Rodrigo e o horror de Scuti
3 Amarilys a protetora
Rodrigo abriu os olhos como quem acordava de algum pesadelo. Mas o pesadelo era a vida real, pois o jovem percebeu que estava sob escombros. Havia muita poeira e gritos. Sirenes ecoaram.
Na manhã daquele dia, Fortaleza era apenas a cidade do sol, da praia, da vida alencarina. Mas essa vida normal acabou quando o prédio da escola explodiu, caindo como um castelo de cartas, resultando em vários mortos e feridos, em sua maioria estudantes. O teto do ginásio de futsal desabou sobre as cabeças das pessoas ali.
Os olhos do garoto ficaram direcionados à criatura que parecia um monstro crocodiliano bípede e com asas. Nunca testemunhou uma criatura tão horrível quanto aquela. O tal monstro pegava alguns alunos e os jogava até o meio de outras criaturas que pareciam cães do inferno.
— Merda... — sussurrou baixo para não chamar a atenção dos monstros.
O seu intuito era encontrar Heitor e sumirem dali, mas a procura seria dificílima, haja vista Rodrigo estava com a perna dolorida.
Arrastou-se pelo chão empoeirado. Viu o seu professor de Educação Física morto com o cérebro exposto. Prosseguiu.
...
No mundo todo, portais surgiram a partir das nuvens em espiral, e deles saíram criaturas de outra dimensão. Monstros de todas as formas e tamanhos. E nenhuma arma humana conseguia matá-los.
A invasão ocorreu nas principais cidades dos Estados Unidos, Europa, Ásia, África, Oceania e também na América Latina. Só no Brasil foram portais em todas as capitais de estados.
As forças militares, civis, paramilitares, milícias e facções se uniram para tentar acabar com os invasores, porém não conseguiram. Os monstros não morriam por tiros ou facadas. E cada vez mais vítimas surgiam.
No hotel vermelho, aqueles que trabalhavam para o dono do prédio eram cúmplices, portanto imunes à invasão. Viram tudo ser destruído pelos monstros.
— Que horrível — falou uma camareira ao ver a cabeça de um homem ser arrancada.
— Temos sorte em servir ao Sr. Etrom. Estaríamos nesse momento sendo mortos pelos monstros — comentou o zelador.
O senhor Etrom surgiu mais jovem a todos os seus empregados, surpreendendo-os. O poder do elixir da juventude diminuía a idade do ser humano em 20 anos. Antes, Etrom tinha 79 anos, porém retornou aos seus 59.
— Ganhei mais 20 anos de vida. Isso quer dizer que se sacrifico mais gente, eu voltarei ao meu estado jovial.
— Mas senhor, não podemos agir agora com a invasão — retrucou o zelador.
— Eu sei. Mas quando o chefe Mordecai ou qualquer outro aparecer, já estaremos com os sacrifícios. Mão Negra!
Uma sombra surgiu e se concentrou no Hall do hotel. O homem de preto que havia sequestrado a professora Mirna surgiu. Era um espectro errático que não servia ao império Scuti. Ele veio do espaço e foi contratado por Etrom para trabalhos sujos.
— Estou à disposição.
— Você também é um espectro. Saia e ache presas para o Imperador Scuti.
— Sim, chefe Etrom.
Enquanto isso, Fortaleza começou a ser invadida por espectros iguais a dinossauros. Os monstros corriam atrás das pessoas e destruíram tudo. Na praia, os moradores dos prédios correram ao verem as criaturas mastigar as estruturas. Alguns edifícios caíram, pois espectros escavadores acabaram com os alicerces.
Voltando para a escola...
Rodrigo conseguiu fugir dos espectros que estavam no ginásio e correu em busca do seu amigo Heitor. Percebeu que o amigo era carregado por um homem vestido com uma capa e chapéu preto.
— Larga ele! — segurou um pedaço de concreto.
— Esse cheiro. Você é humano? Nunca senti esse cheiro antes.
— Do que está falando?
O homem jogou Heitor ainda vivo para o alto com extrema facilidade e abriu a boca. Mão Negra engoliu o garoto de uma vez, deixando Rodrigo perplexo.
— Agora é a sua vez.
Temendo o pior, Rodrigo jogou o concreto, mas o espectro se defendeu com a mão. Em seguida, Mão Negra segurou o braço de Rodrigo e o jogou para o alto. A bocarra abriu, revelando um tipo de buraco negro ali dentro. Rodrigo gritou de medo.
— Ora... ora... — alguém deu uma voadora em Mão Negra e segurou Rodrigo no braço.
A figura feminina era grande (talvez 1,90 de altura), musculosa e com olhos azuis que lembravam olhos de gato. Seus cabelos desciam até a cintura, eram loiros e com o formato wolf cut. Ela vestia uma túnica branca e botas pretas.
— Você é filho dela. Prazer em conhecê-lo.
— Quem é você? E por favor, coloque-me no chão.
— Ainda não, garotinho.
Um par de asas brancas surgiram nas costas da mulher.
— Tem medo de altura?
— Espera... O quê?!
Ela saiu voando, para o desespero de Rodrigo. Às vezes derrubava alguns espectros voadores com os seus chutes.
Ainda no chão, Mão Negra não entendeu quem poderia ser a mulher misteriosa.
— Idiota! Você quase arruína os meus planos — ralhou Etrom.
— Lamento.
— Você disse que era uma mulher forte como fisiculturista?
— Sim.
— Eu já ouvi falar de seres que protegem terras e humanos, mas nunca pensei que poderia ser verdade. Chamamos de Marias. As Marias são guerreiras que vivem na Terra há milênios. Dizem que o planeta nunca foi invadido por aliens por causa delas. Foi por isso que o Imperador Scuti resolveu matar as Marias antes dessa invasão acontecer. Mas não entendo o motivo que ela salvou um garoto comum da escola.
— Não creio que seja um garoto comum — Mão Negra mostrou a sua mão direita inchada. — Isso foi um golpe que recebi daquele menino. Nem se fossem 5 homens adultos, eu seria machucado desse jeito. Tem algo nele que o deixou muito forte.
— Certo. Mas não comente com ninguém sobre isso.
...
Ainda no céu, Rodrigo pediu para a mulher descer e colocá-lo num lugar seguro. A Maria assentiu é desceu até o topo de um prédio ainda em pé.
— Preciso ver os meus pais.
— Não tem como fazer isso agora. Seu pai foi capturado há pouco por espectros reptilianos e levado para a Terra de Baixo a fim de servir como escravo. Sua mãe não está na cidade.
— Peraí! Que história pra boi dormir é essa? Reptilianos? Tipo... homens lagartos? E o meu pai foi capturado?
A mulher guardou as asas por um instante e sentou no chão do terraço.
— Você está vivendo a invasão do Império Scuti. Eles já davam sinais disso quando criaturas monstruosas ou espectros invadiram o planeta. Viu as informações sobre as aparições na Internet?
— Vi...
— Está confuso, mas essa é a realidade de todos. Vivemos num universo chamado de Terra de Cima, onde os seres vivos são biologicamente constituídos e as leis da física são aplicáveis. Mas existem mais 2 universos. A Terra dos Deuses, lugar cheio de planetas onde deuses e anjos vivem; e a Terra de Baixo, onde seres demoníacos chamados Espectros vivem. Na Terra de Baixo, o universo é totalmente hostil, vidas são exterminadas, planetas destruídos e muitos Apocalipses. O Império Scuti é um reino maligno comandado por Scuti, um Supremo Espectro que decidiu invadir o nosso universo há 2000 anos.
— Então é isso...
— Scuti é um monarca cruel. Um alienígena de outra dimensão que resolveu ignorar as leis entre universos a fim de reinar parte da Terra de Cima. Ele conquistou 10% da Via Láctea e agora está mirando a Terra.
— Isso é terrível... Espere! Você disse que a minha mãe não está na cidade? Como assim?
— Sua mãe é uma Maria. Marias são guardiãs da Terra que foram designadas pelo conselho supremo da Terra dos Deuses. Cada planeta habitável da Terra de Cima possui os seus guardiões. Aqui na Terra somos chamadas de Marias ou Valquírias. Eu me chamo Amarilys. Sua mãe já foi líder das Marias da América do Sul, mas renunciou quando se casou.
— É por isso que você me salvou?
— Ela me pediu para te levar para longe. Sílvia temia por sua vida. Mas ela acredita que você carrega o sangue de uma Maria.
— Eita! Mas eu sou homem.
— Então... tem mais uma outra coisa. Quando uma Maria concebe um bebê humano feminino, a criança nasce com dom miscigenado. Os masculinos nascem como humanos comuns. No entanto, quando uma Maria tem relações com outra espécie de criatura, o bebê nasce com poderes independentemente do gênero.
Os olhos de Rodrigo arregalaram. A informação de Amarilys...
— Meu pai não é humano?
— Ele não é só um não-humano. Ele é um espectro.
— O quê?!
— Ele nasceu na Terra de Baixo e resolveu viver na Terra de Cima como um humano. Mas nem todos os espectros são maus. Alguns vivem em harmonia e são como civis. Mas o seu pai era um dos mensageiros de Scuti. Até hoje não entendo como a senhora Sílvia conseguiu se relacionar com um monstro.
— Oi? É o meu pai, esqueceu? Cara... eu não acredito. Eu não sou humano! Eles me enganaram direitinho.
O pai de Rodrigo estava algemado com outros prisioneiros dentro de algo que parecia uma cela. A tal cela ficava no topo do casco de uma tartaruga gigante de quase 15 metros.
— Saiam todos — falou o espectro com roupa de astronauta.
O homem viu o planeta do Império Scuti e lembrou do tempo em que trabalhava como mensageiro do monarca maligno. Era na época em que vivia a sua adolescência.
— Andando — um espectro empurrou.
Mas agora era visto como um desertor.
— Não posso ficar parado aqui enquanto o meu pai vira escravo. Tenho que ir atrás dele.
— Impossível.
— Por que?
— Você viu aquele homem quase te engolir. Aquilo é um espectro. E nem é forte. Mesmo assim, quase foi capturado — Amarilys pegou uma barra de metal e entortou com facilidade. — Pra ferir um espectro, a pessoa precisa ter 10 vezes a força de um ser humano. Eu tenho 20 vezes. Um mensageiro pode chegar a 50 vezes. Tente entortar essa barra.
O rapaz tentou fazer força a fim de entortar o metal, mas sequer moveu 1 milímetro.
— Não dá. Como pode eu ser filho de duas pessoas poderosas e nascer fraco?
Amarilys lembrou a Rodrigo que ele havia jogado um pedaço de concreto no espectro. Revelou que o golpe fora bem efetivo.
— Pode não parecer, mas você feriu o monstro.
— Eu?
— Agora o negócio verdadeiro. Sua mãe me pediu para te levar até um lugar específico. Vamos.
— Espera...
A guardiã abriu um portal que dava para o espaço. Rodrigo ficou apavorado. Amarilys segurou o rapaz no braço e entrou.
— Onde estou? — uma pedra flutuava e tudo estava escuro.
— Olhe para cima.
— AH!!!!
Os dois estavam na Lua.
— Meu fôlego. Vou morrer.
— Para de drama. Você é filho de uma maria com um espectro. Ambas as raças conseguem viver no espaço.
Rodrigo parou por um instante e viu Amarilys viva e parada. Ele não conseguia sentir o oxigênio entrar em seus pulmões.
— Não estou respirando! Como é possível?
— Raças oriundas da Terra de Baixo e da Terra dos Deuses não precisam respirar para sobreviverem. O fato é que a sua mãe me pediu que te trouxesse até aqui.
— Na Lua?
— Usamos a Lua como um bom lugar de treinamento. Olhe lá.
O planeta estava com uma nuvem gigantesca a seu redor.
— Aquilo é o portal do Imperio Scuti. Todo o planeta está em perigo.
— E a minha mãe?
— Sílvia esta lutando ao lado das outras marias. Ela adora meter a porrada em espectros vagabundos, tirando o seu pai. Ai ai... Enfim, ela acredita que você e o único que pode ter força para acabar com o imperador.
— Eu? Como assim?
— Nunca na historia existiu um híbrido de maria com espectro. Você é o primeiro. Sinta-se honrado. Agora chega de perguntas. Vamos até um certo lugar.
Rodrigo tropeçava e caía no solo lunar. Toda aquela falta de gravidade era muito difícil.
— Chegamos.
Ela mostrou um rochedo de uns 100 metros e nele uma porta de ferro de 20 metros.
— Eu tenho que entrar aí?
— Esse e um portal que da para a Terra de Baixo. Mas calma! O lugar para onde vai é longe de onde fica o Império Scuti. Vai para um planeta selvagem com vários espectros em forma de animais primitivos. Seu treino é conquistar um planeta inteiro.
— Fala sério! Eu não sei lutar, sequer tenho uma arma.
— Essa é a graça — chegou até a porta metálica e encostou a palma da mão direita. Um símbolo M grande surgiu e iluminou o objeto, que desceu automaticamente, revelando o portal.
— Isso é loucura. Parece um buraco negro.
— Não precisa temer. Você já sobreviveu até a falta de oxigênio. Agora vai.
— Espera. Deixa eu criar coragem.
Amarilys segurou Rodrigo pelo braço e o jogou no portal. O garoto gritou e teve a sensação de ser puxado por uma força significativamente forte.
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