Notas iniciais
Oi gente! Como combinado, deu 15 dias e aqui estamos. Peço perdão por não responder os reviews do último capítulo, mas estou indo viajar daqui alguns minutos, então não vou ter tempo de fazer isso hoje. Mas assim que voltar, faço isso. Agradecemos imensamente a recomendação maravilinda que a Mudu fez! Miga, você é uma fofa, muitíssimo obrigada!!! E é isso, gente. Hoje tem Pov Regina e Pov Emma. Espero que vocês gostem!

POV REGINA

Você já quis fugir de você mesma? Da sua vida? Das suas lembras? Das coisas erradas que um dia você fez, sem pensar no quanto tal coisa lhe faria mal? Você já quis esquecer? Ter sua memória apagada? Todas as suas memórias, toda a sua vida? Já quis mudar de nome, fugir, começar de novo?

Começar de novo, começar do zero, ser uma outra pessoa, não tem um dia da minha vida em que eu não deseje tal coisa.

“Pobre menina rica”. É o que diria a minha mãe. Pobre mesmo, pobre de espirito, de felicidade, de vontade. Vontade de viver, me divertir, aproveitar esses dias na terra.

Eu tenho dinheiro, certo? Então por que estou reclamando? Dizem que dinheiro pode comprar tudo, incluindo felicidade. Talvez compre mesmo, mas não compra perdão. Não compra bem-estar de você, com você mesma. Nem compra passagens para voltar alguns anos no tempo.

O que você fez, está feito, e não existe dinheiro de espécie alguma, que possa desfazer. E as vezes, você consegue aceitar o que fez, e consegue seguir em frente, outras vezes, não. Dizem que o tempo cura tudo, mas quanto será esse tempo? Quantos dias, quantos anos? Porque para mim, não curou absolutamente nada. Seis anos, seis anos é um tempo considerável, não? Deveria doer menos, deveria machucar menos, não deveria? Mas o tempo não tem funcionado para mim, todo dia, é como se fosse aquele mesmo trágico dia. E não importa o que eu faça, não importa quanto eu trabalhe, não importa nada, todos os dias, sempre me sobra um tempo, onde sou tele transportada para aquelas lembranças.

Elas me torturam, me matam aos poucos, fazem eu odiar quem eu sou, odiar minha vida, fazem eu ter vontade de desistir.

– Regina? – A voz de Tinker junto com três batidas na porta do meu quarto, fazem eu me encolher ainda mais e esconder a cabeça debaixo da coberta.

– Vá embora! – Peço e ouço a porta ser aberta.

– Regina? – Chama de novo, então as luzes são acesas.

– Ou vai embora, ou apaga as luzes. – Exijo. Segundos depois, as luzes são apagadas. Ouço passos se aproximando e a cama afundando do meu lado.

– O que aconteceu, para você estar nesse escuro há dias, está de novo tentando se esconder de você? – Sua voz baixa me questiona.

– Não. – Respondo.

– Que bom, porque você pode se esconder do lugar mais escuro do mundo e viver nele para sempre, mesmo assim, você não vai conseguir fugir de você. – Suspiro e tiro a cabeça de debaixo da coberta.

– Eu sei. – Solto com o ar.

– O que aconteceu com você? Foi eu quem sai brava com você na semana passada, então você quem deveria ter ido atrás de mim. Além de não ter feito isso, você se isolou, não atendeu o telefone, não mandou um misero sinal de fumaça. Sua mãe quer saber de você, assim como sua irmã e até o sem expressão do seu noivo. — Me conta. — Cora me acusou de ter feito sua cabeça e enfiado você em uma semana de farra. — Fala com incredulidade. — Me espanto com o fato de ela não conhecer o mínimo possível de você. — Comenta. — Ela disse que se eu não fazer você aparecer até amanhã, ela vem pessoalmente a sua procura. Então é melhor você ligar para ela, e dizer que continua a mesma Regina responsável de sempre. — Me aconselha. — O que aconteceu, Regina? — Volta a indagar ao pegar minha mão.

– Nada. — Minha voz sai falha.

– Desde quando temos segredos uma com a outra? — Sorrio sem humor, pensando que ela não gostaria nada de ouvir uma parte da história.

– É só... — Suspiro. — O mesmo de sempre. Eu odiando a vida. — Resumo.

– Você não odeia a vida sempre. — Volto a sorrir sem humor.

– Não, a maior parte das vezes eu finjo o quanto sou uma mulher realizada, tendo meus vários milhões com apenas trinta e três anos. E como eu sou feliz com meu noivo bonito, atencioso, rico e simpático. Por último mais não menos importante, como sou uma pessoa de sorte, por ter a família que eu tenho. — Falo com ironia. — Eu tenho tudo que meio mundo almeja, não tenho? Então por que diabos eu sinto como se não tivesse nada? — Falo mais comigo do que outra coisa.

– Porque você está vivendo a vida que a sua mãe quer que você tenha, não a que você quer ter. Você diz que há muito se libertou das amarras dela, que não a ouve mais, nem é mais controlada por ela, mas sabemos que isso não é verdade. — Acaricia minha mão. — Ela continua manipulando você, a única diferença é que agora ela finge lhe dar espaço, finge lhe dar opções. Mas ela manipula para que tudo seja do jeito dela. Cora sabe como controlar você, sempre soube. — Volto a suspirar.

– Eu odeio ela! — Essa é a mais pura verdade.

– Eu também odeio. No seu lugar, odiaria ainda mais. — Não tenho dúvidas sobre tal coisa. — Cora faz o que quer com a sua vida e a vida de Zelena, ela manda e desmanda. — Reclama. — Isso é triste, sabe? Toda essa situação é algo que tão incabível que 90% da população, provavelmente acha que é fantasioso, que só acontece em filmes. — Concordo. — Que os pobres não me ouçam, mas é difícil ser milionárias vezes, pelo menos quando se tem uma mãe como a sua. Tirando isso, é maravilhoso. — A futilidade dela acaba me fazendo sorrir.

– Tirando isso, tirando as pessoas interesseiras, tirando os impostos, tirando o tempo que você passa trabalhando, e mais algumas coisas que devo estar esquecendo. — Faço sua lista negativa crescer. — Você já parou para prestar atenção nas pessoas caminhando por calçadões nos finais de tarde? Elas sorriem, e conversam, e gargalham. Elas parecem tão... livres. E você vê que elas não estão fingindo, elas são felizes de verdade. — Suspiro. — O mesmo acontece com os porteiros, os seguranças, os recepcionistas, as camareiras, enfim, todos, todos que me cercam. E eu aposto que eles não são milionários. — Coço a garganta. — Nesses dias, em plena segunda-feira de manhã, sai para trabalhar e o porteiro do edifício acabou descendo comigo. Ele estava sorrindo e assoviando e insuportavelmente feliz para o dia da semana e as horas da manhã. Fiquei tão perturbada que quando vi, já estava perguntando para ele o motivo de tanta felicidade. Ele me disse que além dos Knicks terem ganhado o jogo do final de semana, ele iria sair naquela noite para comemorar um mês de namoro. — Rolo os olhos. — Pessoas ficam mesmo felizes por motivos assim? — Questiono.

– Mas é claro que pessoas ficam felizes por motivos assim. Tudo bem, você não é fã de esportes, mas você não fica feliz quando sai com Robin? — Fala o nome de Robin com desdém.

– Não? — Penso um pouco a respeito. — Para mim é algo como um compromisso qualquer, só que sem a parte de negócios. — Minha resposta a faz rir.

– Regina, querida, o seu noivado é um negócio. — Opina. — Mas eu pensei que você se divertisse pelo menos um pouquinho.

– Eu me divirto.

– Não, você não se diverte. Diversão faz você se sentir feliz. — Explica, me fazendo pensar a respeito. — O que faz você feliz, Regina? O que faz você feliz de verdade? O que faz você sorrir e esquecer por alguns minutos quem você é? — Penso um pouco a respeito e não chego à conclusão alguma.

– Eu não sei. — Confesso.

– Você não sabe? — Tenta disfarçar o tom surpreso. — Vamos lá Regina, não é uma pergunta difícil. Uma coisa, só uma coisa que deixa você feliz. — O silêncio se faz presente entre nós, enquanto penso no que me faz feliz. Acho que essa é a pergunta mais difícil que já foi me feita durante toda a vida. O que me faz feliz? Dinheiro? Não, dinheiro me traz conforto e dor de cabeça. Robin? Não, Robin me traz os problemas dele e ejaculações precoce. Amigos? Eu não tenho amigos, a não ser Tinker, mas ultimamente ela tem se encaixado muito na parte da dor de cabeça. Viagens? Se eu tivesse tempo de faze-las a lazer, talvez. Acho que nada me faz feliz, pelo menos não atualmente.

– Meu pai me fazia feliz. – Solto com o ar, ao lembrar dele.

– Regina, seu pai era ótimo, não tenho dúvidas que ele fazia você feliz. Fazia, no passado, sabemos que vai continuar no passado, mortos não voltam. – Dou um leve aceno com a cabeça.

– Daniel?

– Daniel se encaixa na parte dos mortos que não voltam. – Esboço um sorriso triste quando a imagem dele para na minha cabeça. – Não estamos falando do que fazia você feliz, estamos falando do que faz você feliz. – Suspiro.

– A criança, tenho certeza que a criança me faria feliz. – Conto em um sussurro, como se falando desse jeito, a dor de lembrar pudesse se tornar menos.

– Você tem que esquecer isso. Pare de se martirizar por isso. Pare de se esconder no escuro. Pare de sofrer, Regina. Pelo amor de Deus, você tem que superar. – Sua bronca, junto com minhas lembranças, faz lagrimas virem aos meus olhos.

– É fácil falar.

– Regina, no seu lugar eu teria feito o mesmo. Se fosse tão errado assim, não seria permitido, você não acha? – Nego.

– É errado para mim, eu não queria ter feito, você sabe que não, mas mesmo assim, fiz. Posso culpar minha mãe, mas a verdade é que tenho tanta ou mais culpa que ela. Porque se eu tivesse sido firme, se tivesse me imposto, se não tivesse sido tão covarde... – Deixo umas lágrimas escaparem.

– Mesmo assim, Cora teria dado um jeito. Essa criança não nasceria, Regina, de um jeito ou de outro, sua mãe não deixaria isso acontecer. – Passo as mãos pelo rosto, enquanto tento me recompor. – Você precisa voltar a fazer terapia. –Sugere.

– Não, eu não preciso. Prefiro doar o dinheiro que gasto em terapias inúteis, para ONGs. – Fiz anos e mais anos de análise, e sai de lá pior do que entrei.

– Você está pelo menos tomando seus remédios? – Me trata como uma criança.

– Às vezes, quando não consigo dormir.

– Às vezes? – Esbraveja. – Desse jeito você nunca vai se livrar dessa depressão. – Continua a bronca.

– Eu não tenho depressão. – Contesto.

– Não, claro que não. Por isso você pensou por minutos, sobre o que faz você feliz, e não chegou a conclusão nenhuma. – Debocha.

– Negócios, fechar negócios me faz feliz. Gosto da negociação, gosto de propostas e contrapropostas, gosto de ganhar. – A sensação de fechar negócios é o mais próximo da felicidade que chego.

– Isso não vale, envolve trabalho. – Acusa. – Você vai ficar um mês aqui, certo? – Só de pensar sobre isso, tenho vontade de voltar a chorar.

– Mais ou menos isso. – Me lamento.

– Okay, vamos fazer um trato. Você tem um mês para me listar pelo menos dez coisas que deixam você feliz, se no final desse tempo você continuar assim, vai voltar a tomar seus remédios corretamente e vai voltar a fazer terapia. – Nego.

– Nem pensar.

– Você diz que não está depressiva, então prove. Trinta dias longe da sua mãe, dos sócios, da sede, do seu noivo, da maioria dos seus problemas. Você tem trinta dias para ser livre, para se redescobrir. Aproveite esse tempo, Regina. Descubra quem você é, o que você quer. Arrume um calçadão para caminhar, rir, conversar, gargalhar. Veja Vegas como uma oportunidade, um novo ponto de partida. – Me pede. Começar de novo, como se isso fosse possível. – Faça isso Regina, porque eu quero muito, muito poder um dia ouvir você falando qual a sensação da sua liberdade. – A insistência dela me faz suspirar.

– Cinco coisas, daqui um mês lhe digo cinco coisas que me fazem feliz. – Proponho.

– Dez – Insiste.

– Sete. – Faço uma nova proposta.

– Okay, sete. Sete coisas que não envolvam trabalho. Trato feito? – Rolo os olhos e volto a suspirar.

– Trato feito.

– Ótimo! Agora que temos um acordo, levanta já dessa cama, cadê o controle das cortinas? Vamos abri-las, vamos deixar a luz do sol entrar, deixar o calor entrar. Põe um biquíni, vamos para piscina. – Nego.

– Tinker, vamos deixar essa história de felicidade para amanhã, deixe eu curtir meu último dia de tristeza. – Peço.

– Não. Você tem que levantar dessa cama e nós temos que fazer algo para distrair. Também não estou em um dos meus melhores dias, se ficarmos nessa cama, vamos pensar em duplo suicídio. – Seu drama me faz rolar os olhos.

– Está com problemas? – Questiono.

– Não necessariamente um problema. – Solta com o ar.

– Me fale sobre isso. – Peço.

– Deixa para lá! – Sua voz soa tristonha.

– Não. Eu falei sobre meus problemas, sua vez. – Ela suspira.

– É Jane. – Ao ouvir tal nome, sinto raiva. – Ela ligou naquele mesmo dia que você sumiu. Não faço ideia do porquê, mas ela desistiu do nosso acordo. Disse que não queria se envolver, mesmo que tal envolvimento fosse apenas por dinheiro. Falou que estava com problemas, que ficaria um tempo afastada e que eu deveria procurar outra pessoa. Nem eu ter oferecido o triplo do que acordamos, fez ela voltar atrás. Não quis me falar nem sobre o problema, mas pela voz tristonha e distante dela, deve ser algo grave. – Certamente porque o problema envolve a minha pessoa. Respiro aliviada por saber que não terei nunca mais que encontrar com essa mulher. Meus dias aqui vão ser com certeza mais fáceis sem a presença dela.

– Sinto muito. – Ela ri.

– Não você não sente. Sabemos que você não sente. Mas eu sinto. – Admite. – Você tinha razão, acho que estou apaixonada por ela. – Ao ouvir a confissão, sinto meu rosto esquentar. Vergonha, vergonha pelo que aconteceu, pelo o que eu fiz a Tinker, estou envergonhada.

– Era só uma prostituta, Tinker. Você vai superar. – Tento encerrar o assunto.

– Não era só uma prostituta. Ela é diferente. Ela é não é só bonita, sexy, quente, ela também é divertida, sabe ouvir, sabe conversa sobre qualquer assunto, faz você sorrir sem nenhum esforço. Ela é uma boa pessoa, sabe? Ela é uma ótima pessoa, tenho certeza que é, e você sabe, nunca me engano com as pessoas. – Fico em silêncio, pensando no que acabei de ouvir. Algumas lembranças novas, que apareceram durante a semana, acabam na minha mente. Lembranças de nós duas na boate do hotel, lembranças de ela me abraçando, dançando comigo, a parede eu e ela, eu perguntando o preço dela, o que ela me fez sentir. Tais lembranças me incomodam muito, não pelo simples fato de eu ter tido algo com uma mulher, mas sim por talvez eu ter tido muita culpa sobre tal fato.

– Você vai superar, Tinker, vamos achar outra Jane para você. – Garanto, tentando de novo, por fim ao assunto.

– Vai ser o jeito. – Solta com o ar.- Agora vamos levantar, e fazer alguma coisa, por favor? – Suspiro e resolvo ceder.

– Okay, então vamos fazer assim, você vai até a cozinha e me faz alguma coisa, enquanto isso eu tomo um banho. – Sugiro.

– Okay. Ovos mexidos e bacon, o que acha? – Meu estomago acha uma boa ideia.

– Perfeito. – Ela larga a minha mão. Ouço seu corpo se esfregando contra o lençol, em seguida ouço seus passos e então a luz que é acesa, quase me cega.

– Você está horrível. – Sempre sincera. – Pelo amor de Deus, vá já para o banho. Só apareça na cozinha quando estiver bem limpinha, cheirosa e sem olheiras.

– Já vou. – Aviso sem me mexer.

– Você tem meia hora. – Concordo com um acenar de cabeça. – Ah, se precisar de algo que tinha na sua bolsa, ela está ali. – Aponta para o pé da cama, onde vejo a bolsa e o sobretudo da prostituta. – Você esqueceu no quarto do hotel, a camareira achou, descobriu que você quem estava lá, e bom, aí está. O celular está no bolso do casaco. – Meus olhos estão fixos nas coisas da prostituta. Não tenho coragem de encarar Tinker. Minha amiga é tão desligada, que não se deu conta que nada disso me pertence. Nada disso nem combina comigo. Abro a boca para falar a verdade, mas não consigo, não quero perder Tinker, não quero perder a única amizade que tenho, então resolvo não arriscar.

– Obrigada! – Balbucio.

– Disponha. – Responde. – Meia hora. – Me lembra, antes de ir.

Meus olhos continuam nas coisas dela, enquanto penso no que fazer. Devo devolve-la, certo? Não, não devo. Afinal, o esquecimento foi dela. Deixar tais coisas na recepção do hotel para que ela consiga recuperar, isso é o máximo que talvez farei. Ou talvez, talvez eu deva descobrir onde aquela mulher mora, e mandar entregar tudo lá, assim não corro o risco de voltar a esbarrar com ela.

Arrasto meu corpo até a bolsa e a trago para mim, deixando todos os bons modos e regras sobre não mexer nas coisas dos outros de lado, eu a abro. O interior da mesma, está uma bagunça, digno da sua dona.

Preservativos, lixas de unha, esmaltes, escova de cabelo, delineador, cílios postiços, dados eróticos, batom, mais preservativos, chicletes, pirulitos, e soterrada sobre isso tudo, uma carteira. A pego, e de novo sem pensar a abro. Algumas moedas, outros preservativos, alguns extratos bancários e uma foto. Pego a imagem, e ao prestar atenção nela, meus olhos crescem e meu coração acelera.

A Srta. Swan, e uma criança fazem parte da foto, uma criança tão loira quanto a prostituta, com um sorriso tão igual ao dela, e olhos tão verdes quanto. Pelo tanto que se parecem, não tenho dúvida que possuem algum grau de parentesco. Podem ser irmãs, certo? Minha consciência pede para que sejam no máximo irmãs.

Atordoada, jogo a foto sobre a cama, para procurar por mais informações, e me deparo com tais coisas, quando a imagem cai virada para baixo. O coração rabiscado no verso da foto, junto com a letra tremida e descoordenada que tentou escrever “eu amo você, Mami”. Me esclarecem qualquer tipo de dúvida.

“Me fale sobre você, algo que você não fala para suas clientes”.

“Bom, eu tenho uma filha, o nome dela é Janis e ela tem seis anos”.

Poucas, porem significativas lembranças daquela noite, de repente voltam para minha memória. Um monstro, eu sou um monstro. Lágrimas vem aos meus olhos, quando lembro o que disse para ela. Balanço a cabeça negativamente, reprovando a minha atitude, minha grosseria, o quão baixo eu fui.

Se antes eu não sabia como ela aparentemente descobriu certas coisas sobre a minha vida, agora faço pelo menos ideia. Filhos, nós falamos sobre filhos. Ela tem uma filha, ela tem uma filha, e me ouviu falando coisas horrorosas sobre isso. Agora entendo sua raiva, sua magoa. Ela não quis me magoar, ou na verdade quis, mas ela apenas rebateu, apenas defendeu-se.

POV EMMA

– Sério? Você não vai me contar mesmo o que aconteceu? – A insistência de Killian, me faz suspirar. Ele aproveita enquanto Janis está no banheiro escovando os dentes, para voltar ao assunto da semana.

– Pela milésima vez, não aconteceu nada, Killian. – Respondo desanimada.

– Você não confia mais em mim, é isso? O que eu fiz para merecer essa desconfiança? – Rolo os olhos pelo drama. O problema de contar para Killian, é que ele é uma bicha barraqueira, ou seja, vai com certeza ligar ou procurar Regina Mills, para tirar satisfação, e tudo que eu menos quero é voltar a ver, ou ouvir falar dessa mulher, ou seja, melhor pôr panos quentes e esquecer que um dia ela apareceu na minha vida.

– Você quer que eu invente alguma coisa para contar para você? Me deixa em paz, bicha! – Deixo minhas costas caírem no colchão e miro o teto.

– Vamos recapitular. Há exatamente uma semana, você saiu de casa à noite, falando que ia recompensar Tinker Monstro Gaga, pela ajuda que ela lhe deu. Inclusive, você arrastou Ruby para ajudar com tal recompensa. – Começa. – Eu fiquei com Janis, e meus ouvidos muito bons, bem limpinhos e bem cuidados, ouviram perfeitamente você falando que estaria em casa antes de amanhecer. – Continua. – Amanheceu, deixei Janis na escola, deu nove, dez, onze horas. Ruby apareceu, contou que quando você foi embora, ainda não era quatro da madrugada. Nós ligamos incansáveis vezes para você e nada, você tinha desaparecido sem deixar rastros. – Coça a garganta. – Você chegou em casa passando do meio dia, com uma parte da roupa molhada e outra parte da roupa que não pertencia a você, não nos dirigiu a palavra, foi grossa, nos expulsou daqui, bateu a porta do seu quarto e trancou-se lá pelo resto do dia. – Levo as mãos ao rosto e o esfrego com impaciência. – Você quer mesmo que eu acredite que você estava com Tinker, e que não aconteceu nada, absolutamente nada, que deixou você muito incomodada? – Levanto meu polegar afirmando.

– Sim, eu quero. – Respondo desanimada. Sem que eu espere, ele se joga para cima de mim, tira minhas mãos da frente do meu rosto e prende meus braços acima da minha cabeça. – O que é isso? Virou macho agora? – Reclamo.

– Se para arrancar alguma coisa de você, é preciso virar macho, então eu posso fazer isso. – Rolo os olhos.

– Desculpe, mas não estou interessada. Minhas preferencias continuam as mesmas. – Ele me sorri.

– Foi ela, não foi? A mulher que teve o carro atropelado pelo seu. Regina Mills, é isso? – Só de ouvir o nome dessa mulher, sinto raiva e tenho certeza que fica perceptível para Killian. – A camisa que você chegou em casa cheirava muito a Beauty, o perfume que você disse que ela usa. – Às vezes eu odeio tanto essa bicha. Killian não perde e não esquece nenhum detalhe de nada nunca, e isso é irritante. – O que ela fez para você? – Indaga.

– Nada, Killian. Ela não me fez nada, eu nem encontrei com essa mulher. – Tento me esquivar. Mantenho os olhos nos dele por alguns segundos, antes de desviá-los.

– Você acha que eu tenho cara de boba? – Solta meus braços e leva uma mão até meu rosto, segura meu queixo e me faz encara-lo. – Tenho anos de estrada, meu amor! Anos. Então não tente me enrolar. – Ordena. – Você não consegue nem falar o nome dela, além de não conseguir disfarçar o semblante irritado só por eu ter tocado nesse assunto, nesse nome. – Me acusa. – Fora que você está há uma semana, UMA SEMANA, sem trabalhar, porque seu celular continua com ela, e você se recusa a ligar para reavê-lo. – Bom, Killian pode não saber da história, mas acabei desabafando com Ruby, e ela ficou responsável de ligar para a mulher e reaver meu celular. — Então pare de me enrolar e me diz, o que ela fez para você? – Ele insiste, o que me faz bufar.

Toda a raiva, todo o nojo, todo o desprezo que senti por essa mulher, voltam quando lembro. Deveria estar arrependida pelo o que disse a ela, a maioria das vezes, é como me sinto, mas então a cena dela me dizendo aquelas coisas, se repete na minha cabeça, e tudo que eu sinto é vontade de ligar para ela para dizer-lhe mais algumas verdades.

– Eu não quero falar sobre isso. – Aviso.

– Emma... – Ele tenta começar.

– Eu. Não. Quero. Falar. Sobre. Isso. – Falo pausadamente e em um tom de voz mais alto. – Não insista, Killian. – Ele abre a boca, com certeza para insistir mais um pouco.

– Mami, tio Killian? – Graças ao bom Deus, Janis está de volta ao quarto. Ela para ao lado da cama, enquanto nos lança um olhar curioso. – Você está gostando de meninas? – Faz a Killian, quase a mesma pergunta que fiz a pouco, o que nos faz rir.

– Mas é claro que não, eu sou praticamente uma menina, como posso gostar de uma? – Sorrio sem humor e balanço a cabeça negativamente.

– Não sei, mas você está em cima da Mami e está segurando o rosto dela igual as pessoas da televisão fazem quando vão se beijar. – Tiro a mão de Killian do meu rosto e o faço sair de cima de mim.

– O que eu já falei sobre você assistir essas coisas na TV, Janis? – Questiono séria, ao sentar-me no meio da cama.

– Foi só uma olhadinha, enquanto o tio Killian babava no sofá e eu trocava de canal. – Se defende. Esboço um sorriso, e bato com a mão no colchão, a chamando para sentar-se ao meu lado. Ela se joga sobre a cama, mas ao invés de sentar-se, deita sua cabeça sobre minhas pernas.

– Já conversamos também sobre não assistir TV de madrugada. – A lembro. Ela concorda, pega minha mão e a leva aos seus cabelos.

– Eu sei, mas era sexta, e no outro dia era dia de ficar em casa. – Se explica. — E eu estava sem sono. Era seu dia de ficar em casa comigo, lembra? Você prometeu tentar sair mais cedo, aí pensei em esperar. – Suspiro e balanço a cabeça, reprovando o que eu fiz. Por que diabos simplesmente não vim para casa, ao invés de ter a estúpida ideia de ir até ao bar, falar com aquela mulher?

– Sinto muito. – Me desculpo. – Sinto muito por essa vida maluca que temos. Sinto muito por ser uma mãe ausente. Sinto muito por não ser uma boa mãe. Sinto muito por ter sido egoísta a ponto de não pensar em quanto você teria uma vida melhor se... – Balanço a cabeça e tento engolir as lágrimas, mas não consigo conte-las.

– Você está triste? – Seus olhos me analisam.

– Um pouquinho. – Fungo, e me livro das lágrimas com as mãos.

– Você está um pouquinho triste todos esses dias que está em casa de férias, não é? – Esboço um sorriso e afirmo com a cabeça. Ela se senta de frente para mim e agarra minhas mãos. – Você é a melhor mãe de todo o mundo. – Suas mãos sobem até meu rosto. – Eu gosto de você tanto, tanto. Eu gosto de ouvir você falando, gosto do seu cheirinho bom, dos seus braços me puxando para perto sempre que você deita na nossa cama. – A declaração dela, traz novas lagrimas ao meu rosto, e me faz sorrir. – Eu gosto da nossa vida maluca. Gosto da nossa casa, do nosso bichinho de estimação e até do seu carro velho. – Faz careta ao falar do fusca. – Você não precisa sentir muito por essas coisas. Você sempre me diz que a gente não precisa sentir muito por ser diferente. – As lágrimas me impedem de falar, então só balanço a cabeça concordando. Tira as lágrimas do meu rosto e então bate com as mãos sobre as pernas, me convidado a deitar ali, e é o que acabo fazendo. – Eu amo você, mamãe. – Se declara.

– Me chamando de mamãe, você quer mesmo me consolar. – Tento recompor minha voz.

– Mami é mais fofinho, é lindo como você. – Me faz sorrir.

– Nunca cresça, Janis. – Murmuro o pedido, enquanto acaricio seu rosto.

– Impossível, todo mundo cresce. – É o que me responde. Aproxima o rosto do meu e beija a ponta do meu nariz. – Melhorou? – Questiona enquanto me analisa.

– Melhorei. Obrigada! – Volta a me beijar, antes de levantar a cabeça. – Então eu tenho uma pergunta. – Pelo tom que me fala tal coisa, sei que vem bomba.

– Então pergunte. – Incentivo.

– Meninas não podem gostar de meninas? – A pergunta dela me faz juntar as sobrancelhas. – Tio Killian disse que é praticamente uma menina, então não pode gostar de outra. – Ao olhar para Killian, para agradecer tal comentário, o vejo secando as lágrimas, o que me faz rolar os olhos.

– Sim, meninas podem gostar de meninas. Do mesmo jeito que meninos podem gostar de meninas e meninos. – Explico.

– Então todo mundo pode gostar de todo mundo? – Sorrio e concordo.

– Sim, todo mundo pode gostar de todo mundo.

– Explique direito, Emma. – Killian ganha a nossa atenção. – Preste atenção, Janis, tio Killian vai ensinar. – Ela concorda, já eu, balanço a cabeça em negativo, nada convencida de que ele vá conseguir fazer uma explicação para uma criança de seis anos.

– Existem meninas que só gostam de meninos. – Começa. – Existem meninas que só gostam de meninas. – Continua. – E existem meninas que gostam de meninos e meninas. – Ela dá um leve aceno com a cabeça. – E o mesmo vale para os meninos. Entendeu? – Ela coça a cabeça.

– Acho que sim. – Responde com uma certa incerteza, então tira os olhos dele e me encara. – Você é uma menina que gosta de quê? – A pergunta inesperada, me deixa momentaneamente sem resposta. Até então nunca tinha sido questionada sobre tal assunto.

– Estamos esperando uma resposta, Emma. – Killian debocha. Coço a garganta e sorrio para Janis, que me sorri de volta.

– Eu sou uma menina que gosta de meninas. – Ela volta a sorrir e balança a cabeça positivamente.

– Meu pai é uma menina? – Sua nova pergunta nos faz rir.

– Não, Janis. Seu pai é um menino. – Ela quase nunca pergunta pelo pai. Desde que lhe falei que ele foi embora antes de ela nascer, ela desistiu de saber do pai.

– Da pior espécie, diga-se de passagem. – Killian resmunga.

– Então eu não entendo. Se você é uma menina que gosta de meninas, por que meu pai é um menino? – Penso em um jeito de responder.

– Primeiro, porque eu gostei um pouquinho de meninos, antes de gostar de meninas. – É mais fácil falar desse jeito, do que ter que dizer que sempre gostei de meninas, mas meus pais não aceitaram e tentaram me fazer uma lavagem cerebral. – Segundo, uma criança filha de duas meninas, tem duas mães. – Ela pensa sobre o assunto por alguns segundos.

– E nenhum pai? – Afirmo.

– E nenhum pai. – Pelo jeito que me olha, sei que vem outra pergunta difícil.

– Então um dia eu vou ter outra mãe? – A pergunta faz Killian rir, e graças ao bom Deus, a campainha me salva dessa questão tão complicada. – EU ABRO! – Grita o aviso, me fazendo levantar a cabeça para que ela possa sair.

– Não corra! – Meu aviso não adianta de nada, ela sai correndo.

– O que diabos aquela mulher falou para você, Emma? – Killian aproveita que estamos sozinhos, para voltar ao assunto. – Foi sobre Janis, não foi? Você falou sobre Janis para ela? Desde quando você fala sobre a sua filha para pessoas estranhas? E que merda ela disse para você? – Dispara as perguntas.

– Qual a parte da frase: eu não quero falar sobre isso, não ficou bem clara para você? – Esbravejo.

– Você não está bem. Uma prova disso foi você se desculpando com Janis. Ela é criança, então não entende sobre o que exatamente foi esse pedido de desculpas, mas eu entendi muito bem você se desculpando por ter ficado com ela, ao invés de tê-la dado para a adoção. – O lanço um olhar nada amigável.

– CHEGA! – Grito. – Chega! Chega! Para com isso. Eu não quero e não vou falar. Puta que pariu! Qual a sua dificuldade de entender a palavra não? – Esbravejo. Ele me lança um olhar magoado, o que me faz bufar e puxar o travesseiro para cima da cabeça. Ficamos em silêncio por um tempo, enquanto eu respiro fundo tentando me acalmar. – Não vale a pena falar sobre isso, Okay? Eu só quero esquecer, esquecer daquela noite, esquecer a maldita mulher, esquecer o que ela me disse e o que eu disse para ela, então por favor, pare de perguntar. – Peço.

– Mami, você tem visita. – A voz de Janis, junto com a palavra “visita”, me faz tirar o travesseiro da frente do rosto. Ao olhar em direção a porta, meu coração quase vem a boca. Estou totalmente sem reação, ver um fantasma talvez me surpreenderia menos, do que ver Regina Mills, parada em frente ao batente da porta. Ela tem minha bolsa na mão e meu sobretudo pendurado no braço. Tem o mesmo semblante sério de sempre, e seus olhos em mim. Silêncio, silêncio e silêncio, é tudo que se faz presente entre nós. – Relaxa, Mami! – Janis quebra o silêncio. – Ela não veio cobrar nenhuma conta, por isso convidei ela para entrar. – Explica ao pular de volta na cama. – Ela é sua amiga? – Ainda sem voz, apenas balanço a cabeça negando. – Você está com uma cara estranha, igualzinho como fica quando vê filme de terror. – Deve ser porque o diabo está parado em frente à entrada do meu quarto. – Vocês são amigas? – Como eu não respondo, ela resolve questionar com o diabo.

– Não. – A voz firme, porém terna, ecoa pelo quarto.

– Você também é uma menina que gosta de meninas? – A pergunta dela, me tira do estado em que estou.

– Janis! – A repreendo ao sentar.

– Ela é sua namoradinha? – Questiona com um sorriso no rosto, enquanto espia a mulher pelo canto dos olhos.

– Não, mas é claro que não. Ela não é minha namoradinha, e nem minha amiga. – Esclareço, ganhando um olhar de interrogação.

– Então por que ela está aqui? – Dou de ombros, antes de tirar olhos da minha filha e encarar a mulher.

– Essa é uma ótima pergunta. O que você está fazendo aqui? – Sou grossa, do mesmo jeito que ela foi comigo. Coça a garganta antes de me responder.

– Podemos conversar? – Parece envergonhada, ou no mínimo, sem jeito.

– Esqueci de perguntar, qual é o seu nome? – Janis se mete.

– Pelo perfume, a cara de poucos amigos e a antipatia, deve ser Regina Mills. – Killian também resolve se meter. Ela tira os olhos de mim, e lança um olhar esnobe para ele.

– E você, pela cara de imprestável e semblante de inútil, deve ser... – Ela faz pensar. – Ninguém! – Sorri ironicamente para ele, que está aparentemente sem reação com a resposta que ganhou.

– Regina Mills, esse é o seu nome? – Janis volta a questionar, alheia ao clima tenso que a rodeia.

– Sim, esse é o meu nome. – Fala com a minha filha de um jeito que nunca a vi falar antes. Como já disse, seu tom de voz firme, permanece, mas tem um certo cuidado, uma certa ternura ali. – E o seu nome, qual é? – Janis volta a pular para fora da cama e vai até a mulher.

– Janis, igual Janis Joplin, minha mãe é fã dela. – Conta com empolgação. – Mas é só Janis, sem Joplin. – Coça a cabeça. – Na verdade é Janis Swan. – Vejo Regina Mills mostrando todos os dentes para a minha filha em um largo sorriso.

– É um belo nome, pequena Srta. Swan. – Elogia ao apertar a mão da minha filha em um comprimento.

– Obrigada, Srta. Mills. – Sorriem uma para a outra.

– Você pode me chamar de Regina. – Avisa e Janis concorda.

– Obrigada, Regina! – Volta a repetir a frase, dessa vez usando o nome sugerido. – Se você não veio cobrar nenhuma conta, nem é amiga da Mami, nem namoradinha, então o que veio fazer aqui? – Questiona ao juntar as sobrancelhas. Killian me cutuca, me mandando fazer alguma coisa, então saio de cima da cama, vou até elas e puxou minha filha pelo braço, a tirando de perto da mulher.

– Janis, eu não quero que você fale com ela. – Exijo.

– Por que não? – Me lança um olhar de censura, enquanto espera uma explicação.

– Porque não. – Respondo.

– Você diz que porque não, não é resposta. – Me lembra. – E você me diz para não olhar de cara feia para as pessoas, nem falar de um jeito ruim com elas. – Põe as mãos na cintura e me lança um olhar desapontado. – Você está olhando de cara feia para ela desde que ela chegou, e nem disse “oi”, e falou com ela de um jeito nada bonito. – Sai em defesa da mulher, que parece pouco à vontade pela bronca que estou levando. – Por que você não quer que eu fale com ela? – Insiste na pergunta.

– Porque eu não mereço que você fale comigo. – Regina Mills se mete na nossa conversa, para aparentemente, me defender. – Eu falei algumas coisas para a sua mãe, coisas nada bonitas, coisas que magoam e deixam triste. Por isso ela não quer que você fale comigo, e ela está certa em exigir isso. – Explica com paciência, coisa que eu pensei que ela sequer sabia o significado.

– Por que você fez isso? – Se volta para a mulher.

– Porque eu estava brava e quando eu fico brava, costumo dizer coisas sem pensar. – Volta a explicar.

– Sei como é, as vezes quando eu bato com o dedo mindinho do meu pé em algum lugar, eu falo muitos palavrões sem pensar. – As duas voltam a sorrir uma para a outra. – Você veio pedir desculpa? Se você pedir desculpa de verdade verdadeira, tenho certeza que ela perdoa. – Tira os olhos da mulher e volta-se para mim. – Não perdoa, Mami? – Balanço a cabeça.

– Não. – Minha resposta negativa a deixa surpresa.

– Emma Swan! Nós duas vamos ter uma conversa muito séria depois. – Me diz o que eu sempre lhe digo quando ela apronta uma das grandes.

– Desculpe ter invadido a sua casa, Srta. Swan, e por ter falado com a sua filha. Não tinha a intenção de causar nenhum incômodo. – Quem a vê falando desse jeito, não sabe o quão grossa e mesquinha essa mulher é. – Será que pode me dar um minuto da sua atenção? – Pede educadamente.

– O que você quer? – Meu tom de voz sai irritado.

– Conversar. – Sorrio ironicamente.

– Agora você quer conversar? Desculpe, mas você perdeu essa oportunidade quando... – Desisto do que vou falar, já que Janis está presente. Desapontada, irritada e de certa forma, magoada, balanço a cabeça, reprovando as atitudes dela. – Eu não quero conversar com você, definitivamente, não quero. – Solto com o ar. Ela balança a cabeça concordando, se não fosse Regina Mills, diria que minha recusa a deixou um pouco abalada.

– Entendo. – Me mostra minha bolsa e meu sobretudo, antes de deposita-los no canto da porta. – Mais uma vez, desculpe o incômodo. – Pende, antes de nos dar as costas para ir.

– Espera! – Killian intervém. – Não faço ideia do que aconteceu entre vocês duas, mas ela quer sim conversar com você. – Ao ouvir tamanho absurdo, o lanço um olhar irritado. – Se você não quer conversar comigo, então você vai conversar com ela. Você vai conversar com ela, você vai dizer tudo que você tem para dizer para ela, e vai voltar ao normal. – Exige. – Ou é isso, ou eu não vou sair daqui enquanto eu não ouvir da sua boca o que foi que ela fez. – Dadas as opções. Me lança um olhar desafiador, de quem sabe que no fundo, bem no fundo, bem lá no subterrâneo, talvez eu queira conversar com ela. – Vamos deixa-las sozinhas, Janis. – Estende a mão para ela, que olha para mim, para ele, e para as costas de Regina que continua parada no batente da porta.

– Não. Fiquem os dois aqui, nós vamos conversar lá fora. – Aviso e tento ir, mas a mão de Janis segura meu pulso.

– Não brigue muito com ela. – Intercede por quem não merece. Não lhe digo nada, mantenho meu semblante sério. – E Regina? – A faz olhar para trás. – Melhor você escutar tudo bem quietinha. – Da a dica, a fazendo sorrir.

– Vou tentar. – Pisca para minha filha, antes de sair do quarto, me dando espaço para fazer o mesmo.

Passo em sua frente e vou até a geladeira. Levanto os pés e estico o corpo, para pegar a carteira de cigarros que está em cima da mesma. Pego a caixa de fósforo que está sobre a bancada e sigo caminho até a sacada.

Vou até o parapeito da sacada, miro os prédios na minha frente e acendo um cigarro. Pelo canto dos olhos, a vejo parada ao meu lado, aparentemente me observando fumar. Tenho certeza que só não fez nenhuma crítica a tal coisa, porque sabe que se fazer tal coisa, vai ser expulsa. Prendo o cigarro entre os lábios e me volto para ela. Apoio as mãos no parapeito e me impulsiono, sentando sobre o mesmo. Tal coisa a faz recuar alguns passos.

Meus olhos ficam nela, enquanto continuo fumando. Ela parece envergonhada, talvez incomodada, olha para longe daqui. Tenho certeza que pensa que estou a julgando, e confesso que quero que ela pense assim, quero que se sinta mal, como me senti quando ela me disse todas aquelas coisas.

– Então... – Levo o cigarro aos lábios, e trago o máximo que posso. Solto lentamente a fumaça pelo nariz, o que parece ganhar a atenção dela. – É desse jeito que as pessoas conversam em Nova York? – Ela nega com a cabeça.

– Você quer por favor, descer daí? – Me pede.

– Por quê?

– Porque me incomoda o fato de alguém se apoiar, se encostar, se sentar, ou coisas do gênero, sobre parapeitos de lugares altos. – Explica.

– Não estou nem um pouco incomodada. – Respondo ao dar de ombros. Ela abre a boca, provavelmente para me dar uma das suas repostas grossas, mas consegue se conter antes de tal coisa acontecer.

– Tudo bem, não sou em quem pode deixar uma filha órfã. – Murmura. Balanço a cabeça concordando, e volto a tragar meu cigarro.

– Até porque você não tem uma filha. – Solto com a fumaça. Acabo me arrependendo ao ver que minhas palavras claramente a afetaram.

– Exatamente. – É tudo que responde, ao voltar a olhar para longe. Sei que não devo tocar no assunto, sei que não devo descer ao nível que ela desceu, mas uma parte de mim, quer esbravejar com ela tudo que remoí durante a semana pelas coisas que ela me falou, então resolvo tripudiar mais um pouquinho.

– Mas caso eu caia, não vai ser tão ruim, certo? Afinal, vou estar fazendo um favor para o mundo e para Janis, não é isso? – Ela respira fundo, balança a cabeça negando e volta a me encarar.

– Eu acordei perdida, confusa, irritada, morrendo de dor de cabeça e ao abrir os olhos, descobri que traí a minha melhor e única amiga. – Começa. – Eu falei sem pensar, Okay? E eu não sabia, ou não lembrava sobre a sua filha. – Tenta se explicar. – E sinceramente? – Está voltando a ser a Regina que conheci. A veia alta em sua testa, mostra o quanto ela está ficando irritada. – Não sei porque está tão magoada, já que me deu o troco na mesma moeda. – Mantém os olhos irritados em mim. Dou uma última tragada no cigarro, antes de apaga-lo no meu vaso de flor.

– Esse é o seu pedido de desculpa? – De novo os olhos dela estão na fumaça que sai pelo meu nariz.

– É o mais próximo que consigo chegar. – Seu tom irritado diminui.

– Você precisa melhorar. – Ela concorda com a cabeça.

– Eu sei. – É tudo que me responde.

– Você lembrou? – Balança a cabeça negando.

– Apenas flashs, ainda está tudo muito desconexo. – Explica.

– Janis? – Peço que me explique como descobriu. Ela suspira e volta a desviar os olhos dos meus.

– Você deixou sua bolsa no hotel, hoje quando eu a abri, vi uma foto de vocês duas, além de ela ser a sua cópia em miniatura, atrás da foto estava escrito “amo você, Mami!” Tive algumas lembranças desde então. Algo como: você falando sobre a sua filha, e depois teve, 110% lésbica. – Franze a testa, aparentemente se esforçando para lembrar. – Neal? – Questiona, não tendo certeza sobre o nome. Balanço a cabeça afirmando. – Seus pais, o motivo da sua profissão. – Continua confusa. Leva as mãos aos cabelos e os puxa. – Droga! Continua tudo confuso, faltam partes, muitas partes! – Parece falar consigo.

– Você me pediu para contar alguma coisa sobre a minha vida, algo que nunca falei para minhas clientes. – Explico. – Então eu falei sobre Janis. – É obvio que não cometerei o mesmo erro pela segunda vez, ou seja, não vou repetir essa história estupida para ela.

– Eu realmente não lembrava, Srta. Swan. – Pela primeira vez, usa um tom de desculpas. – Eu não teria dito o que disse, caso lembrasse. Dou minha palavra que não. – Sorrio sem humor, pego minha carteira de cigarros e capturo um com os dentes.

– Se lembrasse não teria dito, certo? – Ela apenas assente, enquanto me assiste acender o cigarro. – Mas é que você pensa, não é? Você só não teria exposto seu pensamento. – Concluo o obvio. Foi exatamente essa conclusão que me fez odiá-la a semana toda. Tudo bem, quando você está brava sempre acaba falando o que não quer, o que não necessariamente significa que você fala o que não acha.

– Não importa o que eu penso. – Responde, me arrancando um falso sorriso. Me acompanha no silêncio enquanto fumo.

– Mas é o que você pensa. – Insisto em saber.

– Sim, Srta. Swan, é o que eu penso. – Admite. – Eu mal conheço a sua filha, mas sabe o que as poucas palavras que trocamos me faz pensar? – Balanço a cabeça negando. – Que nenhuma mãe com uma profissão mais ou menos ortodoxa do que a sua, seria melhor mãe para ela do que você. – Okay, de todas as coisas que espera ouvir, essa com certeza não era uma delas, então fico momentaneamente sem resposta. Ela não está falando para me agradar, nem para se desculpar, conheço pessoas como ela, e sei que não falaria isso, se não pensasse mesmo assim.

– Não é legal jugar as pessoas sem conhece-las. – Ela concordar com a cabeça. – Então peço que me desculpe, por ter falado o que eu falei. – Meu pedido parece pega-la de surpresa.

– Mas é o que você pensa, não é? – Acaba me fazendo a mesma pergunta que a fiz a pouco.

– Não, não é o que eu penso. – Lhe garanto. – Eu mal conheço você, então como posso pensar algo ao seu respeito? Eu disse o que disse, com uma única intenção, magoa-la. Quis que você se sentisse tão mal, quanto você me fez sentir. Apenas isso. Mas realmente, não é o que eu penso. – Ela balança a cabeça concordando. – Você é um mistério! – Deixo escapar meu pensamento, e ela faz de conta não ouvir.

Rihanna — We Found Love

– Então, problema resolvido? – Me questiona.

– Está me perguntando se está desculpada? – Balança a cabeça afirmando. – Você não me pediu desculpas exatamente. – Provoco, e a vejo respirar fundo.

– Como eu já disse, é o mais perto que consigo chegar. – Sim, não tenho dúvidas sobre isso. Ainda não acredito que ela está aqui. Imagino o quão difícil é para ela, estar aqui. O quão difícil deve ser admitir que está errada e tentar se desculpar, mesmo que seja dessa forma torta.

– Eu ainda estou magoada, como sei que você também está magoada comigo, mas com o tempo, acho que vamos acabar nos perdoando, certo? – Ela afirma. – Então saiba que seu pedido de desculpa, está sendo processado. E como eu não guardo rancor, daqui alguns dias, certamente estará desculpada. – Ela esboça um sorriso.

– Eu guardo rancor, mas como ouvi tudo o que ouvi, por ter lhe provocado, vou abrir uma exceção. – Sua resposta me faz rir. – Podemos nunca mais tocar nesse assunto novamente? – Me pede e eu concordo.

– Só uma última coisa. – Ela me olha apreensiva. – Não se preocupe sobre ter traído sua amizade com Tinker, não aconteceu absolutamente nada entre nós. – Garanto, e ela balança a cabeça concordando, aparentemente sabendo sobre tal fato.

– Eu gostaria de falar sobre Tinker também. – Começa na defensiva, analisando minha reação. Não falo nada, não mudo minha expressão, apenas fumo meu cigarro, esperando que ela continue. – Ela me falou sobre você ter cancelado o mês que vocês tinham acordado. – Continua.

– Sim, eu fiz isso. – Solto com a fumaça. Sem que eu espere, ela dá um passo à frente, tira o cigarro da minha mão e o apaga no meu vaso de flor.

– Processe esse pedido de desculpa junto com o outro. – Pede, referindo-se ao que acabou de fazer. – Eu tenho asma, essa fumaça me faz mal. – Se explica.

– Por que não disse isso antes? – Dá de ombros.

– Eu gosto do cheiro. – Sussurra, como se estivesse confidenciando. Parece lembrar de algo, mas logo balança a cabeça, aparentemente tentando esquecer o que quer que seja. – Não tem importância. – Provavelmente minha cara de interrogação, a faz me responder isso. – Sugiro que você volte atrás com esse desacordo. – Vai direto ao ponto.

– Sem chances. Eu gosto de Tinker, mas não do jeito que ela quer que eu goste. Não quero que ela grude em mim, muito menos que me ame, nem algo do gênero. Ou seja, melhor me afastar. – Além do mais, passar um mês com Tinker, significa conviver um mês com Regina Mills, e até meia hora atrás, eu estava preferindo conviver com o diabo, do que ter que olhar para essa mulher. Enfim, podemos ter nos acertado, mas o que aconteceu serviu como um aviso para eu me manter afastada. Como imaginei naquela noite, Regina Mills é uma bomba relógio prestes a explodir, e se o falso alarme já me machucou, com certeza não vou querer estar por perto quando explodir de verdade.

– A proposta é boa, Srta. Swan, sei que vai ganhar o triplo do que consegue juntar em três meses. – Insiste. – Você pode pagar suas contas atrasadas com esse dinheiro, e aposto que ainda vai lhe sobrar uma quantia considerável. Fora que você pode ter um horário para chegar e sair de casa, ou seja, pode passar mais tempo com a sua filha. – Infelizmente, os primeiros argumentos dela são bons. – Eu tenho uma contraproposta. – Aproveita meu silêncio para investir.

– Que seria? – Estou realmente curiosa para ouvir tal coisa.

– Você passa esse mês com ela, faz o que tem que fazer, e no final desse um mês, eu lhe dou algo como “uma bolsa de estudos”. Tudo pago durante todos os anos do curso que a Srta. desejar cursar. O que me diz? – Mais uma vez no dia, essa mulher me deixa surpresa.

– Por que você faria isso por mim? – Ela dá de ombros.

– Negócios. Não se engane, não estou fazendo isso por você, assim como não estou fazendo por Tinker. – Avisa. – Estou fazendo por mim. O quanto antes eu resolver o problema daquela lunática, antes eu vou poder voltar para casa. – Explica. – Se você fizesse ideia do quanto eu odeio esse lugar, entenderia meu desespero. – Sim, fazer isso única e exclusivamente em benefício próprio, combina bastante com ela. Mas não podemos dizer que ela não foi honesta, certo?

– Um mês, nem um dia a mais. – Deixo claro e ela concorda. – Se ela se apaixonar, o problema vai ser todo seu. Eu não vou voltar, nem vou ligar, muito menos vou atender ligações. – De novo ela concorda. – Turismo E hotelaria, é esse o curso que eu quero. – Mais uma vez concorda. – E um estágio no seu hotel. – Minha última exigência, a faz me olhar de cara amarrada. – É pegar ou largar. – Aviso. – Pense em seu avião voando rumo a Nova York, Srta. Mills. – Levanto a mão, imitando um avião, e pelo canto dos olhos, a vejo sorrir.

– Fechado. Um mês, sem voltas, ligações e consolos. Turismo e hotelaria e um estágio em um dos meus hotéis. Fechado. – Sorrio satisfeita, e pulo do parapeito da sacada, parando mais perto dela do que deveria. Nossos olhos acabam se prendendo por alguns segundos, até que tal coisa parece incomoda-la, fazendo desviar o olhar e recuar um passo.

– Temos um acordo. – Lhe estendendo a mão.

– Temos um acordo. – Repete ao apertar a minha mão. – Esteja amanhã as 13:00 hrs no hotel, para acertamos todos os detalhes.

Notas finais
Daqui 15 dias, é nós aqui outra vez, combinado? Para isso contamos com review de vocês. Próximo capítulo elas começam a interagir de verdade verdadeira. Beijos e bom feriadão a todas!