Rising Tide

36 Tormento.


Notas iniciais
OLÁAAAAAAAA, olha só quem apareceu, rsrsrs *devidamente trajada com um colete a prova de balas, só por precaução* Esse capítulo tá DRAMA PURO, um humorzinho bobo aqui e outro ali, prq afinal ainda temos a ilustríssima presença de Meri, então não pode faltar humor qnd se tem essa deusa, mas em suma, ESSE CAPÍTULO TÁ PURO D R A M A eu diria pra prepararem os lencinhos, mas okay, Nathalia, não exagera, não é pra tanto, o pior tá pra vim depois rsrsrsrsrs APENAS AVISANDO Capítulo constituídos apenas por POVs dos nossos nenéns, Kristoff e Anna. GUENTA CORASSAUM!! Eu não vou ficar aqui fazendo a cuzona fingindo que não sumi por 4 FUCKING MESES, me retratarei com vocês nas notas finais pois sei que estão loucas pra ler, até eu tô qqqqq ENTÃO BOA LEITURA ♥

Chapter Thirty Six.

Torment

POV Kristoff.

— Por favor... É melhor não entrar. – Merida quase sussurrava, sua voz definhando com o medo evidente de mim.

Soltei seus braços, me afastei e ela pareceu respirar novamente. Não tive tempo de me sentir péssimo com a ideia de tê-la assustado tanto, pois no segundo seguinte eu já a circundava, indo em direção a porta do estabelecimento que ela se esforçara tanto para me manter longe. Ainda pude ouvi-la exclamar meu nome, rente ao meu encalço, seus dedos agarrando o ar as minhas costas.

Tarde demais, eu entrei com tudo.

Levei poucos segundos pra perscrutar todo o local e de maneira dramática reconheci os rostos de quem ocupava a última mesa da cafeteria.

Não soube dizer qual era minha feição.

Ou quanto tempo fiquei os observando de longe.

Sem nem perceber, minhas pernas haviam feito um caminho automático até a mesa. Só notei estar parado a frente deles quando me fitaram de repente.

Os olhos dela arregalaram-se gradativamente ao me olhar, eu teria rido se não estivesse tão surpreso.

Já ele arqueou uma sobrancelha para feição espantada dela, antes de tornar a me fitar.

— Fala aí, Kristoff. – uma das sobrancelhas negras relaxaram em sua feição, indicando o ar tranquilo que ele comumente exibia por aí. – Quanto tempo, cara.

— Phillip. – cumprimentei e tornei a fitar sua acompanhante. – E... Elsa.

Percebi muitas coisas nos últimos segundos.

A primeira era que minha feição era aquela cômica e muito confusa que só demonstro quando estou com Merida.

A segunda era que Elsa, em um estado incomum de choque, encarava alguém as minhas costas que só depois fui perceber que se tratava da doida que havia me seguido, esta que também exibia uma expressão aflita.

A terceira era que, tanto Phillip quanto eu, parecíamos não enxergar o horror da situação estampado nos rostos das mulheres que partilhavam daquele momento.

— Eu posso explicar. – dissera a loira de maneira urgente, levantando-se de sua cadeira.

Arqueei uma sobrancelha. – Explicar o que?

— Kris, você pode ter entendido tudo errado... – dizia Merida, puxando-me a atenção as minhas costas.

— Entendido o que?

— Não é o que você tá pensando... – tornou a falar Elsa.

— Mas que porra..?

Eu estava muito confuso. Uma risadinha irrompeu o espaço e todos nós fitamos Phillip, que apesar de não nos olhar, sentiu estar sendo encarado. Cessou o riso mas manteve o sorrisinho de canto, dando de ombros. Sua placidez entrava num contraste gritante com o pequeno caos do momento.

— Elas acham que você vai contar para o Jackson.

Logo a luz da compreensão se fez presente em minha mente. Agora sim, tudo faz sentido. A aflição de Merida, o temor de Elsa, o esforço em me manter longe dali para que eu não os visse...

Contudo, a calma evidente no rosto de Phillip deixava claro que provavelmente eu era o único que sabia de suas reais pretensões para com alguém que, se me lembro bem, com certeza não era a Elsa.

Sei que Phillip e Elsa já foram namorados e as coisas não terminaram tão bem – motivo da minha surpresa ao vê-los juntos aqui tão amigavelmente.

Sei também que Phillip tem sua atenção voltada totalmente a outra pessoa.

E Elsa gosta tanto do babaca do meu melhor amigo que sua preocupação com a simples ideia de eu reportar a ele uma situação que possa causar um mal-entendido, mesmo que não estejam juntos, é admirável.

Por que eu contaria ao Jack algo com que não há motivos para se preocupar?

Aliás, por que eu me intrometeria na vida alheia?

Aliás...

— Que tipo de pessoa vocês acham que eu sou?

O jogo virou nitidamente.

Elsa e Merida me encaravam tão confusas que chegava a ser cômico. Phillip não estava surpreso.

— Eu sempre soube que você imaginava muitas coisas a meu respeito, mas achar que eu sou X9 nunca passou pela minha cabeça.

Não sei porquê, mas ela caiu na risada. Ô, caralho, eu tô falando seríssimo...

— Me desculpe, Kris. Mas é que você é um homem imprevisível.

Tomei aquilo como um elogio. Mas não agradeci.

Havíamos desistido de dar continuidade ao nossos planos mal-feitores no antigo ambiente de trabalho de Anna – seria esquisito fazer papel de meliante na frente de Elsa e Phillip.

Então voltamos a famigerada praça onde nos encontramos a princípio. Cheguei a questionar Meri se ela realmente não queria procurar outra cafeteria para saciar sua vontade insana por doces, mas ela negou – havia perdido o apetite com toda a recente situação inesperada.

Dei de ombros, afinal, não era como se eu tivesse o mesmo espírito intrépido que ela, disposta a entrar em restaurantes e sair sem pagar, tudo em prol de vingança pela amiga e o desejo por um brownie de Nutella.

— Vai fazer o que agora? – indagava em meu encalço, chegávamos cada vez mais perto do banco de praça que por sorte permanecera desocupado desde que saímos.

— O que eu estava fazendo até você chegar. – coloquei os fones novamente. – Vou sentar aqui e me ocupar fazendo nada.

— Posso te acompanhar nesta enfadonha aventura?

— Mas é claro.

Contudo a natureza inofensivamente invasiva de Merida entendeu aquilo como “por favor, se junte a mim e deite-se nesse vasto banquinho de praça, aproveite e apoie a cabeça em minhas pernas, não tem problema nenhum, eu adoro contato físico”, pois foi exatamente o que ela fez.

E a parte mais anormal disso é que o fato de eu não me surpreender mais com suas atitudes levam-me a não me incomodar de forma alguma, coisa que aconteceria com qualquer outro ser humano em qualquer situação.

Devidamente, acho eu, confortável e agindo como se tivesse dentro de casa, ela esticou a mão para puxar um dos meus fones, dividindo comigo o som instigante que era Prey, da minha banda favorita.

Apenas suspirei, decidido a aceitar o fato de que agora eu tinha uma amiga. E amigos devem compreender e se adaptar a personalidade do outro, mesmo que este outro seja o seu completo oposto a ponto de te irritar na maioria das vezes.

Caralho. Socializar é uma tarefa árdua.

Estralei os dedos das mãos, satisfeito com o som abafado sob as luvas e me acomodei mais confortável sob os cachos de Merida. Ela não se incomodou, na verdade, deve tá adorando. É a primeira vez que me fazem de travesseiro, é normal se sentir humilhado? (?????) Dei de ombros, pouco me fodendo.

— Merida, me permite uma pergunta?

— Claro.

— Cadê teu namorado?

— Você quer dizer, o seu amigo?

— E seu namorado.

— Falando assim, até parece que vocês não se conhecem desde o ensino fundamental. – deu uma risadinha sincera.

— Gosto de enfatizar a todo momento que vocês estão juntos, porque eu nunca vi sentimentos tão óbvios e um relacionamento tão difícil de acontecer. – pesquei no bolso interno da minha jaqueta mais uma goma de mascar sem açúcar sabor menta e nicotina que eu odeio de todo o coração. – Nunca vi tanta enrolação. – concluí.

Aquilo fez ela rir ainda mais. – Olha quem fala!

Franzi o cenho e fitei seus olhos que me encaravam abaixo. – Qual foi?

— Mais enrolação do que existe entre você e Anna não há.

— Você tá maluca.

— “Sentimentos tão óbvios” puta merda, isso é tão vocês dois!

— Tá drogada, tá louca.

Ela ria com toda a sinceridade do mundo, mas eu continuava achando que ela era maluca. Na verdade, eu tinha certeza.

— Precisa aceitar o que sente pela Anna, Kris.

— Não sinto nada por ela. – falei tão sério que por um momento até eu acreditei.

Merida exibia um sorriso perspicaz e eu comecei a me sentir tenso com aquela conversa.

— Será mais fácil pra vocês dois aceitar de uma vez do que fugir do desconhecido. Se entrega a isso! Você precisa ouvir mais seu coração.

— Mas eu ouço. – pigarreei, desviando o olhar. – E discordo de tudo.

Meri revirou os olhos. – Assim não dá pra te ajudar. – eu reprimi um sorriso, ainda que alguns pensamentos inoportunos me incomodassem. – Mas respondendo à sua pergunta, Hic está na boate, trabalhando. – finalmente deixou de me encarar para voltar a fitar o céu. – Você deveria saber, mora com ele, afinal.

Dei de ombros. – Não somos como você e suas amigas.

Verdade seja dita, desde que conheci essas meninas, percebi que elas se cuidam entre si feito um conjunto peculiar de mães e filhas – preocupadas umas com as outras a todo momento, sempre atentas aos cuidados, zelando a qualquer hora, dispostas a parar o mundo pela outra. Apesar de ser algo inusitado na minha vida, é bem admirável de ver até.

Lá em casa, é visivelmente diferente. Somos como um conjunto de irmãos, sendo Hiccup o que mais se assemelha a um irmão mais velho. Cuidamos das nossas próprias vidas, sem nos meter na vida do outro, sem interferir nas decisões e atitudes do outro, aconselhando e alertando apenas quando solicitado ou quando o assunto é evidentemente sério. E como numa fraternidade, estamos sempre dispostos a ajudar e proteger o irmão, não importa qual seja a situação.

O silêncio se instalou entre eu e Merida novamente, mas não era nada incômodo. Durante todo esse tempo, eu tive a leve impressão de que as coisas pareciam estar todas no seu devido lugar – um grave equívoco da minha parte.

Confiar em Merida era fácil, mas algo dentro de mim mantinha-se irredutível.

Desde bem novo, num momento específico do meu passado, constituí umas regras básicas para “me dar bem na vida”:

Não confiar em ninguém;

Não esperar nada de ninguém;

Ninguém presta.

E foi com o passar dos anos seguindo essas regras à risca que eu percebi que não tinha expectativa em mais nada. Julgava isso como um triunfo, afinal, torna-se difícil se decepcionar quando não se espera nada da vida.

Decepções são surpresas ruins. Eu odeio surpresas.

Imaginar a iminência de algo que eu não espero e que não estou apropriadamente preparado para lidar me apavora pra um senhor caralho. Sou um fraco diante do desconhecido.

Então, se para Merida é tão fácil me aconselhar a me entregar a isso, tenho certeza que ela não entenderia esse sentimento de merda que me faz sentir incapaz.

A vida tornara-se minimamente fácil nessa época, quando eu não sentia nada e não passava o dia pensando nesse monte de merda – embora a sensação fosse de que eu já estava morto, gostava de ser um fantasma com o coração batendo.

Até chegar a porra da Anna e me ressuscitar aos poucos.

Pensar nela deixou em evidência mais uma vez a saudade que eu sentia. Por um momento, creia, jurei estar vendo seus cabelos acobreados e soltos – como na noite da boate, droga, aquela noite nocivamente maravilhosa – ao longe, sobre uma das mesas da praça.

Me recusava a acreditar que sentia tanto a sua falta a ponto de vê-la em outras mulheres. Ah, porra, isso é o cúmulo. Mas a moça era muito, assombrosamente, parecida com ela. Espera aí... Crispei os olhos instintivamente e uma sensação esquisita percorrera minha pele.

Me levantei num súbito, ouvindo os protestos de Merida – que resmungava por eu ter sido filho da puta a ponto de largar a cabeça dela no banco como se fosse merda. Coitada, caralho, eu sou um bosta. Foda-se, aquela ali é a Anna mesmo?!

Conforme eu caminhava na direção dela e a pouca distância me permitia uma visão melhor, uma agonia irreprimível e feroz me tomava por completo.

Ela não estava sozinha.

Não.

Não, porra, um grave equívoco da minha parte. Não tem nada no seu devido lugar!

Tá tudo errado. Tá tudo uma desordem. Tá tudo a porra de um caos e por que ela está segurando a mão dele?!

Não era ela. Não poderia ser, portanto, está tudo bem, eu vou me aproximar e constatar que tudo não passava de uma ilusão de ótica. Não preciso pensar mais no assunto. Não preciso me preocupar. Na verdade, eu não preciso continuar andando na direção deles, eu não preciso ter essa certeza, porra. Do que eu preciso desesperadamente é me virar, retornar a Merida para me desculpar e esquecer isso.

Mas continuo andando...

Preciso parar. Caso contrário, vou desmoronar.

Desmoronar.

Puta que pariu.

Eu já estou desmoronando.

POV Anna.

Ele está de pé a minha frente, parado em sua camiseta cinza escura, calças jeans desbotadas e jaqueta simbólica, de costas para o frio da noite, apertando as mãos em punho, quase posso ouvir o couro das luvas se engomando. Seu rosto exibe uma curiosa aparência avermelhada, quase parecia que havia chorado, mas a fúria em seus olhos queimava essa possibilidade.

Havia mais no olhar de Kristoff do que eu sequer era capaz de decifrar.

Uma decepção desesperadora lançada a mim. Algo que me feriu. Mas uma encarada que mesclava profunda fúria a uma amarga frustração direcionada ao homem confuso e tranquilo que sentava-se ao meu lado.

A sobrancelha ruiva do meu acompanhante arqueou-se e, a julgar pelo cenho que se aprofundou ainda mais em meio a raiva evidente que o consumia, aquilo soou para Kristoff como um ultraje imenso.

Eu não fazia ideia de qual era minha feição, mas ergui-me de maneira instintiva.

Antes que eu pudesse me pronunciar, Hans indagou mais calmo do que a situação permitia.

— Perdão, está precisando de algo? – sua voz era uma absoluta placidez. Com os dedos delicados ele segurou meu pulso, ainda encarando Kristoff, esperando por sua resposta. – Sente-se, Anna. – murmurou para mim, com um carinho que quase me fez suspirar. – Está se preocupando à toa.

Aquilo pareceu intensificar o sentimento violento que atormentava o rapaz de pé – noto os músculos retesados do queixo, o olhar de fúria e sinto tensão irradiar de seu corpo como se estivesse incandescente –, o filho da puta problemático que tomava conta dos meus pensamentos e me mantinha longe de propósito como quem tem ciência da falta que faz.

Várias semanas já haviam se passado e Kristoff agora parecia querer se vingar da última vez que o mantive longe. Eu senti na pele o que presumi ele ter sentido.

A única coisa é que ele sabe ser muito mais cruel.

De maneira maldosa, ele se afasta sem motivo aparente. Simplesmente... Passa a ficar longe e avoado, me evita e faz de mim mais uma das pessoas que o considera monossilábico quando tentam puxar assunto. Faz de mim, mais uma em sua vida. Faz de mim, uma qualquer. Algo que por um momento eu desejei, e acreditei, não ser. Não pra ele.

Um equívoco estúpido.

Meu olhar preocupado some, dando lugar a um absoluto nada. Com os olhos fixos no rosto dele, eu torno a sentar-me ao lado de Hans.

— Perdão... – minha voz sai baixa e séria ao repetir a pergunta que o rapaz ao meu lado havia feito há pouco. – Está precisando de algo? – a formalidade do meu tom é esmagadora.

Mas a julgar pelo erguer de seu queixo na minha direção, de maneira arrogante, ele não se intimidara. Suas pálpebras crispam sobre os olhos atentos. Um sorriso sórdido brilha em seus lábios umedecidos pela língua antes de ele dizer.

— Eu preciso de você.

O tempo parou.

Só aos poucos tenho plena noção do assombro que se montara em minha feição depois de suas palavras. Ele me observava com seu olhar âmbar intenso, satisfeito com o impacto que havia causado. A prova disso foi que em sua expressão surgira um dos sorrisinhos de canto de boca que são sua marca registrada.

Aquilo me desestabilizou e não sei o quanto durou. O tempo parecia suspenso.

E eu não sabia como agir. Ele havia feito de propósito... Desgraçado!

Por um ínfimo segundo, percebo sua insegurança num deslize, ele engole em seco. Seu sorriso arrogante sumira, mas seus olhos mantinham-se crispados, analíticos, quando por um momento eu hesito, decidida a nega-lo.

Ele percebe.

Seu cenho relaxa, como quem compreende a situação. Num breve negar de cabeça, ele ri sem humor. Um riso curto, irônico, e nada surpreso.

Ele se afasta, dando passos de costas, ainda negando com a cabeça minimamente, se negando a deixar de me fitar, mas não por estar admirando. Longe disso.

Antes de virar-se, seguindo rumo a tenebrosa noite, ele simplesmente diz. – Você prometeu.

Algo se quebrava dentro de mim à medida que ele tomava distância. O fino silvo de uma rachadura tomando proporções imensuráveis a cada passo dele para longe e a iminência de que a qualquer momento eu fraquejaria era de um desespero sem igual.

Seu caminho era familiar e eu podia jurar que ele estava indo para aquele lugar.

A vontade incessante de ir atrás dele me consumia, mas a obstinação mantinha-me travada no mesmo lugar, imobilizada pelo medo. Medo de dar o primeiro passo e acabar pisando nos estilhaços do meu coração partido.

Puta que pariu, que ódio do Kristoff. Eu nunca falei assim em toda a minha a vida. Eu nunca senti isso em toda a minha existência! Eu gritava no meu próprio silêncio, detestando o poder que ele tinha sobre mim.

Como ele conseguia me afetar de maneira tão devastadora?

— O que houve, Anna? – era uma voz que eu não esperava ouvir por ali, tanto que chegara a me surpreender. Merida vinha em minha direção, mas sua atenção estava voltada totalmente ao desgraçado que sumira em meio a escuridão que fazia caminho a ponte. – Onde o Kris está indo?

Eu não sei dizer em que momento exato eu tornei a ficar de pé, mas sabia que estava naquela posição, parada e encarando o nada, há um considerável tempo. Sem palavras, sem voz, sem um bom funcionamento do meu raciocínio que me permitisse responder minha amiga devidamente.

Merida me encarou, estranhando o silêncio e esfregando a parte detrás da cabeça. Arqueou uma sobrancelha ruiva, incomumente impaciente. Genuinamente preocupada com ele.

Algo se fez presente atrás de mim. O calor que surgira a minhas costas e a súbita mudança de feição de Meri comprovavam isso.

Hans caminhou até o meu lado, o suficiente para fitar-me nos olhos. – Você está bem? – seu tom de voz era tão sincero. Sua expressão de ternura também.

Tornei a fitar Merida e agora ela tinha a feição de quem já havia entendido tudo. Pareceu ainda mais preocupada.

— Eu... Vou atrás dele. – ela já ia dando uns passos de costas ao dizer, logo virando-se e caminhando rápido. Suspeito que só não correra para não deixar em evidência sua aflição.

— Anna, olha pra mim. – a ponta de seus dedos frios roçaram meu queixo, puxando em sua direção com gentileza.

— Eu tô bem. – já fui mentindo.

— Não está. – suspirou. – Escuta... Me desculpe. Talvez eu não devesse ter chamado você. Não imaginei que...

— Hans, não! – finalmente reagi, apressando-me em dizer. – A culpa não é sua, não se desculpe! Eu não... Ninguém imaginava e afinal de contas não há coerência alguma no que acabou de acontecer aqui, não há com o que se preocupar. – eu ria, porém de nervoso.

No rosto dele havia um sorriso mínimo e compreensivo. – Tudo bem, respire. – incomumente obediente, eu o fiz. Ele ficou de frente para mim e segurou minhas mãos, como antes eu havia feito com ele em gesto de apoio. – Você me deu um conselho de imenso valor aqui, que pretendo seguir ainda hoje. Agora me permite te dar um conselho também?

Não sabia qual era minha feição, mas sentia minhas sobrancelhas tensionadas, meu coração apertado e a mente vagando incessante em direção a outra pessoa. Mordi os lábios para que eles não tremessem, meu olhar fixo no verde translúcido dos olhos de Hans, mas ainda assim, tudo o que eu queria era estar apreciando um tom característico de âmbar.

— Vá atrás dele.

Minha atenção se voltara para Hans num sobressalto.

Ele havia percebido, é claro, que apesar de eu estar o encarando, não estava tão presente quanto parecia.

Mas não falou aquilo apenas para puxar minha atenção.

— O que? – finalmente indaguei, num fio de voz.

— Esse é o meu conselho. Vá atrás dele.

— Hans...

— Você já me ajudou aqui. – sorriu. – Deixe-me te ajudar também, tornando as coisas fáceis pra você. Só estará seguindo um conselho meu. – soltou minhas mãos, guardando as próprias nos bolsos. – Não estará dando o braço a torcer, Srta. Orgulho.

Não consegui evitar sorrir. – Eu não sou orgulhosa.

— E eu não estou apaixonado por um garoto menor de idade. – revirei os olhos para o seu sarcasmo, mas eu não conseguia parar de sorrir. – Vamos, vá logo atrás dele. Parece que ele precisa mais de você do que eu. – seu olhar tornou-se sério, com um brilho que sugeria que estava prestes a sorrir. – E você sabe que precisa mais dele do que de mim.

Queria pular em seu pescoço e dar lhe um abraço apertado, mas tudo o que fiz foi correr enquanto sorria e me apavorava ao mesmo tempo. Um frio me percorria a barriga. Uma sensação peculiar, esmagadora e intensa, porém tão estranhamente boa...

Não sabia o porquê de estar tão feliz em ir atrás dele. Mas essa breve felicidade tornou-se aflição no momento em que o vi e percebi que não havia motivos para tanta euforia uma vez que nada ali seria fácil.

Sim, como eu suspeitara, ele estava parado na ponte, no seu ponto de inércia habitual. Sua silhueta era perceptível ao longe e eu não conseguia parar de encarar.

Sequei os olhos rapidamente, eu havia chorado sem nem perceber. Alcancei Merida e meu coração se encheu de alívio, não sei bem porquê, ao perceber que ela ainda não havia o alcançado, embora estivesse próxima. Só percebi ter agarrado o braço dela para impedi-la de continuar em direção a ele quando ela tentou desvencilha-se da força de meus dedos.

— Acho bom ter vindo mesmo! – arregalei os olhos, nunca havia a ouvido daquele jeito, nem quando fui uma cuzona com ela na faculdade. – Enrolei aqui nos meus passos a sua espera e ainda assim você demorou!

— Estava me esperando? – ofeguei quase sem voz.

— É claro! – vociferava num sussurro, apontando o dedo na direção da imagem cabisbaixa de Kristoff ao longe. – Conserte isso.

E virou-se, voltando em direção a praça, deixando-me sob a penumbra da lua, a melodia contínua do rio e oscilar do meu coração disparado por não ter ideia de como lidar com um Kristoff imprevisível.

Acho que tive um déjà vu.

POV Kristoff.

A última vez que amei tanto uma mulher, ela fora assassinada pelo homem que eu também amava de todo o coração. Depois desse evento, passei a ser minha própria ruína.

Vivia em guerra com o turbilhão de sentimentos que residia dentro de mim e essas batalhas me causavam marcas incuráveis. Marcas que carrego até hoje.

Me afasto de tudo o que amo, tudo o que me faz bem, com um medo cego de que me seja tomado de forma tão brutal novamente. Você não precisa se sabotar sempre, há outras formas de se fortalecer, meus amigos dizem. Mas essas outras formas eu desconheço. Medo do desconhecido.

O meu maior inimigo sou eu mesmo. Vivo uma guerra sentimental e não consigo enxergar forma melhor de me consolidar contra qualquer coisa que possa vir a me destruir novamente.

Anna tem esse poder em mãos e isso me apavora. Ela acaba comigo de forma fácil, só basta ela saber como. Talvez ela já saiba como.

Eu não tenho o mais remoto direito de ficar puto com ela, pois causei isso a mim mesmo. O culpado sou eu e apenas eu.

A afastei quando percebi, sem dúvida alguma, que ela me faz bem pra caralho. E o que consegui com isso? Nada além dor. Fecho a cara, mantenho o semblante inacessível a qualquer um, como sempre foi e sempre será, mantendo a fachada de mais um dia normal, mas o vazio se escancara como uma caverna dentro do meu peito.

Sinto frio e calor, uma raiva imensurável me domina. Sempre tive absoluta certeza de que meus métodos eram o melhor para mim até ela acontecer, esfregando na minha cara que sempre estive errado em todas as minhas tentativas de afasta-la, que nessa minha vida de merda eu sempre fiz tudo da forma mais difícil e dolorosa, que todos que me aconselhavam estavam certos, e isso vem se solidificando na minha mente que até parte de mim chegara a acreditar nisso; estou lutando contra mim mesmo e eu sou o maior prejudicado nessa guerra.

Eu sou um exército de um homem só. E a tática para vencer a guerra é abrir os olhos e me permitir ser feliz. Mas eu não abro.

Estou fadado à derrota.

Estou fadado à perdê-la.

E a culpa é minha.

É impossível para mim. Não tenho mais condições de enfrentar isso.

A mais simples ideia me faz ter vontade de sair por aí quebrando tudo e socando quem tiver na frente... A ideia daquele babaca, ou qualquer um, abraçando, tocando, beijando ela... Não consigo me controlar, é uma sensação insuportável. O simples vislumbre me deixa doente. Possesso.

Uma pancada ensurdecedora, um golpe violento, uma centelha de dor percorrendo o meu braço antes de eu entender que dei um soco no corrimão da ponte com todas as minhas forças. Pedaços da viga de madeira se desprendem do entorno da marca funda deixada pelo meu punho fechado.

Trinco os dentes para não emitir nenhum som.

Por um momento, tudo fica escuro e sinto que irei ruir, mas a dor me atinge em impactos pulsantes. Não sei o que dói mais; minha mão, minha cabeça ou minha alma.

A hipótese contra a qual lutei durante todos esses anos já é uma realidade – a perda total de controle sobre a mente. A sensação é intensa, enjoativa, apavorante.

Perdi a batalha.

Estou enlouquecendo.

Como pode um simples pensamento doer tanto a ponto de eu querer me enrolar em posição fetal e morrer?

Um sentimento familiar...

Uma dor familiar...

Droga.

Minhas mãos trepidam sobre a viga do corrimão da ponte, como se o chão abaixo dele fosse abalado por um terremoto.

O som ambiente torna-se apavorante, flashes de cores e luzes cegantes rompem minha mente permitindo a infestação de uma lembrança tortuosa. A sensação me afoga. O escuro da noite ao meu redor se desfoca e se desfaz diante dos meus olhos, explodindo no tom frio de nuvens espessas a esconder o sol daquela tarde.

Estava frio. Muito frio. O súbito e familiar tremor em meus ossos me mortifica e eu engulo em seco, aterrorizado. Merda.

Não estava frio como naquela aquela tarde... Eu estava vivendo aquela tarde. De novo.

Como um espectador. Só que dentro de mim. O latejar contínuo em meus ouvidos era ensurdecedor, no entanto, eu ainda conseguia ouvir minha respiração ofegante.

Olho ao redor, tudo parece estar se movendo, as nuvens pesadas ameaçando desabar em cima de mim feito um castelo de cartas. Debruçado sobre o parapeito da ponte, eu me agarrava as vigas com demasiada força, a ponta de meus dedos esbranquiçados quando na verdade deveriam estar roxos por conta do considerável tempo sem luvas numa das tardes mais frias de Oxford.

Não demorou muito para que eu me esgueirasse por cima do parapeito e me sentasse sobre ele, esperando.

Esperando pela sensação que eu me recordava a ricos detalhes.

Uma dormência repentina toma conta da minha pele, minhas pernas por um momento perdem a força quando finalmente me dou conta do quão potente são os efeitos daquele sedativo.

Lentamente, minha visão periférica torna-se turva. Meus esforços frenéticos para respirar e manter a consciência são inúteis, a escuridão lentamente me cerca. Um longo túnel, uma vinheta de angústia onde o meu destino eram as águas sombrias e pré-congeladas do rio abaixo.

Entrego as pontas, meu corpo se rendendo a alguma força maior. Minha consciência aos poucos se dissipando... Como fracas vozes que se distanciam de um trem em movimento. Ou a fumaça de um cigarro que se dispersa à medida que toma distancia de sua progenitura.

Era lento e suave. Enfim, não havia dor.

Minha respiração abrandou-se. Minhas mãos não mais se agarravam as vigas, assim como eu, há muito, deixara de me agarrar a esperança de que um dia tudo ficaria bem.

Ansiava pelo fim. Eu não estava com medo. Minhas pálpebras pesaram de uma forma que há muito não acontecia. Não sabia dizer quantos meses de insônia vivi e já nem tentava mais dormir. Preferia viver cansado a enfrentar meus pesadelos.

Meus olhos se fecham... E ao se abrirem, com certa relutância, a visão não é mais das águas do rio abaixo. E sim da luz turva e borrada da tarde acima. Meus ouvidos se enchem de água e eu me atento ao zumbido que ronda minha cabeça. O mundo exterior incha e tudo se distorce, tentando me devorar vivo.

Eu nem mesmo senti o frio ou o impacto da água... Eu não sentia nada.

Até tentar respirar. Senti-me queimar por dentro, como lava tórrida invadindo meus pulmões. Ainda pude sentir o fechar de minha traqueia, uma reação involuntária de meu corpo, uma medida desesperada para impedir que a água me invadisse, me sufocando... Não tinha forças para lutar.

A escuridão me rodeia quando penso, com certo alívio, que finalmente morri.

Mas apenas fui puxado novamente à noite em que estou perdendo Anna, o que era ainda pior.

Ainda estou na ponte... A neve sumiu. O vento frio agudo sumiu. Haviam flores nas árvores... O faixo de luz da lua sobre aquele mesmo rio que um dia quase tirou a minha vida.

Mas estou ofegante. Olho em volta, piscando aturdidamente e vejo o rosto dela. Seus olhos azuis estão arregalados. Ela está em choque.

— Você está bem? – indaga, urgente. Está preocupada comigo.

A dor familiar no meu peito se transforma numa dor apunhalante. Por algum motivo extraordinário, não consigo me mover. Sou tomado por um medo mortal. Tomado por um pânico que beira a histeria, eu temo, com um súbito pressentimento sinistro de que ela irá desistir de mim. De que vou perde-la pra sempre. De que essa recordação repentina não tenha sido mera coincidência e ela será tomada de mim de forma brutal.

Desperdicei incontáveis chances.

Meu coração mescla um frenesi de batidas desconexas, esmurrando meu peito. Parando e recomeçando de tantos em tantos segundos. Cada vez que para, sinto um vazio aterrorizante antes da pancada violenta que atinge meu tórax de dentro pra fora, contínua, cíclica, lancinante.

Quero responde-la. Porra. Quero dizer tantas coisas a essa mulher...

Sinto meus lábios se entreabrirem, em ânsia para lhe dizer... Qualquer coisa. Eu queria responde-la. Eu queria muito responde-la.

Mas a dor aguda penetra o meu peito, excruciante e arrancando-me todo o fôlego. Fecho os olhos com força e trinco os dentes, implorando para que pare. Sem que eu perceba, estou brevemente curvado, pressionando meu próprio peito com uma das mãos... Não consigo respirar. Merda.

Sinto um calafrio descer minha espinha, ondas contínuas de calor me desestabilizam. Noto as pontas dos dedos frios, porém, suando... Percebo minhas mãos desvairadamente trêmulas. Ah, não.

Uma forte vertigem me atinge a cabeça. A sensação de que a qualquer momento irei ruir toma posse de mim...

Por favor, não.

Não tenho mais forças. Choques elétricos são disparados por todo o meu corpo. Só quero que isso acabe.

Droga.

Sinto aquele tremor nos ossos...

De novo, não.

Notas finais
Número de palavras: 5.214 ((Músicas do Capítulo)) Prey - The Neighbourhood: https://youtu.be/lH-nvn5NBqE ROLA AMIGOS, TURUBOMMMM??? rsrsrs Péssima essa minha demora, eu sei. Mas a boa notícia é que temos uns 4 capítulos adiantados só precisando de revisão, ENTÃO NÃO FOI DE TODO MAL, NÉ? TO PERDOADA?! rsrsrs por favorzin... Mas continuandooooo... Eu iria colocar tooooooda a treta esclarecida de Kristanna neste único capítulo, mas achei que ficaria coisa demais pra vocês assimilarem num só capítulo, prq gente.... É COISA, VIU? BAGARAI, então vamo com calma, já temos capítulos adiantados mesmo, ora pois, então tá tudo nos conformes *estala os dedos like a Beyoncé* Sejam sinceras de todo o coração quanto a narrativa deste capítulo, POR FAVOOOOOORRRR!! Deu um trabalho do caralho pra escrever, tive de pesquisar com colegas que passam por esse problema, ler a respeito, sofri e chorei junto com eles só de ouvir :C então sejam sinceras nos comentários, preciso saber onde melhorar e... Enfim, quero saber se gostaram ^^ Notas bem curtinhas prq sei que vcs estão de mal cmg :C Mas estarei de volta em breve, na fé de Jah ♥ Bjo no coração de vcs, cheirosas!! ♥