Rising Tide
31 Decepção.
Notas iniciais
Chapter Thirty One.
Disappointment
POV Rapunzel.
— Já faz uma semana, meu bem, e você continua sem me dar uma devida explicação, sabia?
A risada presunçosa de Flynn me deixou ligeiramente irritada. Ligeiramente.
— Responda-me... – ele virou-se após fechar o armário quase vazio, e me fitou demoradamente com um olhar arrogante e um sorriso torto idiota. – Desde quando te devo satisfações?
Dei uma risada curta e incrédula. – Então, vai ser assim? Vai fazer o afrontoso?
— É isso aí, acertou na mosca. – e saiu andando despreocupado.
— Eu vou perguntar ao Mason e será pior, viu querido?
— Por que acha que ele não te contou nada até agora? – respondeu por sobre o ombro, ainda caminhando com sua postura perfeita e presunçosa. E eu não pude evitar franzir o cenho.
— Acabei de me lembrar que o Google existe... – afirmei, desesperadamente, mexendo no celular enquanto caminhava ao seu lado, tentando a todo momento colher informações, sentindo-me uma tonta por não ter tido essa ideia há dias atrás. – Por que não fiz isso antes, ein? “Família Rider, Google, pesquisar...” – e dei uma risadinha, porém, sendo impedida de olhar os resultados graças a um puxão em meu pulso.
Flynn não sabia ser delicado. E por que isso o tornava ainda mais fascinante, ein?! Indignada, porém curiosa.
Ora, mas eu havia conseguido o que queria, afinal.
A atenção de Flynn que vinha, há mais de uma semana, me torturando com omissões.
Dei um sorrisinho orgulhoso ao percebe-lo tenso, me puxando para o corredor vazio mais próximo. Eu não sabia ao certo em qual momento eu havia afetado a sua postura de arrogante-inabalável-jamais-arrancará-nada-de-mim, mas estava verdadeiramente satisfeita. Cruzei os braços assim que senti-me ser colocada entre ele e a parede, esperando pacientemente o cessar de sua paranoia – que fazia-o olhar em volta, certificando-se de que estávamos sozinhos.
— O que você tá querendo, ein?
— Respostas.
— Minha vida não diz respeito a você.
— Mas a do Mason, sim. – arqueei uma sobrancelha. – Por que nunca me falou dele?
— Por que eu te falaria qualquer coisa acerca da minha vida? – indagou de maneira sombria e severa, ele estava verdadeiramente irritado. Ui.
Algo me dizia que a situação familiar de Flynn passava longe de ser as mil maravilhas que, quem estivesse de fora, com certeza presumia que ele tinha.
Mas eu não queria saber dele, nem queria saber de sua família num todo. Eu só me interessava em alguém que, convenientemente, Flynn parecia conhecer bem até demais e, pela conseguinte amizade que alcancei com essa pessoa, eu gostaria de saber como caralhos Flynn nunca havia me contado sobre, oras.
Mason era um rapaz sério, o que com certeza me surpreendera, dada a forma como nos conhecemos logo que descobri sobre o iminente show da Bey – seus “momentos purpurinosos” eram raros. Ele sempre mantinha a seriedade, suspeito muito que tentando esconder, ou até mesmo manter, algo... Que eu ainda não sei o que é. Ainda.
No show, cujo o qual curtimos juntos, porém não sozinhos – tivemos uma exímia companhia, meus caros –, ele surtou muito menos que eu, que continuei na pista, enquanto que ele estava lá no alto do palco, por convite da nossa rainha Bey.
É mole isso, senhores? Eu, no lugar dele, teria me descabelado.
Mas, partindo do início, admito que fiquei exageradamente interessada na curiosa conexão entre Mason e Flynn assim que fui levar o meu ingresso extra para o simpático atendente de loja.
“- Está me perseguindo, Punzie? – seus olhos crisparam-se em meio àquela malícia comum que se tornava a feição dele, toda vez que esse sorriso de lado dava o ar da graça.
Sorriso este que, de uns tempos pra cá, vinha exercendo um efeito esquisito sobre mim.
— Eu?! Filho, se enxerga, eu ein. Sai daqui, nos poupe. – revirei os olhos, arqueando uma sobrancelha logo em seguida, tendo tempo de ouvir sua risada grave antes de virar as costas e desfilar para longe dele.
Tendo em mente que Merida é louca das ideias, eu não fiquei em casa para espera-la – sabe-se lá que horas ela chegaria, não é mesmo? E os meus assuntos? Preciso resolvê-los.
Só tinha uma coisa que eu não contava.
Encontrar Flynn logo no estacionamento do shopping – não foi nem lá dentro, pra ressaltar a magnitude da coisa toda (?).
E ele, ao me ver e levar um passa fora – que nem chegou a ser um passa fora, porque, sinceramente, já fui melhor em mandar o Flynn ir procurar o que fazer. Parece que, com o tempo, a minha vontade em manda-lo se afastar foi... Diminuindo? Não, quê?! Peraí, calma, Rapunzel, não criemos pânico, querida. Amiga, respira (?) –, ainda continuava a me seguir, como se eu tivesse o convidado.
— Alô, eu pedi por uma sombra, por acaso?
Ele não pareceu afetado com isso. Acho que nem exercer os efeitos negativos sobre ele eu sou capaz mais. Já posso entrar em pânico?
— Não precisa desse exagero.
— Eu sou feita de exageros, amore. Agora, já pode sair daqui.
— Estamos num estabelecimento público. Eu posso vaguear por onde eu quiser, Punzie. – ele ainda não me fitava. E ficava falando com aquela serenidade absurda, como se não soubesse o que tá fazendo comigo.
Coloquei as mãos na cintura, arqueando a sobrancelha para sua resposta abusada. – Pode sim, contanto que respeite os limites mínimos de proximidade para com os outros, né bonito.
E foi nesse momento, ao ouvir essa específica frase, que ele sorriu em deleite, virando-se pra mim com aquele olhar insuportavelmente provocador e o sorriso que lhe desenhava os lábios, cheio de malícia. Aquela arrogância que já era o seu mantra brilhava em seus olhos castanhos que, crispados, também pareciam sorrir com a situação ao notar minha feição ligeiramente hesitante.
Eu recuei, minimamente. Ele gostava dessa minha reação, dava pra perceber – em momento algum, cessou os passos.
Ele não se aproximara tanto quanto imaginei que fizesse – e eu não sabia se comemorava ou lamentava por isso. Quê?! Meus devaneios foram interrompidos quando, de sua voz baixa e comedida, em forte sintonia com suas intenções, pude ouvir um murmuro rouco.
— Minta pra mim dizendo que não queria que eu estivesse mais próximo que isso.
Ele falou... Enquanto sorria. Odeio quando ele fala enquanto sorri – me sinto fraca.
Mas nem morta eu vou deixar que ele saiba que minhas pernas estão tão trêmulas que, se eu tentar andar agora, é certo de eu cair no chão, como Merida em seus dias normais.
Tomando uma decisão ousada – afinal “ousadia” é o meu nome do meio, com licença – esgueirei-me para mais próximo a ele, dando fim a mínima distância entre nós, apoiando ambas as mãos em seu peito, sentindo os músculos tencionarem sob meu toque.
Gostei tanto dessa sua reação que deslizei as mãos delicadamente até seus ombros, dando um mínimo sorriso ao nota-lo engolindo em seco.
Fitando os orbes castanhos e intensos, não consegui negar a mim mesma que seu olhar, mesmo que pego de surpresa, incitava uma sensualidade peculiar.
Que droga, Flynn.
Mesmo sem reação, ele ainda conseguia ser um desgraçado gostoso. E, para a minha assombrosa surpresa, seu olhar desceu para os meus lábios marcados pelo batom.
Um frio desceu minha espinha quando ele crispou os olhos de uma maneira desafiadora.
Uma maneira malditamente desafiadora.
O olhar concentrado na minha boca.
Esforcei-me para não fechar os olhos enquanto respirava fundo, visando colocar minha consciência no lugar. Concentrei-me antes de falar qualquer coisa.
— Há algo lindo em seus olhos. – afirmei, assim mesmo, na lata, deixando o rapaz moreno agora completamente atônito. Me aproximei de seu rosto, sem desviar meus olhos dos seus. – Oh, espere. É o meu reflexo.
Dando um risinho a contragosto, saio de seu domínio como quem nunca antes esteve ali.
Voltas por cima, sei fazer isso como ninguém.
Não consegui evitar dar uma risada alta, imaginando a feição dele – pois não fiquei pra ver, pois aí seria estar abusando da sorte. Ainda sentindo minhas pernas um tanto bambas, afinal, nem tudo são flores, dei uma espiada as minhas costas constatando que ele não estava mais lá.
É o quê?! Pra onde ele foi?! Tá repreendido, misericórdia, em nome de Beyoncé Knowles. Socorro, de repente, me borrei de medo (?).
— Não precisava fazer isso. – ouço um murmuro ao meu lado e eu não sei como não gritei um palavrão. Ele tinha o cenho franzido, irritadiço até os fios dos cabelos negros.
Em seu rosto, um leve rubor – algo que presumi ser o motivo de ele não me fitar nos olhos.
Ele sempre consegue me deixar desconcertada; seja propositalmente ou não.
Pensando numa resposta rápida, e ainda com o coração aos saltos, eu respondo. – Você estava me provocando, pediu por isso.
Ele sorriu satisfeito. – Bom saber que não resiste as minhas provocações.
— É você quem não resiste a mim, fofo.
Em contrapartida, ele apenas sorriu.
Exatamente. Simples assim. Não me deu uma resposta abusada, nem nada. Apenas manteve-se em silêncio, com aquele mesmo sorriso desgraçado no rosto que, com muito esforço, reprimi a súbita vontade de ficar o olhando com tamanho afinco, porque, Jesus Cristo... (?).
Perdi a paciência por causa daquele sorriso (?), ou melhor, perdi a paciência por causa das minhas reações para com aquele sorriso.
Parei de andar repentinamente, o que ocasionou de ele dar alguns passos a minha frente, parando em seguida ao notar o cessar dos meus e virando-se na minha direção, confuso. – Olha, hoje o meu dia está tão maravilhoso quanto eu mesma. Então, vê se cata esse teu belo sorriso e some da minha frente, antes que você estrague o meu dia perfe...
— Espera um pouquinho aí... – Flynn piscou aturdido por uns segundos, mas logo pareceu levemente incrédulo e maravilhado com isso. – Como é que é?
— Eu não falei nada. – tornei a andar, sem fita-lo, mais vermelha que um pimentão engelhado (??).
— Quer dizer então que eu tenho um... – ele sorria presunçosamente. – Belo sorriso?
— Seu sorriso é lindo, mas eu prefiro o meu.
— Uau... – suspirou o moreno, ignorando meu comentário irônico, caminhando ao meu lado. – Nunca pensei que você admitiria isso um dia.
Dei uma risada sem humor. – Mas sempre soube o que eu achava, é claro.
— Não, mas conseguia ter uma vaga ideia...
— Você não sabe de nada, Flynn. – bufei, tentando transpassar uma falsa tranquilidade. – Só falei isso porque... Porque eu tô bem animada, meu bem, tô de bom humor. Portanto, não leva pro coração, okay? Apenas dizendo... – nossa, que desculpinha mais patética.
Ele sorriu, sem me fitar. Mas não era aquele sorriso malicioso. Era um incomum sorriso pleno e cheio de sinceridade, sem nenhuma arrogância. – Fico feliz que esteja animada. – ele falou, numa voz distante, antes de me olhar com certa intensidade uma última vez antes de tomar o caminho oposto ao meu.
Nem pra dar um “tchau” antes de ir, aquele asno foi capaz. Mas se bem que, nossa, que bom que ele foi. Já vai tarde, né?
Não (??).
Me forçando a não dar tanta importância para Flynn, segui meu rumo em direção a loja e, ao chegar lá, não me surpreendi com o fato de o rapaz cacheado ter se lembrado de mim. Afinal, é impossível me esquecer, sou inesquecível.
A primeira coisa que ele me indagou foi se eu havia conseguido ganhar o sorteio.
Fiz um biquinho em desagrado e ele logo notou que eu não havia ganhado nada, desfazendo seu sorriso no mesmo segundo. – E você, conseguiu ganhar?
Ele suspirou. – Que nada. Por mais que eu tenha escrito umas quinze músicas, não fui selecionado... – admitiu pensativo.
— Eu nem consegui terminar minha música, no entanto, consegui dois ingressos... – o garoto cacheado arregalou os olhos ao notar meu sorriso. – E vim aqui, convida-lo pra ir comigo.
Ele arquejou, com uma das mãos ao peito. – Você se lembrou de mim?
— É claro.
— M-mas e suas amigas..?
— Elas decidiram que eu deveria levar alguém tão fã da Bey quanto eu. – e fui surpreendida com um abraço. Ele estava verdadeiramente emocionado.
— Eu não sei nem o que te dizer... Ah, fico tão feliz em saber que lembrou de mim. – ele segurou minhas mãos. – Mas devo dizer que consegui um ingresso.
— Jura?! Como?!
— Ah, eu já tinha uma carta na manga... – ele admitiu, tímido. – Já tinha contatado meu irmão antes mesmo de começar a escrever as músicas. Meu irmão tem uns contatos muito bons, uns parentes de uns amigos dele, que o trata como um filho. Ele é o máximo, você logo vai conhece-lo porque ele tá pra chegar aí... E o melhor de tudo, é que ainda podemos ir juntos. Eu, você e ele, ele terá passe-livre, pois ajudou a arquitetar o palco, eu ainda não vi, mas já sei que tá incrível... – desatou a falar, sorrindo para mim, verdadeiramente feliz ao falar de seu irmão. – Mas antes de vivermos os melhores momentos de nossas vidas, devo me apresentar... – ele estendeu a mão e eu fiquei impressionada com esse gesto fofo. – Eu sou Mason. Mason Rider.
Apertei sua mão. – Eu me chamo Rapunz... Peraí, Mason o quê?!”
Exatamente.
Flynn tinha um irmão.
Um irmão mais novo, cujo o qual eu simpatizara antes mesmo de saber seu nome. Mason era, em poucas palavras, amigável, magnético, bondoso e tão falante quanto a própria Meri – ou seja, tudo o que Flynn não era. Os irmãos só se assemelhavam na cor dos fios de cabelo – tão negros quanto um lustroso ébano.
Indignada, desatei a falar para o moreno irritado a minha frente.
— É sério, Flynn. Como pode isso?! O Mason é um amor, e você... Um crápula.
— Obrigado pela parte que me toca. – ele revirou os olhos. – Por que tem tanto interesse nisso?
— Eu não sei, talvez porque você nunca o tenha mencionado pra mim? Achei que fôssemos amigos... – soltei que nem uma jararaca pronta pra dar o bote, se tinha uma coisa que eu e Flynn não éramos de maneira alguma era amigos.
Mas o que a curiosidade não faz, né irmãos?
Ele me observou com os olhos crispados. Havia um quase sorriso maldoso adornando sua face. Ele não parecia irritado, tampouco crente do que eu havia acabado dizer.
A minha afirmação estava, na verdade, o divertindo.
— É isso que somos pra você? Amigos? – ele deu uma curta risada, seguido de um muxoxo. – Rapunzel, ser seu amigo não é uma das minhas prioridades, então não força a barra.
— Eu diria que estou ofendida, mas estaria mentindo. – sorri sincera, o que soou bem irônico. – Mas agora voltando ao assunto... Minha curiosidade se dá ao fato de, diferente do seu irmão, você desfilar por aí como um maldito clichê filhinho único de papai que tem tudo o que quer porque ai da mamãe ou qualquer ser humano que te negue algo...
— Já entendi. – ele tinha o cenho fortemente franzido. – Entendi que aparento ser um babaca, você não falou nada além do óbvio. Mas se quer saber, você também não é muito diferente. De fato, a filha única de um magnata rico no mundo da moda, nascida em berço de ouro, ouvindo dia após dia que nada poderia ser negado a você graças aos seus pais. Mas no mundo real, as coisas não são como você quer, porque aqui fora, ninguém dá a mínima para os seus ideais. Você só tem nome, Srta. Corona. Não é nada além de um status. Experimente ganhar a vida sem incluir o nome do seu papai. – ele aproximou-se e murmurou. – Vai perceber, por fatídica experiência própria, que ninguém dá a mínima para o que você pensa.
Dei uma risada incrédula, mal acreditando em tudo o que meus ouvidos acabavam de registrar. – Perdão?
— Tá perdoada.
Não consegui evitar o grunhido irritadiço. – Ora essa, vossa senhoria, se sou assim tão superficial e mesquinha, por que não tomou distância o quanto antes ao invés de fazer exatamente o contrário?!
— E agora é você quem está em cima de mim até demais!
— Sinta na pele o que eu tive que aturar nas primeiras semanas em que te conheci!
Silêncio absoluto. O olhar raivoso de Flynn ainda penetrava a minha pele e meu olhar não estava muito diferente do dele, mas havia algo diferente nos olhos castanhos que me encaravam... Por um breve momento, vislumbrei mágoa em suas írises.
Mas foi algo tão rápido, que suspeitei ter sido meramente algo de minha cabeça.
Ele grunhiu, falando baixo e comedido novamente. – Beleza. – sua voz era gutural e cansada. – Parece que chegamos a um consenso, então. Farei questão de passar longe do seu caminho a partir de hoje.
Ele virou-se e seguiu para longe. Sua postura sempre tão impecável, agora estava tensa e rígida e eu desconfiei que se alguém passasse na sua frente agora, levaria um potente murro.
Eu fiquei estática, feito uma otária, observando as costas largas de Flynn tomando cada vez mais distância.
Tão diferentes... Eles eram tão diferentes...
Havia uma pessoa em que eu confiava, sem precisar de muito.
Mason exalava carisma só com o olhar. E ao sorrir e falar, ele já te ganha. E não se trata de algo forçado e calculado, é simplesmente... Ele. Um jovem rapaz de feições e intenções sinceras.
E tudo o que eu via nos olhos de Mason quando fitava Flynn era uma admiração profunda. Uma felicidade imensurável, quase beirando a orgulho.
Orgulho de tê-lo como irmão.
De tê-lo como irmão, gente.
Eu queria saber de onde veio aquilo, de onde nasceu tal sentimento, algo tão pleno, tão puro... E se Mason podia ver isso, eu com certeza também podia.
Não era algo da minha cabeça, era algo que estava ali, acontecendo na minha cara, mas eu não estava enxergando.
Eu queria ver.
Eu queria conhecer esse Flynn.
Esse Flynn valia o meu esforço e eu queria conhece-lo.
Corri em direção a Flynn, este que já chegava na portaria onde vários alunos adentravam.
Não dei a mínima para quem estivesse olhando, eu simplesmente segurei seu braço e o puxei para que me fitasse. Ainda que não estivesse nada feliz, ele me encarou sem muita vontade e com o olhar indiferente e frio em todo o seu esplendor.
Um olhar que me afetou e que, por meio segundo, senti-me ruir diante dele.
Não sei quanto tempo fiquei encarando seu olhar de desprezo como uma masoquista, pareceram só alguns segundos... Mas suspeitei que durara minutos e, mesmo assim, ele não me deu as costas, embora também não tenha falado, me açoitando com o seu silêncio.
Eu respirei fundo, percebendo meu suspiro entrecortado e sôfrego. Engoli em seco, antes de murmurar, incomumente sem esforço algum. – Me desculpe.
Toda a sua indiferença desabou no momento em que ouviu minhas palavras, dando lugar a uma profunda surpresa.
Um olhar abismado, embora os olhos ainda mantivessem um vago crispar, os lábios entreabertos, as sobrancelhas negras bem franzidas compunham a feição do moreno. Uma desconfiança cruzou seu olhar, em meio ao espanto e, com isso eu continuei, agora deixando-me levar pelas palavras que meu coração ansiava em dizer, mas eu nunca permitia.
— Não foi minha intenção te dizer aquelas coisas. É só que... Você me irrita com tanta facilidade que eu perco o controle. – dei um longo suspiro, piscando seguidas vezes ao desviar meu olhar do seu, meio contrariada. – Não consigo raciocinar direito perto de você e parece que você sabe disso. – senti meu cenho franzir levemente. – Mas eu não queria te dizer aquelas coisas...
Ele me encarou por longos segundos, um sorriso contido adornava seu rosto e seus olhos, em fendas, me analisavam com um brilho incomum.
— Okay, Rapunzel. – ele falou, com sua voz murmurada feito veludo. Quase suspirei com isso, até perceber o quanto estávamos próximos. – Passa lá em casa hoje e conversamos.
— Peraí, o quê?! – indaguei alarmada, vendo ele se virar para seguir seu caminho. – Por que eu preciso ir na sua casa?
— Hiccup e Jack vão trabalhar. – percebi seu sorriso por sobre o ombro. – Tio Nick está na cidade vizinha. Kristoff com certeza irá sair. Mason irá lá em casa para discutirmos sobre uns assuntos financeiros e ele poderá conversar com você melhor do que eu poderia.
POV Elsa.
Não tentou me beijar, não tentou me tocar e manteve-se distante, de maneira conveniente, com os braços cruzados e a me analisar. Eu quase podia sentir que aquele olhar crispado poderia me atravessar enquanto eu juntava minhas coisas dentro da bolsa, de maneira desajeitada, e calçava minhas botas, isso tudo sem encara-lo.
Jack levou-me até a porta. O encarei de relance apenas para lhe dar um tchau e virei-me para seguir meu caminho.
— Hey... – ele chamou depois de uns segundos, quando eu já começava a descer os degraus da varanda. Hesitei em encara-lo, mas o fiz, sentindo um rebuliço em meu estômago ao notar em seus lábios um sorriso sereno e compreensível, mesmo com o meu absoluto silêncio depois de suas palavras. – Obrigado por cuidar de mim.
Havia doçura em sua voz, uma sincera gratidão, e eu me peguei sentindo-me uma estúpida por estar fugindo daquela forma tão covarde...
Mas tal confissão agravaria nossa situação.
Aquilo só tornava tudo ainda mais difícil...
Só podia ser brincadeira.
Ou... Um equívoco.
Jack só estava mais sensível, dado o momento, então... Acabou afirmando coisas que poderiam vir a não ser de fato seus sentimentos, né?
Ah, Elsa, isso é ridículo!
Já fazia mais de uma semana desde aquele dia e aquilo ainda tomava conta de meus pensamentos. Tooth já estava de volta e Jack percebera o meu nada sutil estado de isolamento – apenas dele, sim. Eu havia me afastado dele de um modo um tanto radical, bem pior do que apenas parar de responder suas mensagens.
E eu não sabia o que sentir quanto ao fato de ele não ter me procurado ou insistido ao constatar isso. Eu tinha quase certeza de que ele havia desistido de mim...
Dei um longuíssimo suspiro resignado, enquanto caminhava com a bandeja até uma mesa alta próxima, servindo três rapazes que conversavam sob a penumbra das luzes negras da boate.
Essa minha reação não condizia com os meus propósitos. Se eu quis tanto essa distância de Jack, por que me pegava triste ao pensar que ele havia desistido de nós? Caso fosse verdade, isso só contribuiria com os meus objetivos... Então, por que eu não conseguia ficar feliz com isso, droga?
Tooth não comentara nada sobre Jack desde que retornara – nós evitamos fazer muitas perguntas também sobre sua viagem, afinal, no fim... A situação não havia sido nada feliz, então lhe demos um merecido espaço. Mas estávamos todas muito felizes com seu regresso e eu quase conseguia ficar animada com a ideia de que, naquela noite, ela estaria na boate, junto de Anna – pasme – para distrair a mente. No entanto, elas ainda não haviam chego, mas muito provavelmente estavam pra chegar.
Enquanto Meri trabalhava no balcão, eu servia as inúmeras mesas na pista. A boate estava cheia naquele dia e o calor consequente disso me incomodava em demasia. Minha sorte era que, embora eu estivesse servindo as mesas na pista, passava a maior parte do tempo atrás do balcão junto de Meri – um local estrategicamente mais resfriado que o restante do lugar.
Terminando de servir um casal sentado nos sofás ao canto, pus a bandeja metálica abaixo de um dos braços enquanto fazia um apressado caminho em direção a parte mais fresquinha do estabelecimento.
Só naquele dia, eu já havia feito aquele mesmo caminho mais vezes do que fui capaz de contar, todavia, em nenhuma das vezes fui surpreendida com dedos fortes e frios a deslizar por de baixo de minha camiseta, espalmando-se em minha barriga e puxando-me firmemente para trás.
Arquejei ao sentir o calor de um corpo rente as minhas costas. Braços fortes rodeavam minha cintura no tempo que lábios quentes beijavam meu pescoço, fazendo um arrepio se originar dali e percorrer toda a extensão de minha pele.
Virei-me num súbito e por um momento senti meu estômago gelar. Empertiguei-me no instante em que minha visão captou o sorriso malicioso de Jack.
Pela primeira vez, em anos, eu não soube como agir. Ofegante, eu não sabia o que dizer. Não sabia se comemorava ou lamentava. Não sabia se o lançava um olhar irritado seguido de um sermão ou se lhe dirigia um sorriso aliviado e bobo. Na verdade, eu não sabia nem se deveria dizer alguma coisa, então mantive-me calada com os olhos a estudar aquele sorriso fácil, a malícia se esvaindo aos poucos, dando lugar a algo que beirava a saudade... Eu poderia jurar que suas pupilas dilataram-se antes de ele segurar meu pulso, visando guiar-me para a parede mais próxima.
Um alerta ressoou estridente em meus ouvidos e eu puxei minha mão. Se ele me encostasse numa parede e me instigassem da maneira que só ele sabia, aconteceria o que eu estava tentando evitar há semanas...
Jack me encarou, confuso. – Eu preciso trabalhar. – falei com simplicidade, demonstrando uma tranquilidade que com toda certeza eu não estava sentindo.
Jack manteve os olhos cravados em mim no momento em que cruzou os braços, me analisando. Incomodada com seu olhar perscrutador, tornei a caminhar por entre as mesas, forçando-me a retomar o meu trabalho – limpando uma mesa e retirando os copos vazios.
Meu coração ainda batia descompassado e eu não sabia como estava conseguindo equilibrar a badeja sobre meus dedos trêmulos.
Um sentimento que, com certeza eu não deveria estar sentindo, se aflorou em meu peito. Constatar que ele sentira saudade e que ainda estava ali me deixava parte feliz, parte preocupada, parte ainda mais aflita. Mordi o lábio para evitar um sorriso desgraçado.
Jack a princípio apenas manteve-se observando de longe, mas não demorou para me surpreender novamente, dessa vez, com a voz calma e gutural a ressoar próxima a mim.
— Você tem me ignorado bastante, Elsa. – eu não virei para fita-lo, ele continuou. – O tempo inteiro, pra ser mais exato.
— Achei que não estivesse se importando com isso.
Ele crispou os olhos. – Você tá acabando comigo.
— Você parece não estar dando a mínima.
— É isso que tá parecendo? – pude ouvir sua curta risada e me virei novamente, encarando o seu perfil. Ele não me fitava. – Quis te dar o espaço que você aparentava estar precisando, afinal. Por isso, e só por isso, tenho fingido não perceber você me ignorando, perguntando-me o quanto isso vai durar, mas cheguei no meu limite. – o olhar azulado e tranquilo recaiu sobre meu rosto. – Você pode me explicar por que caralhos eu mereço isso?
Fiquei em silêncio. Afinal, como eu poderia explicar? De uns tempos pra cá, tem sido imensamente difícil sustentar o olhar de Jack – eu não sabia ao certo o porquê, ou talvez eu soubesse e não queria admitir. Então, dito isso, desviei os olhos dos seus, fingindo estar ocupada com qualquer outra coisa.
— Não faz ideia do porquê?
— Não. Não faço. – respondeu ele, simplesmente. – E suspeito que você também não sabe. Tenho certeza que não há motivos para estar tão estranha comigo. Pelo menos, não motivos que eu tenha dado...
Dei uma risadinha. – Sempre tão confiante.
Ele deu um suspiro, exasperado. – Para de deboche, Elsa.
— Não tô debochando.
— Tá fazendo sem nem perceber.
E era verdade. Não consegui evitar revirar os olhos. – Em que momento em específico, você passou a me conhecer tão bem?
— Não houve um momento em específico. E não mude de assunto.
— Não estou mudando de assunto, ora. – com esforço, eu tentava conter a risadinha. Vê-lo se irritando aos poucos era sempre uma graça.
Ele fitou meu sorriso contido e crispou os olhos. – Tá se divertindo com isso, não é? – em seus lábios, um quase sorriso maldoso.
— Quê? Claro que não. – ele fitava minha boca.
— Se continuar me tentando dessa forma, eu vou ter que te agarrar aqui. Sinto muito.
— Não se atreva.
— Eu tô há muito tempo sem beijar a sua boca. Eu tô em abstinência de você, Elsa, e isso é horrível. É como morrer aos poucos...
Foi impossível evitar a risada. – Que exagero.
— Eu quero te seduzir. Hoje eu consigo... – ele disse, fitando-me intensamente.
— Eu sou inseduzível, lembra? Você vive insinuando isso...
Havia algo em Jack que me fazia descontrair sem nem perceber. O que eu estava fazendo ao refutar suas piadinhas com o mesmo grau de humor? Elsa, amiga, foco... Não se deixe levar por esse sorriso fascinante e essa voz murmurada. Jack não é perfeito, então se concentra.
Apoiei a badeja parcialmente cheia na superfície mais próxima e voltei-me para ele.
Encarando seu rosto anguloso que, naquele momento, não estava virado na minha direção – e sim, ligeiramente para o lado oposto, observei os fios de luz que brilhavam contra o azul de seus olhos. Pude visualizar a curva do maxilar bem desenhado sumindo conforme descia a linha do pescoço, onde sua proeminência laríngea remexera-se vagamente no exato momento em que ele virava para mim, fitando-me nos olhos. Ele sorrira mais um de seus belos e arrebatadores sorrisos simples.
Era simplesmente, como todas as outras vezes em que ele sorrira para mim, o mais lindo sorriso que eu já vira na vida.
Dei um longo suspiro entrecortado. Okay.
Jack não era perfeito, mas chegava bem perto disso.
Ele se aproximou, e eu bem quis recuar, mas não o fiz.
Não fiz porque tudo em mim clamava para que ele chegasse mais perto, para que ele encostasse em mim novamente, seja sem querer ou propositalmente, principalmente se fosse com aquela pegada desgraçada e intensa que ele tinha... Horrorizei-me com meus próprios pensamentos, mas nem tive tempo de reagir a isso.
Uma de suas mãos tocou o meu pulso e isso foi o suficiente para enturvar parcialmente meus pensamentos. Ele deslizou sua mão pela minha pele, parando em meu braço, e outro arrepio já me tomava ao senti-lo segurar-me pela nuca.
Era lento e torturante. Ele não avançou e me beijou como imaginei que faria, estava me torturando mesclando a intensidade de seus toques com a lentidão excessiva, deixando-me ansiosa e louca por ele.
A ponta de seu nariz tocou o meu e eu fechei os olhos com certa força, contando mentalmente de um a dez.
Eu estava sendo açoitada com a sensação de estar aos poucos cedendo a tentação que era Jack. O jeito como o corpo dele estava tão próximo, fazendo-me sentir o movimento de seu peito com a respiração sôfrega. Os lábios a um dedo de distância dos meus me impedia de pensar racionalmente. Torturante! E ao mesmo tempo, tentador...
Numa lentidão quase aflitiva, eu subi minhas mãos até seu peito... Eu precisava afasta-lo. Mas só o que consegui fazer foi deixar meus dedos apoiados ali, sentindo o pulsar de seu coração tão acelerado quanto o meu.
Ceder assim, tão facilmente, estava fora de cogitação, não podia acontecer... Não podia.
Mas aconteceu.
Antes que eu pudesse prever, ele me beijou tão lentamente que eu quase suspirei de prazer. E antes que eu conseguisse pensar no que estava fazendo, meus dedos enroscaram-se em sua camiseta, puxando-o para mais perto. Agora não mais hesitante, ele fez questão de aprofundar o beijo...
Nem hesitei com o vislumbre de seus lábios nos meus, o correspondendo agora com um ardor que surpreendia até a mim mesma.
Minha mente estava tão enevoada com a sensação ardente daquele beijo, que eu demorei longuíssimos segundos para me lembrar que estava em meu local de trabalho.
Afastando nossos lábios com muita hesitação, dei uma risadinha em meio aos ofegos. – Jack, estamos no trabalho...
Ele sorriu, seus olhos fechados, me dando um breve selinho. – O que é que tem? – outro selinho, no canto da boca.
— Não podemos... – um beijo em minha bochecha. – Hiccup pode nos ver... Ou até mesmo o Bunny, na pior das hipóteses. – um beijo cálido na ponta de meu maxilar fez com que minha voz saísse manhosa ao fim da frase. – Jack... – murmurei seu nome ao sentir agora seus lábios em meu pescoço e suspirei quando ele mordiscou ali.
Não consegui evitar fechar os olhos, deliciando-me um tanto a mais com a sensação dos lábios dele em minha pele.
Um frio subiu minha espinha quando tornei a abrir meus olhos e avistei Anna e Kristoff atravessando a portaria de entrada da boate... Junto de Tooth.
Uma sensação gélida tomou conta de meu corpo, se aflorando no estômago e puxando o sangue de meu rosto.
Com muito esforço, afastei-me de Jack, engolindo em seco. E antes que eu pudesse pegar-me fascinada com o sorriso bobo e de lado que nascia em seus lábios, desvencilhei-me dele, tomando certa distância. Onde eu estava com a cabeça?
Jack me fitou confuso, mas não dei tempo de ele dizer nada.
— Não... – coloquei uma mão bem rente à minha boca, perplexa com minha atitude. – O que estou fazendo..?
— Ei, ei... – ele murmurou, chegando mais perto. – Como assim? O que está havendo? – Jack parecia preocupado. E, acima de tudo, percebi que ele estava sério.
Ver Jack tão sério, logo ele, sempre tão divertido, com um sorriso alegre sempre a moldar-lhe os lábios, era algo que repuxava até os mais adormecidos fios de aflição que ocupavam o meu ser.
Piscando seguidas vezes, sem fitar-lhe o rosto, respondi. – A Tooth tá aqui. – minha voz era um sussurro sôfrego.
— E o que é que tem? Soube que ela vinha, ela falou comigo...
— Ela ainda é apaixonada por você! – percebi a magnitude do que eu havia berrado logo no instante em que notei o arregalar de seus olhos.
Ele piscou seguidas vezes, desorientado e zonzo. – É por isso então que você...
— Eu sabia disso e mesmo assim... Permiti que tal situação chegasse ao extremo. A troco de quê? – ele me encarou atônito, logo crispando os olhos arregalados.
— A troco de quê? – percebi seu cenho franzido e suspirei.
— Jack... Eu vou te pedir uma coisa e eu espero que você siga meu pedido à risca...
Ele agarrou minhas mãos, de um modo desesperado e me olhou no fundo dos olhos. – Por favor... – sua súplica saiu como um sussurro. – Não me peça pra ficar longe de você mais uma vez.
E nesse momento, meus olhos marejaram... Percebi tarde demais que ficar longe dele era a última coisa que eu queria.
Tarde demais pois eu já havia tomado minha decisão.
— Me desculpe... – murmurei sem força. – O amor já me decepcionou inúmeras vezes... Mas a amizade sempre esteve fielmente ao meu lado. Entre uma amiga e um amor... Minha escolha é óbvia. Até mesmo pra você.
O rosto de Jack mudou da água pro vinho. No lugar onde havia uma fagulha de desespero, agora exibia o mais puro... Nada. Ele me fitava inexpressivo, eu poderia jurar que por um momento um brilho de exasperação cruzou seus olhos azuis, que exibiam uma mágoa contida.
— Certo... – ele murmurou sério, mais para si mesmo. Aquilo estava acabando comigo. Ele assentiu lentamente, suas sobrancelhas levemente franzidas. – Eu entendo a sua situação... Mas sejamos francos, Elsa? – sua voz era murmurada, rouca e brevemente severa. – Eu sei que você sente alguma coisa por mim. – engoli em seco. – Não pode se privar disso por um motivo tão irracional. O que acha que vai acontecer, então? – ele deixou a pergunta no ar, o olhar austero a me atravessar. – Acha que eu vou ficar com a Tooth? – deu uma risada curta. – Eu nunca estive apaixonado por ela e você sabe muito bem quem eu...
— Chega! – se ele se assustou com o meu descontrole, com certeza não demonstrou. Manteve sua feição dura que, a essa altura, já mesclava a irritação. – Não se trata disso...
— Então se trata de quê?! Reformula, porque eu não consigo enxergar um bom fim para essa sua decisão, Elsa!
Sua voz colérica me afetou e eu quase pude sentir o gosto amargo de uma culpa dolorosa. Eu me via agora como uma inconsequente, leviana, que mal pensa nas consequências dos próprios atos... Algo que eu nunca fui.
E ainda assim, não mudei de ideia. Ao tempo que eu sentia culpa por estar seguindo em frente com isso, eu sentia culpa por não ter feito antes. Naquele momento, eu era pura contradição e por um instante perguntei a mim mesma, mentalmente abalada. Quem é você?!
Não seria fácil. Não estava sendo.
Para que fosse, eu precisava que Jack desistisse de mim. E só de cogitar aquilo, meu coração se destroçou... Era preciso.
Sobrepondo as minhas expectativas, ele passou as mãos no rosto, exasperado. Pelo subir e descer tenso de seu tórax, constatei sua respiração pesada... Ele estava nervoso demais.
Passou as mãos nos cabelos, massageando a nuca, sem se atrever a me encarar.
Deu um longo suspiro resignado. – Se eu conversar com ela, você ficaria comigo? – o espanto não permitiu que eu respondesse. – Ficaria, Elsa? Assumiríamos isso, finalmente? – longuíssimos segundos correram enquanto eu o encarava, estatuada. Jack gemeu aflito diante do meu silêncio. – Elsa... Me responde.
Piscando seguidas vezes como quem acaba de acordar de um sonho, respondo com frieza e simplicidade. – Sinceramente, Jack? Você já sabe a resposta. Não me faça falar.
A ironia em minha voz o assustou – na verdade, até eu mesma estava espantada, ainda que com o coração em frangalhos.
Pude vê-lo franzir o cenho antes de dizer, absurdamente rouco e baixo. – Não. Eu quero que você fale.
— Jack...
— Eu preciso ouvir da sua boca.
— Tudo bem, então. – joguei as mãos pro ar. – Você sabe que não espero muito de você, muito... Disso. Que estamos tendo. Não me leve a mal, Jack. – dei uma risada. – Dado o seu histórico, é no mínimo compreensível que eu não tenha tanta expectativa no que você possa querer comigo, por favor. Eu até achei que você... Entenderia. E até achei que preferiria assim, afinal... É você, o mesmo Jack Frost que desfilava com uma garota diferente a cada semana, não é?
— Não pode estar falando sério...
— Eu estou, creia. – que bela atriz, reconheci com desgosto. – Você não estava errado, sinto algo por você... Você me faz bem, mexe comigo. – ele passou a mão na testa, desorientado, e eu perdi o chão. – Mas... Sentimentos? Acredito que eu sinta um afeto por você e só.
— O que?
Ri desgraçadamente. – Ai meu Deus, o que você esperava? Que eu me abrisse assim pra você, como todas as outras?! – exclamei de maneira exagerada. – Eu assistia aquelas meninas. Assisti Heather. Assisti Lindsay. Assisti inúmeras moças passando por você a cada semana, me desculpe, mas eu no mínimo me guardei. – Jack não soube disfarçar o que sentia naquele momento. Vi suas sobrancelhas tensionadas e o olhar perdido... Contive o ímpeto erguer minha mão para tocar seu rosto e continuei. – Eu aproveitei os momentos com você, da mesma forma que você aproveitou comigo, guardando meu coração para evitar futuras decepções que eu sabia que iria acontecer, afinal, aconteceu com elas, o que impediria de acontecer comigo?
Ele ficou em silêncio. Um silêncio doloroso. Um silêncio que me feriu... Então, decidi que daria logo um fim nele.
— Eu nem achei que o que temos fosse durar tanto. – comecei a explicar involuntariamente, quando a preocupação em vê-lo tão desolado começou a me atormentar. – Creio que foi involuntário. Eu não achava que você...
— Eu não sou mais esse cara. – ele falou, simplesmente. Não me fitava, mantinha o olhar baixo.
— Quem me garante?
Ele me encarou absurdamente sério. – Isso é por causa do que eu fui... Ou é por causa do que eu sou? – eu não soube responder aquilo. Ele continuou. – Eu nunca desfilei com a Tooth por aí, Elsa.
— Ela ama você.
— Mas eu não amo ela! O que mais eu tenho que fazer? Ein? Vai me forçar a ficar com ela quando, na verdade, você é tudo o que eu quero?!
— Não fale isso com tanta convicção.
— E por que não? Acha que eu não sei o que eu sinto? Acha que eu não entendo a magnitude das minhas palavras? Ou acha que estou falando da boca pra fora simplesmente pra te seduzir, como faço com todas...
— Admito que penso veementemente na terceira opção.
— Meu Deus do céu. – ele passou as mãos nos cabelos rispidamente.
— Você não pode me culpar por pensar assim, Jack.
Ele me encarou friamente. – Tem toda razão. Eu não posso. E que sentido faz eu me esforçar para ser o cara digno de estar ao seu lado, quando você sempre verá em mim o canalha que eu fui? – ele caminhou até bem próximo a mim e inclinou-se minimamente, fitando minha boca, segurando hesitante meu rosto com seus dedos frios e suados. – Se você vai sempre me ver assim, não tenho porquê tentar ser outra coisa... Afinal, eu só tento por você. – sussurrou, fitando meus lábios trêmulos e saiu, levando o calor junto dele.
Um frio inundou meu estômago e um calafrio apossou-se de minha nuca quando o vi caminhar pesadamente até a pista central da boate, sumindo no meio de uma multidão inquietante. Tive vislumbres de seus cabelos alvos umas duas vezes, antes de ele enfim sumir por minutos indefinidos.
Sim, eu estava o procurando. Me xingando internamente por não conseguir tirar os olhos dele. Ainda sentindo o seu toque aflito em minhas bochechas, as mãos que suavam frio. Eu tentava, lutava com bravura contra o impulso descontrolado de buscar por ele em meio àquela confusão de corpos dançantes, meus olhos inquietos e ansiosos por mais um vislumbre de seus fios prateados, o mais breve que fosse, ou, quem sabe, uma parte de seu rosto?
Uma agitação tomou-me por completo, um sentimento aflitivo só de pensar em vê-lo tão magoado, como quando ele saiu de perto de mim, deixando-me com frio... Pela primeira vez na minha vida, o frio me incomodou.
Decidi que iria procura-lo.
Não só com os olhos, mas com o corpo e a alma, eu iria atrás dele.
E quando dou o primeiro passo em direção a bagunça onde eu cogitei ele estar perdido... Percebi que ele estava encontrado até demais.
Meu estômago embrulhara ao ter aquele, a princípio, ansiado vislumbre. Os cabelos alvos sendo agarrados por mãos femininas.
E as mãos dele, firmes e instigantes, também agarravam o corpo dela. Fiquei ali, como uma masoquista, reparando que não era apenas uma. Notei beijos em seu pescoço, lábios avermelhados vedados aos seus, as mãos de uma delas por dentro de sua camisa... Ele sorriu. Meu cenho franziu.
Tendo tempo apenas de negar com a cabeça, respirei fundo fazendo questão de montar a minha habitual feição impassível. Ninguém teria conhecimento do que estava ocorrendo aqui dentro.
Em minha postura impecável, sigo para longe dali.
Eu precisava de um tempo sozinha.
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