Rise of Jedi

5 Amigos e Inimigos


Notas iniciais
Olá, de novo! E aqui venho, mais uma vez, com outro surto criativo que fez esse capítulo acabar bem depressa, rs. Espero não desapontar!

Rey e Eilenia entraram no grande refeitório da cidade-nave, e a Jedi nunca vira tantas pessoas num único lugar! O mais espantoso era perceber que boa parte das mesas estava vazia, ou seja, não estavam ali nem de longe tantos moradores quanto existiam, de fato. Pessoas de muitas raças diferentes – ela identificou muito Twi’lek, humanos e togrutas, Duros, alguns poucos Muun. Centenas de olhares se voltaram para as duas moças, quando desceram as escadas, todos fixos na mulher de vestido branco, com sabre de luz no cinto e cabelos presos para trás.

— Eu acho que olham para você, Primeira Dama – provocou Eilenia – melhor se acostumar.

— o que eu faço?

— aja naturalmente. Acene com a cabeça num cumprimento, sorria e seja você mesma. A menos que prefira passar a imagem de imperatriz.

— Não mesmo. – assim sendo, ela esboçou um sorriso gentil e venceu os últimos degraus com naturalidade, tentando ignorar o incômodo em ter tantos olhares sobre si. Pior ainda eram os sussurros em línguas diversas, mas ela continuou apenas caminhando com a Twi’lek, que ia lhe explicando:

— Este é o refeitório dos civis; ali, onde estão sentados aqueles Togruta, Twi’leks, Muuns e Pau’anos é, basicamente, o círculo da diplomacia, serviço de inteligência e administração. – ela indicou com os olhos um pequeno grupo de dez ou doze criaturas altas e magras, pálidas, de forma humanoide – e aqueles ali...

— Umbaranos. – sussurrou Rey. Ouvira falar sobre aquele povo: capazes de ler e influenciar as mentes dos demais, haviam sido os responsáveis por verdadeira “polícia mental” na época do Império. Eram trapaceiros, não-confiáveis, ambiciosos... Alguns diziam mesmo ser impossível lutar contra tais seres, devido a suas habilidades de se mesclar às sombras – o que fazem aqui?

— Só um aviso: fique longe. São perigosos. Fazem parte do serviço de inteligência, agem como espiões e perseguem possíveis traidores. Não dê motivos para que suspeitem de você. – a diplomata seguiu – ali, os Bothanos. Uma das companhias mais simpáticas que encontrará, aqui: caçadores, espiões. Repare nos Togruta junto a eles: são a equipe de rastreamento em solo, perseguição e reconhecimento de território. E o outro grupo, sentado com alguns Durosianos, são os pilotos de reconhecimento. – a moça sorriu e acenou para alguns, que corresponderam – do outro lado, o grupo onde predominam Durosianos, é a equipe de engenharia e mecânica. – a Twi’lek sorriu – prevejo que fará ótimas amizades, ali. Os médicos também se reúnem daquele lado; olhe os Mon Calamarianos, junto aos Twi’lek e Miraluka.

— Miraluka? – esse nome Rey nunca ouvira.

— De pele cor de ferrugem, cabelos brancos e vendas. Não têm olhos funcionais, porque sentem a Força – ela viu o brilho nos olhos da Jedi – é, eu recomendaria fazer amizade com eles. É perturbador, para pessoas comuns, mas terão muito a lhe ensinar. Não são admitidos em outra função além do serviço médico, na nave.

— Nem imagino o porquê. – ironizou Rey, sabendo eu seres naturalmente propensos à Força sempre teriam sido uma ameaça ao poder de Snoke, se livres para agir onde pretendessem. – as mesas com Durosianos e Rakatas é... O núcleo de arquitetos e engenheiros?

— Perfeito. Apenas um aviso quando aos Rakatas: só é seguro lidar com os que usam a faixa azul de arquitetos, os quais são controlados. Os outros são...

— Carnívoros. – completou Rey – quase fui o jantar de um, em Jakku, aos onze anos.

— É. E usados para perseguição em terra.

— Você fala “usados” como se fossem animais adestrados... – Rey franziu o cenho, incomodada.

— E acha que somos o que, para a Primeira Ordem? – perguntou a mulher mais velha, com um olhar significativo. Ante o desconforto da mais jovem, puxou-a pela mão – Eu lhe conto mais, depois. Venha. Vamos nos sentar com o serviço de inteligência e administração. É onde tenho mais amigos, e posso apresenta-la. Ah, e... Prepare-se para muitas perguntas. O serviço de diplomacia está em polvorosa desde que uma Jedi se casou com o Mestre dos Cavaleiros de Ren.

As duas atravessaram o enorme saguão em direção a um grupo de humanos, Twi’lek, Selkaths – seres cujas cabeças lembravam a de um peixe ou tubarão — e Muun. Em seu caminho, Rey viu mais ou menos trinta espécies diferentes, algumas das quais não sabia os nomes; entretanto, percebera que ali havia círculos bastante distintos dentro das áreas de atuação, e era relativamente fácil saber qual a função de cada um, de acordo com as espécies que se associavam.

Eilenia puxou Rey para uma mesa circular ampla, e a tensão se instalou no ar quando vários Twi’lek, humanos e Togruta olharam para a Primeira Dama. A fim de desfazer a tensão, a diplomata procurou ser o mais informal possível:

— Boa tarde, damas, cavalheiros! – beijou o rosto de uma amiga, apertou a mão de outro – Bib, Zoan, Shalya. Permitam-me apresentar Rey Solo. – Iam todos se levantar, mas Rey se adiantou estendendo a mão para o homem mais próximo e a apertando com um sorriso, para espanto de todos:

— É um prazer conhece-los! Desculpem interromper a refeição – disse a Jedi – mas ainda estou um pouco perdida nesta nave. – sentia-se muito estranha com todos aqueles olhares estupefatos, que a fitavam como se ela fosse o ser mais estranho dentre todos – incomodam-se se nos sentarmos aqui?

— De modo algum, milady – um homem se levantou e puxou a cadeira para Rey, que sorriu levemente constrangida e se sentou:

— Obrigada. Ah, e... Basta chamar-me Rey.

— É claro – um sorriso tímido brotou nos rostos dos presentes, ainda confusos, mas menos desconfortáveis ao verem a moça agir de modo natural.

— Rey é diferente de qualquer membro do comando que conheçam – explicou Eilenia – tratem-na como tratamos uns aos outros.

Um droide se aproximou e colocou dois pratos diante das moças: pequenas barras de cores diferentes, que lembravam à humana as porções que conseguia em Jakku. Do mesmo modo, água foi aspergida, e logo havia uma refeição completa e variada diante de ambas. Rey riu baixinho e comentou e sussurros com sua guardiã:

— Eu vou acabar engordando com essa quantidade de comida.

— Ganhar um pouco mais de carne nos ossos não lhe faria mal – rebateu a outra, sorrindo também. E vendo-as agir como amigas, os demais acabaram por relaxar. Bib, o Twi’lek de pele verde que Eilenia cumprimentara, finalmente ousou se dirigir à Primeira Dama:

— Lady... Digo, Rey. – ela ergueu os olhos para o interlocutor – Ouve-se na nave que é uma Jedi. Isso é verdade?

— Sou uma Padawan, na verdade – respondeu ela, observando o modo como os outros utilizavam os talheres e tentando reproduzir suas ações. Não era tão difícil, afinal. – Mas sim. Uma padawan Jedi.

— Achei que os Jedi houvessem sido mortos – disse Zoan, uma humana morena de pele e cabelos com olhos dourados – e os que restassem vivessem escondidos. Como aconteceu, com você?

— Eles provavelmente têm mais bom-senso do que eu, se ainda existem alguns vivos – brincou Rey. Queria desfazer qualquer impressão de ser superior a eles, e acabar com o próprio desconforto... Ser ela mesma, dissera a outra... Mas ela mesma, no passado, era alguém arisca e defensiva. Podia apenas apostar, então, em sua vontade de não ser desagradável, mesmo porque sabia que não corria nenhum risco, naquele momento. Certo, Rey, respire e fique calma. – há um ano estava nos desertos, tentando ter comida e água o bastante para sobreviver ao dia seguinte, e de repente... Ainda não sei exatamente como tudo pôde acontecer tão depressa.

Continuaram com as perguntas, algumas supérfluas e polidas, outras um pouco mais pessoais – dessas a Jedi se esquivava mudando de assunto. Ao fim da refeição todos se levantaram, já bastante à vontade com a moça, despediram-se e Eilenia Shan retirou sua protegida do refeitório entre elogios:

— Saiu-se muito bem! Nem eu faria melhor! Respondeu a todas as perguntas que podia, esquivou-se das mais pessoais sem ofender ninguém!

— Foi diferente do que eu havia esperado – empolgou-se a garota – no começo estava muito nervosa. – ela falava depressa, devido à empolgação e nervosismo simultâneos. A adrenalina ainda corria em seu sangue, como não o faria nem mesmo durante um combate – Nunca fui boa com pessoas, apenas com máquinas. Estava com medo de ser rude demais por estar apreensiva, preocupada que fossem invasivos ou hostis e a conversa tomasse o caminho errado... – ela cobriu a boca com as mãos — Mas depois foi bem mais fácil! EU consegui fazer algo que nunca pensei ser capaz! E são pessoas agradáveis, gentis...

— Rey, eles são do serviço diplomático – alertou a amiga, compreendendo o entusiasmo da outra, mas sabendo que precisava diminuir tanta euforia, por ser esta perigosa em uma pessoa tão jovem e, por esse mesmo motivo, tão impulsiva – serem agradáveis é seu trabalho, especialmente com a mulher cujo esposo arrancaria suas cabeças sem pensar duas vezes. Não se engane: eles se sentiram à vontade com você, mas nenhum deles é seu amigo.

— Eu sei disso – a Jedi controlou o próprio ânimo. Percebia ter deixado suas emoções tomarem o controle, algo que não podia se tornar recorrente; acalmou-se, mas a boa sensação que a tomava não desapareceu, e ficou feliz que assim fosse – ainda assim... É tão diferente do que eu imaginei! – ela olhou para o salão que se esvaziava, atrás de ambas – pessoas como você ou eu... Nem todas são boas, nem todas são más, apenas... Normais. Preocupadas com suas vidas rotineiras, como se não fizessem parte do maior terror armado dos últimos trinta anos.

— Imaginava o centro de comando da Primeira Ordem como uma gangue de monstruosidades bizarras e assustadoras, sem nenhuma clemência pela vida? – sorriu Eilenia – é a imagem que gostam de passar. É o que fazem com o exército, para impor o medo. Mas os civis? São apenas pessoas.

Rey não disse nada, por não saber o que dizer. Outra de suas certezas acabara de ser destruída, mais uma vez lhe mostrando o quanto o mundo – especialmente os seres vivos – era muito mais complexo do que os simplórios conceitos de bem e mal. Sua mente trabalhava depressa na busca de analogias, mas ela sabia que precisaria de tempo até compreender de fato tudo aquilo; não apenas compreender, mas assimilar. Sentir. Algo que só poderia se dar ao luxo de fazer calmamente quando retornasse a seus aposentos. E ao pensar nisso, uma ideia veio a sua mente:

— Eilenia, onde fica o hangar?

— Rey, nem em sonho vou deixa-la subir numa nave, quando foi submetida a infiltrações reparadoras ainda hoje!

— Não vou subir num caça e sair pilotando. Quero apenas ver as naves!

— O que vai adiantar eu dizer não? – perguntou a Twi’lek, sabendo que a Jedi era tão ou mais teimosa do que o Líder Supremo. Aliás, se não matassem um ao outro, seriam um par perfeito, ao menos no quesito obstinação!

— Não quero lhe causar problemas.

— Tenho a ligeira sensação de que os problemas me alcançaram no momento em que disse “sim” para ser sua babá... Digo, guarda-costas.

O olhar de Rey foi um misto de repreensão e divertimento: não era divertido ser chamada de criança, mas também entendia que sua curiosidade e impulsividade poderiam causar transtornos para a Twi’lek.

— Acha melhor andarmos por algum lugar mais tranquilo, Eilenia?

— Você já esteve no hangar, e eu quero mantê-la bem longe da tentação de fraturar a coluna pilotando um TIE ou similar. Mas existem algumas coisas muito interessantes. – ela tamborilou os dedos na parede, pensando — A propósito, pode chamar-me Lena, como todos os meus amigos fazem. Odeio meu nome completo. – Ela conferiu as horas, ponderando quais seriam os lugares aos quais poderia levar Rey, sem causar acidentes e, preferencialmente, bem longe das vistas do Líder Supremo – já visitou a central de engenharia, a casa de máquinas, a central de energia?

— Está falando sério? Podemos ir a esses lugares? – os olhos da menina brilharam de entusiasmo. Tentara algumas vezes entrar em pequenas usinas de energia móveis em Jakku, mas nunca lograra êxito. Máquinas sempre haviam sido sua paixão, tão mais previsíveis e fáceis de entender do que os seres humanos.

— Você é a esposa do Líder Supremo – disse a mais velha – quem vai lhe vetar acesso a instalações não-militares? Mas, por favor, mantenha esse sabre de luz à mão: Rakatas não são a única espécie agressiva, nesta nave. Muitos a odeiam por ser uma Jedi, e não dá para contar nos dedos o número de damas que adorariam vê-la morta, por ter se casado com Kylo Ren.

— Ex-amantes? – perguntou a Jedi, acompanhando de perto sua protetora. Percebeu, com certa confusão, que a ideia lhe dava uma pontada nada nobre de ciúmes, e quis bater na própria cabeça por isso. O riso de Lena, porém, acabou de imediato com essas suspeitas:

— Amantes? Só se ele quisesse ter o couro arrancado por Snoke! – a dama de pele ciano seguia por um corredor cilíndrico, iluminado por anéis iridescentes – Não vou negar que ele teve uma ou duas, em encontros ocultos quando era recém-chegado, mas depois... Não. A atenção dele estava inteiramente voltada para aprender, como ele diz “os mistérios do Lado Sombrio”. – ela revirou os olhos e meneou a cabeça – Mas assim que ele matou Snoke e se tornou o Líder Supremo, um bom número de damas influentes, e mesmo oficiais, teriam o maior prazer em se sentarem ao seu lado como consortes. Uma vez que o posto está ocupado, teriam prazer em eliminar a concorrência.

— Mas Ben não se casou comigo por querer uma esposa. Casou-se para colocar em mim um maldito rastreador e me deixar praticamente amarrada a ele por uma coleira! – ao pensar nisso, a vontade de Rey se dividia entre cortar fora o próprio dedo ou a cabeça de Kylo Ren, mas sabia que nenhuma das coisas aconteceria.

— Você sabe disso, e eu sei disso. Mas tente explicá-lo a mentes ambiciosas, loucas para ascender socialmente... – a voz da diplomata era de enfado – apenas mantenha o sabre de luz à mão. Minhas armas estão preparadas para qualquer intercorrência.

— Que tipo de armas você usa? – a curiosidade daquela Padawan não tinha fim? Por sorte, Eilenia achava tal característica particularmente divertida:

— Se eu lhe contasse e alguém ouvisse, deixaria de ser uma surpresa. – os olhos escuros da mulher de Ryloth viram um grupo de Rodianos encaminhando-se para a sala de negociações, e isso a fez puxar Rey para trás de si protetoramente. – Rey, quero que ande ao meu lado, ao alcance da minha mão. Esses piratinhas cruéis costumam vir em bando, e pode haver coisa pior por aí.

— Lena, se eles atirarem eu posso nos defender com o sabre. Se não tiver nenhum tipo de escudo, você...

— Eu não sou estúpida – sussurrou a mulher – tampouco tenho vontade de morrer. É claro que tenho um escudo. Fique atrás de mim e, uma vez em sua vida, não discuta.

A garota nem mesmo pensou em discutir: a situação não lho permitia. Ela já lidara com Aqualish, Rakatas e coisas piores em Jakku, mas um bando de Rodianos podia ser mais do que duas pessoas podiam lidar. Aqueles eram caçadores de recompensas e assassinos profissionais, e o melhor era simplesmente ficar fora do caminho, pois mesmo uma saudação errada poderia ser motivo de confronto. Lena abriu uma porta e empurrou Rey para dentro do túnel escuro, que seguia por uma escada descendente.

— Vamos para a central de energia. – disse ela – siga em frente.

— Lena, não é prudente continuarmos por aí, se raças como essa estão a bordo. – Rey não tinha medo por si, mas sabia que se meter em problemas poderia acarretar sérias consequências para a outra. – Talvez seja melhor voltarmos para o andar do comando.

— Se estiverem indo para negociar algum trabalho, eles estarão perto do comando. Além disso, os mercenários e caçadores de recompensas nada têm a fazer nas centrais de operação da nave. Estaremos mais seguras e melhor entretidas lá embaixo do que nos níveis da ponte. – a escada metálica parecia não ter fim, ligando-se a passarelas e andaimes que conduziam a shafts de energia, canos de gás e água, fiação, geradores de emergência. Era bastante escuro, ali, mas a Twi’lek andava com segurança, conhecedora de cada palmo da nave na qual trabalhara e vivera ao longo dos últimos dez anos. – Ali na frente, Rey. À direita.

A humana tomou o caminho indicado, sorrindo ao ouvir o som familiar de turbinas girando. Ia abrir a porta à sua frente quando a diplomata pediu:

— Deixe-me entrar primeiro. Eles já me conhecem. – a garota deu passagem para a outra, que entrou graciosamente na sala: saíra para uma plataforma estreita que rodeava um enorme vão circular. No centro, três torres de energia trabalhavam, e quatro pontes se conectavam a elas radialmente. Escadas verticais iam dos andaimes até o chão, onde uns quinze Durosianos trabalhavam operando os complexos monitores; Eilenia se debruçou no corrimão com um sorriso e chamou:

— Dugard! – o chefe da equipe olhou para cima e sorriu para a mulher:

— A que devemos a honra da visita, Lena?

— Trouxe alguém para lhe apresentar. Podemos descer, ou algo corre o risco de explodir?

— Não – riu o Durosiano, que tinha pele verde-azulada e brilhantes olhos totalmente vermelhos. Seu traje branco era revestido de amianto – hoje não terá esse prazer, a menos que sejamos alvejados por alguém.

Shan fez um sinal de cabeça para Rey, e desceram juntas por degraus íngremes até o nível inferior. Mias ou menos trinta pares de olhos se fixaram na Jedi, entre Durosianos, humanos, Bothanos e Sullustanos... Ai, lá se ia ela, outra vez, chamando mais atenção do que gostaria. Só lhe restava fazer o que sua amiga – apesar do pouco tempo em que se conheciam, a palavra parecia adequada para designar Lena – dissera e agir do modo mais amigável possível, ignorando a curiosidade e receio gerais.

— Senhores, esta é Rey. – informou a embaixadora – estava ansiosa por conhecer o funcionamento da nave, então a trouxe para os melhores do setor.

— É uma honra, Lady Solo – a Jedi ouviu aquelas palavras algumas dezenas de vezes, praticamente em uníssono, respirou fundo e repetiu o que dissera no refeitório:

— Apenas Rey, por favor. Não sou, como se diz?... Adepta desse tipo de formalidade. – ela apertou a mão do mecânico-chefe, cuja expressão se desanuviou ante o aperto firme e delicado das mãos humanas.

— Sou Dugard Terf, chefe da engenharia de energia.

— Sinto-me honrada. – ela encarou as três torres de energia, uma de diâmetro que superava os quatro metros e duas menores, laterais, de dois metros. Eram todas muito longas, avançando para cima e para baixo através de todos os níveis do cruzador. – são torres de captação solar?

— Parece entender de mecânica – o homem a levou para os painéis de controle.

— Um pouco. – respondeu, modestamente, fascinada.

— A torre principal é de armazenamento solar. As duas menores captam energia radioativa de alta frequência.

— Possuem terminais sensíveis a radiação espacial? – espantou-se a moça. Isso sim, era interessante! Observou o equipamento, e deduziu – usam para geração de calor em reatores térmicos?

— Na verdade, é mais complexo: a radiação provoca reações químicas de alto potencial, acumulando energia química; a solução instável vai para os reatores químicos abaixo de nós e, ao entrar em contato com os condutores metálicos, desestabiliza-se e se decompõe nos produtor originais; a energia liberada é transferida para tanques de plasma onde é armazenada. Desses tanques, pode ser convertida em energia térmica, mecânica, elétrica...

— Isso é fantástico! – ela foi até a base da torre solar, cuidando para não tocar em nada. Podia sentir a quantidade de energia ali armazenada, mesmo à distância! – essa aqui é para energia elétrica, eu suponho.

— Conversão de energia solar em química, e de química em elétrica por meio de eletrólise simples em soluções salinas. – confirmou o Durosiano, divertindo-se com a garota curiosa que tão bem dominava conhecimentos sobre mecânica e energética. Como aquela menina fora parar ali, na Primeira Ordem? Mais especificamente... Como pudera se casar com o sombrio Mestre dos Cavaleiros de Ren? Ela não era muito mais do que uma criança, e qualquer um podia ver a vitalidade e luz que emanavam dela. – quer ver a operação das torres radioativas? Estamos entrando em uma nuvem de radiação.

— Claro! – Eilenia ria internamente da empolgação da Jedi: acabara de soltar uma criança em um parque de diversões, ao que parecia, e Dugard sempre ficava mais do que satisfeito em partilhar conhecimento com os interessados. Previa que, no momento em que saíssem de lá, Rey teria um amigo a mais dentro da nave.

— Senhoras – ele pegou óculos protetores e capas de amianto, estendendo-as para as mulheres – por favor. Apenas medida de segurança.

Devidamente trajadas e protegidas contra os efeitos do aquecimento a que a sala seria submetida, as damas puderam acompanhar o processo de abertura dos ósculos superiores, ejeção dos receptores de radiação e início do aquecimento. Os cabos tornavam-se avermelhados com o aumento de temperatura, e a solução interna das torres mudava de transparente para um tom violeta intenso durante as reações. Para Eilenia era algo interessante, mas Rey estava absolutamente fascinada: adiantou-se até onde a segurança permitia e estendeu a mão, expandindo os sentidos: conseguia perceber a agitação dos átomos e moléculas que se combinavam, separavam, colidiam... Sentia as ondas radioativas se converterem em energia química, as forças de atração e repulsão entre os elementos, a instabilidade das ligações, mantidas apenas pelo alto teor energético... Tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, disfarçadas sob a simples aparência de uma mudança de coloração!

— Durgard... Isso é magnífico! – exclamou a Jedi – a quantidade de energia que armazenam poderia sustentar todo o funcionamento dessa nave por dias!

— Sustentaria – concordou o engenheiro – quando não são ativados os canhões de plasma.

— Mas, se essa é a fonte mais rentável... – ela conseguia perceber a diferença exponencial de potencial entre a fonte solar e a radioativa – por que apenas duas torres, e tão pequenas?

— Potencial demais, em matéria de energia, é sinônimo de perigo. Com duas torres nós podemos lidar, mas um número maior delas tornaria a distribuição passível de superaquecimento; além disso, o risco de explosões dobra a cada torre adicionada.

— Existiria um modo de adicionar torres, contornando o problema? Talvez o revestimento, ou a instalação de um sistema de resfriamento superficial acionado por superaquecimento, que não consuma a energia interna além do necessário para mantê-la sob controle...

O engenheiro a fitou com curiosidade: havia projetos em construção para permitir esse procedimento, mas não pensara que uma moça comum teria tal ideia. Descobriu-se ainda mais intrigado pela Primeira Dama, e explicou:

— Temos plantas e projetos em andamento, ainda em fase de estudo teórico. Se vier me ver no período da manhã, posso lhe mostrar os planos. E, claro, se tiver interesse nesse tipo de estudo, eu posso lhe ensinar. Já faz algum tempo que não tenho jovens para ensinar, e seria um grande prazer ter, outra vez.

— É sério?

— Não estou sempre disponível, mas gosto de ensinar. É bem vinda aqui, sempre que desejar.

Rey teve de reprimir uma exclamação de alegria, obrigando-se a dar apenas um sorriso e responder:

— Será um enorme prazer, e uma honra maior ainda.

— Igualmente. – o Durosiano se voltou para Eilenia – soube o que fazia, quando a trouxe para mim, Lena.

— Eu devo gostar de me torturar, para juntar os dois. – brincou a diplomata, incomodada no traje de amianto – pelo menos tenho um lugar para deixar Rey, sabendo que aqui ela não se meterá em problemas maiores do que curtos, engrenagens e vazamentos. – Rey não reparou na provocação, ocupada que estava lendo os protocolos de operação. – Em três meses ela vai operar esta seção tão bem quanto você.

— Mas o que ela faz aqui, na Primeira Ordem, Shan?

— Um acordo pela vida dos amigos. Era da Resistência. – explicou a Twi’lek – E o Líder Supremo pode ter nas mãos sua melhor aliada, ou ter atirado no próprio pé com este casamento. – Teff anuiu; não era preciso ser especialista em administração e leis para compreender que Rey poderia conseguir o apoio da maioria, e este amor que obteria de todos poderia se manifestar tanto em apoio ao novo líder quanto em animosidade contra ele.

— Lorde Ren está numa corda bamba. – comentou com a amiga.

— eu sei disso, ele sabe disso, e creio que todos que a conheceram já o perceberam. Rey, porém, ainda não percebe o que causa nas pessoas. É jovem e ainda inocente.

— Por tudo o que é mais sagrado, Lena, proteja-a. Os oficiais vão querê-la morta a qualquer custo.

— Eu sei. Por que acha que a trouxe para cá, entretida longe daquelas víboras? – os dois amigos trocaram um olhar cúmplice.

— Sabe que pode confiar em mim. Cuido dela, se for preciso, e sabe que ninguém vem aqui, se não for absolutamente necessário.

— Obrigada, Teff. Sabia que podia contar com sua boa vontade.

— Com a minha e, se ela for sempre tão encantadora, logo terá a boa vontade de uma legião. Os civis em sua quase totalidade a apoiarão e protegerão.

Enquanto o engenheiro e a diplomata conversavam baixinho, a Jedi prosseguia em sua exploração, não hesitando em usar a Força para perceber aquilo que passaria oculto aos sentidos normais. Pelo menos por hora, não pensava em Kylo Ren, no casamento forçado, nos problemas da galáxia ou qualquer outra coisa. Era apenas uma menina que amava máquinas, livre para explorar mecanismos novos e intrigantes.

*

Na nave, fazia-se três refeições diárias, e a última Rey e Eilenia tiveram na companhia das equipes de engenharia. Quando se sentaram à mesa, a diplomata percebeu como a menina se entrosara rapidamente com a grande maioria dos mecânicos, engenheiros e arquitetos; até mesmo um Rakata conversava de modo animado com a moça, que o ajudara a aliviar a pressão de um exaustor obstruído quando o próprio encarregado não conseguia detectar a origem do problema!

Terminaram a refeição noturna e, cansada porém satisfeita, Eilenia acompanhou a mais moça de volta à ponte, atenta à presença de qualquer oficial; posteriormente compartilharia com Rey suas preocupações, mas por hoje deixaria que a menina apenas aproveitasse sua felicidade.

Entraram nos aposentos da Primeira Dama, que logo reconfigurou a sala de estar como um quarto. Estava exausta, queria se deitar, mas um banho era imperativo. Ia pegando um traje normal quando Eilenia sugeriu:

— Coloque os trajes de dormir. Eu ficaria mais tranquila se soubesse que não pretende sair até eu vir busca-la, amanhã.

— Lena... – começou a mais moça – eu sei que os oficiais são o maior perigo, nesta nave, mas não posso me amedrontar diante deles.

— Tampouco precisa se arriscar sem motivos. – mais uma vez a perspicácia da menina pegava a mais velha de surpresa – por favor, roupas de dormir, e fique no quarto.

— Certo – a Jedi deu de ombros e pegou uma camisola. Até então costumava dormir com roupas normais, mas seria uma experiência nova, e as camisolas pareciam confortáveis o bastante para valer a tentativa.

Despediu-se da amiga, agradecendo-a pelas maravilhosas horas passadas naquele dia, esperou-a sair e trancou a porta; banhou-se, vestiu o traje leve que lhe chegava até o meio das coxas e deixou-se cair na cama com um suspiro de deleite. Estava a segundos do sono quando sentiu uma presença conhecida diante de seu quarto, e abriu a porta para seu marido. Ah... Não queria brigar... Não agora, quando estava tão feliz!

— Boa noite, Ben! – sorriu inocente.

— Boa noite, Rey. – estranhamente, ele não parecia contrariado ao perguntar – seu passeio foi proveitoso?

— O que? Já soube?

— Eu esperava por isso. – parado aos pés da cama, mãos fechadas uma na outra diante do corpo, ele parecia estranhamente satisfeito. – Em verdade, desejava-o.

— Mas... Disse a Eilenia que eu devia permanecer em meus aposentos! – a jovem se confundiu. Ben não parecia ser mentalmente são, às vezes...

— É claro que eu disse. – ele tinha nos lábios algo similar a um sorriso vitorioso – sabia que você faria o oposto do que eu lhe pedisse. Queria que você conhecesse a nave e seus moradores, que visse não sermos nós os monstros que pensa, mas... Se eu lhe disse para fazê-lo, pensaria que eu pretendia manipulá-la, aliciá-la ou dobrá-la a minha vontade, e acabaria trancando-se em seu quarto por dias, ao menos até o tédio a dominar. Dizendo-lhe para ficar aqui, eliminei suas suspeitas e incentivei seu prazer em me desobedecer.

— você me MANIPULOU?! – ela se levantou de um pulo, enfrentando-o. Kylo deslizou as costas dos dedos pela bochecha da jovem, que o repeliu com um safanão – eu não sou seu fantoche!

— Chama-se psicologia reversa, minha querida esposa. – foi a primeira vez em que as semelhanças de Ben com o pai ficaram mais do que evidentes, quando em seu rosto esboçou-se um cafajeste e provocante sorriso de canto – e funcionou, não funcionou?

— Com que direito...

— Ah, por favor, Rey! Eu não a trataria como uma criança, se não agisse como uma! Precisa me contestar e desobedecer o tempo inteiro? – ele se irritou – Ou nega que teria feito uma birra infantil, trancando-se no quarto por dias, se eu lhe dissesse para sair?

Ela parou e refletiu, chegando à conclusão de que as palavras dele eram verdade; ainda assim, sentia-se ultrajada e manipulada como um fantoche!

— Por que simplesmente não conversou comigo? Por que não me disse o que desejava, e o porquê?!

— Teria acreditado em um só palavra minha, ou pensaria que eu a iludia e montava um cenário? – rebateu ele. Touché.

— Talvez eu acreditasse em suas palavras se parasse de me tratar como um útil instrumento para seus planos de dominação e passasse a me ver como uma pessoa, Kylo Ren.

As palavras da moça pareceram uma bofetada no homem, que cerrou os olhos e trincou o maxilar; não era raiva o que sentia. Não dessa vez. Era algo mais profundo, que o atingira de modo muito mais pessoal.

— não me chame assim. – pediu em tom baixo.

Rey levou a mão à testa, confusa e imaginando se algum dia entenderia a mente de seu marido.

— Qual é seu problema? Você passou os últimos quatro dias afirmando que seu nome era Kylo Ren, e não Ben Solo!

— Para os outros. – ele a encarou de perto, e a Jedi percebeu o quanto estava incomodado – não você. Todos que me tratam por Kylo Ren odeiam-me, têm medo ou são indiferentes. Eu não gostaria que você se encaixasse em qualquer dessas categorias.

Após um longo minuto de silêncio, Rey suspirou e deu um sorriso cansado, apertando os lábios pensativamente:

— Eu gostaria de entender como sua cabeça funciona, Ben. Para mim, ela parece confusa demais.

“Para mim também, desde que você entrou em minha vida” pensou o homem, mas guardou tal reflexão para si. Não fazia sentido nenhum sentir-se daquele modo, mas sentia. E quando sentiu a mão da moça em seu rosto, não teve o reflexo costumeiro de se afastar, mas inclinou a face na direção daquele toque, segurando a palma macia contra sua pele em breves, porém doces momentos. Abriu os olhos negros e os fixou no rosto que lhe parecia cada dia mais atraente... Ela lhe dava medo. Assustava-o, pois perto dela sentia-se... Tentado? Tentado pela luz? Não, não apenas tentado... Sentia coisas que tentara sufocar, as quais pensava mortas há muito tempo, e agora ressurgiam com força a despeito de seus esforços contra isso. E havia aquele sentimento novo, a vontade de tomá-la nos braços, fazê-la sorrir... Diferente da luxúria experimentada nos braços de uma amante. Não, decididamente não se tratava de desejo carnal. Não apenas. Havia desejo, mas era muito maior do que... MAS NO QUE ESTAVA PENSANDO?!

Furioso consigo mesmo por se sentir daquele modo perturbado pela mera presença de Rey, ele se afastou bruscamente, tornando-se outra vez sério e distante:

— Parece estar tudo em ordem, então. Fico satisfeito que sua incursão tenha sido bem-sucedida. – ia sair, quando algo lhe ocorreu – sinta-se à vontade para se juntar a mim para a primeira refeição, amanhã. Em meus aposentos.

— Como desejar. – respondeu a jovem, esperando-o sair para trancar outra vez a porta, sem saber o que fazer; num momento queria arrebentar a cabeça do esposo, e no instante seguinte sentia o ímpeto de abraça-lo e beijá-lo até o mundo desaparecer e restarem apenas eles dois em sua mente.

Confusa com seus sentimentos, deitou-se e demorou um pouco a adormecer. A toda hora pensava nas múltiplas emoções vistas e sentidas no olhar de Ben, e não ser capaz de entende-las a frustrava intensamente. Porém, o cansaço acabou vencendo-a, e o sono a embalou numa escuridão aveludada e sem sonhos.

Foi despertada no meio da madrugada, contudo, por uma manifestação clara de uso da Força; era sombria, intensa e violenta, claramente não intencional, como a reação a uma dor terrível, ou terror paralisante! O quarto estava imóvel, mas a perturbação era tamanha que ela podia sentir o tremor como se a nave houvesse sido alvejada! E só poderia haver uma fonte de tal poder: Ben.

Sem hesitar por um momento que fosse, ela agarrou seu sabre de luz à mesa de cabeceira e saiu sem pensar em mais nada. O que, em nome da Força, poderia provocar tamanho terror e sofrimento em seu esposo?! Ela não sabia, mas agia movida pela mesma cumplicidade e ligação que haviam salvo a vida de ambos dias atrás, ao matar Snoke e vencer sua guarda pessoal.

Reduziu a velocidade de seus passos ao passar diante dos quartos do alto-comando, a turbulenta energia confundindo-a como um rugido ensurdecedor que ecoava apenas dentro de sua mente. Tateando as portas à procura daquela atrás da qual estava seu marido – danação, parecia vir de todos os lugares e nenhum ao mesmo tempo! – seguia adiante com preocupação. Por favor, Ben, enviasse um sinal! Precisava que ele contivesse o terremoto, pois ainda não era hábil o bastante com a Força para impedir-se de ser cegada por tudo aquilo!

O rugido aos poucos se reduziu a uma turbulência menor, e Rey conseguiu enfim encontrar seu caminho. Estava a apenas duas portas de distância, porém, havia alguém entre ela e seu objetivo: Hux. O ruivo estava parado quase à frente do quarto de Ben, e fitava-a com uma expressão indecifrável, porém certamente nada bondosa.

— Senhora Solo – disse o ruivo, como um predador a estudar sua caça – o que faz aqui, no meio da noite, sozinha... Este é um lugar perigoso para jovens Jedi impulsivas.

— Saia de meu caminho, Hux. – ela apertou o sabre de luz na mão. Não gostava nem um pouco daquele olhar. O que ele queria? O que havia feito a Ben?! – o que fez com ele?

— Seu marido? – perguntou o general, inexpressivo – por que eu faria mal a meu senhor? Não, são apenas seus pesadelos costumeiros que fazem tremer a nave.

— ótimo, então você não é necessário – disse a Jedi, tentando ultrapassá-lo; sentiu misto de asco e raiva quando Hux a segurou pelo braço, e o fitou com olhos em chamas – solte-me. Agora.

— Não é prudente entrar nos aposentos do Líder Supremo agora. Ele poderia mata-la facilmente.

— E então você teria um desejo realizado. – vendo o blaster no cinto do homem, ela acionou o sabre, mas o general não se atemorizou:

— Você é Jedi. Não vai usá-lo em mim.

— Tem certeza? – ela encostou a lâmina à mão que a segurava, fazendo o ruivo soltá-la com a dor. Não lhe decepara o membro, mas queimou a pele – desapareça!

Com um olhar do mais puro ódio, ele se afastou com promessas terríveis no olhar, mas Rey não estava disposta a dispensar um segundo que fosse àquilo. Usando a Força conseguiu destrancar a porta do quarto e entrar, parando apenas para fechá-la como proteção contra o suspeito general.

Ben se retorcia no leito, transpirando e gritando; estava sofrendo, contorcia-se como se padecesse uma dor terrível! Por instinto ela largou o sabre de luz e correu para ele, tocando-o sem medo, segurando-o pelos ombros, tocando seu rosto:

— Ben! Ben, acorde! – ele abriu os olhos, mas não estava acordado, de fato. Ainda havia em seu olhar o terror e a dor quando, num movimento bruto, girou sobre si mesmo e derrubou Rey ao seu lado, suas mãos buscando a garganta da menina, impedidas de quebrar seu pescoço apenas pela ação da moça, que usava a Força para afastar os dedos do esposo de si. – BEN!

Subitamente a lucidez retornou ao rosto de Solo, que respirou fundo e sacudiu a cabeça, fitando-a com espanto e recolhendo as mãos em horror.

— Rey! O que faz aqui!

— No momento, sendo esmagada por você – ofegou ela, tentando respirar com o peso do esposo sobre si. Trêmulo, ele mal se apoiava em um braço, e seu corpo repousava bem sobre ventre e peito da moça – pode sair de cima, por favor?

Zonzo e confuso após o terror do qual acabara de despertar, ele saiu de cima da moça e se sentou no colchão, ofegante. Rey também se sentou, vendo-o tão vulnerável e abalado que seu impulso foi abraça-lo e deitar a cabeça em suas costas.

— O que houve? Com o que estava sonhando? – ela não cedeu ao impulso, sentando-se ao lado dele e fitando-o com gentileza, mão pousada nas costas cobertas de suor.

— Eu prefiro não falar a respeito – ele soou mais rude do que pretendia, mas não falaria a ela sobre suas fraquezas! Virou o rosto para o outro lado, a fim de não ter de encará-la – obrigado por me acordar.

Rey se sentiu tola por esperar alguma outra reação dele, mas compreendia: ele devia se sentir extremamente desconfortável por se mostrar frágil daquele modo, mesmo já estando acordado. Ela própria não se sentiria bem em revelar a própria vulnerabilidade. Talvez precisasse lhe dar espaço, então...

— É... Eu fiquei preocupada. Mas se já está bem, talvez eu deva voltar para meu quarto. – ia se afastando, quando a mão dele se fechou em seu pulso, fazendo-a se virar e encará-lo. Os olhos negros não eram ameaçadores, frios ou arrogantes. Havia neles apenas uma enorme súplica que ele externou em poucas palavras;

— Por favor, Rey, fique. – Ben Solo pedindo por favor? Ele devia estar muito mais abalado do que parecia!

— Quer mesmo que eu fique aqui?

— Sim. – ele a puxou mais para perto, tentando recuperar o autocontrole – não foi um bom dia, não acho que a noite vá ser melhor do que foi, até agora, se tentar dormir. Por favor, fique.

Ela se enterneceu e deitou ao lado do esposo, de frente para ele. Tinha muitas perguntas – a começar por saber o que poderia aterrorizá-lo tanto assim – mas guardou-as todas. Silenciosa, apenas acariciava o rosto masculino delicadamente; não diziam nada, não se comunicavam senão por olhares, mas isso acalmou a ambos. O Sith se levantou e foi tomar um banho, com a desculpa de ter transpirado demais, mas queria era a sensação da água gelada em sua pele para acordá-lo de vez do pesadelo.

Quando voltou ao quarto, Rey continuava acordada e no lugar em que a deixara, mas não disse nada: apenas estendeu-lhe a mão e sorriu, chamando-o. O bom-senso lhe dizia para manda-la embora, mas não era o que realmente desejava. Mandou então o bom-senso para longe e se deitou na cama, virando a garota de costas para si e aconchegando-se ao corpo feminino com um suspiro de prazer. O perfume de oceano que emanava dos cabelos castanhos espantou os resquícios de lembranças ruins, e enfim ele conseguiu adormecer, sentindo os dedos dela acariciarem o braço que a envolvia pela cintura.

Notas finais
E então? O que acharam de Rey fazendo amizades? E o que pensam que Hux fazia, por que interceptou a Jedi? Ben e Rey num momento mais terno, cada vez mais confusos acerca do que sentem. E o que acham desse pesadelo do novo Líder Supremo? Obrigada a todos que participam dessa história!!!!! May the Force be with us!