Rising Tide

3 Confraternização


Notas iniciais
Genteeeeem! Tudo bem? Então, esse capítulo já tava pronto, mas tive que fazer umas pesquisas modo hard sobre Wakeboard, tentei descrever algumas manobras radicais. Tentei. Se tiver muito confuso, me falem, sim? Se tiver alguém que sabe tudo sobre Wakeboard, e ler alguma informação errada, me desculpe ;-; me esforcei para que saísse um capítulo bom. Boa leitura =3

CONFRATERNIZAÇÃO

POV Merida

A competição havia começado, mas eu não estava nem prestando muita atenção. Era uma coisa muito louca, que deslizava na água, dava uns salto e uns giro radical (?). Mas eu nem estava muito focada nisso. Na nossa frente, longe de onde estávamos, havia um cara sentado sozinho na grama. Estava assistindo seus amigos competirem. Suas costas eram bem bonitas (?). Enfim.

— Vai lá, gostosão. Vence essa parada aí. Estou aqui, na torcida... – murmurava Rapunzel, toda trabalhada na cheerleader interior que a habitava desde o Ensino Médio.

— Quê? Você está torcendo? – indagou Elsa.

— Mas é óbvio.

— Minha nossa, só tá faltando os pompons. – ironizou Anna.

— Estou torcendo pelo simples prazer de torcer. – Punzie jogou os cabelos dourados.

— Sendo assim, eu torço pro loiro-cor-da-lua. – disse Anna.

— E eu, pro ruivo sedução. – falou Elsa.

— Eu torço pra alguém cair. Deve ser tão legal. Imaginem a cara de cu que eles devem ficar quando caem... – falei, querendo muito ver alguém soltar daquele bastãozinho de repente e despencar na água, só imaginem a cena.

— Mudei de ideia, tô torcendo pra alguém cair também. – afirmou Anna, sensata como sempre.

Vi um loiro se aproximando do cara das costas bonitas. São amigos? Aposto que são namorados. Vamos combinar que quando é muito bonito, CERTEZA que é gay. The life is sad. Oh.

— Mais um? Tá brincando, né? – disse Rapunzel, olhando por cima dos óculos.

— Esse chegou atrasado.

— Oh, nossa. Ele também é lindo. Estou tão surpresa. – falou Elsa, destilando sarcasmo.

— Alguém aqui já cogitou a possibilidade de eles serem do vale?

— No mínimo suspeito. – concordou Anna.

— Impossível o moreno ser gay. Com aquele jeito todo másculo e sério. – disse Rapunzel, se abanando com a viseira. Arre-maria, quiete essa xana, menina.

— É ativo. – falei, fitando as unhas.

— Af, Merida.

— Ué, é no mínimo suspeito, Anna mesmo disse.

— Eu não duvido nada.

— Viu, até a Elsa!

— Seria uma tristeza se isso fosse verdade. – lamentava Rapunzel.

— Tristeza pra você, os gays do mundo estariam adorando. – disse Anna. Os gays da Inglaterra têm muita sorte, devo admitir.

Voltamos a observar a competição que estava prestes a acabar. O loiro do cabelo platinado deu dois saltos super radicais, uau! A competição terminou logo depois. Pois é, fim.

— Mas vocês viram aquilo? Que bruxaria é essa?! – admirou-se Anna, meio assustada (?).

— Não é por nada não, mas com certeza esse sujeito já ganhou! – exclamei empolgada por ser um ser humaninho facilmente impressionável.

— É. Ele é bem habilidoso. – comentou Elsa, toda trabalhada na indiferença. Rapunzel nada dizia. Acho que nem escutando ela estava.

— Vou ver os resultados, fiquem aqui!

— Alguém se dispôs a contratar jurados para essa competição... – pude ouvir Elsa comentar enquanto eu me distanciava. – Isso em si já indica que dentre os organizadores há alguém bem competitivo que adora ser ovacionado por vencer.

Elsa... a perspicácia em pessoa.

Corri em direção aos jurados, eram três assentados numa mesa localizada não muito longe da gente. Procurei no papel o primeiro colocado. Um tal de Jack havia vencido.

— Quem é Jack, minha gente? – perguntei aos jurados.

— O loirinho simpático que fez os dois últimos Tantrum. – respondeu a única mulher dos três, falando algo em outra língua provavelmente porque eu não sei o que diabos é tantrum.

Agradeci pela informação e já ia correndo contar as meninas quem havia vencido quando dei de encontrão em alguém grande e com tórax firme, definido e malhado, porque olha, tonteei aqui. Vi estrelas. Socorro.

— Eita! – exclamei.

— Minha nossa, você... Me desculpe! Te machuquei? Mil perdões, e-eu...

Santo Odin, estou tonta. Vejo um olhar preocupado. Olhos verdes. É um anjo. Deus nórdico? Thor! Thor... moreno? Será se já existiu alguma versão do Thor moreno? Apesar de eu gostar mais do Capitão América, mas isso não vem ao caso se tratando de deuses nórdicos. Ué? Com base nessas repentinas informações aleatórias, chego à conclusão de que meus últimos neurônios estão dançando ragatanga. Fazer sinapse pra quê, né mesmo? Oh, que crueldade. Porra, Hydra! (???) Quem é esse moço? Não sei. Ninguém sabe. Por obséquio, i need help. Oi? Não tô bem.

POV Hiccup

As pequenas ondas formadas pela lancha os impulsionavam para cima e, no ar, eles davam de dois a três spins, revezando continuamente as mãos no handle— o bastão em que eles se seguram. Mas eu não estava prestando atenção em muita coisa além de Astrid, maravilhosa em cima daquela prancha, dispondo de dois indy grabs com maestria, soltando uma das mãos do handle para segurar a prancha ainda no ar.

Difícil manter a cabeça em ordem após se conformar com o fato de que nunca terá a mulher que sempre amou, ainda que ela te dê todas as condições do mundo. Mais difícil ainda manter-se concentrado nos demais adversários quando só tenho olhos para ela.

Nego com a cabeça, forçando-me a prestar atenção em outra coisa. Flynn e Jack davam um show – principalmente o último, sempre tão habilidoso, não só em wakeboard. Ele e Hans eram os que mais faziam manobras de alto ponto. Só percebi ter assistido Astrid durante toda a competição quando Jack dispôs das últimas duas manobras antes do encerramento do tempo ser anunciado nas buzinas.

Dois tantruns, Jack. Que filho da puta, logo na última hora. O tantrum consiste em usar o impulso de uma onda para dispor um mortal pra frente, fazendo a prancha passar por cima da altura da sua própria cabeça. E o desgraçado conseguiu fazer dois, logo nos últimos minutos. Estava quase empatado com Hans e venceu de última hora. Dei um sorriso, orgulhoso.

— Jack e suas inúmeras cartas na manga.

Não me surpreendi em ouvir a voz do Kritoff. Torci para que ele viesse e não esperei o contrário depois que Flynn dera-me certeza. Flynn conhece o amigo que tem e pode-se considerar mais observador que o próprio Jack quando se trata de quem estima.

— Inúmeras. – concordei, ainda olhando para o lago. Levantei e o cumprimentei com um aperto de mãos fraternal.

— Não parece surpreso em me ver aqui.

— Não estou. – respondi, naturalmente.

Ele franziu o cenho. Odiava ser óbvio.

— Como pode ter tanta certeza? – arqueou a sobrancelha.

— Bem, você está aqui, não é? – falei, num tom óbvio.

Ele me xingou, como de praxe, enquanto eu dava uma risadinha.

— Vamos checar os resultados. – convidei, já tomando rumo em direção à mesa dos jurados.

— Vá você. Eu já tenho plena certeza de quem ganhou. – ele deu de ombros. – Vou espera-los no píer.

Assenti e continuei meu caminho. Como eu e Kristoff já havíamos previsto, Jack vencera. Sorri, ainda o xingando, secretamente orgulhoso.

Olhando em volta e suspirando o ar quente demais pra um fim de inverno, cheguei à conclusão de que Jack tinha boas intuições até para marcar datas de festas. As árvores estavam todas adornadas de flores, de todas as cores. Mesmo que eu não goste de estações quentes – prefiro o meu frio e equilibrado Outono – hoje o dia estava realmente bonito.

Me virei, indo em direção ao píer quando lembrei que deveria ter visto a posição de Flynn também, mas havia esquecido feito o imprestável que sou. Dei meia volta para ir em direção à mesa novamente quando esbarrei em alguém pequeno.

E com longos e cacheados... cabelos ruivos.

— Eita! – exclamou a pequena.

— Minha nossa, você... Me desculpe! Te machuquei? Mil perdões, e-eu... – segurei-a pelos braços rapidamente, pois ela parecia genuinamente tonta.

Ela estava com uma das mãos a pressionar a própria testa e, quando enfim abriu os olhos, piscando-os seguidas vezes antes de focar meu rosto, pude enfim reparar na cor de suas írises.

— Você está bem? – indaguei, preocupado.

Se eu não tivesse tão verdadeiramente preso pelo brilho inocente dos olhos azuis que me fitavam confusos, com certeza teria comentado algo como “é você a doida que estava se atracando com a outra doida loira no gramado hoje mais cedo?” e a resposta dela seria definitivamente sim porque estou certo de que já havia visto essa cabeleira ruiva em algum lugar e não tem muito tempo.

— Se eu tô bem? Que pergunta difícil. Será se tô? – mas o que?— Não, pera. Eu tô bem? Eu tô bem. – se desvencilhou dos meus braços. – Caramba, moço. Ou deveria te chamar de Muralha do Castelo Black? – esfregava a mão na cabeça ao dizer e tive que me esforçar pra não abrir um grande sorriso com a referência a Crônicas de Gelo e Fogo.

— Eu preferia Red Keep, mas a Muralha talvez imponha mais respeito. – respondi e ela não fez questão de disfarçar a admiração.

— Precisamos ser amigos.

— Eu concordo.

Deu uma risadinha que logo tornou-se uma careta de dor enquanto ela tornava a esfregar a cabeça e murmurava umas coisas quase inaudíveis. Não pude evitar sorrir de canto. Ela era engraçada.

— Sério, dei de cara num muro.

— Me desculpe, mesmo. – passei as mãos nos cabelos, sem graça.

— Tá fazendo um ótimo trabalho na academia. – deu dois soquinhos no meu braço e eu arqueei uma sobrancelha, tentando não rir. – Mantenha o foco, jovem Bucky Barnes.

— Vou seguir seu conselho. Mas é sério, estou preocupado. Machuquei você?

— Não... eu tô bem. Eu acho. – e fez uma cara que dizia o contrário murmurando um “ué”, era evidente que ela estava um pouco tonta ainda.

Pude notar a pequena vermelhidão no canto superior de sua testa e automaticamente senti-me péssimo. Logo supus que ela havia acidentalmente batido contra meu amuleto, o cordão que eu mantenho por baixo da camisa, e era exatamente por isso que estava se queixando de dor.

Sem conseguir me conter, aproximei-me, segurando o seu rosto com cuidado para observar de perto o hematoma.

— Está machucada.

— E-eu... – baixei o olhar para fita-la e só então percebi que além dos olhos azuis arregalados em espanto, ela mal respirava por ter seu espaço invadido tão repentinamente.

Afastei-me, constrangido. Suas bochechas ruborizadas confirmavam que eu não era o único ali a estar me sentindo dessa forma.

— Venha comigo. Vou cuidar disso.

— Não se preocupe, milorde, vou ficar bem. – falou, enquanto arrumava os cabelos cacheados.

— Eu insisto. – peguei sua mão e a guiei para o salão.

Não havia muito o que eu pudesse fazer naquele momento, a festa convenientemente não tinha kit de primeiros socorros – até tinha, mas era para feridas mais graves. Limitei-me a boa e velha compressa com gelo.

Coloquei-a sentada numa das mesas vagas do salão, para que ficasse na altura dos meus olhos. Retirei do meu bolso meu lenço favorito, catei algumas pedras de gelo dos tonéis e os enrolei bem, entregando a compressa a ela.

Que, é claro, antes de colocar sobre o edema, fez questão de comentar sobre a figura estampada no meu lenço.

— Um dragão, ein? – ela anuiu em aprovação. – Parece que temos um Targaryen aqui.

Não consegui evitar sorrir. – Que engraçado você dizer isso. Todos os meus amigos só me relacionam aos Stark.

— Eu descordo de todos, mas gostaria de saber o porquê disso.

Fiz uma careta, sem graça. – Dizem que eu tenho um talento natural de só me foder nessa vida. – e isso remete diretamente a mulher, mas resolvi poupa-la dessa parte.

— Isso soa bem Stark, admito. – anuiu em concordância.

— Apesar de ter apreciado muito ter sido comparado à Grande Muralha, ao Soldado Invernal e aos Targaryen, sinto em dizer que, infelizmente, meu nome é apenas Hiccup. – me apresentei. Ela deu uma risadinha.

— Oi, Hiccup! – disse, alegre, abrindo ainda mais o seu sorriso. – Infelizmente, meu nome é só Merida mesmo.

— Ah, não. Eu jurava que era Ygritte.

— Parabéns, você me descobriu. Estou infiltrada nessa povoação urbana e agora o povo livre terá que elimina-lo para manter meu segredo. O que é uma pena, pois gostei de você. – dessa vez, não consegui conter a risada. – Seria meu sonho ser a Ygritte, eu gosto muito dela, mas infelizmente vim a esse mundo sendo apenas eu mesma.

— O que é ainda melhor. – seu sorriso vacilou, ainda que não tenha morrido, mas o ruborizar de suas bochechas foi instantâneo. Porra, o que deu em mim? – É... quero dizer... no sentido de...

— Tudo bem, pode me chamar de Meri, Mê, Cenoura, Ferrugem ou Cabelos em Chamas, que é como minhas amigas costumam me chamar em momentos de carinho. Mas pera, você não é meu amigo. Então me chame apenas de Merida. – e estendeu a mão vaga, sorrindo.

Eu a olhava incrédulo, ela falou isso tudo em menos de dois segundos. Apertei a pequena mão, os dedos finos pressionando os meus.

— Muito prazer. – falei após longos segundos, mantendo o aperto de mão. – Bom, você se sente melhor?

— Claro.

— Ainda está doendo?

— Não. Agradeço a preocupação, milorde. – ela desceu da mesa e me entregou o lenço, cujo as pedras de gelo já havia derretido em sua maioria.

— Eu preciso checar a colocação do meu amigo. – apontei para a mesa dos jurados ao longe. – Então, se estiver tudo bem com você, eu vou...

— Estou bem. Não se preocupe. – sorriu, me deixando mais tranquilo.

— Certo. Até mais, Cabelos em Chamas. – e saí naturalmente, sem conter o sorriso de canto ao ouvi-la rir por chama-la pelo apelido que suas amigas lhe dera.

Escutei um “Tchau, Hic!” seguido de uma risada gostosa.

POV Anna

Merida saiu correndo em direção à mesa dos jurados, mesmo já sabendo o resultado da competição. Todos já sabiam, era óbvio, certo? Aquele sujeito do cabelo prateado sabia exatamente o que estava fazendo.

Me levantei do gramado, pois estava com fome. Eu sempre estou com fome, isso é um fato.

— Cara, tô com fome. – falei, com fome (?).

— Conta uma novidade. – disse Rapunzel, fitando as unhas longas.

— Faz alguma coisa pra agradar a Deus e vá buscar algo pra eu comer. Vá. – falei, enxotando ela.

— Ah, tá. Primeiramente, por que te alimentar agradaria a Deus? E segundamente (?), você manda em mim desde quando, sua vagaba?

— Eu sei que você quer dar uma voltinha pra ver se esbarra com o moreno sedução que mal terminou a competição e já sumiu por entre as pessoas da festa.

— Fui. – e saiu correndo sem nem me deixar terminar.

— Não esqueça de me trazer uns salgados, sua vaca bípede! – já estava longe. Ela não vai trazer, querem apostar?

Ai, que preguiça. Joguei-me numa poltrona próxima, deixando a preguiça me dominar ainda mais. Não quero levantar. Olhei em volta afim de encontrar alguém para buscar uns salgadinhos. Merida ainda não voltou, que demora, estão fabricando o papel do resultado da competição? Porque, né.

Procurei por Elsa e não a encontrei. Naquele momento eu decretei que não havia nada nesse mundo capaz de me fazer levantar daquela poltrona, até notar uma discussão tensa entre um casal próximo a mim. Eu não teria dado a mínima, se a moça não tivesse começado a chorar.

Meu instinto de proteção apitou junto com a minha falta de noção. Já ouviu que entre briga de marido e mulher não se mete a colher, Anna? Concordo com esse ditado, em partes. Partes bem pequenas.

Observei por mais uns segundos, reparando nos cabelos dela, que eram verdes, e nos dele, que eram loiros quase brancos. Um sinal de imagem familiar pontuou-se na minha memória. É certamente o maluco que ganhou a competição. E observando por mais uns segundos, eu não soube dizer se ele era o motivo de ela estar chorando ou se estava apenas a consolando.

Ele pareceu bem cuidadoso ao tocar o ombro dela em sinal de conforto, antes de dizer uma última coisa e sair. Resolvi me levantar e aproximei-me dela.

— Oi, por acaso você sabe onde tem comida por aqui?

— Ah, é... – antes de virar-se na minha direção, tentou rapidamente secar o rosto. – Fica ali dentro, nos salões. Acabaram de repor os frios da mesa...

Eu sorri para seu rosto avermelhado de um choro recente que ainda sim exibia um sorriso. Isso me lembrava pessoas tão familiares. E por estar se esforçando em mostrar que estava tudo bem, eu não quis constrangê-la.

— Que ótimo! Vou te contar, tô cheia de fome. Fome me deixa num mal humor, você também é assim? Me torno o cão até que me alimentem, então é melhor prevenir. – ela deu uma risadinha meio assustada. – Vem, vamos comer.

Eu saí andando e, no fundo, imaginei que ela na verdade fugiria de mim – eu costumo assustar as pessoas. Então me surpreendi ao nota-la caminhando ao meu lado.

Finalmente chegamos a digníssima mesa de quitutes, que eu ataquei sem moderação nenhuma, prontamente acompanhada pela moça de cabelos verdes. Enfim satisfeitas, tanto eu quanto ela nos sentamos juntas numa parte do gramado longe dali, durante todo esse tempo, sem trocar uma palavra.

— Tô satisfeita, e você? – sou ótima em puxar assunto.

Ela sorriu com o olhar baixo. – Comer melhora o meu humor também, pelo visto.

— É um remédio natural. – expus. – Me chamo Anna, aliás.

— Toothiana, mas me chame apenas de Tooth.

Apertamos as mãos em cumprimento e pude analisar sua aparência. Os cabelos verdes, apesar da cor exótica, não exibiam um tom chamativo e ela tinha a mesma altura que eu e Merida, ou seja, baixinha. Os olhos eram estranhamente violeta, mas ainda sim bonitos, brilhantes e diferentes. Ela era bem simpática, ainda que parecesse triste. Aparentava ser uma boa pessoa para se ter afinidade.

— Também futura aluna em Oxford, como eu, ou só veio curtir a festa?

— Futura aluna. – ela respondeu e me lançou um olhar analítico mais puxado para o divertido. Apontou na minha direção de um jeito bem caricato. – Enfermagem? – tentou adivinhar meu curso e eu dei um risinho.

— Errou rude. Astronomia. – ela grunhiu pelo equívoco, reprimindo um palavrão. – Mas achei interessante o chute. Por que enfermagem?

— Seu instinto em querer ajudar, me distraindo do que me afligia. – de repente, me vi sem palavras de um modo que eu só ficava perante Elsa quando me analisava assim.

— Uau, me desculpe por não ter disfarçado bem. Claramente, sou tão discreta quanto uma retroescavadeira.

Ela riu. – Você fez tudo perfeitamente como deveria, não se preocupe. – aquilo me deixou mais tranquila, ainda que levemente resignada. – Eu tenho um colega futuro astrônomo também, mas já veterano, que se não estudasse à noite, teria algumas aulas com você. – ela deu um sorriso suspeito, continuando. – O que seria bem engraçado, considerando as peculiaridades opostas de vocês. – eu não soube o que pensar quanto aquilo, então franzi o cenho sem saber ao certo o que dizer.

Decidi dar de ombros. Apontei na direção dela, agora era a minha vez de tentar adivinhar. Ela logo percebeu e estreitou os olhos em expectativa.

— Psicologia.

Satisfeita, ela negou, jogando os cabelos verdes sobre os ombros. – Medicina.

— Bicha chique.

— Sofredora, isso sim. – não me contive e gargalhei alto. – Principalmente pela minha especialização. Pediatria. – quase chorei de emoção. Tem que ter muita bondade e coragem no coração para lidar com crianças e bebês doentes, mas minha intuição grita que essa moça é perfeitamente capaz. – Mas também achei interessante seu chute. Por que psicologia?

— Análises rápidas e observação aguçada. – ela pareceu lisonjeada. – Isso, ou realmente sou tão sutil quanto uma tijolada.

— Talvez um pouco dos dois? – sugeriu ela.

— De acordo. – respondi com um risinho. – Você me lembrou minha prima.

— Ela fará psicologia?

— Sim, iniciaremos juntas.

— Você é caloura também, certo? – indagou Tooth e eu assenti. – É bom ingressar junto de alguém. Pelo menos, não passará o semestre isolada e perdida.

— Ai, não me diga que você...

— Não! Não se preocupe, não estou sozinha. – garantiu ela, tranquilizando-me com um sorriso. Ufa, meu coração chegou a apertar, mesmo me lembrando do loiro que conversava com ela mais cedo. – Eu moro na cidade, já estou familiarizada com os alunos.

— Sorte a sua. Nós ainda não conhecemos ninguém daqui, com exceção de você.

Só percebi estar tão imersa na conversa com Tooth quando Elsa chegou de mansinho, parando ao meu lado sem nada dizer, ficando ali por segundos intermináveis sem que eu nem percebesse. Quem denunciou sua presença foi Tooth, que em dado momento estranhou uma loira branca doida parada há longos segundos olhando para a minha cara sem dizer caralho algum.

— Maluca, vai ficar aí em pé que nem um poste? – indaguei na lata.

— Virou Rapunzel e decidiu me dar uns perdidos?

— Eu te procurei durante um tempão, sua maldita. – Tooth pareceu meio assustada com nosso carinho interno. – Elsa, essa é a Tooth. Tooth, essa é a Elsa.

Tooth ergueu a mão para cumprimentar Elsa. – A psicóloga, né? – sorriu para Elsa, que me lançou um olhar questionador.

— Eu contei para ela. Pode chama-la de pediatra, caso queira.

De longe avistei Merida, que vinha caminhando de uma maneira saltitante em nossa direção, com os cabelos ao vento e com um sorriso extremamente aberto enquanto cantarolava uma música do The Killers.

You was battle born... ta-nã-nã-nã... (?) – murmurava a música.

— Quem ganhou? – indaguei assim que ela parou onde estávamos.

— Quem ganhou o que? – indagou ela, confusa. Ai, mereço.

— A competição, jumenta ruiva.

— Ah, a competição! É mesmo... – riu alto e meio monga (?). – Foi aquele cara lá, o platinado.

— O loiro cor-da-lua? – indagou Elsa, interessada. Hm. Tô de olho em você, Snow.

— Ele sim, com certeza. – falei, pois era óbvio que esse cara havia vencido.

— Platinado? – indagou Tooth, parecendo conhecer o sujeito. – Jack? – como eu disse.

— Esse aí mesmo. Pera, você o conhece? – indagou Meri.

— Claro, desde o colegial. Já era de se esperar que ele ganhasse. Jack é ótimo em tudo o que faz.

— É aquele cara que estava com você quase agora, né? – observei de maneira automática, mas me arrependi no segundo seguinte, ao lembrar das circunstâncias em que Tooth se encontrava enquanto conversava com ele. O olhar dela vacilou e eu me senti péssima. – Desculpe, eu não quis...

— Ah, não se preocupe... É, eu... – dizia, sem graça. Que cu, tô me sentindo o cocô do cavalo do bandido por deixa-la assim. – Nós estávamos conversando sobre um parente em comum. Ele só estava me ajudando, como sempre.

Elsa e Merida se entreolharam, sem entender nada.

— Ah, que bom. – falei, aliviada. – Cheguei a pensar que ele era um babaca e havia... sabe, te deixado daquele jeito. – escolhi com cuidado as palavras.

Ela assentiu. – Eu imaginei. – Tooth suspirou e continuou. – Mas não, ele só estava... tentando ajudar e mantendo distância ao mesmo tempo. Meio difícil, mas ele até que consegue. Não parece afeta-lo, diferente de mim. Éramos bem amigos antes de ele resolver se afastar sem explicação nenhuma, me deixando a mercê dos meus pensamentos. Hoje em dia nos falamos, mas apesar da amizade não ser mais a mesma, ele se mantém perto o suficiente para me ajudar quando preciso. – o olhar dela parecia longe demais, confuso demais e de repente revoltado demais. – Dá pra entender? A pessoa te afasta e te protege ao mesmo tempo... – riu irônica de uma forma que sugeria que havia até esquecido das demais pessoas ao seu redor e esquecido também que estava desabafando com uma completa desconhecida.

Entendi parcialmente sua situação. Olhei para Elsa, que parecia ter entendido tudo.

Sei como é uma merda tratar como desconhecido aquela pessoa que você conhece muito bem. Pensei em perguntar o motivo, mas ela já parecia estar triste só de mencionar o assunto, não queria prolongar isso a ela – e também, não tenho toda essa afinidade com ela ainda. Talvez mais tarde, possamos conversar sobre isso com calma.

Merida, que mais do que qualquer ser humano não suporta ver as pessoas cabisbaixas, se aproximou dela, fitou-a nos olhos e sorriu. Mas não um sorriso aberto, foi mais um simples repuxar de lábios. Um sorriso compreensivo e acolhedor.

— Não conheço você e não sei de muita coisa dessa vida. Mas tenho certeza que ele sente sua falta todos os dias. – Tooth ergueu o olhar e fitou Meri, que sorria pra ela. – Uma pena, para ele, ter se afastado de alguém que o prezava tanto. É evidente quem mais perdeu nessa história.

Tooth ficou uns segundos sem dizer nada, apenas observando e digerindo as palavras sinceras de Meri. Quando sorriu, tive a sensação de ter sido o primeiro sorriso sincero que vi ela esboçar desde o momento em que a interceptei. Merida é assim, as pessoas simpatizam com ela fácil.

Eu e Elsa tentávamos conter o sorriso admirado, mas era quase involuntário. Tínhamos um orgulho imensurável de Merida, mesmo não entendendo como conseguia ser assim depois de tudo o que ocorrera em sua vida. Ela era uma concentração ambulante de alegria e felicidade e espalhava esses sentimentos por aí.

— A propósito, sou Merida.

— Toothiana. Mas me chame de Tooth. – apertaram as mãos.

— Muito prazer, Tooth. Caloura ou veterana?

— Caloura de medicina. – ela virou na direção de Elsa. – É provável que tenhamos algumas poucas disciplinas conjuntas. – Elsa assentiu, pensativa.

— Af, ainda não conheci ninguém do meu curso. – dizia Meri, com um muxoxo.

— E você vai cursar o quê?

Merida ia responder quando ouvimos alguém chamando pela Tooth. Olhamos na direção e vinha correndo a loira bonita que também competiu, se aproximando em poucos segundos.

— Frost venceu. – a loira proferiu, irritadiça.

— Como já era de se esperar. – dizia Tooth, rindo para a amiga. – A próxima você vence, amiga.

— Não sou páreo para ele, desisto.

— Quem é você e o que fez com a minha amiga?! – exclamou Tooth. A moça revirou os olhos.

— Até mesmo eu consigo reconhecer uma causa perdida. – disse a loira, rindo. – Mas não conte isso a ele de jeito nenhum.

— Seu segredo tá guardado com a gente. – riu Tooth, gesticulando na nossa direção.

Assistíamos a tudo com cara de cu. Eu não queria me intrometer na conversa, né gente. Fiquei observando, apenas. Já sei que essa loira é bem competitiva, diz que desistiu, mas eu duvido muito. E já sei que Toothiana era muito amiga de Jack e tenho quase certeza de que existe um sentimento por ele no meio dessa historia toda.

— Perdoem a falta de cortesia da digníssima aqui, pelo visto, terei de me apresentar... – disse a loira, ironizando Tooth que revirava os olhos.

— Essa é Astrid, minha melhor amiga doida. – gesticulou de uma maneira bem caricata na direção de Astrid como quem apresenta uma celebridade presente, o que imaginei ser uma piada interna entre elas. Sem exagero, a Tooth parecia aquele meme do Will Smith apresentando a esposa dele no tapete vermelho de alguma premiére. Eu achei graça e ela continuou. – Astrid, essas são Merida, Elsa e Anna. Também calouras em Oxford.

— Muito prazer. – Astrid disse, sorrindo para nós.

— Igualmente. – falamos em uníssono.

Tive certeza de que Astrid era bem competitiva quando ela mesma afirmou isso no decorrer de nossa conversa conjunta. Ela é muita talentosa na maioria dos esportes, mas não tão ótima quanto Jack.

— Aquele desgraçado é o meu maior desafio! – exclamava, irritada, fazendo-nos rir. Quem vê, até pensa que são inimigos, mas pelo contrário, são bem amigos. – Somos amigos e rivais. – dizia.

Astrid é uma ótima pessoa. Bonita, humilde, tão confiante de si que chega a te transpassar essa confiança. Tem noção da exuberante beleza que possui, mas não se gaba. Nos contou que sempre quis mesmo é se especializar em algum esporte – futebol, pra ser específica – e virar atleta, mas seus pais não permitem, só depois que ela tiver um diploma.

Depois de se distrair conosco, não foi difícil notar que Tooth é uma menina risonha. Vai cursar medicina e tem paixão pelo que pretende fazer. Ainda não descobri se ela, de fato, tem sentimentos por Jack, mas cada vez que conversamos, fico mais convicta de que sim. Qualquer dia, pergunto a ela. Ela é uma ótima pessoa. Meiga, simples, gosta de ajudar e aconselhar.

O tempo passou tão rápido enquanto todas conversávamos que mal notei a noite chegar, as fogueiras sendo acesas, a música ainda rolando. Conversamos até o fim da confraternização.

Nos despedimos, trocamos números de celular, e-mail, redes sociais, essas coisas...

Saímos a procura de Rapunzel e quando a encontramos – beijando um homem lindo, por sinal – por fim, seguimos para casa.

Chegamos alegres e com um monte de novidades pra conversar. Mas só amanhã. O dia foi bem animado e estávamos cansadas.

Devo admitir que a festa foi ótima. Logo eu, que sempre preferi a calmaria do meu quarto e meus incontáveis livros, gostei de sair um pouco do QG. Pude me divertir na medida certa e conhecer pessoas legais.

Foi o suficiente para me deixar relaxada para a segunda-feira. Emoções à flor da pele é definição do primeiro dia. Ri do meu pensamento exagerado. Que drama, Anna. Nem parece você.

*

Notas finais
Battle Born — The Killers: https://youtu.be/zPJQQeeYDYI O que acharammmmm? Concordo que esse capítulo foi meio água com açúcar e tals.. Mas o próximo capítulo, é o primeiro dia na faculdade, AAAHEEO! que friozinho na barriga. UEHUEHEUHEU' Comentem, preciso saber se tá legal a fic. E obrigada a todos que comentaram, vocês são demais! rs Beijos e até o próximo capítulo ^^/