Rising Tide
20 Coragem
Notas iniciais
CORAGEM
POV Anna
Aquele aparelhinho mágico e necessário me desligava do mundo... Sim, os fones de ouvido. A faixa número três do álbum de uma das minhas bandas favorita soava no último volume.
I walk alone, I walk alone...
Talvez fosse a única coisa capaz de me manter minimamente calma depois dos eventos que ocorreram hoje.
Primeiro, a sensação de ser demitida por justa causa, por um erro que não cometi.
Eu poderia ter me esforçado mais para manter o controle? Não. Eu estava no meu limite. Manter o autocontrole, ignorar, se afastar, resistir… Dei um longo suspiro. Quando se trata do Kristoff, qualquer coisa que eu tente se torna difícil demais.
Ele tem o dom de me afetar em questão de segundos.
Não sou nem nunca fui a personificação da cautela, mas me conheço bem para afirmar que me descontrolar com a facilidade e destreza com a qual ele me causa é de se impressionar.
Não saio por aí jogando capuccino na cabeça de todo mundo que adentra a cafeteria. E também não saio chutando todos do sexo masculino por conta provocações logo nos países baixos (?).
Nunca fui de levar desaforo pra casa e minhas amigas até compreendem esse meu jeito peculiar. Porém, procuro dar respostas objetivas, calculadas e esse método tem sido bem fácil e eficaz de se prestar, é claro, quando a pessoa em questão não é o Kristoff.
Segundo, aquela sensação de fraqueza.
Eu deveria ter sido forte – ou ao menos, responsável – e ter agido de forma profissional em meu local de trabalho. E é essa mesma sensação de fraqueza que me deixa aflita e com uma profunda vontade de chorar.
Mas eu não chorei.
E por último, mas não menos importante, a sensação de raiva.
De mim. Dele. De todo mundo!
Eu não consigo deixar de pensar nas coisas que ele me disse e ficar me perguntando do porquê disso tudo. A troco de quê?!
Meu maior ódio é não conseguir odiá-lo.
Afirmo e reafirmo que o odeio, mas não consigo odiar ninguém. Um ato falho, no fim das contas.
Meu coração apertou e por um momento me senti sufocada. Então, as tão incomuns lágrimas escorreram. Não pela sensação de fraqueza, essas eu consigo reprimir.
Eu chorei de raiva.
Odeio… todo esse sentimento incerto.
E ir pra casa só pioraria minha situação. Eu estaria sozinha e não conseguiria estudar por estar pensando demais nas contas para inteirar, nos cartões de livrarias para pagar, nas divisões mensais de gastos em casa, na ajuda que não vou conseguir mais dispor à tia Aldara, no fato de eu não ter um salário – nem emprego. Isso tudo tentando ocultar a realidade de que mesmo cheia de preocupações eu não conseguia PARAR DE PENSAR NO PORRA DO KRISTOFF!
É uma merda quando a única pessoa em que não quero pensar é justamente a que mais se faz presente em meus pensamentos. Aquele maldito, bastardo... Neandertal!
Foi de última hora que resolvi ir à festa. No mínimo, eu teria minhas amigas para conversar.
E, bom, encontrar Meri não havia sido nada difícil... Percebi de longe que era ela, afinal, seus cabelos são inconfundíveis.
Difícil mesmo foi eu forçar meus pés a caminharem em sua direção, assim que identifiquei aquele que fazia companhia a ela. Meu coração falhou por um momento... Malditos gestos involuntários.
Mesmo que eu tenha tentado manter a compostura, creio que falhei miseravelmente. Mesmo que eu quisesse muito aparentar indiferença, eu sabia que não ia conseguir disfarçar.
Já estava nervosa antes mesmo de ele me dirigir o olhar.
E quando ele me fitou, foi como se tudo desmoronasse. Flashes de tudo o que acontecera, frases ecoando, as palavras cuspidas, os olhares inquisidores... Senti minha feição ficar conforme o que eu sentia e todo o meu esforço de tentar aparentar estar tranquila ir para o lixo. Ah, foda-se. Nunca foi um dos meus pontos fortes, de qualquer maneira.
Olhar para seu rosto e não conseguir decifrar aquela expressão me deixou ainda pior. Onde eu estava com a cabeça em pensar que seria melhor vir pra cá – PARA A CASA DELE, ONDE COM TODA CERTEZA, ELE ESTARIA – ao invés de ir para o meu doce lar?
Depois dali, tudo o que eu queria era ir pra casa.
E teria feito isso de imediato se não fosse Tooth me surpreendendo ao encontra-la junto de Phillip aos beijos. Mesmo que eu não goste de Phillip e tenha ficado desconfiada a princípio, me senti culpada por fazer Tooth se decepcionar quanto a identidade do cara que ela simpatizara tão rapidamente.
Bom, já era de se esperar. Phillip sempre fora carismático. Conquistara a todas nós antes mesmo de começar um relacionamento com Elsa.
Elsa e Phillip foram amigos antes de se tornarem namorados. E Elsa continuou com ele, apesar da criação machista do ex-sogro.
Ele tinha tudo para ser um bom namorado, mas influências conseguem acabar com uma pessoa, principalmente vindo de figuras paternas – eu que o diga.
Aquele que magoa qualquer uma de minhas amigas, perde qualquer consideração minha. Não achei que era importante contar a Tooth as qualidades de Phillip. Pra falar a verdade, até nós mesmas evitávamos pensar nelas. Acho que, no fundo, não queríamos admitir que perdemos um bom... amigo.
“Perder” é uma palavra forte... Optamos por “deixa-lo para trás”. Talvez, um mal namorado, naquela época, porém… um bom amigo.
As coisas mudam. Ninguém é perfeito. Quem sabe, ele cresceu?
Coisas estranhas tendem a acontecer. Tipo o fato de eu, a pessoa mais cabeça dura a qual tenho conhecimento, cogitar a possibilidade de Phillip estar mais maduro. Isso seria o normal de Elsa ou até mesmo de Merida. O que está acontecendo comigo? Eis que respondo: não faço a mínima ideia.
Eu não sei o que está acontecendo comigo.
Talvez seja a faixa três mexendo com os meus sentimentos e amolecendo o meu coração – não tão – de pedra (?).
Eu me sinto estressada. Esgotada. Porém, pensativa.
Isso é normal de acontecer, principalmente quando um turbilhão de sentimentos se enrodilham em volta desse meu coração, formando aquele nada agradável emaranhado de incertezas. Todos de uma vez só e na mesma hora.
Mas não consigo evitar temer uma coisa.
Sinto medo de Phillip não ter mudado de fato.
Devemos sempre estar desconfiados de tudo. Tudo! Eu não quero que Tooth passe pelo mesmo que Elsa passou.
Mas se caso aconteça, dessa vez, estarei preparada. E para que não haja nem mesmo UMA cogitação de que algo assim torne a acontecer, resolvi que iria deixar algo bem claro aqui. Sim, eu ia falar com Phillip – avisar que se ele quebrar o coração de Tooth, eu faria o mesmo com a cara dele (???) –, mas fui violentamente puxada para trás antes que eu pudesse dar início ao diálogo.
O susto foi intenso. Já estava pronta pra xingar aquele que se atrevia a interromper os meus planos. Todavia, assim que me recuperei do solavanco, deparei-me com um par de olhos âmbar que me fitavam concentrados e crispados... Aparentemente, convictos de algo. Do que? Eu não sei. E nem queria saber.
— Me solta. – exprimi com o cenho franzido.
— Precisamos conversar. – soou bem sério.
— Não precisamos, não. – murmurei entredentes, tentando a todo custo desvencilhar-me de sua mão.
Ele bufou e revirou os olhos, como se os inúmeros socos que eu desferia em seu braço fizessem cócegas.
— Chegou agora? – indagou para o... Phillip?!
Peraí, ele falou com o Phillip?!
— Já tem um tempo. – o outro respondeu.
Peraí... Processando, aguarde (?).
Eles se conhecem?
— Hm, entendi. – revezou o olhar de Tooth para Phillip e sorriu de lado. – Divirtam-se.
Impossível não se perguntar como Kristoff consegue perceber as coisas tão rapidamente.
Enquanto eu divagava sobre como ele era tão observador e me perguntava desde quando ele conhece Phillip, o dito cujo aproveitou para me puxar. Levei alguns segundos para voltar à realidade, mas quando isso aconteceu...
— Me larga, Kristoff! – berrei, socando seus dedos que apertavam meu braço.
Ele não falou nada. Nem mesmo sua feição expressava algo.
Atravessávamos o espaço da piscina quando as grandes caixas de som começaram a tocar Sweater Weather do The Neighbourhood. Olhei para o torso de Kristoff, que trajava uma camiseta preta dessa mesma banda – em conjunto com uma bermuda escura até pouco abaixo dos joelhos e um converse all star da mesma cor.
Arqueei a sobrancelha e perguntei. – Foi você quem mandou colocar essa música? – ele me fitou de esguelha por meio segundo e deu um sorrisinho.
Mais uma vez, sem resposta.
— Pra onde está me levando? – indaguei, levemente curiosa. Porém, como não obtive resposta novamente…
— Também não quero saber. Me solta agora!
— Não. – falou, ainda me arrastando para não sei onde.
— Sim! – exclamei, possessa. Argh, eu vou chutar ele!
— Eu te solto, mas você vai me ouvir. – argumentou tranquilamente, enquanto nos aproximávamos de uma área vazia, próximo a uns arbustos depois da piscina.
— Não vou, não! Não sou obrigada! – e não sou mesmo.
Sem largar o meu braço, ele se virou para mim.
— Você vai me ouvir e ponto final. – murmurou próximo ao meu rosto.
— Eu quero ver você me obrigar. – expus entredentes, num tom extremamente desafiador.
Ele crispou os olhos e pude observar um sorrisinho arrogante e malicioso crescer em seu rosto.
— Não brinca com fogo, Anna.
— Eu não tenho medo de você... – apertei os lábios, irritada. – Agora, me solta.
— Eu não vou te soltar.
— Me. Solta. Agora! – repeti pausadamente.
Ele grunhiu irritado. – Não custa nada você me escutar, porra!
— Custa sim! – berrei a plenos pulmões, meus punhos cerrados. – Eu já ouvi muito por hoje! De você! Do meu chefe! Dos outros funcionários! JÁ OUVI MUITO! – ele parecia surpreso, seus olhos brevemente arregalados. – E não vou ficar ouvindo mais, não quero! – puxei meu braço, me desvencilhando de suas mãos ao sentir o aperto de seus dedos se afrouxar aos poucos.
Ele me fitava com a feição aflita. Aparentava buscar as palavras necessárias para... Não sei, porém, sem sucesso.
— Eu vou embora. – fiz menção de virar-me para fazer o caminho oposto quando ele começou a murmurar, entredentes.
— Por que você é tão... Tão... – gesticulava com as mãos.
— Tão o que?! Bora, fala!
— Tão inconsequente!
Ri incrédula. – Você foi no meu antigo local de trabalho para me dizer desaforos e eu sou a inconsequente?!
Ele desviou o olhar e apertou os lábios. – Eu tinha... Boas intenções, a princípio. – murmurou, sem fitar meu rosto.
— De boas intenções, o inferno está cheio, Kristoff.
— Ei! – irritou-se, seu cenho franzido. – Eu não fui lá para te provocar. Eu realmente tinha um... Outro propósito. Se você foi demitida, culpe a sua imprudência, não a mim!
— E você me arrastou até aqui pra jogar isso na minha cara? Dessa vez você se superou, obrigada.
— Não! – ele mudou drasticamente de feição. E mais uma vez evitou me olhar. – Não foi por isso, eu... – passou as mãos nos cabelos e baixou a cabeça, respirando fundo e fechando os olhos em seguida. – Que droga, Kristoff... – murmurou para si mesmo. – São só duas palavras, vamos, diga.
— O quê? – indaguei, confusa. – Se o seu objetivo era falar sozinho, não vejo motivos para ter me trago aqui então. – tive um olhar assassino em resposta.
Ele estalou a língua e suspirou. Desviou o olhar e buscou algo no bolso de trás de sua bermuda preta. Franzi o cenho em confusão, ao perceber o que ele tirara do bolso.
— O que é isso? – indaguei, ao vê-lo puxar um cigarro de dentro de uma carteira de Lucky Strike, junto de um isqueiro zippo prateado. – O q-que... O que está fazendo?! – exclamei, assistindo-o levantar a tampa do isqueiro com o polegar e acender o maldito cigarro. – O quê caralhos você está fazendo, Kristoff?!
Ele me olhou confuso ao terminar e respondeu tranquilamente.
— Pra quê esse exagero, tá louca? – falou, num tom óbvio. – É só um vício que tenho desde a adolescência.
— Para com isso agora!
Ele arqueou uma sobrancelha, sem entender. – Mas o que-
— Larga esse cigarro, Kristoff!
Olhou no fundo dos meus olhos, com o cenho franzido. – Não. – murmurou sério. – E não sei por que isso te incomoda tanto.
Aproveitei a proximidade e dei um forte tapa em sua mão, fazendo o cigarro cair de seus dedos e o pisando logo em seguida.
Boquiaberto, ele revezava o olhar de meu rosto para o cigarro esmagado no chão.
— Qual o seu problema, Anna?!
— Ah, o meu problema?! Você fica aí se matando aos poucos e sou eu quem tem problemas?!
Ele riu, de forma debochada. – Você sabia que se eu tiver uma vida saudável, fazer exercícios, parar de fumar e beber, eu ainda vou morrer um dia?
— Oh, por favor, deixa de ser idiota.
— Isso não tem nada a ver com você. Eu estou nervoso, droga!
— Tá nervoso por que? – indaguei, com a sobrancelha arqueada.
— Não interessa. – ele desviou o olhar, emburrado.
— Nervoso, você tá sempre. – ele me lançou um olhar mortal. – E isso não muda o fato de você ter uma carteira de veneno aí no seu bolso. Vamos, me dê essa merda.
Ele deu risada, negando com a cabeça, dando um passo para mais perto de mim. – Não tente, Anna. – seu tom falsamente tranquilo estava absurdamente sério. – Não tente tirar de mim a minha única válvula de escape.
— A sua válvula de escape é acabar consigo mesmo, seu idiota?
— VOCÊ JÁ ACABOU COMIGO, PORRA!
Senti meu coração falhar por um momento e o sangue correr de meu rosto.
A frase ecoava estridente e profunda em minha consciência, pude sentir minhas mãos suarem instantaneamente. Ele suspirou e recuou um passo, tornando maior a distância entre nós... Parecia espantado com o próprio descontrole.
Ainda me fitava, ofegante e sôfrego. Só consegui notar o arregalar de meus olhos quando os senti arder assim que pisquei... E pisquei, continuamente.
Desviei meus olhos dos seus, minha boca entreaberta evidenciava a dificuldade que eu tinha em me manifestar sobre... Isso. Que ele acabou de dizer.
Afinal, o que ele quis dizer com “isso”?
— O que isso quer diz-
— Nada. – ele interrompeu antes que eu terminasse a questão.
Eu queria perguntar... Insistir... Mas não consegui.
E ele desviou o olhar de mim. O chão parecia mais interessante, ao que parece.
De repente, me vi ali. Boquiaberta. Muito surpresa. E sem palavras, pra completar. Fitando seu rosto de feição arrependida, enquanto ele amaldiçoava a si próprio. Os resmungos saíam num volume tão, mais tão baixinho que eu tenho certeza que se não estivesse tão centrada em seus lábios, não saberia dizer se ele estava falando algo ou não.
Mas sua boca tremia continuamente, enquanto discorriam xingamentos a si mesmo, e apertava, formando uma adorável linha reta seguida de um estralar de língua quando ele terminava as ofensas. O negar com a cabeça vinha logo depois disso...
Suspirou, passou a mão na testa e me fitou de esguelha... O franzir de seu cenho foi instantâneo.
— Tá olhando o que?
— O-o que?! E-eu nem tava... Te olhando. – desviei o olhar na mesma hora. – Idiota. – murmurei, mas na verdade, eu estava xingando a mim mesma.
Nem percebi que estava o observando por... Quanto tempo? Nem sei!
— Anna! – escutei alguém me chamar, porém, faltava-me interesse em me virar para identificar quem era. – Não sabia que viria. – era Hans, já havia chegado a nós.
Fitei seu rosto e forcei um sorriso, tentando deixar minha feição o mais normal possível.
— Oi Hans... – ele intensificou o sorriso que já tinha estampado no rosto desde que chegara até nós. – Bom, na verdade eu... Resolvi vir de última hora. – admiti, revezando meu olhar dele para Kristoff, que notei não parar de encarar Hans com os olhos em fendas.
— Nossa, é muito bom te ver aqui! – ele exclamou, eufórico.
Não consegui disfarçar a surpresa. – S-sério?!
— Sim! – ele me olhou de cima a baixo e depois fitou Kristoff, logo desviando o olhar. – Eu… interrompi alguma coisa? – indagou, me fitando hesitante.
— Sim. – grunhiu Kristoff.
— Não! – exclamei, nervosa.
Hans exibia um olhar confuso, quando tornou a me fitar.
— Ótimo. – sorriu e pude ouvir os resmungos quase inaudíveis de Kristoff. – Bom, parece que você chegou agora.
— Ah... – tirei a franja de meus olhos. – Pra falar a verdade, sim. Mas já estou de saída e...
— Já vai embora? Por que? – ele parecia desapontado.
Suspirei. – Eu nem deveria ter vindo, sabe? Na verdade... – pensei por uns segundos. – Não sei nem porquê eu vim.
E foi logo após isso que ouvi passos pesados se dirigindo para longe de nós no gramado. Me virei para procurar, constatando que Kristoff já estava longe.
— Ei, Kristoff! – saí, chamando por ele.
E tenho certeza que ele ouviu, mas não quis olhar pra trás. Se ele tá achando que eu esqueci sobre o maço, está muito enganado!
— Anna, não faça isso. – pude ouvir alguém dizer e, antes que eu pudesse ignorar, senti minha mão ser puxada para trás.
O puxão me levou de encontro ao peito de Hans. Arquejei, fitando seu rosto com os olhos arregalados. Ele me fitava encabulado, parecia ter se arrependido na mesma hora de sua atitude.
— Me desculpe, não queria ter te puxado com tanta força.
— Não, érr... – estávamos muito próximos. – Tudo bem, eu só... – sacudi a cabeça e o encarei por um segundo. – Com todo respeito, Hans, mas odeio que me digam o que fazer. – disse, me desvencilhando de suas mãos, ele me lançou um olhar confuso antes de eu tornar a fazer o mesmo caminho que Kristoff.
— Era apenas uma sugestão. – ouvi as minhas costas e parei no mesmo momento. – Você correndo atrás dele é exatamente o que ele visava desde o início.
Lentamente, virei-me e fitei seu rosto. Não consegui dizer nada.
— Desculpe. Não quero parecer rude ou intrometido, isso é mania de coordenador, mas… – parecia escolher as palavras. – Faça as coisas a sua maneira. – aconselhou e depois disso apenas se virou e já ia se afastando, quando me peguei dizendo.
— Eu... Só quero evitar que ele faça algo... De errado.
— Kristoff já é um adulto, Anna. – respondeu ainda de costas e me fitou por sobre o ombro. – Sabe o que faz.
— Será mesmo?! – questionei, de repente indignada. – Ele fica fazendo coisas estúpidas! E a troco de quê?! De nada! – exclamei para mim mesma, jogando as mãos para o ar e dando um longo suspiro.
— Isso não significa que você deva tomar conta dele. – colocou as mãos nos bolsos, me encarando de longe. – Não é sua responsabilidade.
— Mas… Mas eu…
— Entendi. Você se preocupa mesmo com ele. Admito que é realmente bonito de ver.
De repente me senti encabulada com essa afirmação e desviei o olhar. Emburrada, eu refletia sobre aquilo. Ele tinha toda razão.
Mas eu jamais admitiria.
— E-eu nem me preocupo tanto assim, ok.
— Certo. E eu não sou um coordenador intrometido. Continuando… – ele se aproximou de mim novamente. – Eu posso te ajudar nessa questão.
Arqueei uma sobrancelha, sem entender.
— Que questão?
— Uau. – Hans abriu um sorrisinho bobo e juntou as sobrancelhas num gesto fofo. – Você realmente não notou nada. Que gracinha.
— Mas o que você-
— Se me permite dizer, você fica adorável quando está confusa. – senti o constrangimento iminente e não fui capaz de formular qualquer frase coerente para responde-lo. – Mas isso não é importante. Vou te ajudar mesmo assim. Vai ser mais interessante do que imaginei. – muita informação em tão poucos segundos e eu quase tive uma síncope.
Hans puxou o celular do bolso quando o sentiu vibrar enquanto eu ainda o encarava com a maior cara paisagem.
— Mas isso vai ficar pra depois, pois por agora preciso atender essa ligação.
— Hans…
Ele não respondeu. Abriu um sorriso de lado, lançando-me uma piscadela antes de atender a ligação, se afastando enquanto eu ainda o encarava sem entender nada.
Não posso negar que o jeito misterioso de Hans me fascina e estou realmente curiosa sobre tudo o que acabou de ser dito aqui.
POV Hiccup
Eu não faço a menor ideia de como consegui conter esse desejo de beija-la desde, o quê? O dia em que a conheci? Uma espécie de vontade reprimida e encoberta pelos meus sentimentos pela outra lá e, porra...
Como ansiei por esse beijo, Merida.
Como me contive. Como neguei. Como me enganei.
Quando deveria ter feito o contrário desde o início, desde o dia em que me vi fascinado pelos seus olhos, seu cheiro bom que me enfeitiça e me domina, como nesse momento que eu realmente não quero que acabe.
A única vantagem de se estar sob fortes efeitos do álcool são esses segundos de coragem insana que me levam a fazer as melhores loucuras que sempre valem a pena.
Fui impulsivo, é claro, e não estou surpreso, tampouco arrependido.
Eu teria me martirizado pelo resto da noite ao notar a evidente surpresa em seu olhar quando a beijei, mas a vontade era tanta que tudo o que fiz foi instiga-la, dando leves mordidas em seus lábios, até ser correspondido...
E quando isso aconteceu, eu poderia dizer que me senti no céu.
Não tive certeza se estava sonhando ou não. Talvez fosse um devaneio. Um vislumbre do que eu tanto ansiava.
Isso era o que pouco me importava.
Eu a queria.
Mais perto.
Então entreguei-me por completo ao torpor do momento e desci minha mão de seus cabelos, deslizando pela sua cintura e acomodando-a em sua coxa. Agarrei-a com firmeza, puxando-a para o meu colo.
E eu que por um segundo achei que ela se assustaria. Merida acomodou-se sobre mim prontamente, sem interromper esse beijo terno e cheio de vontade.
Suas mãos nos meus ombros subindo até meus cabelos seguido de um afetuoso carinho foi o ápice de toda sensação gostosa do dia de hoje.
Mas não se comparava a sensação da boca dela na minha.
Suguei de seu lábio inferior com gosto no instante em que, com muito esforço, ela rompera o beijo. Não sei quanto tempo fiquei admirando seu rosto enrubescido quando ela se afastou, ofegante e ainda com os olhos fechados, suas mãos apoiadas em meus ombros.
— Hic... – arfou sem forças.
— Seus conselhos, seu cheiro, seu beijo... – sussurrei contra seus lábios, dando-lhe um leve selinho. – Por que tudo em você é tão bom?
Ela entreabriu os olhos, me fitando com um olhar tão iluminado que era impossível desviar. Um sorrisinho despontou em seus lábios entreabertos e avermelhados, que eu tomei novamente num beijo sem hesitação alguma.
E minha maior satisfação foi senti-la me corresponder na mesma intensidade.
***
Custei a acreditar que realmente havia alguém interrompendo o melhor momento dessa festa toda para mim.
Muito a contragosto, fui obrigado a parar de beija-la, uma vez que uma voz feminina insistia em me chamar.
Ergui os olhos para fitar aquela que se atrevia a nos atrapalhar. Mirei a garota de cabelos loiros com os olhos crispados. Eu não a conhecia. Quem raios é essa mulher? Com a voz hesitante, ela pediu licença mais uma vez antes de se pronunciar finalmente.
— Desculpe atrapalhar o momento. – expôs envergonhada. Arqueei uma sobrancelha, sério.
Mas de relance, pude ver Merida desviar o olhar, toda tímida, e foi impossível conter o sorriso de lado. Acariciei sua coxa com o polegar na tentativa de conforta-la, antes de voltar-me para a garota.
— Sem problemas. O que houve?
— Estou preocupada.
Só depois que ela disse isso me permiti notar sua feição aflita por trás dos grossos óculos. De repente, me vi preocupado também.
— O que aconteceu?
— Tem alguém passando muito mal no banheiro. Pediram para chamar você, deduzi que por você ser o dono da casa e responsável pela festa.
— Você sabe quem é? – ela negou. – A pessoa está muito mal?
— Soube que quase desmaiou.
Puta merda. Começou cedo hoje. Sempre tem uns imbecis que não sabem beber. Dei um longo suspiro.
— Certo. Vou dar uma olhada nisso. – a garota anuiu antes de sair. – Merda. – murmurei, massageando entre os olhos, já sentindo uma dor de cabeça por antecipação.
Não sei como nunca me acostumo com isso, já que é hábito entre os phoenix.
Voltei-me para Merida.
— Cabelos em Chamas, preciso resolver isso...
— Precisa mesmo! – exclamou aflita. – A pessoa deve estar entrando em coma alcóolico! Posso aferir a pressão, caso queira. Não acha melhor chamar a ambulância?
Sorri para o seu jeito inocente e doce, sempre disposta a ajudar.
— O Phoenix Club é composto por muitos marmanjos irresponsáveis quando o assunto é bebida. Não se preocupe, quem quer que seja, ficará bem. – segurei seu rosto e murmurei próximo ao seus lábios. – Por favor, espere por mim. Está bem?
Ela abriu um sorriso antes de responder.
— Não se preocupe. Vou esperar por você.
Dei-lhe um beijo rápido antes de retira-la cuidadosamente do meu colo, acomodando-a sobre o pufe.
Atravessei o salão ainda incomodado por ter que deixá-la, mas pontuando em minha mente que quanto antes eu resolvesse essa questão, antes eu voltaria para ela, então fiz meu caminho em direção ao bendito banheiro.
De fato, o espaço parecia mais cheio – uma longa fila de moças necessitadas pela sua vez se estendia por alguns metros.
Suspirei e tomei a dianteira da situação, enquanto a maioria delas reclamavam comigo sobre a demora de quem quer que tivesse lá dentro e exigiam uma solução.
Bati na porta três vezes antes de ouvir um "tá ocupado" vindo do interior.
— É o Hiccup. Eu preciso que você saia, a menos que queira que eu apanhe das mulheres que estão esperando aqui fora.
A porta foi aberta subitamente e alguém me agarrou pela camisa, me puxando para dentro e batendo a porta logo em seguida.
— Mas que porra?! – só então percebi que fora Ruffnut quem me puxara. Crispei os olhos. – É você quem está passando mal? – aflita, ela negou com a cabeça, antes de indicar um espaço no canto do banheiro.
E a imagem que vi me deixou em choque.
Sentada no chão, mais pálida que a cor dos azulejos, estava Astrid. Escorada na privada, com a cabeça baixa, os fios loiros caíam sobre o rosto, me deixando na incerteza se ela estava consciente ainda ou não.
Toda a adrenalina e preocupação que eu sentira me deixara trêmulo e ativo, como um balde de água fria sendo jogado sobre minha cabeça.
— Minha nossa... – rapidamente, me pus ao seu lado.
Eu nunca a vi assim.
Segurei seu queixo com firmeza e fitei seu rosto. Ela estava acordada e com a respiração lenta, os olhos marejados e vermelhos.
— O que aconteceu com você? – sussurrei.
Seu olhar oscilou, mas de repente focou em meu rosto com uma precisão absurda ainda que atrasada, como se finalmente me reconhecesse. Franzi o cenho, mas não tive tempo de esboçar uma reação pois no segundo seguinte ela se jogou contra mim.
Me agarrando com toda a força do mundo.
As unhas fincadas na minha camiseta enquanto repetia.
— Por favor, não suma.
Eu continuava estático, em meio aquele abraço violento e desesperado.
Olhei para Ruff temeroso e não precisei indagar nada. Ela já foi esclarecendo toda situação, ou ao menos parte dela.
— Eu a vi na pista de dança com meu irmão, Snot e os outros rapazes. Ela estava bem, curtindo e dançando, mas notei que estava bebendo mais que seu próprio limite permitia. Eu e Eret estávamos juntos e foi ele quem percebera o quão cambaleante ela estava enquanto vinha pra cá. Resolvi acompanha-la para evitar que o pior acontecesse, pois ela realmente não parecia bem. Ela já vomitou muito, já chorou horrores e fica a todo momento dizendo coisas desconexas e repetindo o seu nome.
— O meu nome?!
— Sim, o seu nome. – seu olhar tornou-se sério e temeroso, enquanto ela me alertava. – Isso aí não é efeito somente de bebida alcoólica, Hiccup.
Senti meu estômago embrulhar.
Minha cabeça girou com a ideia de terem-na drogado.
Juro por Deus que vou até o inferno para descobrir os responsáveis por isso, mas antes…
— Ela bebeu água?
— Não, desculpe. Não tive tempo de sair daqui para ir buscar. Só molhei o rosto dela para ver se a ajudava a sair desse transe.
— Eu vou lá fora buscar, serei rápido. Ela precisa beber água.
Quando fiz menção de me levantar e me afastar, Astrid berrou.
— Não me deixa, por favor! Você também, não!
Meu coração apertou com o susto, com as palavras, tudo.
— Não vou deixá-la. Acalme-se. – indiquei Ruffnut e ela veio ampará-la quando Astrid começou a chorar.
Senti meu peito doer, mas saí daquele banheiro o mais rápido possível.
***
Apressado, eu fazia o caminho de volta ao banheiro com uma garrafa de água gelada nas mãos quando Flynn se colocara no meu caminho.
— Preciso das chaves.
— O que?! – indaguei no mesmo instante. – Pra que? – ele arqueou uma sobrancelha, respondendo silenciosamente que não me devia satisfações. Revirei os olhos e dei um longo suspiro. – Eu vou subir com Astrid daqui a pouco. – ele sorriu sacana, mas já fui dizendo. – Nem ouse insinuar qualquer coisa. Ela está péssima. – massageei a nuca e ele pareceu notar a tensão ao meu redor.
— O que aconteceu? – questionou, sério.
Não demorei para responder.
— Alguém entrou com drogas na festa.
Ele deu de ombros. – Isso é óbvio. Para consumo próprio é o que mais rola.
— Alguém batizou o copo da Astrid.
Ele franziu o cenho, de repente sério novamente.
— Você tem certeza disso?
— Quase. – dei um longo suspiro. – Vou levá-la para descansar no meu quarto e ver se recobra a consciência o quanto antes. Ela está numa badtrip fodida. Então, o ideal seria você não subir com nenhuma tão... escandalosa, ok?
— Não vou subir com ninguém. – ele respondeu antes de abrir um sorriso maldoso. – Mas não posso garantir que não me sigam.
— Se for o caso, leve-a para o quarto do Jack. – que convenientemente era o último do corredor e o mais longe do meu quarto.
Só Deus sabe o castigo que vivo sendo vizinho de quarto de Flynn e tendo que ouvir gemidos femininos a noite inteira, mas certamente eu estaria em piores condições se meu vizinho de quarto fosse o Jack.
Joguei para ele as chaves e ele seguiu rumo as escadas.
Fiz o caminho até o banheiro novamente, ignorando os resmungos das moças que insistiam em esperar, a maioria já havia desistido.
Assim que entrei, fui recebido pela felicidade repentina e desesperadora de uma Astrid drogada, que me envolveu num abraço exageradamente forte enquanto esboçava um sorriso de esperança em meio às lágrimas que molhavam seu rosto.
Pela primeira vez na minha vida, senti pena dela.
Eu não conseguia nem imaginar o teor de sofrimento em seu subconsciente para levá-la a esse estado.
Fitei seu rosto e ela me observava com os olhos entreabertos, sem foco algum, a respiração ainda pesada. Questionei como ela se sentia, mas não havia muita coisa a se considerar em suas respostas.
— Como ela está? – indaguei a Ruff.
— Estava chorando, até você chegar.
Sugeri que Astrid bebesse a água e ela negou, teimosa até dopada. Mas depois de muita insistência, ela bebeu todo o conteúdo da garrafa.
Aguardamos algum tempo enquanto Ruff e eu discutíamos sobre quem poderia ter sido o responsável por tamanha atrocidade – drogar alguém assim é de uma covardia absurda – até finalmente percebermos que os efeitos e reações estavam mudando significativamente.
Ainda agarrada a mim, Astrid não mais parecia eufórica. O aperto de seus dedos em minhas roupas afrouxara, enquanto aos poucos ela entrava num nível incomum de letargia.
Não podíamos esperar mais dentro daquele banheiro. Já ia fazer uma hora.
Passei o braço por baixo dos seus joelhos, levantando-a em meu colo.
— Acho melhor levá-la ao pronto-socorro. – sugeri e pude senti-la no mesmo instante dar um pinote fraco no meu colo.
— Hospital, não. – protestou num fio de voz antes de tornar a largar a cabeça sobre meu ombro novamente, sem forças.
Interroguei Ruff com o olhar.
— Se a treinadora souber que ela esteve drogada, ela pode ser retirada da liga. Fora que a família dela não precisa de muitos motivos para impedi-la de praticar, né. Você sabe.
Essa era uma história antiga que eu tinha total ciência, mas havia esquecido.
— Certo. Vou levá-la para deitar lá em cima.
— Tudo bem, eu te ajudo. – Ruff se adiantou para abrir a porta.
A passos lentos e vacilantes, passamos pelas meninas e nenhuma se atreveu a falar alguma coisa, impressionadas com o estado da garota no meu colo. Só ouvi alguns suspiros aliviados e nada mais que isso. Atravessamos a festa e Ruffnut nos acompanhou até onde eu lhe pedira, tornando a fechar o suporte que impedia o acesso as escadas assim que passei.
Entramos em meu quarto, deitei-a sobre minha cama antes de retirar suas sandálias e cobri-la até os ombros, temeroso por ela estar tão fria.
Ela não despertou em momento algum, profundamente adormecida.
Me joguei sobre a poltrona do canto, finalmente sentindo como um murro o cansaço físico e mental acometido graças a toda essa situação repentina.
Minha cabeça girava, doía e latejava. Meu corpo estava exausto. Minhas pálpebras, pesadas. Meu coração, confuso.
E eu profundamente preocupado com ela.
***
Não sei dizer em que momento acabei adormecendo sobre a poltrona, mas despertei num solavanco.
Deparei-me com Astrid tentando se erguer da cama, mas falhando sobre os próprios pés. A segurei por pouco, ela já ia com tudo no chão.
— Deite-se, você ainda está tonta.
— Eu só preciso de um banho... – disse baixinho, se segurando em meu ombro. Claramente, quase não conseguia ficar de pé.
— E você quer tomar banho aqui, eu suponho.
— O que tem? Já cansei de tomar banho no seu banheiro.
Não queria demonstrar que estava aliviado em vê-la prosseguindo com uma conversa, ainda que falasse baixo e lentamente.
— Certo. Aguarde aqui.
Segui para o banheiro e deixei que a banheira enchesse com água morna.
Voltei para buscá-la. Astrid estava lenta e vacilante demais, então segurei sua cintura e ela se apoiou em meus ombros. A princípio ela não mostrou resistência. Mas logo se afastou num súbito, me empurrando.
— O que foi?
— Vou andando.
— Você mal consegue ficar de pé, Astrid!
— Eu consigo.
O orgulho inabalável de sua mente sã aos poucos se fazia presente, pelo visto. Crispei os olhos e cruzei os braços, observando a tentativa dessa garota teimosa, que mal dera um passo e já ia caindo novamente.
Mais uma vez, segurei-a antes de acontecer, e firmei em seu ouvido com a voz séria.
— Não, você não consegue.
Ela grunhiu em resposta, mas permitiu que eu a levasse até o banheiro. Quando fiz menção de imergi-la na água, de roupa e tudo, ela parou.
— Não vai tirar minha roupa?
— Não. – respondi de imediato. – Você faz isso.
Ela bufou. – Ok, então né. – ela falava tão devagar, que eu começava a achar que aquela ali não era a Astrid.
Me virei para sair do banheiro quando ouvi um grande baque as minhas costas. Tornei a fita-la, torcendo para que não estivesse nua e tudo que encontrei foi: Astrid caída no meio entre a banheira e o vaso sanitário, com a blusa enrolada em seus braços, que estavam pro alto de uma maneira bem engraçada.
— Ai. – ela murmurou, depois de segundos a fio.
Eu queria rir. E me senti horrível por isso.
— Meu Deus. – foi tudo o que consegui dizer, indo ajuda-la.
— Você é um idiota. – murmurou, assim que tirei sua blusa e ela enfim viu minha expressão divertida. – Ria enquanto pode.
Dei um risinho. – Você não está em condições de fazer ameaças, Hofferson.
— Mas logo estarei.
Tirei sua saia e soltei seus cabelos.
— Você tira suas roupas íntimas. – falei, me levantando e indo em direção a porta do banheiro.
Pude ouvir seu baixo riso, sem humor.
— Que cavalheiro. Até parece que nunca as arrancou antes...
Feito um babaca constrangido, eu corei até o último fio de cabelo, agradecendo por já estar de costas pra ela, e saí daquele banheiro.
Pelo fato de Astrid estar mole e entorpecida, fiquei temeroso em deixa-la sozinha no banheiro fechado. Então resolvi deixa-lo aberto enquanto ela tomava seu banho e fui até minha cômoda, visando o meu aparelho favorito em todo o quarto: minha máquina de café expresso.
Configurei para preparar um bem forte e segui para minha cama. Sentei-me na ponta do colchão e me joguei para trás.
Lembrei-me de quando Jack me deu essa cafeteira, alegando não aguentar mais me ver subir e descer as escadas para pegar café nas minhas noites de estudos. Com isso, ele me presenteou com algo que, de fato, facilitou muito a minha vida. Jack me conhece bem.
Infelizmente, por mais que eu tentasse pensar em qualquer outra coisa, não conseguia deixar de me chatear com a situação em que me trouxe aqui.
Eu nunca quis que entrassem com drogas em qualquer festa do Phoenix Club, sou total e declaradamente contra, mas se tratando de festas universitárias, a entrada proibida de entorpecentes é basicamente impossível. Vários dos membros usam e isso é tristemente comum.
Mas uma das regras mais rigorosas do club envolve exatamente a indução ao uso de drogas – oferecer aos outros já acarreta sérios problemas, quem dirá sabotar o copo de outrem. Se Jack souber, é certo dele surtar. Haverá retratação. Haverá expulsão. Haverá o caralho que for, porque ele certamente ficará muito puto.
Dei um longo suspiro. Nem consigo imaginar o fim de quem estiver na mira de Jack.
E se Astrid ingeriu alguma bebida batizada, eu diria que os demais convidados correm o risco de serem drogados.
Meu coração falhou uma batida.
Eu deveria ter trago Merida comigo.
Uma preocupação esmagadora me tomou e eu me levantei rapidamente, fazendo o caminho até a porta do quarto. Assim que a abri, ouvi Astrid me chamar.
Droga!
A cafeteira apitou indicando que o café estava pronto.
Opa...
— Só um minuto, Astrid...
Tentei raciocinar rapidamente. Eu quero acreditar que Merida ainda esteja me esperando. Na verdade, eu sei que ela está me esperando e é isso que me dói.
Estou fazendo-a esperar demais. Tenho plena noção, por fatídica experiência própria, do quão angustiante é esperar por alguém.
Ri sem humor.
— Hiccup!
Astrid chamara mais uma vez, seu tom mais bravo fez com que eu percebesse enfim que ainda me encontrava de frente pra porta.
— Já vou... – rapidamente, fui até minha escrivaninha. Peguei minha caneca personalizada e enchi com o café fumegante recém preparado. Segui até o banheiro, dando graças a Thor por Astrid já estar de toalha. – Conseguiu se levantar sozinha?
— Por acaso, ainda tá me vendo na banheira? – mesmo na pior, ela não perde a oportunidade de ser sarcástica.
— Como se sente? – indaguei, lhe entregando a caneca.
— Derrotada. – respondeu, dando um gole no café e torcendo o nariz logo depois. – Eca! Amargo! – reclamou, empurrando a caneca para mim.
— Beba tudo. – falei e ela bufou, passando por mim e indo em direção ao quarto.
Segurei seu braço, fazendo-a voltar.
— O que foi? – indagou assustada.
— Fique aqui. – a deixei no banheiro, extremamente confusa.
Deixar Astrid caminhando de toalha pelo meu quarto é uma potencial tentação que não estou disposto a me arriscar.
Fui até o closet e peguei uma de minhas camisetas, um bermudão e levei até ela.
Tudo o que Astrid precisava agora era voltar a dormir. E tudo o que eu precisava agora era descer.
— O que é isso, Hiccup?
— Roupas.
Ela bufou, revirando os olhos. – Desnecessário esse bermudão. Sua camiseta serve em mim como um vestido e você sabe.
— Apenas vista-se. – falei sobre os ombros, tornando a sair do banheiro. Abri novamente a porta e avisei. – E beba o café!
Bati a porta para não ouvir seus protestos. Sentei-me na cama e a esperei sair. Eu só precisava coloca-la para dormir e assim eu poderia descer...
Por um momento, me ocorreu que eu devia descer logo, mas... Eu não poderia deixa-la aqui sem assistência, jamais faria isso.
Minutos depois, Astrid saiu do banheiro e, como já era de se esperar, trajava apenas minha camiseta. Passou por mim, indo até a escrivaninha, repousando a caneca vazia sobre a madeira.
— Por que não vestiu a bendita bermuda, Astrid? – suspirei.
— Porque não precisa. – jogou a peça de roupa para mim. Apenas agarrei a bermuda e a joguei no closet, com um muxoxo.
— Ok. Vá se deitar.
— Dá pra parar de ficar mandando em mim? – vociferou, irritadiça. Tá irritada, sinal de que já tá bem.
Suspirei, massageando as têmporas. – Estou tentando cuidar de você.
Muito a contragosto, ela seguiu até a cama – principalmente depois que sentiu tontear um pouco. Ainda que tenha melhorado significativamente, não estava cem por cento bem – muito longe disso.
— Vou buscar água para você. – ela apenas anuiu em resposta e engatinhou até se deitar.
Fui até o quarto de Jackson e, depois de pegar uma garrafa d’água em seu frigobar, abri sua caixinha de medicamentos – que ele mantinha guardada em uma das gavetas de sua cômoda e continha os mais variados analgésicos em geral, já que ele sofria bastante com ressacas, porém, estava sempre preparado para elas. Agora, com a garrafa e a aspirina em mãos, voltei ao meu quarto.
Para a surpresa geral, deparei-me com Astrid profundamente adormecida – ou era isso que eu supunha – sobre minha cama. Feito um imbecil, sorri de canto ao vê-la dormir, recordando da forma como ela agira no banheiro.
Aquelas atitudes não significavam muita coisa – era apenas uma mulher drogada reagindo a uma badtrip. Deixei a garrafa e os comprimidos sobre o criado mudo e fui até uma das gavetas, buscando por um cobertor.
A cobri até a cintura, tendo conhecimento do quão calorenta ela é, e foi assim que notei uma extensa marca roxa em seu braço que agarrava o travesseiro.
Passei o dedo na escura marca, franzindo o cenho, quando ouvi um sussurro.
— Cadê minha água?
Quando encarei seu rosto, vi seus olhos bem concentrados em mim.
— Quem fez isso com você? – questionei absurdamente sério.
Ela sustentou meu olhar por longos segundos. – Você.
— O que?! – me sentei na cama, visivelmente confuso. – Do que você tá falando?
Ela suspirou, sentando-se de frente para mim e se esticando para pegar o que eu havia trago a pouco. Ingeriu a água e dois comprimidos de uma vez só, enquanto eu observava cada movimento seu, ainda buscando entender o que ela tentara insinuar.
— Me meti numa briga.
— Peraí, como é que é?!
Ela ergueu languidamente o braço pra mostrar outras marcas e virou minimamente a cabeça para mostrar mais algumas que eu não havia notado.
— Por causa de você. – afirmou simplesmente, tornando a me fitar.
— Você está dizendo que eu te induzi a brigar?
— Claro que não. Quer dizer, talvez?
— Primeiramente, me responda. Quando isso aconteceu? E com quem? E como você não foi expulsa?!
Mais uma das regras impostas por Jack, dessa vez influenciado por Flynn – brigões são imediatamente expulsos de qualquer evento nosso, mas uma vez que o Dark Phoenix, também conhecido como Kristoff, vive se metendo em confusão por ser o membro mais estourado que já pisou nesse campus, acabamos fazendo vista grossa para as brigas cuja as quais ele está metido, o que é a maioria.
— Aconteceu hoje. – ela negou com a cabeça. – E eu tenho um contexto com seus amigos, Haddock, e você bem sabe o porquê.
— Nós não temos mais nada. Na verdade, nunca tivemos.
Ela suspirou, irritada. – Odeio quando você diz isso.
Tentando manter a compostura, pigarreei antes de continuar.
— Poderia me informar com quem você brigou?
— Não interessa com quem foi. Não é importante. E pare de me tratar como se eu fosse uma estranha qualquer.
Suspirei e me levantei num súbito. – Você parece estar muito bem. Meu trabalho aqui acabou. Vou descer. – fiz meu caminho até a porta. – Quando quiser conversar sobre isso, sem seus surtos, me procure. Caso contrário, tanto faz também. Estarei ocupado. – fui interrompido por uma risadinha sem humor que, particularmente, odeio.
— Muito ocupado… Com Merida, é claro. – Astrid fez num tom irônico.
Nem pisquei antes de me virar.
— É isso mesmo. Estarei muito ocupado dispondo de toda a minha atenção à Merida, porque ela sim merece. – soltei sem absolutamente culpa alguma. Astrid franziu o cenho. – E pra você estar tão ciente disso, só pode estar me vigiando.
— Mas é claro que não! – exclamou em indignação. – Por que você está sendo tão imbecil comigo?!
— Estou te tratando como você sempre me tratou. Apreciei as consequências dos seus atos.
— Mentira, Hiccup! Em tão poucos meses, você se tornou o babaca que não foi a vida inteira!
— Babaca porque parei de te dar moral?! Num fode, Astrid!
Aquilo já estava me consumindo e eu já havia perdido a paciência a muito tempo. Astrid pareceu sem reação diante da minha ira. Passei as mãos nos cabelos, exasperado.
— Me diz uma coisa... Por que você tinha que mencionar a Merida logo agora? Você não se importa com isso. Nunca se importou.
— Como pode dizer que não me importo?! Eu morri de raiva!
— Morreu de raiva por eu tê-la beijado, mas enquanto eu estava feito um trouxa te assistindo se agarrar com meia dúzia de imbecis, você manteve-se em plenas condições! – apontei na cara dela com uma exasperação quase tangível. – Aposto que mal consegue imaginar como me senti, porque você só se importa consigo mesma!
— Eu imagino sim, porque senti na pele! E eu não fiz aquilo de propósito, em momento algum quis te magoar, seu idiota, eu não imaginei que o que tomei me deixaria tão transtornada e sem noção das coisas!
O ar faltou em meus pulmões e eu franzi o cenho.
Queria não ter entendido o que ela falou, queria estar enganado. Ela percebeu que havia falado demais e arregalou os olhos azuis, desviando o olhar.
— O que você fez? – questionei absurdamente sério.
— Não interessa.
Avancei em sua direção sobre a cama e segurei seu rosto, forçando-a a me encarar. Ela franziu o cenho e ergueu o queixo, incapaz de se permitir parecer intimidada.
— Desde a hora em que te encontrei destruída naquele banheiro, eu não consigo parar de pensar nas formas de acabar com a pessoa que supostamente te drogou. – minha voz saiu baixa e sombria, eu quase não me reconheci. – Pior ainda, é desconfiar que, na verdade, foi você quem causou isso a si mesma. Então me responda, Astrid. – ela engoliu em seco. – O. Que. Você. Fez?
Ela demorou longos segundos até responder baixinho.
— Me desculpe.
Soltei-a num súbito e me afastei dela o máximo que consegui, respirando fundo com as mãos no rosto, implorando internamente para que fosse mentira.
— Hiccup, por favor, me desculpe. – pediu mais uma vez, sua voz embargada. – Eu não estava sabendo lidar com a situação.
— Que situação?
— Ver você seguindo em frente. – virei-me minimamente para fitar-lhe o rosto, meu cenho franzido. – Eu só queria não me sentir tão mal.
— E se drogar pareceu a opção mais viável?! Quase jogou sua vida no lixo. Sua carreira de atleta, tudo!
— Me desculpe!
— Pare de se desculpar! Você é inconsequente se acha que isso é resposta pra alguma coisa, eu esperava mais de você!
A decepção evidente nas minha palavras a feriu – percebi por ela ter subitamente se calado. Dei um longo suspiro e desviei o olhar, evitando fita-la.
Eu estava tão preocupado, nervoso, tenso, mas principalmente desapontado, tentando a todo momento não me sentir culpado pela irresponsabilidade dela.
Se eu agisse assim todas as vezes em que a vi seguir tranquila após me rejeitar, porra, eu estaria vivendo na viela mais próxima.
Passei a mão na testa, sentindo meu coração latejar em desgosto, um sentimento tão ruim que me sufocava.
Pelo visto, não adiantava esperar por uma resposta aqui... Ela mantinha-se calada.
Suspirei pesadamente. – Estou saindo, fique à vontade.
— Não! – ela deu um pulo da cama e correu até mim, vacilante. – Por favor, vamos conversar.
Me mantive estático, ainda de frente pra porta, só que agora de olhos fechados.
Eu não queria ceder.
Parte de mim queria sair daquele quarto naquela mesma hora. Deixa-la falando sozinha, como ela em várias ocasiões já fizera comigo. Descer as escadas, voltar para a festa. Ou melhor, voltar para Merida.
Porém, uma outra parte queria ficar e ouvir tudo o que ela tinha a me dizer. Como ela, também, em várias ocasiões já fizera comigo.
E eu cedi, abrindo meus olhos, mas me mantendo calado. Ela veio até minha frente, ficando entre eu e a porta.
— Estou escutando. – fui frio ao dizer.
Ela levou alguns segundos para começar a falar, incomodada com a minha falta de emoção. Deu um longo suspiro.
— Entendo que essa decisão não foi a das mais inteligentes que já tive.
— Eu concordo. – ela franziu o cenho para minha interrupção. Dei de ombros.
— Mas você sabe o quão difícil é raciocinar com eficácia quando se está com raiva. – a julgar pelo seu olhar, aquilo foi uma alfinetada. Mas eu fiquei quieto.
— E você estava com raiva de quê, Astrid?
— "De quem" é a pergunta certa a se fazer. – crispei os olhos, esperando que continuasse. – Senti raiva de mim. – afirmou simplesmente. Aquilo me pegou de surpresa. – Senti raiva de mim por estar insegura em ver toda a sua atenção voltada para Merida desde que ela chegara. – evitava me olhar, parecia envergonhada. – Você a levou para ver todos os cômodos da casa, você nunca desperdiça a oportunidade de toca-la, nós duas dançamos juntas na pista de dança e você só tinha olhos pra ela. Isso tudo ninguém me falou, eu vi. – eu estava perplexo, mas me vi incapaz de tentar negar qualquer coisa. Estaria mentindo se fizesse. – Senti raiva de mim por não conseguir controlar meus sentimentos, por sentir ciúmes e por ter sido trocada.
Franzi o cenho, me negando a acreditar em sua última sentença.
— Não estou entendendo a onde você foi trocada nessa história.
Ela riu sem humor.
— Você é tão sonso.
— Tá insinuando que eu te troquei?! Tá de sacanagem, né?! – ri desgraçadamente, incrédulo. – Já era de se esperar que de alguma forma você tentaria colocar a culpa dessa merda toda em mim!
— A culpa é sua!
— Não, não é! – berrei pausadamente.
Ela franziu o cenho, ergueu o queixo. Cruzando os braços, murmurou.
— Pra quem dizia que me amava por anos, você me superou muito rápido.
Mais uma vez, ri desgraçadamente.
— Você só pode estar de brincadeira. – olhei pra ela com a cara mais cínica. – Drogada ou não, você e aqueles caras cuja a maioria eram meus amigos deram um verdadeiro show de horrores na minha frente. – ela desviou o olhar, irritada. – Você me viu com Merida, somente ela. – afinal eu não precisava de mais nada além dela. – Depois de anos tentando de todas as formas um futuro para nós dois. – apontei na direção dela e na minha. – E sendo rejeitado. – firmei observando-a comprimir os lábios numa linha reta.
— Você desistiu de mim. – falou tão baixo que quase não ouvi. – Não achei que isso fosse me afetar tanto.
Eu neguei com a cabeça, irritado. – Seu problema foi achar que eu nunca seria feliz com alguém além de você. – cheguei bem próximo ao seu rosto e murmurei. – Você estava errada. – ela crispou os olhos e eu me afastei. – Inclusive em pensar que eu estaria sempre à sua disposição. Eu já lhe avisei isso, mas vou tornar a repetir para que fique bem claro: eu cansei. – ela parecia imensamente incomodada. – Não existe mais um Hiccup à sua mercê. Lide com isso.
Fiz menção de me afastar mas ela me segurou pelo ombro, dando um passo para mais perto de mim.
Aproximou seu rosto do meu, como eu fizera com ela.
— Você não gosta dela.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Sei o suficiente.
E antes que eu pudesse responder alguma coisa, se apoiou em meus ombros e me beijou.
A surpresa fora tão grande, que me mantive estático por um momento. Me esforçando ao máximo para não correspondê-la, no entanto, eu – mais que qualquer um – reconheço o quanto Astrid é determinada quando quer algo.
Agarrei seus dois braços e a afastei de mim. – O que está fazendo? – indaguei, ofegante.
— Te mostrando que nossa história ainda não acabou. – respondeu, tornando a me beijar e acariciando meus cabelos.
Ela sabia exatamente onde pegar. Podia não me conhecer bem em questões pessoais, mas fisicamente, me conhecia como ninguém. E foi assim que, por um momento, cedi ao desejo, deixando-a que aprofundasse o beijo. Desci minhas mãos, levando-as até sua cintura e a trazendo para mais perto. Astrid afundou as unhas em meus ombros enquanto eu agarrava seus cabelos...
Foi quando eu estranhei ao sentir, em meus dedos, fios lisos; e não encaracolados.
Foi como se algo me tirasse de um transe.
— Não... – murmurei contra seus lábios, enquanto ela me puxava para mais perto. – Astrid, para!
Ela me fitou, aparentemente assustada, o que durou apenas alguns segundos, antes que ela tornasse a evidenciar o quanto estava brava.
Negou com a cabeça e me olhou de cima abaixo, com desdém. Arqueou uma sobrancelha, me fitando fixamente.
— Fraco.
Crispei os olhos, incomodado. Muito incomodado. Um incômodo quase tangível, incapaz de ser disfarçado. Astrid sabe o quanto eu odeio ser chamado disso.
— O que você disse? – murmurei, franzindo o cenho, desafiador.
— É isso mesmo que você ouviu. – como que pra me irritar ainda mais, ela virou as costas pra mim. – Você é um fraco. – expôs, por sobre o ombro, sem me fitar.
Foi o cúmulo.
Agarrei seu braço e apertei, puxando para mim tão violentamente que, ao se chocar contra meu peito, ela arquejou. A surpresa evidente em seu olhar me agradou, mas não permiti que ela dissesse nada antes de tomar seus lábios num beijo lascivo, ardente... Carregado de luxúria.
E ela correspondeu prontamente.
Da forma mais agressiva, a puxei para mais perto. Desci minhas mãos até suas coxas e a tirei do chão. Prensei seu corpo contra a parede quando senti suas pernas rodearem minha cintura, enquanto ela puxava meus cabelos. Puxei seu lábio inferior ao romper o beijo, indo de encontro a curva de seu pescoço, beijando, mordiscando, chupando a pele alva... Fazendo-a ofegar e gemer.
Se era isso que ela queria, agora ela tinha. Como sempre vinha sendo, desde os primórdios do nosso relacionamento.
Eu não quero, mas ela quer. Ela provoca, e eu dou. E eu sempre fui o fraco da historia mesmo.
Mas hoje não...
Pude senti-la se agarrando a mim cheia de desejo e quando seus gemidos tornaram-se intensos, a afastei, forçando-a a ficar de pé. Ofegante, ela tentara me beijar novamente, quando tornei a me afastar.
Ela fitava meu rosto, confusa, esperando por uma resposta, quando murmurei próximo ao seu rosto. – Quem é o fraco agora?
Seus lábios inchados entreabriram-se lentamente, enquanto sua feição adquiria as nuances de sua fúria. Com os olhos crispados, ela buscava com dificuldade ofensas para cuspir em mim.
E antes que ela pudesse enfim encontra-las, virei-me e saí do quarto rapidamente, mas ainda sim tranquilo.
Bati a porta, torcendo para que ela deixasse de ser insistente e não viesse atrás de mim.
Caminhei até o topo da escada e parei... percebendo que eu não era o único naquele lugar. Jack estava apoiado ao corrimão, parecendo buscar incessantemente por alguém na multidão abaixo.
Passei as mãos pelo meu rosto, eu estava nervoso e ofegante, mas decidi aproximar-me dele.
Como esperado, a julgar pelo seu olhar desorientado e perdido, ele não havia percebido minha presença e o susto que levara quando me pronunciei já era de se esperar. Assim como suas insinuações sujas.
Mas quando ele mencionou uma terceira pessoa no corredor, meu sangue pareceu congelar nas veias.
Jack foi resolver um assunto que parecia ser deveras importante e eu desci as escadas apressadamente. Atravessei a festa, dando respostas breves para aqueles que falavam comigo, indo rapidamente em direção ao pufe onde a deixara, e o encontrando vazio.
Porra!
Passei as mãos nos cabelos e caminhei pela festa, em busca de alguém que a tivesse visto, me martirizando mentalmente por ter demorado tanto...
— Que ela não tenha ido embora... Por favor. – pedi baixinho.
Ao encontrar Ruff, junto de Eret, não consegui disfarçar a tensão em minha fronte. No entanto, se ela notou, optou por fingir que não.
— E então, ela tá melhor? – indagou, alheia ao que me preocupava de fato.
Demorei alguns segundos para notar que ela falava da situação de Astrid. – Ela está ótima. Espero que esteja dormindo agora. – murmurei a última parte, tentando disfarçar a incerteza.
Continuei olhando em volta, torcendo para avistar Elsa ou Rapunzel, quando ouvi a resposta de Ruffnut num tom diferente do que ela falara a princípio.
— Demorou ein, garanhão. – fitei seu rosto, ela lançava-me um sorriso malicioso.
Por um momento, fiquei confuso. Mas logo percebi o que ela estava insinuando. – Não aconteceu nada. – neguei com a cabeça por estar mentindo.
— Em momento algum, eu falei isso. – ela riu.
Respirei fundo, desejando dar um fim logo nessa conversa. – Você viu a... Merida por aí?
Ela franziu o cenho, confusa. – Agora que você mencionou... Já tem um tempinho que não vejo ela. Basicamente, desde a hora que você subiu com a Astrid.
— Eu a vi saindo quase agora. – Eret anunciou. – Saiu junto de suas amigas.
— Todas elas? – perguntei, aflito.
Ele deu de ombros. – Eu acho que sim, eu não estava prestando muita atenção.
Saí antes que ele pudesse terminar, indo para o jardim da frente, torcendo para que estivessem lá, incluindo ela…
***
Ela não estava sozinha. Anna e Rapunzel também partilhavam do momento, Kristoff também estava ali.
— Ei! – exclamei, chamando a atenção dela, e de todos, para mim. – Você vai embora? – indaguei, durante o trajeto. – Prometeu me esperar, lembra? – dei um sorriso, esperando ser correspondido. Porém, não obtive resposta.– O que houve? – fitei seu rosto, agora mais perto.
Não pude deixar de notar o seu semblante abatido.
— Érr, eu... – murmurou, constrangida. – Acho melhor eu ir embora, Hiccup.
— Então deixa eu te levar, pelo menos... – pedi, ignorando o fato de ela ter me chamado pelo nome.
— Não precisa... – ela tava muito estranha. – É melhor você voltar lá pra cima... Astrid pode estar precisando de você. – falou, sem me fitar.
Merda... Mil vezes merda.
— Pode deixar, Hiccup, ela vai embora com a gente. – explicou Anna.
— E aonde você pensa que vai? – indagou Kristoff, segurando-a pelo braço. – Ainda não terminamos nossa conversa.
— Ah, terminamos sim. – ela fitou seu rosto impassível. – Não tenho a vida ganha que nem você. Amanhã tenho que procurar um novo emprego, então se me der licença...
— Como estou vendo, isso vai demorar. – Punzie revirou os olhos. – Vocês que se entendam... Vamos, Meri. – puxou a mão de Merida, indo em direção a portaria.
Mas sendo impedida pela presença de Flynn, que se colocou a frente dela. Rapunzel engoliu em seco, mas sustentou o olhar intenso que ele lhe lançava, incapaz de dizer qualquer coisa.
E enquanto os quatro discutiam e se encaravam, eu nem mesmo prestava atenção... Só conseguia ficar olhando para ela, tentando ler sua linguagem corporal. Podia ouvir os múrmuros entredentes de Anna e os grunhidos impacientes de Kristoff. Os resmungos impacientes de Rapunzel, seguidos do silêncio sepulcral de Flynn. Podia ouvir a música que vinha do cômodo atrás de nós e o baque de uma porta de carro sendo fechada...
Mas não conseguia tirar os olhos dela.
Diferente de mim, ela nem ao menos me fitava. Na verdade, parecia tentar evitar ao máximo que nossos olhares se cruzassem... Segurava o próprio braço, enquanto observava o chão. Negou com a cabeça e fechou os olhos com força, dando um longo suspiro...
Ela estava decepcionada.
Foi quando decidi que iria falar com ela.
Porém, fui interrompido por uma grave e conhecida voz.
— Ora, vejam só. – todos fitaram o batente da portaria. – Vejo que cheguei na melhor hora da festa. – divertiu-se, dando uma sonora risada logo em seguida.
Ao identificar quem era, já desconfiava por conta do inconfundível sotaque, percebi estar boquiaberto. Fitei meus amigos e constatei que, sim, estavam tão estupefatos quanto eu.
Segurou o velho e grosso sobretudo de lã que lhe era entregue por seu chofer. – Obrigado, Sand. – agradeceu e caminhou até nós. Abriu um grande sorriso, antes de indagar. – E então, onde está o meu filho?
*
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