Riot Girl

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Espero que gostem

O primeiro dia de aula sempre foi um desafio para mim. Mesmo na escola da minha antiga cidade, onde eu estudava desde criança, já sentia dificuldade em me comunicar com qualquer pessoa que não fosse meus amigos de infância. Aqui, numa cidade completamente nova, eu não conheço ninguém além da minha família, essa escola é estranha. Quando minha mãe me mostrou as opções eu falei “qualquer uma”, mas na realidade eu já não tinha gostado daquela por conta da sua imensidão, da sua luxuosidade. Sempre morei no interior e tudo que queria era um lugar que mais se assemelhasse a ele.

Conforme eu previra o colégio Avenues era imenso. Tudo ali remetia a modernidade e frieza. Eu não senti que seria um último ano do ensino médio feliz. Meus pais estavam alegres fazendo o retorno para entrar no colégio, conversavam sobre como grandes pessoas saíram de lá. Desliguei minha cabeça da conversa e passei a prestar atenção nos poucos jovens que estavam no portão principal. Notavelmente era uma escola só para pessoas ricas, as roupas daqueles poucos garotos gritavam marcas famosas. Apesar de ser de uma família relativamente bem-sucedida eu não me interessava por roupas, maquiagens ou qualquer coisa relacionada a bens materiais. Isso não significa que não tenho minha vaidade, pelo contrário, adoro me arrumar, mas não olho pra marcas quando cuido de mim.

Meus pais me deixaram no estacionamento que dava para o portão do fundo que eu imaginei que teria menos gente. Ledo engano. Aparentemente muitos alunos já tinham carro. E a maioria estava reunida no estacionamento conversando sobre as férias, provavelmente. Saí do carro e senti automaticamente que muitas pessoas me fitavam com curiosidade natural, afinal eu era uma novata no último ano do ensino médio em um colégio onde as pessoas estudavam com gente que conheciam desde a pré-escola. Quando vi o carro dos meus pais saindo do estacionamento, dei uma olhada com mais atenção aquele pátio imenso cheio de carros. Os carros em sua maioria eram caros, mas nenhum importado o que já achei bem estranho para os padrões daquele colégio. Vi também uns carros antigos e reparei que estavam parados nas vagas dos professores. Como em todo lugar os professores ganhavam mal e tinham carros piores do que os alunos que não faziam nada da vida, com isso não me surpreendi. Andei pelo estacionamento em direção ao portão B para entrar no prédio principal. Precisava descobrir em que turma estava e buscar um mapa do colégio, mas para isso precisava encontrar a secretaria e os olhares por onde eu passava em nada me ajudavam.

— Pode me ajudar? – perguntei para um segurança que estava bem na entrada do portão B. – Sou nova. Pode me dizer onde fica a secretaria?

— Vá até a sala 101. Fica na metade do corredor. Ao lado da sala tem um mural que você olha a turma em que está e lá dentro lhe darão um mapa do colégio se julgar necessário e duas chaves, uma para o armário desse corredor e outra para um armário do vestiário. Seja bem-vinda. – o guarda disse friamente como se eu não fosse nenhum pouco bem-vinda.

Assim que entrei naquele prédio senti as pessoas virando para me verem. O corredor era cheio de armários onde os alunos já organizavam suas coisas para o próximo ano letivo. Continuei andando como quem finge não se importar, mas na verdade eu queria muito um lugar para me esconder. Depois de um tempo percebi que as pessoas alternavam entre olhar pra mim e olhar para uma garota que vinha pelo portão A na minha direção, eu só conseguia pensar que ela também era aluna nova. Ufa! Pelo menos vou ter só metade da atenção.

A garota parou de andar e começou a olhar para um mural ainda recebendo olhares. Aparentemente ela achou seu nome e entrou na sala 101. Eu segui seus passos. Encontrei meu nome do 3º ano E, entre na secretaria e ela estava conversando com a recepcionista.

— ... eu perdi. Tenho culpa? Eu tiro uma cópia e devolvo amanhã essa chave. – a menina também novata falava.

— Eu não posso te dar a única chave que temos, Nina. Posso te dar um outro armário...

— Eu tenho minhas coisas lá dentro ainda. – ela falou com grosseria. Eu já esperava encontrar pessoas desse tipo aqui.

— Amanhã lhe dou a chave então. Vou encaminhar para o setor de cópias. Você é a aluna nova? Imagino que queira um mapa e uma chave. – a recepcionista se dirigiu a mim com muita simpatia.

— Sim, obrigada. – falei timidamente. A outra garota aparentemente não era nova. Só tinha perdido a chave do seu armário dos anos anteriores. Ela ficou ainda mais irritada quando a recepcionista parou de dar atenção a ela.

— Amanhã eu volto. Espero que a chave esteja pronta. – falou saindo com arrogância da secretaria.

— Desculpe por isso. – a recepcionista disse me entregando a chave e um mapa. – Ela é uma aluna problemática. – falou como se devesse explicações para mim.

— Tudo bem. Eu já esperava encontrar esse tipo de pessoa aqui. – falei sendo sincera e a recepcionista riu. Agradeci e saí para a selva lá fora.

A sala 322 ficava no terceiro andar, ainda faltava quinze minutos para começar a aula, mas eu não tinha amigos e não tinha nada mais para fazer então fui para sala. Depois de muitos olhares eu achei o elevador e fui ao terceiro andar. A maioria das pessoas subia pela escada e justamente por isso escolhi o elevador. A sala estava quase vazia, exceto por um grupinho barulhento que conversavam alto e a menina arrogante que a recepcionista disse o nome, mas já havia esquecido. Pra variar ela era da minha turma. Ela sentava na última cadeira na fileira da janela, o lugar que eu escolheria se estivesse vazio, como não estava eu fui para a fileira da janela e sentei duas cadeiras na frente dela.

— Voltou, Nina? – um menino do grupo barulhento perguntou.

— Aparentemente. – ela disse de um jeito frio como eu já havia percebido que ela era.

— Como foi na Itália? – uma das meninas perguntou. – Deve ter sido show ter feito o segundo ano do médio pra lá.

— Normal. – ela disse cortando qualquer tentativa deles de conversa.

Assim que o professor chegou na sala, todos ficaram quietos enquanto esperávamos mais alunos chegarem.

— Bom dia. Eu me chamo Tiago e vou ser o professor de vocês de história. A maioria já me conhece do segundo ano, mas vejo que têm dois rostos novos. Venham aqui pra frente se apresentar. – ele disse e senti meu rosto corar, mas me levantei. – Quero nome, idade, de onde vocês são, quais as expectativas para esse ano letivo. – Nina e eu ficamos lado a lado na frente daquela turma cheia de pessoas com ar de julgamento.

— A maioria me conhece acredito exceto ela. – falou fazendo um sinal para mim que estava ao seu lado. – E você professor. Me chamo Nina Solomon, tenho 18 anos, sou daqui de São Paulo mesmo mas passei um ano em intercâmbio na Itália, espero que ele passe o mais rápido possível.

— Sinceridade. Adoro. – o professor disse meio afeminado.

— Eu sou Lara. Tenho 17 anos, sou de Campinas, me mudei recentemente por conta do emprego do meu pai e espero que faça boas amizades. – falei.

— Vai fazer, Lara. Tenho certeza. – disse o professor indicando para nos sentarmos e começou a apresentar o seu plano para disciplina.

Nas outras disciplinas do dia foi a mesma coisa. Só que me apresentava sozinha, pois ao contrário do professor de história, todos os outros conheciam Nina e pelo visto não gostavam dela. Na hora do intervalo, eu resolvi ir até o meu armário para guardar o material dado das disciplinas. Para minha surpresa ao me aproximar da numeração dada pela recepcionista da secretaria, Nina estava tentando arrombar meu armário com um estilete. Pelo pouco que pude analisar do material do armário isso seria impossível, mas mesmo assim achei meio assustador ela estar fazendo isso.

— O que você quer no meu armário? – perguntei e ela levou um susto e cortou sua mão esquerda com o estilete. – Ai meu Deus me desculpa. – falei entrando em desespero.

— Você tem a chave? Abre então. – falou como se nem ligasse pro corte.

— O que você quer aqui? – perguntei perdendo a paciência com esse jeito dessa garota. – Vai na enfermaria ver isso, pode ter sido profundo, corre risco de tétano. – falei e ouvi uma risadinha dela.

— Era o armário de uma amiga. Abra por favor, preciso tirar algumas coisas antes que você ponha suas coisas. – falou delicadamente. Era a primeira vez que eu havia visto ela sem ser arrogante e até mesmo educada. Eu abri sem discutir, e lá dentro ainda tinha muitas coisas da antiga dona.

— Por que ela não tirou as coisas dela? – perguntei curiosa.

— Não deu tempo. – falou sem prestar atenção em mim.

As coisas que tinham lá dentro iam desde porta retrato das duas juntas, até livros, cadernos, bilhetes. Após tirar tudo Nina resmungou um agradecimento e virou a costa para mim carregando todas as coisas que havia tirado. Olhei para dentro e percebi que uma foto caiu, deve ter caído do meio de tantos livros. Era de Nina e uma garota abraçadas, sorrindo. Nem parecia essa menina amarga que conheci hoje. A menina era muito bonita, na verdade as duas eram muito bonitas, pela mensagem atrás da foto quem havia revelado ela havia sido nina.

Te amo. Para sempre.

As duas namoram tá na cara. Só não sei o motivo de essa menina não estudar mais aqui. Mas também não é da minha conta. Peguei a foto e guardei. Quando visse Nina de novo eu daria.

Notas finais
Deixem suas opiniões