Rising Tide
21 Medo
Notas iniciais
MEDO
POV Rapunzel
Uma sequência considerável de músicas do The Neighbourhood está tocando há uns bons quarenta minutos, se não me engano, quase o repertório inteiro da banda. Alguém aqui é realmente fã desses caras. Seria Flynn?
Revirei os olhos. Argh! Por que tudo que venho pensando é conduzido até ele? Pelo amor de Jah.
É tão frustrante. E frustração é um dos sentimentos que mais repudio.
Neguei com a cabeça, ainda caminhando entre as pessoas da festa, procurando um pufe que não estivesse ocupado – quase impossível de achar.
Aproveitando já estar próxima, peguei uma garrafa d’água de um dos tonéis da sala. Eu estava com sede, mas sem a menor vontade de beber bebida alcóolica.
— ATÉ QUE ENFIM ENCONTREI ALGUÉM CONHECIDO NESSE MAR DE GENTE FEDORENTA, eu odeio isso tudo aqui, argh! Quanto suor e cheiro de álcool... Afastem-se, selvagens! – chegou Anna, berrando.
Exalando amor e delicadeza. Sutil como uma retroescavadeira. Ela olhou pra mim, limpando seu braço de alguém que encostara nela suado.
— Rapunzel, sua vaca alada, achei que teria que sofrer mais pra te encontrar, sabia? – ela riu, anuindo com a cabeça. – Esperava encontrar Merida primeiro e ia pedir pra ela se enfiar na multidão para te puxar da pista de dança, mas parece que me enganei. – ela arqueou uma sobrancelha. – O que tá fazendo… bebendo água? Numa festa regada a álcool? Você?! – indagou incrédula. – O que aconteceu?
— Quero estar bem sóbria pra filmar os gafes de hoje.
Ela me olhou desconfiada.
— Hm... sente isso? – franzi o cenho, confusa. – É cheiro de conversa fiada. – ela completou. Não consegui conter a gargalhada.
— Tá fazendo o que aqui, surtada? – indaguei curiosa. Achei que ela não viria.
— Eu fui demitida. – deu de ombros.
— Quê?!
— Mas é só isso que lhe contarei por ora, os detalhes falarei em casa. – olhou em volta. – Não tem a menor condição de conversar aqui, viu? Credo. – ela se estremeceu toda.
— Amiga, você precisa beber. Cê tá muito estressada. Sinto daqui. – ela negou com a cabeça.
— Não quero beber. Só quero ir pra casa. – resmungou.
— Eu também.
— Peraí... – estreitou os olhos. – Por que você quer ir pra casa? Logo você, a mais animada pra vir pra cá…
— Mulher, isso aqui perdeu a graça. – gesticulei com as mãos, enquanto caminhávamos para um canto. – Heather achou que me afrontar seria uma boa ideia, tudo isso por causa do Mike que estava com ela e comigo ao mesmo tempo, além de outras as quais não me interessam.
Anna franziu as sobrancelhas, comfusa. Eu conseguia imaginar os milhares de pontos de interrogação pairando a mente de minha amiga, coitada.
— Espero que você tenha dado um belo ponta-pé naquele Zé Bundão! (?) – exclamou no segundo seguinte, possessa.
— Mike é o de menos. – paramos num canto, próximo ao hall da entrada. – Aí enfim, a outra lá veio querer armar barraco pra cima de mim, né menina. – falei fitando as unhas. – Armou todo um auê um tanto parecido com aquele que Elsa sofreu na adolescência, lembra?
— Claro que lembro. – tinha o cenho profundamente franzido enquanto dizia, mas abriu um sorriso sórdido ao completar. – Minha maior satisfação foi ter metido a mão na cara daquelazinha que armou pra Elsa.
— Nem toda heroína usa capa. Às vezes usa camisa do Harry Potter. – que era exatamente o que Anna estava usando, ela caiu na gargalhada.
— Só lamento pela suspensão que levei na época, mas não se compara ao trauma da El.
— Isso me preocupou na hora, mas quando a encontrei ela parecia bem. – abri um sorrisinho. – Além de muito bem acompanhada.
Anna crispou os olhos. – Frost?
— Em charme e beleza.
— Onde é que eu estava nessa hora, Rikudou amado?! – indagava Anna inquieta.
— Não sei, louca. Só sei que antes disso tudo, eu quase me peguei com Flynn no quarto dele. – dei um risinho, omitindo o fato de que as coisas não terminaram nada bem. Anna estava boquiaberta. – E tem mais: Merida estava se acabando de tanto beijar o príncipe patrão, mas shiu, ein. Não fala que te contei.
— Mas até que enfim, viu? Vou zoar ela.
— Depois de tantas emoções, já estou a uns bons minutos sem nenhum abalo pra chutar o pau da barraca. Estou entediada e quero ir pra casa.
— Não quero que me poupe dos detalhes sórdidos! Exijo um relato minucioso de tudo o que aconteceu antes de eu chegar...
Não respondi Anna de imediato, pois algo me chamara atenção no meio das pessoas ao longe.
Os inconfundíveis cachos.
— Ei, aquela ali não é a Meri? – indaguei e Anna mirou na mesma direção.
— Ela parece... – estreitou os olhos, inclinando a cabeça levemente para o lado.
— Triste? – completei a frase, eu havia notado o mesmo. Anna anuiu lentamente, sem tirar os olhos de Meri.
Ela caminhava desviando das pessoas sem nem mesmo fitar seus rostos... Sem esboçar nada. Vinha na direção do hall da entrada, mas não parecia estar vindo até nós. Suspeito que nem nos viu aqui.
Foi se aproximando e, quando se distanciou do tumulto, passou a fitar o chão. Ia passar direto por nós e sair, quando Anna puxou sua mão.
— Merida... – ela nos fitou, parecia assustada a princípio, mas logo sorriu. – Você está bem, mana?
— Tô, ué. Por que? – ela deu de ombros.
— Você parece... – começou Anna.
— Confusa. – completei.
Ela negou com a cabeça e riu. – Só estou com sede. Parece que estou de ressaca por antecipação.
Anna abriu um sorriso sórdido.
— Não precisa inventar desculpa pra tua sede, todo mundo sabe que você caiu de boca na língua do Hiccup por horas a fio, meu pãozinho de mel.
— Anna… – tentei conter o risinho.
Merida parecia que ia explodir de tão vermelha.
— Como você… – ela fitou a mim, que sorria amarelo. – Ah, entendi.
— Cadê ele, afinal de contas? Ainda resolvendo a questão do convidado bêbado? – questionei e ela apenas anuiu sem me fitar.
— Escute, Merida, se você suspeitar que ele está pensando em fazer de você um lanchinho de phoenix, não hesite em me contar. Eu faço uma omelete com as bolas dele e jogo aos cães.
— Credo, Anna. – espantei-me.
— Está com sede? – ela continuou. – Vamos pegar uma água então, pois também estou. – Meri concordou prontamente, seguindo Anna para o tonel mais próximo.
Suspirei, ajeitando os cabelos... Me vendo sozinha naquele canto próximo ao hall da entrada.
— Oi... – e devido ao perfeito reconhecimento que tive daquela voz, não consegui evitar aquele meu peculiar olhar entojado.
Eu e a minha incrível incapacidade de disfarçar minha cara de nojo.
Mike ignorou meu olhar, sorrindo para mim. Tô começando a ficar assustada.
— Mike, por favor, some.
— Rapunzel, vamos terminar nossa conversa. Por favor.
— Já escutei o suficiente. – fitei as unhas.
Anna chegou, me trazendo outra garrafinha d’água. Prostrou-se ao meu lado, junto de Meri, sem falar nada.
— Sei que fui um babaca com você. Mas desde o início eu pretendia te escolher…
— Escolher?! – ri sem humor. – Que tipo de porcaria masculina é essa que estou sendo obrigada a ouvir?
— O que ele acha que ela é? Um Pokémon?! (???). – exclamou Meri, em alto e bom som, comentando com Anna.
— Sabe que a Heather tem cisma contigo desde a iniciação no Dalilahs, você sabe! Ela tramou tudo isso, eu só… – o interrompi.
— Aposto que ela odiaria te encontrar aqui, tentando dar satisfações a mim. – falei com tranquilidade. – Sugiro que suma da minha frente. Minha paciência tem limites. Antes dela querer fazer a louca pro meu lado de novo, pode ter certeza que eu sou o hospício inteiro.
Ele suspirou, fitando o chão. Não parecia irritado.
Levou alguns segundos antes de me encarar com o olhar profundo.
— Eu ainda não desisti de você, Rapunzel.
Falou de forma tão sincera que quase acreditei.
— Mas é melhor que desista. – firmou alguém, com a voz extremamente exigente, antes que eu pudesse adicionar qualquer comentário a sentença de Mike.
Olhei para aquele parado atrás do mesmo, afim de identificar o rosto do intrometido em questão e… meu coração falhou uma batida.
Flynn manteve seus olhos semicerrados mirados em Mike, que sustentava o olhar.
— Eu odeio ter que repetir minhas ordens, Mike. – sua voz permanecia firme.
— "Ordens"? – Mike o encarou por alguns segundos. – Não sou um dos seus capangas para seguir suas ordens. E você me chantageou.
Flynn sorriu em deleite com sua própria maldade.
— Entenda como quiser.
— Quer saber? – Mike franziu o cenho, gesticulou com as mãos na direção do outro. – Eu não tenho mais nada a perder. – fitou Flynn com arrogância, que o encarou de cima. – Não tenho mais motivos para temer você.
Flynn deu um sorriso desdenhoso, o que resultou numa feição indisfarçavelmente irritadiça de Mike, e de forma repentina tornou-se sério.
— Passe por cima da minha palavra e os motivos serão concretos. – falou de uma forma tão absurdamente séria que até eu fiquei com um medinho básico aqui.
Mike em nenhum momento baixou a fronte.
— Está me ameaçando, Rider?
— Isso não é uma ameaça. – Flynn respondeu quase que no mesmo instante, sua voz sombria. – É uma promessa.
A postura de Mike ruiu.
Ele chegou a desviar o olhar e me fitar, só então trazendo sua confiança à tona novamente.
— Estou disposto a arriscar.
E eu ali, no meio do fogo cruzado, por um momento me senti em perigo (?).
— Olha só, princesas... – zombei, chamando a atenção dos dois, mas apenas Mike me encarou. – Vão, sei lá, jogar uma partida de futebol pra extravasar esse excesso de testosterona estagnada em vocês e selem a paz. É melhor do que trocar farpas feito duas adolescentes frustradas.
Mike desviou o olhar, envergonhado.
Flynn, no entanto, me fitou de esguelha por mínimos segundos, ainda me mantendo dentro da categoria dos que deveriam ser desprezados por ele.
No segundo seguinte, ele simplesmente virou as costas e saiu dali.
Senti uma sensação estranha e muito ruim.
As meninas sinalizaram com as mãos para mim, avisando que iam embora e me esperariam lá fora.
Me virei para ir atrás delas, deixando Mike ali com cara de bunda (?), tentando ignorar a todo momento que a forma como Flynn me tratara me feria e buscando aceitar o quanto antes que a culpa disso era minha.
Ele só estava tentando me proteger.
Da maneira dele – ameaçando pessoas, fazendo chantagens, pois é, exatamente à maneira dele –, mas ainda sim, me proteger.
E eu o acusei de todo tipo de coisa.
Eu me sentia envergonhado, frustrada, arrependida… Mas seguiria à risca o que ele me pediu com tanta seriedade.
"Quando se der conta do erro que acabou de cometer… Por favor, não me procure."
Pode deixar. Eu não vou.
Continuando meu caminho, passo por Flynn na varanda, que sequer me olha. Cumprimento Hans, que está encostado em uma das pilastras observando algo adiante. Anna e Meri já estavam próximas a portaria.
Nesse momento, minha atenção e até mesmo a de Hans e de Flynn é bruscamente puxada para Kristoff, que passou feito um foguete na direção das meninas.
Noto Hans observando o caminhar pesado de Kris até Anna. Revezo o olhar entre os dois. Observo Kris lançar uma encarada mortal a Hans, que o responde com um leve risinho. Também noto que Mike chegou a varanda, e que ele e Flynn voltaram a se encarar com desprezo infinito.
Revirei os olhos. Homens.
Aproveitei a deixa para alcançar as meninas.
E como já esperado, Anna estava em uma de suas casuais discussões com Kristoff, enquanto que Meri esperava, um pouco distante, cantarolando a música tema de Pokémon (?).
Cheguei próximo a ela.
— Desculpa te fazer esperar, Meri. Entendo o quanto é constrangedor... – gesticulei com a cabeça, na direção dos dois discutindo.
Ela concordou, dando de ombros. – Já estamos acostumadas, não é mesmo?
Meri não estava olhando em meus olhos. E isso me deixou ainda mais receosa… Esperar para agir em casa já não estava dando mais certo. Já não aguentava mais de preocupação.
Todavia, antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, houve a repentina exclamação que tomou a atenção de todos nós.
— Ei! – Hiccup vinha correndo, com os finos cabelos sendo jogados para trás a cada passo apressado. Aparentava estar aliviado. – Você vai embora? Prometeu me esperar, lembra?
Ele tá falando com a Meri. Ficou nitidamente aliviado em ainda vê-la aqui. Abriu um sorriso tão bonito e sincero pra ela que, francamente, de todo meu coração, me surpreendi ao perceber que Meri não o correspondeu.
Agora é oficial. A situação está mesmo séria.
— O que houve? – Hiccup indagou, sem jeito.
Fitei o rosto de Meri, também esperançosa em saber a real resposta.
Ela fitou Hiccup por alguns segundos, depois repousou o olhar sobre mim e desviou para o chão. De novo isso.
— Érr, eu... Eu acho melhor eu ir embora, Hiccup.
— Então deixa eu te levar, pelo menos...
— Não precisa. – respondeu de imediato. – Acho melhor você voltar lá pra cima... – deu um longo suspiro. – Astrid pode estar precisando de você.
Então era a Astrid, a tal bêbada?
Por que será que isso está me soando ruim, ein?
Anna já estava ao meu lado, observando tudo.
— Pode deixar, Hiccup... – ela resolveu quebrar aquele silêncio que parecia infinito. – Ela vai embora com a gente.
— E aonde você pensa que vai? – questionou o rebelde sem causa Kristoff segurando-a pelo braço. Ah, pronto. – Ainda não terminamos nossa conversa.
— Ah, terminamos sim. – minha amiga falou tranquilamente até demais. – Não tenho a vida ganha que nem você. Amanhã tenho que procurar um novo emprego, então se me der licença...
— Como estou vendo, isso vai demorar. – dei um longo suspiro, revirando os olhos. – Vocês que se entendam... Vamos, Meri. – puxei a mão de Merida, seguindo em direção a portaria.
Mas meu coração falhou uma batida quando Flynn se colocou à minha frente. Não consegui disfarçar meu nervosismo e engoli em seco, sustentando o seu olhar que me consumia de dentro pra fora.
Desviei meus olhos dos seus, me sentindo sem forças e possessa por ele conseguir me drenar com apenas um olhar intenso.
— Era só o que me faltava.
Cruzei os braços, indignada com aquela sensação ruim que vinha se tornando familiar.
Se chama culpa, Rapunzel. Culpa.
— Está satisfeito? – murmurei, sem fita-lo.
Pois eu sabia que ele estava me encarando de cima de sua torre de marfim.
Ele não respondeu, como de praxe.
Por que ele está fazendo isso? Por que se deu o trabalho de vir aqui, impedir minha passagem? Pediu que eu não o procurasse mais e assim eu faria.
— Obrigada por ter tentado me alertar sobre Mike. – um esforço enorme para conseguir exprimir essa frase bem baixinho e em menos de dois segundos.
Encarei-o por um momento e ele tinha os olhos em fendas, os braços cruzados.
— Mas isso não é motivo pra me manter em cárcere privado (?).
Ele arqueou uma sobrancelha e meu coração deu um solavanco ao ver um sorrisinho no canto de seus lábios.
Neguei com a cabeça, olhando em volta. Anna e Kristoff discutindo. Merida e Hiccup se encarando. Nada fora do comum de hoje. Exceto pelo fato de Flynn estar agindo totalmente contra o que ele tanto queria e meu coração estúpido tendo reações tão imbecis.
— Ora, vejam só. – uma grave voz imergiu repentina do batente da portaria. – Vejo que cheguei na melhor hora da festa.
Todos fitamos na direção de onde se originara o comentário. Um senhor alto, com cabelos tão alvos e brilhantes quanto os de Jack, segurava um grosso sobretudo de lã que lhe era entregue por seu choffer. Agradeceu e caminhou até nós. Abriu um grande e caloroso sorriso, antes de indagar.
— E então, onde está o meu filho? – exprimiu animado, esperando ansiosamente pela resposta.
Fitei o rosto de Flynn, com a sobrancelha arqueada. Ele parecia muito surpreso. Muito.
Desci o olhar... Percebi o amassado ainda visível em sua camiseta cinza e sem mangas; obra dos meus dedos.
— Tio Nick?! – exclamou Hiccup.
— O próprio. – respondeu, com aquele mesmo caloroso sorriso. – Vejam só, que moças bonitas! Estou orgulhoso, seus marotos... – deu uma risadinha.
— Érr, nós... – Hiccup, de tão vermelho e encabulado, não conseguiu continuar a frase (?).
— Somos amigos. – desconversou Flynn.
— Apenas amigos. – Kristoff falou sério.
— Nem isso. – murmurou Anna.
— Nem isso porque o seu temperamento não permite. – o outro alfinetou.
— O meu, né?! – ralhou Anna.
— Ah, vai começar tudo de novo... – suspirou Meri, exausta.
Ai, ninguém merece! Resolveram reatar a discussão logo na frente do senhorzinho com aparência imponente e honrosa que acabou de chegar? Cadê os modos dessa gente? (?????)
— O senhor pode ignorar isso, ok? – dei um sorriso amarelo, enquanto ele fitava com uma sobrancelha arqueada Anna e Kristoff ainda trocando farpas.
— Pelo visto, isso vai longe. – comentou, chamando a atenção dos outros dois, que o fitaram sem graça.
— Pois é... – concordei, dando um beliscão disfarçado em Anna, que murmurou um “ai” seguido de uns resmungos. – Oh! Que falta de educação a minha! Queira me perdoar, eu me chamo Rapunzel. Essa esquentadinha aqui é a Anna. – sorriu Anna, dando um tchauzinho. – E essa ruivinha fofa é a Merida. – Meri forçou um sorriso, seguido de um aceno de cabeça.
— Todas adoráveis! – exclamou em euforia. – Eu me chamo Nicholas North Frost. – sorriu cordialmente, dando uma breve reverência.
— Não precisa dessa cordialidade toda, Sr. Frost. – Flynn falou sério, com os braços cruzados.
— Ora, mais é claro que precisa! Toda dama precisa ser tratada bem, levem isso para a vida, moleques.
Olhei debochada para Flynn. – Aprenda. – alfinetei, tendo um olhar irritado como resposta.
— "Sr. Frost"... – Merida murmurava para si mesma, pensativa. – "Frost"?
— Apenas North, minha cara. E sim, você ouviu muito bem.
— Wow, então o senhor é...
— Pai do Jackson? Sou. E por falar nisso, onde ele está? – Meri estava meio que estupefata demais para responder.
— O senhor é o pai do Jack?! Nossa! – exclamou Anna, de repente animadíssima. – Rikudou amado, quem diria que um dia eu conheceria o sogro da Elsa primeiro que ela?! – a fitei com os olhos arregalados. Merida também. E os meninos também. Na verdade, até o North. – Falando nisso, cadê aquela vaca albina? – indagou a si mesma, refletindo por um momento. – Elsa, cadê você, mana! Tá na hora de conhecer o sogrão! – berrou e riu da própria piada, enquanto fazia menção de ir para dentro da casa para procura-la, quando Kristoff a segurou pelo braço.
Flynn, ainda com os braços cruzados, não conseguia disfarçar o olhar surpreso. Hiccup colocava uma mão rente a boca, tentando não rir. Eu e Merida fitávamos o rosto de North, que estava confuso e chocado.
Assim que a puxou, Kris a lançou um olhar reprovador.
— Que foi? Não me olha assim não, vou te dar um chute.
— Anna! – exclamei, tentando não rir.
— Tá, tá legal. Já calei.
— Quem é Elsa? – indagou North, zonzo de tão confuso, ainda digerindo as informações.
— Futura namorada de seu filho. – respondeu Anna, fitando as unhas.
— Eu achei que só eu havia percebido a tensão sexual naquele ar entre eles (???????). – Meri manifestou-se, com o olhar longe.
— É meio impossível não perceber. – Anna comentou.
— Mais uma vez, quem é Elsa?! – o senhorzinho exclamou novamente.
E só então percebemos que ele observava tudo o que se passava aqui. Ele parecia meio assustado (?).
— Elsa é nossa amiga. – respondeu Meri, relutante.
— E futura namorada de seu filho, se os deuses permitirem. – Anna falou com veemência.
— Namorada?! – ele parecia não acreditar no que ouvira. – Jackson namorando? Seria meu sonho? – North parecia um tanto deslumbrado.
— Por que é tão absurda assim a ideia de Jack namorar? – pude ouvir Anna cochichar com Kris.
— Não é absurda, só é algo que ninguém, nem mesmo o próprio pai de Jack, está acostumado a ver. – ele respondeu, num tom cúmplice, feito dois amigos de anos.
Eles não estavam discutindo quase agora? Desisto. Eu nunca vou conseguir entender esses dois.
— Preciso conhecê-la! – exclamou North, assim mesmo, do nada. – Onde ela está? Preciso conhecer minha futura nora. – completou, todo bobo. Gente...
— Adoraríamos que você a conhecesse, no entanto, nem mesmo nós sabemos onde ela está. – admiti, num suspiro.
— Na verdade, ela foi checar o paradeiro de uma de suas amigas em casa. – Flynn comentou com sua voz gostosamente séria, enquanto checava a tela do celular. – Jack acabou de mandar mensagem. Ele a levou.
— Ué? – disse Meri, confusa. – Como vamos para casa? Elsa está com as chaves.
— Meu Deus, é verdade.
— Como aquela doida não pensou nisso? – questionou Anna. – E agora?
— O jeito é pedir um Uber né. – Meri deu de ombros.
— De maneira alguma. – interviu Sr. Frost. – Sand, caro amigo. Leve as meninas em casa, por favor, sim? – o choffer Sand anuiu prontamente com um sorriso e gesticulou, nos indicando o sofisticado carro.
Ok, não pude negar que estava muito maravilhada. Que senhor bondoso!
Anna se aproximou de North, ainda sorrindo. – Valeu, Tio Nick! – falou, toda cheia de intimidade.
Ele sorriu. – Disponha.
Anna foi andando na frente, sendo seguida por Meri, que deu uma última espiada em Hiccup, antes de tornar a fazer seu caminho até o carro, e teve o olhar correspondido.
— E você... – North apontou na direção de Hiccup. – Nem pense em sair. Seu pai chegará em algumas horas. – falou, tornando a caminhar para dentro da casa.
Os olhos de Hiccup arregalaram-se. – Meu pai?!
— Sim. E sua mãe. – virou-se para nós, antes de entrarmos no carro. – Tenham uma boa noite, moças. – despediu-se cordialmente. – E eu ainda quero conhecer minha nora. – deu uma piscadela, enquanto ainda observávamos ele se afastar, ignorando o rosto espantado de Hiccup.
Anna sorriu sincera. – Que senhor carismático. Adorei ele.
Anuí, concordando com o comentário.
E me esforçando para não olhar para trás, uma vez que eu ainda sentia o olhar intenso de Flynn sobre mim.
POV Elsa
Um cubículo.
Nunca achei aquele elevador pequeno antes, muito pelo contrário. Na minha opinião, sempre foi bem espaçoso...
Até ter que dividi-lo com Jack naquela noite.
Estávamos a sós no elevador que, magicamente, parecia ter diminuído.
Eu suspirava, olhando impaciente para o visor digital no alto da porta. Segundo andar. Ainda segundo andar. Que maldita demora para chegar no oitavo.
Esse silêncio torturante... E por que raios estou tão nervosa?! Estou preocupada com Tooth... É só isso.
Suspirei novamente, arrisquei fitar seu rosto e fui flagrada, pois seus gélidos olhos azuis já me encaravam.
Desviei o olhar, toda sem jeito. Maldição.
Terceiro andar. Esse elevador está se arrastando.
Eu estava no canto mais distante possível de Jack e mesmo assim não parecia suficiente pra suprimir o magnetismo nítido que emanava dele, me chamando para mais perto.
Outro suspiro. Meus braços cruzados se apertaram sob meu busto, mordi o lábio tornando a fitar o visor.
Quinto andar. Só pode ser brincadeira.
Baixei a cabeça, desistindo de contar os andares. Arrisquei olha-lo novamente, dessa vez com mais sutileza...
Ele também fitava o chão e respirava fundo. Estava encostado na parede lateral, suas mãos agarradas ao corrimão com tanta força que chega os nós de seus dedos estavam esbranquiçados.
Estreitei os olhos para essa reação, o analisando com mais afinco.
Jack estava agora com os olhos fechados, ele parecia tentar compassar a respiração. Os músculos de seus braços tensionados evidenciavam a dificuldade que ele tinha em... Não faço ideia do que.
Parei de observá-lo, antes que ele me flagrasse novamente. Respirei fundo, mais uma vez nervosa naquela noite...
Bom, eu cheguei à conclusão de que o motivo de eu me sentir tão nervosa perto de Jack é que eu sinto uma profunda vontade de arriscar. Arriscar o que, Elsa? Tudo!
Desde muito nova, tenho esse hábito que fui aperfeiçoando conforme a idade avançava...
O hábito de calcular tudo.
Chega a ser cruel o modo como consigo ser tão racional em questões assim. Minhas amigas apontam isso inúmeras vezes.
É bom deixar que seu cérebro comande quando o seu coração tem tendências nada convencionais e, acima de tudo, é recordista em induzi-la a fazer burradas.
De tanto praticar o uso da razão em questões sentimentais, tornou-se um costume que muitas das vezes até faço sem perceber.
“Não arrisque seu coração, Elsa.”
“Pra que mais feridas?”
“Quer fazer uma coleção de decepções?”
“Você já chorou antes, vale a pena passar por isso de novo?”
Essa voz coerente já se tornara minha amiga. Na verdade, ouço minha própria voz, sempre com seu timbre brando.
A concordância era mútua, entre eu e essa voz. Ela nunca precisou gritar em minha mente...
Até Jack aparecer com suas investidas.
Foi o momento em que, pela primeira vez depois de muito tempo, meu coração estava páreo a páreo com minha cabeça. Vez ou outra, esse meu vil coração ainda ultrapassava meus conceitos racionais com argumentos que eu mesma criava. Muito confuso, eu sei.
A questão é que quando isso acontece, uma necessidade louca de arriscar cresce dentro de mim. Sem cálculos, sem estimativas ou prognósticos. Totalmente fora da minha zona de conforto. Apenas uma vontade desvairada de... Só ir.
E eu concluí que é por isso que fico tão nervosa quando estou perto dele.
Me torno aquele eu que me permiti ser uma vez. Aberta, entregue de corpo e alma.
A vulnerável eu.
Alguém que eu temia voltar a ser.
As consequências são duras; e elas sempre aparecem, mais cedo ou mais tarde.
Não sei se vale a pena arriscar sofrer por alguém como Jack. Mulherengo, convencido, malandro… e muito esperto. O que ele quer comigo, afinal, que não o mesmo que deseja com todas as outras?
Não posso pôr em risco o que cuidei durante, bem dizer, toda a minha vida por causa de um par de olhos azuis hipnotizantes e um sorriso encantador, claro que não... Né?
Suspirei, apoiando minha cabeça na parede fria atrás de mim.
Jack é duvidoso demais.
Ele não vale esse risco. Nunca mostrou valer.
E é por isso que devo me esforçar para continuar seguindo a razão.
Mesmo que, dessa vez... Esteja sendo muito difícil.
Um som agudo soou e a porta do elevador se abriu, indicando o oitavo andar. Mal esperei abrir por inteiro e saí a passos precisos pelo corredor, parando em frente à nossa porta; cujo o numeral entalhado a madeira era 802.
Jack aproximou-se, sem tirar os olhos da porta, curioso. Ele sorriu de lado e me fitou de maneira divertida.
— Lilás? – indagou com a sobrancelha arqueada.
— Ideia de Rapunzel.
Busquei pelas chaves e abri a porta. O breu tomava conta da sala de estar. Me apressei em ir na direção do interruptor e, assim que a escuridão não mais era um problema, varri a sala com os olhos.
Porém, Tooth não estava ali. Suspirei pesadamente. Só então notei que Jack ainda esperava na porta.
— Oh, me desculpe, por favor, entre... – apressei-me em dizer e, assim que ele passou pela entrada, a fechei. – Ela não está aqui.
Ele parecia pensativo. Parou em pé ao lado da ilha que separava a cozinha da sala de estar.
— Vou checar se ela está lá em cima, ok? Fique à vontade... – não esperei uma resposta, pois subi rapidamente, em direção ao corredor do andar de cima.
Fui direto para o quarto de Anna, onde Tooth havia se aprontado e deixado suas coisas. A escuridão tomava o quarto, contudo, as janelas abertas permitiam que a suave luz da lua adentrasse. Identifiquei a silhueta de alguém deitado sobre a cama.
Tooth.
Entrei de fininho, sem fechar a porta, evitando fazer ruídos. Se ela estivesse dormindo, eu não ia querer acordar.
Mas ela não estava dormindo. Se virou ao ouvir o som dos meus saltos contra o chão, mesmo que de levinho, em uma parte desprotegida do tapete.
— Elsa? – indagou com a voz sonolenta, sentando-se e coçando os olhos.
Ao vê-la acordada, acendi as luzes no interruptor.
— Sim, sou eu... – sentei-me ao seu lado. – Você veio pra casa, não avisou a ninguém... você está bem?
Ela deu de ombros. – Eu estou um pouco enjoada e... um pouco tonta também, e... talvez um pouco confusa. – depois de uns segundos, me fitou alarmada. – Ai, caramba, eu preocupei vocês, não foi? Ah, meu Deus, me desculpe, El... – choramingou, arrependida. – Não foi minha intenção, sério! – começou a gesticular com as mãos, exaltada. – Eu comecei a me sentir mal e justamente por não querer preocupa-las eu vim pra casa, só que aí, eu estava bêbada, só quando cheguei aqui lembrei que não avisei ninguém, aí aquele senhorzinho que fica na portaria, sabe? O senhorzinho simpático, coitado, eu vomitei no sapato dele, El, foi muito triste a cena (?). E aí, ele me ajudou a entrar, ele destrancou a porta pra mim porque já me conhece, e depois fechou, e eu fiquei trancada, mas só percebi agora que ele me trancou. Deve ter sido sem querer e amanhã eu tenho que pedir desculpas por ter vomitado no pé dele. Ai, eu tô com tanta vergonha. – colocou as mãos no rosto, se escondendo. – Me desculpa, El... – resmungou detrás das mãos (?).
— Tooth, calma... – ri, segurando seu braço, fazendo-a me fitar. – Está tudo bem. Eu vim porque a última pessoa que te viu falou que você parecia estar mal…
Fitei o fundo de seus orbes violáceos, detectando ali um resquício de uma tristeza que havia sido duramente lavada por lágrimas, todavia, não completamente. Os olhos ainda exibiam um brilho, por conta do recente choro.
Suspirei. – E isso me deixou aflita. – completei, também fazendo desta frase um comentário para minhas conclusões mentais. – E ao tentar ligar pro seu celular, estava dando caixa postal...
Ela procurou o aparelho em sua bolsa, constatando que estava desligado.
— Deve ter descarregado... eu não percebi.
Ela não tornou a me fitar. Foi preciso eu dar um longo e audível suspiro para que ela dirigisse seu olhar a mim novamente.
— O que aconteceu, Tooth? – arregalou-se os olhos e então eu tive certeza.
Sempre que algo acontece com Merida, Anna ou Rapunzel, algo que elas evitam me contar – a maioria das vezes, para me poupar de preocupações –, elas costumam se esquivar de me olhar nos olhos. Ou melhor, me privam de fita-las nos olhos.
Porque, quando isso acontece, eu sempre acabo descobrindo tudo.
Parece que Tooth terá de aderir o método das meninas de hoje em diante.
— Olha, eu estou aqui para ajudar você... – comecei, depois de notar o longo silêncio. – Sou sua amiga, Toothiana. – ela fitou o tapete de algodão estirado ao chão do quarto de Anna.
O semblante soturno, incomum naquele rosto, denunciava o quão difícil estava sendo para ela fitar em meus olhos.
— Se não confia em mim para falar sobre isso, ao menos peço que converse com Anna ou... alguém... – dessa vez, ela me fitou. – Nenhuma de nós gosta de vê-la assim.
Ela respirou fundo. – Eu confio em você, El. O problema não é esse... – falou tristonha.
— Então... realmente há um problema. – ela baixou a cabeça e anuiu lentamente. – Podemos tentar resolvê-lo juntas.
Ela tornou a me fitar, com um sorriso fraco no rosto.
— Seria bom... – pareceu lembrar-se de algo subitamente, tornando sua feição novamente aflita. – Mas eu vou pedir pra você, por favor... – respirou fundo. – Não me julgue.
Franzi o cenho.
— Não me insulte, Tooth. Eu disse que estou aqui pra ajudar, não pra piorar as coisas. Vá em frente. Conte-me o que aconteceu.
Correram-se longos segundos mais uma vez e eu esperei pacientemente. Senti que ela precisava desse tempinho para reorganizar a mente.
Suspirou, abriu a boca e, hesitante, começou seu relato.
Tooth contou-me tudo o que houve desde a hora em que nos separamos, mas focou-se naquele peculiar momento da varanda de trás.
Contou-me sobre um homem educado que a ajudara mais de uma vez. Afeiçoei-me a esse rapaz logo nas primeiras palavras que usou para descrevê-lo. Ela disse “ele foi gentil comigo, mesmo correndo o risco de eu nem lembrar de sua gentileza, El... pois, é sério, eu estava muito bêbada.” E riu. Um riso triste e frustrado.
Com um sorriso compreensivo, segurei seus dedos e indaguei se esse seu comportamento era por causa desse homem...
Ela negou com a cabeça tristemente e respondeu que, na verdade, o motivo disso tudo dava-se a identidade daquele homem e o fato dela tê-lo beijado. E eu, sem nada entender, já formulava uma nova indagação...
Foi quando, por fim, como que tenha ensaiado aquilo por horas, ela disse seu nome.
Eu não pude evitar a surpresa.
Tooth percebeu.
Não me surpreendi por ele ter sido gentil. Afinal, ele sempre fora assim. Porém, pela primeira vez parei pra pensar em Tooth e Phillip juntos. É algo que nunca passou pela minha cabeça, mas não me sinto desconfortável de forma alguma.
É fácil de imaginar... Phillip e Toothiana.
E também eu estarei observando bem de perto para evitar que quaisquer, digamos, “déjà vu” aconteçam... Mesmo que algo grite em minha cabeça que não será necessário, aprendi – com Anna – a ser desconfiada de tudo.
Suspirei longamente, um pouco zonza… Phillip e Toothiana. Seria lindo se não fosse tão trágico. Porque, pela cara de Tooth, está aparentando ser algo trágico.
— Toothiana, eu não quero ser de forma alguma um pivô para a sua infelicidade! – deixei claro e ela me encarou com os olhos arregalados
— Mas eu pensei que...
— Você pensou que ele fosse um canalha qualquer, pois é, nós nos esforçamos pra mostrar isso a todos! – suspirei, me sentindo um pouco envergonhada e arrependida. Talvez muito. – Mas o que você sabe de Phillip… é só o que te contamos. É só o que eu vivi junto dele, quando ele ainda era um moleque. E você já deve ter percebido que só te contamos as piores partes. – aflita, eu mordia o lábio inferior tentando de todas as formas encontrar um bom motivo para justificar tudo o que falamos sobre ele.
É certo que Phillip não era lá flor que se cheirasse e o que eu passei com ele de fato me machucou bastante, acarretou-me problemas seríssimos, marcas incuráveis e cicatrizes eternas. Mas da mesma forma que tenho plena certeza que a culpa nunca foi minha, eu também tenho plena certeza que a culpa nunca foi dele.
Fora que eu retratei o Phillip como um monstro – o que de fato ele nunca chegou a ser pra mim. Gemi em frustração, passando as mãos na testa e tentando, de alguma forma, me esconder.
Tooth parecia um tanto confusa. Deu uma risadinha, que logo se transformou em um diminuto sorriso que eu me senti bem ao ver. Sorri sincera. Algo pareceu incomoda-la novamente, mas não a ponto de tornar sua feição mórbida como antes.
— Tem algo que eu... ainda desconfio. – ela começa, se remexendo um pouco desconfortável. – Você é a única pessoa aqui que conhece ele muito bem...
— Pode falar. Eu tiro suas dúvidas... – dei uma pausa dramática. – Prometo ser sincera e não ocultar nada. Palavra de honra! – ela riu de forma fofa.
Me objetivo, por ora, fora atingido – diverti-la
— Me responde, Elsa... – não pude evitar fitá-la com certa curiosidade, porém, mantive-me paciente. – Ele é sempre gentil? Como foi hoje comigo? Digo... – ela deu uma pausa, sem me olhar nos olhos ao terminar a indagação.
Na verdade, ela deixou por terminar...
Não foi preciso fitar seus olhos. Tava na cara. Ou melhor, na voz. Ela queria que ele fosse, de fato, alguém gentil e que tenha a ajudado por ser de sua natureza, não por estar interessado em algo.
Suspirei, sentindo novamente aquela sensação desconfortável de arrependimento.
— Phillip sempre foi muito educado. Não me surpreende ele ter tentado te ajudar. – afirmei, com o olhar longe. – Nunca tive motivos de reclamar dele nesse quesito... – dei uma risadinha, dando de ombros. – Acho que, quando o assunto é ele, nos deixamos levar pela revolta gerada pelo passado conturbado, e acaba só saindo... ofensas e defeitos. – divaguei por um momento, lembrando-me do dia em que o vi na faculdade a primeira vez. Ele havia me ajudado. – Esquecemos de te contar as qualidades, pois geralmente não costumamos pensar nelas. – dei de ombros novamente, tentando soar casual.
Ela sorriu triste ao fitar meu rosto. Negou com a cabeça antes de expor.
— Às vezes, sinto medo de me arriscar. Não quero me decepcionar, sabe? – e deu aquela mesma risada descontente.
Eu sorri para ela, apesar disso.
— Não se prive da felicidade, Tooth. Você nunca irá saber se não arriscar. Pode acontecer dele ser mais uma decepção, isso é verdade... – ponderei. – Mas também pode acontecer de ele te fazer a pessoa mais feliz desse mundo, tornando aquelas decepções exorbitantes apenas pedrinhas deixadas para trás nesse longo e disforme caminho que é se apaixonar. À frente, só haverá amor, felicidade e aquela sensação gostosa de que... valeu a pena. – fitei ao longe, com um sorriso ainda em meu rosto. – Como você irá saber se não tentar? Pense no depois. Qual sensação você avalia ser mais compensadora? – foi uma pergunta retórica e ela entendeu.
Dessa vez, ela não pareceu confusa. Me fitou de maneira compreensiva e sorriu.
Fui pega de surpresa novamente aquele dia ao sentir um abraço de Tooth. De primeira, não correspondi por conta do sobressalto e a minha aversão a contato físico gritando em meu âmago, mas logo apoiei ambas as mãos em suas costas, suavemente, dando leves tapinhas. Mantivemos o abraço por alguns segundos, até que ela murmurou, em meio ao abraço.
— El?
— Sim?
— Por que você não segue o seu próprio conselho?
Foi um tapa.
Um forte e doloroso tapa desferido direto na minha cara. Eu até podia sentir meu rosto arder...
Não faço a mínima ideia de qual era a minha feição naquela hora.
Me apressei em tentar formular qualquer resposta, antes que ela pudesse perceber esse constrangedor silêncio de quem foi deixada ali, sem palavras.
No entanto, por mais que eu me esforçasse no raciocínio de uma boa resposta... Eu não obtive nenhuma.
Então resolvi mudar de assunto.
— Menina, você deixou todo mundo preocupado, ein? Ficamos feito dois loucos procurando por você! – dei uma risada nervosa, tentando soar divertida.
Ela se afastou e fitou meu rosto. Não parecia ter notado a minha súbita mudança de assunto, mas parecia ter estranhado algo que eu disse.
— Como assim “dois loucos”? – indagou, confusa. – Não veio com as meninas?
Eu sorri. – Na verdade, não. Vou chamar uma pessoa que, acredite, ficou muito mais preocupado que eu e foi de grande ajuda na sua busca.
Ela ainda me fitava confusa, só que agora, também curiosa.
— Meu Deus, quem é que tá aí, Elsa? Ai, meu Jesus Cristo, eu to horrível. – falou ela, ajeitando os cabelos bagunçados e tentando limpar a maquiagem borrada.
— Mulher, calma. – dei uma risada, tentando tranquiliza-la. – Não precisa descer, eu trago ele aqui.
— “Ele”?!
Desci as escadas, dando uma inevitável risadinha pela reação dela e, ao chegar na sala, encontrei um Jack super distraído sentado sobre uma das banquetas rotativas do balcão, dando carinho no Olaf em seu colo.
Ri baixinho e o chamei. Ele me fitou sobressaltado, para logo em seguida abrir um sorriso.
— Confesso que estava ansioso para conhecer esse seu melhor amigo. – levantou-se, deixando o Olaf no chão e vindo em minha direção. – Ela está aí? – indagou, esperançoso.
— Sim, estava deitada. – ouvi um suspiro aliviado como resposta.
O guiei até o quarto de Anna, onde a porta estava encostada. Empurrei a porta delicadamente, encontrando Tooth ainda sentada no mesmo lugar que a deixei, só que agora com um olhar ansioso.
Sorri para Tooth e ela soube que quem quer que fosse entraria agora – percebi isso pela forma como ela ajeitou sua fronte.
Parei na ombreira da porta, com os braços cruzados, fiz um sinal com a cabeça indicando que ele entrasse.
Frost passou por mim e Tooth se levantou na mesma hora... Boquiaberta, arquejou surpresa.
— Jack?! – Tooth parecia não acreditar no que vira.
Ele deu lentos passos até chegar bem próximo a ela. Suspirou e eu sorri com o modo como se olharam. Eles se encararam por longos segundos até que...
— Tu tá maluca, garota?! Sumindo desse jeito, ficou louca nas drogas? Quer morrer?!
Tooth deu uma risada tão alta, que chega me assustei. De repente, minha feição ficou confusa, mas não pude evitar um risinho.
— Me desculpe... – Tooth pediu, entre uma risada e outra.
— Peraí... – ele chegou perto dela e começou a “farejar” bem próximo ao seu corpo (?). Não sei dizer qual foi minha expressão ao assistir isso. – Você bebeu. – concluiu ele, a fitando com os olhos semicerrados. – Você não bebe. Já entendi tudo. Está bêbada. Sendo assim, eu te desculpo. – falou, colocando as mãos na cintura, de maneira divertida, forçando um tom íntegro e justo.
Não pude evitar rir, com uma mão rente a boca.
Ela suspirou aliviada, arrancando uma risada de Jack. Sorri, assistindo a amizade dos dois. Eles nunca deveriam ter se afastado.
Fechei a porta, pois não queria atrapalhar.
Desci as escadas e me peguei pensando que se por acaso eles nunca tivessem se afastado, hoje em dia, talvez, estariam sendo mais que amigos. Ainda há tempo. Eu acredito em destino e se tiver que ser entre eles dois, será.
Me sinto egoísta por, no fundo, essa ideia me deixar muito desconfortável. Achei engraçado o modo como não me incomodei de forma alguma em pensar nela e Phillip.
Porém, com Jack...
***
Atravessei a sala e fui até cozinha, ainda pensando em Tooth e Jack juntos.
Sacudi a cabeça, abrindo a geladeira.
Mas logo senti-me idiota por ter aberto a geladeira pra nada. O que eu queria não estava exatamente ali dentro. Peguei uma água, só pra me sentir menos tola.
Sentei-me em uma das banquetas do balcão enquanto abria a caixinha de macarons recém retirada do armário.
Fitava a tela de meu celular vagarosamente, checando as redes sociais – dei uma risadinha vendo um storie de Jack, onde ele fazia um jogo de um filtro que dizia qual Pokémon se parecia mais com ele.
Descartei a notinha visível no canto superior do visor que me lembrava um aniversário próximo. Pensei no que poderíamos fazer para ela quando a data enfim chegasse, enquanto mastigava meio pedaço de um macaron cor-de-rosa.
Distraída, só percebi a aproximação de Jack as minhas costas quando me encolhi toda ao sentir dedos em meu ombro, mas suspirei aliviada ao constatar que era ele, o que o fez sorrir.
Ele sentou-se na banqueta ao meu lado em silêncio e eu arrastei em sua direção a caixinha de macarons, o qual ele aceitou um prontamente.
— E então? – indaguei, tornando a fitar a tela do celular em minha mão.
— Ela foi tomar banho. – e estendeu a mão até meu copo com água ainda cheio. Eu não havia dado mais que duas bebericadas. – Posso?
— Claro.
Ele pegou o copo, dando duas goladas, enquanto eu observava o tentador subir e descer de sua proeminência laríngea. Elsa, é falta de educação encarar.
Ao terminar, desviei o olhar antes que ele notasse que eu o espiava. Voltei minha atenção ao celular, enquanto ele pegava outro macaron.
— Espero que tenham se entendido. – murmurei, sem fita-lo.
Pude sentir seu olhar sobre mim, mas não tornei a encara-lo. Depois de alguns segundos, ele respondeu.
— Nós nunca nos desentendemos.
— Então por que se afastou dela? – coloquei o celular sobre o balcão e girei sobre a banqueta alta, para ficar de frente para ele.
Ele continuou fitando a sua frente e crispou os olhos para o nada.
— É claro que ela te contou. – murmurou, em meio a um suspiro, tamborilando nervosamente os dedos sobre o balcão
— Acha que ela merecia isso? – questionei inquisidora.
— Acha que fiz de propósito? – retrucou no mesmo instante.
— Que curioso deve ser evitar uma pessoa "sem querer". – fiz aspas com as mãos num claro tom irônico.
Ele crispou os olhos azuis.
— Você não entende, Elsa. – negou com a cabeça, antes de fitar-me nos olhos. – Não faz ideia dos meus motivos.
— Tenho uma breve noção.
Ele arqueou uma sobrancelha. – Estou disposto a ouvir.
— Quis bancar o altruísta para não ferir os sentimentos dela.
Ele revirou os olhos. – O que você acha que eu sou, a porra de um clichê? – dei de ombros. – Errou rude, garotinha. Eu só não soube como agir.
— Eu já sabia. – cruzei os braços, dando um sorriso sereno. – Mas se eu falasse de antemão, você jamais admitiria.
Jack crispou os olhos, meio boquiaberto ao notar que fora vítima de um truque.
— Que tipo de psicologia reversa é essa?
Não consegui conter a risada.
— Só depende de você, agora. – informei, seu olhar sério ainda sobre mim.
— O que?
— Voltar para a vida dela. – respondi no mesmo instante.
Ele me encarou por longos segundos.
— Talvez não seja uma boa ideia.
— E por que?
— Porque pode ser que ela ainda não esteja pronta.
— Ela ou você?
O silêncio foi sepulcral.
Ele desviou o olhar depois de longos segundos e riu sem humor.
— Odeio quando você faz isso. – murmurou rouco.
— Isso o quê?
— Me deixa sem palavras.
Sorri sincera para feição dele, que parecia realmente pensativo com a situação, apertando os lábios numa fina linha reta e suspirando.
— Quando soube que ela me amava dessa forma, eu... – comentou de repente, pausando, parecendo se recordar da época. – Me senti culpado por não sentir o mesmo.
Aquilo foi sincero demais.
Meu sorriso sumiu.
O timbre de sua voz me deu a sensação de que aquele assunto e as lembranças... Doíam ao serem recordadas.
Estava doendo em mim também.
Eu conseguia sentir a magnitude desse sentimento tão corrosivo que é a culpa e quis no mesmo instante protegê-lo de qualquer sensação que pudesse feri-lo dessa forma.
Mas essa confissão não era o suficiente para mudar meus pré-conceitos sobre ele.
— É verdade que eu não queria magoá-la.
— E a magoou mesmo assim, devo dizer. – quando me dei conta, já havia falado.
Suspirei, me arrependendo na mesma hora de ter aberto a boca.
O senso de proteção caiu por terra, pelo visto, né Elsa.
— Já entendi que, à sua concepção, eu nunca me importei com quaisquer sentimentos que não fossem os meus... – ele sorria irônico ao dizer, orgulhoso da própria perspicácia.
Arqueei uma sobrancelha. – Eu nunca disse que…
— Seu olhos não mentem. – retrucou antes que eu pudesse sequer tentar negar. Ele sorriu sereno para os meus olhos crispados, um ultraje. – Você pode até ser difícil de decifrar, admito, é dona de uma frieza quase tão irritante quanto a de Flynn… – e apesar de eu estar com os olhos crispados, não consegui reprimir o sorriso de lado. – Mas ainda que você se esforce, não consegue disfarçar seu olhar.
Encarei-o com mais afinco, inclinando-me sobre o balcão para me aproximar de seu rosto.
— Se tornar isso um desafio, Jack, vou passar a conseguir.
Ele sorriu, seus lábios entreabertos.
— Você já tornou isso um desafio, Elsa… – só então me dei conta de que ele encarava minha boca intensamente. – E está sendo difícil responder por mim agora.
Involuntariamente, prendi a respiração e engoli em seco. Me afastei no mesmo instante, meu coração aos saltos.
Negando com a cabeça, meio emburrada, eu tentava disfarçar meu rosto vermelho.
— Você não perde a oportunidade. – murmurei irritadiça.
— Nunca foi da minha natureza. Então se me provocar de novo… – exprimiu num tom de alerta. – Eu não me responsabilizo pelos meus atos.
Crispei os olhos. – Você não presta.
— Nisso você tá certa. – deu de ombros, sem se importar. – Mas só nisso mesmo.
— Perdão por acreditar que você não se importa com nenhuma das meia dúzia de mulheres com as quais vi você se agarrar sem pudor algum.
Ele suspirou pesadamente.
— Elsa, qual é? Eu sempre deixo as coisas cristalinas…
— Isso não é o suficiente.
— Como não?! A sinceridade, a honestidade com as quais eu lido com qualquer uma delas, não trato nenhuma melhor que a outra…
— Não acredito que estamos discutindo isso. – coloquei uma mão na testa.
— ... trato todas de forma bem padrão a qualquer conhecido, elas me dão o que eu dou a elas e não sou merecedor de qualquer sentimento. Por que a culpa é minha?
— Eu não disse que a culpa era sua.
— Mas continuo sendo o insensível egoísta. – jogou os braços de maneira descontente.
— Você sabe que não temos o menor controle sobre nosso coração. – falei com tranquilidade. – Fosse esse o caso, eu jamais teria me apaixonado antes.
— Eu nunca me apaixonei antes...
— Sorte a sua.
— E nem nunca quis ou tentei plantar sentimento no coração de ninguém.
— Louvável de sua parte. Mas não espere que todo ser humano do mundo haja como você e encare as coisas com os seus olhos. Pessoas se apaixonam, isso é um fato. Você tentando evitar ou não, em algum momento alguém se encantará pelo que você oferece. Um momento, um gesto, um simples aperto de mão; mesmo que você julgue ser pouco, para determinada pessoa significa muito. Se tratando de seres humanos e sentimentos, ser apenas sincero não é o suficiente. Tenha um pouco de responsabilidade afetiva. – notei estar falando demais no instante em que percebi que ele me encarava meio estupefato.
Suspirei e desviei o olhar. Eu não acredito que me deixei levar por essa sensação de mágoa do passado… Mas alertar caras como o Jack, que eu sinto que não querem ser assim, é o máximo que posso fazer.
— Minha responsabilidade afetiva está em ser plenamente sincero com cada uma delas, garotinha. – sua voz estava mais compreensiva e terna quando ele falou. – Sou sempre claro sobre o que sinto e principalmente sobre o que não sinto, pois elas merecem estar cientes.
Pude entender melhor, mas meu coração ainda doía. Esse assunto me machucava.
— Entendo, só… – suspirei, ainda me negando a fita-lo. – Tente ser um pouco mais ameno com aquelas que, ainda assim, não desistem de você. Toda e qualquer pessoa com quem nos relacionamos, merece ter seus sentimentos tratados com seriedade.
Senti que ele me encarava por longos segundos.
Ainda sem coragem para fita-lo, resolvi questionar uma coisa que me deixara curiosa.
— Como consegue ser tão indiferente quanto às outras, mas se sente culpado se tratando de Tooth?
Ele se retraiu, tornando a fitar o nada.
— Digamos que… ela não recebia o mesmo tratamento que as outras. – murmurou baixinho.
Arqueei uma sobrancelha. – Isso é algum código pra sexo baunilha ou..?
Jack deu uma audível risada.
— Nunca transei com Tooth, garotinha.
Ergui as sobrancelhas, um tanto espantada.
— Tá aí algo que nunca imaginei que ouviria você dizer.
Ele crispou os olhos. – Pode parando. Sou muito seletivo.
— É claro que é. – falei num tom irônico, Jack sorriu. – E então, você agia diferente com Tooth...
— Tooth é minha melhor amiga. Tenho ela como a irmã que perdi, então… – ele mencionou uma irmã perdida e eu não consegui disfarçar a surpresa. – É claro que eu não lidaria com ela da mesma forma como lido com as mulheres que eu transo.
— Você tratava Tooth de um jeito especial.
— Eu tratava Tooth com o carinho que sempre senti por ela. Talvez esse tenha sido o meu erro.
— Não acredito que isso tenha sido um erro, tampouco que Tooth viera a confundir as coisas, por mais que pareça. – afirmei com sinceridade. – Esse argumento não se sustenta. Outras meninas eram tratadas de formas bem simples e ainda assim se apaixonaram por você.
— É diferente.
— Independente da forma com a qual você a tratava, em algum momento Tooth se apaixonaria por você. Mais cedo ou mais tarde.
Ele respirou fundo e passou a mãos nos cabelos, ainda sem me fitar.
— E o que isso significa?
— Significa algo que já mencionei essa noite. – Jack crispou os olhos e eu continuei. – Não temos controle sobre nossos corações.
Jack girou sobre a banqueta, ficando de frente pra mim. Inclinou-se para a frente, com seus olhos a mesma altura que os meus.
— Tenho total noção da fama que ostento, garotinha. Mas acredite quando digo que todas as decisões que tomei foi pensando no bem dela, independente se no fim eu sentia como se mais uma vez eu estivesse perdendo uma irmã. – ele falava lentamente, sua voz saía com dificuldade, como se aquelas palavras o exaurissem.
Ele girou, novamente ficando de frente para o balcão, apoiando ambos os cotovelos sobre a superfície de madeira e encostando os dedos entrelaçados na ponta dos lábios.
Eu não sabia o que dizer. Durante todo esse tempo, o vi como o vilão da história, realmente como ele mencionara, um "insensível egoísta".
O que me incomodava era o fato de ele um dia ter machucado a Tooth.
E agora descubro que foi tão difícil para ele quanto percebi ter sido pra ela.
— Você a afastou para protegê-la de você mesmo.
Ele me fitou de esguelha por meio segundo. – Nunca tinha colocado dessa forma. – respondeu num murmuro. – No fundo, eu só não sabia o que fazer para reparar o meu erro.
— Esse foi seu único erro, Jack. – ele franziu o cenho e me encarou. – Ela pensa todo dia que o problema é ela. Sua intenção foi das melhores, mas Tooth não é nenhuma criança. Ela não precisa de proteção, precisa de um esclarecimento e uma conversa bem franca.
Ele parecia prestar plena atenção em cada palavra minha. Apoiei minha mão em seu braço delicadamente, num gesto de incentivo.
— Conversa com ela.
Sua outra mão foi lentamente repousada sobre meus dedos em seu braço. Um desconforto comum pelo contato revirou meu estômago, mas foi embora no momento em que o senti acariciar minha pele com a ponta do polegar, antes de me dirigir um sorriso incrivelmente branco e sincero.
— Obrigado, garotinha.
— Pelo quê?
— Por ser a voz da razão que eu não tenho.
Eu suspirei, sentindo-me fraca.
Mal sendo capaz de reprimir o sorriso involuntário que surgia em meu rosto.
Puxei minha mão o mais delicadamente que consegui, porém Jack manteve sua mão no próprio braço, no calor de onde a minha estava alguns segundos antes.
— E então, como você reagiu a novidade? – peguei um macaron da caixinha e levei a boca, mudando de assunto para descontrair.
— Que novidade?
— Sobre o Phillip, oras.
Demorei dois segundos para notar o súbito silêncio. Jack me fitou com os olhos estreitos.
— Como assim?
Parei de mastigar o macaron lentamente. Arregalei os olhos ao perceber, tarde demais, que Tooth não havia contado a ele.
— Nada. – respondi de imediato.
— Elsa.
— Não é nada!
— Claro que é alguma coisa. – o seu tom sério e olhar desconfiado começava a me deixar nervosa. – Não me faça subir para perguntar a ela eu mesmo.
— Não cabe a mim te dizer, Jack. É assunto dela.
— Ótimo.
Se levantou e fez menção de ir em direção ao quarto, mas parou antes de dar o primeiro passo.
— Você sabe que eu não vou adentrar sua casa sem permissão. – continuei mordiscando o macaron, o ignorando claramente. – Eu vou gritar ela, então.
— Se ela não desceu até agora, sinal de que está dormindo. Vai lá. Grita. Berra. Acorda a garota.
Ele suspirou ruidosamente, me fitando por longos segundos, até se dar por vencido, irritado.
— Você tem se mostrado um desafio difícil de superar.
Não pude conter a risadinha. Mas parei no momento em que percebi seu olhar aflito.
— Você está bem? – indaguei temerosa.
— Só me responde se ela corre o risco de passar pelo que você passou.
Eu não soube o que dizer.
Ele percebeu meu desconforto e crispou os olhos.
— É claro que sim. – respirou fundo e tornou a sentar-se com exasperação.
— Não se preocupe quanto a isso... – ele me olhou com o cenho franzido.
— Não vem com essa. – eu nunca havia visto Jack tão sério e rude. Dei uma recuada. – Você se lembra o que ele te fez? O que ele te causou? Pois eu me lembro à ricos detalhes. – proferiu baixo e firme.
— Jack…
— Você tem uma facilidade irritante de perdoar e esquecer as coisas, mas aquele filho da puta certamente… não… me… desce. – murmurou pausadamente.
— Segundas chances são promissoras e Phillip está tendo a sua. Naquela noite, ele estava confuso...
— Será mesmo? – seu tom era irônico e eu me esforcei para não responder à altura. – Ele me parecia muito certo de seus atos.
— Compreendo a sua revolta. Mas não pode afirmar algo cuja veracidade você não conhece.
— Quer saber uma veracidade absoluta nessa porra toda, Elsa? – espalmou o balcão com força, cujo o baque me fizera piscar com o susto, antes de se aproximar repentinamente do meu rosto. Crispei os olhos ao ouvi-lo murmurar. – Ele te fez mal.
Não sabia se ele se referia ao que ocorrera na boate ou ao que vivi ao lado de Phillip, de qualquer forma, ainda que me parecesse muita irresponsabilidade afirmar isso com tanta convicção, deixei-me a mercê da minha intuição e me permiti soltar o que estava entalado na minha garganta.
— Ele nunca faria nenhum mal a Tooth.
Jack virou o rosto, emburrado, tornando a fitar o balcão, seus lábios se apertaram em uma linha reta.
— Você nem tentou negar. – exprimiu num murmuro.
— Estaria mentindo se tentasse.
— Como quer que eu fique despreocupado ouvindo isso da ex-namorada daquele cara?
— Há muitas formas de fazer mal a alguém, Jack, principalmente num relacionamento. Não tenho certeza se estamos falando da mesma coisa, mas entendo sua preocupação. Nessa vida, inevitavelmente, a gente magoa e é magoado. Contudo, resumir uma pessoas às suas atitudes influenciadas enquanto jovem sempre acarreta inúmeras problemáticas. – pausei antes de enfatizar. – Você bem sabe o quão injusto isso é.
Ele tentava, de uma forma falha, esconder sua indignação.
Dei um longo suspiro.
— Eu sei que você consegue, Jack.
— Consigo o que?
— Confiar em mim.
Virou o rosto e fitou meus olhos com intensidade. Sua expressão abrandou-se e depois de longos segundos ele suspirou.
Eu sei que ele estava preocupado com qualquer coisa que pudesse acontecer com Tooth, mas eu não permitiria que algo acontecesse a ela.
— Não é difícil confiar em você. – ele falou baixo, ainda me fitando. – Mas é muito difícil confiar nele. – Jack desviou o olhar, massageando entre os olhos. – Me desculpe pela grosseria.
Arqueei uma sobrancelha, maldosa.
— Sabe que foi rude, então.
— Sei. Não tenho o coração tão nobre quanto o seu. Acrescente à minha lista de defeitos.
— Já virou um livro.
— Ouch.
E no entanto, ele sorria.
Me estiquei no balcão para pegar o copo de água que ainda jazia em seu domínio, mas antes que eu pudesse tocá-lo, ele segurou meu pulso. Estremeci por dentro, reagindo ao contato. O fitei na mesma hora, notando o seu olhar sério.
— O que aconteceu entre vocês dois? – a questão saiu num murmuro tão baixo, que parecia mais ter sido um gesto involuntário.
Por mais que eu estivesse surpresa com essa questão tão repentina, eu entendi o motivo dele querer saber. Dei um longo suspiro.
— Não é melhor momento para falarmos sobre isso.
— Que ótimo. – ele deu uma risadinha desanimada. – Eu confio em você, mas você não confia em mim.
Revirei os olhos. – Menos, Jack. Acredito que teremos muitas outras oportunidades para conversar. – fitei as horas no celular e arregalei os olhos. – Mas não agora, pois já são 04:34h da madrugada.
— Eu não quero ir pra casa, tô logo avisando. – Jack exibia toda tranquilidade ao dizer.
— E eu não quero ter que acordar cedo segunda-feira.
— Não posso ficar aqui?
— Claro, se quiser dormir no sofá.
— Por que não no seu quarto? – ele me fitou com uma sobrancelha arqueada.
Bufei, tentando disfarçar o nervosismo.
— Ok. Eu durmo no sofá então. – levantei-me da banqueta, fazendo menção de ir pegar uns cobertores e ignorando meu coração acelerado com a ideia de Jack tão próximo a mim sobre um colchão. – Ou melhor, talvez eu durma no quarto de alguma das meninas. Pode ficar com a minha cama.
— Sua cama não tem nada de interessante sem você nela.
— A intenção não é ser interessante e sim confortável, Sr. Frost, para que você possa descansar decentemente.
Jack suspirou ruidosamente. – Porra de mulher complicada com respostas certeiras na ponta da língua e uma calma inabalável. – pude ouvi-lo resmungar baixinho e levantar-se exasperado da banqueta.
Não virei-me para fita-lo por dois motivos: eu estava nervosa e não queria encará-lo nos olhos.
Mas meu interior estremeceu por completo no instante em que senti uma pressão em meu pulso e fui puxada para trás de leve. Virei-me para fita-lo na mesma hora, percebendo que ele não me olhava – fitava o chão, antes de erguer o olhar lentamente, encarando com intensidade o fundo dos meus olhos antes de dizer baixinho.
— Você realmente acredita que eu conseguiria descansar decentemente sabendo que você está no quarto ao lado?
Engoli em seco, sem resposta. Jack aproximou-se um passo, com cautela. Seu olhar intenso ainda certeiro sobre mim, sem oscilar, sem desviar, absolutamente certo do que desejava, o único contato entre nós além de sua mão firme a segurar meu pulso.
— Sabe que eu mal conseguiria dormir, Elsa. – murmurou, lentamente aproximando-se mais um passo.
O aperto de sua mão em meu pulso afrouxou-se e eu ofeguei ao sentir seus dedos deslizarem suavemente pelo meu braço. Minha respiração tornou-se ávida à medida que ele se aproximava, tão lentamente como se quisesse me torturar mais do que já estava fazendo.
— Sabe que eu mal conseguiria me conter. – sussurrou, próximo ao meu rosto.
Engoli em seco quando seus olhos desceram para meus lábios entreabertos e mantiveram-se presos neles. Sua expressão tentada era indisfarçável e eu tive de me segurar para não me erguer na ponta dos pés e fazer uma loucura.
Algo no meu subconsciente apitou.
A maldita voz da razão... Gritava. O ato de eu me recuar foi tão, mas tão mínimo, que até cogitei ter sido involuntário. Automático.
E eu não sei como ele foi capaz de perceber esse gesto tão ínfimo.
Mas ele percebeu, sim, e foi nesse momento que se retesou. Manteve-se estático por segundos que pareceram horas, sua mão inerte sobre meu braço, seus lábios próximos dos meus. Ele suspirou, seus olhos fecharam-se com força, tentando retomar o pleno controle sobre si.
Nas atitudes comedidas de Jack cabia um oceano de apreensão que só eu conseguia notar.
Conhecer sua natureza impulsiva e presenciar o esforço que ele dispunha para simplesmente não avançar e me instigar à sua maneira – como sei que ele faz – é de se admirar.
Eu estaria sorrindo se não estivesse tão… sôfrega.
— Eu não aguento mais ficar tão perto de você... – murmurou e a ponta de seus lábios encostou nos meus por míseros segundos, meu coração falhou uma batida. – E ao mesmo tempo, tão longe. – completou ao se afastar, poucos centímetros e lentamente. – Eu nunca havia sido forçado a ter tanto autocontrole como venho tendo com você, Elsa... – entreabriu os olhos e eu suspirei, sem forças.
Ser alvo de seu olhar intenso sempre me tirava o fôlego, mas quando ele crispava-os, exatamente da forma como estava fazendo, meu corpo entra num estado gostoso e perigoso de pura letargia.
Engoli em seco quando ele continuou, num sussurro tentadoramente próximo a minha boca.
— Eu não sei quanto tempo mais eu vou aguentar.
E tornou a me privar de encarar o brilho azul de seus olhos, fechando-os com força, tentando compassar a própria respiração. Apoiei a mão sobre seu peito, a proximidade entre nós permitia que eu sentisse seu coração sob os meus dedos... Estava tão acelerado quanto o meu.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Respirei profundamente, sendo traída por esse ato, que só serviu para me embriagar com seu cheiro, trazendo com si uma forte vertigem. Meus dedos firmaram-se sobre seu tórax, numa súplica silenciosa para que ele não se afastasse.
Jack avançou instintivamente, retesando-se no segundo em que sua boca tocara a minha. Um suspiro de prazer travara em minha garganta. E, mesmo que relutante, ele me puxou para mais perto, o mais delicado que ele conseguia ser.
Ele estava tão hesitante… quanto eu.
O maldito som na minha mente ainda fazia um eco ensurdecedor...
Maldições e súplicas pairavam a minha cabeça. Por que ele parou? Por que não continuou? Por que se retesou?
E me espantava com a forma com a qual eu queria tanto que ele avançasse.
Eu sentia meu coração a cem por hora, tão acelerado que chegava a doer.
Jack abriu os olhos, tão azuis e turvos de desejo, que meu corpo inteiro se arrepiou.
Quer saber de uma coisa? Que se foda a razão.
Minha consciência desfragmentou-se em milhões de pedacinhos quando tomei o impulso de subir minhas mãos pela sua nuca, puxando-o contra mim sem pensar em mais nada antes firmar meus lábios nos seus com ardor.
Fiz tudo o que eu queria fazer naquele momento…
E foi preciso apenas isso para que eu sentisse uma das sensações mais prazerosas de minha curta vida.
Jack não mais se refreava. Muito pelo contrário.
Nossos lábios se encaixavam violentamente e eu segurei um suspiro ao sentir-me ser pressionada contra parede. Suas mãos deslizaram pelo meu quadril, possessivo e certeiro, sem jamais cessar o beijo, agora aprofundado com uma intensidade absurda.
Aquela sensação gostosa de letargia me dominava a cada atitude dele e eu senti-me amolecer em seus braços.
Jack espalmou as mãos em minha cintura por baixo do moletom azul, seus dedos instigavam minha pele, pressionavam-me com força, e eu sentia uma satisfação irreprimível a cada toque dele.
Minhas unhas se enroscavam em seus cabelos. Dei um leve puxão e me vi extasiada ao ouvi-lo suspirar. Eu tive de morder seu lábio para que nenhum gemido escapasse dos meus. Ao invés disso, escapou dos dele.
Jack se afastou devagar e ofegante, rompendo o beijo com relutância, ele deslizou seus lábios por minha face, fazendo um caminho de beijos pelo meu maxilar.
— Finalmente... – sussurrou contra minha pele.
Senti todos os pelos de meu corpo se eriçarem no momento em que senti ambos os meus pulsos atados sobre minha cabeça, firmemente seguros pela mão de Jack ao tempo que sua boca castigava meu pescoço com chupões e mordidas.
Meu corpo inteiro tremia. Ansioso por mais.
— Jack... – arfei seu nome e ele tornou a me beijar com um fervor que enevoara minha mente.
Eu não conseguia pensar em nada além do quão delicioso era seu beijo. Minha consciência parava a cada movimento lascivo de sua língua na minha.
Meu coração batia tão forte, eu sentia que ele podia sair de meu peito a qualquer momento. Eu não queria que aquilo chegasse ao fim...
Mantive meus olhos fechados quando ele lentamente afastou nossos lábios mais uma vez, ainda mantendo sua testa colada à minha. Soltou meus pulsos e desceu a mão até meu rosto, acariciando minha nuca com a ponta dos dedos.
Nossos narizes roçavam e Jack ergueu seu queixo, beijando meus lábios com carinho, muito diferente do beijo erótico que estávamos dispondo a alguns segundos atrás.
Esse pequeno momento terno permitia que aos poucos minha mente remontasse seus caquinhos e lentamente a noção do meu entorno ia se fazendo presente.
Ainda mole e entorpecida, eu sentia que se ele me soltasse, eu iria ao chão feito uma boneca de pano.
O beijo de Jack tem o intenso poder de te impedir de pensar – foi exatamente por isso que só nesse pequeno instante em que, propositalmente acredito eu, ele dera uma pausa, eu pude finalmente perceber que minha saia estava erguida, sua mão livre sobre o cós de minha calcinha de renda e meu sutiã aberto por baixo do moletom.
Eu não estava surpresa. Mas estava admirada. Como?!
Ergui o olhar para fitar seus olhos e ele me encarava de maneira tão tentadora que me contive para não agarrá-lo mais uma vez.
Mas eu arfei, ofeguei, tremi de desejo quando ele se impulsionou para frente, friccionando-se contra mim – rígido, quente, deixando claro o quanto me desejava.
Meus lábios entreabriram-se instintivamente, um suspiro em deleite travara em minha garganta.
— Eu quero ir devagar com você… – sua voz era um sussurro sôfrego, sem forças e ofegante. – Juro que quero ir devagar, mas se você quiser agora… – beijou-me novamente, sugou meu lábio inferior e sussurrou contra minha boca. – Eu não vou negar.
Minha mente dizia não.
Meu corpo inteiro gritava sim.
A maçaneta da porta girava inquieta. Quem quer que estivesse tentando destrancá-la do lado de fora, não conseguiria – já que a chave ainda pendia na fechadura do lado de dentro.
Jack beijou meus lábios, puxou-me contra seu corpo fazendo-me senti-lo novamente. Dessa vez eu não consegui conter o gemido.
Ele sorriu, aquele sorriso cretino e satisfeito.
Crispei os olhos, mas estava tão tomada pela névoa erótica que ele conseguira compor, que mal tive forças para ficar irritada.
— Nós precisamos parar, Jack. – quase não encontrei minha voz.
Ele suspirou, me beijou e sussurrou contra meus lábios.
— Tem certeza?
Não.
— Sim.
Ele se afastou um pouco para fitar meu rosto, corado pela forma como ele me tinha em suas mãos.
E o sorriso de lado que crescia involuntariamente em sua face quase me fez suspirar.
— Você tem um autocontrole invejável, garotinha.
Jack respirou fundo, contrariado, e eu me vi admirada por ele ter decidido respeitar o meu pedido.
Mesmo que resmungando.
— Droga. – murmurou e evitou me fitar durante todo o momento em que se afastava e, aos poucos e com muito esforço, eu tentava me recompor.
Observei o realce que havia em sua calça com os olhos arregalados. Ele deu de ombros, como se não tivesse culpa de sua ereção evidente.
Mais três batidinhas foram ouvidas na porta.
— Ô de casa...— era Merida. Chequei do olho mágico. Ela estava sozinha.
— Abre logo ou ela vai acabar acordando a Tooth. – alertou Jack, enquanto abaixava minha saia.
— Você vai ficar aí em pé? Haja naturalmente!
— Oh, sim! Espere... – ele correu até a banqueta e sentou-se.
Cruzou as pernas, apoiando um cotovelo sobre o balcão e inclinando a cabeça sobre a ponta dos dedos. Sua outra mão foi delicadamente repousada sobre o joelho da perna cruzada.
Ergui sobrancelha e indaguei, veementemente.
— Tá de brincadeira, né?
Ele riu. – Desculpa, tô nervoso.
— Elsa?— a voz veio de trás da porta. – É você?
— Ah... Oi, Meri! – balbuciei, gesticulando para que Jack se ajeitasse de qualquer forma. – Já estou abrindo, só um segundo... – parei de frente pra porta, segurando a maçaneta.
— Rápido, mulher, to apertada.— ela pediu, desesperadamente.
Jack resmungava tenso e indignado, enquanto olhava em volta. Reprimi uma risadinha, colocando uma mão rente a boca e ele percebeu.
— Você tá rindo de mim? – ele arqueou uma sobrancelha, sorrindo de lado com os olhos crispados. Neguei com a cabeça, pois eu sabia que se abrisse a boca, ia gargalhar. – Tá rindo sim.
— Não estou rindo. – falei, rindo (?).
Ele aproximou-se de maneira ameaçadora, seu sorriso malicioso plenamente montado. Eu tinha uma breve noção do que estava por vir.
— Tá rindo de mim, né? – neguei com a cabeça desvairadamente, com o dorso da mão à frente da boca, tentando reprimir as risadas e balbucios. Um ato falho, no fim das contas. – Ria enquanto pode. – finalizou com a voz rouca e eu senti minhas pernas bambearem.
No segundo seguinte, me vi imobilizada novamente, seu corpo colado às minhas costas e seus lábios contra o meu pescoço.
Jack agarrou-me pelos cabelos e chupou minha pele com uma apetência que me deixou sem voz. Arfei com a sensação.
— Elsa, alôoo...— Meri bateu mais uma vez, impaciente. – Eu vou fazer xixi nas calças.
— Ahn... É... – ofeguei, mordendo os lábios a fim de reprimir um gemido. – A chave... emperrou. – ao finalizar, minha voz saíra inevitavelmente manhosa.
Pude sentir o sorriso de Jack se intensificar em meu pescoço e tentei me agarrar ao único fiozinho de consciência que ainda não havia arrebentado.
Impulsionei meu quadril para trás no intuito de afastá-lo, atitude que só serviu para fazê-lo grunhir extasiado no meu ouvido, quase um gemido sôfrego.
Meu corpo inteiro amoleceu novamente.
— Jack… – pedi, completamente fraca.
Seja forte, Elsa. Peça pra ele se afastar.
Mas eu não queria.
— Certo. Desculpe. Me perdoa. – ele suspirou ruidosamente e se afastou. – Vou aprender a me conter.
Seu corpo estava tão quente, que no momento em que tomou distância, senti um frio devastador.
— O que? Tá falando comigo?— Meri indagava do outro lado.
— Não, Meri! Érr... – aquilo tava difícil. – Eu tô... Eu tô me desculpando com a porta!
Jack parou na mesma hora e me fitou confuso, porém, com uma feição divertida no rosto.
Isso até me olhar de cima a baixo, com o olhar predatório e um desejo excessivo, ameaçando se aproximar novamente.
— Não ouse. – fui firme, antes que me deixasse levar pela vontade que eu tinha dele. – Quando você se aproxima, é difícil raciocinar.
Ele sorriu com minhas palavras. – Isso não me parece de todo mal. – e deu um passo na minha direção.
— Vou te dar um chute (?). – ele se retesou no mesmo instante, crispando os olhos.
— Não se atreveria...
— Você duvida? – indaguei, com os olhos crispados. – Aprendi com a Anna. Pergunte ao Kristoff como dói.
Sorri vitoriosa quando ele, enfim, deu vagarosos passos ao se afastar, apontando em minha direção como quem faz a promessa de uma retaliação.
— Elsa, tá falando com quem?
— Com a porta (???). – ouvi o risinho de Jack e não pude evitar rir junto.
— Elsa, será que você pode, por uns minutinhos só, largar a mão de ser doida?— riu Meri do outro lado.
Ainda me olhando de forma desafiadora, Jack sentou-se no sofá e assumiu a postura distraída, mexendo no celular de forma casual. Ajeitei meu cabelo, respirei fundo três vezes e, por fim, destranquei a porta.
— Puxa, até que enfim! Estava quase fazendo xixi nas... – ela parou bruscamente ao notar mais alguém no recinto. Virou-se para mim. – Ué?
— Jack e eu estávamos procurando por Tooth e ele me trouxe quando cogitamos a possibilidade de ela ter vindo para casa.
— Ah, sim. Fiquei sabendo disso aí. – ela se virou para Jack. – E aí, como vai, Pietro? – foi uma pergunta retórica, daquelas que fazemos casualmente, na intenção de ser amigável.
Porém, Jack desviou os olhos da tela do celular e repousou sobre mim, dando um sorriso provocante.
— Nunca estive tão ótimo.
Meri virou-se lentamente em minha direção e me olhou com certa desconfiança por longos segundos. Pude sentir o meu rosto arder...
Ela tornou a fitar Jack, que lhe lançou um sorriso casual.
— Tá... Legal... – falou devagar. – Uh, já ia me esquecendo que tô apertada! (?) – saiu correndo em direção ao banheiro.
Assim que Meri sumiu de meu campo de visão, Jack e eu nos entreolhamos.
— Acha que ela notou alguma coisa? – perguntei num sussurro e ele ergueu os ombros.
— Acho que ela não mencionaria se notasse. – comentou ele, levantando-se do sofá.
— Droga! Eu fui tão escandalosa… – de repente me vi envergonhada, mas ele sorriu provocante em resposta.
— Não tanto quanto eu queria.
Franzi o cenho. – Você não presta.
— E você adora, admita.
Gemi em frustração. – Por que você tinha que me provocar tanto?!
Ele crispou os olhos e arqueou uma sobrancelha, sorrindo.
— Não fiz nem metade do que eu pretendia, garotinha.
Coloquei uma mão na cintura e ergui o queixo com ironia.
— Pretendia, hm? Achei que tinha dito que iria devagar comigo.
Ele sorriu. – Um pouco difícil, com você sendo… você. – admitiu com simplicidade. – Pare de ser gostosa, Elsa, por favor, eu te imploro.
— Idiota.
— De qualquer forma, minhas promessas não me impedem de te querer pra caralho. – pensou por um segundo e fez uma careta. – Só é… um pouco mais torturante pra mim.
Mal percebi e estava sorrindo feito uma tonta, me dando conta de que Jack estava bem próximo, de pé a minha frente.
Tocou meu queixo com a ponta dos dedos, deslizando-os pela minha bochecha num carinho terno, seus olhos fixos nos meus lábios. Reprimi a vontade de avançar e beijá-lo.
Não estávamos mais sozinhos.
— Jack, as meninas logo estarão em casa. – alertei num murmuro. – Com exceção de Rapunzel, elas te conhecem como meu patrão!
Esse lampejo de consciência me fez entrar num mini desespero.
Ele deu um longo suspiro.
— São suas amigas. Qual é o problema de elas saberem? – ele arqueou a sobrancelha.
— Eu... – tentei pensar em um motivo e só então notei que... não havia motivo. – Não sei. – admiti, mas no fundo...
Eu ainda me sentia confusa.
Eu não consegui – e, na verdade, nem quis – desviar meus olhos dos dele. Por um momento, me senti presa a aquele par de topázios azuis, enquanto eu raciocinava em busca de uma boa resposta.
O que tá acontecendo com você, Elsa?, indaguei a mim mesma. Outra pergunta cujo a qual eu não sabia responder.
— Dá próxima vez que aquele cachorro encostar em mim de novo, eu vou fazê-lo conhecer a dor!— grunhiu uma voz se aproximando no corredor.
Uma risada audaz fez-me crispar os olhos.
— Você daria uma ótima líder da Akatsuki, Nagato Punzie.
E antes que eu pudesse, enfim, concluir que era Anna e Rapunzel chegando... A porta fora bruscamente aberta.
O olhar, antes brincalhão de Anna, focou-se na mão de Jack em meu rosto... E na indisfarçável proximidade entre nós.
Sua feição mudou drasticamente, dando lugar ao completo espanto, que eu respondi com um desanimado sorriso constrangido.
— O que é?! O que foi?! Qual é o babado?! – Rapunzel apareceu sorrateiramente sobre o ombro de Anna, curiosa.
Fitou-nos e seu olhar passou de surpreso a malicioso.
Encarei Jack, com os olhos arregalados.
Ele exibia a maior tranquilidade do mundo.
Anna pigarreou. Só então notei que, agora, seu olhar era tão malicioso quanto o de Rapunzel.
— Atrapalho? – indagou, com um sorriso nos lábios.
Balbuciei algumas vogais quase inaudíveis e Jack se divertiu com minha reação, dando um sorriso de lado. Lentamente, tirou sua mão de meu rosto, tornando a protegê-la em seu bolso de forma despreocupada.
— Aproveitei pra tomar um banho, já que eu estava toda suada... – Meri descia as escadas, falando distraída. – Só estou me explicando para que ninguém pense que minha demora no banheiro foi porque eu estava fazendo o número dois, ok? (???) – terminou, percebendo os olhares maliciosos de Punzie e Anna em nossa direção.
Somando ao fato de a distância entre nós ainda ser mínima, Meri franziu o cenho, confusa.
— Peraí... – seu olhar se revezou pelo rosto de cada um. – Algo errado não está certo (?).
— Não tem nada de errado, gente! Digo... Não tem nada certo! Peraí... O que? – gesticulei com as mãos. Jack continuava me fitando, com seu olhar despreocupado. – Fala pra elas!
— Posso falar a verdade? – ele indagou, dando um sorriso confiante.
— Que verdade? – quis saber Anna.
Jack me fitou com uma sobrancelha arqueada e eu tomei a palavra.
— A verdade é que… – engoli em seco antes de continuar. – Tooth veio sozinha pois não queria nos preocupar. – não era mentira. – Depois conversem com ela. Ela estava… bastante arrasada.
Os semblantes delas mudaram, pareciam compreensivas. Principalmente Anna, que estava a par da situação, pelo visto.
— Vou conversar com ela. – afirmou, parecendo pensativa. – Poderia ter nos chamado pra ajudar a procurá-la, não seria problema algum.
— Fiquei com medo de ser só mais uma paranóia da minha cabeça, então decidi agir sozinha até Jack se oferecer para me ajudar. – o indiquei ao meu lado. – Além do mais, eu não queria atrapalhar a festa de vocês…
— Você tem que parar de se preocupar tanto, mana, a gente tá aqui pra te ajudar, viu? – Punzie afirmou.
— E tem que parar de querer fazer tudo sozinha também. – exprimiu Anna.
— Afinal, te apoiaremos independentemente da situação. – acrescentou Meri, com o olhar complacente.
Meu coração apertou. Ah, elas são tudo pra mim.
Nunca me desapontaram. Sempre me mantiveram de pé e foram minha base quando mais precisei. Eu tenho total confiança em cada uma delas.
Então... Por que esse aperto no coração que me força esconder isso?
Jack sorriu e fitou em minha direção, me lançando um olhar de incentivo. Meus olhos suplicantes declaravam que eu não falaria nada... Por ora. Ele abaixou o olhar, desapontado, mas logo depois, suspirou e anuiu lentamente, compreensivo.
— Eu… preciso ir.
— Já vai? Tá cedo, Pietro. – falou Meri, atravessando a sala e indo à cozinha, servindo dois copos d’água.
— São 05:40h da manhã, Meri. Mas concordo com você. – disse Punzie, sentando-se no sofá. – Se bem que, acho que você precisa ir pra casa mesmo. – se dirigiu a ele, que pareceu confuso. – Seu pai chegou.
— O meu pai chegou?! – repetiu quando um sorriso sincero nasceu em seus lábios.
Parecia realmente feliz com a notícia. Eu sorri junto.
— Sim, o sogro da Elsa. – falou Anna, bebendo a água sem nos fitar, expressando toda a serenidade ao dizer aquilo.
Meus olhos se arregalaram em sua direção e, no segundo seguinte, franzi o cenho, irritadiça. Sorte que Jack nem pareceu prestar atenção nisso, ainda estava deslumbrado com a notícia a pouco anunciada.
— Não o vejo a tanto tempo... Que saudade. – murmurou para si mesmo. – Preciso ir! – falou, do nada, dessa vez animadíssimo.
— Eu te levo até a porta... – sorri para ele, sendo correspondida.
— Valeu, Salt! Baunilha, até a próxima! E minha mais sincera despedida, Soberana Temari da Areia! (?) – Anna fez a reverência de uma piada interna, com um sorriso bobo no rosto.
Levei Jack até a porta, sentindo os olhares curiosos a minhas costas.
Ele se virou pra mim, expondo o sorriso mais estonteante de todos. A felicidade realmente te cai bem, Jack. Inclinou-se em minha direção e parou a centímetros de minha boca. Virei o rosto brevemente e ele deu um beijo demorado em minha bochecha.
Fechei a porta e fiquei uns longos segundos de frente pra ela, sorrindo bobamente, esquecendo-me dos olhares sobre mim as minhas costas.
— Amiga, me responde. – sussurrava Punzie num tom cúmplice.
— Lá vem.
— Deu pra ele, safada?
— Rapunzel! – um constrangimento irreprimível me assolou, mas não consegui evitar gargalhar. – Tagarelando absurdos, como sempre.
— Pelo menos me diz que beijou aqueles lábios muito convidativos e beijáveis.
— Não. Ele é meu chefe, vocês esqueceram?
— Isso não foi problema pra Meri.
— Ei!
— De uma vez por todas, não aconteceu nada, meninas! – me senti péssima por estar mentindo, mas algo dentro de mim me dizia que era necessário.
— Não acredito que você dispensou aquele bofe escândalo que atende pelo nome de Jack Frost! – indignou-se Rapunzel.
— Mas tu é muito vacilona mesmo, ein? Que tal eu lhe dar uns tapas, friend? – sugeriu Anna.
— Mas e você, Rapunzel? Ficaram sabendo que ela foi atrás de Flynn no quarto dele... – fitei as unhas, jogando a treta no ventilador.
Meri parou pra pensar por um momento e então concluiu que...
— Amiga, você foi atrás de homem?! Amiga, não! – exclamou, chocada.
— É o que?!
— Bata na sua cara antes que eu bata! – vociferou Anna.
— Ei, eu não fui atrás do Flynn! Eu só... Ai meu Deus. Eu fui atrás de homem! Que horror! Pelo amor de Jah, alguém me dá um tiro?! – desesperou-se Punzie.
Tentei reprimir uma risada, mas foi impossível.
— Quem foi atrás de quem? – indagou uma Tooth, sonolenta e confusa, descendo as escadas.
— Eu tô perdendo minha essência... – murmurava Punzie, num estado de negação. – Quem sou eu?! (?)
Pegou o espelhinho de bolsa em sua mão e fitou seu reflexo. Abriu um repentino sorriso confiante.
— Não faz a dramática, né amiga? – respondeu a si mesma (?). No segundo seguinte, já estava de boa. – Vem cá... – Rapunzel me olhou de cima a baixo, com a feição maliciosa. – Está vestida de Jack por quê?
Olhei minhas vestes e notei que ainda trajava o moletom dele. Ô, merda (?). Todos os olhares sobre mim novamente. Fitei o rosto de Tooth e detectei ali curiosidade e... Apreensão.
— Ele me emprestou porque nós viemos de moto e a noite está fria. Apenas isso. – apressei-me em responder, sem fitá-las.
— Claro, claro... – Punzie deu de ombros e sorriu.
Revirei os olhos, mas por dentro eu estava... Muito... Tensa.
— Toothiana, está acordada, finalmente. – comentou Meri, chamando a atenção da moça.
— Bonito. – Anna bateu palmas, debochadamente. – Você aí tirando altos cochilos, enquanto a gente arrancava os cabelos preocupada com você. – queixou-se e Tooth abriu a boca pra falar, sentindo-se culpada. – Eu tô brincando, louca. – Anna riu, fazendo Tooth suspirar aliviada.
Sugeri as meninas que montássemos o grande colchão na sala e foi cada uma catar cobertores e colchas para a ocasião.
Tooth e eu nos mantivemos no cômodo, a princípio caladas.
Até que ela sorriu em minha direção. – Obrigada. – falou, dando um longo suspiro. – Me sinto… realizada. – admitiu, com um sorriso bobo no rosto.
Sorri sincera. – Mesmo?
— Sim! Eu sei lá... – dizia, sorridente. – É que agora, com a conversa que tive com você, eu me sinto… diferente. Depois que Jack veio me procurar e se mostrou tão preocupado, me permiti perceber que talvez nossa história não tenha acabado. – meu estômago deu um nó. – Eu fiquei tão feliz em perceber que ele realmente se importa. – e suspirou longamente. Meu coração falhou uma batida. – Ele foi tão atencioso… sinto uma esperança contagiante, admito. – ela me fitou, sonhadora. – Gosto de pensar que as coisas entre nós só não desenrolaram antes porque agora é o momento certo.
Eu não sabia qual era minha expressão, mas por dentro eu estava devastada.
Eu sabia que algo estava pra acontecer. A aflição que eu tanto senti hoje era apenas uma prenuncia para isso. Um dos meus maiores medos estava aí, novamente.
Me permiti ser feliz por um momento e de repente o mundo inteiro desabou sobre minha cabeça.
*
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