Rising Tide
37 Dor.
Notas iniciais
Chapter Thirty Seven.
Pain
POV Anna.
— Kristoff... – ouvi-me dizer, num fio de voz.
Ele parecia fazer um enorme esforço para puxar o ar e conseguir respirar. Ao estender brevemente as mãos à frente de seu corpo e perceber o quão trêmulo estava, cerrou os punhos com força.
— Droga. – rosnou com os olhos fechados, o maxilar trincado. – De novo, não.
Me chocava a imagem que eu tinha dele, curvando-se como se sentisse uma dor terrível. E, por um momento, eu temi que estivesse sentindo mesmo. Esse pensamento me desesperou. Sem conseguir me conter, eu já estava bem próxima, segurando seus ombros e os forçando para trás.
— Kristoff! – com as mãos espalmadas em seu tórax sentia seu coração esmurrando-o peito, o inflar e desinflar de seus pulmões ávido.
Ele não me fitava, ainda fechava os olhos com força. Percebi seu rosto vincado por sulcos vermelhos e eu tinha quase certeza que tal rubor não se dava a reação ao frio. Sua dor era quase palpável: a agonia, o ressentimento, a fúria, mas havia principalmente uma dor física ali.
Eu não sabia o que fazer.
— Ei... fala comigo. – seguro-o pelos braços e o imobilizo, sentindo-o tremendo sob minhas mãos. – Por favor, Kristoff, fala comigo. – minha voz embargada indicava o iminente: eu não seria forte por muito tempo.
— Me leva pra longe daqui. – sem forças, ele pede. – Por... favor.
Não foi preciso pedir duas vezes.
Eu o guiei, como pude, até meu Jeep estacionado a poucos metros dali. Uma de suas mãos apertava a minha com demasiada força, suando frio. Mesmo com a pressão a qual ele segurava meus dedos, ainda era possível sentir um tremor contínuo. No banco do carona, tentei afivelar o cinto de segurança a sua volta, tendo uma dificuldade incomum. Só então notei que eu também tremia.
De frio.
De nervoso.
De medo.
Sem delongas, dei partida com o carro, tomando as ruas numa velocidade perigosa sem nem mesmo colocar o meu cinto.
— Eu vou te levar ao hospital.
— Não. – mesmo sôfrego, a firmeza repentina em sua voz fora cortante.
— Você não está em condições de escolher.
— Por favor.
Uma súplica. Respirei fundo. O que poderia acontecer com ele caso eu não o levasse ao pronto-socorro...
As conclusões me afligiam da pior maneira.
— Eu não posso deixar você na sua casa nesse estado, Kristoff... – minha voz saiu falha enquanto um nó formava-se em minha garganta. – Não posso.
— Sua casa.
— O que?
— Me leva... – ele ergueu o queixo, apoiando a cabeça no apoio do banco, sua expressão de dor me corroendo em impotência. – Me leva pra sua casa.
— Mas o que eu...
— Puta merda. – uma espécie de grunhido firme irrompera de sua garganta. – Só obedece. Por favor.
Com o emocional abalado demais para contestar, eu estranhamente obedeci.
***
— Nem presenciando a forma mais física da minha aflição, você deixa de ser teimosa.
Estava ele sentado sobre minha cama. As costas apoiadas a cabeceira, sobre três travesseiros que eu mesma havia aglomerado ali para seu maior conforto. Uma perna esticada sobre o colchão e a outra apoiada ao chão evidenciando sua obstinação em me contrariar.
Ainda sinto minhas mãos tremendo desde o momento em que o conduzi ao meu quarto – a pedido dele, que não queria arriscar ser visto naquela situação por ninguém e isso incluía minhas amigas. Minha respiração ainda descompassava enquanto eu tirava sua jaqueta, afofava os travesseiros as suas costas e insistia que ele se deitasse para, de repente, sei lá, sua respiração abrandar, ao menos. O terceiro copo de água gelada jazia em sua mão, pela metade, e ele não me fitava no momento em que disse aquilo – observava o teto, sem foco nenhum no olhar.
Diante da situação, eu estava disposta a tudo para fazê-lo recuperar-se do que havia acontecido – e eu tinha plena ciência do que havia acontecido.
Mas não consegui evitar o descontentamento depois daquele comentário.
— Eu salvei sua vida, bastardo imbecil.
Revirou os olhos com um muxoxo e bebeu o que restara do copo de água em suas mãos.
— Ataques de pânico deixaram de ser um risco à minha vida há tempos, hoje em dia é apenas mais uma merda que só acontece pra me enfurecer.
As palavras de Kristoff me surpreendiam e me afligiam com o mesmo grau de intensidade. O modo como ele tratava coisas sérias de maneira tão leviana me deixava possessa.
— Você é um homem muito problemático. – admiti sem perceber.
— Acha mesmo?
— Tenho certeza.
— Que grosseria dizer a uma pessoa problemática que ela é problemática.
— Está me chamando de grossa?
— Estou.
— Que grosseria dizer a uma pessoa grossa que ela é grossa.
Ele me dirigiu um sorriso pretensioso enquanto eu o olhava, fixando os olhos nos meus pela primeira vez naquela noite. Ele riu. E a atmosfera tensa do quarto esvaiu-se trazendo uma sensação leve adjunto do som de sua risada. Durou ínfimos segundos. Mas foi o suficiente pra fazê-lo suspirar, sorrir e tornar a me olhar.
Frustração é o nome do que eu sinto quando ele me olha desse jeito e eu sou incapaz de conter meu coração imbecil que mal resiste a um mero olhar intenso desse desgraçado. Nem quando estou morrendo de preocupação, ainda que me negue a admitir – o conjunto exagerado de travesseiros às suas costas falam por si só, Anna. Tentei evitar seus olhos para me acalmar, mas acabei fitando meus pés toda sem jeito. Meus dedos tamborilavam sobre minha coxa e quando tornei a olhar para seu rosto, o canto de sua boca estava voltado para cima em um sorriso malicioso e uma de suas sobrancelhas estava arqueada.
Franzi o cenho. – Não gosto quando me olha assim.
— Eu sei. É por isso que eu faço.
— Imbecil. – ergui-me da poltrona de canto, avançando em sua direção com a intensão de pegar o copo vazio de suas mãos.
Queria só uma desculpa pra sair do quarto por alguns segundos.
Mas quando tirei o copo de seus dedos, com o meu jeitinho nada sutil, ouvi um silvo de dor que ele inutilmente tentara conter.
Estreitei os olhos para essa reação, percebendo que ele protegia determinada mão, que já estava sem a luva meio-dedo. Esgueire-me para fitar o que ele tanto se esforçava em esconder e logo me vi horrorizada ao focar os ferimentos horríveis nos nós de seus dedos.
— O que é isso?! – arquejei, segurando seu pulso.
— Eu... – ele até tentara retrair as mãos, querendo esconder, mas eu continuei segurando-o firme. – Me machuquei socando... uma coisa.
— O que você socou, Kristoff? Não é possível, qual o seu problema?! Olha isso, seu idiota! – indaguei, examinando as fendas avermelhadas nos nós de seus dedos, percebendo resquícios de sangue seco e pequenos pedaços de farpa.
Ele me fitou com a feição de desaprovação e comentou com ironia. – Tão afetuosa.
— Tão inconsequente! – revirei os olhos. – O que você socou?
— A balaustrada da ponte.
— Por que fez isso?!
— Porque eu sou maluco, será que notou?
— Você... – solto sua mão, querendo esgana-lo, mas me contendo. Eu tentava inutilmente a todo momento não me preocupar com ele, mas era impossível. O xingamento iminente travara na minha garganta e, com os dentes trincados, acabo soltando uma espécie de grunhido. – Por que você é tão autodestrutivo?!
Ele dá de ombros. – Se descobrir a resposta, me conta. Também gostaria de saber.
Seu comentário parece genuinamente sincero. Por um momento, até esqueço que estava com raiva dele e enquanto o observava não podia deixar de me perguntar o que faria Kristoff agir dessa forma, tão amavelmente... confuso. Chega a ser admirável. Dá vontade de cuidar.
Peraí, o que?!
— É melhor eu... É... Já volto... – pego o copo e me levanto rapidamente, fugindo feito a covarde que sou, mas não sem antes deixar meu comentário ácido. – Se não for pedir muito, tente não socar as mobílias.
— Se continuar com as piadinhas, vou acabar socando você, mas não da forma que está imaginando.
Se eu não o conhecesse bem, diria que havia malícia em sua voz, só não entendo o porquê, já que tinha acabado de dizer em poucas palavras que poderia me agredir.
Né?
POV Elsa.
Aquilo era extremamente doloroso – havia descoberto da pior maneira o quanto era horrível ficar longe dele. Na primeira semana, fui inundada por uma determinação inquietante em falar com a Tooth o mais rápido possível
Mas foi só vê-la tristonha pela sua recente perda, que minha determinação foi pelo ralo.
Eu adiei aquilo por dias longuíssimos.
E concluí, com certa dor, que ser ignorada por ele durante os demais dias na faculdade me feria demais.
Eu sempre evitei delongar meus problemas, até os mais difíceis de serem solucionados. E uma coisa que sempre odiei é envolver minhas amigas em mais infortúnios.
Mas a situação estava impossível de suportar sozinha. E eu admiti que precisava de ajuda.
— Minha madrasta me ensinou que amor não foi feito para se esconder. – dizia Lindsay. A pessoa com a qual eu estranhamente decidi conversar. – E você faz exatamente o contrário, Elsa.
— Não faço. – nem mesmo eu acreditava nisso.
— É o seu jeito e não há problema nenhum em admitir. – deu de ombros. – Contudo, mentir pra si mesma machuca a alma.
Minha alma já estava em pedaços.
— O que o Phillip disse? – quis saber, enquanto mordia um muffin vegano de aparência engraçada que ela mesma havia trago. – Você não me contou o que fluiu da conversa.
Suspirei, me recostando na poltrona. – Nada que eu já não suspeitasse.
— Então...
— Não, ele não falou sobre ela. Apenas, dos próprios sentimentos.
— Você deveria aprender a fazer o mesmo.
Revirei os olhos. – Pra quê?
— É mais fácil de assimilar o que sente.
— Não preciso disso.
— Não precisa, mas faz um bem danado. Deveria tentar. – lançou-me uma piscadela marota, fazendo-me rir sem nem perceber. – Se bem que conversando comigo, não é necessário dizer muito. Eu tenho uma facilidade incomum de notar determinadas coisas e, no geral, costumo acertar. – lancei um olhar cético em sua direção e ela jogou os cabelos ruivos para trás com elegância. – Quer um exemplo? – tomou um pouco de chá que eu havia servido antes de continuar. – Desde o dia em que você foi falar com o Jack e nos encontrou juntos no corredor de Oxford, eu percebi tudo a partir do olhar que ele te lançou. Foi a primeira vez que vi ele olhar daquele jeito para alguém. – ela riu, ainda que triste. – E acredite, eu o observo há muito tempo. – seu sorriso sumiu, dando lugar a um olhar distante e melancólico. – Preciso admitir uma coisa e já me desculpo de antemão. – fitou-me nos olhos. – Eu não consegui evitar sentir um pouco de inveja de você. – engoliu em seco, desviando os olhos. – É algo horrível de se sentir, mas de qualquer forma, eu não pude evitar, juro...
— Lind, não precisa se explicar. – fui sincera ao dizer. – Admiro sua facilidade em admitir isso com tanta coragem. A maçante maioria das pessoas simplesmente esconde e finge que nunca se sentiu assim.
Ela deu um sorriso. – Eu não sei ser assim. – e naquele momento, eu a invejei.
Pois fingir que nunca sente nada é exatamente o que sempre faço.
— Mas isso só aconteceu pois sou vista como a bailarina certinha que não dá condições a nenhum rapaz da faculdade. Sabe o que dizem sobre os homens, querem sempre aquilo que não podem ter. E eu esperava que, no fundo, isso incitasse em Jack um interesse por mim. – ela negou com a cabeça. – Você não precisou calcular nada. Simplesmente surgiu e o encantou. Eu não tinha chances contra algo que aconteceu tão naturalmente.
— Me desculpe por isso.
Ela riu. – Por que está se desculpando, doida? A culpa não é sua. Nunca foi. A culpa foi minha de querer manipular um romance com alguém que não está no meu destino.
Dizem que há males que vêm para o bem e isso se aplica a minha situação atual que envolve Jack e Lindsay.
Eu converso com Lindsay desde que Jack e eu acabamos. Acabamos o que mal havia começado.
Ela genuinamente puxara assunto com a figura triste, impassível e de olhar vazio que sozinha apreciava a brisa fria de Outubro na praça de Oxford. A figura triste era eu, poucos dias depois da discussão com Jack.
Eu nunca tive interesse em conversar com Lindsay, não por despreza-la, mas por ser uma ideia que passava desapercebida mesmo. Me arrependo por algo que nem tive culpa. E agradeço por ela ter sentido o interesse que não senti, apesar de achar que não era bem interesse o nome, mas, com o conhecimento que adquiri sobre sua personalidade de uns tempos pra cá, apenas a fidedigna vontade de ajudar.
Lindsay faz parte do grupo de pessoas que passam desapercebidas a princípio, possuem uma aura tão significativa e bondosa, e fazem você se arrepender de não tê-la conhecido antes.
— Como pode dizer as coisas com tanta convicção?
— Como eu disse... – deu um sorriso. – Eu tenho uma facilidade incomum de notar determinadas coisas. – ela me fitou e sorriu. – Antes mesmo de vê-los juntos na festa aquela noite, eu já havia finalmente desistido do Jack. Não vale a pena insistir numa causa perdida. Ele já estava se apaixonando por você.
Minha mente explodiu. – Impossível. Nós mal nos conhecíamos.
— Você não o conhecia. – ela deu de ombros. – Mas ele conhecia você. – minha mente se fragmentou mais uma vez e eu não soube dizer qual era minha feição. Ela riu, com uma mão à frente da boca. – Você ainda tem dúvidas, boba. O sentimento dele não começou do nada. E mais, eu não conheço ninguém mais observador que o Jack. E, na época, vê-lo tão compenetrado em uma só pessoa foi algo bem novo pra mim. – admitiu sem nem perceber. – Você já se apaixonou antes?
Lembrei de Phillip. E senti-me leve de conseguir pensar nele sem nenhum rancor. – Sim.
— Bom, o Jack, nunca. – terminou o chá que já estava frio. – Apesar de tudo, eu não queria ser um empecilho pra esse sentimento deveras novo pra ele.
— Como você sabe tanto sobre o Jack?
Deu uma risadinha nostálgica, foi quando tive certeza que esse sentimento já era antigo.
— Eu estudei com ele desde o fundamental, apesar dele nunca ter me notado naquela época. Ele era, digamos, minha paixãozinha de infância. E eu, sendo sempre a timidez em pessoa, nunca tive coragem pra sequer lhe dizer um olá. – pareceu constrangida ao dizer. – Então, eu me contentava em apenas observa-lo mesmo.
— Eu sinto muito, Lindsay.
— Não sinta, boba. Já passou. Situação deplorável, but a vida nem sempre é uma droga, afinal, eu pude ver um amor nascer. E quando sabemos lidar com os tombos da vida, passamos a nos reerguer com o olhar mais panorâmico a cada queda. Afinal, só caímos para aprendermos a levantar. – deu de ombros enquanto eu a fitava, compenetrada. – Eu é quem peço desculpas por um dia ter sentido inveja de você.
— Eu sei que você não teve intenção.
— Isso é verdade... Mas de qualquer forma, é algo a qual tenho vergonha.
Fomos abruptamente interrompidas pelo barulho do interfone.
Meu coração falhara uma batida com o aflitivo turbilhão de pensamento que despontavam possibilidades esperançosas. Não era Flynn, pois ele não aparecia aqui quando Rapunzel não estava. Não era Hiccup, pois ele sempre chegava com Merida, que tem a chave. Não era Kristoff, pois Anna estava fora, Merida também, logo ele não tinha porquê vir aqui. Estava muito tarde para ser entrega de encomendas e acima de tudo eu não havia pedido nada no iFood.
Meu coração estava acelerado. Seria ele..?
Agarrei o gancho do interfone e indaguei, sôfrega por dentro, porém a voz mantinha-se neutra.
— Pois não?
— Boa noite. Elsa?
Quase pude sentir-me murchar como uma figura caricata. Não era a voz dele.
— Sim. Quem é?
— É o James.
— Ah, olá James. – falei em voz alta, fitando em direção a Lindsay que, no exato instante em que ouvira o nome do rapaz, surgira em seu rosto um sorriso bobo e em seus olhos verdes um brilho incomum. – A Anna não está.
— Na verdade, vim buscar a Lindsay. – esta que ainda mantinha o sorriso indiscutivelmente feliz no rosto.
— Ok, vou pedir ao Joseph para deixa-lo entrar...
— Não, tudo bem, vou entrar com Merida agora. Ela acabou de chegar.
Mal coloquei o gancho no lugar, já fui falando.
— Você está apaixonada pelo James. – o sorriso dela vacilou. Mas no final, ela acabou rindo e escondendo o rosto atrás das mãos. Uma fofa. – Sabia! – fitei seu rosto, boquiaberta. Eu não sabia o que dizer. Estava surpresa e ao mesmo tempo, tão feliz por ela.
Até seu sorriso tornar-se tristonho novamente. – Mas ao que parece, mais uma vez não sou correspondida...
— O que?!
— James é apaixonado por Anna. E eu, sou a amiga que vive ouvindo ele falar dela. Pra falar a verdade, nos tornamos amigos por causa de nossos desabafos sobre as desventuras amorosas de cada um. – deu uma risadinha. – Mas eu fui a azarada de me apaixonar primeiro. – fez uma careta, revirando os olhos. – Estou fadada a não ser correspondida. – deu de ombros, exibindo um sorriso perseverante que inspiraria qualquer pessoa. – Mas não desisto nunca.
Eu, em minha plena ciência no que se refere minha personalidade, já teria desistido do amor por muito menos. Naquele instante, eu vi muito de Merida, Ana e Rapunzel nela. Tudo o que sempre admirei.
Secretamente desejei que ela fizesse parte da nossa família um dia. Ela seria muito bem vinda, assim como Tooth foi.
Tooth...
— Vou indo, boba. – ela vestia seu casaco ao dizer, ajeitando os cabelos. – Obrigada pelo chá, pela tarde e pela conversa. Como último conselho do dia, te digo... – como se adivinhasse o que eu havia acabado de pensar, completou. – Converse com a Tooth.
A campainha tocou.
Despedi-me de Lindsay na porta, deixando-a na companhia de James, que acenara de longe.
Pude ver Merida e Hiccup aproximando-se enquanto discutiam calorosamente sobre algo – ainda que de uma forma amigável. O relacionamento de Merida e Hiccup era o único a qual eu havia presenciado tal feito: uma discussão acalorada amigável.
— Mas você demorou. O que aconteceu, ein?
— Ah, Jack e o North discutindo por telefone, coisa rara de acontecer. – o moreno revirou os olhos. – Mas era apenas Jack querendo dar pitaco nos negócios do pai. Eles têm opiniões divergentes sobre duas boas opções de investimento.
— Que legal. Adoro essa coisa de homens dos negócios. – passaram por mim, cumprimentando-me brevemente, e adentraram o apartamento. – Qual seriam as opções?
— Pássaros de 100 mil reais ou cavalos de um milhão de dólares.
— Essa é fácil. Pássaros, com certeza.
Hiccup a fitou com um olhar de pena mesclado a amor. — Ô, meu amor. Tão amável sua ingenuidade. Mas um bom investimento com certeza seriam os cavalos.
Merida arqueou uma sobrancelha, pondo uma mão na cintura. — E o que faz os cavalos serem tão melhores que os pássaros?
— Simples. Nunca vi corrida de pássaros.
— Nunca ouvi canto de cavalos. — refutou ela, bem na cara dele.
Hiccup crispou os olhos. — Nunca vi carro com motor 300 pássaros.
— Nunca vi frango à cavalinho.
— Nunca vi tirar o passarinho da chuva.
— Nunca ouvi Paula Fernandes cantar “cavalo de fogo.”
— Nunca ouvi Joelma cantar “pássaro manco.”
— Nunca ouvi falar que “melhor um cavalo na mão, que dois voando.”
— Nunca ouvi que “passarinho dado não se olha os dentes.”
— Nunca ouvi “um cavalinho verde me contou.”
— Nunca vi os gregos se escondendo dentro do passarinho de Tróia pra ganhar a guerra.
— Nunca ouvi no castelo rá-tim-bum “cavalinho, que som é esse?” — e cantou.
Ele respirou fundo e olhou-a no fundo dos olhos. — Nunca ouvi que o Rhaego, filho da Daenerys, seria chamado de Sabiá que sobrevoa o mundo.
Eu não me aguentava mais. Apenas saí de fininho, não sabendo ao certo no que aquilo ia dar.
Voltei pra sala, ainda ouvindo murmuro dos dois que ainda discutiam no hall de entrada, rindo internamente por mais uma vez perceber que eles se completavam de maneira tão sincera até nas bobeiras inusitadas.
Era inexplicavelmente divertido estar na presença dos dois, eles juntos possuíam uma felicidade contagiante. Merida fez do coração taciturno e sempre decepcionado de Hiccup um lugar vivaz, alegre e apaixonado.
E só de pensar que, antes, esses atributos se aplicavam a Jack.
Fiz exatamente o oposto que Merida fizera. Fiz do coração vivaz, alegre e apaixonado de Jack um lugar soturno, magoado e decepcionado. Parabéns, Elsa.
A porta de entrada fora aberta, pude ouvir o barulho. Mas foi Rapunzel quem aparecera, largando sua bolsa no vasto sofá e se jogando ali bem espalhafatosa. Com uma sobrancelha arqueada, ela apontava para o hall de entrada.
— Tu viu os dois malucos discutindo sobre pássaros e cavalos?
Dei uma risadinha. – Isso é porque você não pegou a parte em que ouvi.
— Perfeitos um para o outro.
— Onde estava?
— Fui me encontrar com um boy.
Tentei, mas foi impossível conter o sorriso maldoso. – Flynn?
Revirou os olhos, com um muxoxo. – Que mané Flynn, amada. Não é porque beijei aquela boca gostosa que fiquei caidinha que nem qualquer outra mulher que já teve essa chance. – dei uma risada mais alta do que pretendia. – Além do mais, mô... – prendeu os cabelos com uma caneta e tirou os saltos enquanto dizia. – Ele experimentou um beijo bem mais gostoso: o meu. – e soprou as unhas, com satisfação.
— Tu nem se acha, né Loira Aguada. – ria Merida, finalmente adentrando a sala junto de Hiccup.
— Eu não me acho, eu tenho certeza. – ergueu o queixo ao dizer. – Sinceramente, quem já me beijou, meus parabéns. Agora, pra quem nunca me beijou, eu só tenho a indagar o seguinte. – respirou fundo, com a postura imponente. – Como é possível para tu tocares as veredas do teu existir sem ter experimentado este instrumento do pecado que sou eu?
— A própria Rapunzel Corona falando, porque não existe ninguém que eu consiga comparar a você. – admiti, rindo.
— Estou lisonjeada... – parou de falar abruptamente ao perceber uma quinta pessoa adentrando o recinto. Na verdade, evidentemente a surpresa foi geral. – Anna, você tá péssima, amiga...
Descendo as escadas, atravessando a sala e indo em direção a cozinha, ela deu um risinho irônico. – Puxa vida, ein... Obrigada. Não teria percebido sem a sua ajuda, Rapunzel.
Ela realmente parecia mal. Mais pela postura e pelo rosto, que parecia cansado. O que poderia tê-la abalado dessa forma é que eu não sei.
— Achei que estivesse na rua. – comentei.
— Achei que nem estivesse em casa. – respondeu, da cozinha.
— Eu cheguei com a Lindsay, já tem um tempinho. Não sabia já estava em casa. – falei enquanto Anna retornava da cozinha e seguia rumo ao banheiro, logo voltando de lá com algo em mãos. – Aconteceu alguma coisa?
— Não. – ela riu, claramente de nervoso. – Não aconteceu nada.
— Está segurando um kit de primeiros-socorros, Anna.
Ela desviou o olhar para o que tinha em mãos. – Eu só... me machuquei... folheando um livro.
Merida a interrompeu. – Ei, Anna, como está... – Anna subitamente arregalou os olhos para Merida, que arregalou os olhos para todos no recinto. – Aquela... situação..? – completou, sem jeito.
— Tudo sob controle. – respondeu a outra. Elas estavam claramente escondendo alguma coisa.
— Eu te liguei um tempão, cabrita. – continuou a ruiva, dessa vez mais preocupada e compenetrada no assunto que só elas sabiam. – Por que não atendeu?
— Não vi.
— Você vive com o celular na mão. Como não viu?
— Não vendo.
Merida crispou os olhos. – Percebe, Elsa, a petulância do pássaro.
— Tenho que ir. Preciso fazer meus afazeres, tchau (?). – e subiu correndo, deixando as redundâncias pra trás.
Hiccup tinha uma sobrancelha arqueada. – Você não disse que ela estava com o...
— É, pois é, vamos. – interrompeu-o Merida, puxando-o para a cozinha com pressa.
Eu e Rapunzel trocamos olhares cúmplices, foi quando percebi que ela havia notado o mesmo que eu.
POV Kristoff.
Eu não sei ao certo em que ponto minha vida se tornou isso.
Esse poço de dor e desordem. Dúvidas. Tantos porquês, sem resposta alguma.
Eu tentei, tentei mesmo, dar continuidade, sem seguir os mesmos passos que o meu pai ao encontrar uma complicação, um obstáculo ou algo que por um momento te faz perder as esperanças, porque isso é com o que mais nos deparamos na vida.
Supliquei por mais força e menos cansaço na alma a qualquer divindade que escutasse.
Eu realmente não queria ter sido tão fraco quanto ele foi.
— Pronto. – o rompante da porta do quarto dela abrindo seguido de sua voz me arrancaram desses pensamentos perturbadores. – Trouxe um kit pra limpar a merda que você fez na mão.
Observava adentrar o quarto, estranhamente ofegante como se tivesse corrido. Eu tinha um comentário irônico na ponta da língua, mas estava ocupado demais admirando o que via – e me certificando de manter o semblante neutro para não ficar parecendo um babaca apaixonado.
— Vem. – dizia ela, gesticulando com os dedos para que eu estendesse a mão lesionada. Mantive-me imóvel. – Você me conhece. Vai ser por bem ou por mal.
— Das duas formas, irá doer.
Ela riu. – Que fofo. Um marmanjão desse tamanho, com medo do dodói doer.
— Se foder, Anna.
— Vamos juntos.
Um sorriso sórdido brilhou em meus lábios. – Você pedindo assim, chega a ser difícil de negar.
Ela não mediu forças ao agarrar minha mão machucada e puxar em sua direção. Na verdade, eu tenho absoluta certeza que fizera de propósito. Inutilmente, tentei conter o grunhido gutural que imergira de minha garganta em reação a dor. E ela pareceu imensamente satisfeita com o próprio feito. Que desgraçada.
— Fica quieto se não quiser que doa mais.
— Eu vou te matar. – grunhi entredentes.
— Com essa mãozinha, não vai não.
Ela me imobilizou de uma forma que eu não podia fazer nada além de ficar quieto e esperar que terminasse de cuidar de mim. E para minha surpresa, todo o restante ocorrera sem me causar sequer uma fagulha de dor.
Anna nitidamente retirava com cuidado cada fragmento de madeira que ainda afundava-se em minha pele, mas antes de tudo, tomou o cuidado de borrifar no local um medicamento que inibia a sensibilidade, deixando a área dormente, tornando a situação completamente indolor.
Indolor. Eu amo essa palavra. Uma vida sem dor, consegue imaginar? Eu não sei nem como é.
— Então, vai me dizer o que aconteceu ou vou ter que conversar com o Hiccup lá em baixo?
Minha feição de indiferença vacilou drasticamente. – Hiccup está aqui?
— Uhum. – murmurara sem desviar a atenção de seu trabalho.
— O que ele... – percebi a pergunta idiota que estava prestes a fazer no momento em que lembrei que ele agora namorava Merida. – Estou feliz e puto. – murmurei.
— Ok, mas qual vai ser? – ela ainda não me fitava ao dizer.
Eu não tinha alternativas. Permitir que Hiccup, Jack ou Flynn soubessem do que aconteceu, estava fora de cogitação.
— Me promete uma coisa. – ela finalmente me olhou. – Não conte a ninguém o que ouvir aqui.
O silêncio durou por minutos insondáveis, mas ainda assim ela não desviara os olhos dos meus. Apenas ao observar seu olhar eu percebi que Anna compreendia que aquela situação me desgastava e que eu não pediria algo assim se não fosse importante.
— Eu prometo.
— Nem pra Merida, nem Elsa, nem...
Me interrompeu com a voz calma. – E quando foi que eu já quebrei uma promessa? – ela sabia que estava certa.
Nem mesmo hoje ela quebrara a promessa que fizera. Precisei dela, ela foi e aqui estou.
Venho tentando me convencer de que sou mais forte do que imagino, que consigo lidar com isso sozinho, mas sei que estou apenas mentindo para mim mesmo. No fundo eu sei que os maiores monstros que enfrento, fui eu mesmo quem criei.
— Confia em mim. – sua voz agora era um sussurro.
E eu me vi incapaz de continuar escondendo qualquer coisa dela.
Mas antes de tudo, eu precisava deixar uma coisa bem clara.
— Eu não quero que você sinta pena de mim. – começo com a voz imparcial. – E, principalmente... – encarei-a no fundo dos olhos. – Não quero que sinta raiva de mim.
***
Dentre os muros deste lugar, o tempo escorre feito cimento.
Você observa as crostas pretas e esturricadas nos parapeitos da janela. É difícil crer que já estiveram vivas. Você por um momento imagina como deve ser ficar trancado numa caixa de vidro sem ar, assando lentamente por dias sob o sol implacável, vendo o mundo exterior vívido bem à sua frente e você se atirando sem parar contra a parede invisível que te isola de tudo o que é real e vivo até por fim se render, exausto, sufocado, esmagado.
— A que altura uma mosca desiste de tentar fugir por uma janela fechada? – sua pergunta escapa em voz alta, sem que você perceba.
O moleque sério ao seu lado apenas dá de ombros. – Depois da enésima trombada, talvez.
Você nega. – Prefiro acreditar que elas não desistem.
— É mais aceitável, para você, que elas insistam pela vida até não ser mais fisicamente capaz? – na voz dele não há sinais de estranheza, apenas uma curiosidade genuína. Você anui em concordância, sem esperar pelo comentário seguinte que, no entanto, o surpreendeu. – Você tem um jeito corajoso e estranho de encarar as coisas.
— Me desculpe.
Com um muxoxo, o moleque revira os olhos castanhos antes de te encarar. – Isso foi um elogio.
Juntos, você e Flynn retornam para a sala de estar onde os pais dele conversam, ou tentam conversar, com o seu pai. Não demora muito para que eles saiam, levando seu único amigo e deixando uma pilha de papéis cujo a maioria se refere à sua mãe como “paciente”.
Poucos minutos após a partida deles e você se vê sozinho novamente, como de costume. Não demora até decidir ver aquela muito mencionada nos papéis recém postos sobre a mesa de centro, intocados por seu pai.
Sua mãe parece gasta e apática sob a luz fria da manhã nublada. Ela não se move, ela não fala e as vezes quase aparenta não respirar. O olhar vago sempre direcionado a janela parece ganhar vida apenas nas poucas vezes em que foca seu rosto.
Não fosse os raros sorrisos melancólicos que ela lhe lança nas vezes que parece te reconhecer, julgaria o corpo frágil e pálido sobre a cama como apenas uma carcaça sem vida há muito.
Você sempre fora uma criança de imaginação fértil, então não era difícil imaginar sua mãe de pé, brincando com você no parque como as outras mães da vizinhança também faziam – na verdade, essa era a sua imaginação favorita; uma pena que nunca passara disso.
Num determinado dia em que seu pai incomumente parecia absorto de sua constante tristeza, rabiscando incessantemente em seu caderno mais um poema qualquer, você decidiu contar-lhe suas imaginações acerca de sua mãe e se sentiu imensamente alegre por ter sido capaz de arrancar um sorriso daquele velho tão soturno. Como bônus, ele ainda lhe concedeu uma narrativa das histórias reais da mulher a qual tanto amava, linda e vivaz num vestido florido amarelo, muitos anos antes de sequer pensar em engravidar de você.
Ao em vez de perguntar-se qual seria o motivo da condição de sua mãe ter mudado drasticamente, decidiu que o questionaria, aproveitando a pequena parcela de atenção adquirida naquela semana.
— Por que a mãe não é mais como antes? Por que agora ela vive triste?
Você não chegou a perceber que a melancolia no olhar dele parecia mais intensa do que antes, agora que as lembranças mesclavam-se a dor da saudade. O âmbar daqueles olhos reluziu atrás das lentes dos óculos devido as lágrimas contidas, mas ainda assim você não percebeu, ou apenas não quis perceber. Era novo demais para se importar e só o que te interessava, por ora, era a resposta do seu pai.
— Sua mãe não é triste, Kristoff. Só está cansada.
Você viera a descobrir que “cansaço” era o como seu pai chamava a enfermidade que aos poucos a matava. Descobrira também que tal doença não acometia a memória dela – fato que o deixou ainda mais certo de que os olhares vagos que raramente se focavam em sua direção não indicavam o reconhecimento de seu rosto, mas sim, o inabitual momento em que sua mãe submergia da angustia e se concentrava apenas em fitar você.
Eram momentos difíceis de acontecer. Raros. Hoje você tem plena ciência do quanto a agonia consegue ser sufocante.
Dentre os muros deste lugar, o tempo escorre feito cimento.
Aquela fora a última conversa que tivera sobre ela com qualquer pessoa. Aquela fora a última conversa que tivera com seu pai lúcido.
A visita de seus avós e dos pais de seu amigo eram o ponto alto de cada mês, ainda mais para uma criança já acostumada a estar rodeada de dor e lamento. Você notava que seu pai falava tanto com os visitantes mensais quanto falava com você todos os dias – o equivalente a quase nada. Há muito ele havia desistido. Há muito ele evitava te olhar, com receio de voltar atrás com a decisão que secretamente havia tomado.
Seu pai vivia uma rotina de profunda tristeza, ainda que tentasse disfarçar quando te via. Vivendo naquela casa, você tinha tempo e oportunidade o suficiente para observa-lo durante suas longas crises depressivas, ouvindo-o balbuciar perdões e suplicas.
Estava acostumado a vê-lo chorar, mas sempre doía no seu coração de menino.
Você nunca imaginaria que o velho soturno sempre afogado em seus blocos de rascunhos de poesia e centenas de guimbas de cigarro eventualmente se sentiria no direito de findar a vida miserável de sua mãe. Seu pai achava estar executando um ato de misericórdia. Talvez fosse.
Dentre os muros deste lugar, o tempo escorre feito cimento.
Pouca coisa havia mudado nos aposentos dela – ainda pálida, fria, aparentando uma carcaça sem vida. A única coisa que diferia era a presença de seu pai, com as mesmas características, ao lado dela. Apesar de muita semelhança com o comum, você sabia que algo estava errado. Apesar de ainda ser um moleque, você sabia que precisava fazer alguma coisa.
Mas você não entendia aquela dor não-física ao observa-los ali, o luar acentuando o arroxeado de suas peles. Você não ousou tocá-los. Você não ousou chama-los.
Você já sabia.
Antes mesmo de seus pais morrerem, você já estava abandonado.
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