Rising Tide
22 Esquemas
Notas iniciais
ESQUEMAS
POV Hiccup
Eu não preguei os olhos a noite inteira. Por vários motivos, mas o principal deles tinha um nome próprio.
A chegada iminente de meu pai e minha mãe só acarretou mais estresse e embora isso me deixe ansioso, o olhar que Merida me lançou ontem é o que me deixa verdadeiramente inquieto.
A manhã estava fria e a mesa posta à minha frente – mesmo que abastada de frutas frescas, pães, frios, sucos, iogurtes em geral e cereais – não conseguia despertar em mim o mínimo apetite.
Os raios de sol que muito esforçadamente atravessavam as nuvens aqueciam o ombrelone embutido a mesa e a piscina ao nosso lado convidava-me para um mergulho em sua água fria para, quem sabe, curar essa maldita dor de cabeça.
Mas eu não tinha forças para fazer qualquer coisa quando em minha mente só dava Merida e a merda que eu fiz ontem. Esse excesso de pensamento acaba comigo.
Com minha testa apoiada sobre uma das mãos e o cotovelo a mesa, dei um longo suspiro.
— Eu achei que me faltava coragem. – desabafei enquanto Jack apenas fitava o nada, imerso em pensamentos.
Considerando o sorriso bobo em seu rosto, pensamentos agradáveis. Eu torcia para que ele estivesse me ouvindo, apesar disso.
— Eu bebi demais, Jack. Foda-se. Queria que, pelo menos assim, eu me sentisse mais à vontade para... – fui interrompido.
— Vamos deixar uma coisa bem clara aqui, ok? – Jack é multitarefas. Ele estava me ouvindo. – Não te faltava coragem, você tem um autocontrole invejável. Até demais! Seu único medo era assustá-la e pôr tudo a perder. Apenas isso.
Pensei por alguns segundos. – Pode ser, mas coloquei tudo a perder, de qualquer maneira.
Ele estreitou os olhos em minha direção. – O que você fez, Hiccup?
Desconfortável com seu olhar analítico, me remexi tentando soar casual. Mas antes que eu pudesse responder, uma voz debochada soou a minhas costas.
— É, Hiccup… – Kristoff passou por mim, lançando-me o mesmo olhar de Jack, e sentou-se à minha frente, servindo-se de um dos sucos. – O que você fez?
— Vocês todos resolveram tomar café aqui fora hoje? – tentei desviar-me do assunto.
— A mesa está posta aqui fora e qual é o problema? – seu tom era o mesmo e seu olhar não mudara. – Dói receber esse olhar, não é?
Dei um muxoxo. – Vai a merda, vai.
— Merda é o que você fez ontem. – dizia Flynn ao se aproximar, também sentando-se à mesa. Nem havia notado ele chegar.
— Você nem sabe o que eu fiz.
— Já sabemos que fez alguma coisa e eu presumi que só pode ter sido merda. – concluiu, dando de ombros.
— Porra, Hiccup, onde é que você tava? – indagou Kristoff, já se referindo a noite de ontem. – Tu sumiu do nada, não que isso tenha me preocupado, eu não estava nem aí. – revirei os olhos.
— Você tava com a Baunilha naquele sofá... – Jack recordou, trazendo as lembranças vívidas daquele maravilhoso momento. Segurei-me para não suspirar. – Antes de eu te encontrar no andar de cima, da última vez que passei. – ele crispou os olhos, abrindo um sorriso malicioso. – Não me diga que você…
— Não transei com ela.
— Mas transou com alguém.
— Foi por isso que você sumiu, então? – questionava Kristoff, indignado demais para o meu gosto. – Por que estava no quarto fodendo uma qualquer?!
— “Uma qualquer”? Quem garante que não era a Baunilha? – Jack arqueou uma sobrancelha. – Se bem que… você certamente não estaria tristonho desse jeito caso fosse, muito pelo contrário.
Flynn apenas me encarava em silêncio. Ele sabia quem estava comigo no quarto.
— Não transei com ninguém. – massageei entre os olhos. – Jack também sumiu e nem por isso vocês fizeram esse auê todo. – apontei, emburrado.
— Jack sumir por aí é a situação mais normal existente, ele sempre dá uns perdido. – respondeu Flynn, arqueando sobrancelha detrás de seus óculos de sol. – Você não.
Lancei-lhe um olhar que dizia “porra, de que lado você está?” e ele apenas sorriu, satisfeito em colocar mais lenha na fogueira.
— Momentos antes, nós estávamos conversando e ela parecia muito bem. – apontou Kristoff, casualmente... e me vi surpreso com o meu desconforto devido aquele comentário.
Estreitei os olhos em sua direção. – Sobre o que vocês conversaram? – não me contive.
— Não te interessa, eu ein. – ele me lançou um olhar atravessado e ergueu uma sobrancelha, percebendo que eu o encarava emburrado. – É com isso que você está preocupado? Num fode, porra. Você sentou com ela num canto, meteu essa sua língua na boca dela só pra depois subir com outra. A garota foi atrás de você lá em cima e voltou péssima.
Meu estômago gelou. – Péssima? – indaguei, num fio de voz. – Como assim péssima? – que tipo de pergunta é essa?
— Triste, caralho! Ela tava triste! – exclamou Kristoff. Droga! — Sacaneie qualquer uma dessas minas que marcam presença apenas para desfrutar das regalias que é dar pra um phoenix, mas namoral, não faz isso com a Merida. Ela não merece isso.
Mal tive cara para reagir a sentença dele. Mal tive cara para reagir ao ciúme evidente que eu sentia por vê-lo falando com tanto carinho dela. Meu coração por um momento parou de bater… pois eu concordava com tudo o que ele disse.
— Hiccup... – Jack, que até então só ouvia, resolveu enfim dizer alguma coisa. – O que aconteceu, cara?
— Você saberia se estivesse aqui também, mas aposto que estava ocupado demais transando com a líder das loucas.
Kristoff estava especialmente corrosivo naquela manhã. Evidentemente.
— Fale dela assim de novo e não haverá amizade que te defenda da surra que eu vou te dar.
Arregalei meus olhos, plenamente perplexo. A voz de Jack soou tão séria, que todos, até mesmo Flynn, se viram completamente surpresos sobre a mesa.
— Uau. – murmurou Flynn, provavelmente tendo o mesmo pensamento que eu.
Tem que ter coragem pra ameaçar Kristoff com qualquer coisa relacionada a violência. Uma vez que ele gosta, e pra caralho, nunca evita. Apenas se anima e provoca ainda mais.
Embora estivesse boquiaberto e claramente surpreso por ter sido confrontado, o Bjorgman abriu um sorriso.
— Você defendendo uma foda, que situação impressionante.
Jack se levantou, puto.
— Eu não vou falar duas vezes.
Kristoff fez o mesmo, como eu disse, sorrindo animado.
— Certo. – empurrou a cadeira e avançou na direção de Jack, confiante. – Vamos começar.
Jack não se deu por intimidado e partiu pra cima dele, seus punhos cerrados, a postura altiva, os olhos azuis enérgicos.
Caralho. Haverá morte. Me ergui da cadeira para apartá-los antes mesmo que se chocassem.
Flynn mantinha-se sentado. Bebericando de sua xícara, plenamente tranquilo.
Coloquei-me no meio dos dois e espalmei as mãos no peito de cada um.
— Chega dessa palhaçada! Vocês não têm mais 15 anos!
Mas surpreendentemente, Kristoff apenas riu com ironia da minha preocupação aparentemente desnecessária, mas manteve os olhos fixos em Jack enquanto dizia.
— Fica tranquilo, Haddock. Não vai ser hoje que você vai me ver levando uma surra. – revirei os olhos e me sentei novamente, exasperado.
Pude ouvir Flynn rindo da minha cara.
Mas a seriedade no rosto de Jack ainda era evidente. Não pude deixar de ficar apreensivo. Jack perder a paciência não é algo comum, como no caso de Kristoff. O filho da puta lida com tudo na base da provocação, ironia e sarcasmo.
É de se admirar uma atitude tão séria vindo dele diante de uma ofensa a alguma das inúmeras garotas com as quais ele se envolve.
Mas, é claro, se tratava de Elsa. Tá explicado.
O Bjorgman mantinha-se tranquilo e confiante mesmo diante da ira instável do Frost.
Revirei os olhos. Kristoff se garante pra caralho na porrada, mas todos sabemos, especialmente ele, que não é boa ideia testar a paciência do Jack.
— Você deve uma explicação a todos que não estão acostumados a te ver comprar briga por causa de uma mulher. – falou o Bjorgman com uma calma invejável e um sorrisinho irônico no rosto.
Jack crispou os olhos para as palavras dele e ergueu o queixo.
Mas para a surpresa geral, ou nem tanto, abriu um sorrisinho cretino e costumeiro.
— Vai se foder, Bjorgman.
O outro deu uma risadinha e voltou a se sentar.
— A partir de hoje, essa garota tem o meu singelo respeito. – comentou simplesmente.
— E eu não transei com ela.
— Uau. – foi a minha vez de me espantar.
— Não são nem 10h da manhã e já me impressionei umas três vezes. – murmurava Flynn.
— Meu respeito claramente foi depositado em alguém que faz jus.
Jack ignorou a todos e continuou.
— Só fomos procurar Tooth, que inclusive estava bêbada.
— Acho justo. – comentara Flynn.
A conversa retornou à mesa tão simplesmente, que por um momento cheguei a acreditar que o embate entre Jack e Kristoff não passou de um surto coletivo.
— Você não respondeu, meu digno. – e infelizmente, para o meu azar, a atenção voltara a mim novamente. – O que aconteceu, afinal? – continuara Jack, servindo-se de um pão.
— E-eu... – gaguejei nervoso e todos eles me olharam desconfiados. Franzi o cenho. – Eu estava resolvendo uma situação que não diz respeito à vocês. – respondi ríspido.
Os olhares desconfiados tornaram-se surpresos de forma instantânea.
Jack ergueu uma sobrancelha e ambas as mãos. – Uau, vai com calma. Não precisa me engolir. – zombou e eu revirei os olhos, irritado. – Só estamos tentando ajudar.
Fitei seus rostos, ponderando em apreensão. Dei um longo suspiro. Desde quando me tornei tão babaca?
— Eu... – me levantei da cadeira. – Só preciso de um tempo sozinho. – afastei-me, sem ouvir qualquer protesto.
Péssima... Triste. Coisas que eu nem sequer notei, pois estava ocupado demais me martirizando por ela supostamente ter nos visto. Não mais "supostamente", tratava-se de uma certeza.
Eu me recusava a acreditar.
Grunhi irritado, passando as mãos nos cabelos.
Busquei meu celular em um dos meus bolsos e disquei o número que eu já sabia de cor.
Cabelos em Chamas.
Chamando...
Andei até a beira da piscina. Um toque. Caminhei de um lado para o outro, sendo tomado pelo nervosismo. Dois toques. Fitei a mesa próxima, agradecendo por não haver nenhum olhar sobre mim. Três toques. Foram os segundos mais longos da minha vida. No quinto toque, a chamada foi recusada. Ela desligou. Tentei novamente e deu caixa postal. Desligou o celular. Merda!
Fiz menção de arremessar o aparelho na água, mas repensei... E se ela ligasse?
Respirei fundo, guardando o celular. Passei as mãos no rosto, negando com a cabeça.
Eu odeio toda essa incerteza. Eu odeio toda essa desconfiança.
Sentei-me na beira da piscina, me jogando para trás. Eu não estava disposto a largar de mão, eu nunca estou disposto a largar de mão, principalmente se tratando dela.
Lembrando-me da noite anterior, me vi extasiado... O momento que ela chegou, sua risada, seu embaraço durante o “flagra” de Jack na sala de jantar... O nosso beijo.
E agora só consigo pensar nela... Péssima. Triste. Antes, ela parecia tão... Ela. Alegre, animada, risonha. Suspirei, frustrado…
Como consegui desfazer o sorriso que eu mais gosto? Ri sem humor. Você é um babaca, Hiccup.
Tentando me agarrar as lembranças de ontem, pelo menos nas partes em que estive em sua companhia, recordei-me de algo que poderia ser oportuno para mim...
Levantei num súbito.
— Jack, se arruma. – ele me fitou com uma sobrancelha arqueada. – Você vai a um lugar comigo.
Ele deu uma risada curta.
— Vai ter que ser mais convincente para que eu interrompa a minha refeição por causa de você. – falou, sem me fitar, bebericando de sua xícara majestosamente debochado.
— Tem a ver com Elsa.
— Vamos.
Ele largou a xícara no mesmo instante e caminhou para dentro de casa. Dei um sorriso vitorioso... Nunca falha.
— Uau. – murmurou Flynn, simplesmente. – E as surpresas não param.
— Hiccup, chega aí... – Kristoff me chamou com o um olhar meio hesitante. – Preciso de um favor seu... E torço para que seja possível que você me ajude.
Franzi o cenho em preocupação. Kristoff pedindo ajuda é coisa inédita.
— Pode falar. No que eu puder, irei ajudar.
— Beleza, te conto no caminho. – falou de imediato, passando por mim e fazendo o mesmo caminho que Jack.
— Ué, aonde você vai?
— Vou com vocês. – pude ouvi-lo rir. – Sei onde estão indo. – falou, dando de ombros. – Tenho um motivo importante. – e adentrou a casa.
Algo vibrou no meu bolso quando notei Tio Nick passar pelos dois, os fitando confuso.
— Onde vão tão apressados? – indagou para mim.
— Nem todos estão apressados, Sr. Frost.
Flynn ergueu sua caneca a mesa sem nos fitar, como propondo um brinde em cumprimento, lendo seu jornal com as pernas estendidas sobre uma das poltronas. Ele parecia ótimo em seu ar sempre superior.
Tio Nick cumprimentou de volta, dando uma risadinha.
Notei que, de nós três, Flynn parecia o mais satisfeito com a noite de ontem. Ele e Jack, pra falar a verdade. Ao menos, alguém se divertiu nessa festa.
— Vamos a um lugar, resolver umas coisas. – dando uma resposta rápida ao Tio Nick, chequei o celular que vibrara novamente.
Mensagens de minha mãe informando que seu avião estava previsto para pousar às 15:15h e que adoraria que eu fosse buscá-la.
Senti um sorriso se formar, percebendo o quanto eu sentia saudades dela... E de meu pai também, apesar dos pesares.
— Hiccup, sabe que seu pai chegará daqui a algumas horas, né? – alertou Tio Nick.
— Acabei de ser informado. – gesticulei com o celular.
— E sabe como Stoico não tolera esses “desrespeitos”. Ele não é tão razoável quanto eu. Fique em casa para recebê-los e poupe-se de reclamações, garoto...
Dei um suspiro, sabendo que ele estava mais que certo.
— Eu nem cogitaria sair, se não fosse realmente importante, Tio Nick. – admiti com sinceridade. – E eles vão aterrissar depois do almoço. Vai dar pra ir e voltar de boas. – dei uma piscadela, tentando soar tranquilo.
A ideia era: ir conversar com Merida, me acertar com ela e de lá mesmo buscar meus pais no aeroporto.
— Assim eu espero. – murmurei a última parte. – Falando nisso... – chamei sua atenção. – O senhor sabe ao menos o motivo de eles estarem vindo?
Ele me fitou com uma sobrancelha arqueada. – Precisa de motivo? Querem te ver...
— Francamente, eu duvido muito que seja apenas por causa disso. – murmurei para mim mesmo e Tio Nick ouviu.
— Seu pai fechou negócio com uma multinacional filiada em Londres e sua mãe pediu para que viessem aqui em Oxford te ver.
— Era caminho, é claro. – anuí, nada surpreso.
— Ela não precisou insistir. – ele comentou. – Veja bem, eu vim para assinar documentos de um evento importante que ocorrerá na boate, junto de Aster, e Jack sabe disso. Seu pai pode dar muita atenção ao trabalho, às vezes até demais, mas ele ama você.
— Poupe seus esforços, Tio Nick, eu ainda era um moleque do fundamental quando finalmente me acostumei com a ausência dele. – murmurei, sem fita-lo. Pude ouvi-lo suspirar. – Isso não me afeta mais.
Principalmente considerando que, na presença do meu pai, me sinto o ser humano mais falho existente.
North não falou mais nada a respeito. Sabia que não me agradava.
Em vez disso, apenas sorriu.
— Bom, pelo que estou vendo, o que quer que tenha a resolver não pode ser deixado para amanhã, então se apresse. – se virou, com um sorriso amigável, e foi se sentar com Flynn a mesa. – E fique de olho em Jack! – falou por sobre o ombro.
— Tenho negócios a tratar com você também, meu ilustríssimo Sr. Frost. – pude ouvir Flynn falar, seguida de uma risada de North, mas não fiquei para ouvir o decorrer da conversa.
POV Anna
Não deixei de perguntar a El sobre possíveis vagas na boate e sua resposta não foi nada animadora.
— Desculpe, Anna. Eu posso até conversar com o Jack, mas esses dias ouvi que Hiccup fechou a equipe às pressas por conta de um espetáculo particular que irá acontecer por lá. – ela disse, com lamentar.
Dei um longo suspiro. – Tudo bem, mas... Tente falar com ele mesmo assim, ok? – pedi e ela anuiu com um sorriso.
Chegou a dizer que eu não deveria me preocupar com isso. O condomínio estava em dia e todas as três ainda mantinham o emprego, mas não gosto de me imaginar acomodada enquanto minhas amigas trabalham, fora que uma parcela do meu salário eu deixava nas mãos de Elsa para que enviasse a Tia Aldara como parte de sua ajuda, já que a mesma estava impedida de exercer sua função.
Imagina não poder ajudar minhas amigas e minha família… Estremeci com esse pensamento.
Mas logo depois, notei sentir frio também.
Um jorro de ar gelado irrompia das vidraças abertas que davam acesso a varanda da sala. Notei Meri bater os dentes por alguns segundos. A manhã de sábado estava realmente fria, que tempo louco. Estamos pra entrar no verão.
— Quem foi a doida que abriu essas vidraças? – indagou Rapunzel, apontando sem olhar para a porta dupla de correr.
— Elsa, dã. – respondeu Meri, levantando-se e fechando as portas.
— Eu gosto de frio, vocês sabem. – a outra falou da cozinha.
Eu não estava prestando muita atenção no que elas diziam. Na realidade, minha mente estava... Suspirei. Não tem nem um dia que estou sem emprego e já fico cheia de paranoias. Estou virando a Elsa?
Sacudi a cabeça e ri, levando o prato com as torradas recém preparadas pela El até o sofá e me sentei.
Rapunzel e Merida assistiam a um documentário sobre borboletas, uma comendo cereais e a outra tomando um chá. Elsa, ainda na cozinha, preparava o próprio café. Sentei-me ao lado delas, observando o semblante de Meri que evidenciava dúvida.
— Gente, vocês acham que as lagartas sabem que vão virar borboletas ou elas só vão criando o casulo e pensando: que merda é essa que eu tô fazendo? (???) – indagou sincera, com um dedo sobre o queixo.
Rapunzel a encarou por longuíssimos segundos, avaliando a fundo a questão, até que finalmente disse...
— Quê?
Meri deu de ombros, mas ainda parecia pensar sobre aquilo. Pude ouvir Elsa rir da cozinha.
Questionei a Elsa o porquê de Tooth ter ido embora tão cedo. Afinal, quando eu acordara ela já nem estava mais aqui e olha que nem acordei tão tarde assim. Elsa apenas explicou que o Sr. Fairy havia vindo buscá-la. Conhecendo o quão superprotetores os pais da Tooth são, não é de se admirar.
— Hm, Punzie?
— Sim.
— Recebi duas mensagens de minha mãe ontem... – o tom de El era o mais cuidadoso possível. – Avisando que Sra. Millano tem planos de vir aqui em breve ver você.
Só então, entendi o porquê. Eu e Meri nos entreolhamos.
Rapunzel suspirou longamente e pude notar ela engolir em seco.
— E você sabe... quando exatamente? – pigarreou antes de indagar.
— Não sei mesmo, a mensagem era curta e apenas informando isso. Na verdade... – El apareceu do balcão. – Também havia escrito que Sra. Millano não estava conseguindo contatar você. Por isso, pediu a minha mãe de fazer esse favor. – Elsa estreitou os olhos. – Bloqueou o número de sua mãe de novo, Rapunzel?
Punzie não respondeu de imediato.
— Hm... Sim? – deu um sorriso amarelo e suspirou. – Eu vou desbloquear, não se preocupe. Isso foi infantilidade de minha parte. – murmurou o fim da frase.
A chegada de sua mãe não era, digamos, bem esperada por ela. Nós sabíamos como Sra. Millano conseguia ser ‘odiavelmente’ exigente se tratando de Punzie.
— Será que ela irá trazer o seu oitavo marido? – indagou, tentando soar casual.
Tentando esconder, atrás das piadinhas ácidas, o seu desconforto. Mas sabíamos que, no fundo, ela não estava bem.
— Oitavo? – questionou Meri, surpresa. – O que houve com o sétimo?
— Mais um divórcio para a coleção. – respondeu tranquilamente. – Vai ver, o oitavo dê certo. – pensou por alguns segundos. – Mas eu duvido muito. – murmurou por fim, terminando o seu chá e se levantando.
Só então notei que ela estava arrumada. Calça jeans acinzentada e bem aderida às suas pernas em conjunto com uma blusa branca social de mangas longas, desabotoadas nos pulsos. Cabelos presos num rabo-de-cavalo alto, adornados com trancinhas. Botas de saltos medianos plataforma... Hm. Está vestida de maneira confortável, porém, elegante como sempre, afinal, é a Punzie.
— Preciso ir. – anunciou, levando a caneca até o balcão e pedindo que Elsa fizesse o favor de levar a pia.
Pegou a bolsa vermelha do cabideiro na parede, se ajeitando para sair.
— Peraí, onde cê vai, bruaca? – indaguei, sem entender nada.
— Trabalhar, ué. – ajeitou sua echarpe ao pescoço.
— Você não trabalha hoje, não que eu saiba. – arqueei uma sobrancelha.
— Não, mas a Sra. Jones me deixou encarregada de organizar os quadros da galeria para exposição de amanhã. Assim aproveito e ganho um extra. – deu uma piscadela. – Beijinho! – e enquanto abria a porta fazendo menção de passar por ela, de repente, se viu estática. – Hm... pois não? – ela indagou para alguém no corredor, num tom divertido e malicioso. – O que a saudade não faz, né.
Tentei ver quem era, porém, essa mesma pessoa não estava bem no meu campo de visão.
Só eu havia notado que Punzie ainda estava na porta. Meri zapeava os canais, alheia a tudo, e Elsa ainda estava na cozinha, suspeito que não mais fazendo seu café.
— Ok, garanhão. – Rapunzel falou, se esgueirando na porta e gritando para a cozinha. – Elsa, alguém quer ter ver.
Virei-me para Meri, que me fitava com o cenho franzido em confusão.
— Ué. Quem? – indagava uma Elsa inocente, vindo da cozinha.
Punzie anunciou com um sorrisinho no rosto. – Apenas o homem dos seus sonhos, amiga.
Elsa arregalou os olhos. – Henry Cavill?! (???)
Rapunzel soltou um gargalhadão. Eu também. Merida também.
— Quê?! Não, sua doida. Mas bem que eu queria.
— Rapunzel, quem tá aí? – indagava a outra, nervosa.
Punzie riu melodicamente. – É o Frost, amiga.
Os olhos de Elsa se arregalaram de uma forma que, por um momento, achei que fossem saltar das órbitas (???). Eu segurava um risinho, enquanto que Meri estava tão surpresa quanto ela.
— O Jack?! – indagou Elsa, ainda incrédula.
— Sim, louca. Uau, ein. Recebendo o patrão em casa com recorrência. Hm, adoro. Outro patamar.
— O que... O que ele..?
— Não sei, amiga. Peraí, que eu vou mandar ele entrar...
— Rapunzel! Eu tô de pijama! – berrei, notando que eu era a única ainda de pijama. – Espere eu me retirar do recinto, por obséquio. – me levantei, indo para as escadas. – Tchau pra vocês.
Subi as escadas com pressa. Ao entrar em meu quarto, a claridade enfraquecida por conta das persianas fechadas me incomodou um pouco. Mas ao abri-las, lembrei o porquê de eu tê-las mantidas fechadas antes.
Em minha cama se estendia uma vasta bagunça de papéis, cheias de números, cálculos, algumas canetas, calculadoras, cartões de créditos, xerox dos trabalhos da faculdade, papéis amassados e o que sobrara do meu salário do mês passado... Dei um longo suspiro.
Me joguei por cima daquele monte de papéis, sem me importar com isso. Ainda tenho o último pagamento a receber, ao menos.
De maneira alguma eu irei pedir ajuda à minha mãe, alertei a mim mesma. Minha mãe já tem muito com o que se preocupar e também está ajudando minha tia. Eu vou conseguir resolver isso sozinha, antes que ela fique sabendo. Não darei tempo de ela ficar preocupada.
Sentei-me entre os papéis e tornei a ajeitá-los, retomando os meus afazeres de hoje mais cedo, quando ouvi a porta do meu quarto chiar, indicando que estava sendo aberta.
Houve uma hesitação a princípio, porém, ninguém entrou. Arqueei uma sobrancelha. Seria Elsa?
— El? – chamei em dúvida e isso pareceu encorajar a pessoa em questão.
Assim que passou da porta, empalideci de forma momentânea.
Não emiti nenhum som porque, por um momento, achei que fosse mentira. Mas uma vez que ele continuava me encarando, de pé a minha frente, vociferei, ainda com o coração aos saltos.
— O que você... O q-que... O que tá fazendo no meu quarto?!
Seu olhar impassível descansou sobre mim por uns segundos, mas logo ele desviou e passou a observar o entorno parecendo pouco interessado.
— Muitos mangás, fotos nas paredes, pôsteres... – comentava ao fitar as prateleiras, de forma analítica.
Foi até minha cômoda e observou por sobre ela.
— Quase nenhuma maquiagem. – concluiu, com um sorriso de lado, tornando a observar o resto do lugar, enquanto que eu, durante todo o momento, ainda mantinha a minha cara de bosta.
Surpresa, sem palavras, com os olhos arregalados, e muito provavelmente corada, seja de constrangimento ou raiva, por ter minha privacidade invadida tão na “cara de pau”.
— Hm, muitos games... – admirou-se, com um dedo sobre o queixo. – E... figure actions. – eu queria gritar, sério. – Parece o quarto de uma adolescente.
— O que tá fazendo aqui?! – berrei e ele então me fitou, falsamente alarmado.
Seu olhar desceu para o meu tronco, passando para a bagunça a minha volta e tornando ao meu corpo. Ele arqueou uma sobrancelha e sorriu sugestivo.
— Que belo pijama, devo dizer.
Arquejei. – Merda! – agarrei uma de minhas almofadas, tentando me esconder. – Vira pra lá!
Ele riu. – Para com isso. Tá bonitinha.
Bufei e desviei o olhar para que ele não notasse meu constrangimento.
— O que tá faze... Ah, esquece. Quem deixou você entrar?
— Elsa. Me avisou que estaria aqui e me mandou subir. – falou, enquanto pressionava o play do micro system sobre o canto da cômoda. – Vejamos o que você tem ouvido ultimamente. – e as primeiras notas de Are We The Waiting do Green Day ressoou pelo quarto e ele me fitou admirado. – Hm, ótimo gosto musical.
— Por que não bateu na porta?! – vociferei.
Ele revirou os olhos. – Isso seria previsível demais.
— Dá pra parar de mexer nas minhas coisas?! Sua mãe nunca te falou que é feio ficar reparando?
De repente, ele ficou estático, ainda de costas para mim. Suspirou longamente.
— Ela não teve essa chance. – murmurou, sem me fitar. – Mas, de qualquer forma, nunca fui do tipo que obedece. – completou simplesmente e passou-se uns segundos em silêncio, enquanto seus olhos se concentravam em um ponto qualquer.
Estranhei bastante. Porém, antes que eu pudesse fazer qualquer comentário, ele caminhou até mais próximo, observando com uma sobrancelha arqueada a bagunça sobre minha cama.
— O que está fazendo?
— Afazeres. – ele deu um muxoxo, revirando os olhos. – Estou calculando umas coisinhas aqui. Valores de cartão de créditos a pagar, estourados em livrarias ou lojas geeks. O condomínio do mês que vem. Divisão mensal dos gastos do apartamento. A ajuda mensal que envio a minha tia, etc. E no presente momento, só me resta ficar aqui calculando, já que não tenho salário, tampouco emprego. – ele pareceu desconfortável ao ouvir a última parte.
Me peguei surpresa ao perceber que me arrependi de ter dito isso.
— Mas, é como diz aquele ditado, né: ‘vamo fazê o quê?’ – e dei uma risadinha, tentando soar mais descontraída.
Tentando amenizar o seu desconforto.
E me esquecendo que quem estava desconfortável, a princípio, era eu.
Ele sentou-se na ponta da cama e eu voltei aos meus cálculos.
— Eu queria falar com você sobre isso...
— Sobre cartões de créditos?
— Não, sobre um emprego. – o fitei na mesma hora, com a sobrancelha arqueada. – Sei de um lugar que está contratando...
Voltei aos meus cálculos. – É mesmo?
— Sim.
— E onde seria?
— No The House.
— Impossível. – ele pareceu confuso quanto a minha convicção. – Elsa me disse que a equipe já está lotada. Ou você acha que eu já não procurei saber com ela hoje? – ele desviou o olhar. – Me aconselhou até a esperar abrir uma vaga depois de um tal evento que ocorrerá lá. No entanto, como pode ver... – gesticulei para os papéis espalhados sobre minha cama. – Eu não tenho tempo. Não posso me dar ao luxo de apenas sentar aqui, esperar e...
— Hiccup vai te contratar.
Arqueei uma sobrancelha depois de uns segundos.
— Acho que não, ein. – ele crispou os olhos, sem entender, e eu continuei. – Ele não fechou equipe para o tal espetáculo?
— Sim.
— Então como é que ele vai me contratar?
— Ele vai abrir uma vaga pra você.
— Pra mim?! Por que?!
— Como assim “por que”? – ele parecia sem paciência. Normal, né.
— Por que ele abriria uma vaga para mim? Simples assim?! Não estava fechada a equipe? Elsa não mentiria para mim...
— Sim, já estava fechada, mas... – ele coçou a nuca, evitando me olhar. – Eu conversei com ele.
— Conversou?
— Sim, droga! Conversei! Ele já falou com o Jack, já falou com o Bunny, já falou até com o Sr. Frost! Então, se você deixar de ser tão desconfiada e aceitar logo esse caralho, pode ir lá amanhã mesmo para uma entrevista. Pronto. (?)
Eu o fitava boquiaberta. Mas não consegui evitar que minha expressão de total surpresa se transformasse em um sorriso sincero.
— Como você conseguiu?
Ele riu. – Você me subestima demais. – deu de ombros.
— Kristoff...
— E garanto que o salário é bem melhor que o do seu último emprego. Você terá mais benefícios, além de ter suas amigas por perto, e... – ele foi interrompido pelo próprio arquejo.
Impulsiva como de praxe, pulei em seu peito, enlaçando seu pescoço com os braços, num abraço desajeitado.
Ele tentou nos equilibrar, mas sem sucesso.
Da ponta da cama, fomos parar no chão. Um baque surdo foi o que anunciou esse pequeno evento desastroso. Pode ter sido doloroso para ele, pois eu caí confortavelmente por cima de seu corpo.
— Obrigada, obrigada, obrigada! – eu agradecia tão eufórica e sincera, que mal notara a posição em que estávamos.
Kristoff permanecia imóvel, numa tensão evidente, paralisado pela surpresa. Eu o apertava com tanta força que cogitei ele estar parado por conta disso também.
Mas aos poucos, senti o calor de sua mão repousar sobre minhas costas, tão de levinho e suave, que cheguei a acreditar se tratar de um delicado carinho.
Afundei meu rosto em seu pescoço, inalando o seu cheiro com satisfação, um sorriso involuntário cresceu em meus lábios.
Foi quando notei estar amando aquilo.
Sensação que me pegara desprevenida, como um balde de água fria sendo jogado sobre minha cabeça.
Me afastei no mesmo segundo, apoiando minhas mãos em seus ombros e fitando seu rosto. Meus olhos arregalados encontraram os seus, que estavam do mesmo modo. Eu sentia meu rosto se aquecer e quis sorrir quando notei o rosto dele na mesma tonalidade.
— E-eu... – tentei dizer algo e me distanciei, sentando-me no chão de frente para ele.
— Eu acho que... – ele dizia, coçando a nuca.
— Me desculpa por...
— Não, eu que...
— É, você mesmo (?). – impliquei, sem fita-lo.
— Eu nada, a culpa foi sua. – retrucou, levando-me rir.
— Não consegui me conter, desculpa... – dei um sorriso nervoso.
Eu estava tão, tão constrangida, que nem lhe dar uma resposta afiada eu fui capaz. Nunca me odiei tanto por ser impulsiva.
Coloquei uma mão no rosto, rindo nervosa.
— Santo Rikudou, que belo dia pra morrer... – murmurei de trás das mãos.
Ouvi uma gargalhada gostosa e me vi encantada durante os segundos que ela durara.
Baixei a mão de meu rosto e sorri... Logo depois, sacudindo a cabeça.
— Para de rir, seu bosta! – trovejei, tentando disfarçar, apesar de ele não ter notado minha cara de tacho o fitando como se nunca o tivesse visto antes.
Kristoff não parou de rir. Pigarreei irritada, tentando chamar sua atenção.
— Eu agradeço. Por mais que você não tenha feito nada mais que sua obrigação.
Ele parou de rir e franziu o cenho. – Como é que é?
— É isso mesmo que você ouviu. – levantei, voltando até minha cama, segurando uma risada. – Eu fui demitida por sua culpa, nada mais justo você me arranjar outro emprego. – dei de ombros e ele soltou um muxoxo como resposta. – Até que você foi rápido, ein...
Ele me fuzilava com os olhos, negando com a cabeça, evidentemente irritado.
— Você sabe que a culpa não foi minha.
— Desculpe, o que disse? Não sou fluente em mimimi.
Levantou-se, resmungando uns xingamentos que eu quase não fui capaz de ouvir.
— Garota cheia de marra do caralho, é mole isso? Impossível não ficar confuso, porra. Uma hora, se joga nos meus braços, outra hora, tá querendo ser assassinada (?). – murmurava de costas pra mim, tornando a mexer nas minhas coisas. Mordi ambos os lábios, reprimindo uma risada. – E acho bom tu parar de gracinha, teus ímpetos só tem me concedido inúmeras ideias de provocação, e isso... – ele sorriu daquele mesmo jeito maldoso e sagaz por sobre ombro ao me fitar. – É um deleite para as minhas más intenções, como você costuma dizer.
Dei uma risada sem humor, ainda que estivesse nervosa.
— Descobrir teu lado fofo de menininho que fica corado com um abraço também me concederam muitas, se quer saber.
Seu sorriso sumiu e ele crispou os olhos. Eu mantinha ambas as sobrancelhas erguidas, exibindo uma falsa indiferença. Pois, por dentro, eu estava uma loucura, só Rikudou.
— Ok, vamos esquecer o que aconteceu hoje. Sem provocações ou comentários. De ambas as partes.
— Fechado.
E assim foi selada a paz. Por ora.
Kristoff ainda permaneceu em meu quarto.
Sentou-se no chão, encostando-se em um dos pés da cama, fazendo os cálculos de uma remessa de papéis que joguei nele. Notei que, mesmo sem o uso da calculadora, ele terminava seus cálculos mais rápido que eu. Af. Vez ou outra, ainda me irritava, fazendo comentários maldosos sobre as coisas “inúteis” a qual eu comprava.
— Você gasta dinheiro com coisa atoa. – falava, num tom de zombaria.
— O dinheiro é meu ou seu?! – eu retrucava, fuzi da vida.
— Você não pensa no futuro não?!
— Claro que penso! Me imagino rica saindo da Saraiva, com dez serviçais atrás de mim, carregando minhas pilhas de livros cheirosos e recém comprados.
— Pelo amor de Deus...
Só naquele dia, discutimos oito vezes.
Ao terminar mais uma remessa, ele me entregou, mas não pegou outra para continuar. Levantou-se e foi em direção a uma prateleira que ele ainda não havia xeretado.
— Porra, quanto livro, Anna...
— Ei, não mexe aí! – levantei num súbito. – Pode mexer nos meus games, nos meus figure actions, nos meus mangás, no meu micro system... Mas nos meus livros, sem a minha permissão, NINGUÉM TOCA!
Mas ele tocou.
Na verdade, pegou um dos livros. O que eu estava lendo recentemente e era, por conta disso, o de mais fácil acesso.
Ele fitou a capa do livro, com um muxoxo. – Essas sagas são todas iguais.
Revirei os olhos. – Claro, até porque o Harry entra em um armário, junto do seu tigre branco de estimação, pra descobrir quem roubou o raio de Zeus durante os jogos vorazes e se apaixona por um príncipe indiano amaldiçoado que, a princípio, era o seu tigre branco de estimação. – e puxei o livro de sua mão.
Ele me lançou um olhar irritado, que logo se dissipou, e comentou.
— Eu não gosto de ler. Sempre acabo dormindo.
Revirei os olhos novamente. Típico.
— Acho que você só não encontrou uma história que realmente te cativasse, e... – arqueei uma sobrancelha ao percebê-lo me encarando com a cabeça levemente inclinada. – Por que tá me olhando assim?
Ele sequer encarava meu rosto, afinal, estava ocupado demais observando meu corpo.
E para o meu total desespero, sorriu malicioso.
— É a primeira vez que vejo você tão... Exposta. – e mordeu o lábio inferior com aquele olhar safado.
Porra. Se alguma vez meu coração bateu antes, sinto dizer que nesse momento ele desaprendeu completamente o que é me manter viva (?).
Ok, eu havia esquecido que ainda estava de pijama. Um pijama ridículo que consistia em um short micro, vale ressaltar, e uma t-shirt do Muse aberta nas costas.
Seus olhos desceram para as minhas pernas. Senti meu coração, já colapsado tadinho, falhar uma batida e no segundo seguinte, eu estava corando o que seria talvez a terceira vez naquele dia. Sim. Um grandessíssimo cu! (?)
— Pare de me olhar como se eu fosse um pedaço de filé, seu... Depravado! Pervertido! Imundo, cachorro, cafajeste! (???)
Ele até tentou, mas não conseguiu por muito tempo conter a gargalhada e eu...
Eu... Fiquei ali parada, completamente apaixonada pela risada dele.
QUÊ?!
Retomei a consciência e bufei em desagrado.
— Vamos acabar com essa alegria agora. – murmurei, bem vingativa.
Peguei meu taco de baseball ao lado da minha cama e Kristoff engoliu o riso (???).
— Ei, mantenha a calma. – de repente, ele exibia toda a cautela do mundo, sabendo que qualquer movimento em falso poderia resultar numa paulada.
Sorri com a ideia.
— Eu tô calmíssima, coração.
— Você tá armada, isso sim (???). – segurei uma risada. Ele tava branco.
— E então, acabou a graça? Ou está afim de rir um pouco mais?! – posicionei o taco em sinal de ataque. Kristoff recuou.
— Tá maluca, caralho? Você vai acabar me machucando com essa porra.
— Essa é a intenção. – respondi, com um sorriso maníaco nos lábios.
Ele engoliu em seco. Já conhecia minha loucura (?).
Foi aí que percebi minha desvantagem.
Ele já conhecia minha loucura.
Notei tarde demais o sorriso confiante em seus lábios. Sua mão parecia um vulto antes de eu sequer perceber que ele puxara o taco dos meus dedos com demasiada força, fazendo-me cambalear de lado. No mesmo segundo, senti-me ser agarrada pelo pulso ao tempo que algo confinava meu corpo num espaço apertado e quente.
Seus braços a minha frente...
Seu corpo as minhas costas.
Devido a sua jaqueta aberta, o fino tecido de sua camisa era a única coisa que impedia o contato de nossas peles, no entanto... O calor era intenso. Engoli em seco e minha respiração tornou-se ávida.
— Eu não vou deixar você me machucar de novo. – sussurrou em meu ouvido. Um arrepio desceu minha nuca.
Como eu fui parar nos braços dele tão rápido?
— C-como? – balbuciava a palavra involuntariamente.
Pude ouvi-lo dar um risinho do meu espanto, e então o aperto em meu entorno se abrandou. Kristoff se afastou um pouco.
— É um movimento de imobilização. Vem. Eu te ensino.
Quando virei-me, percebi que estava um tanto aérea, mas ainda assim conseguia notar o rubor evidente em seu rosto claro, além também de que Kristoff estava tão arfante quanto eu.
— Você me imobilizou? – ouvi-me indagar, ainda um tanto atordoada.
— Em partes. A posição completa consiste em prender seu pulso às suas costas e agarrá-la pelo pescoço. Mas fiquei apreensivo de te machucar. – não tive tempo de ficar admirada com seu comentário, ele parou na minha frente e gesticulou, pedindo minhas mãos. – Quando eu fizer esse movimento, segure-me pelo punho. – ele firmou minha mão em seu pulso. – Assim.
Kristoff refez todo o movimento, simulando mais uma vez a forma como pegou o bastão de minhas mãos e aproveitou o fato de sua força ter me desestabilizado para me imobilizar.
Com paciência e certa didática, ele repetia a manobra pausadamente, explicando cada passo e pedindo demonstrações até que eu compreendesse com exatidão.
Ainda que a princípio eu estivesse sem jeito, a forma como ele explicava somada ao fato de eu estar aprendendo mais um jeito de me defender deixara-me totalmente focada no exercício.
Em menos de alguns minutos, eu já não me sentia envergonhada com a sua mão em minha cintura para alinhar minha postura, ou sobre minha perna para ajustar minha firmeza, ou sobre o dorso de minha mão para ajeitar-me na posição correta.
Envergonhada, eu não estava.
Intimidada, sem sombra de dúvidas.
Perdidamente nervosa e ansiosa, com toda certeza.
Meu coração deu um pulo ao concluir que, na verdade, eu me sentia confortável com a pele dele na minha – apesar de ter a sensação de que a qualquer momento eu me desfaleceria em suas mãos.
— Vai. Agora, tente.
Ele ordenou e ajeitou sua fronte, avançando contra mim como um agressor à espreita. Firmei o olhar, ergui o queixo e fiz tudo o que ele me ensinou.
Agarrei seu pulso com força e desviei-o do meu corpo, com a outra mão forcei seu ombro e impeli seu tronco para que girasse. A ideia era dominá-lo com um braço envolto ao seu pescoço…
Mas digamos que eu não tinha altura para isso.
— Muito bom. – ele elogiou e eu pisquei seguidas vezes, alarmada.
Com certeza ele perdeu a oportunidade perfeita para zombar de mim.
— Vamos. Tente de novo.
Assim eu fiz, dessa vez melhor do que antes, mas ainda sem alcançar o seu pescoço. Porra, o topo da minha cabeça batia no meio de seu peito, era algo quase impossível de se conseguir!
— Está melhorando, mini-Anna. – continuou, para a minha total surpresa
Parecia que, nesse momento, ele havia esquecido completamente que nossa relação consistia em troca de farpas, não gentilezas.
Ele parecia genuinamente imerso na situação.
— Kristoff, onde caralhos aprendeu tudo isso?
Finalmente questionei o que eu queria desde o princípio.
Ele coçou a nuca. – Tudo o que você precisa saber é que meus avós preferiam que eu extravasasse a raiva em esportes de combate do que esmurrando adolescentes no ensino médio. Ok. Vamos continuar?
Não me atrevi a dizer mais nada.
Continuei, melhorando a cada tentativa, no entanto fracassando sempre que chegava no desfecho do golpe.
— Eu não consigo, inferno! Você é muito alto. Quem manda ser um poste?! (??)
— Qualquer pessoa é alta perto de você.
Af. Estava bom demais pra ser verdade.
— Já foi mandado à merda hoje, Kristoff?
— Ainda que não seja frágil, evidentemente você é quase uma anã. – revirei os olhos. – Nesse caso, chute a parte posterior do joelho do seu oponente. Essa porra dói pra um caralho, além de promover um desequilíbrio que certamente te dará mais vantagem sobre ele.
Dei um sorriso genuíno. – Muito obrigada pela dica.
Ele crispou os olhos antes de negar com a cabeça, decepcionado com si próprio.
— Acabei de notar que estou te ensinando a me imobilizar. Grande dia, Kristoff. – falou com ironia.
Não consegui evitar o gargalhadão.
Kristoff sorriu… até seu olhar caminhar pelo meu corpo novamente, mas para minha surpresa, não me senti incomodada.
Os olhos de Kristoff encontraram os meus depois de perscrutar-me de cima a baixo.
Não havia mais um sorriso em seu rosto.
Apenas o olhar ébrio e intenso que despertou arrepios em toda a extensão de minha pele.
— De novo. – seu tom de voz havia mudado, evidentemente.
Estava mais rouco, mais baixo e, assim como o seu olhar, sugeria malícia.
Engoli em seco, mas obedeci, mesmo sentindo que algo esquentara no ar a nossa volta.
Ele avançou contra mim e refiz os movimentos exatamente como antes.
Todavia, sendo surpreendida e presa num golpe que ele decerto não havia me ensinado.
Arfei quando Kristoff desviou dos meus movimentos e fez de mim a sua vítima com uma facilidade absurda, no entanto, não se colocou as minhas costas.
Agarrou-me com firmeza, comprimindo-me contra a parede mais próxima.
Meu corpo inteiro estremeceu e levei alguns segundos para sequer notar minha posição.
Eu não poderia estar mais vulnerável e atônita.
Meus pulsos atados sobre a minha cabeça me impediam de me mexer. Tensa com a firmeza de suas mãos e a proximidade gritante, eu cerrava os punhos num ato involuntário. Meus braços erguidos subiam a minha camiseta curta, mas meu abdômen exposto não era nada comparado a sensação do seu olhar ardente sobre mim, o âmbar brilhando em uma vontade contida há muito.
Ofegante e sôfrega, eu encarava seus olhos com o queixo erguido, mas me via completamente incapaz de dizer qualquer coisa.
— Vamos fazer diferente dessa vez. – ele murmurou a um dedo de distância do meu rosto. – Se quiser que eu me afaste… – enfatizou a palavra num sussurro. – Gire os punhos e espalme as mãos no meu tórax com força.
E então, o aperto de seus dedos em meus pulsos suavizou-se, para facilitar o movimento, dando-me uma alternativa.
Segundos torturantes se passaram após sua sentença.
Mas eu não movi um músculo.
Tampouco desviei meus olhos dos seus, cujo desejo se intensificava a cada ínfimo instante que ele insistia em prolongar.
Relaxei completamente minhas mãos.
E se antes meus punhos estavam cerrados devido a tensão e nervosismo, agora meus dedos encontravam-se mais livres que nunca, minhas mãos abertas e entregues, declarando definitivamente que eu não pretendia de forma alguma tentar sair de seu domínio.
Pois a última coisa que eu queria, era que ele se afastasse.
Kristoff desviou os olhos dos meus e algo estremeceu em meu interior quando ele encarou minha boca com tanta intensidade.
Meu coração disparou.
Meu peito arfante denunciava o ardor que me consumia de dentro pra fora, minhas pernas bambas em nervosismo e eu me senti zonza com a simples menção que ele fez ao se inclinar lentamente.
Seus lábios se aproximando dos meus.
Até a porta ser bruscamente aberta.
— Anna, será que você poderia… Eita porra! – tão rápido quanto entrara, Merida havia saído antes que eu pudesse perceber seus olhos arregalados. – Juro que não vi nada! – berrou de trás da porta.
Meu Deus. É tarde demais para pedir pelo arrebatamento?!
De tão perplexa e aturdida, involuntariamente me remexi, tentando desvencilhar-me dele. Meu coração acelerado pelo susto, e pela sensação de ter sido bruscamente puxada para a realidade mais uma vez, me fez resmungar.
— Solte-me. Ela vai nos ver! – eu dizia nervosa, só então notando que enquanto eu era açoitada pela situação, Kristoff mantinha-se tranquilo.
— Ela já nos viu. – murmurou quando finalmente sosseguei em suas mãos.
Tornou a fitar minha boca com mesma vontade de antes. Meu coração falhou uma batida.
Ainda que a princípio ele não parecesse disposto a recuar, mudou de ideia no instante em que fitou meus olhos e provavelmente reparou ali uma parcela da inquietude que me afligia.
Droga!
Eu queria estar tão tranquila feito ele. Tão decidida feito e disposta feito ele.
Mas a situação me desestabilizara feito um choque.
Ao perceber o calor das suas mãos se afastando da minha pele enquanto ele me soltava, senti um frio terrível. Meus braços penderam nas laterais do meu corpo, sem força, enquanto eu observava ele se afastar.
— É melhor eu ir, antes que eu extrapole a cota de loucuras por hoje. – ele murmurava, evitando me olhar, seguindo até a cama para pegar seus pertences e deixando-me ali, ainda encostada na parede, acompanhando-o com o olhar completamente estarrecida.
Eu poderia dizer que estava juntando coragem para pedir que ele ficasse.
Mas as palavras simplesmente se negavam a sair da minha garganta.
— É, e-eu… Concordo. – balbuciei, certamente mentindo, enquanto ele andava até a porta do quarto.
Antes de sair, virou-se pra mim com um olhar indecifrável... Pareceu pensar por dois segundos antes de adentrar o quarto a passos pesados, avançando na minha direção de uma forma que me fez prender o fôlego...
Mas no último segundo, desviou e foi até o taco de baseball no chão.
— Eu levo isso. – afirmou, tornando a caminhar até a porta.
Despertei do transe no mesmo instante.
— O quê?! Não! Devolve o meu taco, fazendo o favor?!
— Devolvo a Elsa na sala. Não vou correr o risco de ser atingido por um taco enquanto saio... – ele sorriu, zombeteiro.
Dei uma risada sem humor, cruzando os braços. – Eu não faria isso. – faria sim (?).
— Claro, claro. Ah! Lembre-se do nosso trato.
— “Nenhum comentário sobre o que houve aqui.” Pode deixar... – gesticulei com a mão. – Mas para isso, teremos que assassinar Merida (?)
Ele pareceu levar a sério a ideia. Dei uma risada.
— É uma maneira radical e eficaz de neutralizá-la, mas admito que gosto dela. – comentou com seriedade. – Vamos apenas suborná-la com alguma coisa. – sugeriu, dando uma piscadela.
— Aposte em pirulitos de tutty-frutty e brownies de nutella.
— Eu compro os pirulitos.
— E eu, os brownies de nutella.
E quando nos demos conta, estávamos rindo juntos novamente. Nos divertindo sem motivo aparente. Apenas com a companhia um do outro.
Uma sensação morna se alastrou pelo meu peito ao observá-lo sorrir para mim.
— Até a próxima, mini-Anna.
Ele se virou e desceu as escadas. Eu o observei até sumir da minha visão.
Fechei a porta e fiquei ali, encostada nela por... Longos segundos.
Eu não comentaria nada. Mas não parava de pensar em tudo.
Na sua boca tão próxima, nas suas mãos possessivas, a forma como me segurou, as palavras que usou, as sensações que tive ao tê-lo tão perto e principalmente…
O seu olhar.
Passei as mãos na minha testa e percebi estar suando.
Sacudi a cabeça violentamente.
Que frio na barriga é esse?! Credo! Xô! Sai de mim! (???).
POV Hiccup
Não sei dizer o que senti ao perceber que seu olhar distraído fora substituído por total espanto ao me ver.
Eu murmurei um “oi” e ela, ainda surpresa, respondeu-me com um “oi” tímido.
Eu a vi sorrir. Foi mínimo, mas o suficiente para manter meus olhos presos em seu rosto por minutos a fio.
Kristoff já havia subido. Rapunzel já havia saído. E eu só conseguia ficar olhando para ela.
— Henry Cavill? É sério?! – Jack questionava a Elsa, claramente indignado.
Merida conteve um risinho ao observar Elsa revirando os olhos e ignorando as sentenças de um Frost incomumente... enciumado?
— Deseja comer alguma coisa, Hiccup? – pude ouvir a voz gentil da loira, mas ainda assim não desviei meus olhos do rosto dela.
— Ah... não, Elsa. Muito obrigado.
— E você, Jack? Deseja comer alguma coisa?
— Claro que sim.
— Certo. E o que quer comer?
— Você.
Dessa vez eu desviei o olhar e encarei Jack com os olhos arregalados. Percebi que não era o único, Merida havia tido a mesma reação.
Ainda que a tonalidade rubra de suas bochechas denunciasse a timidez, Elsa, ironicamente, arqueou a sobrancelha e crispou os olhos na direção de Jack, que sorria agraciado com aquilo.
— O canibalismo foi sancionado ultimamente? Realmente estou por fora. – comentou num tom zombeteiro.
O Frost sorriu em deleite. – Você sabe que seu sarcasmo só me deixa com mais tesão em voc...
— Jackson, por favor... – repreendi.
— Tá legal, tá legal... – ele ergueu as mãos em rendição. – Não constranger as amigas do esquema. Já entendi.
— “Esquema”? – indagou Elsa, torcendo o nariz.
— É, como vocês mulheres dizem, hm... “Crush”, certo?
— Jack! – exclamei, entredentes.
— “Esquema” é o que seria um “crush” só que oficializado, ok? Quando já dão uns beijo aqui e ali, em cima de um pufe numa festa, tá ligado? Coisa boa, outro patamar... – Jack deu um sorrisinho malicioso e eu fitei o rosto de Meri, que estava corada. – Ora essa, Baunilha. Não me olha dessa forma que fico comovido. Todos aqui nessa sala sabem o que aconteceu. Ok? Beleza? Tranquilo? – apontou para cada um. – Ela viu, eu também, e vocês viveram o momento que, pelo visto, foi ótimo. Show de bola. O olhar gamado do meu melhor amigo não nega. – puta que pariu, eu só queria morrer. – Então, sem segredos. Sabemos que vocês são o esquema um do outro.
— Jack...
— Desculpa, cara, é que essa mulher me deixa nervoso. – ele massageou entre os olhos, enquanto Elsa punha uma mão rente a boca tentando esconder o sorriso.
— Aprecio sua sinceridade, agora, cala a boca. – eu murmurava, ouvindo os risinhos de Meri.
— Caralho, a culpa não é minha se você decidiu se envolver justo com a amiga do meu principal esquema.
— Sai fora, que eu me interessei por Merida muito antes de você sequer falar com Elsa pela primeira vez!
— Elsa esteve na minha mira desde o dia em que bati meus olhos nela e você sabe!
— Ok, já terminaram de falar de nós como se não estivéssemos aqui? – fitamos o olhar de Meri, que era quem falava e tinha a sobrancelha arqueada, tentando não rir.
Elsa, no entanto, encarava Jack com os olhos em fendas.
— “Principal esquema”, hm? São tantas que você precisa categorizar.
Jack engoliu em seco. E eu conseguia imaginar o “Se Fodeu” do GTA definindo aquele momento. Reprimi uma risada.
— Você sabe que não precisa se preocupar, garotinha. – ele se aproximou dela com toda a sua lábia, segurando seu queixo gentilmente. – No presente momento, eu só tenho olhos pra você.
Ergueu uma sobrancelha. – E o “presente momento” acaba quando você for embora, suponho.
— Só se você quiser.
— Você não presta.
— E você adora.
— E eu não sou seu esquema!
— Ainda não. – e sorriu de lado.
Irritadiça, Elsa virou-se e foi em direção a cozinha a passos pesados e Jack a seguiu com um sorriso maroto nos lábios.
— Quando será que vão oficializar? – indagou Meri, com um sorriso bobo.
— Espero que logo. – dei um sorriso. – E então, não vai me mostrar seu apartamento? – incentivei, num tom descontraído.
— Uh, claro, claro... Só... Por onde começar? – com um dedo sobre o queixo, logo se decidiu.
Levou-me até a varanda da sala, que estávamos bem próximo. A vista era incrível e ela admitiu que vez ou outra ficava ali por horas, apenas pensando. Me mostrou a adega embutida ao balcão, o sofá abaixo de uma área com o teto transparente, que ela ressaltou ser o verdadeiro local que as meninas usavam para pensar, mas ela ainda preferia a varanda.
Em cada local, parávamos para conversar sobre algum acontecimento que ele mencionava e ficávamos por minutos intermináveis num papo descontraído. Cheguei a esquecer o principal motivo de eu ter ido até lá com tanta urgência, o conforto evidente que eu sentia ao seu lado sobrepunha qualquer tensão que pudesse me afligir.
Por fim, ela me levou até uma área dos fundos, mostrou-me brevemente o banheiro de visitantes e fomos até a cozinha.
Fingimos a princípio não notar Jack abraçando Elsa pelas costas, enquanto ela misturava distraidamente algo em uma xícara. Negando com a cabeça, a loira exibia um sorriso irônico e irredutível ao tempo que Jack beijava toda a extensão de seu ombro enquanto murmurava algumas desculpas.
Meri deu um sorriso brincalhão e cruzou os braços.
— Hm, deixa eu advinhar. Está até agora tentando ser perdoado por aquele infeliz e inoportuno comentário?
Elsa apenas emitiu um som que confirmava as suspeitas da ruiva. Meri negou com cabeça, lamentando.
— Vai precisar de mais que isso pra derreter esse coração glacial, Pietro.
Jack sorriu confiante para Meri e murmurou com uma convicção certeira.
— Eu dou conta.
Elsa se virou e o encarou com os olhos crispados, mas um sorriso desafiador brotou em seus lábios.
Oh, Elsa... Não o desafie.
Mal percebi, estava sorrindo ao observar os dois. Algo me diz que sou Jelsa Shipper (?).
Merida me segurou pela mão e meu coração falhou uma batida. Ela me puxou para fora da cozinha, deixando os dois pombinhos ali a sós.
— Vamos. Vou lhe mostrar o segundo andar. Apesar de que lá só tem os quartos. – e deu um risinho, nervosa, enquanto eu aproveitava a sensação da sua mão na minha.
Já estávamos num corredor longo que exibia quatro portas.
— Adoraria conhecer seu quarto. – meu comentário foi num volume extremamente baixo.
Ela soltou minha mão. E eu voltei pra realidade. Segurei-me para não soltar um audível suspiro em desagrado.
— Infelizmente, não temos uma sala de games como vocês, mas a Anna tem muitos videogames, o quarto dela é meio que uma sala de games propriamente dita, você ficaria impressionado. Quer ver? – e escancarou uma porta antes que eu pudesse responder. – Anna, será que você poderia… Eita porra! – e bateu a porta num súbito, dando me um susto do caralho. – Juro que não vi nada! – berrou para quem quer que estivesse atrás da madeira, com um sorriso bobo no rosto que sugeria claramente que sim, ela havia visto tudo.
Arqueei uma sobrancelha. – O que foi isso?
Ela pareceu emergir do que tanto a alegrava.
— Nada demais. Apenas minhas preces sendo atendidas. – não soube bem o que comentar quanto a isso. – Vamos, Hic. – falou toda animada.
Dei um sorriso de lado.
Seguimos até uma porta que presumi ser do quarto dela.
— Está meio bagunçadinho. – falou, dando um sorriso nervoso, acariciando o próprio braço num sinal de constrangimento.
Não estava bagunçado. Ela deveria entrar no quarto de Kristoff ou Jack qualquer dia, pra saber o que é bagunça...
Um Notebook aberto sobre a cama. Atrás da cabeceira, até a metade da parede, se estendia o que parecia ser uma canga de praia com desenhos simétricos, contornado por pequenas luzes. Logo acima, um imenso atlas do corpo humano, um resumo anatômico do sistema muscular e esquelético. Prateleiras com cadernos, muitos gibis e também percebi uma pequena lâmpada dourada, além de filtros de sonho, muitas almofadas e um solitário ursinho de pelúcia. No teto haviam estrelas fluorescentes, daquelas que colocávamos nos nossos quartos na infância.
Era uma bagunça... dela. Uma bagunça arrumada. Uma bagunça que dizia muitas coisas.
Tudo nela é significante. Até a bagunça de seu quarto.
Ela permitiu que eu entrasse e o que mais me chamou atenção foi uma parede específica fechada em retratos. Mas não eram fotos de momentos e paisagens, como as do quarto do Jack. Eram fotos dela, de seus avós, de suas amigas, de sua cachorra, de pessoas que suspeitei ser seus pais.
Em toda foto, havia alguém... E no meio daquele monte de pessoas, que presumi serem importantes o suficiente para ocuparem um lugar em sua parede, eu me encontrei.
Na foto, estávamos na faculdade e eu havia acabado de fazer a piada mais sem graça do mundo. Mas ela riu. Jack fotografou o exato momento em que ela dava risada e eu sorria a observando. Estava espontâneo. Sendo isso o comum de Merida, não meu. Sorri de lado.
Virei-me, procurando por ela, notando que o silêncio já durara bastante. Sentada em sua cama, sem me fitar, ela parecia pensativa. Estava muito calada.
— Adorei o seu quarto, Cabelos em Chamas.
Deu de ombros e sorriu. – É um ambiente agradável.
— Sempre achei que o que torna um ambiente agradável são as pessoas. – comentei, tornando a observar as fotos. – Tem uma foto minha aqui... – fitei seu rosto com um sorriso de lado. Ela corou.
— Eu pedi pro Jack depois e... Ele me deu. – brincava com os dedos enquanto dizia, sem me fitar.
Voltei minha atenção ao mural.
— Eu sei. Pois quando pedi, ele me disse que já tinha dado a outra pessoa. – numa foto, três meninos incrivelmente parecidos, lado a lado e com os rostos sujos de sorvete, me chamou atenção. – São seus irmãos? – indaguei e senti ela se aproximar.
— Sim... – respondeu num tom afável e eu fitei seu rosto para apreciar o sorriso que eu sabia que estava ali. Ergueu o indicador. – Harris. – apontou para o do meio, que tinha aberto um imenso sorriso. – Hubert. – apontou para o que franzia o cenho, numa feição séria e divertida ao mesmo tempo. – E Hamish. – indicou o que fazia uma careta e riu.
— Eu adoraria ter três irmãos. – percebi estar sorrindo.
— Acredite, é enlouquecedor. – ela riu. – Mas é impossível não se apaixonar.
Fitei seu rosto. – Onde eles estão?
— Com meus avós, na Escócia.
— Eu soube que você era escocesa. – ela arqueou uma sobrancelha, curiosa. – Kristoff me contou. – depois de uns segundos, ela apenas deu de ombros. – Minha família é toda da Suécia, mas eu acabei nascendo numa ilha da Dinamarca durante uma visita a uns amigos distantes de meus pais... – falei distraído, lembrando de todas as vezes que minha mãe me contara essa história. – Foi um parto difícil, segundo eles. Nasci prematuro, acredita? – vi seus lábios entreabrirem em surpresa. – Pois é. – eu ri. – Por conta disso, sou o único dinamarquês da família.
Ela sorriu. – Meus irmãos também nasceram prematuros. – divagou ao dizer.
Algo me deixara curioso. – E esse ursinho solitário? – indiquei-o, em cima de sua cama. – Ou nem tanto, já que tem a melhor companhia, que é a sua. – ela sorriu. – Ele tem nome?
— Tem sim.
— Imaginei que tivesse. Vai me dizer o nome dele ou terei que investir para descobrir?
— Fergus. – ela respondeu calmamente e eu me desapontei. Adoraria ter investido com o pretexto de descobrir. – O nome dele é Fergus.
— Nome interessante. Tem algum significado em especial ou é só um nome?
— É o nome do meu pai.
— Deu o nome do seu pai para o urso? – arqueei uma sobrancelha.
Ela fez uma careta. – Minha mãe costumava chamar meu pai de Ursão, era um apelido piegas mas carinhoso, a meu ver era bem original. Melhor que “amor”, “querido”, e esses outros normais demais para a minha família. – ela deu um risinho. – Minha mãe me deu esse urso e, justamente por ser um urso, me lembrava o apelido que ela chamava meu pai. Era o nome perfeito.
— Concordo. – a fitei por alguns segundos. – E sua mãe não chama mais ele assim?
Ela deu de ombros. – Espero que ainda chame, onde quer que estejam. – sorriu.
— Eles viajaram?
Antes mesmo das palavras saírem da minha boca, eu já tinha a impressão de ter sido uma pergunta muito da imbecil.
Ela não respondeu na hora. Parecia estar escolhendo as palavras. – Eles... morreram, Hic.
Como eu disse, uma pergunta imbecil.
Dei um longo suspiro.
— Sinto muito, Cabelos em Chamas. Eu não devia…
— Tá tudo bem. – deu um sorriso triste. – Só… prefiro não me estender muito nesse assunto, se não se importar.
— Não, que isso! – gesticulei apressado. – Tudo bem, eu entendo perfeitamente. – sorri compreensivo.
Se não lhe trazia boas lembranças, preferia que não fosse falado mesmo. Eu não queria vê-la triste. Nunca.
— Se você quiser a foto, hm... Pode pegar. – ela disse, apontando para a nossa foto e mudando de assunto.
— Não, ela fica melhor na sua parede. – admiti, mas bem que eu queria a foto mesmo.
Me virei, notando que ela havia voltado para a cama. Fui em sua direção.
— Meri, eu... vim aqui por um motivo.
— Imagino qual seja.
— Imagina? – indaguei, sendo pego de surpresa. – Então... creio que posso ser direto.
— Acho que eu também posso. – suas respostas estavam rápidas.
Isso me preocupou.
Ela encarou meus olhos por longos segundos a primeira vez naquele dia.
— Há muitas coisas acontecendo e uma delas é o seu eterno lance com a Astrid.
Falou com uma simplicidade que com certeza fazia daquilo uma verdade absoluta.
— Isso... – dei um longo suspiro. – Não é verdade. – mas também, não era mentira.
— Nunca deveria ter acontecido. – com a voz calma, ela concluiu.
Merida não desviou seu olhar de mim. E nem eu, dela.
Eu sabia exatamente do que ela estava falando.
— Por que diz isso? – indaguei assim que encontrei minha voz.
Ela negou com a cabeça. – A situação fala por si só. Nessa história, eu sou apenas um empecilho.
— Não diga isso! Nós não temos mais nada... – fui interrompido.
— Não mesmo, Hiccup? – pela primeira vez na minha vida, pude ouvir um tom irônico vindo de Merida.
Eu não soube como responder. Em minha cabeça, montava-se infinitas formas para ela ter conhecimento do que houve, tantas que nem mesmo pude escolher a mais provável.
Com a cabeça tão a mil, não me contive e indaguei. – Quem te falou? – murmurei tão baixo que temi ela não ter ouvido.
Deu um sorriso triste.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Eu não sei se me sinto lisonjeada, pelo fato de você me achar tão inocente a ponto de não notar sua boca inchada logo depois de ter voltado do seu quarto, ou se me sinto ofendida, por imaginar o quão burra você acha que eu sou pelo mesmo motivo.
A resposta dela foi categórica. Ela estava tão serena quanto qualquer outro dia.
Mas ainda assim, não estava dizendo a verdade.
— Por que está mentindo pra mim?
— E-eu não estou mentindo. – gaguejou e eu crispei os olhos. – Estou presumindo.
— Quem te falou, Merida?
— Ninguém me falou, Hiccup… – odeio quando ela me chama pelo nome. – Eu vi.
Simplesmente afirmou o que supliquei a Deus para fosse mentira desde que ouvi da voz de Kristoff. Minhas esperanças se pulverizaram e eu caí sentado na cama.
— Merida...
— Você não me deve satisfações, então, por favor.... – sua feição era sincera ela deu um suspiro cansado. – Vamos apenas nos poupar. Já estou ciente de tudo e se me magoei com o que houve ou não, a culpa é somente minha. Eu deveria saber que algo assim aconteceria, mais cedo ou mais tarde. Afinal, já dura há anos. – ela deu um sorriso triste. – O erro foi totalmente meu.
— Eu beijei você.
— E eu correspondi. – retrucou, desviando o olhar e dando de ombros como se aquilo não importasse.
De alguma forma, essa atitude me feriu.
— Acontece que agora, o que aconteceu evidentemente não significou nada e isso não mudará. – pronto. Terminou de acabar comigo. – Você e eu sabemos que nada fluiria depois dali. Ainda gosta dela, Hiccup, e isso é óbvio.
— Você... – suspirei, interrompendo a mim mesmo, baixando o olhar e tentando reordenar os pensamentos. – Você não sabe o que tá dizendo.
— Sabe o que eu sei? – replicou no mesmo tom tranquilo, que estava começando a me deixar nervoso. – Que você nunca vai sentir por mim o mesmo que sente por ela.
— Porra, você nitidamente não sabe o que tá dizendo.
— Acho que sei o suficiente. – ela mantinha a completa placidez na voz.
Eu me sentia nervoso e impotente. Eu sabia que ela tinha razões concretas para se sentir daquela forma e tomar essa decisão. Começava a me irritar à medida que eu percebia não ter ideia do que fazer para mudar isso, para tirar essa ideia maluca da cabeça dela... Enquanto que ela aparentava estar bastante certa do que estava fazendo.
— Não desperdice essa chance de ouro, Hic. – ela cortou o silêncio com a voz afável, sua calma estava me dando nos nervos. – Eu odiaria estragar isso. Pode enfim começar a progredir no relacionamento que ansiou por anos. Afinal, Astrid parece estar disposta a tudo por você.
— Mas e se eu não estiver disposto? – minha voz exasperada demonstrava meu desalento. – Hm?! E se eu estiver disposto a tudo por outra pessoa?! Você, por exemplo!
— Não diga besteiras. – deu um muxoxo, mas suas bochechas coraram e ela desviou o olhar. – Deseja a Astrid desde a sua puberdade, pelo amor de Odin.
— As coisas mudam, Merida, porra!
— De uma hora pra outra? Da noite pro dia? Creio que não!
— Tá brincando comigo?! Você, mais do que ninguém, sabe que não foi tão repentino assim! Que inferno!
— Por que tá falando assim comigo?!
— Eu não sei!
Perdi completamente o controle da minha vida (?).
Passei as mãos nos cabelos e fechei os olhos com força. Eu nunca me imaginaria sendo grosseiro com ela e isso estava acabando comigo, eu preciso urgentemente me acalmar.
Mas por que ela não entende de uma vez por todas que eu quero ela?
Eu deveria berra isso a plenos pulmões.
No entanto, continuei ali... calado, temendo ser rude mais uma vez.
— Por favor, não dificulte as coisa. – era uma súplica, meu coração doeu ao constatar. – Eu me odiaria se soubesse que estraguei isso.
Ela não seria capaz de estragar nada na minha vida.
Se bem que, agora, ela parece estar fazendo algo parecido. Me sinto péssimo.
Parecia tão decidida de tudo, tão disposta a abrir mão… Um nó doloroso se formou em minha garganta. Eu apenas respirei fundo e engoli.
Passei as mãos no rosto, ainda calado. Eu sentia o seu olhar sobre mim.
— Nós podemos... continuar sendo amigos? – indagou hesitante.
Quase dei uma risada sem humor.
Que linda tortura. Querer beija-la e não poder.
Fitei seu rosto, ela acariciava o próprio braço com a ponta do polegar, de maneira aflita. O silêncio parecia a incomodar. E eu vi no meio de toda aquela certeza de antes um resquício de insegurança mesclado com a sempre presente inocência.
Suspirei, já prevendo o quanto isso seria difícil.
Eu teria contado a ela. Eu teria mesmo contado a ela. Tudo. E aí, essas coisas não estariam acontecendo. Mas ela foi atrás de mim, provavelmente por indução de outras pessoas ou por estar preocupada, e agora ela deve estar me achando o pior dos babacas.
É sempre tão fácil desistir de mim.
Ri desgraçadamente. Uma indignação irrefreável me devastou.
Caminhei a passos pesados até a porta de seu quarto, determinado a ir embora o mais rápido possível.
— É melhor eu ir.
Ela levantou-se num súbito e me seguiu.
— E-eu... Eu... – engoliu em seco quando a fitei cortante de soslaio.
Seu olhar apreensivo me fez vacilar por um momento. Ela pareceu desistir do que pretendia falar e baixou o olhar.
Suspirou longamente e finalizou num fio de voz. – Levo você até a porta...
***
Minha cabeça latejava.
Eu me sentia péssimo. E com um peso enorme sobre as costas.
Dirigi sem rumo por longos minutos. Dando voltas e voltas pelos quarteirões.
Parei num estacionamento próximo a uma praça. Não saí do carro. Fiquei ali, pensando, na verdade, tentando pensar, tentando entender, tentando qualquer coisa até me acalmar.
Por quantos anos fui disposto a tudo por Astrid? E logo agora que não quero mais nada, ela está disposta a tudo por mim. Que ironia.
Eu deveria ter dito tantas coisas a Merida. Eu deveria ter dito tantas, tantas coisas, mas me feria constatar que estava sendo tão fácil para ela desistir de nós.
Por que não fiquei lá até fazê-la mudar de ideia?
Por que será que eu não consigo fazer nada certo?
E o que é isso vibrando no meu bolso?
Um estalido me puxou bruscamente de meus pensamentos. Três toques na minha janela. Um segurança. Inferno. O que foi dessa vez? Mas não era nada demais. Estacionei na vaga de deficientes e nem percebi. Perguntou se eu estava bem e se eu ficaria ali, logo desconversei e fui embora.
Por quanto tempo fiquei parado nesse estacionamento? Não sei dizer.
E que merda é essa vibrando no meu bolso a centésima vez? Meu celular.
Parei em um sinal vermelho e aproveitei para checar o aparelho que acabara de vibrar novamente.
Oito mensagens e treze chamadas perdidas. Mãe e Pai.
Droga! Que horas são? 16:43h. Puta que pariu.
Li a última mensagem que recebi, que não era de minha mãe. Era de Flynn.
Vem pra casa. Seu pai tá uma fera.
Passei as mãos nos cabelos, nervoso. Respondi imediatamente.
Estou a caminho. Tente acalmá-lo.
Eu to fodido, era o que eu pensava a todo instante. Já conseguia imaginar o quanto seria xingado hoje. Ah, que grande merda. O dia está sendo ótimo, pensei com sarcasmo.
Numa velocidade perigosa, segui rumo à minha casa. Treinando desculpas em vão, pois nenhuma seria aceitável, eu conheço o pai que tenho.
Estacionei na garagem, o pneu riscando o concreto num ruído agudo devido a curva perigosa que dispus. Rapidamente adentrei a casa que estava em completo silêncio. Enviei uma mensagem furtivamente a Flynn, anunciando minha chegada.
Passei pela cozinha e fui surpreendido por um abraço apertado. Era minha mãe.
Eu quis chorar quando a vi... Por um momento, até esqueci que estava em maus lençóis.
Ela acariciou meu rosto, perguntou como eu estava. Disse que eu estava bonito, como sempre. Revirei os olhos, com um sorriso bobo no rosto. Mães.
Ela estava linda. Do mesmo jeitinho, desde a última vez que a vi.
Olhei em volta, percebendo a presença de Heather e Dagur. Franzi o cenho quando meus olhos encontraram o último.
Flynn adentrou a cozinha com o rosto impassível de sempre, para os outros... Eu consegui detectar um sinal de apreensão ali.
Ele apontou com a cabeça na direção da sala de estar. Engoli em seco.
Dei um beijo estralado no rosto de minha mãe, que também estava apreensiva. Sabia o que estava por vir.
Caminhei até a sala e o fitei, sem dizer nada.
Sentado na poltrona acolchoada, de costas para a lareira acesa, o ambiente em si tornava-se pequeno a presença de meu pai.
Ele sempre fora imponente. Sempre.
As luzes alaranjadas das chamas atrás de si reforçavam a silhueta, deixando apenas o perfil de seu rosto iluminado enquanto um fio de fumaça irrompia da ponta de seu charuto aceso.
Com uma voz glacial, ele indicou a poltrona à sua frente.
— Sente-se.
— Pai, eu sei que-
— Obedeça, Hiccup.
Respirando profundamente e com os olhos fechados, eu me sentei, já me preparando para o que estava por vir. Ele apagou o charuto no cinzeiro acima da mesa de centro, e me fitou por longos segundos.
— E então, meu filho. Qual será a desculpa dessa vez?
Suspirei, profundamente exausto. Minha cabeça doía. Eu já saí do apartamento de Merida me sentindo a pior das pessoas e eu sabia que meu pai agravaria isso.
— Só... Me desculpe.
— Hm. Isso significa que acabaram as ideias? – abaixei o olhar. – Olha pra mim. – hesitante, tornei a fita-lo.
Seu olhar me perfurava com o desapontamento evidente. É sempre assim.
Estou tão acostumado a receber esse olhar dele... Que eu acho que nem dói mais. Eu nunca faço nada certo, principalmente na opinião de meu pai. Já aceitei isso e até concordo.
Não ter ido buscá-los foi uma afronta e falta de consideração para com eles.
— Pai, eu-
— Como consegue fazer de um compromisso simplório a maior das complicações? – seu tom era tranquilo e isso me assustava. – Ficamos esperando por você, Hiccup. Sua mãe, principalmente.
— E-eu... – suspirei pesadamente, massageando o espaço entre os olhos.
Por falta de algo a lhe dizer e a culpa me corroendo, mudei de assunto.
— Por que trouxe o Dagur, pai? – minha voz era baixa.
Ele me fitou por longos segundos com o rosto impassível.
— Passamos na cidade de seu tio e ele quis vir visitar a irmã. Ficará por uns dias.
Ri sem humor. – Que ótimo.
— Pra resmungar e ser irônico, você é sempre pontual.
— Eu já me desculpei, pai! – repreendi-me mentalmente por não conter a voz elevada. – Aconteceram uns imprevistos. – terminei a frase num murmuro.
Ele estreitou os olhos, me fitando por uns segundos, mas logo desviou o olhar. Suspirei pesadamente para esse comportamento recorrente. Meu pai me olha e só enxerga decepção, é tão fácil notar que já nem me abala mais.
— Estou cansado das suas desculpas, filho. – sua voz grave, mesmo com o tratamento ao final frase, sempre fazia aparentar mais um trovejar do que um simples comentário. – É pedir demais que se esforce um pouco pra agradar seu pai pelo menos uma vez?
— Porra, pai, eu passo a vida me esforçando para agradá-lo!
— Cale a boca! Se esse é o resultado do seu esforço, permita-me lembrá-lo o homem patético que você se tornou! – sua voz tomara a sala e algo dentro de mim se estilhaçou.
Apesar de ser uma sensação familiar, me afetou com uma intensidade absurda.
— Catastrófico, Hiccup. – dizia sem fitar meu rosto, acendendo outro charuto. – Mas não posso dizer que estou surpreso com mais uma frustração que você me proveu.
— Se já espera que eu faça merda, por que ainda tenta?! – perdi a porra da paciência. – Poupe-se dessa vergonha, pai! Faça o que tem vontade de fazer desde os primórdios e largue de mão o maldito filho que tem, apenas finja que nunca existi!
— Moleque, baixe o seu tom de voz ou esquecerei que você é meu filho.
— Eu estou farto do seu desgosto! – mantive a voz enérgica. – Eu estou farto do seu desprezo! E estou cansado de dar murro em ponta de faca quando todos sabemos que não importa o quão eu me esforce, nunca serei nada além de um poço de decepções para o senhor! – meu pai crispou os olhos.
— Você ainda acha que está certo?! Você troca a sua família por um rabo de saia e ainda acha que está no direito de dizer alguma coisa?! Cresça, moleque! – de repente, perdi a compostura quando ele mencionou-a. – E não é a primeira vez que você me desaponta por causa dessa mulher!
Franzi o cenho.
— Como sabe que..? – pensei por um segundo. – Flynn. – grunhi.
Ele negou com a cabeça, me fitando com escárnio.
— Me nego a acreditar que criei um filho que se curva às vontades de quem não lhe dá o devido valor, tampouco que esse mesmo filho esqueceu sua família num aeroporto por causa de uma mulher que só o despreza. – seu tom era cortante.
Ele acha que eu estava com Astrid.
Semicerrei os lábios, furioso. – Sabe que não gosto de conversar sobre isso com o senhor.
— Por que lhe jogo as verdades na cara? Mas é claro que sei, moleque. Mas não me calo para pontuar sempre o quão fraco você é nessa relação medíocre!
— Pai, não quero falar sobre isso.
— Nem eu, Hiccup. – ele apagou o charuto com certa impaciência. – Eu não queria mesmo precisar falar mais uma vez. – vociferou com a voz grave. – Não sei o que se passa na sua cabeça se pensa que irei considerar desculpas esfarrapadas de uma pessoa que nem mesmo se dá o respeito. – as palavras me atravessaram como navalhas corrosivas.
Foi doloroso. Senti minha feição vacilar por um momento, mas logo tornei a encará-lo sério. Demonstrar fraqueza seria outro ultraje.
Engoli em seco, mantendo o cenho franzido.
Por mais que seu olhar não mais surtisse efeito, suas palavras, no entanto... Me afetavam da pior maneira.
Tudo o que ele disse foi olhando nos meus olhos. Mas eu não baixei o olhar. Continuava o encarando.
Ele se levantou calmo, controlando a respiração.
— Eu não estou com raiva de você, nunca estive. O que aconteceu não muda o fato de você ser o meu filho e sua mãe... Tem um coração de ouro. – parou na minha frente. – Apenas peço que nunca mais você coloque alguém à frente de quem te ama mais que tudo nesse mundo. – suas palavras eram sinceras e perfurantes.
Por um momento, cheguei a me odiar.
— Não se esqueça de se desculpar com a sua mãe. – ele murmurou e saiu.
Me sentei na poltrona novamente, repousando a cabeça entre as mãos. A culpa me consumia...
Ao ouvir o pessoal da cozinha vindo para a sala, fiz questão de ir para o meu quarto. Pude ouvir alguém me chamar, mas estava muito envergonhado para falar com quem quer que fosse.
Tranquei a porta e me joguei de costas na cama. Com o braço sobre os olhos, respirei fundo... Sabe o peso nos meus ombros? Aumentou. E estar deitado não aliviava.
Os latejos em minha cabeça se intensificaram ao som de golpes na madeira de minha porta e eu suspirei audivelmente, praguejando ao vento e quem quer que estivesse tentando me arrancar desse momento de autodesprezo merecido.
Eu estava decidido a não atender, mas os murros na porta tornaram-se mais e mais fortes, até que finalmente me ergui, xingando alto.
Ao abrir a porta, meu olhar surpreso foi indisfarçável.
— Hiccup. – suspirou meu nome num tom aflito.
— O que tá fazendo aqui, Astrid?
— Precisamos conversar.
*
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