Rise of Jedi
4 Lições
Notas iniciais
Rey acordou com a sensação de ser observada; tentou virar-se na cama, mas uma dor intensa nas costas a impediu. Sua cabeça latejou como se houvesse uma bomba em seu crânio, e o mundo girou.
— AI! – ela sentiu a proximidade de Ben, que se aproximou e sentou ao seu lado no colchão, causando ainda mais dor ao desequilibrar seu peso – Por favor, Ben, não!
— O que foi? Sente alguma dor? – ele se ergueu de súbito, surpreso.
— No corpo inteiro – ela se levantou muito devagar e com enorme dificuldade – o último salto, ontem, quase partiu minha coluna. – Rey levou a mão à nuca – acho que machuquei algo...
— Precisa ir para a ala hospitalar – disse Ben, usando a Força para ajuda-la a se sustentar, uma vez que qualquer toque parecia provocar grande sofrimento na moça. Ela colocou um vestido fácil de vestir e, grata em sentir que o Sith usava a Força para aliviar o peso sobre suas pernas, caminhou com dificuldades até a porta. – consegue andar?
— Com sua ajuda, sim. – respondeu ela, detestando se sentir vulnerável, mas feliz em ver aquele lado preocupado de Ben – obrigada.
No hospital, uma unidade droide escaneou toda a extensão da coluna de Rey: os ossos estavam intactos, mas a intensa pressão sobre os discos vertebrais e a torção a que haviam sido submetidos provocara uma inflamação ao longo de toda a dorsal. Não era grave, e uma série de injeções aplicadas entre as vértebras deixaria apenas uma sensação dolorida que, de acordo com o médico chiss – um humanoide de pele azul-cobalto e compleição robusta — haveria de passar em 24 horas, mediante repouso.
Deitada de bruços na maca, a Jedi olhava para seu marido, que tinha uma expressão irritante de arrogância e convencimento. Ele a teria deixado sozinha, se pudesse ter certeza de que ela não sofreria alguma tentativa de assassinato durante o tratamento; afinal, que lugar melhor do que um hospital, onde bastaria programar o droide para aplicar a dose ou substância errada para matar uma pessoa? Ele não confiava em ninguém, nem mesmo na equipe médica que, em tese, jurara proteger a vida acima de qualquer ideologia. Desse modo o Sith permaneceu ali, mal ocultando a própria satisfação em vê-la padecer por culpa da própria desobediência, embora parte de si sentisse vergonha e culpa em tal satisfação. Afinal, não sofrera ele próprio o extremamente desagradável tratamento quando havia apenas iniciado seu caminho pelo Lado Sombrio, e sua nave fora alvejada em combate? Essas memórias diminuíram a satisfação anterior...
Trincando os dentes ao sentir mais uma agulha fina entre seus ossos, e o líquido gelado se espalhar nos nervos com a sensação de um ácido corrosivo a percorrê-la, Rey perguntou com alguma raiva, desejando bater a cabeça do esposo na parede:
— Está adorando isso, não é? Sua vingança particular por eu o ter desobedecido.
— Não tive nada a ver com isso – defendeu-se ele, fingindo indiferença – eu diria que foi uma lição da vida, ensinando-a a não ser tão imprudente e rebelde. A obedecer seu superior. Agradeça por ser necessária apenas uma sessão.
— Imprudente, eu? AI! – ela agarrou o revestimento da maca com força com a picada seguinte – Isso não vai acabar nunca? – depois daquele dia, oficialmente odiava agulhas! Preferiria levar um tiro de blaster a enfrentar outra injeção; e embora nunca houvesse sido propensa a demonstrar quando se sentia desconfortável, injeções na medula já sensibilizada eram uma dor um pouco além do que se podia simplesmente ignorar. Que droga, o líquido doía dez vezes mais do que a perfuração!
— Pare de se portar como criança e fique quieta, antes que o droide acerte os ossos, em vez do espaço entre eles. – censurou Ben, ainda assim pousando a mão sobre a da moça, que apertou seus dedos enluvados e fechou os olhos no aguardo da próxima perfuração. Quando relaxava, não era tão ruim assim... E a mão quente dele contra seus dedos era uma sensação agradável o bastante para que se concentrasse e esquecesse as dolorosas infiltrações aplicadas. Um leve formigamento subiu por sua mão, e ela soube que estavam timidamente conectados: Ben partilhava um pouco de seu desconforto, ao mesmo tempo em que a jovem sentia o incômodo se aliviar.
Após o que pareceu um tempo infindável, para Rey – embora mal se houvessem transcorrido 20 minutos — saíram do hospital, e o Líder Supremo não parecia nem um pouco feliz ao se dirigir à esposa:
— Espero que isso seja uma lembrança para a próxima vez em que decidir fazer alguma loucura. Ou desobedecer minhas ordens. – todo o traço de doçura que tivera ao segurar-lhe a mão desapareceu como se por magia, substituída por frieza cortante.
— Vi que você se divertiu muito enquanto aquele robô psicótico me torturava com agulhas nas costas e injetava alguma coisa que parecia ácido, em minha coluna – acusou a moça. Ele não lhe permitia nem mesmo agradecer, antes de testar sua paciência quase ao limite! – mas não deixaria de fazer tudo outra vez, se fosse necessário.
— Rey – o tom da voz masculina deveria ser alerta suficiente, mas a moça já tivera o suficiente para os últimos dias:
— Nem. Comece. Depois de ser espetada como uma almofada de agulhas, eu não quero ouvir sermões. – ela suspirou – imagino que não deva pilotar ou usar sabres de luz, hoje, e certamente não sou bem-vinda ao seu lado, após minha “desobediência”...
— Volte a seus aposentos, e descanse. – ele tampouco pretendia discutir com a esposa, ainda mais porque o incidente já o atrasara demais — Eilenia lhe fará companhia, e eu a visitarei novamente, à noite, para saber como está. Aproveite seu tempo para começar as aulas com a senhora Shan. Seus conhecimentos são extremamente rudimentares, e sua dama tratará de consertar isso.
— Obrigada, eu acho. – ela revirou os olhos e, distraidamente, massageou o ponto dolorido na nuca onde fora aplicada a última injeção, sussurrando para si mesma. – porcaria de agulhas! – Kylo Ren tentou, mas foi impossível reprimir totalmente a contração dos lábios que por pouco não se converteu em sorriso. Se havia alguma lógica que regia o comportamento da Jedi, ele não tinha como decifrá-la, e verdade era que, naquele exato momento, queria poder permitir que ela continuasse a diverti-lo. Entretanto o dever chamava e, após constatar que sua esposa podia andar perfeitamente sem ajuda, o Líder Supremo tomou seu caminho.
Rey retornou a seu quarto sem muito entusiasmo: queria poder explorar a imensa nave, conhecer os que ali moravam, inteirar-se dos assuntos da Primeira Ordem. Gostaria mesmo de falar com Higgs e Fletcher, para saber se estavam bem, após o dia anterior! Infelizmente, suas costas ainda incomodavam muito, e um dia de repouso não seria uma tortura tão terrível quanto encarar outra sessão de infiltrações.
Sem querer se deitar na cama, acomodou-se numa das poltronas que emergiam do chão – já descobrira que seus aposentos podiam ser completamente transformados com apenas alguns botões, tornando-se uma sala de visitas, escritório ou quarto, de acordo com a configuração desejada – e se ajustavam comodamente a seu corpo. Abriu a mesa circular diante da poltrona e começou a ver os livros digitais presentes no acervo da nave. Grande parte consistia em manuais e coisa similar, mas havia outros – desconfiou que não estariam acessíveis a todos, mas apenas aos quartos do comando – com registros de combate, sobre estratégia militar e assuntos afins. Desprezou os livros de história por saber que seriam todos escritos de acordo com as versões da Primeira Ordem, e acabou interessada por um volume que relacionava vários sistemas solares controlados pelo império, descrevendo-os em detalhes. Para alguém que crescera vendo apenas areia e sonhando com outros mundos, era bastante interessante!
Perdeu-se em imagens sobre os sistemas mais próximos, a princípio apenas memorizando dados como distâncias, temperaturas, atmosferas, clima... Mapas holográficos tridimensionais reproduziam as imagens em cores e escalas, fazendo-a se sentir em uma viagem através do espaço; já não lia as informações, mas as compreendia da mesma forma ao observar as superfícies, as distâncias equivalentes, as formas... Perdia-se numa viagem por mais mundos do que já vira, seu cérebro trabalhando depressa, passando por supernovas, berços de estrelas, nebulosas! O universo era fluido, vasto e mutável. Ela sentia a Força, mesmo sendo apenas uma holografia... Espere, era uma holografia? De repente olhou em redor, e percebeu que não estava mais em seus aposentos, mas vagava pelo espaço, suspensa no vazio, sentindo... Sentindo... Fluindo com a Força!
Não sabia como chegara até ali, mas não se espantou; estava em paz. Maravilhada, em verdade! As cenas iam e vinham como se ela cruzasse a galáxia através do tempo, vendo planetas nascerem, sóis morrerem... Viu um berço de estrelas, uma grande nebulosa azul, e o tempo formando sistemas solares inteiros... A vida florescendo naqueles pequenos corpos rochosos esféricos... O velho morria para dar lugar ao novo e, ante a magnífica transformação em luz e cores, uma lágrima de emoção e felicidade escorreu pelo rosto da moça:
— Somos poeira de estrelas – sussurrou para si mesma, compreendendo enfim a origem comum de tudo o que existia. Tudo provinha da mesma fonte, uma incessante transformação de uma coisa em outra. Nada era destruído. Nada era criado. Tudo era um incessante fluir, a eterna mutabilidade dos inquieto cosmos; e o Equilíbrio, que tanto haviam tentado teorizar, era o que mantinha esse fluxo. E podia sentir que, de um modo ainda não completamente compreendido por ela, era nisso que residia a essência da Força. O Um, o Todo... Não havia distinção. O Tudo se manifestava no Um. A unidade se manifestava no Todo. Era confuso, e ainda assim fazia sentido de um modo não-racional.
De repente, porém, viu à sua frente duas estrelas muito similares, em tamanho e idade. Duas gigantes vermelhas, prestes a colapsar. Desmoronavam sobre si mesmas, extinguindo-se, e o espetáculo era igualmente fascinante e terrível. Mesmo sabendo que estava apenas em sua mente, Rey quase podia sentir o calor.
— É magnífico, não é? – perguntou uma voz masculina que ela conhecia bem. A Jedi se virou para encontrar Luke Skywalker, em pé ao seu lado. Ele a fitou com um sorriso – veja: são similares. Vermelhas, antigas, queimaram o combustível que as alimentou, e estão morrendo.
— Por que estou aqui, Mestre?
— Shhh. Não interrompa o espetáculo – sussurrou ele, levando um dedo mecânico diante da boca – observe.
As estrelas colapsaram. Implodiram sob o peso de suas próprias forças gravitacionais, e foi a última coisa que tiveram em comum: a primeira, menor, converteu-se em uma explosão violenta a lançar incontáveis elementos e materiais pelo Universo, em uma supernova que evoluiria para nebulosas, e das quais talvez surgissem outros corpos celestes. A segunda, contudo, era mais robusta. Sua implosão progrediu em contração cada vez maior, tornando-se escura, concentrada... O que era uma estrela tornou-se um vórtice escuro, até desaparecer completamente. Nada. Nem mesmo uma centelha de luz. Um buraco negro, escuro contra a noite eterna do espaço, impossível de ser detectado a não ser por seus efeitos gravitacionais massivos. E então Rey compreendeu o que Luke queria lhe mostrar: seres semelhantes, potenciais similares... E destinos tão diferentes!
— Por isso não queria me treinar. – declarou ela, mostrando que compreendia – viu o mesmo potencial que enxergou em Ben.
— Não exatamente. – disse Luke – Talvez em intensidade, mas não em natureza. – ele a fitou – quando Ben veio para meus cuidados, eu o temi por ver suas sombras. Mas quando senti o seu poder, Rey, eu o temi por ser... Selvagem. Nem luz, nem trevas. Apenas você, e uma onda avassaladora que flui através de seu espírito. – ele lhe estendeu a mão, e ela segurou os dedos metálicos do mestre – não havia como negar treinamento a Ben. Ele já sabia sobre a Força, crescera em contato com ela. Mas eu não podia ser o responsável pela criação de outro...
— Ben e eu somos diferentes, Luke – disse a moça – Ele luta contra seus sentimentos, agarra-se desesperadamente à máscara que criou para si mesmo, mas que o destroça... Eu eu... – não sabia dizer o que ela era. Sim, havia enorme confusão dentro de si quanto a quem era, de onde vinha, qual seu destino em tudo aquilo... Mas estava em paz com o que sentia, ao menos. Não tentava deixar de sentir.
— Você flui. – respondeu o homem, tomando ambas as mãos da discípula nas suas – como a Força. Como o Equilíbrio. – ele respirou fundo – Ainda é muito jovem para muitas das respostas que procura, e outras precisa descobrir por si mesma. Mas é muito mais do que pensa, Rey.
— Quem sou eu, mestre? – perguntou a menina, esperando ardentemente que ele pudesse lhe dizer algo sobre si, qualquer coisa que lhe servisse de bússola no caminho pedregoso no qual acabara.
— Você é a resposta, Rey. – sorriu Luke, e fitou o buraco negro que tragava para si até mesmo a luz – A escuridão surge, e a luz precipita-se em sua direção.
— O que isso quer dizer? – Luke não estava lhe dando respostas, apenas deixando tudo mais confuso!
— Você sabe, Rey. Compreendeu antes mesmo de eu lhe surgir. – ele virou o rosto e fitou algum ponto no horizonte – seja firme. Acima de tudo, seja fiel a si mesma: seus instintos lhe dirão o que é certo.
— Mestre, por favor, não vá agora – pediu ela, mas o Jedi se afastou a passos lentos, ocasionalmente olhando para trás e sorrindo:
— Apenas confie, Rey. Acredite. Flua.
— Skywalker! – ela chamou, e tudo se tornou escuridão. Sentiu-se fortemente puxada para trás e, após um segundo, seus olhos focalizaram seus aposentos. Uma voz feminina a chamava:
— Lady Solo! – um aperto suave em seu ombro – REY!
Sacudindo a cabeça, a Jedi despertou de vez: Eilenia estava ao seu lado, junto de uma adolescente humana e uma menina togruta de dez ou onze anos. Tinham semblantes preocupados e, ao olhar para a mesa de projeção apagada, a moça compreendeu que devia ter estado em uma espécie de transe.
— Eilenia... Estou bem – assegurou, segurando o pulso da outra.
— Estava inconsciente, quando entramos. A porta estava destrancada. – disse a diplomata – está se sentindo bem?
— Sim, claro. Apenas fui ao hospital, pela manhã, e o que me aplicaram provocou muito sono. – deu de ombros – feri as costas pilotando o jet. Havia deixado a porta aberta, porque sabia que viria.
— Tem certeza de que está bem?
— Sim, claro! – ela se levantou devagar – desculpem-me o susto. – olhou então para a jovem Togruta, que tinha pele branco-perolada com rajas negras, lekkus e montrais ciano com rajas brancas. Era linda, delicada e tinha os olhos escuros cheios da timidez e curiosidade típicas das crianças. Os olhos escuros eram quase perturbadores: puros e límpidos, mas dotados de algo a mais... Algo latente, adormecido, mas ainda assim presente. Rey podia sentir, e isso a fez sentir uma proximidade inexplicável em relação à criança. A adolescente humana, por sua vez, possuía brilhantes cabelos dourados, olhos cinzentos e pele moreno-clara, o que lhe conferia ar exótico em conjunto com os traços orgulhosos e angulosos. De alguma forma, ela lembrava a Rey algum tipo de predador, e sentiu-se um pouco incomodada com isso. – ah... Creio que ainda não nos conheçamos.
— Estas são Brenwen Lisin – a humana fez uma reverência – e Asala Ishlay – a menina se curvou com mais elegância do que se podia esperar para uma criança – foram enviadas pelas famílias para ficarem aos meus cuidados e receberem treinamento nas artes diplomáticas. Agora, serão também suas damas de companhia.
Rey respirou fundo, entre a indignação, a revolta e a incredulidade: damas de companhia?! Eilenia pensava que ela era o quê?! Uma lady fútil e frívola?!
— Eu realmente não creio que isso seja necessário, Eilenia – disse a Jedi, tentando não ofender as jovens, mas incapaz de aceitar tal absurdo – não preciso de damas! Acha que vou fazer o quê? Roubar um caça e fugir?
A Twi’lek fitou a Primeira Dama de modo compreensivo e dirigiu-se então às duas meninas:
— Brenwen, Asala, estão dispensadas. Retornem a seus estudos. – ela fitou a Jedi, que tinha as mãos pousadas na cintura, levemente indignada – eu sei que não gosta da ideia, Rey, mas precisará se acostumar a algumas coisas. São meninas da nobreza, e a oportunidade de servirem à consorte do Líder Supremo será extremamente vantajoso, para elas.
— Eu sou uma padawan Jedi, Eilenia! Não há motivo para isso! Se elas precisam adquirir status, podem obtê-lo de outras formas, ou servindo a alguma casa real. Eu não sou nobre, minha condição é fruto meramente de um acordo que eu desejo todos os dias ter podido não fazer – a moça fitou as janelas. Aquela nova vida conseguia ser mais angustiante e estressante do que se perder nas infindáveis unas dos desertos de Jakku – eu sei que tem as melhores intenções, mas não sou esse tipo de pessoa. Não quero serventes, acompanhantes ou coisa similar. – contemplou a aliança tatuada em seu dedo e terminou – eu lhe disse que um casamento não mudaria quem sou.
— Rey, eu entendo sua indignação. – disse a diplomata, inalterada – contudo, não foi por me curvar às frívolas tradições da nobreza, nem mesmo para manter aparências que escolhi essas meninas como suas damas. – a Jedi a fitou, seus sentidos indicando que aquilo era bem mais importante do que parecia – Não é você que precisa de damas. São aquelas meninas que precisam de você.
— Para melhorar seu status? – ainda na defensiva, embora soubesse que não seria esta a resposta. Droga, precisava parar de estar na defensiva em relação a tudo e todos, ou nunca faria aliados, ali dentro!
— É difícil melhorar o status social de duas princesas. – a Twi’lek deu um sorriso leve ao ver o claro espanto da outra – Agora, se contiver seu temperamento impulsivo e me deixar explicar... Ambas são filhas da alta nobreza de seus povos. Foram “confiadas” à Primeira Ordem como parte de um acordo de paz, como um “voto de confiança” de seus povos. Em resumo: são reféns, sendo treinadas para servir este império como parte de uma barganha que manterá sua gente segura... Exatamente como você. Estão sozinhas, longe de seus lares, longe de tudo o que conheceram, cercadas de pessoas às quais temem e pelas quais nutrem ressentimento profundo.
A Jedi prendeu a respiração: exatamente como ela. Isoladas. Sozinhas. Assustadas e oferecidas como moeda de troca, porém não por sua vontade, e sim por suas próprias famílias! Abandonadas. Desejadas pela Primeira Ordem pelo que tinham a oferecer, e não por si mesmas... Poderia haver mais similaridades entre as duas meninas e ela?
— Quer que eu as tome sob minha proteção. – não foi uma pergunta. O olhar de Eilenia deixava claro que era o que esperava.
— Sim. – confirmou a mais velha – Existem várias crianças, meninos e meninas nessas condições... Mas Brenwen e Asala não apenas foram confiadas ao corpo diplomático: elas são diferentes. Sensitivas, especiais. – a Twi’lek viu toda a desconfiança no olhar de Rey, e soube de imediato que poderia confiar na moça, que repudiava fortemente tudo o que a Primeira Ordem representava. Ali não haveria traição, mas a Jedi precisava de algo que lhe provasse poder confiar em sua... Protetora? – eu creio que sejam sensíveis à Força, em algum grau. E Kylo Ren não pode descobrir isso.
— Sensíveis à Força? – perguntou Rey, compreendendo que fora o que vira na menina Togruta. Saiu de perto das janelas e colocou-se frente a frente com Eilenia Shan, uma pontada de esperança em seu peito lutando contra os avisos da mente para que jamais confiasse em alguém – o que sabe sobre a Força, Eilenia?
— Mais do que você pensa, e menos do que eu gostaria de saber. – a Twi’lek trancou as portas dos aposentos de Rey e estendeu o pulso com o bracelete. Murmurou palavras em sua língua natal e, ante o comando de voz, um símbolo até então indetectável se revelou: o símbolo da Resistência! A Jedi arregalou os olhos:
— Você é...? – não pronunciaria em voz alta. Mesmo em seus aposentos privados, mesmo com o isolamento acústico, não correria o risco de dizer algo que comprometesse a outra mulher.
— Não mais. – havia tristeza e decepção no olhar da outra – não existe mais Resistência, lembra-se? – deu de ombros e se sentou na poltrona – seja como for, deixei de servir antes mesmo da ruína final, quando percebi que não era a Primeira Ordem o verdadeiro inimigo.
— Não é a Primeira Ordem o verdadeiro inimigo? – Rey meneou a cabeça, incrédula e confusa – do que está falando?
— Ditaduras surgem onde o caos impera e o povo perde a fé. – Shan se levantou, caminhando lentamente em redor da mesa, como se para acalmar os próprios sentimentos através da movimentação lenta e repetitiva – Lutar contra a Primeira Ordem é inócuo, se não forem sanadas as chagas sociais que permitiram seu aparecimento. Chagas que existem desde a Velha República.
— Está falando do caos político que precedeu o Primeiro Império Galáctico? – podia ter crescido num planeta isolado, mas não era surda e sempre fora curiosa. Ouvira o que os mais velhos conversavam, e entrepostos comerciais, mesmo no fim da galáxia, eram um lugar onde se ouvia sobre absolutamente tudo – as guerras separatistas? – a outra anuiu – mas não foi o próprio Darth Sidious quem as fomentou?
— Sementes brotam em terreno fértil. O povo estava descontente com a República, cujas bases não eram realmente fortes. Sim, havia um senado, havia leis... Mas muitos dos sistemas solares não passavam de oligarquias despóticas disfarçadas em democracias. – ela ergueu os olhos violeta – Tatooine, planeta natal de Anakin Skywalker, não era diferente de Jakku. Um antro de iniquidade, onde até mesmo o comércio de escravos era corrente. O próprio Anakin, posteriormente chamado Darth Vader, nasceu escravo.
— A República permitia isso? – as palavras de Eilenia Shan destoavam de tudo o que a moça ouvira sobre a Velha República. Não raramente era tida como um tempo próspero, especialmente para os sucateiros e comerciantes, que falavam ter sido um período de intensa atividade comercial, quando o comércio era feito em créditos, e não por escambo numa terra onde comida e água eram os bens mais caros de se obter. Mas é claro... Se realmente havia tal descaso com os sistemas periféricos, o contrabando e o comércio irregular certamente teriam sido beneficiados por isso. O Império tornara o mercado menos variado, voltado principalmente a armas, maquinário bélico e naves, e a Nova República desgastara até mesmo isso, reduzindo Jakku ao que Rey conhecera. Decididamente, ao menos quando se pensava em abandono social, o Império e os Sith não haviam sido os primeiros vilões. Isso SE o que Shan dizia era verdade. Mas não havia falsidade no olhar dela... Deveria Rey confiar?
— E como Tatooine – continuou a diplomata — muitos planetas viviam o abandono político e legal da República, que concentrava suas atenções em manter a aparência de uma galáxia unida, mesmo quando as crises internas colapsavam planetas e sistemas inteiros. Não viam isso como um problema real, conquanto não chegasse nas sociedades mais relevantes, as que representavam maioria no Senado e detinham o poder, de fato. A ideia do separatismo não nasceu com Darth Sidious: ele apenas forneceu os meios para aquilo que era desejado por muitos. Os oligarcas locais das regiões desfavorecidas desejavam a independência para se livrar das ocasionais pressões republicanas sobre seus governos, quando o Senado tentava realizar algo para silenciar eventuais protestos e queixas. O povo desejava a independência por acreditar ser a República responsável por apoiar seus opressores.
— Quando surgiu a oportunidade, eles a agarraram com todas as forças. Serviram aos propósitos do Senador Palpatine sem sequer perceber que o faziam... – cada vez mais ela se recordava das conversas ouvidas quando estas ainda significavam para si pouco mais do que uma distração noturna, antes de ir para casa dormir. – e isso continua, hoje... – ela não era tola – nenhuma república conseguirá perdurar, se não houver uma sensação que unifique a galáxia e mantenha a paz por tempo suficiente para a democracia se fixar. – Rey girava o sabre de luz desligado entre os dedos, pensando a respeito. De repente, seu trabalho parecia muito maior do que jamais pensara. Leia fizera tudo parecer simples, uma mera questão de derrotar a Primeira Ordem... Mas o medo estava arraigado demais nos corações de pessoas que há gerações vinham vivendo sob tal égide, desamparadas e sem esperança. A falta de esperança, a falta de fé eram a verdadeira opressão que faria erguer ditadura após ditadura. No medo, a escuridão e o mal prosperavam. O medo, a desesperança e o abandono eram os verdadeiros inimigos, e não as consequências deles originadas.
— Eu me pergunto em que escola você cursou relações interplanetárias e teoria política – sorriu Eilenia – compreende depressa as coisas. Sabe mais do que imaginei.
— Ficaria surpresa com tudo o que se ouve num entreposto comercial... Mesmo um situado em Jakku – ela deu um breve sorriso ao se lembra de como Luke se referira a seu planeta “Ah, sim, aquilo realmente é Lugar Nenhum”. Sentia falta da rabugice de Skywalker, mas também de sua firmeza, melancolia e momentos de diversão. Sentia falta dele, como um todo, pois aprendera a gostar do Mestre Jedi que fizera de tudo para afastá-la. Mesmo o desapontamento quando deixara Ach-To não mudara o afeto e carinho desenvolvidos em relação ao mentor.
Ao perceber que devaneara, meneou a cabeça e retornou ao assunto da conversa:
— Se tudo o que me diz é verdade...
— “Se”, não. É verdade. – afirmou Eilenia. – e você verá por si mesma: escravidão, medo, fome, opressão... Nada disso foi inventado pela Primeira Ordem. Apenas mantido como arma de dominação. E quando a Resistência se mostrou incapaz de compreender isso, deixei de ajuda-los. Faço meu próprio trabalho como diplomata, tento angariar aliados e orientar as relações entre governantes e governados de modo a reduzir tanto quanto possível o atrito e a repressão armada. Mas isso não é suficiente. – ela fitou com olhos esperançosos – não era, até você aparecer.
Rey não falou nada: sabia que a outra começava a depositar esperanças em si, não apenas por ser ela uma Jedi, mas por ser a esposa de Ben Solo. Eilenia esperava que a mais moça pudesse influenciar o Líder Supremo com maior facilidade, aliar-se a ela no trabalho que começara, e isso a deixou zangada por alguns momentos: será que TODOS a queriam pelo que ela representava? Pensavam que podia ser usada e manipulada como um fantoche para atender aos diversos objetivos do que as cercavam?! Ela era uma pessoa! Uma pessoa, e ninguém parecia compreender isso!
“Acalme a tempestade” sussurrou uma voz suave que não vinha senão de sua própria mente. Uma voz que não conhecia, mas a confortou profundamente e a fez fechar os olhos e respirar fundo, reconhecendo a verdade: é claro que todos esperariam algo dela. Num universo em que a Primeira Ordem tentava esmagar tudo o que se opusesse a ela, e algumas almas corajosas tentavam se opor a isso com as armas de que dispunham, ambos os lados fariam de tudo para tê-la como aliada. Ser uma Jedi significava isso. Significava abrir mão do “ego”, do “eu”, e fazer o que era certo, o que era necessário. Ainda assim, não cria estar pronta para mergulhar em uma nova loucura, ao menos não até compreender o que realmente acontecia. Pois sua mente montava aos poucos um quebra cabeças que compunha o panorama geral da situação, e ainda faltavam inúmeras peças. Quanto mais respostas obtinhas, mais peças pareciam faltar, e não arriscaria passos maiores do que as pernas antes de saber ao menos em parte no que se metia!
— E os Jedi, nisso tudo? – perguntou a garota, enfim – até serem caçados e dizimados, como se encaixavam nisso? Não haviam jurado proteger e servir?
— Eles tentavam. Mas estavam a serviço da República, e creio que este foi seu principal erro: jamais deveriam ter se aliado a uma forma de governo. Confundiram o que significava a liberdade, e pensaram ser esta sinônimo da forma de governo na qual, em tese, todos eram livres. Alienaram-se dos problemas existentes, porém negados pelo governo ao qual defendiam, tornaram-se arrogantes e fitavam o maravilhoso paraíso que eram as capitais da galáxia, crendo que os Sith eram seus únicos inimigos e ameaças à ordem. Em resumo: tornaram-se arrogantes e cegos, e isso os enfraqueceu.
— Foi o que Luke Skywalker me disse... – declarou Rey. Mas o que podia, de fato, fazer? – o que espera de mim, Eilenia?
— Que faça o que é certo. Que faça o que uma verdadeira Jedi faria: o mesmo que fez ao se entregar para Kylo Ren, em troca da vida dos rebeldes.
— Não sou uma Jedi formada. Ainda estou aprendendo, e tenho muito a aprender, na verdade.
— É claro que tem. Todos temos. Mas não significa que suas habilidades já adquiridas não possam ser úteis! – a Twi’lek vibrava com esperança – ajude-me, Rey. Comece por proteger aquelas meninas, torna-las suas aliadas. Conheça o império que, agora, também é seu. – a ideia causou uma sensação esmagadora sobre os ombros de Rey, como se tivesse de carregar uma montanha. Contudo, em vez de enfraquece-la, encheu-a de determinação.
— Não tenho como fazer coisa alguma sem conhecimento. – disse a humana – preciso aprender. Tenho de conhecer a Primeira Ordem, como funciona, a história completa desde os tempos da Velha República e... – ela sabia que talvez se frustrasse com aquele pedido, mas arriscaria mesmo assim – a história dos Jedi. Você sabe mais do que me contou; eu sinto isso.
A Twi’lek baixou a cabeça, mãos fechadas uma na outra, cotovelos apoiados nos joelhos; parou daquela forma por um bom tempo, até encarar sua interlocutora:
— Confiar em você foi contra tudo o que eu aprendi. Fui precipitada, afoita e podia ter cometido grande tolice... Ainda pode ser uma tolice, se Kylo Ren conseguir convertê-la ao Lado Sombrio, mas eu acredito em você, Rey. Quando eu a conheci, quando ouvi falar do que fez, e olhei em seus olhos, senti-me eufórica: os Jedi estavam de volta. Senti uma esperança que não experimentava há muito tempo... – ela se levantou – farei absolutamente tudo o que estiver ao meu alcance. E quanto à história dos Jedi, sim, também tenho algo para você. Mas não hoje.
— Eu preciso aprender...
— O Universo não se formou num dia só, menina! – a mais velha tomou a liberdade de segurar as mãos de Rey – devagar. Uma coisa por vez. Contei-lhe sobre o que acontecia desde o princípio, antes de Darth Sidious e dos horrores que foram cometidos. Você compreendeu muito mais depressa do que teria esperado, e isso é ótimo, mas talvez não tenha captado tudo. Respire, pense melhor a respeito, posicione-se antes de absorver mais informação. Informação é inútil por si mesma, se não for apreendida e processada. Eu sei que está ansiosa, e não vou mentir: também estou. Ansiosa o bastante para não ter esperado, para ter lhe confiado meu maior segredo sem sequer conhece-la direito. Mas precisamos seguir com calma e, acima de tudo, com cuidado.
— Certo. – a Jedi respirou fundo e tentou relaxar, embora sua mente e coração trabalhassem a mil. Precisava sair daquele quarto, respirar, pensar e ver outras pessoas. Entender aquela nave-cidade, ver outros rostos. Já nem se lembrava das costas feridas, angustiada pelo confinamento. – bom, se não pretende me ensinar mais nada por hoje, eu realmente gostaria de sair desta clausura e conhecer a nave. Isso aqui é uma verdadeira cidade flutuante, e eu deveria conhecê-la.
— Kylo Ren vai me matar, e isso não é uma metáfora – disse a diplomata.
— Por cima de meu cadáver, apenas. – assegurou Rey, destravando as portas – agora... Receber as refeições em meus aposentos é horrível! Realmente sinto como se estivesse em uma prisão. Onde se faz as refeições, aqui?
— O alto-comando as faz...
— Não o alto-comando. Os diplomatas, médicos, mecânicos... As pessoas que vivem aqui, que permitem a essa nave existir e operar. – Rey pensou no acesso que Ben teria se ela fizesse o que passara por sua mente, e tivesse uma refeição junto aos stormtroopers... Melhor fazer isso quando Eilenia não estivesse consigo, apenas por segurança da Twi’lek. Por hora, bastaria travar contato com os moradores civis.
— Não creio que isso seja adequado, Lady...
— Eilenia, é apenas Rey. Por favor. – pediu a jovem – e se pudesse mostrar o caminho, eu ficaria feliz, pois estou com fome e desesperada para deixar esta cela de luxo que Ben chamou “aposentos pessoais”.
— Não é esperado que...
— Se há algo que aprendi em Jakku é que nada aproxima e faz conhecer melhor as pessoas do que ter uma refeição em sua companhia. Se devo conhecer o império, o primeiro passo é conhecer as pessoas, não acha?
— Sabe que pode sofrer tentativas de assassinato?
— Pessoas tentaram me matar desde que eu tinha cinco anos, em Jakku. – Rey cruzou os braços, despreocupada – eu diria que falharam miseravelmente até hoje. E se eu não morri no deserto, nem em combate, nem lutando contra Snoke ou Kylo... Não vejo como poderia surgir situação pior durante um simples passeio pela nave. – a menina sorria de modo irresistível para convencer a outra, exasperando sua protetora e acompanhante que, finalmente, não teve mais como resistir:
— Certo. Mas apenas para constar: eu me opus completamente a tal loucura!
— Será a primeira coisa que direi a Ben, quando ele começar a me ameaçar – respondeu a Jedi, nem um pouco preocupada com o esposo. Lidaria com ele depois. Agora, queria saber como poderia ser sua vida ali, de verdade, ouvir o que tinham a dizer os milhares de habitantes do cruzador, conhecer novas pessoas e se sentir menos uma estranha, ali. Sim, é claro que a tratariam como a Primeira Dama, com frieza, distância e estranheza, mas não conseguiria mudar isso se jamais entrasse em contato com os demais – Vamos?
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