Rising Tide
30 Amor.
Notas iniciais
Chapter Thirty.
Love
POV Hiccup.
O único som que eu conseguia discernir era o abafado pulsar em meus ouvidos e, só quando me dei conta de estar no elevador de seu prédio, eu percebi que não sabia o que fazer.
Afinal, eu diria o que?
Meu Deus do céu, eu diria o que?!
A porta do elevador se abre e, de maneira dramática, dou de cara com quem eu menos esperaria – e queria – no mundo inteiro.
Ah, não. Poderia ser qualquer um! Menos ele, porra!
Dagur.
Sinto minhas têmporas latejarem ao percebê-lo limpo, com o rosto coberto com ataduras recém-colocadas.
Ela cuidou dele.
Ela.
Antes que ele pudesse abrir a boca pra dizer algo, visto que era o que ele pretendia, dado o sorriso irônico ao me ver, mal consegui reprimir os xingamentos entredentes. – Tá fazendo o que aqui, seu miserável imbecil...
— Legal, já acabou? – ele arqueou uma sobrancelha, mas parecia um tanto cauteloso, o que é incomum. – Não vim aqui pra isso.
— Ah, é claro que não veio. – ironizei com veemência, o que o fez franzir o cenho.
— Eu não vim aqui pra te provocar. Eu não vim aqui pra tentar algo com ela ou me aproveitar da situação. Eu vim porque eu sei que não conseguiria dormir se fosse pra casa hoje sem me desculpar com ela.
Cruzei os braços. – Ora quem diria, ele tem um lado sensível.
— E você tem um lado babaca. – crispei os olhos.
— Disse o cara que, além de babaca, é mentiroso. – com uma sobrancelha arqueada, eu o mirei com toda a desconfiança que consegui reter. – Não tentou se aproveitar da situação e no entanto está aqui, muito bem medicado.
— É isso que te incomoda então? O fato de ela ter cuidado de mim? – ele sorriu em deleite com isso. – Você parece não conhecer a mulher por quem é apaixonado, querido primo. Responda-me, quando Merida permitiria que alguém saísse daqui debilitado e machucado, sem ao menos um remédio para a dor? – franzi o cenho, incomodado por ele estar certo. – É o jeito dela. – ele sorriu óbvio com isso. – Você e eu... Sabemos disso. – ele enfatizou o “eu”, que filho da puta. – E se quer saber, eu não pretendia nada...
— Tudo em você grita pretensão. – murmurei entredentes.
— E eu não posso fazer nada quanto a isso. – ele suspirou, debochado. – Na verdade, quanto a sua desconfiança, eu não estou nem aí. – de repente, percebo seu semblante pensativo e cauteloso novamente. – Mas ela nunca mereceu algo assim. – pode ser coisa da minha cabeça, mas ele por um momento pareceu envergonhado. – É um alívio ela ter me perdoado... – suspirou, parecendo esquecer de minha presença ali, mas quando tornou a me fitar, seu cenho franziu. – Então, que fique claro, eu não dou a mínima se você acredita ou deixa de acreditar. E vê se para de bancar o sonso, como se não soubesse que ela jamais ficaria comigo por causa de você. – tentei reprimir o olhar surpreso, mas acabei falhando. Droga. Dagur notou, sorrindo irônico. – Eu não acredito. Você é uma comédia.
Franzi o cenho. – Parece que puxamos o mesmo lado da família, quanto a isso. – seu sorriso se desfez na mesma hora.
— Vai se foder. – e lá se vai sua postura de ironia inabalável.
Dei um sorriso tranquilo que, para Dagur, soou como um ultraje. – Mande lembranças ao seu pai por mim.
— Pode deixar, direi a ele que peguei sua namorada.
— Como eu disse, mentiroso.
— Não é como se fossem acreditar no que realmente aconteceu, né companheiro? “Impossível! Hiccup é tão calmo e comedido, jamais faria isso.” – zombou na cara dura. – Se eu disser que peguei ela, talvez acreditem... – pontuou ele, serenamente e foi a minha vez de ficar irritado. Escuta-lo referindo-se a Merida dessa maneira me deixava bastante incomodado.
— Essa sua cara de pau não tem limites. Mais uns hematomas aí, talvez resolvessem esse problema.
— Nossa, olhem só... – ele riu, escandaloso. – Me deu uma surra uma única vez e já se sente o Mike Tyson. – ele chegou mais próximo a mim, apontando para um local em meu rosto antes de eu abaixar sua mão rudemente. – Não é como se você tivesse saído ileso.
Antes que eu pudesse responde-lo, uma porta lilás se abrira. – As paredes são finas, poderiam falar um pouco... – seus olhos se arregalam ao me ver – Hiccup?!
O elevador apitou, chamando minha atenção antes de abrir-se em seguida.
Quando virei-me novamente para Dagur, ele já seguia calmamente ao interior do elevador. – Até a próxima, primo.
— Espero que não. – murmurei sem fita-lo, pois já dispunha de toda minha atenção ao rosto de Merida, que ainda me fitava atônita. Caminhando em sua direção rudemente, ela recuou um passo enquanto piscava continuamente, incerta sobre essa minha reação. – O que ele estava fazendo aqui?
Seus olhos, eu percebi, tinham um mesclar de surpresa e uma breve alegria, mas logo pareceu confusa ao perceber a grosseria em minha voz.
Ela arqueou ambas as sobrancelhas e cruzou os braços. – O que você está fazendo aqui?
Senti o sangue fugir de meu rosto. Eu vim por um motivo... Né? De repente, todas as palavras fugiram de minha mente, deixando um branco angustiante, ai que porra (?). – E-eu... Eu vim me desculpar. – improvisei.
Ela descruzou os braços, pensativa. Abrandando a feição, ainda parecia confusa, mas relevou. – Pois bem, foi o que Dag veio fazer também.
Meu sangue ferveu novamente. – Dag?! — indaguei com aspereza. – Agora ele é o Dag?! Foda-se o Hic então, né?! É por isso que você não me chama mais pelo apelido, porque agora, você tem o Dag! – o fato de ela estar sorrindo admirada e incrédula com tal situação me deixou ainda mais irritado.
— Não te chamo mais pelo apelido porque, se bem me lembro, você tem uma namorada bem ciumenta que não gostaria nada de presenciar tanta intimidade entre você e eu... – ela falava calmamente.
— Eu venho aqui com o meu coração aberto enquanto você cuida daquele imbecil... – murmurei irritadiço, mal prestando atenção no que ela dizia tamanha a indignação que eu sentia.
— Não fala assim dele.
— Oh, me desculpe. Jamais me atreveria a falar assim do Dag. – murmurei num deboche incomum, o que a fez crispar os olhos. – Aposto que você nem se prontifica a me defender quando ele me xinga, porque eu sei que ele faz!
— Eu nunca permiti que ele te ofendesse!
— Aham, acredito.
Ela grunhiu irritada, algo que soou muito fofo. – Decretei logo nos primórdios da nossa amizade! Quando ele soube que eu vinha passando por maus bocados por causa de v... – ela se interrompeu repentinamente.
Crispei os olhos. – Por causa de quê, Merida?
— Não interessa. – cruzou os braços e a petulância retornou novamente. – Reclama por eu ter cuidado de Dagur, mas estava lá, nas bondosas e prestativas mãos da Astrid. – ela gesticulou, destilando ironia.
Foi a minha vez de ficar incrédulo, mal percebendo o quão boquiaberto estava. Ah, é... Aquilo, com toda certeza, foi uma reação que me pegou de surpresa.
Sorri de lado e, admirado, indaguei. – Está com ciúmes, Cabelos em Chamas? – Merida ficou vermelha como um pimentão.
Desviou os olhos dos meus, como quem havia sido pega no flagra, e meu sorriso se intensificou. – N-não se pode ter ciúme do que não tem.
Meu sorriso abrandou-se, mas não se desfez. Eu discordava dela totalmente quanto aquilo. Tenho ciúmes absurdos dela, sou louco por ela, e ela nem sabe disso! Por longos minutos, eu a observei, agraciado com o rubor em suas bochechas. Eu nunca me cansaria disso.
Ela erguera o olhar, depois de muito pensar, e nos encaramos – percebo um resquício de mágoa ali e, subitamente, irritação, antes de ela desviar, quebrando o contato visual. – Deveria voltar, sua namorada deve estar bastante preocupada com você.
— Ex.
Crispou os olhos ao me encarar. – O quê?
— Ex-namorada.
Segundos longuíssimos correram enquanto ela me encarava pasma. Quando aproximou-se, lentamente descruzou os braços. – O que cê tá falando, Hiccup?
— Terminamos.
— Por... Por quê?
Dei um sorriso de lado, de repente, incapaz de encara-la. – Não é o que eu quero pra minha vida...
— Ela foi o que você quis por anos, Hiccup...
Fitei seus olhos. – Falou certo. Ela foi.
Resfolegou, ainda incrédula, passando uma das mãos na testa. Aquilo me fez sorrir. – Você... Você é meio louco, né? (?)
— Por você, com certeza. – sorri sem fita-la, conseguindo, ainda assim, notar o rubor em suas bochechas.
— E o que pretende agora? – sua voz era baixa e comedida, tão tímida que eu não consegui evitar fita-la.
A encarei com mais afinco e ela percebeu a plenitude do meu olhar. Sua postura empertigou-se diante da minha. Ela parecia tímida, pequena e vulnerável – coisa que de uns tempos pra cá vinha se tornando raro de ver. Mas eu queria que ela sentisse a significância das minhas palavras. Sua feição concentrada em meus olhos me agradou em demasia. – Pretendo lutar pela mulher que eu quero. – dei vagarosos passos em sua direção e meu coração se encheu de alívio quando ela não recuou. – Não desistir em reconquista-la, porque ela, sim, vale todo o esforço...
— Hiccup... – ela falou num sussurro entrecortado, sem desviar os olhos dos meus, mas eu pude notar ali uma incomum desconfiança. – Você sabe o que tá fazendo?
Tentei evitar uma curta risada irônica, mas foi impossível. – Acha que não sei o que estou fazendo?
Eu não consegui acreditar no que estava ouvindo. Eu poderia ter ficado irritado – e na verdade, bem no fundo, eu estava –, mas não havia porquê culpa-la por agir assim.
Neguei com a cabeça por um breve momento, meus olhos ainda crispados em sua direção, um breve resquício do sorriso irônico ainda em meu rosto. O atrevimento, à frente da desconfiança, passou a crepitar em seus olhos azuis ao perceber minha ironia, uma das sobrancelhas desaforadamente erguidas... E foi a partir dali que tomei tal decisão.
Mostraria a ela minhas pretensões de uma forma peculiar.
Murmurei da forma mais minaz possível. – Permita-me mostra-la o quanto estou certo de minhas ações...
Percebendo na mesma hora que meu tom de voz a havia afetado, dada a mudança drástica em seu olhar, avancei a pequena distância que nos separava, segurando com firmeza seu rosto e a beijando, ansioso por aquela mesma sensação louca e viciante...
Eu não aguentei. É muito difícil pra mim manter-se em controle perto dela, isso é um fato. Mas deparar-se com ela receosa, sua boca entreaberta em surpresa, as sobrancelhas ruivas franzidas sobre os olhos azuis questionadores, o rubor nas bochechas – não soube dizer se era por ainda estar brava ou por me ver, de qualquer forma, me irritava o fato de eu estar aqui, bem dizer, aos pés dela, dizendo coisas que eu nunca me imaginei dizendo pra nenhuma mulher, nem mesmo para a outra lá, e ainda assim Merida conseguia desconfiar da veracidade disso...
É. Ela aprendeu a se proteger, Hiccup. E me peguei surpreso ao concluir que aquilo me fascinava em demasia – fato que me fez inclinar para a frente de modo espontâneo e ávido, como se ela fosse fugir ou se afastar de mim... Como vinha acontecendo nesses penosos últimos dias.
Estar irritado com a dúvida dela só contribuiu para isso.
Ela relutou, em surpresa. É claro que relutou. Mas eu não estava disposto a me afastar e em poucos segundos, senti ser correspondido... E a partir daí eu não quis mais parar.
Afundei os dedos entre seus cachos, agarrando sua nuca enquanto a guiava da melhor forma que consegui para além da porta lilás ainda escancarada, isso tudo sem cessar o beijo. Uma vez dentro de seu apartamento, não consegui conter o instinto de prendê-la no espaço entre meu corpo e a parede mais próxima, ainda temeroso com a possibilidade de ela fugir de mim... Eu precisava dela. E eu precisava que ela me escutasse... Com isso, agarrei sua cintura firmemente, puxando-a contra meu corpo.
No momento em que ela subiu as mãos pelos meus ombros, afundando-as em meus cabelos e puxando, eu pensei...
Se continuar assim, eu não vou conseguir parar nunca mais...
Juntando todas as forças dentro de mim, me afastei, e a distância que fui capaz de alcançar mesmo com todo esse esforço foi... Mínima. As pontas de nossos narizes ainda roçavam um no outro, as respirações ofegantes se mesclavam a cada suspiro. Eu não aguentava mais ficar longe dela. — Você entende agora? – murmurei, com os olhos fechados. – É você quem eu quero. – eu deveria fitar seus olhos, mas tonaria a beija-la se abrisse os meus – e não sei se terei forças, tampouco vontade para parar dessa vez. – Fica comigo. – ela suspirou e, relutante, fitei seu rosto, suas sobrancelhas juntas deixando claro o quanto estava confusa.
Hesitante, ela abriu os lábios em busca de uma reposta. Fitava meus olhos intensamente, e negava com a cabeça de forma lenta. – Hiccup, eu... – tomei seus lábios nos meus novamente assim que ouvi sua voz.
E ao me afastar, pedi mais uma vez. – Fica comigo, Merida.
— Hic... – o sussurro viera entrecortado quando, de novo, eu a interrompia – dessa vez, com um longo selinho.
— Shhh. – acariciei seus lábios com a ponta dos dedos. – A última vez que discutimos isso, você falou e eu só ouvi. Dessa vez, você vai me ouvir. – segurei seu rosto em minhas mãos e ela me fitou intensamente, apoiando as mãos em meu peito. – Eu assisti você deslizando por entre meus dedos e não fiz nada para impedir isso. Uma vez que eu cometi esse erro e me arrependi profundamente, não tornarei a repeti-lo. Não mesmo. – minha voz saiu firme ao fim da frase. – Eu quero ficar com você... – sussurrei e beijei sua testa delicadamente. – Abraçar você... Eu quero beijar você sempre que quiser. – beijei seus lábios demoradamente, mantendo em seguida minha testa colada à sua. – Eu quero acariciar seu rosto. Sentir seu cheiro. Brincar com os seus cachos... – passei a mão pelo seu rosto, descendo pelos seus cabelos e puxando um cachinho, sentindo meu coração palpitar um tanto mais forte ao ouvir sua risadinha fofa. – Eu quero ouvir sua voz, sua respiração, o som da tua risada, apreciar seu sorriso e ser o motivo dele... Assim como você é o motivo do meu. – me perdi naquela imensidão azul quando ela me encarou. – Eu quero ficar com você, Merida. E se você me disser não, tudo bem... Mas devo alerta-la que nada vai me impedir de lutar por você. – pausei, apreciando o brilho dos seus olhos, que me fitavam compenetrados. Os cílios úmidos pelas lágrimas, o nariz afilado e as bochechas enrubescidas... As sardas, as sobrancelhas, a boca rosada e entreaberta. Eu poderia ficar o dia inteiro olhando para ela. Suspirei, me apossando de cada detalhe, guardando-os na minha mente... Eu temia não tê-la perto assim por muito tempo. Ela me tinha em suas mãos. A decisão era dela. O decreto final viria de seus lábios. E enquanto ela me fitava ansiosa, eu juntava a coragem dentro de mim para essa questão que, graças a isso, saiu num sussurro. – Fica comigo?
POV Elsa.
O clima em nosso lar estagnava-se de maneira tão aflitiva quanto o recente clima entre eu e Jack – ainda que entre nós, as coisas estivessem mais tensas do que aflitiva, eu vinha tentando colocar em minha cabeça que aquilo não me preocupava, tampouco me afetava.
Mas se tinha algo que realmente vinha mexendo comigo era a situação da Tooth.
Uma notícia triste; sua avó viera a falecer.
Uma recaída, uma complicação... E logo, sua morte. Eu só ficara sabendo dias após o ocorrido, isso porque acabei por descobrir sozinha, ao estranhar o comportamento recluso de Anna – única a qual Toothiana confiara a, até então, secreta notícia do falecimento de sua avó.
Tooth chegaria amanhã de viagem, partiria assim que o funeral terminasse. Com isso, Anna resolvera deixar as meninas preparadas, dando a notícia do triste ocorrido para Rapunzel e Merida.
Punzie lamentou, assim como eu e Anna. Porém, Meri foi a que mais se comoveu com a situação. E logo após minutos a fio sentada no balcão, concentrada em seus pensamentos, correra para a varanda – onde o Sr. e a Sra. DunBroch conversavam distraídos sentados sobre um dos sofás de fibra sintética que decoravam o lugar, no tempo que Angus dormia confortável aos seus pés – surpreendendo os dois com um abraço apertado.
Ao sair para a faculdade, ela os abraçou novamente, beijando a testa de cada um dos três irmãos em seguida – e se viu amuada pelo resto do dia.
Havendo apenas nós duas ali – visto que Anna seguira um caminho diferente, junto de Punzie –, sentadas sobre uma das balaustradas dos corredores externos da Universidade, esperando dar a hora para seguirmos para as salas, eu pude ouvi-la admitir ter se colocado no lugar de Tooth, imaginando sua dor – o que não me surpreendeu, de certa forma.
Tentei consolá-la, visando o bem-estar de Meri, no entanto, eu mesma não estava nos meus melhores dias, então terminei por falhar miseravelmente. Quando Hiccup chegara em nós, minutos antes do horário de entrada, ela até tentara melhorar sua feição para disfarçar, ainda que ele já soubesse o que havia ocorrido.
Mas ele notou, no exato momento em que fitou seu rosto – eu percebi.
Pude vê-lo murmurar palavras de conforto para Meri, que levantara, indo ao seu encontro, e, embora eu não estivesse escutando – minha mente estava longe –, vê-los juntos me fazia sorrir.
Depois de segundos a fio em conversa, Meri erguera hesitante o queixo para fitar-lhe o rosto quando ele anunciou ter de seguir para sua ala. Hiccup segurara o rosto dela, a encarando por uns segundos antes de beijar sua testa, com carinho. Foi a primeira vez, naquele dia, em que a vi sorrir. – Vai ficar tudo bem, okay? – pude ouvi-lo dizer.
Antes de sair, beijou-a nos lábios brevemente, acenou na minha direção e seguiu para longe.
Meri retornou ao meu lado, com um sorriso tímido no rosto. – Sente-se melhor? – indaguei com sinceridade e ela anuiu em concordância. – Que bom, Meri.
— Ele me pediu para te pedir uma coisa. – dizia, abrindo um pirulito e o enfiando na boca. Arqueei uma sobrancelha, esperando que ela continuasse, quando ela me lançou um olhar preocupado. – Pediu para que você tente conversar com Jack.
Por um momento, eu não disse nada – mas consegui sentir o sangue fugir do meu rosto. Minha mente estava longe todo esse tempo, mas estava concentrada em alguém específico.
Toothiana chegará amanhã de manhã e está péssima com a perda que sofrera em sua família. Se tem uma coisa que eu não quero é piorar sua situação com a notícia de que seu amor de infância está se envolvendo com uma de suas amigas a qual ela tanto confiara – eu mesma!
Eu vinha maquinando há dias um jeito de dar um fim nisso que eu havia começado com Jack – e considerando o fato de ele ser esperto até demais, já era de se esperar ele perceber que algo estava errado, embora até hoje não ter me questionado nada.
E mesmo com todo o esforço que eu fazia para mantê-lo longe, era como se forças cósmicas me empurrassem para perto dele das formas mais absurdas – tipo agora.
— Hiccup quer que eu... Fale com o Jack? Como assim, por que?!
Meri deu um longo suspiro. – Sabe da forte amizade entre a família Fairy e Frost, né? Não é à toa que Jack e Tooth são amigos de infância... – anuí lentamente. – Então, Jack meio que foi criado pela avó da Tooth... E ele soube ontem que ela falecera. – de repente, uma preocupação intensa tomou conta de mim. Oh, meu Deus... Ele deve estar péssimo.
A mãe de Jack teve complicações durante seu parto, o que ocasionou seu falecimento, então Jack cresceu sem mãe... Lembro-me do dia em que ele me contou sobre isso, não parecia afetado pois, ainda assim, seu pai se esforçava para ser sempre presente – e tinha sucesso nisso. A amizade com a família Fairy fez de Jack um filho para eles, tanto quanto Tooth era como uma filha para o Sr. North, e nas vezes em que viajavam, sempre visitavam a avó de Tooth.
Jack já havia mencionado comigo uma vez o quanto era apegado àquela senhora, mas ele sempre fora tão recluso em relações a perdas... E também, a admitir sentimentos mais profundos, sejam eles quais fossem.
— O Sr. North viajou ontem às pressas para chegar a tempo pro funeral. Jack não dorme desde então... Não é à toa que você não o encontrou na faculdade hoje. – Meri continuou e, na verdade, eu ainda não havia notado isso, afinal, havíamos chego há poucos minutos. Virou-se para fitar meus olhos. – Ele não fala com ninguém desde ontem, Elsa.
Ele não me mandou mensagem hoje – isso eu notei. Ele sempre me manda mensagem, ainda que eu venha evitando responder. De repente, me senti péssima, dividida... Desorientada.
O que eu faria?! O consolaria – o que o levaria a pensar que está tudo bem entre nós e foda-se a Tooth? Ou continuaria o evitando – deixando-o sofrer sozinho, para evitar que as coisas emaranhassem-se ainda mais agora com a iminente chegada de Tooth?
Ah, meu santo Odin, o que eu faço da minha vida?!
— Já pode me contar o que está havendo, não? – a voz de Meri indagou e eu percebi seu olhar preocupado. Oh, merda. Fui flagrada.
Dei de ombros, na maior cara de pau. – Eu só estava pensando em algo não muito importante...
— Não se atreva a fazer isso. – arqueou uma sobrancelha. – Não vai achando que é só montar a sua feição mais impassível assim do nada que cê vai me deixar confusa, fazendo-me acreditar que estou vendo coisas onde não tem. Pode parar! Comigo, isso não cola. – ai, meu Thor amado. Socorro. – Okay. – ela suspirou, parecendo perceber minha feição nervosa, e tocou meu ombro. – Quando quiser me contar, estou aqui. – sorriu e já fazia menção de levantar-se.
— Tooth ainda gosta do Jack, Meri.
Ela parou na mesma hora, virando-se para mim, encarando-me com os olhos um tanto arregalados. – E isso é um problema. – não indagou; afirmou.
— Pois é. – abaixei a cabeça, escondendo meu rosto entre as mãos. – E mesmo que eu só tenha descoberto isso depois do ocorrido, admito que eu tive tempo de me afastar dele.
— Eu não concordaria com isso, mas conhecendo você como conheço, estou surpresa em saber que não o fez... O que aconteceu?
— Meri, eu tentei... – a encarei novamente. – Eu tentei. Tentei pra caramba! Mas... – suspirei, antes de continuar, percebendo não conseguir manter o olhar em seu rosto, envergonhando-me dessa minha tentativa falha. Mordendo os lábios, contrariada, neguei com a cabeça levemente, tornando a fitar o chão. – A princípio, eu achava que ele era só... Um cara. Jovem, rico, na faculdade, absurdamente lindo e interessado por mim graças ao seu traço mulherengo. Só um cara. – dei de ombros, rindo sem humor. – E o que eu seria para esse cara? Isso mesmo, apenas mais uma garota. – um sorriso triste se manteve em meu rosto quando fitei Meri de esguelha. – Creia, Meri... Eu estava disposta a lidar com isso da melhor forma possível. Ainda que esquivar de suas investidas estivesse tornando-se cada vez mais difícil, não havia como negar a mim mesma que eu também o queria. – dei um longo suspiro. – E olha que eu tentei! – Meri deu uma risadinha. – Era um fato. Mas se a situação se tratava de apenas um cara, eu seria para ele o que ele seria para mim. Logo acabaria, certo? E eu com certeza estaria preparada quando ocorresse... – tentei soar segura, no entanto, falhando mais uma vez. Dei uma curta risada, sem humor algum. – Até ele acabar com todo o meu preparo. – Meri fitou-me com os olhos preocupados. Meus olhos perderam o foco à medida que eu acessava as lembranças que eu tive ao lado dele. – Que tipo de cara esquenta suas mãos e escuta seus impropérios sem se ofender e com a compreensão de um amigo de anos? Que espécie de cara é esse que não se atreve a te deixar ali sozinha, apodrecendo no seu cantinho de preocupações e paranoias, onde você com certeza não o incomodaria, é claro, se ele não se preocupasse com você? Que tipo de cara é esse que te ouve como se te entendesse, fala como quem soubesse o que dizer e, muitas das vezes, não diz nada pois entende o seu silêncio? Que é paciente e te aconselha quando acha que precisa? E ele sempre sabe quando você precisa... – mal percebi, estava sorrindo. – Eu acreditava que... Jack era a personificação exata do cara que eu queria longe da minha vida; imprudente, irresponsável, frívolo, conquistador... – neguei com a cabeça brevemente. – Mas acabei descobrimento que ele era... – não consegui evitar sorrir novamente. – Ele era exatamente o que eu precisava. – percebi o olhar admirado de Meri e dei um suspiro. – Não se engane, ele não faz planos. Muito menos promessas. Só... Surpresas. Ele me ensinou a gostar de surpresas e... – perdi o foco. – Não foi a única coisa que ele me ensinou. Eu diria que... Ele salvou minha vida, se não soasse tão dramático. – encarei o rosto de Meri. – Eu só finjo que tudo aqui é muito organizado e sorrio para manter a aparência de que eu sei exatamente o que estou fazendo ao afastar as pessoas de mim, mas a verdade é que... Eu não sei de nada. E eu permiti que ele entrasse, Meri, nessa bagunça que é a minha mente. Permiti que ele entrasse, coisa que não permiti que nenhum cara fizesse desde... Phillip. – engoli em seco. – Entende isso? O avaliei como apenas um cara e à medida que o tempo foi passando, percebi o quanto havia me equivocado... E agora... Eu não faço a mínima ideia do que ele é pra mim, tampouco se tenho algum controle sobre a situação ainda e, Santo Odin, eu tô falando coisa com coisa! – ri de nervoso (?), jogando as mãos pro ar de forma exagerada.
Meri segurou minha mão. – Se tem uma coisa que eu tenho certeza, Elsa... É que ele não é só um cara. – não consegui evitar uma risadinha, o que a fez sorrir. – Sei como é isso. Você sente, no fundo sente, que ele será importante na sua história, tanto quanto você será na dele, independente de tudo que estiver pra acontecer. Porque ele não é só um cara, El, acredite... – seu sorriso tornou-se compreensivo e acolhedor. – Ele te faz feliz.
Senti minha boca secar com aquela constatação sendo jogada na minha cara. – Ai, eu não acredito... – afundei meu rosto entre as mãos de forma dramática.
— O que foi, Elsa?! – Merida segurou meu ombro, preocupada.
— Eu não acredito que caí no conto (?).
— Conto?! Que conto, mulher?!
— O conto do Canalha Bonitão da Faculdade.
Merida dera uma risada tão estridente, que o campus inteiro fora capaz de ouvir. – Ai, El, só você... – dizia limpando uma lágrima, enquanto eu a fitava da fresta entre meus dedos, envergonhadíssima. – Eu tenho certeza que você não caiu em conto nenhum, louca.
Fitei seu rosto num súbito. – Como não, Meri?! – Meri arregalou os olhos, assustada. – Vai me dizer que você também não suspeita que ele faz isso com qualquer uma? – eu precisava que ela dissesse sim.
— Não. – respondeu tranquila, ô porra.
— Merida... – choraminguei e ela manteve-se impassível.
— Tá na cara que ele se importa com você, Elsa, deixa de ser cegueta, mulher! Acorda pra vida! – Meri só faltou me bater com um rolo de jornal.
— Mesmo que fosse verdade, Meri, compreenda... – dei um longo suspiro. – Eu não posso permitir isso. E quanto a Tooth?! – ela pareceu, enfim, lembrar-se desse fator complicado, piscando continuamente e desviando o olhar em seguida. – Ela é minha amiga! Eu me sinto... A pior das pessoas. Egoísta. Falsa. Sendo feliz ao lado do mesmo cara que é o amor da vida da minha amiga.
— Elsa, as coisas não são bem assim...
— São exatamente assim, Meri!
— Não são, não, amiga! Alô, Inglaterra! Não é como se a Tooth fosse dona do Jack!
Neguei com a cabeça. – Eu preciso dar um fim nisso.
— Elsa...
— Isso não pode continuar. Tá passando dos limites.
— Então para de impor limites! Você merece ser feliz, caramba!
— Merida, eu já me decidi. – ela deu um longo suspiro resignado.
— Tudo bem, então. – colocou as mãos nos quadris. – E como pretende dar um fim nisso se toda vez que você está com ele, ele te faz esquecer de tudo o que não importa?
E ali, eu me vi sem palavras diante de minha melhor amiga.
Os segundos correndo enquanto eu buscava, sem muito sucesso, por uma resposta cabível. Em minha mente, a imagem de Jack... Triste, desolado e sozinho em casa. Meu coração apertou e eu mordi os lábios com a dor e a incerteza.
De um lado, Jack.
Do outro, Tooth.
Eu me importava com ambos, mas feria um se optasse pelo outro...
Havia um lugar onde meu coração insistia em querer ficar. Pulsava intensamente, como que me forçando a seguir na direção que ele pede... Mas eu... Eu...
Eu nunca antes me senti tão impotente.
— Eu preciso tentar... – minha voz saíra tão falha, que suspeitei que Meri nem tinha escutado.
— Pois tente depois. – tornei a fitar o rosto de Meri e a percebi sorrindo para mim. Em suas mãos, a chave de seu carro – cujo o qual ela estendia em minha direção.
— O que-
— Ele precisa de você. – disse ao me interromper. – E eu sei que você precisa estar lá com ele.
Meus olhos fixaram-se nas chaves do New Beetle amarelo. Minha mente gritava o nome de Jack. Ainda que eu me forçasse a negar isso... Ele significava muito pra mim.
Ergui uma das mãos, agarrando as chaves entre meus dedos e me levantando num súbito. O sorriso de Meri se intensificou e, ainda que eu me sentisse um tanto trêmula... Eu estava decidida.
Um breve receio cruzou minha mente. – M-mas e você? Como vai voltar pra casa?
— Ah, não se preocupe. Eu pego uma carona com o Hic. – não consegui evitar sorrir. – Vai lá. Eu te dou cobertura.
Ela sorriu quando a agradeci com um rápido abraço antes de seguir caminho até o estacionamento onde eu, a pouco, havia chego. Meus passos seguiam rápidos e precisos, eu temia que essa determinação ruísse assim que o fato de eu ter de faltar aula se fixasse como algo imprudente de minha parte, fazendo-me desistir do que eu pretendia, mas acabei surpresa ao perceber que... Minha vontade e anseio em vê-lo continuava intacta, mesmo com isso.
Logo tomei as ruas dentro do pequeno carro de Meri, numa velocidade incomum...
Seguindo em direção a minha ruína.
●
Os arredores da casa estavam em completo silêncio, só o que dava pra ouvir era o som dos meus passos sobre as vigas da varanda da frente. As batidas na porta soaram mais altas do que eu pretendia, dada a quietude incomum naquele lugar.
Decidi que usaria campainha e, no terceiro pressionar, a porta fora escancarada sem aviso prévio, nenhum “já vai” ou algo parecido.
Os contornos de seus olhos estavam avermelhados, assim como a ponta de seu nariz, o que contrastava em demasia com seu tom de pele. Ver o azul de suas írises, que sempre me aqueciam com seu brilho alegre, agora tão opacas e soturnas fez meu coração apertar e eu tive de me conter para não avançar a pequena distância entre nós e guarda-lo num abraço.
— Linda? – as sobrancelhas claras pesaram sobre os olhos, numa reação surpresa e transtornada. Até que logo passou a ser preocupação. – O que houve? Eu não sabia que viria, eu... Aconteceu alguma coisa? Você está bem?
Até tentei, mas não consegui evitar o sorriso triste. – Está perguntando isso pra mim?
Por um breve momento, o vi arregalar os olhos antes de pisca-los continuamente. Seus lábios franziram-se numa linha fina quando ele engoliu em seco, evitando me olhar. – Então você...
— Sim.
Suspirou, ainda evitando me olhar, e abriu espaço para que eu entrasse, sem dizer absolutamente nada. Passei por ele, o encarando com preocupação, mas Jack ainda insistia em não me fitar.
A casa estava impecavelmente arrumada, como se ninguém estivesse nem mesmo morando ali e com isso, suspeitei que ele estivera todo esse tempo trancado no quarto. Não havia louças na pia, o que me fez pensar que ele estava sem comer. Quando virei-me em sua direção novamente, ele encarava o chão, as mãos nos bolsos da calça de moletom escuro, o olhar perdido...
Avancei o espaço entre nós, parando a sua frente. – Como você está? – indaguei num sussurro, erguendo o olhar para fitar seu rosto.
Senti-me uma estúpida, afinal, que tipo de pergunta era essa?
E depois de minutos a fio sem me encarar, ele me fitou com intensidade. Meus olhos encontraram os seus, cheios de angústia e sofrimento. O sentimento de perda de alguém querido. A sensação de estar a sofrer sozinho.
Ele não precisou dizer nada.
Agarrei sua nuca, puxando-o para mais perto, afundando os dedos em seus cabelos, acolhendo-o num abraço. Segurava minha cintura com dedos trêmulos, apertando-me de maneira urgente, quase desesperada – no tempo que apoiava o rosto em meu ombro.
Lágrimas umedeciam o tecido de minha blusa.
Eu só precisava estar ali.
Com ele.
Lhe dizendo, por meio de atos, que ele não precisava sofrer sozinho.
E que eu estaria aqui, quando precisasse.
Deus... Vê-lo daquele jeito estava acabando comigo.
E quando percebi, eu estava em prantos... Lágrimas que molhavam a pele de seu peito desnudo.
●
Sobre o grande sofá retrátil, que estava aberto, eu me pus ao seu lado e o escutei o resto da tarde.
Ele me contava inúmeras historias, ainda com um sorriso triste no rosto. Historias da sua vida, da época de menino, quando passava mais tempo com a família de Tooth. A época que ele precisava muito de uma mãe e encontrava essa mãe naquela senhora.
O tempo passara, ele crescera, viajara pelos estudos ou até mesmo pelo simples prazer de viajar e, apesar de ter se distanciado, nunca deixou de amar aquela mulher.
E jamais deixaria.
Ele nunca, em todos os meses que estamos juntos, se abrira de tal maneira para mim.
Com um sorriso saudoso ele dizia que chegara a se oferecer para ir junto de Tooth, mas tanto o Sr. North quanto a Sra. Fairy negaram, por conta das aulas.
Ele queria ter ido. E, parando pra pensar, eu também queria que ele tivesse ido. Embora não tivéssemos vivido nem metade do que vivemos juntos nesses últimos meses, ele teria se despedido de maneira adequada...
Enquanto eu mergulhava em devaneios, mal percebi que Jack havia cessado seu desabafo. Ele levantou-se, seguindo até o andar de cima em direção ao seu quarto – informando que iria tomar uma ducha rápida.
Aproveitando a deixa, me desloquei para a cozinha, onde preparei um prato simples com as coisas que encontrei na geladeira. Não tive muito trabalho, visto que já tinham prontos o purê de ervilha, a salada de aspargos envoltos em presunto e o risoto.
Tudo o que precisei fazer foi esquentar o risoto, fritar o frango crocante, já temperado – aproveitei também para fritar algumas batatas, visto que Jack ama batata frita.
Caprichei na hora de servi-lo, pois eu sabia que ele não havia comido nada até agora.
— Desde quando você não come? – indaguei ao percebe-lo adentrar a cozinha sem nem precisar olha-lo. O frescor de banho-recém-tomado pairando o ar já falava por si só.
— Não se preocupe com isso, linda. – deu de ombros, sentando-se numa das banquetas do balcão.
— Você precisa se alimentar, toma. – coloquei o prato de comida a sua frente e ele me fitou como quem estivesse prestes a me desafiar. Cruzei os braços, arqueado uma sobrancelha. – Se não comer, não vai ter beijo. – na mesma hora, uma sequência de garfadas cheias de purê seguiu direto para a sua boca. Ele ainda fez questão de murmurar um “hm, tá uma delícia”. Dei uma risadinha. – Bom garoto.
— Sou um cachorro, agora?
— Você sempre foi.
Ele ponderou, dando de ombros logo em seguida e voltou a comer. Com o celular em mãos, eu o fitava de relance para me certificar de que ele ainda estava comendo – o que de fato ele fazia, só que, agora, um pouco mais devagar. Percebi o tom escuro abaixo de seus olhos e desconfiei que da mesma forma que ele não havia comido, ele também não havia dormido.
Jack parecia distraído e também parecia estar de fato apreciando o sabor da comida – aquilo me trouxe um alívio tremendo, considerando o fato de que ele estava sem apetite algum.
Agora, tudo o que eu precisava era fazê-lo dormir um pouco...
Ele me fitou, entretido enquanto mastigava, mas logo pareceu subitamente admirado ao focar o olhar em mim com mais afinco, parando lentamente de mastigar.
A curva de seu lábio voltou-se maliciosamente para cima. – Está sorrindo enquanto me encara.
Arregalei os olhos. Merda! Fui flagrada! Abortar! Abortar missão! (?)
— O q-quê?! E-eu só... E-eu só estava... Lembrando de uma coisa muito engraçada... – comecei a rir de nervoso, levantando-me que nem uma songa-monga (???). – Eu vou ali, tá? Fazer... Vários... Nada... – e fui saindo, disfarçando da maneira mais imbecil.
Jack pareceu inquieto. – Espera! Não vai embora, né?
Fitei seu rosto por alguns segundos e sorri. Acariciei seu ombro quando passei por ele, seguindo para a porta da cozinha. Não, Jack. Eu não vou embora. Eu preciso estar aqui com você.— Vou te esperar aqui na sala.
— Ah... – aliviou-se e voltou ao seu prato.
Minha prioridade agora era fazê-lo se sentir bem. Bom... Torço para estar conseguindo atingir meu objetivo. Tornei a checar as notificações no celular, já sentada confortavelmente sobre o sofá retrátil ainda aberto.
Respondi as mensagens de Meri e aproveitei para indagar se ela já chegara em casa, junto das garotas... Não obtive resposta, na verdade, ela nem chegara a visualizar.
Com a visão panorâmica, eu percebi Jack seguindo até o banheiro. Os últimos dias fizeram de mim uma quase perita em relação a ele, quando o assunto se tratava de hábitos. Eu sabia que ele se negaria a dormir e ele precisava descansar, então bolei um plano.
Me estiquei até minha bolsa, tirando dali o fone de ouvido do celular. Já com o aparelho em mãos, selecionei uma das minha inúmeras playlists...
Notei Jack retornando do banheiro, enquanto secava a boca com uma toalha, e já fui avisando. – Você precisa dormir, Jackson. – murmurei sem fita-lo, ainda zapeando as músicas na tela do celular. A Head a Full Dreams do Coldplay, Blue Jeans da Lana Del Rey, Colors da Halsey... Eu estava procurando uma música em específico.
— Não estou com sono.
— Mas vai estar, ainda mais agora que acabou de comer.
Ele sentou-se ao meu lado, eu conseguia sentir seu olhar sobre mim, ainda que eu não estivesse o fitando. – Me explica isso.
— É a mesma sensação que sentimos após aquele almoço, sabe? Ainda mais depois de muito tempo sem comer... – o fitei com certa reprovação e ele coçou a nuca, tentando disfarçar. – Mas se ainda assim você insistir, com toda essa sua teimosia, que está sem sono, eu tenho algo para te ajudar... – abri espaço para que ele se deitasse ao meu lado e dei dois tapinhas sobre o estofado, no momento em que achei a bendita música. Jack me fitou por longos segundo e sorriu. No momento em que ele sorriu, eu me arrepiei. Eu queria ver esse sorriso desde a hora em que chegara.
Logo, esgueirou-se por sobre o sofá, enfiando-se no espaço entre o encosto do estofado e meu corpo. Apoiara a cabeça brevemente mais acima que a minha, os olhos fechados dada a sonolência quase evidente em suas pálpebras cansadas. Seu rosto estava bem próximo, eu notara no momento em que coloquei o outro lado do fone em seu ouvido, dando play em Video Games da Lana Del Rey.
Ele segurou minha cintura e me puxou para mais perto, roçando os lábios frios sobre a minha testa, respirando profundamente. – Você ainda vai estar aqui quando eu acordar? – a pergunta soou de sua voz baixinha e sonolenta. Eu tentei não sorrir, mas foi impossível.
Estiquei-me para beijar seus lábios. – É claro que sim... – sussurrei bem de pertinho e tornei a me aconchegar no espaço de seu pescoço.
Eu quase pude sentir quando o sono o embalou, logo ao fim de minhas palavras.
Enquanto de fundo eu era acompanhada pela voz harmoniosa de Lana, eu me atentava – e me apegava – a sonância gostosa que era a respiração serena e o pulsar tranquilo do coração de Jack.
E depois de minutos apreciando tal melodia, o sono me venceu sem eu nem perceber.
●
Socorro. Que horas são? Onde estou? Quem sou eu?
Ao piscar continuamente com certo desgosto, afinal eu estava tão confortável, acabei por estranhar o completo breu. – Odin misericordioso, quanto tempo eu dormi? – pude ouvir-me dizer, tentando identificar algo a minha volta.
Tentei erguer-me sobre os cotovelos, tendo dificuldades ao sentir um peso sobre meu abdômen. Busquei por meu celular em meio a bagunça sobre o sofá, visando fazer de seu brilho de tela a luz que me daria algum foco.
Ao iluminar o local, encontrei braços fortes e desnudos a agarrar-se ao meu corpo, a cabeça muito confortavelmente apoiada sobre meu tórax, um pouco abaixo dos meus seios, os cabelos esbranquiçados e bagunçados sobre minha blusa. – Como ele foi parar aí em baixo? – indaguei a mim mesma, um tanto admirada.
Fitei a janela mais próxima. Percebendo alguns fachos de luz, ainda que fracos, concluí que não estava de fato escuro, mas os blackouts fechados nas janelas causavam essa sensação.
Não pude deixar de estranhar uma coisa...
Já começava a escurecer e os garotos ainda não haviam chego.
Franzi o cenho, apoiando uma de minhas mãos nos cabelos de Jack, ao pensar mais a fundo nisso... Será que Meri falou que eu estava aqui? E se falou, porque não vieram para cá? Com certeza ela deve ter contado para o Hiccup, mas e quanto a Flynn e Kristoff?
As indagações continuavam incessantes em minha mente, enquanto eu enfiava meus dedos por entre seus cabelos, acariciando-os sem nem perceber.
Suspirei profundamente, após puxar Jack para sobre a almofada ao lado – certificando-me de cobri-lo com a manta do sofá, visto que ele estava sem camisa.
Espreguicei-me, fitando a minha volta logo em seguida. Meus olhos já se adaptavam a escuridão, então eu já era capaz de discernir com certo detalhe as coisas.
Fitei o homem ao meu lado. Jack ainda dormia, então aproveitei a oportunidade para estuda-lo. Seu corpo forte estava relaxado e seu rosto suavizado pelo sono, aparentemente profundo. Os lábios entreabertos eram finos, macios e extremamente desejáveis. Os cabelos cor da lua, caiam suavemente sobre a testa e estava desarrumado de uma forma que o deixava ainda mais irresistível.
Eu tinha uma mania estranha de bater na minha própria testa toda vez que me pegava o admirando demais. Mas, dessa vez, não aconteceu...
Levantei-me para preparar um café pra nós dois, levando o celular comigo ao observar o contínuo piscar da luzinha de notificação.
Haviam, ao todo, quatorze mensagens – quatro de Anna, três de Meri e sete de Punzie. Aproveitei para responde-las, enquanto esperava a água ferver.
Percebi estar com sede, então me servi com meio copo d’água enquanto abria as mensagens de Merida.
[Desculpa a demoraaaaaaaa! É q eu estava com o Hic.
Eu já estou na boate, mana. Como ele está?
Hic tentou ligar p ele, mas parece q o cel tá desligado. Pediu p vc avisar q ele pode ficar em casa hj, se quiser.]
Respondi que daria o recado. Informei que ele aparentava estar melhor e que, no momento, estava dormindo. Retornei a página de mensagens pendentes, selecionando as de Anna.
[Estou estranhando, você não costuma sumir por muito tempo.
Devo me preocupar?
Chamar a polícia?
Acionar os Vingadores?]
Dei uma risadinha, embora me preocupasse o fato de ela não saber onde estou – pensava que Meri havia as informado. Enviei uma mensagem explicando todo o ocorrido. Logo em seguida, abri as mensagens de Punzie.
[Amg, já estou a par de tudo, Meri me contou o babado
ME CONTOU TB QUE VOCÊ FOI CONSOLAR O FROST GOSTOSAUM
( ͡° ͜ʖ ͡°)
E aí? Conversaram?
Se pegaram?
Transaram? Heheheheh
CONTA TUDO!]
Engasguei com a água, cuspindo tudo sobre o balcão, quase deixando o telefone cair. Tossindo copiosamente, agarrei o primeiro pano que vi, secando o balcão com certo desespero.
Segurei o telefone mais firme, para me certificar de que li aquilo mesmo e revirei os olhos. Rapunzel sendo Rapunzel.
A chaleira começara a chiar, então me pus a preparar o café, deixando para responde-la depois.
Servi duas canecas de café, colocando tudo em seu devido lugar antes de retornar à sala com as canecas em mãos.
Franzi o cenho ao notar que Jack não estava mais lá. – Ué? – caminhei até o corredor do banheiro, cujo a luz estava apagada. – Jack? – chamei num tom mais alto.
— Aqui fora. – segui em direção aos fundos da casa, de onde vinha a voz. Logo o avistei de pé na escuridão da varanda.
Todo o jardim era banhado pela luz cálida e azulada das lamparinas da piscina. O rosto de Jack, no entanto, era circundado pela lustrosa e magnífica luz da lua, cuja a qual ele encarava com tamanho afinco, as mãos guardadas nos bolsos da calça.
— Seus olhos brilham quando estão olhando para a lua. – comentei e ele me fitou, no tempo que eu estendia em sua direção a caneca de café. – Vai me contar qual é a dessa sua fascinação por ela? – cutuquei a tatuagem de uma lua cheia, rica em detalhes, em seu peito desnudo.
Ele riu. – Eu sei lá... Talvez eu sofra de selenofilia. Apesar de eu achar que “sofrer” não defini bem esse sentimento. – ele bebeu do café e me puxou para perto dele, tornando a fitar aquele belo satélite natural.
— Hiccup disse que você pode ficar em casa hoje, caso queira...
— Você vai ficar comigo?
O fitei com uma sobrancelha arqueada. – Passei o dia inteiro aqui, Jack.
— E o que é que tem?
— Eu preciso ir pra casa.
— Então eu vou trabalhar. – ele suspirou, dando de ombros. – Se eu ficar em casa, vou ficar pensando no que aconteceu... – e bebericou mais um pouco do café, sem desviar os olhos da lua.
A noite estava muito fria, algo que me era muito agradável. Mas Jack estava sem camisa, do lado de fora da casa, em meio a friagem, então não pude evitar a preocupação. – Não está com frio?
Ele suspirou e negou com a cabeça, acariciando meu braço com o polegar. – Você aquece meu coração.
A simplicidade com a qual ele falara aquilo me pegara desprevenida. Os segundos correram enquanto eu permanecia calada. Eu não sei por quanto tempo fiquei a observar seu rosto, enquanto ele mantinha seus olhos concentrados na linda lua daquela noite. Pareceram só alguns segundos... Mas eu suspeitava que não haviam sido só alguns segundos.
Entre um longo suspiro, em meio a um sorriso bobo, apoiei minha cabeça em seu peito. Decidi que também contemplaria a lua. Não queria arriscar ser pega no flagra a segunda vez naquele dia.
Depois de longos e incansáveis segundos, pude ouvi-lo dizer. – Posso te perguntar uma coisa?
— Uhum... – murmurei, sem erguer o olhar para fita-lo.
— O que eu sou pra você?
Minha garganta secou. Inconscientemente, meu olhar perdido recaíra por sobre as árvores do jardim, de um modo que me levava a pensar naquilo com a tenacidade de alguém que foi deixado sem palavras.
Segurei a caneca fumegante entre minhas mãos, mais firme ainda.
Ele nem faz ideia do que vem me causando nesses últimos meses...
Você é o motivo das minhas insônias, Jack. Você é a minha paz no meio do caos, o caos que você mesmo criou a minha volta. É injusto te culpar. Eu me joguei nesse redemoinho de sensações intensas e atitudes imprevisíveis que é você. Você é a minha maior paz no meio dessa guerra, a guerra que eu comecei. A guerra que eu luto todos os dias contra mim mesma e acabo perdendo pois, nos fins dos dias, você continua sendo o meu maior aconchego. Você continua sendo o motivo dos meus sorrisos mais sinceros. Você continua sendo um apoio, que eu nunca pedi, mas que se mantém aqui por mim.
Você virou minha vida de cabeça pra baixo, meu caro.
Dei de ombros. – Você é legal. Diria que se tornou... Um bom amigo.
Ele baixou o olhar, pensativo, diria até um tanto triste. Mas sorriu depois de uns segundos e fitou a mim. – Você é linda e inalcançável, sabia? Exatamente como a lua. – tornou a fitar o céu e murmurou com a mesma simplicidade que me deixara sem palavras há pouco. – Talvez seja por isso que me apaixonei por você...
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