Rising Tide
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Notas iniciais
PARCEIROS
POV Anna
O professor John Smith sorria cordialmente enquanto as integrantes femininas da sala mal conseguiam parar de encará-lo com um desejo excessivo.
John Smith é o que eu chamo de humano do sexo masculino com imenso poder de atração para a libido feminina – sim, eu possuo uma dificuldade incomum em apenas admitir que homens além da minha capacidade são um tremendo tesão.
— Confesso que só compareço a essa aula por causa desse homem pra lá de maravilhoso. – comentava Tooth ao meu lado.
Dei uma breve olhada nele. Ao que tudo indica, sim, ele faz o meu tipo – e eu nem sabia que tinha um tipo.
— É... – concordei, num tom analítico. – Seus cabelos dourados e sedosos em conjunto com os olhos claros fazem dele um espécime difícil de resistir.
— Anna, você é realmente estranha catalogando homens.
— “Catalogando”? Somos duas, minha irmã. – ela deu uma risadinha junto de mim.
— Mas sabe o que é mais curioso nisso tudo?
— O que?
Ela sorriu maldosa para mim antes de falar, numa imitação fajuta da minha voz.
— “Seus cabelos dourados e sedosos em conjunto com os olhos claros.” Você acabou de descrever alguém que eu conheço. – e sorriu com malícia. Que desgraça.
— E a naja ataca! – gunhi, jogando uma tampa de caneta nela.
Ainda que quiséssemos manter o papo, nossa atenção era sempre retida novamente para o professor, que tinha certa facilidade para isso. Além de emanar um carisma inacreditável e ter o dom de cativar o público, Sr. Smith tinha certa tendência ao proibido – tive a impressão de que era a única percebendo o quão intenso era o seu olhar direcionado a estudante índia de ecologia, que por sua vez, parecia ser a única alheia aos encantos daquele homem.
De qualquer forma, já me parecia um casal formado desde o momento em que comecei a shippar— por esse motivo, parei no mesmo instante de babar no professor.
Sr. Smith era o mentor da disciplina facultativa da faculdade. Se é facultativa, me pergunto por que ainda estou aqui, afinal, eu poderia estar me dedicando a disciplinas que realmente demandam empenho. Mas aí me lembro que as presenças nessa aula acarretam bônus as notas finais e nenhuma chance como essa deve ser desperdiçada.
Além do mais, é uma aula que consiste basicamente a ficar batendo papo. É “bem-visto” comparecer e você pode ainda escolher querer ou não falar sobre certos assuntos.
— Bom dia, meus caros colegas. Sim, “colegas”, pois nessa aula serei mais um companheiro de classe que um professor. – dizia Sr. Smith, sentando-se sobre a mesa de maneira descontraída. – Mas ainda assim, é importante compartilharmos de um respeito mútuo, não só a mim como professor, mas uns com os outros principalmente, como semelhantes discentes.
A forma como ele muda o tom de voz é deveras peculiar e interessante, ele passa de doce e acolhedor para, no instante seguinte, autoritário e acadêmico.
— Estamos todos aqui para aprender, compartilhar e debater. Aos que compareceram na primeira aula, que bom que voltaram. Aos rostos novos, desejo boas-vindas. Para aqueles que não sabem como funciona o curso de Desenvolvimento Pessoal, já começo esclarecendo que se trata de uma disciplina que permitirá a interação entre estudantes de cursos diferentes. É uma aula onde reservaremos um tempo para dispor debates sobre a atualidade ou sobre situações que vocês podem estar enfrentando na faculdade ou no cotidiano.
Eu perdi a primeira aula dessa disciplina por achar uma besteira e por não saber do ganho de bônus para nota final. Essa é a segunda aula, a primeira vez que compareço e já estou odiando pelo simples fato de Kristoff estar presente.
Desgraça!
Óbvio que eu ainda estava brava com os desagradáveis acontecimentos dessa semana – como se já não bastasse acordar cedo por engano e ter que lidar com Kristoff e suas provocações habituais, também ter que aturar Tooth e Merida o resto da semana com suas manias estranhas de torcer por casais improváveis é castigo, viu?
Pelo menos, elas também estavam presentes na aula, compensando o fato de que a maioria das outras pessoas eu não conhecia, por serem alunos de outros cursos.
Eram poucos os rostos familiares – além de Tooth e Meri, havia Astrid e Tuffnut, um phoenix cujo o qual o assunto fluía facilmente entre nós dois, principalmente por conta de nossa paixão em comum por games.
— Na aula passada, tivemos uma ótima dinâmica em grupo. Hoje, faremos diferente. Formem duplas, por favor.
De pouco a pouco, as duplas foram se formando e juntando suas cadeiras. Vi que Merida e Tooth estavam cochichando e imaginei que por isso iriam ser parceiras, então me ocorreu apenas um nome para ser minha dupla.
Eu tinha certeza que Tuffnut estaria no fundo da sala – eu já conhecia seu jeito antissocial e até apreciava isso. Portanto, me virei para procurar por seus dreads loiros e não foi difícil encontrar, no entanto, vi Tooth aproximando-se antes de mim, em seguida o convidando para ser sua parceira. Foi aí que não entendi porra nenhuma.
Quando virei para olhar Meri, ela batia um papo animado com Astrid, pois haviam feito duplas.
Olhando em volta percebi que todos já estavam com seus devidos pares, menos eu... e Kristoff.
NÃO! Não, não, não, não, não, não... Não!
Quando tornei a fitar Tooth, ela tinha um sorrisinho maroto no rosto. Crispei os olhos, caminhando até ela.
— Sai fora, Tooth! Eu vou fazer dupla com Tuffnut! – num instante, eu estava do lado do rapaz, agarrando-o pelo braço e o puxando como se ele fosse um objeto. Tadinho.
O loiro sorriu para mim e eu correspondi, mesmo que nervosa com aquela situação.
Eu sabia que aquilo tudo havia sido arquitetado por ela, e Merida ainda conspirou com essa louca! Vou matá-las.
— Não, Anna Banana. Eu vou fazer dupla com Tuffnut e você fará com Kristoff. – falou ela com tranquilidade, confirmando seu plano maquiavélico, sorrindo e puxando Tuffnut para seu lado. – Além do mais, eu já o solicitei como parceiro e ele aceitou prontamente. Não é, Tuff?
— Sim, mas e-eu não sabia que...
— Shh!— fez ela, sorrindo, e o rapaz se calou na mesma hora. Tadinho part. 2.
— Ah, Tooth... mal posso prever seus movimentos. – murmurei entredentes, muito irritada, e ela deu um risinho. Gemi em frustração. – Deixe-me ser parceira de Tuffnut, por favor... – quase juntei as mãos em súplica. – Nós temos muito mais assunto e você tem muito mais afinidade com Kristoff que eu! – sem soltar o braço de Tuff, o puxei para mim novamente.
— Sabemos que não é bem assim, amiga! – cantarolou ela. – E além do mais, já que este é o caso, quero aproveitar a chance de desenvolver uma afinidade com Tuffnut. – ela o puxou novamente.
— Não quero saber! – choraminguei. – Isso são apenas detalhes. – murmurei essa parte, enquanto ela se divertia com meu desespero.
— O que está havendo aqui, senhoritas? – professor John advertiu, aproximando-se de nós. – Uau, Sr. Thorston. Vejo duas belas moças disputando pela sua atenção. – Tuffnut ficou vermelho feito um pimentão. Tadinho part. 3. O professor virou-se para mim. – Srta. Arendelle, reveja... a Srta. Fairy tem toda razão. Essa aula é também uma ótima oportunidade para desenvolver afinidade com quem ainda não se tem, e no seu caso... – ele abriu um sorriso, deixando por terminar e indicando o dito cujo isolado logo em seguida.
Olhei na direção de Kristoff, constatando que sim, ele estava com os fones de ouvido simplesmente alheio a tudo o que acontecia em seu entorno. Observava distraidamente a paisagem do lado de fora da janela, pensativo. Ele estava, em poucas palavras, nem aí.
Quando notou a movimentação e sentiu-se ser observado por meia dúzia de alunos, olhou em volta, crispando os olhos âmbares para cada um que ousava encará-lo.
Franziu o cenho, antes de indagar, curto e grosso.
— Que foi, porra?
A maioria dos alunos desviaram o olhar, temerosos, voltando aos seus afazeres imediatamente.
O professor sorriu para a insolência do rapaz que ele tanto queria que fosse minha dupla e, mesmo depois de tornar a me fitar reparando na minha evidente feição de piedade, não mudou de ideia.
— Srta. Arendelle e Sr. Bjorgman, formem dupla.
Kristoff retirou os fones e se levantou vindo até nós, parecendo enfim interessado em alguma coisa, mas não exatamente no bom sentido.
— Por favor, Sr. Smith! – exclamei. – Eu preciso de outra dupla! Me recuso a trabalhar com este... poste cabeludo! – indiquei Kristoff, já ao meu lado.
— Sr. Smith, por favor... – Kristoff, por sua vez, manteve a inédita placidez na voz. – Prefiro debater com alguém mais sensato. Além do mais, ter que aguentar as próximas horas dividindo opiniões com uma smurf hippie não é uma situação apreciável, se me permiti dizer.
A sala toda explodiu em risadinhas. Olhei para Kristoff furiosa e ele arqueou a sobrancelha, como quem se pergunta “ora, falei alguma mentira?”
O professor revezava o olhar de mim para Kristoff com um sorriso maroto.
— Isso será interessante. – concluiu ele. – Podem começar. – e foi se sentar, nos ignorando totalmente.
Suspirei, arrasada ao ouvir Kristoff bufar em desagrado e me dar as costas, voltando para sua carteira isolada da maioria das pessoas.
Puxei uma cadeira, me juntando a carteira de Kristoff, sentando-me a sua frente sem muito ânimo.
O professor pareceu gostar mesmo da ideia de os alunos desenvolverem afinidade com seus pares. Então indicou que conversássemos casualmente a princípio, para só depois colocarmos em pauta alguma situação considerada incomum para a sociedade, mas que é uma realidade na vida de um dos dois.
E como conclusão da aula, deveríamos apresentar o que conhecemos de nossos pares – a gota d’água.
Dei um longo suspiro, enquanto eu catava uma caneta e um bloco de notas para anotar quaisquer informações que eu viesse a esquecer na hora de apresenta-lo, reclamava do quanto o universo conspirava com muito esforço para que eu e ele estivéssemos sempre próximos. Ri e neguei com a cabeça. Essa força superior – vulgo autora – que acha legal me juntar com Kristoff numa pequena distância, não é das mais inteligentes.
Fitei Kristoff e notei que ele observava cada movimento meu com a expressão impassível. Arqueei uma sobrancelha e ele continuou do mesmo modo. Suspirei e desviei o olhar.
— Vamos logo com isso. Eu começo. – falei, abrindo o bloco de notas.
— Como quiser. – ele respondeu, indiferente.
E esse dia, não tá sendo dos melhores. Não mesmo!
Bufei, não muito satisfeita com aquela situação. – Nome? – comecei e ele me olhou com a expressão óbvia. – Kristoff, certo. Sobrenome?
— Bjorgman.
— Idade?
— Dezenove.
— Data de nascimento?
Ele me fitou com o semblante cansado. Depois de um longo suspiro, resolveu falar algo que não fora a resposta a minha pergunta.
— Por que você tem que tornar a aula mais interessante que temos em algo tão entediante?
— Oh, me perdoe, você realmente parecia estar se divertindo bastante antes disso. – debochei bem na cara dele, que revirou os olhos, cruzando os braços. – Ok, qual a sua sugestão?
Ele, que até agora estava recostado na cadeira de forma relaxada, inclinou-se para frente apoiando ambos os cotovelos na mesa.
— Vamos conversar.
— Sabe como sempre termina nossas conversas, né?
— O pior que pode acontecer é você me dar um chute. – respondeu, exibindo a maior tranquilidade do mundo. Ri baixinho involuntariamente e ele sorriu de canto. – Se você prometer só por meia hora ser paciente, eu prometo só por meia hora não importunar você. Vamos conversar... civilizadamente.
Bufei, revirando os olhos. – Você, civilizado? Meio difícil de acreditar...
Ele ignorou meu comentário irônico e me estendeu a mão.
— E então? Temos um trato, mini-Anna?
Crispei os olhos, em desagrado pelo apelidinho idiota, e depois suspirei derrotada. De fato, era uma boa ideia, e me concederá pontos extras de uma forma tão fácil, então vale a pena.
— Ok. Fechado. – pus minha mão sobre a sua e ele apertou, selando o trato.
E no mesmo instante, percebi que era a primeira vez que tocávamos nossas mãos e dispúnhamos de um gesto gentil para com o outro, em comum acordo.
Era uma sensação diferente, principalmente ter a mão dele junto da minha. E eu me recusava a admitir que um sentimento intenso e acolhedor me tomava.
Olhei para o nosso simplório aperto de mão. Algo tão normal, então por que essa sensação intensa?
Será que ele também sentiu o mesmo?
Fitei o rosto de Kristoff, procurando a resposta em sua feição. Ele olhava confuso para nossas mãos, seguras uma na outra.
Puxei minha mão, rapidamente, pousando-as em cima de minhas pernas. Pude notar que Kristoff pareceu espantado, mas sua expressão logo tornou-se constrangida, assim como a minha.
Ele pigarreou. – Então, Anna Arendelle... – começou ele num tom casual, entrelaçando os dedos sobre a mesa. – De onde você é?
— Sou de Birmingham. E você? – ainda sentia minha mão formigando.
— Nasci na Noruega.
Aquela informação puxou toda a minha atenção. – Como é que é? – ele não conseguiu conter a risadinha. – Como assim você é norueguês? – ele deu de ombros. – Então, você é o único estrangeiro de seu grupo de amigos?
Ele coçou a nuca e negou. – Na verdade, não. Jack é russo e Hiccup dinamarquês. Flynn é o único britânico, pra ser sincero.
— Eu pensei que todos vocês fossem daqui. – falei, espantada.
— Eu me considero inglês, de qualquer forma. Vim para Oxford ainda criança. Tanto que falo muito pouco a minha língua materna.
— Uau. – eu estava realmente admirada.
— Você e suas amigas são todas de Birmingham?
— Oh, não, de forma alguma. Apenas eu e Elsa. Rapunzel é americana e Merida escocesa.
Ele pareceu surpreso. – Uma de vocês nasceu na Escócia?! Eu nunca iria imaginar! – dei uma risadinha, confirmando. – A americana nasceu onde, exatamente?
— Punzie é de Los Angeles, Califórnia.
Ele pareceu pensar por um tempo, tentando lembrar quem era a Punzie.
— Isso explica sua personalidade forte, eu acho.
— Explica apenas parte de sua personalidade forte.
— Achei que ela fosse de New York. Um dos phoenix é alemão, mas sua mãe é nova-iorquina, ele vive dizendo o quanto odeia aquela cidade.
— Não consigo imaginar. Conhecer o Big Apple é um dos meus sonhos.
— Meu também. Mas o motivo da revolta do Ralph é relacionado a problemas maternos, então é compreensível. – dei uma risadinha e concordei.
Nos entreolhamos com intensidade por pouquíssimos segundos. Rapidamente desviamos o olhar, temendo voltar o constrangimento de minutos atrás.
Eu não queria perder o ritmo dessa conversa casual. Jamais admitiria isso a ele, mas estava realmente gostando.
Aos poucos, a conversa passou a fluir tão naturalmente que nos assemelhávamos a dois amigos que não se viam há anos. Ou a um casal num suposto, engoli em seco, encontro. Prefiro a primeira comparação, pois era fácil conversar com Kristoff – ou melhor, estava sendo fácil.
Durante a conclusão da aula, foram abordados diversos assuntos interessantes – como adoção por casais homoafetivos, tratamentos e direitos para portadores de ELA, mães com distúrbios narcisistas, indústria farmacêutica e o câncer, dentre outros assuntos polêmicos.
Na hora de nos apresentar – o que não foi a melhor das ideias do Sr. Smith – minha apresentação e do Kristoff não foi das melhores. Afinal de contas, é muito mais fácil socializar quando não está toda a sala prestando atenção em você. E também, o momento de tolerância havia terminado – nosso modo de convivência padrão estava ativado novamente. Ironias, deboches, provocações e ofensas estavam presente nessa peculiar “dinâmica em dupla”, é claro. Pelo menos, ganhamos pontos de qualquer forma.
Mesmo que não tenha sido a melhor dinâmica da classe – já que, modéstia à parte, costumo sempre fazer os melhores trabalhos – eu gostei do exercício e principalmente gostei da aula.
Kristoff nunca saberá que esses foram as melhores horas do dia. Pelo menos, pra mim.
POV Elsa
Eu tinha a sensação persistente de que dentro da minha bolsa eu carregava uma bomba que possuía o peso de um envelope fechado, mas precisava manter a seriedade – qualquer deslize e ela seria armada. As consequências seriam perguntas inoportunas, cujo as quais eu certamente teria de mentir nas respostas.
Eu não queria ter que mentir.
Merida vinha saltitando e cantando uma música do Foster The People, Rapunzel teclava algo no seu iPhone, exibindo suas unhas muito bem cuidadas. Eu carregava uma remessa de livros da biblioteca da faculdade, lembrando de aproveitar o tempo extra – que me sobrasse – para estudar e uma água de coco de caixinha estava em minha mão livre.
Anna já esperava encostada em seu Jeep.
— Ei, vamos logo! – berrou ela, irritada como sempre. – Preciso ir para casa ouvir alguma banda punk enquanto disserto em como acabar com aquele miserável neandertal! – finalizou, adentrando o veículo.
Suspirei e sorri, negando com a cabeça. Já dentro do carro, decidi questionar.
— Tá legal, o que o Kristoff fez agora?
— Nasceu. – grunhiu em resposta.
— Anna, para com isso. – começou Merida. – Tenho certeza que ele estava brincando. Ele te ama (?).
Merida é tão fofa. Ela havia falado aquilo com toda a sinceridade do mundo.
— Meri, amiga... – falou Anna, exibindo uma falsa tranquilidade. – Acredite quando digo que ele não estava brincando. – vociferou ela, apertando com força o volante. Neguei com a cabeça, sorrindo. Anna não tem jeito. – Elsa, desculpa. Eu tentei mudar, tentei ser menos impulsiva. Mas acontece que com Kristoff... simplesmente não dá! – exclamou, pausadamente.
Dei uma risadinha, dando tapinhas em suas costas.
— Pelo menos, você tentou.
Anna é esforçada, mas ela não vai conseguir mudar esse temperamento tão facilmente. Apesar de que, não quero que ela mude por completo. Faz parte do jeito dela e, devo admitir, é um dos motivos de gostarmos tanto dela.
Ela suspirou e tirou sua franja dos olhos.
— E o pior de tudo é que eu estava começando a gostar dele. – murmurou entredentes.
Opa, peraí! Foi isso mesmo que eu ouvi?! Me engasguei com a água de coco aqui, socorro, Jeová.
— Eita, Elsa... – Merida falava, me olhando assustada enquanto eu tossia compulsivamente. Socorro. – Respira, em nome de Odin! – dizia, dando tapinhas na minhas costas.
— Anna... – falei, um pouco ofegante. – O que você acabou de admitir?!
— Melhor isso ficar só entre eu e eu mesma (?). – falou ela, dando um sorriso nervoso.
— Como isso aconteceu? Fala logo! Quero saber o que te fez mudar de ideia. – falei, incrédula. E no fundo, amando.
— Eu acho melhor você falar logo se não quiser que ela fique convulsionando feito uma macaca albina aí atrás novamente. – comentou Rapunzel sem tirar os olhos do celular.
— Se ela não falar, eu falo. – falou Meri, rindo sapeca.
— Tá, eu falo! – suspirou com exasperação, antes de começar. – Fizemos um trabalho juntos no curso de Desenvolvimento Pessoal, conversamos durante toda aula, ele foi legal comigo só pra depois voltar a ser o babaca de sempre. Fim.
— Mas Anna...
— Mas nada, Merida. Vocês tentam ver o lado bom dele, mas entendam, ele não tem!
Merida estava com os olhos arregalados e se encolheu no canto do estofado. Rapunzel a fitou brevemente, não parecia surpresa com o que acabara de ouvir. Anna estava muito estressada, parecia desapontada consigo mesma aparentemente por ter acreditado na gentileza de Kristoff que ela acreditava ser falsa. O melhor que poderíamos fazer era esperar ela esfriar a cabeça.
Havia muito mais coisas que eu nem podia imaginar pairando a mente de Anna agora.
E a minha mente estava da mesma forma. Em momento algum me permiti esquecer de Phillip. Fico me perguntando se devia ou não ter dado a chance dele dizer-me o que tanto quer que eu saiba.
Seguimos o caminho em silêncio até eu perceber que Anna havia mudado o trajeto. Não estávamos indo em direção ao nosso prédio.
— Anna? Para onde estamos indo?
— Ao shopping.
— O quê?! – Punzie arquejou. – Sem chance! Não estou apropriadamente arrumada.
— Você tá sempre bem arrumada, Rapunzel. – discordou Anna, sem tirar os olhos do caminho. Punzie bufou.
— Anna, estamos indo ao shopping por que mesmo? Me perdi aqui... – indaguei.
— Quero conhecer a livraria que abriu, aproveitar e comprar uns Graphic Novels da Marvel que me chamaram a atenção, fora que também tenho que comprar a edição de mangá desse mês de Naruto, Shingeki no Kyojin, One Punch Man, Nanatsu no Taizai... Enfim! Vocês entenderam. – finalizou, sorrindo largamente e nos olhando por breves segundos.
— Uhul! Estava com vontade de tomar um sorvete mesmo. – exclamou Merida.
— Aproveita e tome um sorvete também, Anna. Pra esfriar essa cabeça. – alfinetou Punzie, olhando o caminho pela janela do banco do carona.
— Eu tô de boa, Rapunzel.
Mentira. Ela não estava de boa.
POV Merida
— E é por isso que eu acho que o umbigo se chama assim por se tratar de um só. Se fosse dois, seria doisbigo (?). – falei com toda convicção, enquanto Punzie me encarava anuindo continuamente em concordância.
— Faz todo sentido. – comentou depois de longos segundos.
— É claro que faz.
Continuei tentando desembolar os fios do meu fone, que magicamente se enovelara inteiro dentro da mochila. Às vezes, desconfio que ele tenha vida própria e só faz isso para pregar-me peça.
— Cadê vocês? – chamou Anna, antes de nos encontrar. Assim que nos avistou, se aproximou rapidamente. – Já pegaram o que queriam?
— Sim, só falta Elsa.
— Então podemos ir, finalmente?! – indaguei com todo o entusiasmo do mundo. – Estou morrendo de fome. Quase devorei um estudante do último ano.
— Também estou faminta. – admitiu Anna.
— E eu. – continuou Elsa, aproximando-se de nós. – E quando é que vocês não estão com fome? – continuou ela, dirigindo-se ao caixa com pilhas de livros sob os braços.
— Quando já estamos comendo. – respondi com simplicidade.
— Faz sentido... – refletiu Punzie.
— Estou com fome, Elsa. – afirmou Anna, séria. – Você bem sabe do que sou capaz quando estou com fome e também sabe que todas vocês correm o risco de ter um destino terrível caso não me alimentem logo. – alertou ela, a morta de fome.
Elsa se apressou para passar os livros no caixa da livraria, junto dos cacarecos de Anna e saímos finalmente da loja.
Antes de fazermos o caminho até o restaurante que Anna sugeriu, pedi para que me esperassem enquanto eu ia até o McDonald’s, afinal de contas, eu ainda queria tomar sorvete.
Pego meu sorvete e dou o dinheiro na mão do funcionário. Enquanto espero ele selecionar o troco, olho em volta, procurando onde as meninas resolveram se sentar, mas elas estavam me esperando de pé.
O funcionário bonitinho me dá o troco, que eu só finjo checar se está certo pois não consigo contar dinheiro sob pressão, e eu agradeço antes de sair em direção as meninas pulando que nem uma lêmure saltitante.
— Vou maneirar no pedido hoje. Eu não posso engordar um miligrama! Meu vestido é mais justo que Deus. – afirmou Punzie, toda preocupada, enquanto eu me aproximava delas com a minha casquinha de sorvete de baunilha na mão.
— Vestido pra quê, Punzie? – questionei, dando uma lambida no meu sorvete. Hm, que sorvete suculento.
— Pra festa de hoje à noite.
Minha nossa. Eu havia esquecido que a festa era hoje.
— Já decidiu o que vestir? Mas como?! Nem chegamos em casa ainda... – indagou Elsa, incrédula, caminhando ao lado de Punzie.
— Já repassei todas as roupas do meu closet aqui na minha mente. Estava pensando em comprar algo novo, mas tenho um vestido justinho que nunca usei e estou pensando em ir com ele.
— Que festa, gente? Af, nem fui convidada. – comentou Anna, fazendo uma careta.
— Talvez o Kris tivesse a intenção de te convidar, porém você o distratou, como sempre. – alfinetou Punzie, fitando as unhas.
Fui para o lado de Elsa pois sabia que começaria um pequeno debate aqui. Enquanto eu usufruía do meu sorvete, Elsa mexia em seu celular, absorta do que acontecia em sua volta.
— Tô nem aí. – Anna falou, tentando soar indiferente. – Afinal, eu não iria de qualquer forma. Tô de escala hoje.
— Anna, tira um dia de folga, bixa! Tu se mata de trabalhar. – falou Punzie, colocando as mãos na cintura.
— Não posso. E também, não quero ir a essa festa. Se é organizada por esses caras, com certeza Kristoff estará lá. Portanto, não. Obrigada. De nada. Dispenso.
— Flynn também vai estar lá. Nem por isso vou deixar de ir numa das melhores festas do ano, só por causa dele, né faz favor.
— Sua relação com Flynn é muito mais acessível que a minha com Kristoff. E depois, como já pode dizer que é uma das melhores se essa festa ainda nem aconteceu?
— The Phoenix Club, mana.
— E daí?
— É só o male club mais festeiro do campus. Fora que quem organiza as festas é o Frost, então não espere menos do que o melhor.
— Uau. – ironizou Anna. – Só acredito vendo.
— Daí você vê e diz “não acredito”.
— De qualquer forma, não pretendo ir numa festa deles tão cedo. – continuou ela.
— Fiquei ofendido agora. – afirmou uma voz grave às nossas costas.
Odin misericordioso! Meu susto foi tão grande que errei o trajeto da casquinha de sorvete até minha boca e dei com ela no meu nariz, fazendo um caminho de baunilha até minha bochecha. COMO EU CONSEGUI FAZER ISSO?! Não sei, pelo amor de Jah, meu coração tá na goela. Socorro, tem sorvete dentro das minhas narinas (?????????).
As meninas deram um pulo com o susto e, tão lentamente que chegava a ser engraçado, nós viramos e nos deparamos com ninguém menos que Jack, o loiro cor da lua.
Rapunzel e Anna arquejaram em surpresa. Elsa estava estranhamente enrubescida e com os olhos arregalados. Eu devia estar com a mesma cara de retardo de sempre, afinal de contas, tenho um caminho de sorvete bem no meio da cara.
Jack não estava sozinho. Hiccup estava junto dele, sorrindo simpático como sempre – e reprimindo uma risada. Ué, por que será, ein? – e atrás estavam Flynn e Kristoff com os braços cruzados.
Isso aqui vai dar uma treta maligna, tô dando altas risadas maquiavélicas internamente.
— Adoro um desafio. – comentou vagamente. – Por favor, tenho o direito de saber o motivo de sua aversão por festas organizadas por mim, pelo menos, deusa guerreira? – indagou o loiro cor da lua, fazendo com que Anna prestasse atenção nele e desviasse seu olhar mortal de Kristoff, porque né.
— Não tem nada a ver com você, não se preocupe. – garantiu ela.
— E o que é, então?
— Vários outros fatores.
— Se não estiverem com pressa, estou disposto a ouvir sobre eles. – ele levantou as mãos. – E não me venha com o papo de não querer incomodar. Não estamos com pressa também. – pude ouvir Kristoff bufar e revirar os olhos, mas Jack ignorou. – Quero saber seus motivos e, olha... – ele desviou seu olhar de Anna e fitou Elsa com intensidade. – Eu sou bem persistente quando quero algo. – finalizou, dando a entender que ele queria... outra coisa.
Ou melhor, outra pessoa.
Dito isso, todas nós, e até mesmo eles, direcionamos um olhar inquisidor a Elsa, tadinha, que já estava enrubescida antes, agora mais se assemelhava a um tomate. Eu queria perguntar o que estava havendo pois nunca vi Elsa tão corada.
Talvez ela só estivesse bastante constrangida, coitada da minha amiga. Resolvi não piorar isso. Eu posso ser meio lerda de vez em quando, mas não sou desprovida de bom senso.
Já não podemos dizer o mesmo de Anna.
— Tem certeza que é só nos meus motivos que você tem interesse, Jack? – disse ela.
É por isso que amo a Anna, gente. Ela fala o que der na telha.
E o que eu tenho de bom senso me falta em sutileza. Dei uma gargalhada poderosa, fazendo todos olharem pra mim.
Ao notar isso, parei de rir subitamente.
— Tá, parei. – Hic sorriu com o meu constrangimento.
— Não mude de assunto, meu diamante bruto. – declarou Jack, tornando a fitar Anna. – Se não me contar, terei que apelar.
Anna o olhou desconfiada e sorriu desafiadora. Kristoff, incomodado, foi até ao lado de Jack ainda com os braços cruzados.
— Minha presença na festa é o principal fator. – afirmou o loiro, dando de ombros.
Anna riu, teatralmente. – Você agora se superou. – cruzou os braços. – Sabe que nem estou surpresa com sua arrogância?
— Ainda irritada por ter ouvido certas verdades?
Anna franziu o cenho e se remexeu incomodada.
— Não vou porque tenho mais o que fazer. – mudou rapidamente de assunto. – Sua presença não significa nada.
Mesmo tendo sido uma clara mentira, concluí que Anna havia notado o que eu também notei. Jack não ouviu nossa conversa inteira, só pegou da metade – tanto que não sabia o real motivo de Anna não ir a sua festa, coisa que ela já havia citado a princípio, e por isso estava questionando.
— Anna, meu diamante bruto. – comentara Jack. – Mesmo que a presença incômoda do meu amigo seja um fato, não é nada que você não consiga superar. – Kristoff o encarava com os olhos crispados. Jack o ignorou. – Você é tão forte, louca, confiante, durona e impiedosa quando a Temari da Areia. Vai tirar de letra.
Anna só faltou vomitar arco-íris com a menção a Naruto.
Até Kristoff dar um sorrisinho confiante e, sem hesitar, aproximar-se dela.
— Nem tanto. – respondeu ao comentário de Jack e encarou o fundo dos olhos de Anna. – Eu e você sabemos que não sou tão insignificante assim. – ele murmurou, fazendo Anna crispar os olhos.
Peraí, o que tá com teseno (??????). O que foi que eu perdi???
Eu nem mesmo piscava. Elsa observava as próprias mãos, evitando olhar para o Jack.
Oi? Por que ela tá evitando olhar pro Jack? E por que Jack está olhando para ela tão intensamente?! Alô, Brasil? Alô, Inglaterra? O que foi que eu perdi dessa novela?!
Tem muita coisa acontecendo nas entrelinhas, difícil de acompanhar, viu?
Fitei Punzie e ela parecia nervosa. Ah, logo lembrei, Punzie já sabia como terminava essas provocações entre esses dois. Mais cedo ou mais tarde, Anna acabaria agredindo Kristoff. Oh, pobre Kristoff. Rezais. Deve estar cheio de hematomas.
— Bom! – exclamou Punzie, em alto e bom som, dando uma palminha. Tentando aliviar aquela tensão que já propagava nesse ar. – O que vocês estão fazendo aqui, ein Jack?
— Não é da sua conta, Rapunzel. – respondeu aquele moreno bonito e alto, vulgo Flynn.
Todo trabalhado na grosseria, até estranhei. Ele geralmente é tão na dele. Sempre com o mesmo rosto, impassível e indiferente de sempre. Mas observando sua feição, ele parecia bastante chateado e irritado com Rapunzel.
Vish. O que quer que ela tenha feito a ele, certamente foi eficaz. Já que Punzie adora o irritar. Dessa vez, ela atingiu em cheio seu objetivo, viu? Ele não está sendo capaz nem de disfarçar.
Punzie suspirou e o encarou. Incrivelmente, não lhe deu um fora a altura. Foi aí que estranhei ainda mais. Percebi nos olhos verdes de minha amiga sinais de uma culpa recente. Não entendi nada.
Mas assim que ela olhou em seu entorno, percebendo que todos a observavam, fitou as unhas fingindo indiferença quanto ao comentário grosseiro do moreno.
— Mas ein, Jack? – fingiu ignorar o outro, deixando-o ainda mais incomodado. – O que te trouxe ao shopping hoje? Logo no dia da tão esperada festa semanal do teu club.
— Há um depósito de bebidas quentes aqui perto. Afinal, temos de abastecer os tonéis da festa.
— Então quer dizer que já está tudo pronto?
— Mas é claro que sim, Salt. Só falta vocês.
Punzie sorriu. – Bom saber. – ajeitou sua bolsa no ombro. – Bom, nos vemos mais tarde, então.
— Certamente. – falou Jack. – Espero por você também, ouviu, deusa guerreira?
— Ok, espere sentado. – respondeu Anna, rindo.
— Tão delicada quanto um coice. – Jack cutucou Kristoff com o cotovelo. – Vocês realmente combinam. – o outro revirou os olhos.
Anna fitou Kristoff, ficando séria na mesma hora. Olhou o rosto dele por míseros segundos e se virou, fazendo seu caminho seguida por Rapunzel, que evitou fitar o rosto de Flynn, claramente constrangida, cheguei a estranhar.
Kristoff sorria com a reação de Anna, antes de enfim se virar, puxando o braço de Flynn que, relutante, parou de encarar o andar de Punzie enquanto negava com a cabeça, desapontado. Gente???
Confusa, eu tentava inutilmente entender a cena, mas minha atenção fora voltada para a imagem de Jack, ainda parado, sorrindo confiante enquanto encarava Elsa.
Minha amiga tinha os braços cruzados e fitava ao longe uma vitrine da loja de artigos de surf, claramente para disfarçar. Elsa não gosta de surf, Elsa nem gosta de esportes! De repente, a loja pareceu tão interessante para ela?
Arqueei uma sobrancelha ao vê-la, enfim, encarar Jack – este que continuou a sustentar o olhar, ainda com aquele sorriso de lado confiante.
— Seu tempo está acabando, garotinha.
— Eu tenho até a noite de hoje, então parece que tenho bastante tempo ainda.
— Oh, se você vê por esse lado. – deu de ombros. – Lamento. Talvez eu só esteja ansioso para receber minha parte do acordo.
— Da chantagem, você quer dizer.
— Depende do ponto de vista. – sorriu com serenidade, Elsa revirou os olhos.
Hiccup encarava Jack com uma sobrancelha arqueada enquanto que eu não entendia nada.
Elsa crispou os olhos, pigarreou e falou, ainda sustentando o olhar dele.
— Vamos, Merida.
Então se virou rapidamente e caminhou a passos rápidos até minhas amigas, que agora já se encontravam um pouco distante.
Continuei observando seu andar, confusa com tudo o que presenciei nesse pequeno espaço de tempo. Eu realmente sou muito distraída, pois é óbvio que tem muita coisa acontecendo e eu simplesmente não estou sabendo!
Virei-me para fitar Jack – ele ainda observava Elsa se afastando. Meu olhar confuso agora estava sobre ele.
Quando ele me encarou, deu uma risadinha – provavelmente o sorvete que ainda jazia na minha cara era bem engraçado. Deu uma piscadela pra mim antes de se virar, indo em encontro aos outros dois que também já estavam distantes.
Porém Hiccup, ao invés de seguir seu amigo, veio até mim. Pegou minha mão que segurava a casquinha e levou até os lábios, dando uma rápida lambida no meu sorvete. Senti meu rosto ferver na mesma hora, meu Jesus. Ele riu da minha expressão, surpresa com sua atitude.
— Vejo você mais tarde, Cabelos em Chamas. – antes de sair, ele estendeu um lencinho e eu peguei.
Então bagunçou meus cabelos e deu uma piscadela.
Fiquei observando ele ir embora e depois fitei o lencinho, que ele me dera provavelmente para me limpar. O lenço era branco, de tamanho médio, e havia estampado no meio um dragão negro com grandes olhos verdes. Sorri ao me recordar que ele já me emprestara esse lenço antes – no parque Hinksey, quando nos conhecemos.
Ouvi os gritos de minhas amigas me chamando.
Peguei no meu bolso uns guardanapos que eu havia guardado quando comprei o sorvete e me limpei. Dobrei o lenço de Hic e guardei na minha mochila. Eu não teria coragem de suja-lo.
Eu sou bem observadora quando quero, sabe? É só eu me esforçar. Foi fácil notar que, mesmo começando rapidamente um assunto aleatório enquanto caminhávamos em direção ao restaurante, cada uma parecia bem concentrada em outra coisa.
Rapunzel suspirava, tensa e preocupada. Como a conheço bem, digo que essa reação tão fora do padrão vindo dela com certeza é vergonha. Só me pergunto o que aconteceu. Com certeza ela não estava nada satisfeita com a reação de Flynn à ela – reação esta também nada padrão vindo logo daquele moreno.
Anna parecia ainda mais irritada, com o cenho franzido, inconformada com a provocação de Kristoff. Notei também que ela mudara de assunto quando ele falou da suposta discussão que tiveram, coisa que não presenciei, obviamente. Minha curiosidade tá começando a aflorar aqui.
Elsa parecia nervosa. Não estava ruborizada, não mais. Porém, na sua face tinha uma expressão de desagrado. Ou seria frustração? Acho que ela estava frustrada, isso mesmo. Eu não sei. É sempre difícil saber o que Elsa está pensando, até mesmo pra mim, que há conheço há tanto tempo.
Chegamos nesse restaurante e nos sentamos numa das mesas da varanda. Batia um ventinho bom, deixando no ar uma sensação gostosa de tranquilidade.
Achei uma boa reservar um tempo para fazer compras, comer e conversar. Principalmente comer. Estávamos mesmo precisando de um tempo assim. Anna que deu a ideia do restaurante. Ah, qualquer ideia que tenha comida no meio, foi Anna quem sugeriu, tenha sempre certeza disso.
Nem havíamos checado o cardápio. Ficamos de blábláblá até o garçom chegar e...
— Uau, meninas. Que garçom gato é este? Me colore que tô bege. Senhor, tô sem ar. – murmurou Punzie, toda assanhada, antes do dito garçom chegar em nós.
— O que desejam? – disse ele, assim que chegou, fitando Punzie.
— Você. – ela respondeu, naturalmente. E ele arqueou uma sobrancelha, confuso, só para no segundo seguinte enrubescer, todo tímido.
— Santo Rikudou, não acredito que ela disse isso. – ouvi Anna murmurar. Tive que reprimir um riso. – É, vamos dar uma olhada no cardápio ainda, te chamamos depois, ok? – disse ela, cortando o barato de Punzie, que ainda observava o garçom gato, que assentiu.
Ele fitou Punzie e deu um sorriso de lado, depois saiu.
— Lindo. – sussurrou ela.
— Você não perde a oportunidade, Rapunzel. – disse Elsa, gargalhando.
— Deixa de ser pervertida, diaba loira. Você tá tendo um rolo com Mike, sossega essa xana aí. – advertiu Anna.
— Mas eu não fiz nada demais, eu ein! Lá vem Anna, pregadora da moral e dos bons costumes, que sai por aí chutando homens na faculdade. – satirizou Punzie.
Não me aguentei. Tive que rir.
— Vai pastar! – Anna vociferou em resposta, agarrando um pãozinho que estava dentro de um minúsculo cesto sobre a mesa e tacando em Rapunzel, que parou de rir na mesma hora em que sentiu a diminuta massa acertar sua testa.
Abrindo a boca, dramaticamente assustada, ela indagou incrédula.
— O que foi isso?! Você me tacou um pão?!
— Sim! E se reclamar, te jogo a cestinha também! – exclamou, já agarrando a cesta e ameaçando jogar em Rapunzel, que se escondeu atrás de um... guardanapo.
— Parem com isso, estão me assustando. – murmurou Elsa, reprimindo um riso.
— Tô um pouquinho assustada também, mas dá pra acostumar.
— Deixa eu chamar o garçom logo, antes que vocês iniciem uma guerra de comida aqui dentro. – continuou Elsa, levantando uma das mãos e fazendo um sinal para que o garçom se aproximasse.
O garçom gato chegou, e Rapunzel logo estampou em seu rosto o sorriso mais malicioso que tinha. Anna anunciou nossos pedidos, não sem antes dar um chute em Rapunzel por debaixo da mesa, e assim que os pratos chegaram, almoçamos enquanto conversávamos sobre tudo.
Anna não quis falar sobre Kristoff e fechou a cara quando o assunto foi os garotos. Elsa nada comentou também. No entanto, ninguém perguntou nada. Tenho a leve impressão de que apenas eu notei sua estranha proximidade com Jack. Também, nem estou surpresa. Afinal de contas, Rapunzel e Anna já estavam ocupadas demais prestando atenção em Flynn e Kris.
Pela primeira vez na vida, fui a primeira a notar que algo está acontecendo, e não a última! Uhul, zerei a vida!
Terminamos nosso almoço e eu desisti de perguntar a Elsa sobre o que estava acontecendo. Se algo realmente estiver acontecendo, ela vai me contar, né?
Então pagamos a conta e fizemos nosso caminho até o estacionamento do shopping, enquanto olhávamos as vitrines, tudo muito calmo até Rapunzel berrar de repente, com o olhar fixo em um ponto da parede na parte de dentro de uma loja de grife.
Na parede havia um cartaz, aparentemente recém colocado lá, anunciando a chegada de produtos recém lançados da linha de cosméticos da Rihanna.
Quando a fitamos, ela já estava dentro da loja, perguntando algo a um dos vendedores e apontando freneticamente para o cartaz.
Corremos até onde ela estava, dando tempo apenas para escutar a resposta do vendedor para o que aparentemente ela havia perguntado.
— Fenty Beauty by Rihanna, no corredor seis. – respondeu o rapaz que, percebi na mesma hora, encarava Punzie com os olhos crispados. – Eu tenho a impressão de que te conheço. – ele falou logo em seguida.
Punzie estava eufórica demais para perceber o olhar meticuloso que ele lhe direcionava.
— Trata-se de uma loja de cosméticos e moda, provavelmente eu já estive aqui, fofo. – respondeu ela, estapeando o vento antes de correr para o corredor seis.
Relutante, a segui junto das meninas, percebendo que o rapaz ainda encarava Punzie. Mas esqueci o episódio quando chegamos no tal corredor, que era em sua totalidade ocupado por produtos da linha da Rihanna. Os olhos de Punzie brilhavam.
Ai Thor, compras não. Conheço esse olhar! É tipo eu quando escuto o interfone do apartamento tocar anunciando a chegada do entregador de pizza. Rapunzel quer fazer compras! Não cabe mais nada no closet e penteadeira dela! Odin nos salve.
— Punzie, você percebeu que o rapaz te conhecia?
— Percebi. – ela falou, despreocupada, enchendo uma cesta de produtos. Não havia nada que pudéssemos fazer para impedi-la. – O que tem?
— Sei lá. – dei de ombros.
Era comum reconhecerem Punzie na rua. Era ainda mais comum ela insistir que só era um rosto familiar, nada mais que isso. Já que eventualmente, geralmente após se apresentar, a conversa seguia-se com “ah, então é você a menina do Victor e Sra. Millano? Sabia que conhecia esses olhos de algum lugar, esse rosto, esse sobrenome, esse senso de moda”, Punzie era comumente reduzida a imagem dos pais.
Nunca ocorria um “ah, então é você a Rapunzel Corona? Artista que pintou aquelas lindas telas? Que desenhou aquele magnífico vestido graças ao seu talento único?”
É claro que as pessoas não faziam por mal, mas era algo que machucava a Punzie de certa forma.
Contudo, o olhar daquele rapaz foi diferente dos demais. Eu não costumava estranhar as coisas, mas dessa vez, foi impossível.
Quando retornamos ao caixa para realizar a compra, o mesmo rapaz estava no balcão. Ainda que estivéssemos numa conversa aleatória, ele não parava de fitar Punzie.
Dado momento puxou assunto.
— Percebi que você é muito fã da Tia Rih, então vou te passar uma informação privada. – é claro que Rapunzel fora dominada pela curiosidade, ainda mais se tratando de ninguém menos que Rihanna.
Sendo sincera, até eu estava curiosa.
O rapaz moreno continuou.
— Haverá uma apresentação dela aqui em Oxford.
Punzie arquejou no mesmo instante. – Como eu não fiquei sabendo disso?!
— É secreto. – ele respondeu na mesma hora, num tom cúmplice. – Não haverá venda de ingressos. O show será aberto apenas para um seleto grupo de pessoas.
— Eu quero! Eu preciso! – a voz de Punzie estava bem eufórica. Não consegui evitar a risadinha. – Como você sabe disso tudo?!
O rapaz sorriu com orgulho e falou. – Sou tão fã dela quanto você, amiga.
— Sério?! – arquejou Punzie, fazendo-o rir. – Ai, me abraça!
Ele correu de trás do balcão, ainda rindo. E se agarraram, abraçados, enquanto choramingavam sobre o quanto a Rihanna era linda, diva, lacradora e todos esses adjetivos que só a Punzie usa lá em casa.
— Se vai ser uma apresentação privada, é sério, como você soube? – indagou Anna, realmente curiosa. Também fiquei curiosa sobre isso.
— Ok, confesso. Tenho uns contatos. – falou ele. – Mas a parte mais difícil não foi conseguir a informação e sim os passe-livre, que inclusive nem consegui ainda. – ele admitiu.
— Nós vamos conseguir. Não se preocupe! – Punzie exibia uma determinação de fã sem igual.
— Acredito que você conseguirá antes mesmo de mim, amiga. É filha de pessoas famosas, usufrua deste privilégio.
Ah, como eu suspeitava. Era exatamente por isso que ele a conhecia.
Tenho absoluta certeza que o rapaz não percebeu a feição de Punzie esfriar – foi realmente muito sutil, fruto de anos e anos de prática.
Ela apenas sorriu e falou.
— Nah. Vou conseguir isso sozinha. – e estapeou o vento.
Agradecemos pelas informações e tudo mais antes de sairmos da loja, enquanto o moço dava um tchauzinho amigo. Quando chegamos juntos das outras duas, Rapunzel ralhava com si mesma.
— Ninguém merece. Ninguém merece!
— Você tem duas opções, mana. Continuar reclamando do nome do seus pais que te persegue ou começar a pensar numa forma de conseguir esses passes sem precisar utilizar de seu “privilégio”. – Anna fez aspas com as mãos.
— Gostaria de manifestar minha preferência pela primeira opção. – Punzie respondeu prontamente, jogando os cabelos.
— É assim que se fala, Loira Aguada! – falei, dando uma bundada nela (???).
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