Rising Tide
7 Respostas
Notas iniciais
RESPOSTAS
POV Jack
— Filho da puta!
Minha gargalhada alta foi a resposta para o xingamento de Kristoff – que nesse momento se ocupava em limpar os olhos, depois de ter batido no próprio rosto com a mão cheia de chantilly, colocado ali por ninguém mais ninguém menos que eu mesmo enquanto ele dormia, certificando-me de depois cutucar a ponta de seu nariz com uma pena arrancada do espanador.
— Seu maior erro é cochilar na minha presença.
— Você não estava em casa, seu desgraçado!
— Para a sua felicidade, cheguei. – joguei as chaves da moto no balcão e larguei-me sobre o sofá vago apoiando os pés na mesinha de centro, com um sorriso imenso, apreciando bastante sua irritação. – Flynn?
— Já foi.
— E você?
— Não tá vendo? – afirmou óbvio, levantando para limpar o rosto na pia do banheiro, puto da vida. Dei uma risadinha. – Não irei hoje. Tô cansado. – afirmou ao retornar, jogando-se debaixo das cobertas no sofá novamente. – Só quero dormir.
— Dormir pra esquecer as tretas, quem nunca?
— Jack, admita... – dizia Hiccup, fechando a porta atrás de si. – Ela está diferente. Você viu.
Dei um suspiro cansado, esforçando-me para não revirar os olhos. Foi a vez de Kristoff rir da minha cara, já sabendo do que se tratava.
— Se me permite dizer, jovem Bjorn... – virei-me minimamente para encarar-lhe o rosto. – Eu não vi nada muito diferente do que ela sempre mostra.
— Que seria?
— O interesse medíocre que ela tem em você.
— Sua sinceridade é comovente. – revirou os olhos.
— Sou seu melhor amigo, cara. Tenho que te falar a verdade, mesmo as que você não queira ouvir.
Em questão de intelecto, Hiccup é sem sombra de dúvidas o mais inteligente do nosso grupo. O cara é um gênio com seus reles 21 anos e conseguiu brincando uma bolsa pra Harvard, mas decidiu vir pra Oxford só para nos acompanhar mesmo.
Mas evidentemente, pra outras coisas ele é muito burro. Chega a ser... qual a palavra mesmo? Ah, sim, lamentável.
Já conversei com ele, aconselhei a partir pra outra. Na verdade, faço isso sempre. Mas o desgraçado é cabeça dura e eu não tenho muita paciência tampouco fé no percentual da humanidade que curte um sentimentalismo – deploravelmente, Hiccup faz parte dessa estatística.
— E aquela ruiva, ein? A que me ajudou durante a treta com deusa guerreira do Kristoff. Simpática ela. Engraçada também. E linda pra caralho, aliás.
Ok. Me recuso a desistir do meu amigo. Nunca fui um fácil desistente. Meu nome é Jackson Frost, não bagunça, porra.
— Ah, a Merida. – ele sorriu. – Ela é engraçada. – crispei o olhar para o sorrisinho bobo que ele dera. – Mas o que tem ela?
— Nada. Só estou dizendo. Ela parece ser interessante. Não acha, não? – indaguei, tão sutil quanto uma tijolada na cara.
Ele pareceu pensar por dois segundos.
— Ela é ótima... – respondeu, dando de ombros. – Mas estou tentando me acertar com Astrid e você sabe.
Não consegui evitar a debochada revirada de olhos.
— Que perda de tempo.
Ainda que eu não tenha visto sua feição, tinha certeza de que ele não gostara de ouvir aquilo.
No tempo que Flynn e Kristoff são parecidos em muitos aspectos – e não estou falando de semelhanças físicas – eu e Hiccup não temos absolutamente nenhuma semelhança, é incrível que sejamos melhores amigos, mas exatamente por isso conversamos mais. E por sermos amigos desde que me entendo por gente, ele tem plena noção da minha antipatia com a ideia de ele manter essa esperança cega em Astrid.
O complicado disso tudo é o fato de ele tentar, de todas as formas, reverter essa condição – justamente por eu ser seu melhor amigo, eu acho.
Sempre me deixando a par de tudo o que ela lhe diz quando estão juntos – nada que me impressione. Eles vivem se agarrando sempre que pode, sempre que dá – e sempre dá – sendo que para Hiccup é diferente.
Astrid é uma garota legal, mas para a infelicidade de Hiccup, ela não quer ficar com ninguém. Não consigo recrimina-la pois compreendo totalmente seu ponto de vista. Ela quer aproveitar o melhor da vida, sem compromisso, fica com uns caras aqui, outros ali, e tá errada? Claro que não.
Se eu faço o mesmo com as mulheres, porque critica-la por fazer o mesmo com os homens?
Hipocrisia não é bem a minha sina, então jamais irei condena-la, principalmente por dispor os mesmos conceitos que eu.
Astrid deixa claro para Hiccup que não quer esse tipo de relacionamento. Mas meu melhor amigo é exatamente o cavalheiro dos sonhos que te propõe aliança e relacionamento sério – coisa que ela quer distância.
Eles já se afastaram inúmeras vezes por perceberem ter conceitos bem diferentes, mas sempre voltam a ficar pois o tesão fala mais alto.
Agora vamos ao motivo da minha aversão.
Astrid é possessiva. Ponto.
Deixa claro a todos que não quer Hiccup e deixa mais claro ainda que não quer Hiccup com ninguém – além dela. Nesse âmbito, eu me sinto livre para condená-la da forma que bem pretendo.
Além do mais, ela tem plena consciência do quão Hiccup é louco por ela e não poupa investidas para mantê-lo atado a esse amor cego. Motivo pelo qual eu não me impressiono com nada que ela possa falar ou fazer – e que Hiccup insiste em me manter ciente. Simplesmente não me convence.
— Você não acredita que seres humanos possam amadurecer com seus sentimentos eventualmente?
— Eu acredito que os seres humanos fazem o possível para manterem a vantagem que têm sobre os outros.
— Ao contrário de você, as pessoas crescem e mudam.
Eu ignorei completamente essa sua tentativa de me ofender. Sei que está irritado. Não lhe darei a discussão que tanto quer agora e se arrependerá mais tarde.
— Já ouviu aquele ditado que diz “quando um não quer, dois não brigam”? – indaguei com uma ironia que pareceu irrita-lo ainda mais.
A frase se aplicava convenientemente a situação dele com Astrid também. E eu nem fiz de propósito.
— Desisto de tentar conversar contigo. – ele expôs, puto.
— Devo pedir perdão por estar cansado de assistir você lutando por esse pseudo-relacionamento sozinho?
— Você só enxerga as partes que lhe convém!
— Nada nessa merda me convém! – minha voz se elevou sem que eu pudesse conter. – O que seria conveniente para mim em ver meu melhor amigo virando brinquedo em mão de mulher?
— Seu ego ferido. Como eu suspeitava. – ele riu sem humor, negando com a cabeça. – Seu melhor amigo apaixonado te envergonha, Jack?
— Ah, francamente, Hiccup. Não é possível que você seja tão burro. – massageei entre os olhos. – Você sabe que estou certo, só o que te falta é vergonha na cara para admitir, mas infelizmente, me ouvir é uma tarefa árdua demais para você, então vá. Continue tentando. Faça o que você quiser. Continue insistindo, mesmo sabendo que ela quer com você o mesmo que eu quero com qualquer mulher: putaria e apenas isso.
Me afastei, seguindo para o meu quarto tendo a certeza de que havia feito exatamente o que não pretendia. Parei em frente à porta, dando um longo suspiro.
Eu sabia que seria o primeiro a me arrepender de tudo o que disse.
***
Assim que desço da moto, me sinto estranho por ter chego tão cedo na faculdade.
Mais estranho ainda é olhar pro lado e ver Flynn saindo do seu carro, alarmando o Range Rover assim que Hiccup sai pelo lado do carona, seguindo em direção a entrada do prédio sem nada dizer.
Hiccup está puto desde a conversa que tivemos.
Kristoff não comentara nada comigo posteriormente, como sempre, mantendo-se imparcial acerca desse assunto por motivos óbvios: o estoque de paciência dele é ainda mais limitado que o meu.
Flynn já sacara que há algo acontecendo, mas não perguntara nada, pelo menos não a mim.
Não posso negar que essa situação me deixa péssimo. Me sinto um otário por ainda me importar.
Eu deveria largar de mão para ver se ele cai na real. Mas já fiz isso antes e não deu certo.
Tô puto por ele insinuar aquela merda? Estou. Tô errado em me meter nos assuntos dele? Pra caralho. Vou parar de me meter? Sem chance.
Já disse que me recuso a desistir dos meus amigos. Me chame de Naruto.
Com uma manobra bem perigosa, um carro preto e muito familiar cruzara o estacionamento ruidosamente. O Corvette acelerou na nossa direção, estacionando bruscamente na vaga ao lado do carro de Flynn. Todos no estacionamento olhavam o possante.
Dei um sorrisinho de lado.
— Você sabe mesmo fazer uma entrada triunfal.
Kristoff saía do carro, terminando um cigarro entre os lábios. Revezei o olhar entre os dois únicos alunos que eu tinha certeza que não deveriam estar na faculdade tão cedo.
— Finalmente, vão me explicar por que caralhos estão aqui?
— Preciso resolver uma coisa. – falou o Bjorgman, dando sua última tragada.
— “Resolver uma coisa”? – arqueei uma sobrancelha. – Sei que nunca te pediria isso, mano, me divirto com suas empreitadas, mas sério... chega de treta esse período, namoralzinha.
— Não adianta. Ele não escuta ninguém. – dizia Flynn, massageando entre os olhos.
Kristoff nos observou e deu um sorrisinho de lado muito suspeito.
— Não farei nada demais. – e saiu, jogando a guimba longe.
— Acredita nele? – indaguei a Flynn.
— Não.
— Nem eu.
Já até simpatizei com algumas daquelas meninas. Tive a oportunidade de conversar com a ruiva doidinha do Hiccup e a loira que tenta o Flynn seguidas vezes e, ainda que me estranhe admitir, gostei delas.
Simpatizo com o fato evidente delas serem completamente diferentes umas das outras – sendo, ainda sim, melhores amigas. Me faz lembrar parcialmente da minha amizade com Flynn, Kristoff e Hiccup.
As únicas que eu ainda não tive a oportunidade de conversar foi Anna, a baixinha durona do Kristoff, e ela.
O fato de eu ainda não saber seu nome não me surpreende. Mas uma coisa eu pude perceber, sem intenção nenhuma, claro: ela está sempre ocupada. Parece sempre estar fazendo alguma coisa, sempre concentrada, sempre apressada, sempre estressada. Me sinto cansado só de olhar pra ela.
— Te avisei pra ficar na sua. – Flynn falou de repente e eu sabia que ele estava se referindo ao modo como Hiccup estava estranho.
E acho que até ao modo como eu estava agindo também, feito um babaca sentimental.
Como eu suspeitava, ele já sacara. Essa minha opinião sobre o “relacionamento” de Hiccup com Astrid não é segredo pra ninguém.
— Não quero falar sobre isso. Temos coisas mais importantes pra nos preocuparmos.
— Que seria?
— A cerimônia de iniciação do Medina.
Flynn deu um sorriso diabólico. Adorava planejar as cerimônias de iniciação do Phoenix— sempre acabava em orgia.
— Há mais uma coisa que me preocupa no momento.
— Já contatei dois dos melhores da equipe para averiguar a cerimônia, fica frio. – ele garantiu e, ainda que não fosse esse o motivo das minhas preocupações, dei um sorriso.
Mas esse mesmo sorriso foi sumindo antes que eu pudesse continuar.
— Eu vi o requerimento de transferência sobre a escrivaninha do Kristoff. – comecei, ainda pensativo, lembrando de determinado momento no dia anterior em que fui ao seu quarto para pegar o PSP. – Ele não estava vindo à faculdade para fazer requerimento de extensão porra nenhuma, durante todo esse tempo o plano dele era voltar para Noruega. – Flynn me encarou de soslaio, mas sua feição não dizia absolutamente nada. De maneira surpresa, crispei os olhos na sua direção. – É claro que você sabia.
— Sim. – confirmou simplesmente. – Eu ia com ele.
Não consegui evitar franzir o cenho.
— Vocês são dois filhos da puta.
— Fica frio, Frost.
— Vá se foder, Rider, não me pede pra ficar frio! – minha voz elevou uma oitava sem que eu pudesse me conter. Respirei profundamente, evitando fita-lo. – Como não percebi isso? – murmurei para mim mesmo.
— Fomos muito meticulosos. – ele admitiu. – Até demais, principalmente por causa de você.
Dei uma curta risada sem humor. – Eu deveria me sentir lisonjeado quanto a isso, boneca?
— Com toda certeza. – respondeu no mesmo instante. – Há tempos não sou forçado a me empenhar tanto.
Revirei os olhos, ainda que aquilo me agradasse.
— Achei que tinham parado com essa palhaçada de querer fazer tudo sozinho.
Havia um desgosto insuportável na minha voz e eu quis socar minha própria cara por estar parecendo um babaca sentimental mais uma vez na semana.
— Tentei fazê-lo mudar de ideia. – começou ele, antes de eu fita-lo de soslaio, percebendo que ele já encarava outro ponto. – Mas você o conhece, sabe que é difícil dissuadi-lo de qualquer coisa. – crispei os olhos, ainda estranhando o fato de presenciar Rider se explicando, o que era uma situação inédita, deveras rara. Nunca aconteceu antes. – Kristoff estava firme na ideia de que tinha de voltar para a mansão dos pais, que era completamente capaz de... – deixou por terminar ou não soube como completar.
Percebi que o assunto era desconfortável tanto pra ele quanto pra mim, pois no segundo seguinte notei não estar mais irritado. Pude compreender a situação no mesmo instante.
— Você não queria deixa-lo ir sozinho.
Flynn anuiu depois de uns segundos, ainda sem me encarar.
— Mas nós não vamos mais. – ainda que aquilo me aliviasse minimamente, não demonstrei. – Diga-me em que condições estavam aquele requerimento.
Demorei dois segundos para responder.
— Rasgado.
— Sim, pois ele mudou de ideia. – deu um sorrisinho de lado. – Magicamente.
Um sorriso maldoso se fez nos meus lábios com satisfação. – Essa mágica tem nome próprio.
— Com toda certeza.
Não conseguimos evitar a risadinha.
— Você contou para o Hiccup? – ele indagou depois de uns segundos. Eu neguei. – Bom. Hiccup já tem muito com o que se preocupar.
Aquilo era um fato.
Conversamos poucos minutos sobre isso no estacionamento, aguardando o horário de entrada, e eu me senti desconfiado por ele ainda estar na faculdade sem motivo aparente – ainda mais, pelo horário. Me perguntei internamente se ele tinha alguma coisa relacionado ao que Kristoff viera “resolver”.
O estacionamento estava como sempre esteve: cada grupo perto de seus carros, exatamente como nas cenas de filme clichê adolescente. As dalilahs, que eu e Flynn já havíamos notado que não paravam de nos olhar, estavam encostadas no carro de uma delas e conversando provavelmente sobre algo irrelevante. Os amigos de Hans encostados em um Bravo Sporting branco, aparentemente esperando por ele. A nossa frente, os phoenix nos esperavam encostados a pick-up preta de Eret.
E apesar de estarem todos bem distraídos, a atenção voltada para o Audi A7 vermelho que cruzava o estacionamento fora geral.
O carro foi dirigido até uma das últimas vagas e do mesmo saiu a loira gostosa que Flynn quer pegar – e ao dar uma breve olhada em volta, percebi que ele não era o único.
Estava sozinha, o que era incomum. Pelo que pude perceber nas últimas semanas, não vê-la com seu esquadrão era coisa rara. O som dos seus saltos batendo no asfalto do estacionamento eram frenéticos enquanto ela desfilava em nossa direção – devido a vaga na mesma fileira que a nossa.
O estacionamento estava cheio e, enquanto ela passava, eu conseguia discernir claramente assobios e cantadas toscas vindo dos demais males clubs, que ela ignorava claramente. Bullers e gavs mantinham-se calados em seus estados normais de desprezo ao próximo, mas não conseguiam evitar encara-la.
Quando ela finalmente passou por nós, fitou o rosto de Flynn e virou a cara como se ele nem estivesse ali. Olhei para o rosto do meu amigo, que exibia um sorrisinho de lado e o olhar crispado de quem planeja as coisas mais sórdidas. Cheguei a temer pela loira a minha frente.
Que inclusive me fitou e falou naturalmente:
— Bom dia, Jack.
— Barbie. Bom te ver. – sorri quando ela fitou Flynn, revirando os olhos e tornando a caminhar em direção a portaria de entrada.
Pude ouvir um risinho vindo de meu amigo. Até me assustei.
— Eu estranhamente gosto dessa garota.
— É isso que me assusta. – proferi com sinceridade.
Era evidente que a Barbie conseguia tira-lo de seu estado normal, de maneiras absurdas. Ela sabe como provoca-lo, mas se tem uma coisa que nunca presenciei na vida foi Flynn se dá por descontrole. Dá pra contar nos dedos alguém que já o tenha visto exaltado. É o homem mais centrado e sério que já conheci – e perverso, meticuloso e calculista na mesma intensidade.
Ele não me respondeu, depois de longos segundos em silêncio enquanto ainda acompanhava os passos da loira seguindo para longe. Ao me encarar novamente, seu olhar pretencioso só confirmava minhas suspeitas antes dele sorrir e partir na mesma direção em que ela havia sumido.
Suspirei alto. A paz não dura muito tempo quando a treta é com Flynn ou Kristoff. Tenham sempre isso em mente.
POV Rapunzel
Passou segunda-feira pra mim e já começo a fazer contagem regressiva pra sexta, porque a vida é assim: objetivos.
E hoje eu vou descansar. Não que meu trabalho canse – a gente nunca cansa quando faz o que ama. Mas infelizmente, não nasci sendo a mulher maravilha – mas bem perto disso. Trabalhar e estudar, cansa sim.
Apesar de termos ficado bem apreensivas, Anna se adaptou bem ao emprego dela – porém vez ou outra se pega batendo boca com algum cliente abusado. Mas por enquanto, não ocorreu nada sério. Já na faculdade, ela e o loiro vivem trocando farpas nas poucas vezes que se veem.
Desde que recebi uma carta sendo convidada para me tornar membro do Dalilahs Club e recusei prontamente, as garotas que constituem esse clube passaram a me encarar com certa antipatia – tive certeza disso quando passei pela patotinha delas no estacionamento. Pelo visto, a recusa é um ultraje para essas garotas. Que pena, pensei rindo.
Péssimo dia para resolver tirar uns minutinhos extras de soneca antes de vir para faculdade – acabei chegando sozinha e dando de cara não só com a brigada de quengas, vulgo dalilahs, como também com Flynn, o moreno sedução que nada mais tira da minha cabeça que ele é do vale.
Passando pelo estacionamento, respondi aos cumprimentos dos meninos educados, cumprimentei Jack, dei aquela ignorada básica de todos os dias em Flynn e fui direto para o meu armário.
Precisava pegar logo minhas coisas, pra dar tempo de pelo menos falar com as meninas antes de ir pra aula. Pus a senha, destravei a pequena porta e, apressada, fui pegando os materiais necessários para a próxima aula e jogando na mochila, junto do notebook.
Assim que terminei, fechei a porta do armário e fui andando em direção ao pátio, que era onde provavelmente as meninas estariam, naquele banquinho.
Enquanto atualizava meus stories, não consegui ignorar a sensação esquisita. No meio do corredor, eu parei, olhando em volta, sentindo estar sendo observada. Estranho. Não há ninguém aqui...
Não, espera. Havia alguém sim. Encostado em um dos armários.
Flynn estava com os braços cruzados, enquanto me encarava exibindo um olhar meticuloso.
— Pois não, coração? – ele arqueou uma sobrancelha. – Está perdido?
— Não respondeu minha mensagem.
— Desculpe, que mensagem? – fiz a sonsa claramente e ele permaneceu me encarando sem me responder. – Deve ter se perdido na caixa de entrada, amado. Sabe o que dizem das garotas desinteressantes filhas de magnatas do mundo da moda, né? Elas sempre têm um furo a dispor, os colunistas caem matando.
— A mensagem está visualizada.
— Você jura? – ele não respondeu, mas umedeceu os lábios antes de abrir um meio sorriso. – Então é você o Fred?
— Flynn.
— Mil perdões, Fred. Você não vai acreditar, acabei dormindo.
— Por duas semanas.
— Eu tenho um sono muito pesado. – abri um sorrisinho evidentemente falso.
Diferente do que supus, ele não pareceu irritado – chegando até a sorrir mais abertamente com a minha audácia.
— Quando mudar de ideia, me responda.
— Ok, Fred. Vá para casa e espere sentado. – fiquei encarando seu rosto calmamente, as sobrancelhas erguidas.
O olhar crispado que gritava pretensão mantinha-se intacto em seus traços firmes, então eu quase não consegui notar a surpresa em seu olhar.
Em meu completo estado de franqueza, eu admito aqui que é claro que já havia ouvido falar desse rapaz antes – além do sobrenome dele estar na fachada do hospital local, não só ele como seus outros três amigos são membros de um dos males clubs secretos mais notáveis de Oxford – o Phoenix Club.
Eu me mantenho sempre muito bem informada sobre tudo – de interessante, claro.
Enquanto que os Estados Unidos possuem suas fraternidades, a Inglaterra possui os clubes secretos – popularmente chamados de dinner clubs ou drink clubs.
Os clubes secretos de Oxford não se limitam apenas aos prestigiados Bullingdon Club e Piers Gaveston Society.
Fundado a princípio como um clube de críquete e corrida, o Bullingdon Club, a sociedade mais notória de Oxford, já foi inclusive inspiração para um filme. Mas a sociedade Piers Gaveston vem aos poucos tomando o seu lugar de clube mais prestigiado do campus.
De qualquer forma, ambos os clubes são conhecidos por serem clássicos, onde se concentra os alunos mais ricos e requintados que desfrutam das regalias de serem também muito bem vistos pelo corpo docente. Suas festas, que no geral são poucas, são as mais fartas – os melhores canapés, as melhores bebidas, as drogas mais puras, os melhores DJs e atrações, grandes orgias muito bem organizadas. Os buller e gavs— como são chamados os membros – são conhecidos por vestirem-se no melhor estilo executivo: terno, gravata ou blazers. São, normalmente, mais sérios que os demais membros dos outros clubes, além de serem aqueles que desprezam os alunos bolsistas e de vida mais simples – o que já revoga qualquer outra qualidade que eles possam vir a ter. São os queridinhos das moças mais poderosas de Oxford, isso até o quarteto divino tomar a liderança do Phoenix Club, trazendo a atenção de todo o campus para si.
Para cada sociedade masculina de Oxford, há geralmente uma rival feminina. E dessas, o mais notório e ultrajante é o Dalilahs Club, óbvio.
Quando adolescente, eu sonhava em ser admitida em Harvard com o único intuito de entrar para a irmandade Kappa Kappa Delta, mas depois que soube que havia um clube secreto feminino em Oxford que seguia a mesma premissa que a fraternidade americana, passei a ter um novo objetivo.
É uma pena eu ter me decepcionado quando me dei conta de que as dalilahs não eram exatamente como imaginei que seriam.
O clube é estritamente para mulheres, consideradas as mais poderosas de Oxford. São belas, soberanas, possuem classe e uma perfeição ímpar. As mulheres admitidas ali são as que possuem uma beleza exuberante, mas se limita a apenas isso. Foi essa futilidade que me desanimou. Nos primórdios, o clube foi fundado por três loiras que tinham como objetivo laçar os caras mais ricos da faculdade. Costumam se relacionar apenas com os buller e gavs, pois assim como seus parceiros, desprezam os que consideram ser ralé, mas desde que os phoenix passaram a chamar atenção mesmo não tendo toda a classe e riqueza dos seus rivais, elas vêm mudando de time – ainda que determinados preconceitos permaneçam enraizados na mente arcaica da maioria delas.
Não há quem não olhe para as dalilahs quando elas passam.
Uma pena, para elas, que isso tenha mudado desde que cheguei com as minhas amigas.
O clube feminino que ouvi falar a pouco tempo e já gostei principalmente por nutrirem certa rivalidade com as dalilahs, são as particularmente enérgicas sluts— sigla para o nome inteiro do clube, que é Somerville Ladies Ultimate Tequila Society. Já amei pela criatividade do nome. E por mais que não sejam tão requintadas quanto as dalilahs, são conhecidas por serem charmosas, inteligentes e divertidas. Não fazem questão de regalias e são bem sociáveis com todos. Costumam marcar presença entre os phoenix, principalmente por manterem assídua amizade com os membros – mesmo quando não se envolvem sexualmente.
E agora, o famigerado Phoenix Club, que é, em poucas palavras, a ovelha negra do campus.
Considerado o clube mais “americanizado” de Oxford, a princípio, tratava-se apenas de atletas que se juntavam semanalmente para discutir estratégias para as próximas partidas de hóquei e futebol, até tornarem-se os donos da mansão de corriqueiras celebrações orgiásticas. Sustentam uma rivalidade principalmente com os buller e são conhecidos por quebrar as regras impostas no campus e em qualquer lugar. Costumam dar muitas festas, sendo todas as melhores e regadas a orgia – depois da nomeação do atual presidente do clube, essa condição só veio a se reforçar. É hábito eles roubarem toda a diversão que os buller tentam dispor em suas festas – além também de roubar suas mulheres. As mulheres que se envolvem com os phoenix são aquelas que priorizam uma noite mais ousada e divertida, diferente do que teriam caso optassem pelas festas regadas à champanhe dos seus vizinhos buller. O que eu acho mais interessante nesse clube são os codinomes com os quais os membros se identificam – baseado em tons de cores.
Embora todos os male clubs envolvam bebidas, mulheres, drogas e orgia, a maioria é bastante sigilosa. Fora os clubes que citei, existem mais uma dezena.
Agora, vamos a questão principal...
Flynn é conhecido por sua beleza, riqueza e indiferença.
Mulherengo e não nega pra ninguém, nem para as próprias mulheres, e chega a ser impressionante o fato de que mesmo assim todas o querem.
Por ser o Golden phoenix do Phoenix Club, a fama que Flynn dispõe me faz ter ainda mais gosto de rejeita-lo. Galanteador nato. Mal-acostumado demais a ter todos aos seus pés. Despreocupado demais para lidar com os sentimentos das moças que ele despreza depois de conseguir o que quer.
Sai fora.
A surpresa em seu olhar está devidamente atrelada ao fato de eu não dar a moral que ele está acostumado a ter.
Mas convenientemente, ele voltou a sorrir.
— Você não precisa ser tão rancorosa.
Eu perdi a compostura por meio segundo ao me dar conta do assunto que ele se referia.
— Não sei do que está falando.
— Ainda magoada com o que eu te disse?
Nem pisquei antes de responder.
— Ainda magoado por eu nunca ter ouvido falar de você?
O sorriso de canto que ele exibia intensificou-se antes de ele desencostar do armário, caminhando em minha direção enquanto punha as mãos nos bolsos do casaco.
Eu sempre me considerei uma mulher alta – sempre tive plena certeza disso por ser o único requisito que comprova o fato de minha mãe ter me permitido desfilar com suas peças outrora.
Mas no instante que ele parou, bem na minha frente, e fui obrigada a olhar para cima, eu me perguntei se em todos esses anos eu estive louca e imaginando coisas.
— Não deveria se ofender com o que não é verdade. – com a voz baixa pela proximidade, ele disse num tom sério, o olhar fixo nos meus olhos.
E embora eu me sentisse nervosa pela repentina e perigosa aproximação, minhas sobrancelhas mantinham-se erguidas, demonstrando uma calma ultrajante.
— Não estou ofendida.
— Mas está na defensiva.
— Francamente, você esperava o que?
— Sendo sincero, eu esperava exatamente isso.
Não soube o que pensar quando ouvi aquilo, mas mantive em meu semblante aquela falsa indiferença.
A sensação que tenho, no entanto, é que Flynn é capaz de perceber qualquer blefe meu. Eu nunca sei quando consigo afeta-lo com meu deboche ou não, quando consigo irrita-lo com meu cinismo ou não, ele é simplesmente perfeito na arte de demonstrar o mais absoluto nada.
E antes que eu pense em me afastar dele, Flynn antecede esse meu pensamento, não sem antes encarar meus lábios com os olhos crispados e um sorriso cretino.
Simplesmente, se retira, seguindo num caminho oposto ao meu.
Me deixando atordoada no meio do corredor.
POV Hiccup
Estava sentado em frente à sala da próxima aula, sozinho. Entre uma pilastra adornada de formas simétricas e uma abertura que dava plena visão a um dos jardins do campus.
Apenas eu e meus fones de ouvido. Round & Round do Imagine Dragons no último volume.
As árvores floridas me faziam contar os dias, involuntariamente, para a chegada da minha estação do ano favorita – aquela em que as folhas douradas caem de seus galhos enegrecidos.
Ainda assim, me via absorto do que se passava em volta. Vez ou outra olhava o relógio, checando se já era a hora de entrar em sala, mas ainda faltava muito para a aula começar.
Venho pensando nas palavras de Jack desde o ocorrido.
Odeio quando ele está certo.
Ele acha que eu não vejo que ela não quer nada sério comigo e nem com ninguém. Eu não sou cego, merda, só me faço. Não é tão fácil assim desistir de quem eu amei desde sempre.
E mesmo que durante a semana eu tenha retornado a boate para tratar de negócios com Aster, meu mal humor conseguia ser sentido há léguas.
Aster me contratou temporariamente para ajudá-lo na boate. Além de ser um homem responsável, Aster é um amigo e tanto, uma pessoa a qual estimo em demasia. Será um bom patrão.
Administrar a boate é coisa fácil – e de certa forma distrai minha mente.
Nem mesmo ao conseguir finalmente o cargo que tanto visei, pude me sentir verdadeiramente pleno.
Pois é quase impossível não pensar no que mais vem latejando na minha cabeça.
Astrid.
Sempre que chego do expediente e assim que coloco a cabeça no travesseiro, os pensamentos – que eu empurro para o lugar mais obscuro e escondido da minha mente durante todo o dia – brotam dos confins da minha psique, não me deixando dormir.
Eu não sei o que fazer.
É difícil não ter respostas para perguntas aparentemente tão simples.
Logo eu, com todo esse intelecto, sou tão ignorante para assuntos do coração. Assuntos do meu coração. Quando se trata das outras pessoas, sei aconselhar, conversar. Se tratando de mim, eu só sei que nada sei. Ri sozinho com essa ironia.
Uma cabeleira ruiva, que parecia desorientada, chamou minha atenção e me conectou ao mundo novamente – pois até então, eu estava viajando nos meus pensamentos.
Ela andava pra lá e pra cá, lendo as placas de orientação no corredores e os números nas portas das salas de aula.
— Cabelos em Chamas, o que faz aqui? – indaguei. Chama-la assim, se tornou um hábito.
— Ah, oi Hic... – coçou a cabeça, parecia perdida. – Aqui é o bloco de ciências exatas? – indagou, enquanto lia uma placa.
— Sim.
Apontou para a porta da sala. – E é aqui que terá a aula de Astrofísica?
— Não.
— Ah, cu.
— Teremos aula de Estatística aqui. – falei, me levantando e indo até ela. – Quem de vocês está cursando Astronomia?
— Anna.
— Puta merda. – não consegui evitar sorrir de nervoso. – Isso vai ser muito interessante. – a feição confusa de Merida era adorável. Dei um sorriso de lado, mudando de assunto. – O laboratório de Astrofísica fica aqui perto, quer que eu te leve lá?
— Não precisa se preocupar, milorde.
— Não seria incômodo nenhum, acredite.
Ela me analisou por poucos segundos até me indagar algo que me deixou verdadeiramente desconcertado.
— Você está bem?
Droga. Meu desânimo está tão evidente que até Merida está percebendo. As noites de insônia não estão ajudando.
— Eu... é claro. Por que? – ela permaneceu me encarando, mas seu olhar era inocente. Não parecia estar caçando nada, apenas querendo ajudar. Dei um longo suspiro. – Ok, nem tanto.
— O que houve? Dor de cabeça? Insônia? Desilusão amorosa?
— Os três.
— Por R’hllor. – arquejou, genuinamente preocupada. Dei um risinho.
— Na verdade, são algumas preocupações que venho tendo... – observei melhor meu argumento. Não eram apenas preocupações. – Ou só a incapacidade de achar respostas.
Ela me puxou para sentássemos no mesmo lugar onde antes eu estava.
— Pode começar.
Me surpreendi com a forma como me escancarei feito um livro aberto para Merida.
Contei minha história com Astrid. Contei minha discussão com Jack. Contei até meus traumas, porra.
Ela tem uma áurea natural que te faz sentir confortável, isso chega a ser perigoso pra alguém fácil de levar feito eu. Só sei que não estou reclamando e nem pretendo.
Eu precisava disso.
Primeiro, comecei dizendo que meus sentimentos por Astrid persistem desde o fundamental.
Gostei dela a minha vida inteira, pois crescemos no mesmo bairro. Porém, apenas no ensino médio vim a conversar sobre isso com meus amigos.
Ela gostava de Jack, assim como todo o resto das garotas da escola. No ápice da adolescência, Jack me ajudava e me dava concelhos para conquista-la, eu era tão ridículo. Jack nunca se envolveu com Astrid, por sempre ter ciência dessa minha paixonite por ela.
Ela só veio se interessar por mim no fim do ensino médio, quando enfim, eu amadureci e parei de correr atrás.
Me vi mais focado e não era nela. Concentrei-me no meu futuro, nos meus assuntos. Sempre tive esse tipo de pensamento, distrair a mente é o melhor a se fazer quando algo o está desagradando.
Desde então, ela passou a me dar uma atenção. E eu, como gostava dela, cedi a tentação.
Meus sentimentos por ela sempre foram sérios.
Sempre a tive como alguém importante na minha vida, não como mais uma que eu fico aqui ou ali. Mas para ela, é exatamente isso que eu sou.
O problema não é comigo, disso eu tenho certeza. Não é que ela não queira um relacionamento comigo. É que ela não quer um relacionamento com ninguém.
Contei a ela que Jack fica puto sobre isso. Contei também sobre a conversa que tivemos, que já não nos falamos direito tem semanas e mais umas outras coisas.
— Sei que tudo o que ele faz, é pelo meu bem, mas... – suspirei. – Eu insinuei que ele tinha vergonha de mim por causa do Phoenix Club mesmo sabendo que ele pouca se importa com essas merdas.
— Tenho certeza que ele não levou para o coração, Hic.
— Espero que esteja certa. – neguei com a cabeça. – Eu fui um imbecil. Mas ele não pegou leve comigo, mas eu sei... – suspirei, reordenando os pensamentos. – Eu sei que mereci. Sei que ele está certo e mesmo depois de tudo, simplesmente não consigo desistir dela assim. E ele não entende o meu lado, droga!
— Não é que ele não entenda. – disse, me fitando. – É difícil, para ele, assistir a pessoa que ele mais considera priorizando alguém que o trata como opção.
Eu a encarei, surpreso.
Estava tão na cara, mas só agora me dei conta do que realmente fui para Astrid esse tempo todo.
Uma opção.
A raiva de Jack se dava a isso. Quem não entendia o lado dele, no fim das contas, era eu.
Não adianta forçar espanto agora, Hiccup. No fundo, eu sempre soube que eu não passava de uma opção. Só não queria acreditar.
Não sou cego, porra, só me faço.
Dei um longo suspiro. Ouvir essas palavras assim, na lata, dói. Mas é uma dor necessária. Fortalece.
Merida ainda me observava. – Vocês são amigos a muito tempo, não são? Você e Jack.
— Desde... sempre.
— Então, é evidente que Jack ama você. – fitei-a e sorri de canto. – Mas voltando ao assunto da Astrid, não acho que ela faça isso por mal. É o jeito dela. Astrid é descolada, dona de si. Dificilmente aceita ser limitada a um estereótipo de “propriedade de homem”, sei disso porque sou amiga de uma pessoa que sustenta os mesmos conceitos e atende pelo nome de Rapunzel. – não consegui evitar a risadinha. – Além do mais... – ela sorriu, com compreensão. – Aposto que é exatamente por isso que você a ama.
Não adiantava tentar mentir para ela. Apenas sorri em resposta.
Ela deu um soquinho no meu ombro. – Não é vergonha admitir. E outra... – aproximou-se e eu me vi fascinado. De repente. Um cheiro gostoso de maçãs envolveu-me e eu não hesitei em inalar com vontade. Ela pôs uma mão rente à lateral dos lábios, como quem conta um segredo. – Já tentou de novo?
A indagação saiu num sussurro. Levei longos segundos para responder. Que cheiro desconcertantemente bom.
— Tentou o que?
Seria o gloss que ela usava?
— Ora, fazer o pedido.
Eu não conseguia parar de olhar seus lábios.
— Que pedido?
Flor de macieira. Chuvas de outono. E algo mais que nunca senti em nenhum outro lugar...
— O pedido, bobo.
Achando graça, ela fechou os olhos ao dar um risinho fofo, negando com a cabeça. Foi quando percebi que aquele cheiro delicioso vinha dos seus cachos.
Instintivamente, me aproximei, querendo mais.
— Eu... – puta que pariu, ela é muito cheirosa. – Não tô entendendo.
Quando tornou a me fitar, por um segundo pareceu espantada.
A distância entre nós havia diminuído significativamente.
Me afastei antes que fizesse a besteira que estava impulsionado a fazer.
— Quero dizer... – ela piscou seguidas vezes antes de continuar. – Quem sabe, ela não mudou de ideia e só está esperando você dar o primeiro passo novamente. Já fez o pedido?
O assunto pareceu desestabilizar minha concentração do cheiro bom de seus cabelos e me trazer a realidade novamente.
Neguei com a cabeça. – Não sei não, Cabelos em Chamas...
— Não custa tentar. – disse, dando uma piscadela.
Pude sentir, com pesar, a chama da esperança se acendendo no meu coração novamente. Gemi em frustração, me sentindo um bosta. Joguei-me para trás, apoiando-me na pilastra e fitando o teto, sem forças para tentar reter a vontade de seguir com sua sugestão.
— Não faz isso comigo. – pedi, cansado, para ninguém em específico.
— Olha, eu sei que o seu coração já está muito ferido... – Merida começou, genuinamente preocupada. Eu não a fitava. – Mas nunca algo foi conquistado nessa vida sem que houvesse tentativas.
— Acontece que eu já tentei. Demais.
— Você tem razão. Tente agora novamente e decrete que será a última vez.
Eu já estava tão acostumado com a rejeição de Astrid que nem tentei mais conversar acerca disso com ela desde que voltamos a ficar, apenas deixei fluir.
Dei um longo suspiro.
— Vou conversar com ela. E essa conversa, será definitiva.
— Me conte o que foi resolvido depois, sim?
Se Merida nunca tivesse se perdido procurando a amiga, eu ainda estaria aqui sentado, cabisbaixo, sem respostas, firme na ideia de manter essa relação sem futuro algum. Mas, graças as palavras que vieram como um soco na minha cara, eu tomei uma decisão.
Não serei mais um estepe. Basta.
— Patético. – ri sem humor ao murmurar.
Ter sido um estepe por anos é verdadeiramente patético. Mais patético ainda é eu usar esse termo.
— Oi? – Merida indagou, inocente, sem entender nada.
Ri e me levantei. Ela se levantou junto comigo.
— Espero ter ajudado, minimamente.
— Imensamente. – corrigi. – Você me ajudou muito. Obrigado, Cabelos em Chamas. – ela olhou para a minha mão, que estava estendida.
— Que isso, Hic. Sempre que precisar, tô aqui... – apertou minha mão e nesse momento eu a puxei, segurei seu rosto e beijei sua bochecha.
Não vou negar.
Demorei no ato de beijar seu rosto, respirando profundamente seu cheiro bom mais uma vez.
— É provável que eu precise de você mais vezes. – murmurei antes de me afastar.
Ela, que até então estava estática, deu aquela risada gostosa.
O toque das salas soou, comunicando o horário de entrada.
Acenei em despedida e ela me mandou um tchauzinho alegre.
Depois disso, pude estudar tranquilo. Ainda sentia um cheiro bom de maçãs me envolvendo persistentemente.
POV Elsa
Já no intervalo, Rapunzel foi a primeira a chegar no banquinho onde sempre ficamos, nosso ponto de encontro habitual. Merida vinha com Anna logo atrás de mim.
— Vocês acreditam que essa aqui foi me procurar na minha sala hoje de manhã, acabou se perdendo e parando lá no cu de Oxford? – berrou Anna, sutil como sempre.
— Anuncia na TV local também, Anna. Faz o serviço completo. – Merida murmurava, fitando os céus.
— Como assim, Merida? Foi parar aonde?
— Não sei porque a surpresa. É a Merida, gente. Alô! – dizia Rapunzel, num tom óbvio. – Seria estranho mesmo se ela não se perdesse.
— Você me ama por isso, projeto de Cersei Lannister! – esbravejou Merida, dando língua pra Rapunzel.
— É você quem não vive sem mim. – dizia Rapunzel, fitando as unhas.
— Eu me perdi, mas veio a calhar, pois acabei por ajudar uma pessoa nesse meio tempo, ok? – e de repente, Merida estava sorrindo. – Há males que vem para o bem.
A olhamos sem entender. Apesar de que, não havia porque desconfiar. O normal de Merida é querer ajudar os outros.
Anna estreitou os olhos. Antes que eu pudesse cutuca-la e dizer que não havia motivos para isso, percebi que ela na verdade fitava alguém que se aproximava além do ombro de Merida.
Antes que eu pudesse olhar para trás, o sujeito se pronunciou.
— Elsa... – no momento em que reconheci sua voz, um frio percorreu minha espinha. – Podemos conversar?
De repente, me vi sem reação. Petrificada por longos segundos como reação a voz dele. Minimamente, me virei para fita-lo, ainda incapaz de lhe responder.
— A sós, por favor. – ele completou assim que encontrei seus olhos azuis.
A respiração travou em minha garganta. Um calafrio percorreu minha pele. Mas eu continuava estática, incapaz de respondê-lo.
— Ela não vai a lugar algum com você. – Anna respondeu, pois no decorrer dos segundos, minha voz ainda mantinha-se morta.
Embora o olhar de Phillip direcionado a Anna não manifestasse nenhum sinal de desagrado, ele firmou de maneira bem séria.
— Você não mudou nada, Anna.
Engoli em seco, com a sensação estranha de que todo o interior do meu corpo estremecia.
Foi necessário um imenso esforço apenas para que eu conseguisse ajuntar o pouco de forças e autocontrole que não haviam se esvaído com o evidente declínio do meu emocional.
— Ela tem razão. – expus com a voz fria. – Eu não vou a lugar algum com você.
— Dois minutos. – eu ainda o encarava enquanto ele passava as mãos nos cabelos negros. – É tudo o que eu peço.
Contive um suspiro resignado e o encarei sem emoção.
— Qual seria o assunto? – indaguei, ainda que em momento algum tivesse a intenção de acompanha-lo, qualquer que fosse sua resposta.
Não havia como negar. Phillip se retesou antes de responder.
— Nós.
— Me recuso. – levantei-me, pegando meus pertences, pronta para ir embora.
— Elsa...
— Dois minutos para discutir algo que não existe mais é uma potencial perda de tempo.
Próxima o suficiente para sentir um tremor em meus ossos, parei bem ao seu lado, mas ele não ousou me tocar – ciente do mal que me causava sempre que tomava tal decisão.
Concentrada em manter a voz firme, eu não o fitei ao dizer.
— Por favor... – pausei, engolindo um suspiro. – Não me procure mais.
Ele não respondeu e tampouco tentou impedir no momento em que fiz menção de me afastar, sendo acompanhada por minhas amigas, que se mantinham caladas.
Meus passos indicavam determinação, mas por dentro eu estava esgotada – todo o esforço que utilizei só para encara-lo me deixara completamente quebrada, manter-me forte e indiferente diante dele drena minhas energias de uma forma absurda.
Depois de longos metros, permiti-me suspirar. Senti alguém segurar minha mão, que formigava. Era Merida.
— Sabe uma coisa que não faz sentido? – indagou Anna, pensativa.
— A vida.
— Verdade. Mas não é disso que eu estou falando.
— Ela está falando do repentino interesse de Phillip em você. Again. – falou Punzie.
POV Anna
No fundo, todas estávamos com uma pulguinha atrás da orelha, mas insistir no assunto Phillip estava fora de cogitação.
Quando o intervalo terminou, voltamos para nossas salas. A caminho do bloco de ciências exatas, finalmente me permiti pensar a respeito.
Na época do namoro de Phillip e Elsa havia apenas uma coisa que ela desejava: Reciprocidade. Ele foi incapaz de dar a ela.
Nascido em família de militares, Phillip seguia à risca as sugestões do pai machista.
E sabe o que dizem sobre jovens charmosos e populares de cidade pequena? São manipuladores natos. Elsa não merecia aquilo e me dói saber que ela se privou, se doou, se trocou, por tão pouco e por tanto tempo.
É difícil desenganar as esperanças de uma jovem apaixonada, e as esperanças de Elsa estavam todas depositadas em Phillip. E ele as transformou em pó quando fez o que fez.
A pior parte de todo esse circo foi vê-la tentar manter a relação mesmo depois de tudo. Elsa se preocupava tanto com a felicidade dele que se esqueceu da própria. Ela realmente o amava. Chegava a ser triste de ver.
Não demorou para ele terminar com ela depois de ter conseguido o que tanto almejara. Inventou uma desculpa, feito o covarde que é. Elsa é a pessoa mais destemida e orgulhosa que eu conheço e ele foi capaz de humilhá-la.
Sendo ele filho de família influente e o nome mais falado na cidade somando a situação e desculpa para o término, as proporções foram gigantescas. A verdade fora distorcida. Mentiras foram contadas e aumentadas. Elsa fora atacada. Metafórica e literalmente.
Foi o suficiente para arrasar com seu psicológico.
Lembro-me com riqueza de detalhes toda a revolta que senti ao ouvi-la chorando tanto pelo telefone, embora naquela época fosse normal vê-la chorar por ele.
Aquela foi a última vez.
Só é triste ver a forma como ele a afetou a longo prazo.
Além do psicológico abalado, como medidas de defesa auto impostas o coração da minha prima se tornou um lugar machucado, desacreditado e frio. Namoro, relacionamento, flertes, amor – todas palavras raras em seu vocabulário.
Um alívio é saber que ela faz a linha do “não faço com os outros o que eu não gostaria que fizesse comigo”. Ela já sofreu e sabe como dói. Não deseja isso para mais ninguém.
Conversando comigo, ainda naquela época, ela admitiu que se um dia decidir se envolver com alguém novamente precisará ter a plena certeza de que é amada antes de mais nada. Não queria mais passar pela experiência de ser a única a amar em um relacionamento.
Pensar nisso me deixa triste. Odeio lembrar da Elsa daquela época. Que épocazinha filha da puta (?). Empurrei esses pensamentos para o fundo escuro da minha mente, precisava esfriar a cabeça para aula.
Já no bloco de ciências exatas, respirei fundo e continuei a caminhar pelo corredor. Enquanto caminhava, notei alguém alto, parado, a jaqueta negra cobrindo-lhe os braços cruzados... e esse mesmo alguém me fitava.
Franzi o cenho. Será que ele veio tretar? Porque, sinceramente, tô cansada hoje.
— Cara feia pra mim é fome. – proferiu Kristoff, me fitando mortalmente.
— Cara feia pra você, é concorrência. – esbravejei, dando uma risadinha. Ele franziu o cenho. Parei a sua frente com as mãos nos quadris e uma sobrancelha arqueada. – O que faz aqui?
— O que eu faço da minha vida não lhe diz respeito.
Isso, meus amigos, foi um momento Turn Down For What. Acabei de levar uma voadora, não foi nem uma patada.
— Tão delicado quanto um coice.
— Aprendi contigo.
— Você, de fato, é um exemplo de educação.
— Te digo o mesmo.
Que estranho eu ainda não o ter xingado, né? Eis que eu digo, estou tentando mudar.
Sim, desde que Elsa deixou as coisas bem claras a este resto de placenta parado a minha frente, eu venho tentando controlar esse meu jeito impulsivo – tenho até pegado leve com os clientes idiotas do meu trabalho e já vai fazer mais uma semana que trabalho lá sem nada de grave acontecer. É um grande progresso, se tratando de mim.
— Uh, olha só ele fazendo a linha do mafioso de poucas palavras. – fingi um medinho. – Quem vê, até pensa que não agonizou no chão depois de uma joelhada.
Seu olhar semicerrou-se em minha direção e eu sorri com tranquilidade.
— Sabe, eu não gosto de você. – proferiu ele, aproximando-se de mim.
— É recíproco. – falei, naturalmente.
— Bom saber. Torna as coisas muito mais fáceis. – deu um sorrisinho de lado quando percebi que ele estava perigosamente próximo.
Eu devia estar com uma feição confusa, não sei. Alguém sabe o que ele quis dizer com isso?
— Tá tramando, né? – falei, estreitando os olhos. Seu sorriso de lado desafiador intensificou-se ainda mais. – Não é uma boa ideia alertar, sabe? Vai que você é atropelado antes de conseguir seguir com seus planos? Isso seria uma tragédia.
Seu sorriso se desfez.
E embora suas sobrancelhas estivessem franzidas, havia espanto em seu olhar.
Me sinto imensamente admirada por perceber que ele realmente acredita que eu seria capaz de algo assim. Nesse exato momento, estou gargalhando internamente. Bom saber que ele me acha maluca a tal ponto.
Resolvi provocar mais e acrescentei.
— Seria uma coincidência e tanto se eu estivesse dirigindo esse carro. – finalizei, me afastando dele e voltando a caminhar até a minha sala, que já não estava mais tão longe.
— Você não perde por esperar. – ele falou ao longe.
Parei no meio do corredor e olhei para trás.
Ele me encarava e eu tornei a encara-lo também. Ficamos assim por alguns segundos, travando uma batalha para ver quem desviava o olhar primeiro. Eu perdi, pois rapidamente me virei, dando de ombros. Mas por dentro, estava desconfiada. Ele certamente está tramando.
Chegando na minha sala, fui até a minha carteira e me sentei. Ótimo. Agora tenho duas pulguinhas atrás da orelha.
Respirei fundo e contei até dez. Como eu disse antes, preciso esfriar a cabeça para ter uma aula tranquila. Comecei a ajeitar minha mesa quando Tooth chegara para sua aula de Álgebra Linear que ela havia adicionado além da sua grade, sentando-se ao meu lado.
O coordenador Hans entrou na sala e todos fizeram silêncio. Achei estranho ele estar no prédio de ciências exatas, já que não era coordenador dos nossos cursos, mas dei de ombros. Terminei de ajeitar minha mesa e passei a prestar atenção nele.
— Vocês terão um novo colega de classe esse semestre, jovens. – fez um sinal para que o novo aluno entrasse e meu coração falhou uma batida assim que o dito cujo se mostrou presente.
— Não pode ser. – murmurei.
— Ele veio do turno da noite, mas tenho certeza que a maioria de vocês já está familiarizado por vê-lo nas festas dispostas pelos baderneiros do campus. – o outro pareceu encarar Hans com certo desprezo. O coordenador, no entanto, sorriu para ele com tranquilidade.
Percebi que havia certa desavença entre eles e desconfiei que Hans fizera questão de coloca-lo na situação constrangedora que era ser apresentado na frente da sala.
Mas eu estava tão pasma que não me importei com isso.
— Kristoff Bjorgman, seja bem-vindo a sua nova classe.
Ele varreu toda a sala com os olhos e quando por fim me avistou, pousou seu olhar sobre mim com um sorriso vitorioso.
Eu devia estar boquiaberta. Ele, por sua vez, amou ver essa expressão, pois seu sorriso se abriu ainda mais.
— Eita. – murmurou Tooth, com os olhos arregalados.
Colei chiclete no cabelo de Jesus nas vidas passadas. Eu devo ter jogado pedra na cruz. Não só pedras, arremessei shurikens, kunais e ainda parti a cruz com uma katana enquanto dançava Macarena. Caguei no Vaticano, né Papa? Ou pior, eu devo ter surfado na tábua dos 10 mandamentos. Usei o amaterasu para ferver a água do miojo. Roubei o cajado de Rikudou Senin pra usar nas Olimpíadas no salto com vara. Eu devo ter sido um Danzou na outra vida, só isso para explicar o fato de eu estar pagando pelos meus pecados antecipadamente na Terra.
Que Rikudou me dê chakra sennin para aguentar essa tortura.
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