Rising Tide
38 Sem você
Notas iniciais
SEM VOCÊ
Sua vida já era turbulenta antes mesmo de atingir a adolescência. Aceitar o fato de que viver por nada é o mesmo que estar morto não chegava a ser difícil.
Mas aquela sensação te esmaga e sempre fora uma oponente terrivelmente árdua de superar. Lutar contra a sensação de ter sido abandonado demandava uma força que você no fundo sabia não ter.
Dia após dia se fazendo a mesma pergunta.
Por que?
Uma vida de sofrimento não é uma vida. E você há muito deixara de se importar se isso o faz parecer acovardado.
Que se foda.
Quando você se vê vagando num mundo onde o simples vislumbre do seu redor o deixa farto, passa a perceber que de nada vale a pena continuar vivendo se a única sensação que o move todos os dias é a esperança de que seja o último.
Você suplica desesperadamente pelo último dia.
A força que você imagina ter nunca passou de uma ilusão criada com o único intuito de se manter firme diante dessa guerra auto imposta.
A desistência chega de forma gradual, nunca repentina. Vem sorrateira, enroscando-se por entre seus esforços, sufocando sua esperança, pulverizando sua força, engolindo os poucos motivos que você ainda tem pra sorrir e o que restou da sua felicidade até que não sobre mais nada.
E você se entrega, finalmente, ao que tanto almeja.
Finalmente, deixará de ser um fardo para os que estão ao seu redor e principalmente para si próprio. Finalmente extinguirá essa existência medíocre.
Finalmente tomará a atitude mais corajosa que tivera em sua curta vida.
Mesmo apavorado, você tenta. Você se desprende. Você se joga e sente a consciência esvair.
Finalmente.
Um abraço da morte.
***
Suas retinas doem quando você abre os olhos, tendo a sensação de que não faz isso há eras.
Os bipes do ambiente parecem longe e desconexos. Sua mente está confusa. É difícil até respirar, mas com muito custo você consegue enfim perceber o seu entorno.
Jack, cujo as olheiras denunciam que não dorme há dias, está tirando um cochilo na poltrona. Flynn está na cadeira ao seu lado e, mesmo adormecido, a força com a qual ele segura seu pulso sugere a angústia evidente que seu amigo sentira. Hiccup acabara de entrar com um copo de café na mão, e seus olhos arregalados em espanto ao te ver acordado o levam a se questionar uma coisa.
Por quanto tempo eu estive morto?
Ao fechar os olhos com força, você se dá conta de que mais uma vez na vida falhara.
Falhara como filho. Falhara como amigo. Falhara como pessoa. Falhara com si próprio.
Não sabe dizer se está morto ou não, mesmo presenciando os amigos em volta, pessoas vividas e preocupadas, pois não consegue sentir absolutamente nada além de um desprezo terrível por si próprio.
E mesmo depois de meses, você continua visitando a ponte.
Religiosamente, como num ritual profano, forçando-se a encarar o que seria o palco de sua autoquíria. Lugar onde quase finalmente findou a própria história, onde muitos dizem que você nasceu de novo – quando tudo o que você queria era morrer.
Mas apesar do que dizem a seu respeito, uma coisa era certa e firmava-se em sua consciência a cada dia, feito uma verdade absoluta.
Você nunca teria feito o que fez se soubesse que um dia a conheceria.
POV Anna
— Você tentou suicídio. – eu concluí antes que ele terminasse as palavras.
O silêncio foi longo. Durou apenas alguns segundos, mas pareciam horas.
Kristoff não falou nada, involuntariamente consentindo com minha afirmação. Sua respiração continuava branda, como se aquilo não o afetasse. Não mais.
— Dentre os muros deste lugar... – ele apontava pra própria cabeça ao dizer, sem força nenhuma na voz. – O tempo escorre feito cimento.
Eu não tinha reação, estômago e tampouco coração para lidar com tudo o que me fora revelado.
Eu estava sem voz. Eu estava sem ar. Eu estava sem chão.
— Eu não aguentava mais sentir dor.
Mas havia tanta dor nessa frase soada tão baixinho de sua voz grave, que senti algo dentro de mim se quebrar.
Sinto meus joelhos dobrarem e caio sentada na ponta da cama. Meu corpo fica tão mole que quase deixo a caixa de medicamentos cair.
A sensação de impotência me consome e me esmaga, eu me sinto tão fraca... E, ao mesmo tempo, tão vazia.
E machucada, ao imaginar as consequências se essa fatídica tentativa de suicídio tivesse sido bem-sucedida.
Exaurida, ao imaginar inúmeros acontecimentos pelo qual ele passou.
Profundamente infeliz, ao imaginar um mundo... Sem ele.
Eu teria passado direto no final do corredor no primeiro dia na faculdade.
Não haveria ninguém lá para esbarrar em mim. Não haveria ninguém lá para me tirar do sério. Não haveria ninguém na sala de aula para me provocar. Não haveria ninguém na ponte ao fim do meu expediente me intrigando da maneira mais absurda. Não haveria ninguém a me deixar na mais profunda confusão comigo mesma. Não haveria ninguém que eu aturasse por tanto tempo, porque, no fundo eu sabia que sentiria sua falta caso tivesse decretado que ele saísse da minha vida.
E se ele nunca tivesse entrado...
Não haveria ninguém... Não haveria ninguém.
Senti em meus dedos uma dor incômoda. Eu estava apertando os seus braços, seus músculos por debaixo do couro de sua jaqueta estavam tensos, eu o segurava com tanta força... Temendo que, de alguma forma, ele sumisse dali.
E o que é isso morno descendo o meu rosto?
Oh, não.
Estou chorando?
— Anna.
Sua voz.
Ao ouvir sua voz chamar meu nome com tamanha aflição, encaro o seu rosto. Não soube decifrar o que vi. As lágrimas mornas escorriam, impedindo minha plena visão, fazendo cócegas em minha face. Levei lenta e monotonamente um dedo até uma delas, a desfazendo.
Ao fitar meus dedos úmidos, ouvi-me soluçar.
Tentei, lutei com bravura, mas não consegui manter tamanho sofrimento contido dentro de mim e me desfiz num fluxo interminável de lágrimas.
Eu sentia em meu peito uma dor tão lancinante só de imaginar nunca tê-lo conhecido. Um vazio terrível. Uma sensação que não desejo a ninguém.
Num ato involuntário, levei as duas mãos ao rosto, envergonhando-me de minha fraqueza e senti quando algo quente se fechou em torno de meu corpo.
Seus braços me envolveram e ele me puxou para seu colo, me abraçando, me protegendo. Tentando amenizar a dor.
Minha garganta fechava a cada soluço sôfrego, enquanto em minha mente a imagem de mim sozinha nessa cama era desenhada... Como se ele nunca estivesse ali.
Meus dedos se agarraram em sua camisa desesperadamente, a sensação de perde-lo tomando conta de mim.
Ele me apertou contra seu corpo.
— Eu tô aqui. – murmurou, num fio de voz. – Eu tô aqui. Me desculpa... Me desculpa. Por tudo. – senti um beijo demorado no topo de minha cabeça.
Afundei meu rosto em seu peito, molhando a camisa de algodão.
Ouvir a voz dele, mesmo que embargada, me acalmava... Ele estava ali.
Mas...
Imaginar nunca tê-lo conhecido...
Imaginar nunca ter vivido o que vivemos...
Imaginar um mundo sem ele...
Acabou comigo.
*
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