Rigorosamente proibido, ligeiramente permitido
23 Coração Partido
Notas iniciais
We Found Love – Jessie J
– Senhor Hale, eu sou o detetive McCall e vou lhe fazer algumas perguntas. — Derek ainda estava algemado e aparentemente tranquilo. — Você não quer mesmo um advogado? — Ref encarou o rapaz a sua frente enquanto mexia em alguns papéis.
– Não senhor. — a frase soou calma demais.
– O senhor sabe os motivos que o trouxe aqui? — Derek sentou melhor na cadeira e encarou o homem a sua frente.
– Sim senhor. — palavras curtas, como as de um militar.
– O que o senhor estava fazendo na cama de Stiles Stilinski? — Ref procurou qualquer sinal de nervoso, nenhum, nem um único suadouro.
– Estávamos sozinhos e ele teve um dia difícil, é comum Stiles ter pesadelos, as vezes, ataques de pânico. — Derek fez uma pausa para engolir a saliva. — O dia foi exaustivo, o garoto viu uma das amigas de infância morta e mutilada na escola, obra do psicopata que o sequestrou meses atrás e ele viu o próprio nome manchado na parede com o sangue da garota, isso tudo no dia do aniversário de morte da mãe, foi demais para ele. — Derek deu de ombros.
– O senhor resolveu aliviar a tensão dele e a sua em um dia difícil? — Ref estava testando os limites não muito claros da calma do interrogado.
– Isso é o senhor que está dizendo. — Derek manteve a mesma expressão sem emoção no rosto.
– Continue. — Ref começou a se irritar.
– Ele teve um pesadelo, acordou gritando em meio ao ataque de pânico, tinha sonhado com o estupro de Callie Sanders ao qual ele presenciou enquanto esteve em cativeiro, eu era o único na casa, o xerife estava viajando a trabalho e minha irmã tinha ido dormir na casa de uma amiga. Quando eu entrei em seu quarto, ele estava se debatendo, poderia se machucar, então eu apenas o imobilizei até que estivesse tudo sob controle. Eu tentei ir para o meu quarto quando ele parecia ter melhorado, mas ele pediu para eu ficar, estava com medo. Qualquer criança fica com medo depois de um pesadelo e eu estou ali para garantir que ele se sinta seguro. Ele cochilou e eu aproveitei para tentar ligar para o xerife. Deixei recados na central, tentei o gabinete e os celulares, ninguém me deu uma resposta concreta de onde o pai de Stiles estava e o garoto acordou de novo, pediu que eu ficasse com ele até ele dormir, nós conversamos e em algum momento eu cochilei, quando eu acordei tinha uma arma apontada para a minha cabeça e o xerife altamente alcoolizado me dando voz de prisão por motivo nenhum. — Derek contou tudo com a maior calma do mundo e Ref ficou em dúvida se aquilo era um sinal de verdade ou de truque.
– Com licença detetive. — Parrish colocou a cabeça para dentro da sala.
– Sim? — Ref levantou e Derek ficou atento ao que o policial mais novo dizia.
– Temos uma ocorrência na casa do xerife. — Ref continuou esperando que o agente continuasse. — Caso de violência doméstica. — Derek retesou a coluna.
Tudo aconteceu muito rápido depois que a viatura levou Derek, Stiles estava em pânico, ele queria pensar direito, ligar para alguém e dar um jeito de reverter aquilo, mas percebeu que a única forma de fazer isso era ligando para Laura, mesmo que Derek fosse odiar isso. Ele conseguiu falar com a irmã mais velha do namorado e explicou tudo com mínimos detalhes, mas quando voltou ao andar de baixo encontrou seu pai bebendo mais ainda.
– Você é inacreditável! — Stiles resmungou sem humor.
– Cale a boca! — ele tirou a garrafa das mãos do pai e recebeu um empurrão de volta. — Você acha que a sua mãe estaria orgulhosa disso? Desde quando você começou a dar para ele? — Stiles fechou os olhos e apertou os cantos dos mesmos, estava irritado com aquele comportamento.
– Eu não vou discutir com um bêbado. — ele retrucou.
– Claro que não, você prefere gastar seu tempo rebolando no colo do Hale! — John cuspiu as palavras, não se lembraria de nada no dia seguinte.
– Vai para o inferno! — Stiles explodiu. — Você nem ao menos é um pai decente! — o garoto estava com raiva, cansado e com medo de ter destruído a única coisa boa em sua vida em muitos anos. — Agora largue a porra dessa bebida e vá tomar banho! — o menino esbravejou tentando pegar a garrafa de uísque, mas John o empurrou, deixando a garrafa cair no chão e se espatifar no pé de Stiles que tinha acertado a nuca na quina da bancada da cozinha e estava zonzo e sangrando no chão.
John congelou ao ver o filho daquela forma, tudo pareceu se tornar menos utópico e ele se deu conta de que estava passando dos limites, tentou se aproximar e Stiles se encolheu, o menino queria distância do pai, não esperava nada daquilo e estava decepcionado por tudo o que vinha acontecendo desde o início da noite.
– Não chega perto de mim. — a voz de Stiles saiu chorosa, ele estava com dor.
O barulho da sirene da polícia começou a ressoar alto, deixando John com uma puta dor de cabeça e logo Parrish e mais dois agentes estavam invadindo a casa. Stiles encarou o policial e depois o próprio pai, engoliu e seco e suspirou, não tinha o que dizer sobre aquilo, apenas que o xerife estava excedendo limites, todos eles. Parrish chamou uma ambulância e todos foram para o hospital. Stiles nunca imaginou passar por exame de corpo de delito, ou ter um pai tão descontrolado.
– Seu pai está recebendo uma solução na veia chamada... — Stiles o interrompeu.
– Banana Bag. Eu sei, é para ressaca. — o garoto tinha o pé com pontos e a nuca com um pequeno curativo. — Quero ir a delegacia. — Stiles pediu, não estava interessado em John nesse momento, queria ver Derek, precisava dele.
– Vai prestar queixa? — Parrish parecia surpreso.
– Eu quero ver Derek. — o garoto encolheu os ombros.
– Você não pode, ele foi preso por pedofilia Stiles, você é a vítima. — Parrish estava confuso. — Escute, nada disso é sua culpa, ok? — o garoto arqueou as sobrancelhas.
– Eu não fui abusado pelo Derek, caramba! — ele explodiu. — Eu preciso explicar essa porra de uma vez, meu pai estava bêbado, a prisão é ilegal! — ele gritou e todos no hospital o encararam.
– Fique calmo, é bem comum as vítimas se envolverem com seus agressores. — Stiles revirou os olhos.
– Você vai ou não me levar a delegacia? — Parrish suspirou.
– Vamos. — o garoto o seguiu.
Derek começou a ficar ansioso, preocupado, uma pilha ao saber que Stiles podia estar machucado. Ref não voltou a sala de interrogatório até que uma viatura fosse verificar o que estava acontecendo e o lobo estava quase perdendo o controle por falta de informação.
– Stiles está bem? — ele não se conteve em perguntar.
– Não é da sua conta. — Ref voltou a sentar. — Você dorme com frequência na cama do menino Stilinski? — a bile subiu pelo estômago de Derek e ele fez uma careta.
– Não, eu nunca durmo na cama do Stiles. — todo o tratamento que ele estava recebendo, a forma como Ref o pressionava, nada era importante, nem se ele ficasse preso para sempre era, desde que Stiles estivesse bem.
– Com licença. — Laura entrou num rompante dentro da sala de interrogatório.
– Quem é a senhora? Quem lhe deixou entrar? — Ref levantou irritado e surpreso.
– Laura? O que você está fazendo aqui? — Derek levantou também, não esperava ver a irmã e nem queria, ela o mataria se soubesse disso, bem ele já podia se considerar um lobo morto.
– Cale a boca Derek, não diga nem mais uma palavra. Eu sou a advogada do senhor Hale. Laura Hale e o senhor, quem é? — ela estendeu a mão em um cumprimento firme e Ref retribuiu.
– Detetive McCall. — ele indicou para a advogada sentar ao lado do cliente.
– Eu não vou me sentar, vim liberar o meu cliente. — ela falava firme e calma. — Aqui. — ela entregou um papel para o detetive. — Essa prisão é ilegal. — Ref verificou o documento, era autenticado.
– Bom, eu vou preparar a liberação do cliente. — ele se levantou.
– As algemas. — ela apontou.
– Vou buscar a chave. — ele deu um sorrisinho irritante e ela bufou.
– Tudo bem. — Derek comentou cansado.
– Eles fizeram alguma coisa com você? — Derek fez que não. — Mesmo? — ela insistiu, mesmo que soubesse que Derek não mentiria.
– Eu to bem. Quem te chamou aqui? — ele não fazia ideia.
– Stiles. — ela sorriu ao lembrar do garoto tagarelando como ela deveria fazer o próprio trabalho. — Ele é um ótimo garoto, acho que seria um advogado melhor que eu, ele montou toda sua defesa em menos de trinta minutos. — ela riu ao lembrar da voz ofegante quando ele terminou.
– Ele se machucou, tenho certeza. — Derek tinha a voz rouca, estava preocupado demais.
– Ele tá bem. Foi só um... — ela fez uma pausa dramática, não queria explicar que o pai bêbado e xerife tinha empurrado o filho e deixado uma garrafa de bebida cortar-lhe o pé em meio a uma briga. — tombo. — ela finalizou e Derek soube que não era isso.
– Eu não vou poder vê-lo né? — Laura fez um muxoxo.
– Infelizmente, mas eu já dei um jeito de arrumar um apartamento e Cora deve estar levando suas coisas para lá nesse momento. — Laura pegou as mãos do irmão.
– Eu juro que eu não fiz nada com ele. — Derek encarou os olhos da irmã que sorriu.
– Eu sei, você só cuidou e Deus, como eu sei que você nunca abandonaria ele. Seu lobo o escolheu. — ela murmurou.
– Eu também. — ele deu um olhar triste e ouviu Ref voltar.
– O senhor está liberado. — o detetive soltou as algemas. — Mantenha-se longe do menino, para o seu próprio bem. — Derek assentiu.
Stiles estava sentado na sala do pai quando viu Laura sair na frente e logo depois Derek com suas coisas nas mãos, ele correu para fora da sala ignorando a dor dos pontos, quase caiu e acabou atracado no lobo a sua frente. Era um abraço tão forte que Laura e Derek não conseguiram antecipar e todos na delegacia pararam para assistir aquilo. Stiles estava chorando compulsivamente e Derek não conseguiu ter outra reação se não retribuir o abraço.
– Hey, menino morcego. — Derek afagou os cabelos do garoto e encontrou uma gaze presa em sua nuca, suspirou. — Quem te machucou? — Stiles o encarou com as bochechas vermelhas e Derek secou suas lágrimas. — Está tudo bem agora, não se preocupe. — doía em Laura ver que seu irmão estava em frangalhos por causa de toda aquela situação.
– Você vai para casa? — Derek desviou o olhar.
– Ele não pode Stiles, a prisão é ilegal, mas o juiz vai querer apurar algumas coisas, você sabe que o xerife mandando prender o segurança do filho não é de se deixar passar. — Laura tentou ajudar Derek.
– Você vai embora pelo que ele fez bêbado? — Stiles se afastou, seu pé estava latejando.
– Eu não vou embora, ok? Vou estar na cidade. — Derek tentou acalmá-lo. — Não faça uma cena, por favor. — o lobo não aguentaria sentir mais daquela dor que vinha do menino.
– Não, não, não, não... — ele se afastou cada vez mais.
– Fique calmo Stiles, nós precisamos ir. — Laura insistiu e Derek encarou feio a irmã. — É verdade, não quero que um bando de policiais insinue nada para proteger o xerife. — ela sibilou.
– Pode ir. — Stiles fungou, ele queria que o lobo ficasse, mas não podia prejudicar mais o namorado. — Eu vou sobreviver. — ele deu um sorriso triste e Derek foi levado pela irmã, sem chão e com o coração partido.
Stiles foi levado para casa por Parrish depois de recusar todas as tentativas de Ref de levá-lo até Scott, mas seu melhor amigo estava lá em sua porta quando ele chegou. Eles se olharam e Scott o abraçou, não precisavam de nenhuma explicação para se entenderem, para o garoto de queixo torto saber que seu melhor amigo estava em uma situação difícil demais para passar por cima, mas ele ajudaria. Stiles olhou a sala, vazia e fedendo a álcool. Caminhou até a cozinha em passos lentos, não tinha pressa e seu pé doía, assim como a cabeça. Sangue, bebida e cacos de vidro adornavam o chão, uma pequena mancha de sangue na quina da bancada, seu sangue. Engoliu em seco e foi até a lavanderia, pegou os materiais de limpeza e Scott começou a ajudá-lo sem dizer nada.
Derek chegou ao apartamento na zona industrial da cidade, não tinha muita coisa ali, mas Laura insistia que logo a decoração ficaria aconchegante e confortável, ele não se importava. Jogou suas coisas na cama do quarto e se jogou ali, de braços cruzados e o olhar preso ao teto sem graça, ele só queria poder ajudar Stiles, estar com ele e não ter tanto azar quando se tratava da sua vida amorosa. Cora entrou no quarto e retirou a bagunça da cama, depois obrigou o irmão a tirar os sapatos e deitou ao lado dele, deitando em seu peito.
– Eu vou cuidar dele para você, prometo. — ela sussurrou enquanto acariciava o irmão.
– Eu não queria que ele ficasse sozinho, ele já perdeu tanto. — Derek apertou os olhos, o nó na garganta era uma sensação nova para ele.
– Vamos dar um jeito. — ela alisou o rosto do irmão até ele pegar no sono.
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