Rising Tide

25 Dúvidas.


Notas iniciais
ROLA ABIGOS, COMO ESTÃO? TRANQUILOS? (?) -QQQQQQQQQQQ parei. Olha só quem chegoooooou? Eu mesma, Orbis Mello (???) PAREI! Gente, demorei? Nem demorei, né? E se eu demorei, trago um capítulo que vai compensar – admito que estou meio in love com esse capítulo, e por mais que soe irônico, eu NÃO sou suspeita pra falar, pois na verdade, nunca tô satisfeita com o que eu escrevo, então pode ser que ele esteja muito bom, mas também pode ser que não esteja, porque afinal, como assim? Oi? Midisgulpem, tô nervousa, tem POV do Flynn, POV do Kris e POV do Jack aqui, e isso tá me afligindo, prq, sacomé né, POVS MASCULINOS SÃO A MINHA RUÍNA! Espero, pelo abençoado cascudo que levou a Kaguya, que este capítulo esteja no mínimo aceitável. ~SCRR Continuandooooo... No último POV, temos uma lembrança, ou melhor, um flashbackzinho maroto, então, quando vocês notarem o texto inteiramente em itálico e entre aspas, já sabe, é o flashback. Já falei os POVs masculinos inclusos neste, mas tb teremos Punzie em meio aos homens -qq, ou ‘seje’, é o único POV feminino do capítulo, ainda tem uma surpresinha pro final, então bora ler? Bora! Aproveitem o capítulo ^^ Boa leitura!

Chapter Twenty Five.

Doubts

POV Rapunzel.

A única coisa que ressoava baixinho dentro daquele carro cheiroso era a melodia gostosa daquela banda americana a qual não me recordo o nome, mas tem algo a ver com pimenta.

De qualquer forma, arrisquei-me perguntar a Flynn o nome da canção, como quem não quer nada. Ele sorriu de lado e respondeu. – Dosed do Red Hot Chili Peppers. – eu disse que tinha algo a ver com pimenta. – Você não conhece essa banda?

Dei de ombros. – Eu deveria?

— Pelo menos, ter ouvido falar, sim. – afirmou incrédulo. – Principalmente porque foi formada em sua cidade natal, Punzie.

Estreitei os olhos. – Como se você soubesse qual é a minha cidade natal. – ele sorriu sacana antes de me dar uma olhadela.

— Los Angeles, Califórnia? – mal percebi minha boca se abrir em surpresa. – Pois é, eu sei.

— Você é algum tipo de perseguidor? – ele deu uma risada divertida e negou com a cabeça.

— Hoje não. – e me fitou por breves segundos. Os cantos de seus olhos ainda adoravelmente estreitos pelo sorriso ainda presente em seu rosto. Eu não sei por quanto tempo eu fiquei o contemplando (?), porém ele não protestou...

— O que estava fazendo aqui? – minha indagação veio automática, só percebi tê-lo questionado depois que as palavras já pairavam no ar dentro daquele carro. No entanto, ele não pareceu surpreso. Suspeito muito que já até esperava que eu perguntasse isso, mais cedo ou mais tarde.

— Meus pais trabalham pro Sr. Armani. Não puderam fazer uma viagem de 1h até Soho pois, segundo eles, haviam coisas mais importantes a tratar... – o tom dele tinha uma pitada de ironia. – Então eu tive de vir no lugar deles.

Uma coisa me chamou atenção. – Peraí... Seus pais moram em Oxford? – ele anuiu sem me fitar. – E você... Não mora com eles? – ele negou, também sem me fitar. Então eu percebi que falar dos pais dele não era algo que ele apreciava. Mudei de assunto. – Cuidou de tudo sozinho no evento?

— Não havia muito o que fazer. Só manter tudo em ordem. Jack e o Sr. North estão aí também. – ele deu de ombros. – Mas, e você? – desviou o olhar da estrada e repousou sobre mim. Um sorriso provocador nasceu em seus lábios. – Não sabia que desfilava.

— Eu não desfilo. – respondi num súbito, desviando meu olhar dos seus olhos e passando a fitar as ruas além da janela.

— Hm, e o que foi que eu vi lá no evento? Uma miragem? – ironizou.

— Um desastre. Foi isso que você viu.

— Tá brincando comigo? – de repente, seu tom de voz era sério novamente. – Eu sei que você faz pouco caso da minha opinião e que provavelmente a opinião da sua mãe é muito mais importante que a minha... – ele deu uma pausa e negou com a cabeça, fitando ao longe na estrada ao ter uma divagação, suponho. – Mas você estava maravilhosa naquele palco. – completou baixinho.

Pisquei inúmeras vezes, surpresa. Eu estava desapontada comigo mesma...

Mas naquele momento, eu sorri.

— Não parece surpreso em me ouvir martirizando-me. – apontei algo que havia notado a princípio, mudando de assunto... Pois, na verdade, eu não sabia o que dizer. Fosse qualquer outro dia, eu teria uma reposta na ponta da língua. Algo como “eu nasci maravilhosa, meu amor” ou “maravilhosa é pouco, eu tava é fabulosa, querido”. Mas naquele dia, eu não estava me sentindo fabulosa, maravilhosa, tampouco competente pra algo.

— Desde quando eu deixo minha feição denunciar meu estado de espírito?

— Você não costuma conseguir manter indiferença perto de mim.

Ele deu de ombros. – Eu venho treinando. – não consegui conter a risada. Ele sorriu.

O trajeto de Soho a Oxford levava pouco mais de 1h, mas no Range Rover de Flynn junto a velocidade que ele dispunha, suspeitei que chegaríamos lá em menos de 30min.

E eu não sei porque caralhos essa ideia me desanimou. Eu queria ficar mais tempo no carro dele, é isso? Ou queria ficar mais tempo... Com ele? O que?! Só que não, né!

Suspirei, observando a estrada além da janela do carro. Fosse o que fosse, já tem muito tempo que não sinto isso, mas... Eu não queria nunca mais sentir de novo. Ainda tinha o sentimento de culpa por ter largado meu pai, Stella e Elsa lá e vindo embora. Eles não tinham culpa de a minha mãe ter odiado minha “performance” e berrado isso para todo o evento ouvir. Sim, porque se até o Flynn ouviu, todo o resto também presenciou aquilo. Talvez seja por isso que ele esteja aqui, dando-me elogios a bom grado... Por dó, argh!

— Olha... Eu sei que você tá tentando ser legal... – falei, referindo-me à situação. – Mas eu não preciso ouvir elogios por pena, Flynn. Nem preciso dessa falsa admiração. Eu repudio sentimento de pena, se quer saber...

Ele, a princípio, ficou confuso. Mas assim que entendeu, riu sem humor, negando com a cabeça. – Eu não estou tentando ser legal. – ele desviou o olhar da estrada novamente. – Tá achando que eu te falei isso por pena? Sério mesmo, Rapunzel?

— Sim, acho! Qualquer um que tenha ouvido o que ela me disse, teria pena de mim... – falei com desgosto. – E eu odeio que sintam pena de mim.

— Então deixa eu te contar uma novidade. – ele deu uma risada curta. – Eu não senti pena de você. – afirmou sério. – Senti pena da sua mãe.

— O quê?

— Eu não sei se ela faz isso pra você sempre estar buscando melhorar, ou se faz isso por perceber a evidência de seu talento, ou se faz isso por sentir que está sendo superada pela própria filha, de qualquer forma, sua mãe precisa de ajuda (?). – atônita, eu ainda o fitava com os olhos arregalados. – Se te ofende, eu sinto muito, mas é a realidade. Não se diz uma coisa daquelas pra uma pessoa que faria tudo por ela.

Arqueei uma sobrancelha. – Como pode ter tanta certeza disso?

Ele me lançou um olhar óbvio. – Assim você me ofende.

— É sério, Flynn.

— Capacidade de observação adquirida graças aos inúmeros truques a quais... Jack me ensinou. – ele me lançou um olhar irritado. – Satisfeita?

— Imensamente. – sorri irônica.

Ele franziu o cenho, mas me direcionou um sorriso. Quer dizer então que ele fica me observando? O sorriso no meu rosto foi quase involuntário, contudo, minhas roupas encharcadas começavam a me provocar calafrios conforme passavam-se os minutos. Para evitar que Flynn percebesse os meus dentes batendo, passei a morder os lábios, no entanto... Não demorou muito para que ele buscasse algo no banco de trás e jogasse em mim.

A jaqueta jeans bateu contra meu rosto, trazendo consigo o perfume masculino. Lhe lancei um olhar inquisidor, mas ele não me fitava. Então, não protestei em vesti-la, enquanto ele ligava o aquecedor do carro. O interior do casaco era revestido em sherpa e em poucos minutos eu já estava aquecida.

Ao chegar em Oxford, eu me sentia quentinha e aconchegante. Eu não estava nem um pouco afim de sair daquele carro. Indiquei onde ficava nosso apartamento e ele parou em frente a portaria.

— Não tire a jaqueta. Está frio e você está quente, pode se resfriar... – falou sem me fitar. – Me entregue depois.

Tô aqui pensando se irei entregar pra ele ou não. Tô muito afim de ficar com essa jaqueta pra mim, sabe. – Você se preocupando com os outros chega a ser... Admirável.

Ele deu de ombros, indiferente. – Não sou o completo babaca que me esforço em fazer você pensar que eu seja.

— Hm... Mesmo? – aquele comentário me intrigou, porém, ele nada disse após isso. Pelo menos, nada que relacionasse ao seu comentário.

Apenas suspirou e repetiu. – Está frio. Não tire a jaqueta, okay?

— Tudo bem, não vou tirar a jaqueta, mas e você?

O olhar dele demorou-se longos segundos além do para-brisa, até que ele inclinou a cabeça brevemente para o meu lado, me lançando uma olhadela. – Eu tô bem. A pergunta aqui é, você está?

Agora o seu olhar se demorava sobre mim. Mas especificamente em meus olhos. As írises tão castanhas e obscuras, varrendo a procura de brechas a enxergar dentro da minha alma, e eu sentia que ele conseguiria, mais cedo ou mais tarde. Mas não desviei o olhar. Eu sabia sobre o que ele estava falando. O desfile... Minha mãe... Suspirei. Eu não tinha nada a esconder dele, não naquele momento. Então lancei um sorriso, na verdade, um simples e sincero repuxar de lábios, e respondi com franqueza. – Eu vou ficar bem.

O olhar dele já não era mais analítico. E sim, compreensivo. Levou alguns segundos antes de anuir minimamente com a cabeça e dizer. – Vou te levar até a portaria.

— Nossa, que cavalheiro. – ele deu a volta e abriu a porta pra mim. Hm. – Já que é tão cavalheiro, porque não me leva até a porta? – indaguei em ironia, fitando as unhas e saindo do carro.

Ele crispou os olhos e me observou por longos segundos enquanto eu sorria da forma mais falsamente inocente em sua direção. – Tá começando a abusar da minha boa vontade...

— Achei que você fosse um cavalheiro.

— Não é o meu normal ser cavalheiro, se quer saber.

— Ah, então é só comigo? – coloquei uma das mãos sobre o peito. – Que lisonjeiro de sua parte, Rider. Toma. – lhe entreguei a minha bolsa de mão, fazendo-o carregar. Ele fitava da bolsa para mim, sucessivamente e com o cenho franzido. – Pode levar pra mim, certo? – lhe pisquei. – Obrigada, gato.

Ele crispou os olhos e franziu o cenho, claramente irritado. – Vejo que você já está melhor.

— Te encontro lá em cima. – falei e saí na frente, dando uma risada zombeteira.

Eu não podia perder essa oportunidade de dar uma provocada básica de todos os dias em Flynn. Afinal, são quase 1h no mesmo ambiente, sem nenhuma farpa trocada, alô? O que é isso? Eu estava quase perguntando “Quem é você e o que fez com o Flynn?”. Se bem que nem mesmo eu estava me reconhecendo naquela noite.

Dei um suspiro, dando uma olhadela furtiva atrás de mim. No fundo, achei que ele fosse embora com a minha bolsa, mas em alguns segundos pude ouvir o carro sendo alarmado e os passos pesados de Flynn atrás de mim. Sorri internamente.

— Se o seu objetivo é me provocar, me sinto no direito de dizer que não é necessário tal exagero. – afirmou entredentes, tomando o lugar ao meu lado num caminhar tão tranquilo quanto o meu.

— Eu sou feita de exageros, querido.

Passamos pela portaria, fazendo um rápido trajeto até o elevador. Ressalto que, até agora, Flynn ainda carregava a minha bolsa. Assistir aquela cena me fez sorrir satisfeita, não sei porquê. O que elevadores tem que nos deixam tão nervosos? Foi tenso... No entanto, nenhuma palavra foi trocada lá dentro.

Ao sair do elevador e seguir em direção a minha porta, uma pressão em meu pulso fez-me parar no meio do caminho, subitamente. Olhei em seus olhos, buscando a resposta para aquela atitude...

— É melhor eu ficar por aqui mesmo. – estávamos no meio do corredor, faltavam apenas alguns metros até a porta.

— Hm, eu... Pelo menos posso saber o porquê?

— Não. – ele sorriu. A proximidade entre nós era absurda. – Não pode.

Arqueei uma sobrancelha e desvencilhei-me de sua mão em meu pulso, cruzando os braços. – Posso sim. Pode falando.

Ele me fitou com os olhos crispados e riu. Ergueu a bolsa em minha direção, fazendo-me segurar. – Boa noite, Punzie. – se virou, tornando a caminhar até o elevador.

Já que por meios “convencionais”, eu parecia não ter moral alguma... Então, terei de apelar.

— Hm, então tá né. Nem quando tenta ser cavalheiro, ele consegue. – bufei, revirando os olhos, comentando num tom alto. Ele parou no meio do corredor e pude percebe-lo respirando fundo. – Ainda faz as coisas pela metade, ninguém merece.

Virou-se para me encarar. – Você ainda tem a coragem de reclamar...

— Oh, você ainda está aí? – fingi surpresa. – Achei que já tivesse ido embora, então vá logo, vá. Some, mas não é pra somar, é pra sumir mesmo.

Ele franziu o cenho, hesitou antes de dar um passo em minha direção novamente... Meu coração falhou uma batida. Contudo, ele parou... Sorriu de lado, negando com a cabeça. – Não adianta, você não vai conseguir me provocar. Não hoje.

Dei uma risada curta, anuindo com a cabeça. – É, parece que está aprendendo a contornar a situação... Terei de aprimorar meu modus operandi (?).

Pude ouvir sua risada, enquanto ele pressionava o botão do elevador. Porém, antes de entrar, me lançou um olhar diferente de qualquer outro que ele já tenha me lançado desde que nos conhecemos...

Eu não queria que ele fosse embora; havia um motivo para isso. Eu entraria em casa e mergulharia em devaneios, principalmente do que ocorrera em Soho, o fato de minha mãe me achar um desastre ambulante. O fato de que... Aquilo ainda me feria muito. Na verdade, causavam-me feridas novas e arrancavam as casquinhas das feridas antigas quase cicatrizadas...

A última hora que passei junto de Flynn aliviou a dor dessas feridas.

Mas agora, ele estava indo embora.

Tudo bem. Eu não posso pedir que ele fique. Ele já fez mais por mim em uma noite do que muitos outros fizeram por mim em anos. Ali, ele não parecia ser o frio e calculista Flynn que vinha me assolando durante os últimos meses.

— Obrigada, Flynn. – foi de coração. E se ele vier amanhã com provocações, tudo bem. Sei lidar com provocações como ninguém.

Ele anuiu depois de longos segundos a me observar. – Não esqueça de esvaziar os bolsos da jaqueta. – minha feição era confusa. Ele apenas sorriu de lado, antes de adentrar o elevador e sumir da minha vista.

Busquei com urgência qualquer coisa que pudesse estar na jaqueta dele, encontrando em um dos bolsos internos um envelope translúcido, com um corte comum. Em seu verso, algo chamara minha atenção. “Rapunzel” escrito em uma adorável letra de mão, com uma caneta preta. Ao ler o meu nome ali naquele envelope, meu coração acelerou...

Eu pensei em correr até o elevador e ir atrás dele... Mas eu estava estática.

Segurei o papel, desconfiada e com o coração aos saltos. Procurei por minhas chaves e adentrei o apartamento numa velocidade insana. A sala escura e silenciosa denunciava que eu estava sozinha, Elsa ainda não havia chego e as meninas provavelmente ainda estavam na boate.

Suspirei, sentando-me ao sofá, largando minha bolsa ao meu lado e fitando as letras atrás do envelope. Seria a letra de Flynn? Que letra mais fofa (?).

Rapunzel, pelo amor de Jah, abre logo isso!

Abri o envelope e retirei dois papéis negros e retangulares. Uma fina faixa iridescente adornava toda a extensão de uma das bordas do papel, a qual os meus dedos puxavam. E na outra ponta, em grandes e prateadas, porém elegantes, letras garrafais, lia-se:

BEYONCÉ

Flawless Concert Private

April, 20

in The House Club Entertainment LLC.”

POV Flynn.

“Precisamos conversar.”

O tom dela era sério. E, porra, ela veio em minha direção, reta e sem desviar os olhos dos meus. Por um momento, franzi o cenho, confuso. Fitei em volta, para certificar-me de que era comigo mesmo. Os caras ao meu lado já vinham a observando desde que ela entrou em nosso campo de visão. Comentários sobre seu rosto anguloso, sua feição sempre com aquele quê de malícia, sua confiança a qual deixava ainda mais profundo o seu charme, seu corpo e o modo como andava – o movimento que ela fazia com o quadril me deixava... Fascinado.

Comentaram, sim, mas ao modo deles. Eram comentários de níveis baixíssimos, nada semelhante a descrição que acabei de fazer. Comentários superficiais, não muito diferente dos quais eu faria para qualquer outra garota. Comentários que eu não conseguia assimilar a justamente ela.

Comentários que, certamente, me deixara muito desconfortável.

Tá cada dia mais difícil manter-se indiferente a tudo o que se trata sobre Rapunzel.

— Mais tarde, talvez no intervalo, se você não estiver ocupado, é claro... – e o silêncio, que já antes reinara por ela estar presente, permaneceu. A fina sobrancelha clara arqueou-se sobre os olhos verdes. E então, fui acordado graças a uma cotovelada de alguém ao meu lado esquerdo, seguido de um pigarro. Eret.— Tudo bem pra você? – ela indagou, ainda me olhando estranho. O que caralhos deu em mim? Eu dormi ou o quê?

— Claro. – dei de ombros, tornando minha expressão indiferente. Ela apenas assentiu e saiu.

— Peraí, cara, cê tá pegando a Rapunzel? – Eret indagou, meio incrédulo demais para o meu gosto.

— Aquela gostosa?! Fala sério! Puta que pariu, Flynn, me ensina seus truques. – surtou Snotlout. Que droga.

— Cala a boca, porra. – murmurei irritado e ele riu, erguendo ambas as mãos.

Não era costume eu parar para conversar com eles desde que minha rixa com Mike viera à tona. No entanto, depois de umas semanas – mais especificamente, nas semanas que se seguiram em que Rapunzel parecia mais distante da faculdade, suspeito que se preparando para o evento de ontem –, fora proposto uma trégua entre Mike e eu – ideia de Eret propor isso, odiava ver amigos brigados. Desde então, voltamos a conversar... Mas eu ainda acho que nós apenas nos aturamos por ter amigos em comum.

— Ah, cara, ela é linda demais... – afirmou Snot novamente.

— Eu sei. – eu e Mike murmuramos ao mesmo tempo, nos encaramos de forma exasperada, com direito a cenho franzido... E então, a sensação de constrangimento.

— Eita porra... – Eret riu. – Punzie é gata e todos nós sabemos disso. Não precisam se olhar dessa forma, donzelas. – finalizou, enquanto Snot se divertia com a situação.

Mike bufou. – Vou indo. Heather está me esperando.

— Vai lá, garanhão. – ironizou Snot, tendo um dedo médio de Mike levantado em sua direção como resposta. – Heather também, outra gostosa. – comentou quando o amigo já estava longe. – Tuffnut tá muito calado, qual foi, cara?

— Tô preparando o soco que eu vou dar nessa sua cara, caso comente algo assim sobre minha irmã.

— Eu apoio. – afirmou Eret, e então tocaram os punhos. Snot riu sem humor, enquanto eu negava com a cabeça, sorrindo minimamente. Por mais que eu esteja sentindo falta da companhia de Kristoff, Jack e Hiccup hoje, passar um tempo com esses caras não é tão ruim...

Mas quem é que consegue se distrair quando um “precisamos conversar” em tom sério vem justamente daquela... Que te tira do sério? Ultimamente, não tenho feito nada para provoca-la, então... Sobre o que será que ela quer conversar? Talvez, queira me entregar a jaqueta, só isso... Né?

Como eu já esperava, graças a minha curiosidade, as aulas passaram se arrastando.

Mas no intervalo, eu já estava lá, feito um babaca ansioso no lugar mais visível do campus: A portaria. Jack chegou a estranhar por eu estar ali em pé igual um imbecil, fingindo estar mexendo no celular, então me chamou para juntar-se a ele no pátio, visto que Hiccup estava com Astrid e Kristoff com a amiga ruiva das meninas – que Jack ainda insistia em chamar de A Ruiva do Hiccup, mesmo Hiccup estando em namoro com uma loira (?).

Assim que eu e Jack chegamos a um espaço vazio do pátio, os mesmos que me faziam companhia mais cedo se juntaram a nós.

Eret conversava com Jack, admirado com a indiferença dele quanto ao namoro de Mike e Heather – ele sabia que Jack já tivera um lance com ela também, e levando em conta que Mike e Jack são bem chegados por cursarem a mesma carreira, até mesmo eu cheguei a ficar admirado com o seu “deboísmo”, mesmo isso sendo o normal de Jack.

Ele apenas dava de ombros, com um sorriso, e dizia que seu foco era outro. Hm. Seu foco tem nome, se querem saber; e cabelos quase tão claros quanto o dele.

Snotlout e Tuffnut conversavam sobre algo que não era de meu interesse, vez ou outra, comentavam algo comigo, mas como eu nem mesmo prestava atenção, apenas anuía.

Não demorou muito para eu avista-la saindo de dentro do prédio junto de suas amigas... Há muito eu observava o quanto ela se destacava, fosse qualquer grupo que ela estivesse inclusa. Eu não sei se era por causa de seu cabelo em tom dourado vibrante ou outra coisa... Hmpf. Até parece que é só o cabelo que chama atenção nela, Rider.

A princípio, eu a quis justamente por isso: O seu charme, sua beleza, seu corpo, aparência, ressalto a beleza. Mas depois, sua confiança, carisma, as respostas na ponta da língua cujo as quais nenhuma outra mulher ousou me dizer na vida, fizeram dela o enigma mais deleitável o qual eu tentava, inutilmente, desvendar. Percebi que não seria tão fácil. Eu teria de me esforçar... E muito.

Meu pai me ensinou que até as mulheres mais extraordinárias tem seus pontos fracos. Ontem, eu conheci o da Rapunzel. E mesmo que, no início, fosse um dos meus objetivos para tentar dobra-la aos meus encantos – patético, mas sempre funcionou com as outras, então... – devo admitir que não gostei em absolutamente nada vê-la daquela forma.

Estive próximo dela naquele momento delicado e, com isso, percebi muitas coisas. Uma delas era que ela não se sentia de fato tão especial assim... Mas isso não diminuía a admiração que eu tinha por ela... E ela nunca, jamais, em nenhuma circunstância, irá tomar conhecimento disso! Sua mente firme e, principalmente, o modo como ela conseguia elevar a autoestima de qualquer um a sua volta – isso já me trouxe uns problemas que, lembrando agora, foi algo bom que ela fez a alguém... Que eu fazia mal. Como pode alguém assim ser taxada de incompetente pela própria mãe? São coisas assim que me tiram do sério. E, de repente, lembrei-me de alguém familiar...

Ela se despediu de Elsa e Anna, que as observei caminhar até um extenso banco de pedra próximo a uma árvore, onde elas descansavam todos os dias nos intervalos. Quando tornei a fitar Rapunzel, ela já me observava, e apenas com um olhar percebi que ela esperava que eu me aproximasse.

Avisei a Jack que iria resolver uma coisa, ele fitou Rapunzel e me lançou um olhar malicioso, que eu ignorei – mas sorri internamente. Ao caminhar em sua direção, percebi Mike – que estava parado não muito longe do meu caminho, junto de Heather – passar a nos encarar assim que ela começou a falar comigo.

— Eu preciso pegar umas coisas lá dentro e, para que não percamos tempo, você me acompanha, por favor? – arqueei uma sobrancelha ao fita-la.

Eu não posso perder a chance de provoca-la, posso? É claro que não.

— Um encontro às escondidas? – sorri malicioso e, pela primeira vez na minha vida, a vi corar. – Punzie, está tentando me seduzir?

Rapidamente, ela colocou o sorriso mais irônico em seu rosto. Eu engoli em seco. – Quem sabe. – deu uma piscadela. Puta que pariu. Ela tá falando sério? Ela riu sapeca e seguiu seu caminho. E eu, é claro, fui atrás. Vai que... (??).

Mas antes, dei uma olhadela em Mike, que nos secava até que Heather, ao perceber sua atitude, agarrou seu rosto e o fez olhar para ela, de modo irritado. Minha nossa... Alguém vai ter que se explicar. Eu teria rido da situação, mas não quis (?).

— Você achou mesmo que eu queria te seduzir? Pff, por favor né. – e revirou os olhos, ao adentrarmos os corredores.

— Eu sabia que era mentira. – até parece que seria assim tão fácil.

— Só vou pegar umas planilhas e ir para casa.

— Não tem substitutos?

— Nenhum professor faltou, Flynn. Eu que vou ter de ir para casa mesmo.

— Hm... Aconteceu algo?

— Não, não é nada demais. – deu de ombros. – Eu vou passar no hotel para pegar minhas coisas que ficaram no quarto da minha mãe. Eu faria isso ontem, depois do desfile, no entanto... Bom, você já sabe o que houve. – ela me olhou nos olhos por uns segundos, mas logo desviou... Que pena. – Tenho que ir sem falta, já que ela vai embora hoje, então...

— Você está bem?

— Vou ficar. – ela sorriu.

— E sobre o que queria falar comigo?

— Rapunzel! – uma voz masculina soou de trás dela, que se virou imediatamente para ver quem a chamara.

Seu rosto não me era estranho. Levando em consideração ser um estudante daqui, não me surpreende que esse cara me seja levemente familiar. Todavia, ainda tive certa dificuldade em recordar seu nome pois o sorrisinho aliviado e feliz que ele direcionava a ela me deixara vagamente desconfortável. Vagamente.

Mesmo ele sendo esguio, ainda assim, era alto. Somando o fato de que Rapunzel é magra e pequena, foi fácil para ele engoli-la num abraço de urso. E foi isso que ele fez. Súbita e abusadamente. Foi preciso apenas isso para eu passar de desconfortável para irritado. Muito irritado. Devo admitir que foi uma reação primitiva, mas... Quem é esse babaca?

Me remexi, tentando disfarçar o incômodo quase palpável. Na verdade, até cheguei a desviar o olhar da cena por uns segundos. Ah, qual é, Rider. Tu nunca foi disso, fica frio.

A única coisa que me deixava minimamente aliviado era o fato de ela não corresponder ao abraço, a princípio, por causa do sobressalto.

— Érr... Jay... O que houve? – ela indagou, constrangida. Bom.

Ele a fitou, radiante. – Obrigado. Eu não sei o que você fez, mas... Me ajudou muito.

Ela pareceu lembrar do que se tratava o tal assunto. – Ah, disponha... – ela deu uma piscadela e eu crispei os olhos instintivamente. – Sempre que precisar, tamos aí, gatinho. – o outro enrubesceu de maneira tímida e patética. Em meu estado normal, eu teria revirado os olhos e dado uma risada zombeteira. Mas eu ainda estava digerindo o “gatinho”, com os olhos crispados fixos em Rapunzel.

Respirei fundo, rendendo-me ao fato de que eu queria espera-la... Que ótimo. Odeio prestar atenção na conversa alheia, então me recostei no armário ao lado do dela, mais uma vez, fitando além deles, ao longe, com a feição mais entediada e indiferente que fui capaz de formar... Estava decidido a esperar que terminassem de conversar, enquanto fingia que não estava nem aí, até que ouvi um pigarro. – Você é o Flynn, né? – virei-me para ele e só então notei que uma de suas mãos ainda repousava sobre o ombro dela. Babaca.

— Sou. – respondi, exibindo uma falsa tranquilidade.

— James. – ele deu um grande sorriso e estendeu a mão. Mesmo que eu cogitasse o contrário, seu aperto de mão era firme. Ah, sim... James. Um estudante do curso de Engenharia. E, pelo que pude notar nos últimos semestres, não sou eu quem deve se preocupar. E sim Kristoff. O alívio em concluir isso foi tão grande, que eu mal consegui disfarçar a surpresa. – Já ouvi muito a seu respeito. Prodígio da Arquitetura. Meus professores falam tão bem de você, que alguns colegas meus até te odeiam (?)... – dizia ainda balançando minha mão. – Qualquer dia, por favor, você tem que me ensinar seus truques.

— Não há truques. – tentei soar casual, mas o tom grosseiro tem vezes que sai de praxe. Dei um mínimo sorriso de lado, tentando concertar isso, mas ele nem mesmo havia notado, de qualquer forma. – Mas se precisar de umas dicas... Tamos aí. – James não notou o proferir debochado da última parte. Ela sim, arqueando a sobrancelha ao me olhar, no entanto, nada disse.

James assentiu, alegre. Ele não era uma ameaça. Não para mim.

— Rapunzel... – ele começou, ao se virar para ela novamente.

— Por favor, pode me chamar só de Punzie. – e lhe lançou um dos seus melhores sorrisos – que eu aproveitei para comtemplar também.

— Punzie... Muito obrigado. Fico te devendo essa e espero poder lhe recompensar qualquer dia.

— Eu vou cobrar, ein. – brincou.

— Pode cobrar. – ele sorriu. – Bom, nos vemos depois. Até mais!

— Até! – despediu-se e o observou caminhar por alguns segundos, até virar-se finalmente para mim. – Ah, você ainda tá aqui... – revirei os olhos.

— Quiser que eu vá embora, é só falar, oras. – coloquei as mãos nos bolsos, exibindo a maior tranquilidade do mundo. – Na verdade, nem precisa dizer nada. Já tô indo...

— Não! – parei de costas pra ela, e o sorriso em meu rosto foi involuntário. – Não vá ainda... – pediu, e seu tom já era diferente do anterior. Virei-me para fitar seu rosto. – Nós ainda não terminamos de conversar, lembra?

— Lembro bem, senhora. Mas fiquei aqui, que nem um imbecil, esperando você terminar de conversar com aquele mauricinho.

Ela franziu o cenho. – Não fala assim dele. Ele é muito legal.

— Eu sei que é, só falei pra te irritar. – dei de ombros e ela bufou, revirando os olhos verdes. – É você que decide quem pode ou não te chamar de Punzie?

— Você foi o único que passou a me chamar assim sem que eu permitisse. – ela destrancou a porta de seu armário, enquanto bufava exasperada. – Prepotente. – murmurou e eu sorri de lado.

— É, pode ser que eu seja... – admiti num tom irônico, dando de ombros. – E então... – incentivei, gesticulando com as mãos, para que ela continuasse a falar o que pretendia, até antes de James chegar.

Ela logo captou a mensagem. – Bom... – começou, terminando de pegar as planilhas em seu armário e guardando em sua bolsa. – Primeiramente... – trancou seu armário e começou a andar, enquanto eu a acompanhava. – Eu quero saber... – parou no meio do caminho, do nada, e me jogou contra a parede num súbito. Por um momento, fiquei sem reação. – COMO VOCÊ CONSEGUIU ISSO?! – mostrou os dois ingressos que eu havia deixado na jaqueta ontem.

Então era por isso? Porra. E eu aqui, me preocupando. Já tinha até esquecido desses ingressos.

— Rapunzel, calma... – eu tava meio assustado (?).

— COMO ASSIM, CALMA?! – ela estava afoita, ainda com a mão espalmada em meu peito, pressionando-me contra a parede. – Você tem noção do quanto eu queria isso?! Ah, meu Deus... – afastou-se, passando as unhas nos cabelos. – Eu fiquei horas olhando para esses dois papeizinhos ontem... HORAS! – ergui ambas as sobrancelhas, surpreso com sua confissão.

— Nossa...

— “Nossa”? É só isso que tem a dizer????????

E quando me dou conta, estou muito confuso. O que mais eu deveria dizer? – Bom... – comecei, mas fui interrompido.

— Tá okay... – ela respirou fundo, fechando os olhos. Erguendo ambas as mãos, os dedos polegar e indicador tocavam-se, enquanto ela tentava compassar a respiração. Eu poderia rir da situação... Mas eu apenas sorri, a observando. Expirou e inspirou umas três vezes, até que... – Tudo bem, tô bem agora... – falou, dando um último suspiro.

Namastê? – comentei, no intuito de provoca-la.

Namascrazy. – e ela me surpreende, mais uma vez, deixando-me confuso. – A louca que há em mim saúda o louco que há em você.

Sorri de lado. – Admito que gosto mais desse. – ela sorriu, mas logo mudou de assunto.

— Bora, Rider. Pode falando. Como conseguiu isso?

— Não é novidade nenhuma que Hiccup é meu amigo, certo? – ela anuiu. – Foi só conversar com ele, em busca de informações sobre os próximos eventos importantes... E em menos de alguns minutos, fiquei sabendo de toda a agenda da boate.

— E como você conseguiu os bilhetes? Pois, não sei se você sabe, mas será algo privado. Não está tendo venda de ingressos, é uma promoção. As melhores letras ganharão o ingresso... – ela explicou. – E eu, nem mesmo consegui terminar a minha música.

— Eu sei que é um evento privado, Punzie. O pai de Jack é patrocinador do estabelecimento. Uma breve conversa com ele foi o suficiente. Eu queria um ingresso também, para fins pessoais...

— Meu Deus, Flynn...

— Pois é.

— Foi tão fácil pra você.

— Foi mesmo. E eu nem sou fã dela.

— Mas eu não posso aceitar. Desculpa.

— O quê?! – ela estendia os bilhetes em minha direção e, pode ser coisa da minha cabeça, mas aquela atitude parecia estar doendo nela demais. – Ah, você vai aceitar sim.

— Não vou, não.

— Ah, vai. – ela franziu o cenho. – O que eu vou fazer com esses bilhetes, Rapunzel?! – indaguei, aquilo já estava começando a me irritar.

— Eu não sei! Vender?

— Eu não preciso de mais dinheiro! – meu tom saiu mais ríspido do que eu pretendia. Respirei fundo, me acalmando. – Namascrazy. – repeti baixinho e pude vê-la sorrir. – Fica com eles. Leva uma de suas amigas, sei lá. – sugeri, com a voz mais branda.

Ela me fitou por longos segundos. – Por que tá fazendo isso? – sua expressão era a mesma. – Qual o seu objetivo com tudo isso, Flynn?

— Sinceramente?

— É claro!

— Meu objetivo era fazer você se sentir bem. Eu, mais do que ninguém, sabe o quão doloroso é a busca pela aprovação dos pais. Acompanhei isso de perto. – admiti, e só me arrependi quando a percebi arregalando os olhos. Suspirei, sentindo que havia falado mais do que devia. De jeito nenhum eu vou ficar aqui lamentando a situação degradável que é a minha vida familiar... Ela não merece minhas lamentações. Nem ela, nem ninguém. – Eu só achei que você precisava... De um motivo pra sorrir sinceramente, depois do que havia ocorrido. – ela continuou me fitando. Os olhos verdes surpresos, porém, ainda confusos. – Eu já havia tido a resposta do North de que ele conseguira os ingressos pra mim, no entanto, os bilhetes físicos eu só conseguiria obter no sábado, o dia seguinte da festa, lembra? – ela anuiu. – Eu já tinha a confirmação de que teria os ingressos, quando soube que você gostava dessa mulher, ia usar um deles pra te provocar de alguma forma... – dei de ombros. – Era um dos motivos de eu não querer que você fosse embora tão cedo da festa, eu queria te provocar. – ela sorriu, de uma forma falsamente irritada.

— E eu achando que você era maluco. – dei uma risadinha.

— Eu nunca disse que não era. – ela crispou os olhos na minha direção.

— E como você sabia que eu gostava da Bey? Mais uma vez te pergunto, você é algum tipo de perseguidor? – não consegui evitar a gargalhada.

— Pode ser que eu tenha ouvido uma de suas amigas comentar por aí, e eu já vinha buscando um meio de conseguir esses três ingressos já tinha um tempo, então juntei as duas coisas... – dei de ombros. – Mas que bom que você foi embora naquele dia... – menti. Eu queria que ela tivesse ficado. – Caso contrário, teria usado os bilhetes pra fins provocativos, e não “consolativos”. – ela deu uma audível risada. – Acredite, minhas ideias para consolação vão além do que simplesmente presentear alguém com dois bilhetes... – dei uma risada curta, mal percebendo minha confissão. – Bem peculiar, eu sei.

— Me mostra.

— O que?

— Sua ideia peculiar para consolação... Me mostra.

Porra, Rapunzel. Não me tenta assim.

— Acredite, Punzie. Eu quero te mostrar já tem um tempo...

— Eu sei. – e sorriu confiante.

— Como é que é? – crispei os olhos, mantendo o sorriso.

— Eu. Sei. – repetiu pausadamente, seu sorriso ainda mais intenso, cravando o olhar esverdeado aos meus simplórios orbes castanhos. A malícia crepitava ali e eu adorava presenciar isso. Estar próximo dela quando a qualquer momento eu poderia... – Mas enfim, né, é melhor eu ir... – comentou, de repente, quebrando todo o enlevo que eu construía ao nosso redor. – É que eu já tô atrasada e tals... – deu um sorriso divertido. E quando me dou conta, me sinto um otário (?). – Beijo, gato. Agradeço pelos bilhetes, viu? Nos vemos depois, bye bye. – falou, se distanciando enquanto dava um tchauzinho descontraído.

E eu fiquei ali, me sentindo um babaca.

Não é a primeira vez que ela faz isso comigo.

Quanto mais eu pensava que a tinha em minhas mãos... Menos eu a tinha em minhas mãos.

Porra... O que essa garota tá fazendo comigo?

POV Kristoff.

— Ei, grandão! – fosse qualquer outra pessoa, eu estaria surpreso ou até mesmo, ouso dizer, irritado pela forma a qual me cumprimentava. Exalava afinidade, coisa difícil de eu permitir-me ter com qualquer um.

Mas se tratava de Merida. Qual é! Quem consegue ficar irritado com Merida?! E esse modo de tratamento vindo dela para comigo tornou-se um hábito nas últimas semanas, então...

— “O sol já vai se pôr.” – completei, ainda de olhos fechados, esperando que ela capta-se a referência.

A risada animada dela denunciou isso. Referência entendida com sucesso. – Quer dizer então que você gosta de Vingadores. – tentei manter-me sério, mas é meio difícil, ainda mais na companhia alegre de Meri. – Eu sabia! Vou passar a te chamar de Hulk a partir de hoje, pode?

Pensei por um segundo, dando de ombros por fim. – Claro.

— Legal. Já to acostumada com seu jeitão monossilábico. Vamos conversar! – sentou-se ao meu lado.

— Okay.

— Como anda a vida?

— Tropeçando (?), e a sua?

— Paraplégica (??). – minha risada foi espontânea, o que acarretou risadas dela também.

Eu estava deitado numa das partes mais distantes da concentração de pessoas no gramado de Oxford. A claridade em meu rosto era o radar caso alguém se aproximasse e formasse uma sombra, como aconteceu quando Meri chegou. Ela não se deitou ao meu lado, como nos outros dias. Manteve-se sentada, então sentei-me também, para fazer companhia a ela.

Tive vontade de acender um cigarro, mas apenas contentei-me em apreciar o ar perfumado de abril, dado o desabrochar das flores no ápice da Primavera, o que irritava meu nariz vez ou outra.

— Quer? – me estendeu um saco cheio de guloseimas. Aceitei um chiclete e apenas isso. – Bom garoto (?). – sou um cachorro agora?

Tenho ficado mais próximo de Meri desde que Anna decidiu passar a agir de forma bem estranha em relação a mim. Porque, porra, o monossilábico da historia deveria ser eu, né? E por mais que eu já tenha engolido meu orgulho e perguntado a Merida se algo aconteceu, ela só desconversa e diz que não sabe... Também diz que o melhor a se fazer é perguntar a ela. Aham, claro, até parece que aquela garota vai me dizer alguma coisa, levando em consideração a intensa teimosia de sua pessoa.

A última vez em que tivemos uma conversa que durara ao menos mais do que quatro frases ditas, foi no dia em que enxotei aquele mala do Hans de cima dela, porra. Depois disso, nem discussões. Nem discussões! O que mais me incomoda é que... O motivo para ela estar agindo assim comigo pode ser justamente esse. Será que me intrometi demais nos assuntos dela? Porque, porra... Quem sou eu pra ditar quem ela deve ou não conversar? O Hans é um mala, babaca, metido a besta? É, claro. Mas eu não sou nada dela, caralho. Esse pensamento me deprimi. E de repente, me vi surpreso por concluir isso. Mas que merda é essa..?

Eu não deveria ter mencionado a ida à casa dela, é claro que ela ficou com raiva e constrangida. Mas aquele dia, no quarto dela... Porra, aquele dia foi tão bom.

Eu gostei daqueles momentos, droga, e isso me assusta pra caralho. Eu senti que estava dentro do mundo dela, e eu não sei porque caralhos isso fez com que eu me sentisse... Feliz? Grunhi irritado ao lembrar do dia em que quase admiti isso a Merida.

— Eu ein. Algo te incomoda? – e a voz dela se faz presente, estranhando o grunhido involuntário.

— Não.

— Talvez minha presença?

— Nunca.

— Tudo bem, pode voltar aos seus devaneios. – e enfiou o pirulito na boca novamente, satisfeita com minha resposta. Era comum essas respostas cheias de sinceridade vindas de mim para Merida, é claro, quando o assunto não se tratava de Anna.

O comportamento estranho dela já durava mais do que eu descobrir ser capaz de lidar. Tanto que, assim que fiquei sabendo, graças a Meri, que ela cobriria o expediente de Elsa ontem – noite de um importante evento a qual Rapunzel participara –, eu não pestanejei em ir até a boate para... Vê-la? Não, seu imbecil. Você foi pra beber, fazer companhia ao seu amigo Hiccup— já que Jack havia ido para o mesmo importante evento junto de seu pai e Flynn –, só isso, nada demais.

Aham, claro, claro. Nem fui para tentar consertar as coisas, claro que não (??).

Acontece que eu me conheço bem o suficiente para saber que “consertar as coisas”, ainda mais se tratando de assuntos desse tipo, não era lá a minha especialidade. Afinal, eu diria o quê, sem parecer um idiota?

“Ô caralho, tá me tratando assim porque?! O que que eu te fiz, mano?!” (???). DEFINITIVAMENTE, NÃO! As chances de eu levar outro chute no saco subiriam para 98%, somando a margem de erro (??????).

Com a minha sorte, eu cheguei a esquecer que outras coisas piores poderiam acontecer.

E aconteceram.

Nunca admitira ter ficado irritado ao ver Hans lá, no bar, conversando com ela durante seu expediente. Fiquei irritado, sim. Principalmente porque fui parar naquela bosta de boate por causa dela, inferno. Queria puxar um assunto, mas que caralho é esse, eu puxando assunto?! Mas era o que eu pretendia, droga, não fosse aquele imbecil a sufocando novamente.

No fim, ainda pensei em vir para casa e parar de me torturar da mesma forma em que Hiccup estava se torturando ao observar atentamente Meri conversando de forma alegre e descontraída com Dagur.

Então nos juntamos. Uma dupla de patéticos. Secando duas garotas, enquanto que as mesmas dispunham toda a sua atenção para dois babacas. Vale ressaltar que um de nós tem namorada.

Eu perdi a paciência depois de poucos minutos e fui para casa na primeira oportunidade. Senti pena de Hiccup por ter de ficar lá a noite inteira... Mas logo passou.

Com base na situação de ultimamente, ao invés de ficar olhando de longe feito um otário, eu preferia fingir que nada aconteceu enquanto lembrava... Dos momentos que julguei ter sido feliz naquele fatídico dia em seu quarto.

— Tá sorrindo porquê? – fitei Meri alarmado, rapidamente dando fim ao sorriso involuntário. Ela sorriu sapeca. – Tá pensando em Anna, né?

Dei um muxoxo, emburrado. – Que Anna o quê.

— Vocês ainda vão ficar juntos.

— Não fala besteira, ruiva. A gente se odeia.

— Já falei que isso não é verdade. Por mais que sejam dois cabeças duras, eu ainda tenho fortes esperanças de que vocês vão ficar juntos e serão muito felizes. – afirmou num tom sábio.

Aquela conversava me deixava nervoso. Não um nervoso irritado, que é o meu comum. Mas sim um nervoso... Ansioso. Sei lá que porra é essa! (?)

Bufei, fingindo indiferença. – Você e sua ingenuidade.

— Eu não sou ingênua, sou sábia. – colocou as mãos na cintura, com uma feição ofendida.

— Você é esperançosa demais, isso faz de você ingênua. – ela deu uma risada e anuiu, concordando comigo.

— Talvez eu seja muito esperançosa mesmo, você tem razão. – deu de ombros, distraída com seu pirulito. – Você sabia que quando eu era criança, sempre esperava pelo dia azul e ensolarado após uma noite de pesadelos, mesmo morando na cidade mais chuvosa da Dinamarca? – eu parei para prestar atenção no que ela dizia, e ela logo notou minha feição intrigada. – Pois é. – riu descontraída. – Quando eu caía e ralava um joelho, esperava pelos carinhos da minha mãe, acompanhados de palavras de conforto e um band-aid, mesmo sabendo que ela nunca tinha tempo e que, provavelmente, eu só teria o band-aid. – deu um sorriso triste. – Sempre que brigava com as meninas, esperava pela parte dos abraços de reconciliação, mesmo sabendo a quão teimosa e orgulhosa todas elas eram, e até hoje são. – acrescentou baixinho. – Quando Hic foi embora lá de casa naquele dia... – ela engoliu em seco com a lembrança. – Eu esperei que ele voltasse. – deu uma pausa, e em seu rosto, o semblante tornou-se apático. – Mesmo sabendo que ele não viria. – finalizou. Eu sou uma pessoa que custa a demonstrar o que sente... Mas naquele momento, eu acabei me sensibilizando com as palavras dela. – Eu esperava tanto dos momentos e das pessoas, que fui tachada de boba. – ela anuiu, reflexiva. – Eu cresci e continuo boba. E, se quer saber, eu não me importo com isso. Esse mundo é pobre de esperança. – deu uma lambida em seu pirulito e sorriu. – Pelo menos a minha, é a última que morre. – e deu uma piscadela marota, fazendo-me sorrir junto dela.

— Eu tenho muito o que aprender contigo, sabia?

Ela riu. – Tá aí uma coisa que não é a primeira vez que escuto, todavia, não concordo.

Desde a morte dos seus pais a desilusão com o meu amigo idiota, eu nunca a vi fraquejar. Às vezes eu me perguntava... Como ela conseguia ser tão forte? Como ela conseguia evitar ser devorada por esse sentimento? Nossas historias tinham profundas semelhanças – ainda mais no que se dizia o destino de nossos pais – no entanto, eu e Merida éramos muito diferentes. Muito. – Como você consegue sorrir? – indaguei, sinceramente. Há muito, eu queria saber como ela conseguia viver assim, de maneira tão plena... Apesar da obscuridade de seu passado.

Achei que ela fosse estranhar pra caralho a pergunta, no entanto, ela só me olhou e sorriu. – Ser dura comigo mesma não vai resolver meus problemas, só piorá-los, Kris. – respondeu, senti a sinceridade no seu tom de voz, e principalmente no seu olhar. – Ao contrário do que as pessoas dizem, o universo não trabalha a nosso favor, nós fazemos nossa felicidade. Não pode se deixar abater nunca! – finalizou com seu sorriso maroto costumeiro. – O importante é viver a vida, pois, quando morrer a vida acaba (???). – o comentário dela me fez rir, sinceramente. O sorriso que ela me lançava, no entanto, era falso.

Ela ria de todos, ria para todos. Espalhava sorrisos, mas não sorria por dentro. Andava estranhamente tristonha, embora continuasse a fazer todos rirem à sua volta, como sempre. – Tá tudo bem, Meri. – ela não entendeu. – Não precisa fingir perto de mim. – foi a primeira vez que a vi tão séria e, por um momento, seus olhos marejaram. Repousei uma mão em seu ombro, o mais delicado que consegui ser. – Tá tudo bem.

Ela prendeu a respiração. E quando soltou, a ouvi soluçar... – Tem sido difícil... – ela respirou fundo, lutando contra cada lágrima que teimava em tentar escapar. – Mas eu preciso continuar sendo forte, afinal... Eu já vivi dores piores, Kris. – ela comentou e respirou fundo.

— Ninguém é de ferro, Meri.

— Eu sei. – ela fungou, limpando uma gotícula persistente que acabara de escapar e sorriu. – Só que essa dor é peculiar e tão... Nova. Eu não sei como lutar contra isso. Me sinto culpada a maioria das vezes por não estar... Simplesmente feliz por ele.

Eu a observei por longos segundos. – Admiro você, Meri, sabe disso... – ela me fitou com um sorriso triste, como quem dizia que não merecia tal admiração, mas seus olhos prestavam atenção em cada palavra que eu dizia, sabendo que algo assim não era recorrente. – Então, não duvide quando digo que sinto muito por ter se apaixonado por alguém tão cego e que, por acaso, é meu amigo.

Ela sorriu. – Não se preocupe, Kris. Eu não duvido. Sinto que você é sempre sincero comigo. – respondeu e sorriu, daquela mesma forma tristonha. – Mas a vida é assim mesmo... Você gosta de uma pessoa, que gosta de outra pessoa. E a pessoa que ela gosta, gosta de outra pessoa... – dizia fazendo gestos com as mãos. – E assim todo mundo vai tomando no cu (?). – completou, e dessa vez eu gargalhei. E fui acompanhado por ela que, a princípio, ria de maneira tímida, mas logo suas risadas tornaram-se constantes. Ela suspirou, expelindo um “ai ai”. – Gosto dessa sensação. O ato de rir, em meio ao choro. – e sorriu, abaixando a cabeça. Eu não soube o que dizer, pois nunca tive essa sensação...

Eu nem mesmo tentava conversar com o Hiccup. Ele tinha uma péssima mania de achar que estava certo o tempo todo, e devo admitir, a maçante maioria das vezes ele sempre esteve certo sim, mas pra outros assuntos ele ostentava o título de mais burro do planeta. A cegueira dele chegava a me irritar, e eu só não arriscava parar pra conversar com ele pois eu sabia que acabaríamos brigando.

E, diferente dos bate bocas dele e do Jack, a gente acabava trocando soco e a porra toda. Eu era uma das poucas pessoas que conseguia acabar com sua exorbitante paciência, enquanto que ele sempre tem a proeza de me irritar profundamente com o seu mantra “sou da paz”. Hm, sei. É só alguém tirar ele do sério, que não existe paz certa.

Outra pessoa que vive o irritando é seu primo, Dagur. Mas, diferente de mim, ele não costuma obter sucesso em suas tentativas – obter sucesso significa cair na porrada com Hiccup, coisa que custa a acontecer.

E de repente, eu tive uma dúvida...

— E quanto a Dagur?

Ela pareceu confusa. – O que tem ele?

— Vocês se dão muito bem... – eu queria saber sinceramente o que havia entre eles. Hiccup podia ser um imbecil, otário, burro e cego, mas eu ainda queria vê-los juntos, porra. E tenho a leve impressão de que não sou o único.

— Ele é legal. Nós conversamos bastante.

— Só isso?

—Sim, ué. O que mais seria? – ela estreitou os olhos. – O que você está insinuando, Sr. Bjorgman?

— Ei, ei... – ergui as mãos. – Juro que não estou insinuando nada. Só estou curioso. – seu olhar abrandou-se. – Até admito que adoraria ver a reação de Hiccup caso você se relacionasse com o primo dele... – minha risada maldosa saiu automática. Poderia até acontecer de Dagur, em fim, obter sucesso em tirá-lo do sério. – Consegue imaginar? – indaguei a mim mesmo.

Mas Meri parecia ter se focado em outro ponto. – Primo?

Arqueei uma sobrancelha. – Sim. Primo.

— Ele é primo do Hic?!

— Ele é irmão da Heather. Filhos do mesmo pai, o irmão do Tio Stoico... – fui explicando. – Ele não te disse?

— Dagur? Não.

— E Hiccup?

— Também não.

— Ah, isso é normal. – ela pareceu confusa. – Heather é prima do Hiccup, então...

— Minha Nossa Senhora do Último Pedaço de Pizza (?). Por que ele nunca me contou isso?

Dei de ombros. – Não é algo que ele goste de dizer por aí.

— Que eles são primos?

— Não. Que ela é da família dele (?).

Ela pensou por uns segundos e, por fim, deu de ombros. – É compreensível? Talvez seja. – anuiu para si mesma. – Kris, obrigada por conversar comigo. – ela falou subitamente. – Eu precisava disso. – e sorriu.

— Algo errado com suas amigas?

— Não, de maneira alguma. Elas são maravilhosas. Mas... Isso é bem... Incomum.

Eu a fitei. – Deveria tentar conversar com elas.

— Eu vou... Obrigada. – sorriu minimamente. – Agora eu tenho que ir... – se levantou, limpando a terra de sua roupa, enquanto que eu me jogava novamente na grama, voltando a minha posição anterior a chegada dela. De maneira despreocupada, coloquei um braço sobre os meus olhos, tampando o meu radar. Faltam uns 40 min para o fim do intervalo. Talvez, agora eu tire um cochilo... – Já me sinto péssima por não estar passando cada minuto junto da aniversariante do dia. – Meri ainda dizia.

— Hm, e quem seria essa pessoa?

— A Anna.

Senti o sague fugir de meu rosto. Em menos de um segundo, eu já estava sentado novamente. – Hoje é... O quê?!

— Aniversário da Anna.

Coloquei as mãos nos cabelos. – Meu Deus do céu. – murmurei (?). Puta que pariu, caralho.— Eu não sabia. – divaguei, em pânico por um momento.

— Ela não te contou?

Neguei com a cabeça, em resposta. – Se bem que nunca perguntei... – admiti e virei-me para Merida. – O que eu faço?! (?).

Ela me fitou assustada. – Tem certeza que você quer um conselho meu? Pensa bem, olha a minha vida... (???).

Eu queria rir, mas estava meio... Irritado. É aniversário dela e nem sequer nos falamos. Não nos falamos porque ela decretou isso. É isso mesmo, porra. Tô me importando por causa de quê, se ela quis assim? Que se foda, também.

— Esquece Meri... – murmurei, e tornei a me deitar na grama. Antes de apoiar meu braço sobre os olhos novamente, pude vê-la me fitar com a feição preocupada. – Nos falamos depois. – assegurei, e a ouvi concordar, seguindo com passos precisos para longe de mim, antes de minha mente ser tomada num caos de dúvidas.

POV Jack.

Notícias boas sobre a avó da Tooth, convite de Snotlout para uma possível festa hoje à noite, notas altas nos últimos testes de Hermenêutica Jurídica, folga da boate garantida, uma possível festa surpresa, a melodia cadenciada de Walls do Kings of Leon ressoando dos fones em meus ouvidos – um som que, no geral, me traz bastante paz –, no entanto, nenhuma dessas coisas amenizavam o mal humor que tomava conta do meu estado de espírito, graças a uma discussão recorrente com Hiccup – a notícia sobre a avó de Tooth, porém, me deixou mais aliviado.

Meu celular não parava de tocar – não chamadas, e sim mensagens – e isso, de alguma forma, me deixava ainda mais impaciente. Agarrando o aparelho de maneira exasperada, fui na notificação que me chamara mais atenção, justamente por ter uma única mensagem não lida.

A frase que se descrevia na tela era:

Tem como vc passar aq em casa agora, pfvr. Urgente, tá?

E no remetente, lia-se: Linda.

Minha reação deveria ser, no mínimo, preocupação, devido as palavras que ela usara... Mas ao ler o remetente e saber que eu iria vê-la, foi automático o sorriso em meu rosto.

Então me ajeitei rapidamente, peguei as chaves da moto, passei pelo Hiccup, que tentava se distrair lendo um livro deitado no sofá, e segui até o apartamento dela.

Eu não estava irritado com Hiccup. Estava preocupado com a situação dele.

Ao, enfim, resolver desabafar comigo... Eu acabei entendendo, por partes, sua decisão – mesmo que algumas coisas ainda fossem difíceis de compreender. Eu não iria julga-lo, principalmente por não saber como é estar na posição dele. E também porque ele já vem sendo bastante depreciado – Kristoff quase não conversa com ele, mas também não poupa esforços na hora de ser irônico, ainda mais agora que tem estado bem mais próximo a Merida. Kristoff deixa mais que claro sua posição quanto ao namoro de Hiccup com Astrid: Ele é irrefutavelmente contra. Porém, Hiccup, com suas respostas enfáticas e sua feição sempre tranquila que chega a irritar, apenas diz: Eu não pedi a sua benção.

Foram momentos tensos... Mas que eu logo descontraía, antes que se engalfinhassem feito dois primitivos (??).

Hiccup estava odiando isso. Como eu sei? Ele me falou. Por mais que ele não demonstrasse, essa situação o desgastava demais. Eu não queria piorar as coisas para ele. Por conta disso, eu só poderia ficar ali, como um bom ouvinte e aconselhando quando me fosse viável ou requisitado.

Hiccup não está feliz. E era isso que eu temia.

No elevador do prédio dela, eu decidia se deveria contar sobre a nossa conversa ou não. Qual seria sua reação, eu me perguntava. Ela entenderia como eu, ao menos, tentei entender?

No corredor que dava ao seu apartamento, bati ao invés de usar a campainha – ação que denunciava que era eu na porta –, ouvi um “pode entrar” logo em seguida.

Estava sentada numa poltrona, lendo um livro de receitas. Ao me fitar, arqueou uma sobrancelha. Merda. Ela já percebeu que algo aconteceu, porra.

Perguntei o porquê da urgência, esperando que ela esquecesse e não tocasse nesse assunto – apenas respondeu que iria precisar de ajuda para os preparativos daqui a pouco –, mas não pareceu ter esquecido.

— Está tudo bem? – indagou. Anuí com a cabeça, dando um audível suspiro. Eu tenho que aprender a disfarçar melhor, porque olha... Não tá dando certo.

Me joguei no sofá ao lado de sua poltrona, apoiando o pescoço ao topo do encosto. Com a cabeça tombada para trás, tudo o que eu conseguia ver era o teto do apartamento... E mesmo assim, eu ainda conseguia sentir o olhar de Elsa sobre mim. Não que isso me incomodasse, muito pelo contrário. A única coisa que me preocupava eram as perguntas que eu sabia que ela iria fazer, mais cedo ou mais tarde. Fechei os olhos, mantendo minha posição, e passei as mãos no rosto levando-as até meus cabelos.

No fundo, eu tinha medo de incomoda-la com meus problemas e, consequentemente, ela decidir se afastar por eu ser um chato. Neguei com a cabeça ao concluir que eu me sentia ridículo... Desde quando sou inseguro a esse ponto?

De qualquer forma, se ela me perguntasse alguma coisa... Eu ainda tinha aquela sólida dúvida: Deveria contar ou não?

Dedos delicados em meus ombros me desconcentraram da questão, mas ainda assim mantive meus olhos fechados. – Está tenso... – ela concluiu e eu abri os olhos, fitando o seu rosto compenetrado, enquanto ela me analisava. Mesmo dessa posição – já que ela estava atrás do encosto do sofá – ela ainda conseguia ser linda. Puta que pariu, Elsa. – Aconteceu alguma coisa? – ela ergueu uma sobrancelha e eu suspirei. Eis a pergunta.

— Não. – minha resposta foi direta, mas eu sabia que ela não estava convencida disso. E então, para não ter que encarar seu olhar inquisidor, tornei a fechar os olhos.

Eu ainda pude ouvir uma risadinha curta, imaginei que ela estaria negando com a cabeça, dando aquele sorriso irônico que me tira do sério e, exatamente por isso, mantive meus olhos fechados.

Seus dedos moveram-se por meus ombros e subiram até meus cabelos, e foi aí que ela me surpreendeu com um beijo – que eu correspondi prontamente.

Ao afastar milímetros de meus lábios, eu ainda mantive os olhos fechados... A sensação da boca dela na minha sempre me deixava extasiado. Fitei seu rosto e ela sorria pra mim. Um sorriso... Compreensivo.

— Quando quiser conversar, estarei aqui, tá? – e acariciou meu rosto.

Porra.

A frase “eu sou um homem de sorte” formava-se em minha consciência – em letras garrafais e em neon, ainda por cima (?).

Senti que ela ia se afastar e, antes que o fizesse, me ergui no sofá e segurei sua cintura. Ela deu um gritinho agudo seguido de risadinhas quando a puxei para mim de tal modo, fazendo com que seu corpo deslizasse sobre o encosto e caísse sobre o meu. Ela ainda ria. E eu, apreciava sua risada com um sorriso no rosto. Eu a queria ali. Nos meus braços.

Mantive minhas mãos em sua cintura, enquanto deitava minha cabeça no braço do sofá. Contrariando minhas expectativas – já que eu esperava sinceramente que ela se levantasse para começar a preparar as coisas para a surpresa de Anna –, ela apoiou a cabeça em meu peito e encaixou uma das pernas entre as minhas, enquanto rodava distraidamente os botões de minha jaqueta.

Eu sorri, sentindo aquela sensação entranha novamente... Em cada uma das vezes em que Elsa passou por mim, nos corredores alheios da vida, eu suspirei e repeti comigo mesmo: não tem jeito, é ela.

Eu estava certo. Pela primeira vez na vida, eu tive a convicção de que estava certo.

— Hm, Jack?

— Sim?

— Tooth falou algo contigo? – ela começou a desenhar círculos em minha camiseta com a ponta do indicador. – Assim, sabe, por mensagem... Whatsapp, Facebook, ou até uma ligação...

É a terceira vez essa semana em que ela me faz essa mesma pergunta. – Não, Elsa.

Ela se encolheu. – Tem certeza?

— Continuo tendo. – ela parou com os gestos sobre minha camiseta, pensativa. – E você, continua não podendo me dizer do que se trata?

— Não. – respondeu rapidamente.

— Tem certeza?

— Continuo tendo.

Suspirei. – Quando quiser conversar comigo, estarei aqui. – repeti sua frase, e senti um sorriso se formar em seu rosto contra o meu peito. – Cadê as meninas? – indaguei, só agora, ao notar o quão o apartamento estava silencioso.

— Merida foi ao mercado.

— E Anna?

— Distraída na casa de James. Ele a convidou para uma tarde de jogos, o que é apenas um pretexto para que ela fique lá enquanto ajeitamos as coisas.

— Rapunzel?

— Tá pra chegar, foi no hotel onde a mãe dela está hospedada... – e então, vi suas sobrancelhas franzirem, eu soube o porquê daquela reação.

— Eu nunca pensei que um dia veria Punzie daquele jeito... – divaguei por um momento, lembrando-me de sua imagem cabisbaixa depois das palavras de sua mãe, ontem no desfile.

Elsa deu um audível suspiro. – Ela passou anos da sua vida acreditando que não era boa o suficiente. Acreditou, pois quem lhe afirmava tais palavras dia após dia era sua própria mãe. Demorou para ela perceber que era capaz de tudo, mas quando isso aconteceu, ah, quando aconteceu...

— Ninguém nunca mais teve a capacidade de faze-la crer no contrário. – eu completei e ela anuiu em concordância.

— Você nunca mais irá vê-la daquela forma. – ela afirmou, convicta. – Eu não permitirei.

— Eu sei. – murmurei, acariciando com o polegar a pele exposta entre seu short de seda e seu moletom cor-de-rosa.

— Você convidou seus amigos, como te pedi?

Hesitei por um momento. – Flynn, sim. Kristoff... Não. – ela franziu o cenho e ajeitou a cabeça em meu peito para me fitar. Não precisou dizer nada. Me apressei em explicar o que estava havendo. – Parece que temos outro problema, linda. Kristoff anda muito mal humorado...

Ela arqueou a sobrancelha, confusa. – Achei que isso fosse o normal dele...

Dei uma risadinha. – E é... Mas não tanto quanto ultimamente. Acho que ele e Anna... Cê sabe. Brigaram, eu sei lá.

Ela pareceu pensar por uns segundos. – Eu também notei algo errado... Ultimamente ela não tem xingado Kristoff. – tamborilou os dedos nos lábios, pensativa. – E isso é bem incomum (?).

— Eu tenho certeza que algo aconteceu, só não sei ao certo o que... E, mais difícil que arrancar informações de Hiccup, é arrancar informações de Kristoff. – suspirei. Tá aí mais um desafio...

— Então, temos mais um caso a resolver. – ela concluiu e me fitou novamente.

Encarei seus olhos. – Juntos?

Ela sorriu. – Juntos. – se esticou e me surpreendeu, novamente naquele dia, com um rápido beijo.

Se levantou... E eu já sentia falta dela junto de mim. Caralho, eu to viciado na Elsa. Ela me deixa dependente dela simplesmente fazendo nada.

Ela ajeitava os cabelos na minha frente, refazendo seu coque, pronta para seguir para longe de mim, talvez até a cozinha ou qualquer outro cômodo da casa, não interessa, era pra longe... Então eu fui rápido.

Primeiro deitado ao sofá, sentei-me num súbito e, antes que ela pudesse me fitar confusa, segurei sua mão e a puxei novamente para o meu colo. Ela caiu, segurando-se em meus ombros, com ambas as pernas para um mesmo lado. Não teve tempo de formular a indagação impendente, deslizei os dedos por sua nuca a puxando para o beijo que, agora, era uma atitude minha. Ela suspirou quando, com uma das mãos, agarrei sua coxa.

Não demorou muito para que eu a sentisse corresponder. Seus dedos acariciavam meus cabelos daquele jeito... Que me deixava perdido. E quando ela passou uma das pernas para o outro lado, me prendendo em seu meio, porra... Eu nunca antes amei tanto um tecido tão fino quanto a seda daquele short. Ela acariciou meu rosto, tal como no nosso primeiro beijo. Mas quando ela enroscou os dedos nos meus cabelos, puxando-os delicadamente... Foi nesse momento que a puxei para mais perto num súbito, que fê-la arquejar contra meus lábios.

Ela estava ofegante. E eu também. Porra, que sensação boa.

Mordeu meu lábio inferior ao sentir meus dedos afundando-se em sua cintura, por baixo de seu suéter. Era um castigo... Mas ela não fazia ideia da sensação gostosa que os dentes dela em meus lábios me traziam.

— Não vai me marcar de novo, Frost... – murmurou, tentando soar firme, referente as marcas que deixei em sua cintura da última vez. Seu peito subindo e descendo com a respiração embargada.

Sorri contra seus lábios. – O que você tá fazendo comigo, Elsa? – a questão em nada tinha relação com o que ela havia dito, mas era sincera. Eu realmente não fazia ideia do que ela estava fazendo comigo. Eu nunca entendia quais eram as sensações que eu costumava ter perto dela.

Afastou nossos lábios por míseros segundos, apenas para fitar meus olhos de maneira intensa. O olhar dela dizia muita coisa, mas eu, como sempre, limitado e rústico, não soube decifrar o que vi. Uma pena. Ela ainda não me ensinou a ser como ela nesse aspecto... Ler olhares era um dom dela, não meu.

O carinho que seu polegar fazia sobre a maçã de meu rosto era inquietante... Se inclinou para mais perto, e agora a atitude era dela novamente. Um beijo terno, cálido e delicado.

Era a forma dela de me acalmar. Ela sempre conseguia, e eu me perguntei se alguma vez na minha vida já havia experimentado um beijo em que, ao mesmo tempo, me trazia paz.

Eu sabia a resposta.

Ali, naquele curto momento, só o que importava era eu e ela. Só o que eu sentia eram os dedos dela em meus cabelos e o palpitar acelerado de meu coração. Só o que eu ouvia era o pulsar contínuo em meus ouvidos e o estalar de nossas línguas uma na outra.

E havia... Uma canção também. Espera aí...

The truth stands in the eeeeeeend... – havia alguém cantando? – SANTO ODIN PAI DE TODOS! – berrou Meri, ao irromper da porta. Com os olhos arregalados, ela manteve-se estática. – Ai, eu sempre chego na hora errada, né? – disse, tapando os olhos com as mãos, mas mantendo uma grande brecha entre os dedos para espiar (???). – Eu posso voltar para o mercado, se quiserem. – Meri riu e Elsa parecia um pimentão de tão vermelha.

Ela deslizou de meu colo, sentando-se ao meu lado. Com as bochechas enrubescidas e tentando reprimir seu constrangimento, ela se escondia atrás de uma almofada. Puta que pariu, eu nunca fui de achar as coisas fofas, mas... Isso foi a coisa mais fofa que eu já vi (?).

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— Não tava acontecendo nada, Meri. – levantou-se para ajuda-la com as compras.

— Elsa, amiga. Se tem uma coisa que eu não sou, é cega. – ela entrou, fechando a porta atrás de si. – Tem alguma coisa acontecendo a muito tempo. – comentou de forma despreocupada, mas fitando Elsa com intensidade. – Olá, Pietro! Como está? – indagou alegre, mudando subitamente de tom.

— Melhor impossível. – foi uma resposta cheia de sinceridade.

— Tenho certeza que sim. – ela me piscou. – Ah! Eu não consegui a minha folga... – fez um biquinho triste.

— O que?! – ela explicou que Bunny não pôde dar sua folga, pois Elsa já não iria e um outro funcionário do bar também não. Se ela faltasse, o bar ficaria uma bagunça. – Por que não me falou, Meri? Eu poderia conversar com ele.

— Tá tudo bem, ele deixou que eu chegasse um pouco mais tarde, dará tempo de comemorar com Anna. – e sorriu, se virando para Elsa, que levava uma sacola para a cozinha. – Eu trouxe uma lata extra de creme de leite, morangos, mirtilo, licor de laranja, essência de baunilha, pão de ló, geleia de frutas vermelhas... – ia tirando as coisas das bolsas e mostrando a Elsa.

Eu fiquei meio confuso a princípio, pois pensei que fossem fazer só um bolo. Elas me explicaram que Anna não gosta de bolo, então resolveram, de última hora, fazer a sobremesa predileta dela: Trifle de morango. – Convidamos poucas pessoas, então vou fazer umas 30 taças de trifle, algumas porções de Panna Cota, Fish and Chips...

— Vai ser algo simples, mas o importante é comer (?). – decretou Meri, por fim.

— Jack... – Elsa me chamou da cozinha. – Convide o Kristoff.

— O quê?! – eu e Meri indagamos em uníssono. – Mesmo depois do que eu te disse... Ainda quer que ele venha? – indaguei.

— Cê sabe que eles não estão se falando muito bem, né mana? – acrescentou Meri.

— Sei, sim. E é por isso mesmo que quero que ele venha. – ela me fitou e eu logo entendi.

Se ele vier, der os parabéns a ela, quem sabe eles não se entendam? Se não isso, ao menos temos uma chance de saber o que se passa entre eles.

— Tem razão, vou ligar para ele agora... – já sacava o celular do bolso.

— Não, pode deixar que eu mesma ligo... Você pode ir ajudando Elsa na cozinha, sim? – já discava o número de Kris. – Obrigada Pietro... Hey, grandão! – e saiu, com o celular rente a orelha, deixando eu e Elsa a sós.

E ali começou minha estadia em sua cozinha. Percebi que ela era bem rigorosa quanto as suas receitas. O dorso de minha mão já estava vermelho, devido aos inúmeros tapas que levei todas as vezes em que tentei pegar uma prova do chantilly recém-preparado.

— Linda, aqui diz que são amoras no lugar de mirtilo...

— Anna gosta com mirtilos. – ela dizia, enquanto batia uma consistente massa clara com o próprio braço. Eu já havia perguntado porquê de ela não usar a batedeira e ela respondeu que só usava para bater chantilly. – Acha que ele virá? – indagou, referindo-se a Kristoff, acho.

Dei de ombros. – Talvez, se Meri pedir com jeitinho... – respondi, enquanto enfeitava uma taça de trifle.

— Ah, então nesse caso, ele vem sim... – eu sorri. – Você não me disse se convidou Hiccup... – ela deu uma pausa. – Seu pai também, é claro. – me virei para fitar seu rosto. Ela estava corada ao mencionar meu pai.

— Está corando, Srta. Snow? – perguntei num tom provocativo.

— Mas é claro que não. – respondeu, revirando os olhos, nervosa.

“- Então você é a senhorita Elsa... – meu pai a fitava deslumbrado. A reação dele foi única, e capaz até de desviar a atenção de Elsa da portaria do evento – que era por onde Punzie havia acabado de ‘fugir’ e Flynn havia ido atrás. – Minha cara, não tem noção do quão prazeroso é conhecer você. – ele estendeu a mão para ela, que fitava de mim para meu pai continuamente. Ela repousou, desconfiada, os dedos sobre a mão estendida de meu velho... E ele a puxou para um abraço.

Sim. Ele a engoliu num abraço de urso. Eu já desistira há muito de tentar mudar esse jeito de meu pai. Se bem que, era algo que eu apreciava bastante nele.

— É bom conhece-lo também... Mesmo eu não sabendo quem o senhor é. – murmurou a última parte e meu pai gargalhou.

Me aproximei de seu rosto. – Linda, esse é o meu pai, Nicholas St. North Frost.

Elsa arregalou os olhos, virando-se para ele. – É um imenso prazer conhecer o senhor... – ela quase fez uma reverência.

Murmurei novamente em seu ouvido. – Ele não se importa de ser chamado de North ou Tio Nick.

— Ou sogro. – meu pai acrescentou, e Elsa piscou continuamente, surpresa.

— Posso saber como o senhor soube que ela era a moça de quem eu falava? – crispei os olhos na direção dele.

— Meu filho, Flynn apontou ela para mim assim que chegamos aqui. – ele puxou Elsa de modo cúmplice. – Eu fico feliz em conhece-la. É a primeira vez que ele fala de uma moça que não seja sua irmã caçula.

— Oh, meu Deus, o senhor tem uma filha?

— Oh, desculpe, é força do hábito. Eu me referia a Toothiana. – e riu sonoramente. – Vocês são amigas, não são? – e eu vi a expressão dela nublar.

Hesitou por uns segundos antes de responder. – Sim... Nós somos.”

Ela acha que eu não percebi aquilo... Mas estou só aguardando.

— Eu convidei os dois, no entanto... – engoli em seco, ao me lembrar de minha conversa com Hiccup.

Elsa notou. – No entanto..? – incentivou, me fitando com os olhos cerrados.

— Eu falei com Hiccup e... Pode ser que ele... Traga a Astrid?

— Oh... – ela pareceu surpresa. – Bom... Da parte de Meri, creio que não haverá problema algum, no entanto, da parte de Hiccup, ainda mais se tratando de quem Meri pretende trazer... – ela ponderou, tornando a bater a massa.

Arqueei uma sobrancelha. – E quem seria esse cara?

Ela me fitou com um olhar incomum. – Você verá. – voltou sua atenção ao seu trabalho. – Mas ele estará com Astrid, então... – deu de ombros.

De repente, fiquei preocupado. – Acho que ele não está preparado para isso... – murmurei comigo mesmo.

— Ele fez por merecer. – comentou, dando de ombros. Aquele comentário me surpreendeu.

— Você realmente acha isso? – ela me fitou de esguelha. – Realmente acha que a culpa dele? Mesmo não sabendo o que realmente aconteceu?

— Jack... – ela falou, se virando pra mim, com a feição irônica. – Sinceramente, não culpo a Meri.

— É claro que não. Você culpa o Hiccup.

— Sim. E você não?

— Hiccup teve os motivos dele. Ele já conversou comigo e me contou o que estava havendo... E por mais que eu ache que ele tem sim uma parcela de culpa, não é justo jogar tudo pra cima dele. E Merida? Já falou com você?

Ela franziu o cenho. – Não.

— Então até lá, não há culpado. Eu só ouvi um lado da historia, então não sabemos o que realmente aconteceu.

Contrariada, ela fez um biquinho emburrado, mas não disse nada. Suspirou, desviando o olhar de mim, abrandando sua feição. – Me desculpe por isso, eu só... – suspirou. – Não consigo parar de pensar em como Meri se sente... Creio que trocada, ou algo do tipo. Fico irritada só de pensar nela se sentindo assim.

— Entendo, mas... Como assim trocada?

— No dia seguinte depois de eles ficarem a primeira vez, Hiccup aparece namorando outra. É como se... O que aconteceu entre eles, mesmo que curto, não significasse nada pra ele, diferente do que, eu sei, significou para ela. No dia seguinte, já estava com outra... – parei pra pensar no que ela estava falando e, por um breve momento, eu consegui compreende-la. – Não era algo que eu esperava de alguém como o Hiccup. – murmurou essa última parte e eu crispei os olhos.

— Tem alguém em especial que você espera algo assim?

Era uma dúvida cruel que me assolou naquele momento. Veio do nada e eu senti que se não perguntasse, não conseguiria dormir aquela noite. Ela parou a colher no meio do caminho em direção a uma taça, a qual ela enchia, e passou a fitar o nada... Pensativa.

Havia algo que eu temia. A resposta dela.

Eu sabia que havia sim alguém em especial. E eu fazia uma ideia de quem era esse alguém.

Engoli em seco.

— Cheguei, feias! Alô, cadê o pessoal dessa casa? – Rapunzel irrompeu da porta. – Ferrugem? Albina? Alô, cadê vocês? Uh-uh... (?). – cantarolou, e Elsa passou por mim feito um foguete, fugindo da questão... Os pelos de minha nuca se eriçaram. Essa atitude denunciava que eu tinha altas chances de estar certo... Mas eu torcia para estar errado.

— Estou aqui...

— Ah, oi amiga, nossa, já tem alguma coisa pronta? Eu to com vontade de aloprar a dieta, porque aturar a esculhambação de minha mãe sem me permitir comer um docinho depois pra melhorar o humor, é dose, viu? – apareci no balcão da cozinha a tempo de vê-la se jogando ao sofá. – Oi, Jack.

— Punzie. Dia difícil?

— Ah, nem fala. – colocou uma mão sobre a testa. – Mas tá tudo bem, eu acredito num amanhã melhor... – suspirou, otimista. – Até porque, amanhã é sexta-feira, então...

— Até que enfim tu chegou, Loira Xerox, a Elsa tá precisando de ajuda na cozinha porque o Jack só sabe comer as coisas (???). – dizia Merida, descendo as escadas, e de repente me vi boquiaberto.

— Mas o que é isso? Difamação e calúnia! (?) – Meri gargalhou junto de Punzie.

— Você sabe que a vida universitária está mexendo com a sua cabeça quando começa a levar termos da faculdade para a vida. – comentou Punzie, puxando Meri para a cozinha, que concordava com ela.

Mal sabiam que não era bem a vida universitária que estava mexendo com a minha cabeça.

Ela estava calada. Durante todo esse tempo. A sós novamente na sala, eu passei a observá-la, pensativa... Talvez pensando na resposta que eu sabia que não ia gostar de ouvir. Suspirei. – Vem... – seu olhar focou-se no meu rosto, já que até então, estava fora de foco. – Vamos ajuda-las.

Vou me afastar dessa questão por ora e torcer para estar errado.

Com tudo pronto, ajudei Elsa a ajeitar a mesa enquanto Meri e Punzie terminavam a decoração simples.

Percebi que já estava quase na hora quando duas moças chegaram, cumprimentando Elsa, Rapunzel, Meri – uma delas, abraçando Elsa com ternura – e perguntando por Anna... As meninas ainda estavam ocupadas terminando os preparativos, então não fui apresentado as moças, mesmo que elas tenham me cumprimentado, eu não sabia quem eram.

Com Merida se arrumando no andar de cima, Rapunzel e Elsa terminando de limpar a cozinha, quem recebeu Flynn e Kristoff acabou sendo eu.

— Eita porra. Já tá assim? Recebendo as visitas? – indagou Kristoff num tom zombeteiro.

— Já é da casa, ein? – Flynn sorriu, alfinetando-me.

— Não enche. – eu ri, enquanto eles passavam por mim. – Meu velho não vem?

— Tá subindo aí... – respondeu um, enquanto outro cumprimentava as moças sentadas ao sofá.

Quando meu pai chegou, quem o recebeu foi Elsa – que ganhou outro abraço – e ele logo seguiu para o sofá, entrando numa conversa distraída com as mesmas senhoras.

Elsa subiu com Punzie, para se arrumarem, deixando Merida para receber o resto do pessoal, então aproveitei para me juntar a Flynn e Kristoff, já que, mesmo que eu tenha tentado esquecer, aquela questão de mais cedo ainda me deixava inquieto.

A campainha tocou e, ao atender, Meri ficou estática ao ver Hiccup... Junto de Astrid.

Mesmo de longe, era fácil notar a forma como se olhavam. Aquilo me intrigou. Astrid cumprimentou Merida que, ao sair do transe, abriu seu melhor sorriso. – Entrem, fiquem à vontade, Anna está quase chegando. – Astrid entrou, passando por Meri. Hiccup apenas abaixou o olhar e seguiu atrás de sua namorada. O negar de minha cabeça foi automático.

Estava um ambiente bacana, apesar disso. Hiccup conversava com Astrid, ela que falava mais que ele. Meu pai ainda conversava distraído com as convidadas misteriosas. Flynn e Kristoff bebiam algo servido por Meri, vez ou outra falavam algo comigo, que eu só concordava – Kristoff estava tenso, isso eu notei. Minha mente estava longe. Nem percebi quando Meri saiu do apartamento, indo buscar alguém lá em baixo, e chegando com ninguém mais, ninguém menos que: Dagur.

Meus olhos correram a procura de Hiccup que, com o cenho franzido, assistia o mais novo convidado adentrando o apartamento ao lado de Meri, imersos em uma conversa alegre. Astrid não notou o desconforto dele, e eu, que estava longe, notei. Eu, Flynn e Kristoff nos entreolhamos, mas ficamos quietos, até porque Hiccup manteve-se em seu lugar.

Suspirei. Anna precisa chegar logo.

A campainha soou novamente e, visto que Elsa já havia descido junto de Rapunzel, ela atendeu.

— Gente, corre! – era Ruffnut junto de Eret. – Anna está subindo aí! Ela não nos viu, porque subimos pela escada, ela está chegando!

Eles entraram e a euforia tomou a atmosfera. De repente, todos ficaram animados. Até eu, por um momento, esqueci o que me afligia.

Então nos preparamos, ansiosos para ver o sorriso de uma Anna surpresa.

Notas finais
Número de palavras: 13.208 ((Músicas do Capítulo)) Dosed – Red Hot Chili Peppers: https://youtu.be/TKkTTpFR1X8 Walls – Kings Of Leon: https://youtu.be/BdF41Ne2cnQ São 13 mil palavras, ou ‘seje’, é o maior capítulo de RT até agora. AHHHEEEOOO! Vale ressaltar que teve importantes revelações nesse capítulo, viu? Notaram? Postei toooodos os aesthetics no Tumblr – minto, falta apenas um, mas esse eu irei postar beeem mais pra frente, é de alguém que vocês nem imaginam ~risada maquiavélica~ – então, pra quem me acompanha lá, não deixem de dar uma olhadinha e me diga o que acharam ^^ O próximo capítulo ainda tem pouca coisa pronta, então pode ser que demore mais que esse aqui pra sair :C Mas não se preocupem! Agora eu tô com mais tempo ^^ Me digam o que acharam? Por favorzinho? Principalmente, sobre os POVs masculinos que são o meu calcanhar de Aquiles :C As músicas tb, foram escolhidas com carinho (na verdade, cada música citada em cada POV, são das respectivas bandas favoritas de quem narra, qualquer dia eu posto isso no tumblr como uma curiosidade). Quem notar as revelações, pode falar, einnnnnn, não vejo a hora de conversar com vocês! ^^ Enfimmmmmmmm, creio que é só isso rs Nos vemos em breve! Beijosssssss ♥