Rodrigo e o horror de Scuti
8 A pirâmide de Docko
Oceano Pacífico — Japão
Uma frota com dezenas de navios de guerra se aproximou de um pequeno arquipélago, a poucos quilômetros do Japão, para bombardea-lo. O motivo de tal atitude extrema era a aproximação dos espectros para o arquipélago nipônico, único país grande a não ser invadido. A ameaça despertou o sentimento de pressa dos militares e do governo.
Do lado inimigo, o exército do mensageiro Tatsunootoshigo. Monstros dessa facção já havia destruído 80% da Austrália e, como um tsunami avassalador, subia no mapa para invadir o Japão.
Tatsunootoshigo segurou a espada embainhada e proclamou a invasão ao país dos samurais. Ele mesmo se vestia como um: armadura vermelha, espada longa e máscara preta cobrindo-lhe o nariz e a boca. Seus olhos vermelhos eram intimidadores. O cavalo com cauda de peixe se chamava Kelpie e era uma extensão do seu corpo (Tatsunootoshigo não possuía pernas normais, e sim Kelpie). Kelpie parecia estar com os olhos arregalados e língua para fora.
— Mortuário — falou ao espantalho com grandes unhas — Não mova um milímetro. Eu mesmo acabo com todos esses insetos.
— Não o farei, senhor.
Kelpie cavalgou para a água. Incrivelmente, Tatsunootoshigo não afundava no oceano, pelo contrário. Era excelente em correr sobre a superfície da água.
Ainda no navio, os militares viram algo se aproximar mais rápido que uma bala. Eles atiraram com os canhões e mísseis.
Tatsunootoshigo desviava de todos os tiros oriundos dos navios. Sua rapidez era extrema. O mais veloz dos 5 mensageiros. Ele retirou a espada da bainha e se aproximou do casco do navio principal. Com um movimento de corte, ele fez um rasgo de ponta a ponta.
— Fomos atingidos!
— Água está entrando nos conveses inferiores!!
A preocupação dos marinheiros era válida. O inimigo havia rasgado o casco de um navio de guerra como se fosse manteiga.
O próximo alvo de Tatsunootoshigo era o segundo navio principal. Desviou dos bombardeios. Kelpie deu um pulo de dezenas de metros, passando por cima da embarcação como se fosse um simples obstáculo de hipismo. Tatsunootoshigo aproveitou e utilizou um golpe cortante de cima para baixo. O golpe partiu o navio ao meio, do convés à quilha, nada sobrou.
Marinheiros pulavam na água antes das embarcações afundarem.
Dois dos maiores navios afundaram, restando dezenas de outros menores. Não era trabalho para o mensageiro. Aquilo era diversão.
No final de tudo, nenhum barco sobrou para contar história. E todos os humanos que pularam na água morreram para os espectros.
No final daquele dia, o Japão todo seria destruído. O imperador e a sua família tiveram as suas cabeças decepadas pela espada do novo governante. Tal objeto feito a partir do núcleo metálico de um planeta que explodira no universo da Terra de Baixo.
Diferente da Austrália e Nova Zelândia, Tatsunootoshigo gostou do Japão. Decidiu fincar a sua bandeira de subcomandante do imperio ali.
...
O Chevette continuou o seu caminho para Fuji-10. E mesmo com a velocidade imensa, ainda faltavam horas para entrar em órbita.
— Que chatice. Quanto tempo falta?
— Umas 6 horas.
— Só passou 1 hora? Esse ócio me lasca. Pelo menos em Megav tinha alguma coisa pra fazer.
— Não reclama, nya. Tudo vai bem. Melhor dormir. Estou aqui com os olhos vidrados no planeta.
Rodrigo observou algo no painel. Avisou para Eins, que logo mudou de semblante.
— Não me fale que viu um cão espacial? — brincou.
— É sério! Tem uma nave nos seguindo.
O garoto olho para os lados e atrás. Avisou que não tinha nada ali a não ser a vastidão.
— Estão vindo por cima...! Oh!
— Não diga "Oh", caramba!
— A velocidade deles é o dobro da nossa, nya.
A estação espacial surgiu por cima do carro.
Eins pediu para Rodrigo se abaixar.
Um braço mecânico saiu da base da pirâmide e foi até o veículo, agarrando o carro.
— Que faremos?
— Nya... peraí. Deixa eu pensar um pouco. Já sei. Melhor continuar abaixado. Vou acionar o modo "Caixa Preta".
O Chevette começou a mudar de forma até virar um cubo preto com rodas.
Nesse ínterim, o capitão foi informado sobre a captura da nave estranha.
— Coloquem no recinto de captura espacial.
— Sim, senhor.
Duas portas automáticas abriram na base da pirâmide. O braço mecânico colocou o veículo dentro do salão. Alienígenas foram até o objeto para analisar.
— O que faremos? — Rodrigo sussurrou.
— Silêncio...nya. Precisamos escapar daqui — Eins olhou no pulso um relógio digital que servia como radar.
Ambos escutaram vozes do lado de fora.
— Eu poderia acabar com todos eles.
— Quer chamar atenção do império logo de cara, nya? Tem um jeito de escaparmos. Precisamos ir atrás de alguma cabine de controle e acionar as portas novamente.
— Não creio que vamos sair daqui.
Mas o questionamento de Rodrigo foi logo respondido quando o assoalho do carro abriu. Os dois viram os pés dos aliens.
— Precisamos abrir essa camada preta. Parece ser agum tipo de metal resistente.
— Então temos que chamar o serviço técnico.
A conversa era tão boa que nem perceberam os dois intrusos passarem atrás.
— Eles são mais burros do que pensávamos — comentou Eins, correndo pelos corredores da estação.
— Não esquece de que precisamos ser rápidos até chegarmos à sala de controle. Espera.
— Que foi, nya?
Rodrigo encontrou uma porta e entrou. Havia um quarto com várias estantes e produtos químicos.
— Por que estamos aqui, nya?
— Precisamos aquitetar um plano. A gente não pode ir de peito aberto.
Eins concordou com Rodrigo. Olhou o seu relógio. Logo, o dispositivo mapearia toda a estação.
O capitão Docko era um alienigena octópode com uma cabeça proeminente, pele rosa, olhos grandes e pretos, boca com lábios grandes como se fossem coloridos com batom roxo. O alienigena se vestia com roupa folgada prateada com lantejoulas vermelhas. Tinha dois membros superiores normais, com braços e mãos; seis membros inferios que se assemelhavam a tentáculos de polvo.
— Ohhh! Parece que temos algo interessante aqui. Uma caixa preta. Incógnita! — Docko observava pelo monitor da sala de comando.
— Senhor, parece que a caixa não é o verdadeiro conteúdo. Me informaram que os técnicos encontraram carbono na composição da superfície. Deve ser um metal de carbono.
— Isso ficou evidente quando o satélite captou o movimento do objeto. Estava muito rápido para ser um asteroide. Quem sabe uma nave? Mas precisamos descobrir o que tem dentro da caixa. Abram ela o mais rápido possível. Vou me divertir um pouquinho.
Docko voltou ao seu recinto a fim de se divertir com as aliens fêmeas.
Rodrigo abriu um pouco a porta. Sequer uma presença viva naquele instante.
— Quanto tempo vai durar esse download?
— O tempo que for necessário. Meu relógio foi feito a partir duma tecnologia avançada, nya. Mas até ele tem limites. Só que tem um problema.
— Qual?
— Talvez os inimigos saquem que eu esteja mapeando a estação. Eles podem ter um software avançado para localizar o meu relógio.
Tal declaração deixou Rodrigo desanimado.
— É por isso que já instalei de antemão um software que impede a localização do relógio por 1 hora. Esse é o nosso tempo aqui.
— Certo. Estou preparado para o que vier.
O relógio de Eins concluiu o download e mapeou toda a estação. Souberam a localização exata da cabine de controle.
Na cabine, o espectro descobriu a atividade suspeita de algum software malicioso dentro das dependências da estação. Com uma boa maestria, o grey ativou um modo de busca.
— Que foi? — indagou um outro grey a seu lado.
— Estranho. Não consigo rastrear a origem do vírus. Tem algo me impedindo.
— Tente de novo! Quer morrer sufocado pelo tentáculo do chefe?
Já no quarto, Rodrigo estalou os dedos e o pescoço. Chegou o momento da ação. Abriu a porta e caminhou vagarosamente. Sentiu a presença do inimigo e se esquivou do olhar deste, surgindo por trás e aplicando um golpe na nuca.
— O que é isso?
— Ponha esse traje — Rodrigo entregou a roupa de astronauta para Eins usar — Peguei de um guarda. Coloque o capacete.
Deu trabalho para encaixar as orelhas do bichano para dentro do capacete.
— Você fica disfarçado e vai direto para a sala de controle. Eu chamarei atenção.
— Ficará bem, nya?
— Confia em mim.
O rapaz saiu correndo. O alarme da estação soou.
Docko havia sido informado de que um intruso estava dentro das instalações da estação. O polvo bípede entrou na sala de controle e perguntou sobre o invasor. Mas as câmeras não conseguiam captar uma imagem limpa, pois o invasor corria muito rápido.
— Deve ter vindo de dentro daquele cubo. Mas ninguém vai passar a perna em mim. Sou o poderoso capitão Docko. Chame todos os espectros de combate.
— Sim, senhor.
Docko era um dos subordinados de Tatsunootoshigo. Não poderia deixar que tal invasão fosse um desgosto ao mensageiro. Não! Nem em sonhos o seu chefe poderia saber.
Os corredores da estação piramidal ficaram vazias na área onde Eins estava, pois a maioria dos guardas foram para outra parte. O gato aproveitou a oportunidade para sair silenciosamente.
— Achou o intruso?
— Não, capitão. Ele é muito rápido.
— Tente voltar aquela imagem dele correndo — O grey avisou que era apenas um borrão, mas Docko exigiu com voz firme.
A imagem aparecia como um vulto preto e borrado. Docko apertou bem os olhos para tentar ver algo a mais que a câmera não captou, haja vista tinha uma potente visão.
— Parece ter forma de um humano. Como pode? Um humano por aqui?
Para Docko, humanos não teriam tecnologia suficiente para transitarem entre os universos. Somente com a ajuda de outras criaturas seriam capazes.
— Mande que atirem para matar. Não tenho um bom pressentimento quanto a isso.
Os espectros soldados usavam armas de plasma como arsenal de ataque. Tais armas eram robustas, de cor branca e luzes de cor verde ao lado.
— Atirem!
Os plasmas podiam matar um ser humano instantaneamente com apenas um disparo. Mas eram ineficazes contra alguém tão rápido quanto Rodrigo.
— Droga!
— Cadê ele?
O Rodrigo se movia de maneira rápida e acertava os guardas numa fração de segundos, suficiente para finalizar mais de dez espectros armados. O homem segurou a arma e atirou contra o teto, ativando o alarme de incêndio.
— O pavilhão 5 está pegando fogo, senhor!
— Droga — Docko começou a se arrepender de ter pego a caixa preta.
Um grey entrou na sala de controle e avisou que mais de dez guardas foram abatidos.
— Envie todos os guardas disponíveis.
— Mas senhor... ficaremos sem seguranças...
— Basta! — Docko usou o tentáculo para segurar o grey pelo pescoço. Usou uma descarga elétrica, matando-o.
Os demais greys que trabalhavam na sala ficaram com medo. Quando Docko se enfurecia, descontava neles.
— Isso não é bom. Não posso permitir que um simples intruso acabe com a minha reputação — ele tinha medo de uma punição.
A decisão do espectro polvo era tentar enfrentar o intruso pessoalmente. Avisou aos greys que se sairia para parar a pessoa.
A estação espacial piramidal possuía uma altura de mais ou menos 300 metros e tinha 7 andares chamados de pavilhões. A base era onde ficava guardada as naves espaciais e onde o Chevette estava. O sexto pavilhão era onde os mecânicos e engenheiros trabalhavam (aqui estavam Rodrigo e Eins escondidos). O quinto pavilhão funcionava laboratórios e era onde Rodrigo estava antes de iniciar o incêndio. O quarto pavilhão era a base dos guardas pessoais de Docko. O terceiro e o segundo pavilhões eram salas de controles menores onde os greys trabalhavam. O topo da pirâmide tinha duas seções importantes: a sala de controle principal e o quarto pessoal de Docko.
Mais de um elevador dava para o topo. Por sorte, as câmeras de segurança haviam sido destruídas por Rodrigo, portanto a passagem de Eins era segura. Um elevador tinha forma cilíndrica e de vidro. O bichano entrou e subiu rapidamente.
— Quem é você? Não devia estar aqui. Desça agora — disse um grey ao ver Eins disfarçado.
O gato ficou nervoso, mas inventou uma desculpa para passar.
— O chefe quer que pelo menos um guarda faça a segurança da sala de comando.
— É mesmo? Então pode passar.
Aparentemente foi fácil. Agora era localizar a sala de controle e abrir as portas.
Rodrigo acabou se perdendo na estação, dando de cara em corredores que davam para paredes ou recintos que não serviam ao propósito. Pensou numa possibilidade de abrir caminho de maneira mais brusca.
— Aqui vou eu.
Deu um pulo alto, destruindo o teto em sua cabeça. De teto em teto chegou até o topo da pirâmide. Mas, diferente dos demais recintos, o local em que chegou não lembrava uma nave. O quarto parecia ser uma casa japonesa com portas de madeira e paredes de papel branco. Muitas velas. Havia um pequeno jardim do lado de fora, com um pequeno lago artificial onde uma ponte de madeira ligava a casa com a porta que dava para o resto da nave.
— Que lugar é esse? — Rodrigo viu duas mulheres alienigenas assustadas — Não farei nada. Quero saber onde fica a sala de controle.
Ambas apontaram para um caminho. Rodrigo agradeceu a ajuda. Ele entrou na sala de comando, mas se deparou com Docko ameaçando Eins com uma faca.
— Por fim se mostrou... hehehehehe!
— Eins!
— Não quero morrer, nya.
— Achei que diria "não se importe comigo".
— SÓ SE EU FOSSE LOUCO, NYA!!!
— Calem-se! Eu estou muito surpreso que intrusos fizeram toda essa bagunça na minha nave.
Rodrigo rechaçou a fala do polvo, lembrando a ele que a nave pirâmide que os capturou.
— Só estávamos indo ao planeta... — Rodrigo contou com o mínimo de preocupação.
— Ah! Seu cretino. O que você quer indo para o planeta Fuji-10?
— Derrotar o mensageiro que governa-o. Sou o pior inimigo do império Scuti.
Docko se surpreendeu com a fala de Rodrigo, mas logo zombou. Tratou o rapaz com desdém e falou que mataria Eins como punição.
— Dê adeus a seu amigo!
— A quem? — Docko viu que o seu refém não estava mais com ele. A verdade era que Eins conseguia se desvencilhar facilmente, modificando o corpo para deixá-lo molenga.
Rodrigo aproveitou que Eins havia se libertado para dar um soco em Docko. Este caiu sobre os monitores e destruiu alguns. Docko utilizou o seu tentáculo para pegar Rodrigo pelo braço e dar um choque.
— Hehehehehe! Vai morrer tostado...
A descarga era muito forte e mataria até mesmo uma Maria mais fraca. Mas Rodrigo era muito mais forte do que qualquer Maria. Ele aguentou o choque. Mordeu o tentáculo de Docko, pegou-o e girou várias vezes. O polvo saiu destruindo as paredes até cair no lago artificial.
— Ativa logo as portas.
— É pra já — Eins sentou e começou a mexer num computador.
As portas da base abriram. Os engenheiros viram que poderiam ser sugados para o espaço e correram para dentro, saindo do salão das naves.
— Já tá liberado.
— Bom... melhor irmos...
Rodrigo e Eins viram as duas alienígenas.
Rodrigo carregava Eins e as duas alienígenas no braço e correu com tudo para a base. Chegaram ao Chevette, que saiu do modo de defesa. Entraram e partiram para o espaço, deixando a estação piramidal para trás.
— Essa foi por pouco. Mas... assim... por que eu tenho que servir de piloto enquanto você se diverte?
Rodrigo fazia compainha com as alienígenas no banco traseiro do carro.
Fale com o autor