Rising Tide
35 Fraqueza.
Notas iniciais
Chapter Thirty Five.
Weakness
POV Kristoff.
“Com o queixo apoiado numa das mãos, o cotovelo sobre o balcão e exibindo um sorrisinho insistente, eu me sentia um otário (?).
Ela estava linda pra um senhor caralho. E eu, perdidamente preso na imagem dos cabelos acobreados e lisos a emoldurar o rosto enrubescido pela bebida em excesso.
Não era difícil notar que ela não tinha o hábito de beber.
Na segunda taça de Martini, já estava mais falante e risonha que a própria Merida sóbria. Na terceira, sua sinceridade chegava a ser surpreendente – aquele balcão foi palco de revelações sórdidas.
Dizer que eu estava fascinado era um eufemismo. A imagem de uma Anna quase bêbada era um deslumbre pra mim simplesmente por ser uma faceta dela que eu ainda não havia conhecido. Mesmo nos momentos súbitos de seriedade, seus olhos azuis brilhavam de um modo que denunciava que estava prestes a sorrir.
— Kristoff, você não precisa me contar nada. Mas precisa me prometer uma coisa. – enfatizou num desses momentos.
Continuei em silêncio esperando que ela continuasse, aproveitando a oportunidade para admirar secretamente as sardas que adornavam desde as maçãs de seu rosto à ponte do nariz minúsculo.
Anna é toda pequena. Quem vê, até pensa que é frágil.
— Prometa que quando precisar de mim, por favor, por favor... – ela se inclinou na minha direção para que seus olhos ficassem na altura dos meus e a proximidade fez de mim um homem falho. Sem conseguir me conter, fitei sua boca. – Por favor, Kristoff... – algo esquentou dentro de mim ao observar meu nome soar de seus lábios. Fui culminado por uma sensação intensa, um arrepio percorreu minha pele. – Me prometa que vai me dizer, vai procurar por mim ao invés de me afastar de novo.
Foram palavras cortantes. Só isso para desviar minha atenção da sua boca e fitar seus olhos. Não respondi de imediato, ainda açoitado com a dura verdade – Anna me tentava só com o olhar e aquilo me assombrava. Claro que assombrava. Tanto quanto a sensação sutil e atípica que toma o meu peito só quando estou com ela.
Sou um covarde por me ater a ideia de fugir disso ao invés de me entregar. Sou, sim. Foda-se. Admiro você que se joga no desconhecido com tanta convicção, porém infelizmente – ou felizmente? – não sou assim.
Estava decidido a, depois daqui, me afastar dela novamente. Estava, isso não é segredo para ninguém. Na verdade, nem pra ela.
Anna é a pessoa mais inteligente que conheço. No fundo, ela sabe o que acontecerá depois de hoje – de novo. Sua proposta não é algo aleatório.
Sinto o sorriso crescer no canto dos meus lábios com essa conclusão.
— Me prometa uma coisa também. – não é uma resposta, mas é uma contraproposta. A tensão em seu olhar é substituída por curiosidade e uma breve surpresa. – Quero que me prometa que quando eu precisar de você... – engoli em seco, imaginando as circunstâncias... Não havia pensado nelas antes de começar minha fala. Apenas continuei antes que desistisse. – Você virá por mim, não importa qual seja o momento.
Além das conversas incessantes e abafadas a nossa volta, a voz intensa de Jesse Rutherford em Stuck With Me preenchia o espaço. Mas entre nós, após minhas palavras, se instalara longos segundos de um “silêncio” devastador – seus olhos me perfuravam com inquisições, tão intensos e azuis feito o céu daquele dia. Esforcei-me para não engolir em seco. Um pequeno sorriso adornou seus lábios finos. Ela parecia feliz com a contraproposta e isso me deixou ligeiramente surpreso.
Antes que eu pudesse alerta-la de que sou um dano que não vale o menor esforço, ela assente com a cabeça ao tempo que diz. – Eu prometo.”
A alegria ambulante que me seguia não estava em seus dias mais enérgicos, a julgar pela sua expressão.
Merida não se via, digamos, plenamente feliz desde a ida repentina de seus avós, que acabaram por levar embora os pestinhas que ela chama de irmãos. É claro que ela ficaria triste, uma vez que eles, os velhos, prometeram ficar até seu aniversário, que ocorrera no mês anterior – o qual ela negara festa, presente e quaisquer tipos de celebrações.
Negara até que lhe parabenizassem.
Negara até que fossem em seu apartamento, para dar-lhe um abraço.
Negara a mim – não que eu tenha feito muito esforço para lhe felicitar por mais um ano de vida, o conceito que tenho sobre aniversários serem uma palhaçada anual não deixou de existir –, mas isso não chegara a me afetar.
Aprecio com afinco qualquer chance que tenho de evitar gestos de carinho.
A única pessoa a qual ela não negara, na verdade, a qual ela não resistia a oportunidade de abraçar, beijar e ouvir sua voz, era o infame do meu melhor amigo.
Merida não ruminava o desagrado a todo momento, evidenciando o próprio desânimo – coisa que eu faria. Muito pelo contrário, ela sai por aí inventando o que fazer, para que o costume com a distância da família ressurja mais rapidamente.
Mas hoje em especial, ela estava muito pensativa.
Triste, ela não estava. Só... Pensativa.
— Quero brownie de Nutella. – afirmou de repente. Franzi o cenho e a encarei tão confuso que chegava a ser cômico. Eu realmente não achava que esse fosse o motivo de ela estar tão pensativa. – Sabe no que eu estava pensando?
— Ainda não alcancei a capacidade telepática, mas estou trabalhando nisso.
Pelo menos ela riu.
— Kristoff Bjorgman apresentando senso de humor? Como vim parar nesse universo paralelo?
— Desembucha, maluca.
— Então... – começou ela, ajeitando sua fronte, tomando a postura de quem estava prestes a criar uma teoria da conspiração. – Quando minha avó chegou, ela havia dito que meu avô se atrasaria justamente porque teve de ficar para resolver um problema nas colheitas de cevada, e então eles decidem ir embora repentinamente por causa de outro problema nas colheitas de cevada, eu sei lá. – jogou as mãos pro ar, sentando-se ao meu lado logo que chegamos onde eu mais ansiava: um banco de praça isolado.
Bem próximo a cafeteria onde ela um dia trabalhara. Também bem próximo a ponte que já podia ser considerada o palco de alguns ápices da minha vida de merda; vejamos, o lugar onde fumara meu primeiro cigarro, o lugar onde sempre voltava para reforçar meus temores, o lugar onde chorei pela primeira vez no ombro de um amigo depois que julguei ter perdido tudo, o lugar onde eu quase tirei minha vida... O lugar onde eu quase a beijei.
Esta última era a única recordação que salvava aquela ponte.
Eu deveria, no mínimo, estar me sentindo bem confortável – afinal, a noite estava fria embora fosse verão. Eu gostava das luvas de couro que revestiam minhas mãos – malocadas do Jack, é claro, motociclistas pretenciosos sempre têm um par dessas. Aquele era um bom lugar para curtir a solidão e uma hora de paz. O único incômodo era estar mascando os chicletes de nicotina sabor menta ao invés de estar fumando, que era o que eu realmente desejava estar fazendo, mas a companhia leve de Merida amenizava essa condição por demais.
Contudo, um nó frio comprimiu meu estômago logo ao analisar o que ela dissera.
A palavra colheita, me lembrava fazenda. A palavra fazenda, me lembrava minha família.
E cada recordação deles era como um soco no estômago.
Uma ínfima ira ameaçou se alastrar pelas minhas veias, tendo como origem, a merda que eu chamo de coração. As reações que eu tinha só de lembrar deles faziam com que eu me sentisse fraco. Esse é o motivo da minha raiva.
Mas eu realmente não queria estragar o clima ameno que me rodeava – tampouco queria incomodar Merida.
Então eu só suspirei... E fechei os olhos. Esmurrando aquilo pra dentro de mim novamente.
Pus as mãos nos bolsos e depois de um considerável tempo em silêncio finalmente estranhei a sensação de estar sendo encarado. E ao fita-la, percebi o azul de seus olhos reluzindo em expectativa.
Arqueei uma sobrancelha. – O que você espera que eu diga?
— Concorde comigo, isso não é estranho?
— Não. – ela franziu o cenho, fazendo biquinho e cruzando os braços feito uma criança birrenta. – Não tem nada de estranho em seus avós saírem para resolver problemas que envolvem seu ganha pão.
— Mas se está havendo problemas na fazenda, talvez eu devesse...
— Você não pode fazer nada, Merida. – dei de ombros. – Não há como você ajudar, a não ser que entenda do assunto. Acredite, eu tentei.
Uma interrogação imensa surgiu em sua expressão e ela descruzou os braços, agora encarando-me com uma curiosidade esmagadora. Foi nesse momento que notei ter falado demais.
— Tentou?
Merda.
Cocei a nuca, evitando fita-la ao dar de ombros. – É, tentei uma vez, há muito tempo atrás pra nunca mais. – dizia, me ocupando em tirar meu celular do bolso do sobretudo, plugando o fone na pequena entrada, desconfortável com esse caralho de assunto. – Meus pais também tinham uma fazenda dessa aí. – murmurei essa última parte, esperando ter soado o mais indiferente possível.
De maneira frenética, aumentei o volume até o limite, escolhendo a primeira música avistada na playlist, sem dar muita importância – fosse qual fosse, só podia ser música boa.
O barítono magistral de Matt Bellamy me trouxe as primeiras notas de Follow Me, mas não tive a oportunidade de apreciar o resto da música porque um lado do meu fone fora bruscamente puxado. Cheguei a me assustar com tamanha violência – e isso soa irônico pra caralho se tratando de mim.
— Mas que porra..?!
— Eu tô falando com você! Me respeite! – franzia o cenho, mas era evidente que estava tentando não rir.
Merida fez 19 anos... Agora ela tinha a minha idade e vivia me exigindo respeito, como se fosse mais velha que eu.
Maluca.
Igual sua melhor amiga que, de uns tempos pra cá, vinha me tratando extremamente mal.
Mas eu não posso culpa-la por isso.
Tornei a afasta-la de mim, como todos já esperavam. E feito um imbecil, me dei conta de que propositalmente me sabotei. Anna não me fazia mal algum.
A dura verdade era que ela me fazia bem... pra... caralho.
Talvez eu já soubesse disso.
— Vamos comer? – falou de repente a ruiva ao meu lado, arrancando-me de meus temores de maneira conveniente. Tê-la encontrado nesta praça por acaso talvez tenha vindo a calhar. – Mas tem que ser rápido, precisamos arquitetar a surpresa da Punzie e celebrar a promoção da Anna... – dizia ela dando palminhas e me lançando um olhar animado como se fôssemos cúmplices nessa pequena extravagância.
Crispei os olhos e tornei a ouvir minha música. – Dispenso.
— Ah, qual é... – franziu o cenho, colocando as mãos na cintura numa postura atipicamente zangada. – Você poderia fazer parte disso com a gente, já que não deu a mínima para o meu aniversário...
— Ei! – me exaltei. – Não mete essa, pois foi você mesma quem negou disponibilidade a todos, oh claro, menos pro Hiccup, o exclusivo. – e dei uma risadinha ao presenciar seu olhar de espanto e bochechas coradas. Venci.
— Tá legal, me acompanhe até uma cafeteria pelo menos, Sr. Rancoroso? – sorriu de maneira maldosa ao escutar minha risada sem humor algum para suas insinuações.
— Onde vamos? – indaguei, sem deixar evidências de que pretendia acompanha-la.
Mas sua mudança de feição me deixara curioso, seu olhar voltara a ser de uma criança prestes a fazer alguma travessura.
— Sabe... – pôs um dedo sobre o queixo, pensativa. – A gente podia ir àquela cafeteria que demitiu a Anna, comer e sair sem pagar.
Sem conseguir me conter, arregalei os olhos. – Porra, Merida... Essa é a melhor ideia que você já teve.
Ela deu uma risada, notando minha feição admirada. – Eu sei.
E saiu andando. Não sei o que caralhos houve comigo, eu só me levantei e a segui.
— Vamos apertar o passo, Hulkling? Algo dentro de mim clama por um brownie de Nutella com calda de chocolate e chantilly, e você tem cara de chantilly, eu poderia te comer...
Mais uma vez, a fitei tão confuso e assustado que parecia cômico. – Obrigado? – fiz uma careta quase que involuntariamente. – Mas só de ouvir o nome do prato, me sinto enjoado.
— Você é estranho.
— Só um estranho reconhece o outro, estranha.
Ela abriu um sorriso e me fitou, parecia lisonjeada?
— Tem razão.
Já havíamos atravessado o parque, saindo das limitações da praça. Cruzamos o tráfego tranquilo naquele horário, o frio era bem conveniente. Merida seguia a minha frente ainda tagarelando sobre como o tal brownie de Nutella era uma delícia e eu não conseguia deixar de imaginar uma dose concentrada de diabetes sobre um pratinho de porcelana acompanhado de um café expresso. Argh.
Em total oposição a sua animada prosa, eu só ficava calado e escutando, negando com a cabeça enquanto observava a dona dos indomáveis cachos ruivos seguindo a minha frente num caminho ansioso a porta da cafeteria. Follow Me ainda ressoando em um dos meus ouvidos.
Ela entrou primeiro que eu, sem nem parar para me esperar. Não consegui evitar revirar os olhos.
Mas fui pego de surpresa com sua imagem voltando contra mim no segundo em que eu quase tocara a maçaneta do estabelecimento.
De maneira urgente e, consequentemente, dando de encontrão comigo.
— Merida, que isso?!
Ela não respondeu.
Levei alguns segundos para finalmente concluir que não havia sido um esbarrão.
Ela estava me empurrando para fora, se esforçando para me afastar daquela porta. Mas que porra..?
— Tá maluca, maluca?!
— Eu... Eu... Não quero mais! – decretou de maneira repentina, rindo de um jeito nervoso. – Vamos embora! Não inventa moda, Kris! Vamos acabar sendo presos! (????)
— Mas foi você quem deu a ideia...
— Mudei de ideia, tá?! Mudei de ideia, oxe! – outra risada descontrolada, ela segurava meus braços com força. Estranhei pra caralho. Ela havia acabado de entrar. Ela estava louca pela porra do brownie de Nutella. O que tinha lá dentro que a fez mudar de ideia de maneira tão urgente? – A gente muda de ideia, o ser humano é assim, ora essa. Já dizia aquele senhor brasileiro, Raul Seixas... – riu e, quando começou a cantar, eu soube que tinha algo muito errado. – Eu prefiro seeeer, essa metamorfose ambulante... – outra risada louca. – Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo...
Ela ainda me empurrava para longe da cafeteria. Minha paciência chegou no limite. Crispei os olhos, agarrei seus pulsos e a trouxe para perto de mim num puxão.
Merida arquejou e calou-se no mesmo segundo. Eu percebi ali que a seriedade no meu olhar havia a assustado. Mas não dei a mínima.
Franzi o cenho e aproximei o rosto do seu, impedindo-a de desviar o olhar no momento em que questionei enfático e extremamente baixo.
— Quem está lá dentro?
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