Rising Tide
4 Conflito
Notas iniciais
CONFLITO
POV Anna
Domingo passou voando.
Na segunda-feira, não tivemos problemas para nos levantar. Todas estávamos empolgadas, em especial Merida, como sempre. Tomamos café e nos arrumamos mais rápido do que achávamos que seria possível. Até Rapunzel se arrumou rápido! E eu pensando que nunca veria isso acontecer.
Nos ajeitamos no carro e seguimos para a faculdade – aproveitando o trajeto para papear. Falamos sobre a festa, a competição, as fotos que eu e Merida tiramos naquele tobogã irado, nossas novas colegas Tooth e Astrid, o tal Jack Frost vencedor da competição, Merida contou de um menino dos olhos esmeraldinos que ela conhecera, Rapunzel contou do cara que ela beijara, Elsa falou sobre a bola de pelos que Olaf vomitou naquela manhã e eu contei do capítulo dessa semana de Naruto.
Chegamos no estacionamento da faculdade, o qual já estava cheia de estudantes e grupinhos formados aguardando o horário de entrada. Elsa estacionou e saímos do carro.
Deveria estar bem frio, por conta do recente fim do inverno, mas até que o inverno este ano não quis deixar vestígios. O clima estava extremamente agradável.
— Que faculdade imensa! Tô me sentindo o próprio Harry Potter! – falei admirada, fitando a grande estrutura. Parecia Hogwarts.
— É ainda mais impressionante que nas fotos... – dizia Merida, impressionada.
— Vocês receberam o mapa, né? É bom que tenham trago, porque eu não faço a mais remota ideia de onde enfiei o meu. – disse Rapunzel, se olhando num espelhinho de bolsa e puxando meu braço, que puxei o de Elsa, que puxou o de Merida.
Elsa mexia no celular tentando acessar sua matrícula, talvez na esperança de encontrar um mapa digital do campus.
— Não acredito. Passei o domingo inteiro ajeitando tudo e esqueço logo o mapa físico do campus. Não é possível, Elsa. O que tá acontecendo com você? – murmurava ela, dando sermão em si mesma.
— Amiga, relaxa. A vida tem dessas coisas. – Punzie dizia, guardando seu espelhinho em sua mochila de couro azul da Chanel, tornando a lixar suas longas unhas muito bem cuidadas.
Merida carregava sua velha mochila xadrez vermelha, enquanto jogava no celular com um pirulito na boca.
— Anna, preciso upar o Executor. Qual carta você quer em troca? – questionou ela, alheia as preocupações do dia.
— Exército de Esqueletos. – respondi.
— Fechado. Envia no clã.
— Ok.
Seguíamos rumo ao interior da faculdade e eu me mantinha distraída até ser impossível não se incomodar com os olhares insistentes sobre nós. O que tá havendo, gente? Tô cagada, por acaso?
— Muitos olhares sobre nós, estou começando a ficar nervosa. – murmurei para que só minhas amigas escutassem.
— É a Rapunzel. Tá chamando muita atenção. – disse Elsa, enquanto continuava procurando não sei o que no celular.
— Como sempre. – disse Rapunzel, fitando as unhas.
Ignoramos os olhares e adentramos da faculdade afim de encontrar um mural ou coisa parecida, pra nos informar as salas das nossas primeiras aulas.
— O que estamos procurando? – indagou Merida.
— Um mapa, já que... fomos irresponsáveis o suficiente a ponto de esperar mais uma vez que Elsa lide com tudo sozinha. – respondi e todas elas me olharam surpresa. – Não menti.
Cada uma de nós recebeu um mapa do campus junto da carta de aprovação, porém eu, Rapunzel e Merida não fizemos a menor questão de guardar os nossos pois estamos sempre acomodadas no senso de responsabilidade da Elsa. Não me orgulho disso, mas é a verdade.
— Não diga isso, Anna... – Elsa tentou intervir. – Eu deveria ter garantido que traria o meu.
— Todas nós deveríamos, El. – Meri respondeu rapidamente.
— Não tente aliviar nossa culpa, doida. – expôs Punzie.
— Você não é obrigada a fazer tudo sozinha sempre. – concluí depois delas.
Elsa não fazia por mal ou por falta de escolha, era só um mecanismo há muito desenvolvido para lidar com a vida solitária que teve por um longo tempo. Por seus pais sempre estarem em constante viajem a trabalho, Elsa foi emancipada cedo e foi obrigada a se virar sozinha desde muito jovem. Seu senso de estar sempre empregada, tendo seu próprio dinheiro e independente dos pais nasceu daí. Ninguém nunca entendeu principalmente por seus pais serem ricos – apesar de ultimamente estarem enfrentando problemas financeiros seríssimos por conta de um processo judicial.
Elsa se acostumou a não precisar mais deles e nunca nem cogitou acomodar-se nessa riqueza. Todos devem lutar e ganhar as coisas por seus próprios méritos. Eu apoio isso e sigo seu exemplo.
— Certo. – Elsa sorriu com nossos comentários. – Façamos o seguinte então, resolveremos isso juntas. – assentimos. – Venha, Merida, vamos procurar alguma sala de atendimento aos alunos. Vocês, vão pra esse lado, eu e Merida procuramos por aqui.
E assim, nos dividimos. Merida e Elsa, foram para os corredores da esquerda, eu e Rapunzel fomos para os da direita. Rapunzel insistia em pedir informação pra alguém, mas eu dispensei. Ia conseguir achar essa maldita secretaria sozinha. Seguíamos num longo corredor. Esse lugar parece um labirinto!
Havia acabado de virar à direita quando dei de cara em algo rígido e tombei para trás. Minha amiga me segurou antes que eu fosse de encontro ao chão.
— Ai! Minha nossa, me desc... – tentei me desculpar, mas o grandalhão me interrompeu.
— Olha por onde anda, porra! – exclamou, todo trabalhado na grosseria.
— Como é que é?! – indaguei, com uma indignação quase palpável. – Foi você quem me atropelou! E eu ainda pedi desculpas por ser atropelada! – firmei, minha voz elevando uma oitava.
Ele me encarou por longos segundos, minimamente incrédulo. Parecia surpreso por estar sendo confrontado. Abriu a boca pra responder, mas hesitou e fechou. Eu devia estar vermelha, pois odeio gente insuportavelmente mal-educada!
Estreitou os olhos antes de dizer com a voz baixa. – Apenas peça desculpas e suma da minha frente. – apesar dele ter falado seríssimo, eu fui incapaz de consegui evitar a gargalhada exageradamente alta e debochada, o que pareceu irritá-lo demais. – Escuta aqui, garota, qual é a tua, ein?!
— Você me pergunta, piadista?! Espera mesmo que eu peça desculpas por um erro totalmente seu?!
— E eu tenho culpa de você ser quase imperceptível?! Difícil enxergar uma fedelha do tamanho de um smurf!
Meu cenho franziu-se involuntariamente. O arquejo travou-se na minha garganta. Atrás de mim, pude ouvir Rapunzel murmurar “puta que pariu, cabeças vão rolar...” e eu não sabia se ela estava preocupada ou apenas torcendo por isso, de qualquer forma, meus olhos não desviaram um segundo sequer do olhar hostil do sujeito a minha frente. Eu sentia tanto ódio que meu sangue parecia borbulhar nas minhas veias.
Hoje eu serei presa por assassinato.
— Retire o que disse. – falei entredentes.
— Anna... – murmurava Rapunzel, já me segurando.
— Retire o que disse. – ignorei-a, me desvencilhando de seus braços. Se eu pudesse mata-lo só com o olhar, ele já estaria inerte ao chão uma hora dessa.
O idiota aproximou-se do meu rosto, sério ainda que a satisfação em seu olhar crepitasse de maneira maldosa, ciente de que havia tocado na minha ferida. Quando já estava bem próximo, soltou um risinho pretensioso e proferiu a última palavra que ele deveria ter dito na vida.
— Não.
— Péssima escolha.
— Eu discordo. – a calma irônica que ele exibia propositalmente só aumentava minha vontade de pular em seu pescoço.
O fato de eu precisar olhar para cima para encarar-lhe o rosto era ainda mais humilhante. Mal percebi meu peito arfante, tamanho o esforço que eu fazia para tentar preservar meu pouco autocontrole.
Percebendo isso, ele sorriu.
— Você é um imbecil. – grunhi.
— E você é adorável. – afagou o topo da minha cabeça com dois tapinhas ultrajantes, como quem fala com uma criança.
Me impulsionei de maneira instintiva e senti Rapunzel agarrar meu braço com certo esforço, impedindo-me de avançar nele. Ele pareceu surpreso com a minha reação e, apesar de ter recuado um passo, abriu um sorriso admirado. Seu olhar de repente tornou-se desafiador.
— O que tá acontecendo aqui, Kristoff? – indagou o recém chegado.
Não dei o gostinho dele me ver desviando o olhar, então mesmo que uma terceira pessoa tenha se mostrado presente, eu não fiz muita questão de fita-la. E ele também não.
— Nada preocupante. – respondeu o tal Kristoff.
— Isso parece meio preocupante, se me permiti dizer... – continuou o outro, enquanto o embate de olhares entre eu e Kristoff mantinha-se árduo.
Eu tenho absoluta certeza que meu olhar assassino indicava que a qualquer momento eu voaria nele, principalmente quando o olhar que ele me lançava era de quem não via a hora disso acontecer.
— Você poderia fazer o favor de catar o seu amigo e sumir daqui? – Rapunzel falou de repente, para o recém-chegado que respondeu quase na mesma hora.
— Calminha aí, Barbie, eu acabei de chegar...
— Percebe-se. Mas olha lá atrás... – Punzie apontou para longe. – Viu? A noção do seu amigo passando correndo? Pois é.
O garoto não conseguiu evitar a risadinha. – Guarde suas garras, gatinha. Eu só estou tentando ajudar.
— Ajude fazendo uso do bom senso antes que esse daí seja agredido, por favor. – o rapaz riu meio incrédulo e nesse momento Kristoff abriu ainda mais seu sorriso desafiador.
— Eu tô pagando pra ver. – murmurou me encarando fixamente.
— Você vai ter o que tanto quer! – Rapunzel me segurou de novo e dessa vez até o recém-chegado se postou a minha frente, verdadeiramente surpreso.
Só nesse momento pude ver que se tratava do tal vencedor da competição de sábado – o rapaz de cabelos prateados. Ele me lançava um olhar admirado
— Uau... Você é bem...
— Cheia de marra! – exclamou o outro atrás dele.
— E você é um estúpido!
— Gente, pelo amor de Rihanna Fenty... – Rapunzel massageava as têmporas.
— Que demora do caralho. – murmurou um outro. Pronto, virou festa. Chegara mais um, que na verdade não pareceu se importar conosco, na verdade, não parecia nem ter notado a tensão no ar e, se notou, não deu a mínima. – Vocês vêm ou não? Hiccup está esperando no estacionamento. – ele dizia de uma forma bem “tanto faz a porra da vida”.
— Temos um mafioso entediado e um temperamental testando os próprios limites. – o rapaz loiro cor-da-lua parecia gostar da situação. – Perceba, mocinhas, a situação em que me colocaram.
— Vá se foder, Frost. – murmurou o moreno recém chegado, que naquele momento, parecia enfim estar observando que algo estava acontecendo.
— Você está muito agressivo hoje, isso me preocupa.
— Anna, vamos embora. – murmurou Punzie no meu ouvido, pois durante todo esse pequeno momento, Kristoff não desviara os olhos desafiadores dos meus. – Esses idiotas não valem o esforço. – o moreno recém chegado ouviu e crispou os olhos na direção dela.
— Quem são essas? – indagou ele e nós duas o fitamos instintivamente.
Apesar de ter indagado a um dos amigos, não ousou tirar os olhos de Rapunzel, que no instante em que percebera estar sendo encarada, erguera o queixo, peitando o rapaz.
— Ainda não sei, mas estou ansioso para descobrir. – respondeu o único que parecia estar se divertindo com a situação.
— Ninguém importante. – o imbecil, vulgo Kristoff, falou com uma voz despreocupada.
Uma pequena e ínfima fagulha de descontrole ameaçou despontar devido a resposta dele, mas eu me contive, pois apesar de ainda estar com raiva, tive distrações o suficiente para me acalmar na medida do possível.
Decidi ir embora com a minha amiga, pois arranjar confusão nos primeiros dias deixaram de ser um hábito na minha vida.
Eu me virei sem dizer absolutamente nada, com Rapunzel em meu encalço, sentindo, porém, os olhares queimando as nossas costas.
— Pelo visto, ninguém muito interessante também. – comentou uma voz que não era do idiota do Kristoff, mas sim do moreno recém chegado.
Rapunzel deu meia volta na mesma hora.
— Estou curiosa em saber como chegou a essa conclusão em tão poucos segundos, meu rapaz. – indagou ela destilando deboche, e de repente me vi nervosa.
O moreno já exibia um sorriso, nada surpreso em vê-la voltar, como quem já havia previsto o próximo movimento de Punzie. A encarou de cima a baixo, meticuloso.
— Corona, não é? – Punzie de repente pareceu confusa e isso agradou o sujeito. Como ele sabia o sobrenome dela?— Pouquíssimo é falado sobre você, mas muito é falado sobre o seu pai. É comum que sejamos comparados a nossos progenitores, mas imagino o quão triste deve ser estar sempre à sombra deles. – aquilo começou a me preocupar, ainda mais percebendo a forma como o olhar de Punzie esfriou. – É ainda mais triste saber que expressões como submissa da família Corona, Srta. Filha do Louis Victor e mocinha desinteressante sejam compreensíveis. – ele deu um muxoxo, fingindo uma falsa pena. – Torcia para que estivessem errados.
— Pelo visto, você fez seu dever de casa. E por ler meia dúzia de sensacionalismo barato acerca da minha pessoa numa revista, se sente no direito de dizer quem eu sou.
Ele deu de ombros. – Li o suficiente.
— Hm, e sabe o quanto li sobre você? – o rapaz permaneceu calado quando Punzie continuou. – Absolutamente nada.
O silêncio foi sepulcral.
Até o loiro cor-da-lua, que parecia estar adorando tudo aquilo, de repente ficou sério e tenso.
— É isso aí, ela nem sabe quem você é! – exclamei, cortando o silêncio desesperadamente.
O rapaz, que mantinha o olhar sério em Punzie, respondeu depois de longos segundos sem desviar os olhos dela.
— Não se preocupe, ela vai saber.
A frase soou fria e ameaçadora. Se ele tivesse exclamado de maneira enérgica teria soado menos sinistro. E no entanto, Punzie não parecia amedrontada, muito pelo contrário.
— Vamos embora, Punzie. A cota de confusão já deu por hoje. – puxei-a pelo braço e ela veio sem protestar.
— Que irônico você dizer isso. – comentou ela, mas estava séria demais para o meu gosto.
Atrás de nós, um deles começou.
— Rapaz, que esculacho a loira te deu, ein. Tá precisando de um analgésico?
— Cala a boca, Frost. – murmurou a voz do moreno.
— Como eu suspeitava... – a voz daquele Kristoff se elevou, com o propósito de que eu ouvisse e embora eu tenha me retesado ao notar seu tom zombeteiro, mantive meus passos. – Marrenta pra caralho, mas não faz porra nenhuma. – um muxoxo de falsa pena. – Vamos embora.
Rapunzel tentou, mas foi fácil desvencilhar-me do cravar de suas unhas no meu braço com um movimento estratégico guiado por pura raiva.
Eles já estavam de costas. Ninguém, tampouco eu mesma, conseguiria prever o iminente – mesmo o idiota que havia me provocado há pouco parecia evidentemente assustado no instante em que puxei-o pelo braço. Seu olhar surpreso mal durou o tempo de me perceber e, antes que ele tivesse a chance de dizer a gracinha que pretendia, agarrei-o pelos dois ombros antes de afundar com força meu joelho na região de sua pelve.
O urro de uma dor agonizante travara em sua garganta, eu poderia ter sorrido com a visão dele ajoelhado a minha frente, me encarando com toda a fúria do mundo enquanto segurava suas partes, mas eu ainda sentia uma raiva tão grande que só consegui assistir a tudo bem séria.
Cruzei os braços, o fitando de cima. – Talvez isso o incentive a pensar duas vezes antes de provocar quem não conhece.
Seus amigos pareciam perplexos demais para tomar alguma atitude. Quando enfim o loiro cor-da-lua pareceu perceber que o cidadão ainda gemia de dor, resolveu ajuda-lo a se levantar.
E nesse momento, Rapunzel me puxou, correndo, eufórica e aflita, e eu sem entender nada.
Parou a primeira pessoa que passava no corredor e falou.
— Olha, você poderia ajudar um moço que tá caído ali no chão, naquele corredor? Obrigada. – e andou apressada ainda me puxando.
— Ele está com os amigos, jumenta loira! Não vai morrer, alô! (???) – falei, num tom óbvio.
— Cala a boca, Anna! – exclamou, fuzi da vida.
— Punzie, me larga! É covardia bater e sair correndo! – protestei.
— Você quer levar uma surra daquele armário de quatro portas?! – berrou, irritada e assustada. – Você é maluca, Anna!
— Mas... ele mereceu! – me defendi. – Você ouviu tudo o que ele disse!
— Anna, você chutou o cara. Você chutou um homem naquela parte proibida! Você tem noção do quanto isso dói?! Ele vai te matar!
Só então percebi que havia acabado de chutar um cara enorme e musculoso. Ai.
Deus, por favor, me tira o livre arbítrio. Eu só faço cagada.
Tenho que bolar um plano de ataque. Ou melhor, um plano de defesa. Socorro. Tony Stark me acuda.
POV Jack
“Estou com ela. Não se preocupe, filho. Ela parece melhor a cada dia. Boa sorte com a volta às aulas.”
Uma mensagem capaz de sanar os temores que me consumiam durante todo um domingo que deveria ser de tranquilidade ao invés de tensão só poderia ter sido enviada por ele. Embora a imagem de Tooth chorando me deixe levemente desconfortável, eu pude respirar tranquilo graças às notícias.
Na segunda-feira, eu parecia mais animado que o habitual simplesmente por estar voltando para a faculdade – não que esse fosse o motivo. Um sorriso quase que involuntário brotou no meu rosto enquanto eu descia as escadas, passando as mãos nos cabelos para ajeitá-los.
Hiccup já me esperava largado no sofá, jogando no PSP. Estava vestido de um modo, digamos, careta, na minha opinião. Mas as garotas adoram. Quando me avistou, olhou o relógio.
— Nossa, você nem demorou. – disse, sarcástico.
— Você nem acordou cedo demais. – eu sentia um sorriso insistente em meu rosto, mas era incapaz de desfazê-lo.
— Como consegue amanhecer tão alegre em plena segunda-feira? – ele crispou os olhos na minha direção depois de uns segundos. – Sonhou com ela de novo.
Havia uma constatação aqui e de repente me senti nu pelo simples fato de ser péssimo em disfarçar qualquer coisa.
Mas vergonha não é bem a minha sina, então simplesmente sorri o melhor dos meus sorrisos.
— Não podia esperar menos de você, velho amigo.
— Ela te faz bem e você sequer a conhece. Deveria caçar essa garota, sinceramente.
— Não é muito o meu estilo correr atrás de mulher.
— Mas o contrário lhe agrada.
— Não posso discordar de você.
— Seu puto. – guardou o PSP em sua velha bolsa do Game of Thrones antes de se levantar. – Kristoff e Flynn?
Dei de ombros. – Não estão dormindo?
— Fui pegar o PSP do Kristoff emprestado e ele não estava no quarto. O carro de Flynn não está na garagem, então...
De repente, me recordei que Kristoff havia comentado comigo acerca de umas extensões que pretendia fazer e que precisava de umas declarações da faculdade.
— Deve ter ido fazer o requerimento, sei lá.
— Pra ele acordar cedo, com certeza deve ser importante.
Se tinha alguém que não suportava acordar cedo na nossa casa, esse alguém era Kristoff – acompanhado de Flynn. Não era atoa que seus turnos acadêmicos eram a partir da tarde.
Peguei os fones de ouvido em cima da mesinha de centro e saímos em direção a porta de acesso à garagem. Seguimos em direção ao carro de Hiccup e, contra a minha vontade, deixei minha rainha em casa – minha moto.
Conversamos durante todo o trajeto e ele disse ter visto Toothiana junto de Astrid conversando com umas mulheres no parque Hinksey. Eu só precisava saber se, depois da nossa conversa, ela estava bem. Lembrei da mensagem do meu pai, um pouco aliviado. Hiccup me mantém a par sobre Tooth sempre que tem notícias, pois sabe que preciso disso – o filho da puta me conhece como ninguém.
Ele me contou que conheceu uma das malucas do parque e comentou que ela é bem engraçada. Me perguntou o que eu falei para o Kristoff que o induziu a comparecer na festa e eu respondi que só troquei uma ideia com ele, nada demais. Tenho certeza que ele já estava com uma vontade de ir, só dei um empurrãozinho.
Enquanto Hiccup estacionava, eu mandava uma mensagem para Flynn indagando onde estavam.
— Estou aqui. – respondeu ele, bem próximo. Levei um puta susto.
— Caralho, ô Miss Ninja. Chega devagar.
— Cadê o Kristoff? – Hiccup alarmava o carro e aproximava-se. – Vocês acordando cedo, a primeira proeza do dia.
— Ele voltou a secretaria para pegar uns papéis, mas isso já tem um tempo. – ele verificou as horas no relógio de pulso, entediado de tanto esperar.
— Bom, como sou um homem que possui certas aversões a esperas e não precisaria de motivos muito importantes para vaguear pela faculdade, irei atrás dele. – já ia me distanciando e respondendo aos cumprimentos de alunos aleatórios cujo alguns eu não recordava ter conhecido.
Peguei o caminho mais próximo a secretaria e não foi difícil achar Kristoff no que seria a primeira surpresa do dia – envolvido em uma confusão. A surpresa não é essa, afinal, Kristoff é um imã para confusão. A surpresa é ele ter arranjado confusão com uma moça baixinha e irritadiça.
Seria cômico se não fosse... não, esquece, é cômico sim.
POV Hiccup
“Cara, vem aqui na enfermaria. Urgente. LOL”
Enfermaria? Como assim?
A mensagem de Jack não fazia sentido nenhum até eu me lembrar quem ele havia ido buscar. Revirei os olhos.
— Porra. – xinguei baixinho, já sentindo uma dor de cabeça por antecipação.
Kristoff e sua pouca paciência. Flynn e toda a sua arrogância. Jack e seu talento natural à provocação.
Por que não estou surpreso?
Não demorei a chegar na enfermaria. Quando adentrei o local, a cena foi cômica. Kristoff segurava uma almofada em cima da calça enquanto Jack mexia no celular, fazendo piadas do amigo. Não pude evitar dar um risinho.
— O que aconteceu?
Kristoff nada dizia. Fuzilava Jack com o olhar crispado, antes de tornar a fitar o teto.
— Kristoff, o que houve? Devagar, por favor. – indaguei mais uma vez, meio pasmo.
— Fui atacado por uma louca. – murmurou em resposta.
— Quê?
— Tu perdeu. Foi hilário. – afirmou Jack, dando uma risadinha. – E ele provocou.
— Valeu mesmo, você é um ótimo amigo. – disse Kristoff, sarcástico. – Pela saco.
— Bem que dizem que as baixinhas são meio piradas. – Flynn falou com naturalidade.
— Cala a boca, que eu tenho certeza que aquele tapa na cara sem mão que você levou ainda tá ardendo. – zombou Jack, recebendo de Flynn um “vá se foder, Frost”.
— O que aconteceu aqui, droga?! – irritei-me, tentando compreender tudo aquilo.
— Ok, eu explico. – Jack ergueu as mãos, com o sorriso sutil de um palestrante. – Este homem ferido... – indicou Kristoff. – Esbarrou numa mulher, que já tinha um jeitinho de louca, e utilizou toda a simpatia que tem para se desculpar com ela. Fim. – terminou com as mãos juntas à frente do corpo e um sorriso complacente de deboche.
— Pera, ele se desculpou? O Kristoff?! – indaguei, meio surpreso.
— Compreenda, meu amigo, o sarcasmo no meu tom de voz. – disse ele. – Claro que ele não se desculpou. Quando cheguei, a doidinha tentou voar nele. Até eu fiquei meio assustado. E tu sabe como é o Kristoff, acredite quando digo que ele estava implorando por um chute no saco. – jogou-se na poltrona, voltando a mexer no celular.
— Isso não vai ficar assim. – Kristoff murmurou mortalmente.
Eu conhecia aquele tom de voz.
— Kristoff, reveja, cara... – tentei acalma-lo, pois eu temia pela garota.
— Eu acho melhor você ficar na sua. – Flynn finalmente falou alguma coisa. – Tua ficha judicial agradece.
— A tua também não tá muito diferente, né. – ironizou Jack.
Mas Kristoff parecia não nos ouvir.
— Isso não vai ficar assim. – tornou a afirmar. – Não mesmo.
Kristoff com raiva é sinal de tretas futuras. Podem aguardar.
POV Merida
Depois de conseguirmos o bendito mapa do campus, o dia seguiu bem – com exceção de Anna e Rapunzel agindo de um jeito estranho. Disseram que nos contariam o que aconteceu na hora do intervalo.
E agora tô aqui, morrendo de curiosidade. Eu não sei a Elsa, mas eu sinto cheiro de treta. O que quer que seja, só pode ser confusão. Sabe por quê? Porque tem Anna no meio, oras! Conheço essa daí há anos! É DE SANGUE O IMÃ PRA CONFUSÃO! Tô me preparando pra altas emoções já.
As primeiras aulas não foram bem aulas, foram mais apresentações e todo aquele clichê de primeiro dia. As apresentações estão rolando, mas euzinha estou super concentrada no babado que eu ainda não sei. Falei igual a Rapunzel agora, vish. É a saudade. É tão chato ficar longe das minhas amigas.
A hora do intervalo demorou mais do que esperava. Eu quero saber o que houve! Sou tão fofoqueira. Mentira. Sou bem informada. Hm kkk bjs.
Combinamos de nos encontrar no pátio, todas as quatro. Enquanto saía, coloquei pra rolar uma playlist qualquer do Spotify, mas não pus o fone nos ouvidos – aumentei o volume ao máximo, o que me permitia ouvir a música mesmo com os fones longe dos ouvidos, os deixei envolto ao pescoço.
Ia em direção a grande portaria que dava acesso ao pátio, cantarolando Coming of Age do Foster The People, quando passei em frente a uma máquina de refrigerantes, biscoitos, doce, etc.
Opa, hora de gastar os trocados!
Depois de comprar quase uma guarnição inteira pra um exército chamado “eu mesma” – três latinhas de refri, uma garrafa de suco natural, dois pacotes de Doritos, dois pacotes de ar vulgo Ruffles e um monte de tubos de mentos, pirulitos e etc. –, joguei tudo dentro da minha mochila, me sentindo afortunada. Beijem meus pés!
Voltei a caminhar em direção a portaria quando vi Tooth logo adiante em um grupo de mulheres. Quando me viu, abriu um sorriso, deu um tchauzinho animado e se aproximou correndo, puxando Astrid.
— Hey! – cumprimentei, sorrindo alegre.
— Merida! Como está sendo seu primeiro dia? – indagou, toda animada.
— Um tédio tedioso. E o seu?
— Sério? – indagou, fazendo um biquinho. – Foi bem normal, até agora não vi muita gente nova na minha sala. – seu celular e o de Astrid apitavam freneticamente e toda hora elas checavam. – Astrid encontrou com Elsa. – falou, apontando para Astrid.
— Ela parecia meio perdida, saindo da última aula. – disse Astrid, enquanto respondia alguém no celular. – Mas por que você não gostou do seu dia? – perguntou.
— Não é que eu nãaaao gostei, gostar eu gostei, mas é que... – tentava explicar. – Não sou acostumada a ficar longe das minhas amigas. Aí foi bem chato. – odeio falar com as pessoas enquanto elas mexem no celular, parece que tô falando sozinha. – Dá pra parar de mexer nessa bodega? Estou num momento difícil aqui, me consolem, sim? Obrigada. – falei com ar de indignação. Elas riram e guardaram o celular. Awn, que lindas. Agora, beijem meus pés, tá chega.
— Anna acabou de passar por aqui com uma moça chamada Rapunzel, que eu não conhecia até então. – falou Astrid. – Foi encontrar Elsa no pátio.
— Ah é, mesmo! Tenho que me encontrar com elas, venham! – já ia passando por elas e puxando suas mãos quando uma voz masculina chamou o nome da Astrid.
— Oi, meu bem! – senti Astrid soltando minha mão para correr em direção ao tal “meu bem”.
Me virei para ver quem era o “meu bem” e... Mas gente! É o moço do Parque Hinksey! Que mundo pequeno, né? Só de lembrar, tonteei. Dei de cara num muro, ou melhor, dei de cara no peitoral musculoso e rígido desse moço aí. Hic, eu chamei ele de Hic, eu lembro. E ele me chamou de...
— Cabelos em Chamas! É você mesmo! – exclamou, me tirando dos meus devaneios sem sentido, já próximo de nós.
— Claro que sou, quem mais teria essa cabeleira? – falei, num tom óbvio e brincalhão e ele deu uma risadinha. – Ora, quem diria, ein Hic. Tá cursando o que? Não, espere, deixa eu adivinhar... Bacharelado em Educação Física com especialização em Fisiculturismo. – falei, bem convicta da minha ideia. Isso explicaria o tórax malhado e definido, mais firme que as muralhas do Red Keep.
Falando nisso, eu tenho quase certeza de que chamei ele de Muralha do Castelo Black. Meu Deus.
Ele riu ao responder. – Não, não. Academia pra mim é só um passatempo, acredite. – nem tô acreditando que ele entendeu minha piada. Que incrível. Ninguém nunca entende minhas piadas. – Estou cursando Engenharia Mecânica. – disse por fim.
Quando ia comentar sobre, Astrid me interrompeu.
— Não sabia que se conheciam.
— Ah... sim, nos conhecemos sábado. – ele respondeu.
— Na confraternização. – completei. Tooth assistia a tudo calada.
Olhei as horas no celular e... puta que pariu!
— Pelos sete infernos! Preciso ir! Eu tenho que encontrar minhas amigas e... – já ia andando quando perguntei. – Vocês veem comigo? – indaguei para as meninas.
— Na verdade, eu já havia combinado de me encontrar com o Hic no intervalo pra conversarmos, então... – Astrid dizia.
— E você Tooth?
— Eu não vou fazer nada, então vamos. – disse, vindo para o meu lado. – Nos vemos depois, amiga! – acenou em despedida para Astrid.
— Então vamos. Tchau, Astrid! Tchau, Hic! Fé dos sete! – berrei em despedida, já longe, pois já corria para fora do grande prédio, puxando Tooth.
E, finalmente, consegui sair para o pátio. Fui correndo procurar por elas, vai que outra coisa me distrai? Se eu não me concentrar, vai acabar que eu só vou encontra-las em casa.
Não foi difícil avistar elas. Rapunzel e Anna estavam sentadas num banquinho longo de pedra, embaixo de uma árvore e Elsa estava de pé, de frente pra elas. Elsa estava histérica. E, com certeza, dando bronca em alguém. Em Rapunzel? Em Anna? O que elas fizeram? Ninguém sabe. Descubra sexta, no Globo Repórter (?).
— Ei, gente! – berrei, ainda correndo e acenando, entusiasmada. – Tô chegando! – estava me aproximando e puxava Tooth comigo. – Cheguei! – exclamei, sorrindo com tooodos os dentes. Elsa massageava as têmporas, Anna estava emburrada e Rapunzel fitava as unhas, fazendo um bico de poucos amigos. Não gostei do que vi. – Nossa, que horror. Tooth, fica longe, vai que é contagioso.
Tooth deu uma risadinha, Elsa suspirou.
— Desculpa, Meri. Eu só estava aqui tentando pôr juízo nessa cabeça de vento. – apontou para Anna. Ah, então a bronca era pra ela. – Como foi a aula?
— Uma bosta. Mas antes... – abri a mochila e peguei as guloseimas que havia comprado a pouco. Joguei um pacote de Ruffles pra Punzie e outro pra Elsa, que agradeceram. Joguei um pacote de Doritos pra Anna, que abriu um sorriso e agradeceu com um “Valeu, Mê!”, e o outro pacote de Doritos ficou pra mim porque eu mereço, sou filha de R’hllor.
Voltei a observar minhas amigas e gostei do que vi, pois comiam e sorriam. Moral da história: comer é vida. Pesquisem no Google a palavra “comida” que irá aparecer “você quis dizer felicidade”. Comida é alegria. Amém?
Tooth nos observava sorrindo e só então percebi que não havia trago nada para ela... Poxa, que vacilo.
— Caramba, Tooth.. Comprei certinho por que nem sabia que iria me encontrar com você. – tentei me desculpar.
— Não, que isso! Não precisa se preocupar...
— Mas, ó... – estendi um monte de doces. – Pegue o que quiser.
— Não precisa...
— Pega logo, mulher! – ela riu e pegou um pirulito. – Ok, continuemos...
Elsa sentou de frente pra nós, também no gramado, se recostando no longo banquinho de pedra onde Anna e Punzie estavam sentadas, e começou a nos contar o que havia acontecido naquela manhã.
POV Tooth
Eu e Meri ouvíamos atentas a tudo que Elsa dizia.
Eu estava realmente pasma com a audácia dessas meninas. AMEI???
Quando Elsa contou que Anna havia dado um chute em um moço que, pelo que elas descreveram, concluí que fosse Kristoff, eu nem sei dizer como estava minha cara. Provavelmente um misto de surpresa e preocupação porque, não vou mentir, deve ter sido bem engraçado.
Conheço Kris há bastante tempo. Eu cresci com Jack, ele e seus amigos são inseparáveis, então consequentemente acabei por fazer uma certa amizade com os outros também.
E do tempo que conheço Kristoff, sua fama de temido – conhecido pelas muitas loucuras que se dispôs a fazer no decorrer da sua juventude, sendo o cara que pouco fala pois prefere agir – se evidencia.
Não que eu o tema, muito pelo contrário. Acho que ele teve seus motivos e vive calado por alguma razão, o silêncio é sua zona de conforto. Mas, felizmente, já participei dos raros momentos em que ele decide se permitir. Ele tem um ótimo papo e um ótimo coração. É uma pena ele se privar tanto.
E com toda essa fama de temido, cômico seria vê-lo num momento desses.
Ri baixinho, imaginando o momento dessa briga. Tooth, desde de quando se tornou tão maldosa?
Elsa dava broncas em Anna, que fazia um biquinho emburrado e sempre tentava se defender.
Rapunzel contava, num tom indiferente que o tal moreno sedução deixou de ser tão sedução assim. De quem ela está falando? Flynn? Deve ser.
Merida ria. Gargalhava aos montes e eu já acompanhava, já sem timidez com as loucuras que elas diziam e Rapunzel já proferia.
— Vai se acostumando, Tooth. Eu convivo com essas loucas 24h por dia e estou me tornando igualzinha a elas. Você é a próxima.
Eu pensava que seria bom fazer parte dessa loucura, cansada de ser tão certinha e sem graça.
O tempo do intervalo passou tão rápido. Suspirei pesadamente, devo admitir.
Caminhávamos rindo e lado a lado em direção a entrada do prédio da faculdade. Quando entramos, Elsa tomou um rumo diferente do nosso. Disse que iria à coordenação justificar seu atraso na primeira aula. Então, eu e as meninas seguimos pelo corredor na direção oposta.
Eu deveria ir para o outro prédio, junto de Merida, mais ainda temos cinco minutos.
As meninas não perceberam, mas eu sim.
Vinha em nossa direção um Kristoff furioso, junto com Flynn e Hiccup que estavam distraídos.
Já Kristoff evidentemente estava com os olhos fixos em Anna.
— Érr... meninas... – pigarreei. – Acho melhor prestarem atenção. – cochichei.
Elas olharam na direção que eu encarava e só então os perceberam.
Pude ouvir Rapunzel murmurar. – Ai, ninguém merece... – seguido de um suspirar cansado de Anna.
Kristoff parou bem na frente dela, fazendo-a olhar para cima. Gente, ela é tão baixinha. Ou o Kristoff que é muito alto? Não sei.
Anna cruzou os braços e o encarou de um jeito propositalmente arrogante. Kristoff tinha o cenho franzido, irritado. Hiccup, que até então mexia no celular, só agora percebeu que seu grupo havia parado de andar repentinamente.
— Kristoff? – ele arqueou a sobrancelha. – Estamos parados aqui... por que mesmo? – perguntou, claramente confuso. O outro não respondeu.
Merida, assim como Hiccup, estava confusa. Flynn, indiferente como sempre. Já eu e Rapunzel, estávamos estáticas, já prevendo uma futura chacina. Merda. Cadê Elsa?
*
Fale com o autor