti é um espectro de nível supremo. Ele é um ser com poderes cósmicos.
— Mas tenho que acabar com esse império. Tudo bem... vamos "comer pelas beiradas". Se não posso ir contra Scuti agora, então os tais mensageiros serão os meus alvos.
— Você quer destruir os mensageiros?
— O que tenho que fazer?
Amarilys deixou o copo de barro com o chá sobre o toco de madeira no centro e se levantou. Cruzando os braços, a guardiã revelou que primeiro teria que invadir os 5 planetas liderados pelos 5 mensageiros. Por mais que eles estivessem governando a Terra, seria um golpe fatal em cada um deles quando souberem que seus planetas e suas bases foram destruídos.
— Antes de ir de encontro com eles na Terra, melhor invadir cada planeta. Daí depois que você conquistar o planeta de um tal mensageiro, chegará o momento de enfrentá-lo na Terra.
O jovem herói estava disposto a tudo para se vingar dos espectros e do império.
— Mas eu não posso sair da Terra por muito tempo.
— Por quê?
— Eu morreria. Minha vitalidade só existe por conta da Terra. Só posso ter acesso a certos locais da Terra de Baixo, como aqui. Mas conheço alguém que pode te levar até os planetas dos mensageiros.
— Espera... posso te pedir um favor?
— Você é igual a sua mãe. Só vivem me pedindo favores. O que é?
— Sobre o meu amigo. Pode investigar se ele está vivo?
— Posso.
— Então vamos...
— Espera. Preciso de uma roupa nova.
— O quê? Uma jaqueta, calça ou algo do tipo? Eu não lembro como era a farda da tua escola.
— Prefiro que você personalize uma túnica com estilo parecido com das Marias. Personalizado para mim.
Ela sorriu. A mulher fez surgir um bastão prateado e verbalizou uma magia. A roupa de Rodrigo mudou. A peça era uma túnica branca, calça branca com botas pretas, munhequeiras pretas nos dois punhos. A tunica tinha um capuz atrás.
— Adorei.
— Vamos. Mas tenho um local melhor do que a cidade.
Os dois saíram do planeta e voltaram para a Lua. Rodrigo viu o planeta Terra com um anel igual Saturno.
— O que fizeram com a Terra...?
— São satélites do estilo Black Knight. Feito pelo exército Scuti para impedir a comunicação para o espaço. Eles são bem sofisticados, para um monte de monstros. Vamos.
O esconderijo de Amarilys ficava no Norte do Brasil, especificamente em Roraima. A floresta amazônica ainda estava inexplorada pelos espectros.
Havia um bunker no Monte Roraima onde servia como quartel-general das marias. O limite entre Brasil, Guiana e Venezuela servia para as heroínas ficarem a salvo.
— Voltei — falou Amarilys ao sair do portal direto para o salão principal do bunker.
Rodrigo viu centenas de mulheres vestidas como Amarilys. Algumas acompanhavam outros humanos.
— Pena que Sílvia não está conosco.
— Aonde vamos?
— Conhecer alguém em específico.
Por onde a guardiã andava era recebida com alegria por outras. Crianças também surgiram e acompanharam Amarilys por onde quer que fosse. Prova de que ela era a mais popular dentre as guardiãs.
O interior do bunker mais parecia uma grande caverna com galhos e raízes nas paredes. O ambiente possuía longos corredores e elevadores que davam aos andares mais abaixo.
— Vamos descer mais um pouco — ela parou e sinalizou para o rapaz entrar primeiro no elevador — Temos que nos encontrar com as líderes.
Chegaram ao segundo andar do subsolo. As paredes eram brancas como se fosse um cimento branco.
— Quero que conheça algumas Marias. Essa é Verónica. Ela é venezuelana.
Verónica tinha um cabelo ruivo e ondulado, olhos vermelhos e pele bronzeada. Seu porte físico era menos musculoso do que da Amarilys.
— Muy gusto. Prazer em conhecê-lo. Já ouvi falar do filho de Sílvia. Até que é um jovem bonito. Mas nunca pensei que fosse adulto — A ruiva mandou um xaveco pra cima de Rodrigo, mas Amarilys pediu para ela não fazer tal coisa.
— Estamos numa guerra mundial. Guarde as suas gracinhas para um outro momento — ralhou, puxando o rapaz para longe.
Verónica se desculpou.
— Aquela ali dá em cima até de uma árvore se deixar. Bom, aquela com cara de nerd é Riana.
Riana era mais baixa (talvez 1,50 de altura). Tinha cabelos pretos curtos, óculos de grau e vivia usando uma camisa social por baixo de uma calça preta.
— Não tenho tempo para formalidades, Rylle! — Riana mexia no notebook.
— Ryllie é um apelido que botaram em mim.
— Ainda é complicado entrar no sistema dos satélites black knights. Mas vou tentar — falou Riana. Parecia até que existia uma aura de fogo ao seu redor.
A terceira guardiã era Villeneuve, uma maria francesa que se naturalizou brasileira. Villeneuve já tinha mais de 50 anos e fazia parte daquelas que lideravam na América do Sul. Tinha aparência de uma senhora magra, batom muito vermelho, óculos escuros e um cabelo curtinho com franja. Era fisicamente magra.
— Esse é o filho da Sílvia.
— Sim.
— Prazer, querido.
— Villeneuve, Rodrigo vai precisar de um portal interdimensional para um planeta da Terra de Baixo.
— Verei o que posso fazer. Mas sabe que ele precisa de um acompanhante.
— Sei sim. Já tenho alguém em mente.
As palavras de Amarilys deixaram Rodrigo confuso. A tal Villeneuve não era líder, mas se comportava como tal.
Um recinto cheio de quinquilharias estava ocupado por uma certa pessoa.
— Doutor Eins.
O homem mexia embaixo de um carro chevette antigo. O veículo não havia chegado inteiro naquele local. Cada peça fora montada.
— Nya. Amarilys!
Eins usava um jaleco branco e se vestia como cientista. Quando revelou o rosto, deixou Rodrigo perplexo. Eins era um gato humanoide masculino. Seus cabelos eram bagunçados e brancos. Usava óculos de grau. A cor da sua pelagem era amarela com listras brancas.
— Por favor, não me diga que quer a tal ajuda... nya?!
— Quero sim. Você me deve uma. Sabe a Sílvia?
— Sim, conheço.
— Eis o filho dela. Ele é filho de uma maria com um espectro. Sabe o que quer dizer?
— Não.
— Que você irá com ele até a Terra de Baixo e acabar com os planetas dos mensageiros.
— Prefiro voltar para baixo do Chevette. Nya.
Amarilys deu um soco na parede, deixando o bichano todo arrepiado. Não era um pedido, e sim um favor. O fato era que Eins tinha um bom conhecimento do universo inferior, haja vista era oriundo de lá. Também era um exímio piloto e mecânico.
— Não precisa dessa agressividade, Nya. Não sabe falar com calma?
Rodrigo se meteu entre os dois e estendeu a mão ao gato-espectro. Este demorou um pouco, mas aceitou o gesto.
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