Notas iniciais
Começando novamente, uma história com uma pegada mais pesada, vamos ver no que dá. Boa leitura!

Prólogo

— Essa é a sua tarefa.

Uma voz grossa é ouvida, aparentemente o portador desta estava bem sério ou até mesmo, aborrecido. Acordando rapidamente de seus pensamentos e olhando para os lados, Aranea levanta o olhar perdido para o homem. Parecia de meia idade, tinha uma barba grande e cabelos bagunçados, e ao abaixar um pouco a cabeça acabou por se deparar com um saco transparente lacrado, contendo algumas pílulas de cor amarelo dourado, lembrava um pouco pílulas de ômega 3, aquelas com óleo de peixe que somente pessoas velhas compram.

Se ajeitando na cadeira, espreguiçou o corpo exausto e bocejou, — Irei apenas fazer o que está no limite do meu conhecimento. — completou, pegando o saco na maior falta de interesse, mesmo assim curvando exageradamente os lábios para forçar o sorriso mais dramático que podia, afinal era nova na delegacia e não poderia deixar o seu mau humor e aparentemente, má vontade serem os motivos de sua demissão, como das últimas duas vezes. Jogando o saco na mochila e puxando a bolsa apoiada na cadeira, murmurou um “Se cuida” para o mais velho que lhe encarregou da tarefa, e juntou o resto de coragem para andar, quase como uma alcoólatra, em passos descompassados até a saída da delegacia.

Não fazia nem uma semana que tinha sido contratada para aquele emprego, e para ser sincera nem sabia o porquê. Deveria “comemorar”, como os outros sempre fazem ao conseguir um emprego? Talvez, mas como sua lista de contatos tinha apenas a sua família, e essa com certeza não seria uma opção viável, teria de encher a cara, como sempre fazia. Quando estava triste, feliz, o seu único diploma era transcrito na arte de beber até cansar.

Andando pela delegacia, seus sapatos novos faziam um som alto à medida que andava, qualquer som que fosse feito seria alto já que o estabelecimento era grande e vazio, apenas os guardas e a mulher de 20 anos.

Ignorando completamente as substâncias que lhe foram entregue, somente se importou em andar até a saída, enquanto afogava-se nos próprios pensamentos, como dizia seu irmão, “sem pé nem cabeça”. Chegou a revirar os olhos e fazer uma careta pra si mesma ao se lembrar do mais novo e era nessas horas que juntava os pés e agradecia ao universo por ter arrumado um apartamento e começado a morar sozinha. Pegando o cachecol que estava no apoio ao lado da saída, puxou a carteira e a colocou sobre o sensor nas catracas, ouvindo o “Beep!” de confirmação e apenas passou, enfim saindo daquela gaiola de portas de vidro e cheiro de escritório velho.

Como sempre, o frio lhe subiu ao corpo no momento que saiu, e as roupas do código de formalidade da delegacia não ajudavam muito, a saia fina tinha zero de utilidade em impedir a temperatura gélida, juntamente com a blusa azul cobalto que, apesar de possuir mangas compridas, era mais fina que uma bolacha Cream Cracker. Puxando o seu celular e indo até o encostamento da calçada, chamou um Uber e olhou pros lados, se prevenindo como sempre para não ser assaltada, mesmo estando na frente da delegacia, era a prova que os bandidos desgraçados não davam trégua.

Assim que estava dentro do carro, apenas se jogou no banco de trás e nem confirmou seus dados com o motorista, apenas pediu para que este seguisse o caminho que quisesse, sendo longe ou perto, quem pagava a corrida em seu cartão de crédito não era ela, de qualquer forma.

Puxando o celular novamente, foi deslizando o dedo por cima da tela fria do dispositivo, sua expressão não mudando com cada mensagem lida, eram apenas ligações de seu pai, notificações de redes sociais, coisas insignificantes no seu momento de paz. Após quinze segundos, desligou o celular e o seu corpo até o fim da viagem, apenas acordando fisicamente quando teve de descer do carro e, psicologicamente quando chegou em casa. O apartamento estava uma bagunça, como de comum, então nem se deu ao trabalho de olhar por cima e andou até seu quarto, jogando a bolsa no chão e o seu corpo, sobre a cama.

Respirou fundo algumas vezes, deixando a pressão sair de sua mente, mas a vontade incontrolável de chorar a atingiu novamente. Sentiu as extremidades do corpo se arrepiar e a respiração perder a calma. Era o ritual de sempre, após uma noite de trabalho. Segurou a si mesma na cama e gritou, gritou muito, abafando é claro com o colchão da cama pois não queria os vizinhos batendo em sua porta, seria mais uma preocupação para seus ombros e mais um passo em direção à vontade enorme de se jogar daquele prédio de uma vez por todas.

Sua escolha sempre era esperar, é claro que poderia optar pela medicação contra sua “ansiedade” mas isso apenas a deixaria mais e mais indisposta a tudo. A dormir, a ir trabalhar no dia seguinte, até a viver.

Esperando um longo tempo que não fora calculado para que voltasse ao normal, levantou devagar e se arrastou até o canto da cama, sentando-se ali. Tirou os cabelos cinzentos do rosto e limpou o resto de fluidos corporais que tinham sido expelidos durante sua crise existencial, estranhamente se sentia melhor após chorar um pouco, ajudava a limpar a cabeça e focar no que realmente era importante. Olhando pro lado e indo pegar a sua bolsa, a deixou sobre a escrivaninha, o único móvel realmente organizado de sua casa, e aparentemente o mais recente já todo o resto parecia ser de um ambiente preservado dos anos 90.

Pausando para retirar o seu sutiã e enfim se libertar daquela prenda do décimo sexto portão do inferno, assentou-se na cadeira e se preparou mais uma vez, enfim puxando a sua bolsa e colocando o saquinho de drogas sobre a mesa, o encarando por vários minutos seguidos. Foi encarregada daquele caso, parcialmente, por ter certo conhecimento de drogas ilícitas e aquela não seria diferente, já havia ouvido falar. Olhando para o lacre, o nome estava lá.

Pena de Ouro.

Pareciam pequenas porções de pepitas de ouro, eram até que bonitas mas não se deixaria entregar, era por culpa destas que a delegacia estava um sufoco. Pegando o celular e indo em suas conversas, começou a digitar.

Ey Lotte, preciso de um favor. Checa essa parada aí pra mim, e me diz quando podemos nos encontrar.

E assim que a mensagem foi enviada, Aranea tirou algumas pílulas do saco e tirou uma foto, enviando para a mesma. A mensagem foi entregue. Esperando uns dez minutos, viu a notificação chegar no seu celular.

sei, é o bagulho famoso, glr chama de pena de ouro. to meio ocupada, proximo final de semana, cipá?

Agradecendo mentalmente, era raro de sua “amiga” Charlotte estar disponível em tampouco tempo, e apenas respondeu a mensagem desta com “top.”, deixou o telefone sobre a mesa. Ficaria mais uma semana sem fazer nada na delegacia, talvez jogando no telefone, raciocinando sobre a vida, estava com tanto tédio que já tinha formado três rotas alternativas diferentes para o resto de sua vida, em sua mente. Não tinha mais nada pra fazer, então levantou-se e foi até sua cama novamente, dessa vez se jogando para não levantar em mais ou menos 8 a 9 horas. Dormiu como uma pedra, parecia mais que estava morta sobre a cama, mas como de costume no momento que acordou, pareceu que tinha fechado os olhos por apenas 15 minutos.

Outro dia, outra rotina. Andando como sempre fazia, arrastando o corpo pela casa, tomou banho e se trocou, passando rápido pelo armário e pegando um salgadinho de queijo, guardou consigo as coisas do dia passado e se apressou para a delegacia. Já dentro do carro do Uber, usou os poucos minutos da corrida para encostar-se na janela e cochilar por um momento, mas nem isso a coitada pôde.

Despertando de sua meditação com o zumbido de várias buzinas ao pé de seu ouvido, quase num pulo, olhou para os lados como se estivesse em outro mundo. Afrouxando a gravata em seu pescoço, teve de manter a calma se não teria outro ataque e não poderia no momento. Enquanto fazia seu exercício de respiração lenta, Aranea olhou para os lados tentando se localizar na dimensão nova. Rapidamente entendendo o motivo, estava óbvio.

Motorista furioso, buzinas sem parar, carro lento, estavam presos no trânsito. Juntando todas as forças, deixou um suspiro alto do fundo de sua garganta a aliviar um pouco, chegaria atrasada por causa daquele inferno.

De uma vez por todas, pegou o celular e cancelou a corrida, abrindo a porta do carro e fechando com a maior agressividade, apressou os passos até a calçada e foi praticamente correndo pelo resto do caminho, xingando cada átomo do universo no caminho até lá. Na frente da delegacia, tinham viaturas e uma ambulância, e esse era o motivo do trânsito estar uma bagunça. Aranea espremeu as sobrancelhas, e deixando a raiva ser trocada pela tensão, diminuiu os passos, e entrando com dificuldade entre as pessoas que queriam ver também, o que houve para tanto escândalo.

Aranea Zloty, se tinha uma coisa que odiava mais que tudo, eram pessoas, incluindo ela mesma. Sabia que o mundo estava contra ela, então ficaria sobre o mundo, logo não se importou se a ofendiam ou não, apenas quis conseguir ver o que estava acontecendo.

Dois corpos, na frente da delegacia. Um tinha dois tiros no peito, e outro, um na cabeça.

Naquele momento, sentiu o corpo entrar em estado de êxtase, seus lábios tremerem por um momento e sua espinha congelar. Corpos, duas pessoas mortas. Passaram-se minutos, que pareceram segundos aos olhos da novata. Ela conseguiu distinguir as vítimas, já tinha os visto de relance da delegacia, eram guardas de lá. Um deles, o que tinha visto antes de sair, o senhor barbudo de cabelos bagunçados, agora com uma bala no meio da testa, e não era exatamente uma bala de açúcar.

Mordendo o lábio e fazendo o máximo que pôde para se distanciar daquela cena, se jogou para trás com tudo, saindo daquele mar de pessoas ao redor. Sentindo a sola do sapato ser trocada por pontas de agulhas, não se aguentou de pé, desabando de joelhos no chão. Além das vozes confusas, conseguiu ouvir repórteres se aproximarem, cobrindo a mais nova matéria:

Dois guardas foram mortos a tiros na fachada da delegacia, como uma mensagem dos traficantes, “Cancelem o caso ou pintaremos as paredes com o sangue de seus investigadores.”

Falhou ao levar a mão até a bolsa, caçando desesperadamente o celular até encontrá-lo, vibrando e tocando, insinuando que estavam a ligando. Levando devagar o dispositivo ao pé da orelha, o nó em sua garganta apenas se abriu para murmurar um “Que é?”.

— Senhorita Zloty. Aqui é do departamento do seu pavilhão, número de confirmação 855297689, chamando urgentemente no escritório do Sr. Caelum. Você conhecerá seus parceiros na investigação que foi encarregada.

A ligação foi desligada, e Aranea nem notou, apenas permaneceu ali no chão, levando uma mão até a boca e olhando incrédula para o chão, sua respiração indo e voltando descontroladamente, pensou, entre as imagens que passavam em sua cabeça, de seu próprio corpo jogado ao chão com tiros espalhados por si.

— ... Meu próximo trabalho é investigar os meus futuros anjos da morte?...

Notas finais
Bem, foi isso! Espero poder encontrá-los no próximo capítulo. Au revoir!