Riot Girl

2 Capítulo 2


A hora do intervalo foi a pior hora. Tinham dezenas de mesas naquele refeitório imenso, mas após pegar minha comida eu fui pelo caminho oposto ao que a maioria dos estudantes fazia, pois não tinha mesa para eu sentar. Antes de sair do refeitório olhei ao redor para tentar localizar Nina e lhe dar a foto, quando a localizei ela estava cercada de gente quatro meninas e dois meninos, eu não tinha visto eles na sala, deviam ser de turmas diferentes da nossa e por isso ela estava isolada. Resolvi deixar para entregar a fotografia em um outro momento. Ao sair do refeitório percebi que alguém me seguia, fiquei andando que nem tonta no corredor e mesmo assim sentia a presença do meu perseguidor, até que olhei para trás e vi um menino alto, esguio ofegante de tanto me seguir.

— Ei... Até que fim... come com a gente. – ele falou meio gaguejando meio ofegante.

— Por que? Você nem é da minha turma...

— Luan. – ele disse estendendo a mão. – Dois amigos meus estudam. A gente viu que você é nova e queríamos te incluir. Não somos muito legais, mas damos pro gasto. – falou rindo e me fazendo rir. Ele parecia ser legal e resolvi acompanha-lo.

Na mesa deles havia cinco pessoas: Luan, Guilherme, Bruno, Marina e Maria. As duas últimas eram irmãs e estudavam na minha turma, assim como Bruno que insistiu para que Luan me chamasse. Os dois namoravam e eram muito fofos juntos, tudo era alvo de discussão inclusive quem dos dois iria atrás de mim. Guilherme namorava com Maria, os dois eram bem parecidos, viviam brincando e fazendo piadas com tudo. Já Marina era a quieta do grupo, ela falava e claramente adorava os amigos, mas só abria a boca pra falar coisas pontuais que todo mundo prestava atenção por sua seriedade.

— Lara, tem alguma dúvida sobre o colégio? – Bruno perguntou.

— Não, eu acho que por enquanto não. Pode ser que surja. – falei tímida.

— Uma dúvida que não me entra é a volta da Solomon. – Maria disse e todos olharam na direção em que Nina estava. – Ela sai daquele jeito no primeiro ano e volta toda rebelde.

— Ela saiu como? – perguntei sem nem tentar esconder minha curiosidade.

— Esqueço que tu és nova. — Luan disse entusiasmado, louco pra contar a fofoca. – Deixa eu te falar. A Nina que ta na sala de vocês estudava aqui antes de ir pra Itália fazer intercâmbio. No fim do nosso primeiro ano, ela namorava uma menina que fazia o terceiro ano na época. – encontrei a razão pra ela não estudar mais aqui. Ela já tinha terminado. – Um mês antes do término das aulas a Nina tava cansada de relacionamento e resolveu terminar com essa garota. Ela não reagiu bem. Todo mundo percebeu. Ela tava acabada. Andava que nem zumbi pelos corredores, até que viu a Nina ficando com uma menina de um outro colégio no shopping aqui perto, foi o suficiente pra ela tentar suicídio com uma corda na sala de música do quarto andar. Essa sala foi fechada e transferida para o quinto andar. A tentativa não deu certo, mas a garota ficou em coma, hoje ela está acordada, mas em estado vegetativo. Os pais ainda têm esperança. Os médicos não. A Nina foi para a Itália por conta disso tudo. Os pais dela abafaram o máximo que puderam a história fora da escola, mas aqui dentro todo mundo sabe exatamente o que aconteceu. Desde então a Nina não havia voltado ao colégio hoje é o primeiro dia.

— Ela tava grossa. Fria. Acho que alguma coisa ta errada com ela. – Maria disse olhando para Nina. – E ela ta com os antigos amigos dela. Mas reparem que ela parece aérea, pouco fala.

— E ela deveria tá mesmo. Acabou com a vida de uma garota. – Guilherme disse um tanto quanto irritado.

— Não foi culpa dela. De ninguém na verdade. Términos de relacionamento são coisas normais que acontecem. – Marina disse e como sempre todos concordaram.

Eu estava ainda perplexa. Jamais imaginara o motivo daquela garota ser tão amarga. Olhei para ela e como Maria disse os amigos dela pareciam conversar normalmente enquanto ela olhava para fora como se não enxergasse o que estava acontecendo. Ela se levantou, jogou as coisas da sua bandeja e saiu pela porta sozinha. Fiquei impressionada com o fato de nenhum amigo dela lhe acompanhar principalmente numa hora tão difícil.

— Tu sabe que ela teve culpa, Marina. – Guilherme disse e eu percebi que Luan não havia contado toda a história. O sinal para o retorno da aula tocou e fomos todos nos encaminhando para o terceiro andar. Marina, Maria, Bruno e eu fomos para sala enquanto Luan e Guilherme iam para a sala deles. Nina já estava sentada na última cadeira e eu sentei na minha. Marina se sentou atrás de mim na frente de Nina enquanto Marina sentada do meu lado e Bruno atrás de mim. Na opinião deles se sentássemos perto quando a professora fosse fazer o mapa de sala continuaríamos juntos.

— Dor de cabeça. – Marina disse para a irmã sussurrando antes da professora falar algo.

— Faz massagem na cabeça dela Lara. – Maria disse e eu não sabia se era sério ou brincadeira, por isso me virei pra trás para ver o rosto de Marina. Quando virei dei de cara com Nina porque Marina estava com a cabeça deitada no tampo da mesa fazendo massagem em si mesma. Ela não estava olhando para nós e sim para as arvores do lado de fora. De forma distraída como se não ligasse para o que acontecia ao redor.

— Posso te fazer massagem, Marina? — perguntei ao ver ela ainda fazendo massagem em si mesma.

— Obrigada. – ela disse tirando a sua mão enquanto eu colocava a minha.

— Shippo muito esse casal. – Maria disse rindo e tirando uma foto de nós duas. Eu revirei os olhos, mas ri junto assim como Bruno. Marina ainda de cabeça abaixada recebendo massagem só mostrou o dedo do meio para a irmã.

Assim que a professora começou a aula descobrimos que era a coordenadora da nossa turma e por isso ela dedicaria a aula para fazer o mapa de sala. Como ela já conhecia a maioria da turma não foi difícil localizar os grupinhos e logo ela viu que Maria e Bruno estavam juntos, por isso mudou os dois de lugar. Manteve Marina do meu lado que a essa hora já estava dormindo enquanto eu continuava a massagem porque toda vez que eu parava ela resmungava e ameaçava acordar. Ela era muito fofa. Nina também continuou no lugar onde estava e eu de certa forma fiquei feliz por ela. Assim como eu ela estava tentando chamar o mínimo de atenção para si. Houve um momento que ela olhou para mim fazendo massagem em Marina, mas não expressou nada, não em seu semblante.

— Oi. Ham. – Marina resmungou levantando a cabeça. Aparentemente ela acordou definitivamente.

— Acordou, Bela Adormecida? – perguntei rindo. – Professora fez o mapa. Maria e Bruno foram trocados falei apontando para Maria que estava no lado oposto ao nosso e Bruno que estava sentando na frente agora. Maria nos olhava como se insinuasse algo e Marina revirou os olhos e me olhou.

— Valeu. Minha dor passou. – disse sorrindo mas vi ela corando logo em seguida.

— Eu que agradeço. Minha mão ta cheirando bem. – falei cheirando a minha mão que de fato estava cheirando bem. Ela ficou extremamente vermelha e desviou olhar.

Não sou lésbica. Na realidade já beijei homens e mulheres. Mas nunca namorei. Nunca transei. Por enquanto eu continuo sendo uma incógnita até mesmo para mim. Admiro muito mais mulheres que homens, o corpo delas é perfeito. Na verdade, se eu pensar bem eu não admiro homens. Talvez eu seja lésbica.

— Boba. – Marina disse desconcertada.

O restante do dia foi incrivelmente monótono como em todo colégio. Avenues funcionava de forma integral. De manhã tínhamos as aulas das disciplinas tradicionais e pela tarde escolhíamos três atividade que estimulassem outras formas de inteligência. Eu escolhi culinária, natação e alemão. O almoço era no refeitório e não tão diverso para a mensalidade daquele colégio. Iria trazer comida de casa mesmo.

— Rola ou não rola? – Maria, que havia se atrasado por ter que falar com o professor depois da aula, perguntou.

— Ah é. – Luan disse limpando a boca cheia de molho. – Eu vi a foto. Tava shippando horrores com o Gui. – ele disse e Guilherme concordou enquanto Marina só jogava uma uva na irmã que passou bem longe.

— Se rolar tem que partir de mim né? Pelo que percebi essa daí é muito sem atitude. – falei sorrindo provocativamente para Marina que só fez baixar a cabeça.

— Mal te conheço, mas já te considero. – Luan disse. – Vou te colocar no nosso grupo. – falou e todos riram do seu jeito. — Acabem logo de almoçar que eu vou esperar vocês no estacionamento. As duas vão se agarrar ainda hoje na minha frente. – falou e saiu gargalhando que nem vilã de novela mexicana.