Notas iniciais
Oieee, gente linda! Como vocês estão? Cá estamos nós novamente, para mais um capítulo de RHWFY, dessa vez beeem "menor", mas mesmo assim, grande. Porém tô melhorando. Quero agradecer todo mundo que passou por aqui e deixou review. Quem favoritou, divulgou, indicou. As manas do Twitter. Enfim, vocês, que fazem parte disso. Muito obrigada pelo carinho! Sobre o capítulo de hoje, Zelena vai surpreender vocês, assim como surpreendeu Reginão. Teremos uma pequena trégua entre Tinker e sua amiga fura olho. E vamos ao cemitério, preparem os casacos, porque tá bastante frio lá. Vamos também saber mais um pouco do que se passa pela cabeça da Regina, as partes não perversas, né. Porque as perversas ela não tem problema em expor e desejar. Mas enfim, ela já tinha comentado sobre, e agora vai explicar porque raramente expõe o que sente. Vai também contar também o maior motivo por se sentir bastante culpada pelo aborto. Vai falar de mozão e é isso. Seu resumo de fanfics bem aqui. Ahh, atentas, ela vai reencontrar alguém.

Eu imaginei que pudesse a encontrar bebendo. Eu imaginei que pudesse a encontrar chorando. Eu imaginei que pudesse a encontrar triste, chateada, magoada. Eu imaginei que pudesse a encontrar reclamando da vida. Imaginei que pudesse a encontrar reclamando sobre a mãe que temos. Toda a tristeza, toda mágoa, todo o rancor, que podem existir em uma pessoa, eu imaginei que fosse encontrar nela. Dentre todas as minhas imaginações, jamais passou pela minha cabeça, a possibilidade de encontrá-la como encontrei: rindo. Contrariando todas, todas as minhas expectativas, eu a encontrei rindo, na verdade, chorando de tanto gargalhar. Ela junto com Tinker.

Não precisei esperar mais de cinco minutos para a Srta. Lucas conseguir entrar em contato com Tinker, e me repassar a seguinte mensagem: suba pelas escadas. Não me restou outra alternativa, a não ser fazer tal coisa, de novo.

Como escadas e saltos são algo que não combinam muito e não faz muito tempo que subi vinte e três andares pelas escadas, para essa nova subida, eu deixei a classe de lado, desci dos saltos, os pendurei nos dedos, e querendo logo encontrar minha irmã, subi. Fiz isso quase correndo. Subi mais quatorze andares.

Quando encontrei as duas, estava esbaforida, quase suada, as pernas tremulas o coração a mil. Tudo isso para quê? Para encontrar as duas sentadas em um dos muito degraus, bastante despreocupadas e rindo, como se de repente tivesse acabado de sair de uma peça de comédia, e não de uma reunião dramática, onde um copo e uma garrafa foram atirados. Sem falar nas ameaças ouvidas.

No presente momento me encontro de braços cruzados, parada um degrau abaixo delas, esperando que acabem de rir, para quem sabem e só quem sabe, me atualizarem do que obviamente eu perdi, e que gerou tanta graça. Quem sabe assim, eu possa rir também.

Zelena tenta limpar as lágrimas enquanto continua rindo como uma hiena. Ao apontar para mim, resolve rir ainda mais, como se eu fosse a palhaça mais engraçada de todo o mundo. Por um acaso minha cara também faz Tinker, minha ex amiga, rir mais do que também já estava rindo.

— Está esbaforida e desarrumada! – Minha adorável irmã tenta falar.

— Os saltos nas mãos. – Tinker também resolve apontar.

Se elas estão achando graça, eu não estou achando graça nenhuma, na verdade, estou quase perdendo a paciência. As duas sabem que quando isso acontece, eu sou adepta a atirar coisas para extravasar, então tenho certeza que deveriam estar temendo, já que carrego perigosos sapatos nas mãos.

— Desculpe, irmã! – Pede em meio a suas gargalhadas escandalosas. – Não jogue isso em mim? – Provavelmente a cara que olhei dos saltos para elas, fez com que ela percebesse o perigo que estão correndo nesse momento.

— Qual o problema de vocês? – Ao esbravejar tal questionamento, a crise anterior que ainda nem tinha acabado, dá lugar a uma nova. Elas estão chorando, chorando muito. Não sei nem como ainda conseguem respirar.

— Eu fui mesmo trocada duas vezes por esse ser mal-humorado. – Tinker faz piada de si mesma e acha tal piada a coisa mais engraçada desse mundo.

— Para! – Zelena pede, achando tanta graça quanto. – Eu não consigo mais respirar. – Tenta se abanar, provavelmente para não morrer por falta de ar.

— Olhe só para ela! – Minha ex e desagradável amiga, aponta para mim e minha irmã que estava quase conseguindo se controlar, volta a dar risada.

— Praticamente um leão. – Zelena complementa.

— Okay... – Solto com o ar. – Vejo que vocês estão mundo bem, obrigada. Então continuem aí, rindo de mim. Eu tenho mais o que fazer da vida, vou voltar ao trabalho, antes que eu use meus scarpins para acertar a cabeça das duas. – Esbravejo com as duas irritantes, descruzo os braços, aperto com força os sapatos em minhas mãos e lhes dou as costas, para descer essas escadas que já são tão minhas. Antes que possa dar o primeiro passo, sou impedida pelas duas, que seguram meus pulsos, uma de cada lado, me fazendo bufar, praguejar e me voltar para elas.

— Relaxa, Regina. – Tinker pede, enquanto com a mão livre, tenta se livrar das lágrimas.

— Sente-se conosco e nos acompanhe nas risadas, irmãs. – É a vez de Zelena.

— Eu não sei exatamente do que vocês estão rindo, mas não tem graça nenhuma. – Volto a esbravejar. – Vocês estavam mesmo naquela reunião comigo? – Indago. — Não por nada, mas eu não imaginei que fosse encontrar você chorando de rir. – Falo para Zelena, tentando buscar uma explicação. Não estão só rindo da minha cara, estão? Antes de eu chegar até aqui e virar motivo de graça, elas estavam rindo por outra coisa.

— Ela estava fingindo! – Ao me contar tal coisa, Tinker acaba tendo outra crise de riso.

— O quê? – Questiono com Zelena. As sobrancelhas arqueadas, de quem não tem certeza se entendeu o que foi dito.

— Sente-se. – Abre um espaço maior entre seu corpo e o da minha ex-amiga e bate com a mão ali. Sem entender o que está acontecendo e querendo muito entender, resolvo fazer o que me pediu, sento-me.

— O que você estava fingindo exatamente? – Dessa vez eu espero pacientemente e em silêncio, elas pararem de rir, para que eu possa ser atualizada. Zelena é a primeira a se recuperar. Limpa suas lagrimas, respira fundo algumas vezes, se abana de novo e finalmente, decide me responder.

— Eu percebi... – E eu esperei todo esse tempo, para ouvir isso. Paciência, Regina, paciência.

— E percebeu o quê, criatura?

— Que você atingiu Cora, quando falou que ela nunca irá ser amada, que você nunca amou ela. Percebi que ela quer isso, ou quer algo parecido com isso. – Tenta me explicar. – Então eu resolvi encenar. – Continua. – Eu fingi, Regina. O que eu falei para ela, sobre ama-la. O copo e a garrafa que atirei, para tentar extravasar a minha “mágoa”. Eu fingi. – Meus olhos crescem, surpresos pelo que acabei de ouvir. Essa hipótese também jamais passou pela minha cabeça. Nunca imaginei que Zelena pudesse fingir tão bem, principalmente estando diante de Cora, jogando com ela. Quer dizer, talvez eu esteja um pouco impactada. — Eu só não consigo explicar como eu consegui não entornar a bebida. Juro que ainda posso inspirar aquele cheiro bom. Vocês não fazem noção da vontade que tenho de levantar daqui para ir atrás de alguma coisa. Estou com água na boca, ansiosa paro um gole. – O jeito empolgado, excitado como falar sobre, deixa claro que sim, ela está com muita vontade.

— Eu não entendo, por que você fez isso? – Quero saber.

— Ai, Regina, parece que você só sabe ser rápida, quando é para roubar meus relacionamentos. – Tinker, que ainda ri enquanto limpa as lágrimas, resolve reclamar comigo.

— Ela vai vir atrás de mim. – Zelena expõe seu ponto de vista. – Agora que ela sabe onde encontrar amor, ela vai vir. Meu falso amor, vai ganhar confiança, vai fazer ela se descuidar, e então eu vou investigar. — Continua. – Não era esse o plano? Você bate de frente com ela, enquanto eu investigo? – Minha boca se abre, formando um ó. Estou surpresa, admirada, talvez pasma. Mesmo diante de toda a tensão que se fez naquela sala, das ameaças feitas a ela, de tudo que ouviu, Zelena conseguiu ter calma, e analisar friamente as atitudes de Cora. Nunca fez tanto sentido aquele ditado que diz: cão que ladra, não morde. Porque enquanto eu estava latindo, minha irmã estava preparando o bote para morder.

— Falsa! – Ainda incrédula, exclamo ao empurrar seu ombro, lhe arrancando uma risadinha. – Eu achei que fosse encontrar você chorando as mágoas, querendo afoga-las em uma garrafa de álcool. – Falo enquanto balanço a cabeça negativamente.

— Com certeza eu quero me afogar numa garrafa de álcool, mas não para chorar mágoas, e sim porque eu cheguei muito perto de beber e agora não consigo parar de pensar.

— Eu estou orgulhosa de você. – Volto a empurrar seu ombro. – E talvez com um pouco de medo. – Agora acha graça. – Você é perigosa! – Acuso enquanto a acompanho na risada.

— Fora que ao fazer isso, ela desviou um pouco o foco da reunião, que era Emma. Provavelmente a bruxa nesse momento, não está nem lembrando que Emma existe. – Tinker compartilha seu achar.

— Você acha que ela está desconfiada? – Questiono.

— Sobre você e Emma? – Afirmo com a cabeça. — Não. Mas sei que desconfia que algo não está certo. – Sua opinião coincide com a minha. Tenho certeza que Cora sabe que tem algo de errado nessa história, só não consegue ligar o quê.

— Eu estava pensando... – Zelena e o que quer que ela esteja pensando, ganham nossa atenção. – Existe um jeito do seu noivado com Robin acabar, sem que nossa mãe sequer reclame sobre isso. – É o que fala.

— Existe, caso Robin vá a falência. – Ou morra. Esses são os únicos jeitos.

— Não. – Discorda. — Você tem que mostrar a ela que você o ama, tipo, ama muito. Você tem que convencê-la que está apaixonada. Mamãe quer que a nossa única felicidade, seja ela. Hoje eu consegui ver que vai além do dinheiro. – Fala quase sem respirar. — Ela é louca, então se ela concluir que você ama o seu noivo e vai ser bem feliz e bem contente com ele, ela mesma quem vai acabar com esse noivado. – Opina e me faz pensar a respeito.

— Ela quem vai dizer para você que ele é gay. – Tinker está concordando com Zelena.

— E provavelmente vai me sugerir, que eu não me case com ele. – Penso em voz alta.

— E você vai bater pé e ser contra ela, mas ela vai te mostrar fotos dele com outro cara. – Agora minha irmã está fazendo uma previsão. E sim, é algo que provavelmente vai acontecer. Quer dizer, vindo da nossa mãe, talvez ela arme para eu pegar Robin e o amante na cama.

— E você vai sair brava, triste, chorando. Vai acusa-la de sempre destruir sua felicidade. Vai dizer que as fotos são montagens. – Minha ex amiga, que no momento parece minha amiga, continua a linha de pensamento.

— Vai ficar uns dias sem vir para a empresa. Então eu vou na sua casa, e vou convencer você que não são apenas montagens. – Zelena retoma.

— Então você vai terminar o noivado. – Tinker finaliza.

— Meu Deus! Vocês são experts na arte da conspiração. – Estou boquiaberta, espantada com a rapidez das duas.

— Enquanto umas usam da raiva, outras precisam usar da inteligência. – Talvez minha irmã tenha acabado de me chamar de burra, mas devido aos últimos acontecimentos, resolvo que não vou me importar.

— Você precisa ser também. – Tinker não pede, dá uma ordem. – O único jeito de manter Emma a salvo, é se antecipando a sua mãe. Nós somos três, quatro, com Emma. Cora é só uma. Temos sempre que pôr as nossas cabeças para pensar, para nos adiantarmos a ela. – Concordo. – Ser só brava não vai resolver.

— Eu sei. Como sei também que não podemos contar com a vitória, antes que ela esteja na cadeia. – Exponho.

— Nós não podemos. – As duas falam juntas.

— Obrigada por estar fazendo isso! – Agradeço a Tinker. Sei que não é nada fácil engolir o orgulho ferido, os sentimentos, a raiva que tem por mim, e ajudar. Então vou lhe ser para sempre grata.

— Não é por você, é por Emma. – Concordo.

— Sei e continuo agradecendo.

— Não me agradeça, porque se eu tiver oportunidade, vou tira-la de você. – Me avisa.

— Eu sei.

— Se sabe, então por que insistiu que eu ajudasse? – Inspiro a maior quantidade de ar que posso e solto lentamente.

— Primeiro, porque se caso aconteça, estarei colhendo o que plantei, não é isso? – Eu roubei a pessoa de Tinker, então se ela conseguir reaver, provavelmente a tal da lei do retorno estará me dando o que eu mereço. — Segundo, porque eu prefiro ver ela bem feliz e bem contente com você, do que vê-la morta. – Mesmo que tal felicidade venha a me destruir dia após dia. Com isso eu tenho certeza que mesmo sofrendo, posso lidar. — Então sim, eu sei que você está ajudando porque se preocupa com ela, e também porque tem esse plano de tira-la de mim. Sim, muitas vezes eu vou ter ciúmes, muitas vezes vou brigar com ela por sua causa, muitas vezes vou odiar você. Eu sei sobre isso tudo e desejo continuar. – Se tivesse outro jeito, eu faria, mas não tem. Tinker provou hoje o quanto é importante, essencial nessa luta contra Cora, então que se dane todo o ciúme que virá.

— Eu não vou pegar leve. – Me dá outro aviso.

— Tenho certeza que não.

— Embora muitas vezes talvez venha a parecer, você e eu, nós não voltamos e nem voltaremos a ser amigas. – Mais um aviso.

— Estou sabendo.

— Eu odeio você! – Se declara.

— Eu mereço esse ódio. – Concordo.

— Vocês são duas idiotas. – Zelena tirou o dia para ser a sincerona. – Okay, brigar por Emma, talvez eu até concorde, mesmo que ela tenha deixado claro que não sentia nada por você, Tinker... – Aponta para minha ex amiga. – Você poderia ter aberto o jogo com Tinker, Regina. – Agora aponta para mim. — Mas deixar que a história com Daniel, ainda influencie vocês? Puff... – Rola olhos. – Aquele cara era um babaca, manipulador, imbecil e interesseiro. – A quantidade de elogios que sai da sua boca, faz eu arregalar os olhos em surpresa. – Ele colocou vocês duas uma contra a outra e vocês são tão, mas tão idiotas, que nunca nem sentaram para falar sobre. Acreditaram em tudo o que ele disse e pronto. Amém, Santo Daniel! – As últimas duas frases não poderiam ter saído com mais deboche. – Tinker, caso você não saiba, caso tenha se feito aquele tempo toda de cega, aquele traste, ele deu em cima da minha irmã de todos os jeitos possíveis, eu vi, ninguém me falou não. – Volta a latir contra Tinker. – E Regina, você foi uma imbecil por ter deixado com que a morte do papai te afetasse daquele jeito. Você gostou desse idiota anos antes, então superou e seguiu em frente. Aí quando papai morreu e ele disse meia dúzia de sentimentalidades que você gostaria de ouvir naquele momento, você deixou-se levar, deixou-se influenciar. – Agora está latindo contra a minha pessoa. – Até de mim, aquele idiota afastou você. E você cega, aceitou, aceitou e aceitou. Resumindo: vocês são duas idiotas. – No momento Zelena está brava, bastante brava. – Duas idiotas que graças a Deus, seguiram em frente, e infelizmente, acho que ainda não perceberam isso. – Reclama. — Você Tinker, casou-se três vezes. TRÊS! Não contente com homens, resolveu que agora é lésbica. – Balança a cabeça negativamente. – E você Regina, agora que você finalmente conseguiu virar essa página, está mais do que na hora de você enxergar quem era o seu querido Daniel. – Não sei há quanto tempo Zelena tinha esse desabafo preso na garganta, mas pelo jeito como vomitou isso tudo, acredito que há muito. – Se alguma de vocês duas, por uma infelicidade ainda o amam, me façam o favor de desamar. Chega disso! Chega desse cara! Se ele estivesse vivo, nenhuma das duas estaria com ele. Mais cedo ou mais tarde, vocês enxergariam o idiota que ele era. – Acho que agora ela finalizou.

Tinker e eu, permanecemos em silêncio. Provavelmente assim como eu, ela está pensando em todas as palavras que Zelena vomitou para cima de nós. Pensar em Daniel, ultimamente, tem sido complicado. Como falei, as vezes me sinto um pouco enganada. Não sei, não gostaria de julga-lo, porque nunca de fato saberei quais as verdades e quais as inverdades do relacionamento que tivemos.

A verdade é que não sei mais nem o que sinto por ele. Eu sei que até pouco tempo atrás, eu daria minha vida para termos cinco minutos. Para que pudesse sei lá... me despedir e hoje. O fato é que hoje não é mais assim, não existe mais essa necessidade, essa angustia. Hoje se eu pudesse falar com ele, não seria para sentimentalidades, seria para esclarecimentos.

Não gosto de pensar que fui enganada, na verdade, não gosto de pensar que me deixei enganar, eu que sempre julguei conhecer tão bem as pessoas. Hoje tenho ciência de que ele me manipulava, tenho certeza sobre isso, consigo ver isso. Porém, gosto de pensar que foi real, de pensar que ele não se aproveitou, que não teve outro interesse que não seja amor. Gosto de pensar assim porque tenho esse desejo de que tenha existido algo real na minha vida.

— Ninguém nem estava falando sobre Daniel. – É o que Tinker resmunga.

— Não mesmo. – Também resmungo.

— E eu vou fingir então que esse assunto não resolvido, não incomoda, não perturba e nem chateia nenhuma de vocês duas. – Zelena debocha.

— Okay, nós precisamos conversar. – Tinker concorda. – Mas não acho que não estou preparada para essa conversa, não ainda. – Solta com o ar. — Porque muito embora provavelmente você venha a ter razão sobre muitas coisas, no momento, pelo que aconteceu entre Emma e Regina, eu não vou conseguir enxergar como verdade o que quer que sua irmã venha a me dizer. – Concordo com um balançar de cabeça. — Se é que ela tem o que dizer. – Me provoca.

— Sim, eu tenho. Eu tenho muito a dizer. – Lhe garanto. – Mas concordo com você, vai ter que ficar para uma outra hora. No momento estou começando a entender e digerir algumas coisas sobre Daniel, coisas que não sei... nunca passaram pela minha cabeça. – Admito.

— Entendo. – É tudo que responde.

— Demorou para sua ficha cair, não demorou? – Minha irmã estapeia meu braço. – Eu queria tanto que vocês duas um dia se apaixonassem por pessoas diferente, nós cinco juntas seriamos tão felizes. – Agora acho que está pensando alto.

— Bom, resolva com a sua irmã, ela quem me rouba. – Sou acusada.

— Em minha defesa, você sabia sobre meu interesse em Daniel, no dia em que todos nos conhecemos. Sei que você percebeu isso e não me questionou a respeito. Não fez isso porque queria ficar com ele para você. – Fui errada? Com certeza. Mas nessa parte, Tinker teve sua parcela de culpa sim.

— Não tenho culpa se sei flertar melhor do que você. – Dá de ombros sem se abalar.

— Ponto para Tinker. – Parece que Zelena resolveu se transformar em uma espécie de juíza, que distribui pontos.

— Então nesse caso eu não tenho culpa se as pessoas com quem você flerta, resolvem dar em cima de mim. Por que acredite, não fui eu quem foi atrás de nenhum dos dois. – Rebato sua provocação.

— Ponto para Regina. – Tinker rola os olhos com meu ponto.

— O que você tem afinal? Por que eles me trocam por você? – Parece indignada, em dúvida, muito confusa. Lhe dou de ombros.

— Provavelmente porque eu posso oferecer uma vida perigosa, com ameaças reais de morte. Além de ter toda uma dificuldade para me expressar. – Bom, minha resposta sincera, faz com que ela sorria.

— Não consigo achar outra explicação para isso. – É o que comenta.

— Nem eu. – Sou honesta.

— E você, ainda continua firme com essa ideia de ser para sempre solteira? – Agora questiona com Zelena. – Não está se envolvendo com ninguém não? – Zelena abre a boca para dizer que não, porém está na hora da minha vingança pelo tanto que ela implica comigo e meu relacionamento lésbico.

— Com o segurança. – Respondo.

— Regina!!! – Me repreende enquanto seus olhos fuzilam os meus e suas bochechas ganham um tom de vermelho.

— O quê? Você acha que ela vai sair por aí contando? – Questiono. – Poupe-me! Estamos todas no mesmo barco. Se afundar, vamos todas juntas. – Falo o óbvio. E a verdade é que Tinker é fiel as suas amizades, principalmente a Zelena, que nunca lhe fez mal algum.

— Não é esse o problema. Só que não é algo sério, para que você conte assim. – Reclama comigo. Tinker está achando graça da situação.

— Pelo tanto que você fica alugando Emma sobre, não diria que também é algo simplesmente casual. – Lhe dou de ombros.

— Emma entende sobre o assunto. – Tenta se defender.

— Mas se não é sério, não tem porque falar tanto sobre com ela, tem? – Ai, a vingança! A vingança é um prato que se come frio.

— Põe na roda! – Tinker pede. – Exponha as suas dúvidas. Eu também posso dar umas dicas. – Está pedindo tal coisa, única e exclusivamente, para deixar minha irmã sem graça.

Sempre foi assim. Zelena tem quase cinco anos a menos do que nós. E bom, ela sempre, sempre nos fez companhia, meus pais sempre davam um jeito de incluir ela em todos os meus programas. Então quando não tínhamos nada o que fazer, Tinker e eu resolvíamos implicar com Zelena.

Acho graça porque na maioria das vezes, ela é sempre desinibida, sempre cheia das graças, do humor, mas quando o assunto envolve ela e teor sexual na mesma frase, ela trava. Sempre foi assim, e piorou depois de tudo que lhe aconteceu.

— Eu não tenho mais dúvidas. Swan, Emma Swan, sanou todas elas e nessa última madrugada, eu coloquei em prática. – Acabo tendo que rir alto. Não porque teve graça o que falou, mas pela cor vermelho escarlate que ficou seu rosto ao nos contar tal coisa.

— Respira, Z, respira. – Tinker pede enquanto também rir. – Sexo é ótimo, maravilhoso, a primeira das sete maravilhas do mundo, então não tem problema algum você pôr qualquer dica em prática. – Tenta tranquilizar minha irmã, mas consegue a deixar um pouco mais envergonhada. – Foi bom? – Está realmente interessada.

— Pelo jeito como ela chegou? Foi pelo menos, ótimo feat maravilhoso. – Conto. – Zelena chegou irritantemente feliz e saltitante. – Rolo os olhos quando lembro que me chamou de flor do dia.

— Cale a boca, antes que eu resolva expor a sua vida sexual. – Irritada por eu tê-la envergonhada, resolve descontar em mim. Bom, em outras circunstâncias, não existira problema de falar sobre tal coisa com Tinker, mas só em outras circunstâncias.

Sem ter como prosseguir, levanto as mãos ao alto, me rendendo.

— Não está mais aqui quem falou.

— Você também gosta de apanhar? – Resolve me ignorar, ao questiona tal coisa com Tinker. É bem nesse momento que calço meus sapatos e então me ponho de pé.

— Deixar marcas de chupões sim, apanhar não. – Responde. – Você gosta mesmo de apanhar? – Provavelmente está lembrando dos tapas que me deu e o comentário que Emma fez a respeito.

— Eu vou subir, tenho uma reunião que deve estar quase começando. – Ao invés de responde-la, mudo de assunto. Ponho a mão dentro do bolso do casaco, e tiro o celular da minha desagradável irmã dali. – Isso é seu. – Se sorrisos pudessem falar, o dela estaria dizendo: não tente me envergonhar sua vaca, sei coisas piores sobre você.

— Fugindo, irmã? – Me provoca.

— Ao contrário de você, o assunto não me envergonha, só não acho que seria interessante falarmos sobre, já que envolve sentimentos. – Explico e levo o sorriso dela embora.

— Ponto para você. – Ou seja, eu estou saindo como campeã.

Cutuca sua perna na de Tinker.

— Me desculpe por isso. – Pede.

— Tudo bem. Já que sua irmã me roubou ela, seria burrice não aproveitar todas as maravilhas que Emma pode proporcionar. – Meu estômago revira ao ouvir tal coisa. Okay, sei que a Srta. Swan já esteve com incontáveis mulheres, e Okay, não tem como mudarmos, mas ouvir uma dessas mulheres falando sobre, já não é tão aceitável assim. – Aproveite os tapas, enquanto eu não pego ela de volta. – Depois de me provocar, pisca para mim.

— Vai sonhando. – Retribuo a piscada.

— Eu acho que vocês deveriam ter um dia de trégua. Hoje poderia ser o dia da paz. – Zelena ganha nossa atenção ao sugerir. – Sei que você está odiando Regina e ainda não está pronta nem para cogitar perdoar, mas só hoje, nós três poderíamos ter um dia de amigas, como nos velhos tempos. Para celebrar o ponto que marcamos contra Cora. Sabemos que não é sempre que vai acontecer. – Não sou eu a pessoa magoada e ferida nessa história, então tal decisão cabe a minha ex amiga. Caso ela esteja de acordo, por mim, tudo bem.

— Só hoje, apenas hoje. – É o que Tinker me fala ao para os olhos em mim. – Nada além. Eu ainda quero matar você, e vou fazer isso, caso Emma morra. – Me lembra de tal coisa.

— Como já mencionei, estou contando com isso. – Balança a cabeça concordando, enquanto ainda me encara.

— Okay, teremos nosso dia de paz, então. – Me estende a mão, para selar o acordo.

— Teremos nosso dia de paz. – Aperto-lhe a mão enquanto lhe sorrio.

— Obrigada Deus e a todos os envolvidos! – Zelena levanta as mãos ao céu para agradecer. Ela é visivelmente a parte mais feliz com esse acordo de paz. – Tinker, você vai participar da nossa reunião no começo da tarde, depois nós vamos ao shopping. A noite vamos jantar com Regina e Robin e depois vamos seguir lá para casa. – Minha irmã passa a programação e me atualiza de algumas coisas, como a inclusão no meu jantar com Robin. – Agora enquanto Regina trabalha, nós vamos descer e tomar café. – Muito justo não é mesmo? Você não dividiu bem as coisas, Deus! Não mesmo.

— Okay, me parece um bom plano. – Parecem duas adolescentes, empolgadas com algo quase entediante.

— Okay, como estamos na parte que Regina trabalha enquanto vocês saem para um café, vou retirar minha insignificante presença, e vou descer. – Aviso. – Tinker, fique de olho em Zelena. – Lhe peço. – E não se atrasem para a reunião, quero que acabe o quanto antes para que eu possa ir até o cemitério antes que anoiteça.

— Papai? – Zelena questiona.

— Papai. – Respondo.

— Você precisa de companhia? – Se oferece.

— Não. Eu preciso fazer isso sozinha.

— Okay, não nos atrasaremos então. Agora vai, antes que Cora descubra nosso esconderijo. – Estou praticamente sendo enxotada, mas como Zelena está com crédito hoje, acato tal coisa sem dizer nada e encaro com um sorriso no rosto, essas escadas que já são tão minhas.

...

Se o começo do dia já estava terrivelmente frio, feio e sem vida em Nova York, o final da tarde consegue estar um pouco pior. Neva e venta muito lá fora. Mesmo dentro do carro, com o aquecedor ligado, o ar ainda é um pouco frio.

Tenho a impressão de estar em uma cena daqueles filmes pós apocalíptico. Não existe quase ninguém caminhando pelas ruas, parece que o tempo congelante, conseguiu assustar até os turistas. As poucas pessoas lá fora estão “armadas” com casacos de frio intenso, cachecóis de lã, calçados feitos para dias como esse, gorros e tocas. Mesmo preparadas para isso, elas andam encolhidas, deixando bastante visível o quão difícil está encarar o rigoroso dia de inverno que faz.

Sinto um frio percorrer minha espinha ao avistar o cemitério. Gosto de pensar tal coisa se deve ao tempo congelante que irei encarar, e não ao fato de ter que enfrentar um cemitério vazio, gelado e intimidador. Mas eu preciso fazer isso, certo? Então melhor só encarar, sem pensar muito sobre.

Ajeito o cachecol de lã que “troquei” com Zelena, cobrindo até a ponta do queixo. Ponho também o gorro de lã que Tinker me ofereceu, segundo ela, para a salvação das minhas orelhas. Abotoo meu sobretudo e puxo a touca do mesmo, protegendo ainda mais a cabeça. Por último, visto minhas luvas.

Me sentindo um pouco mais preparada, ou aquecida para enfrentar o frio lá fora, volto-me para o meu segurança, que está sentado de frente para mim, também de olho no que se passa fora do carro. Provavelmente também pensando no frio que terá que encarar.

— Eu não quero que me acompanhe até lá dentro. Você vai me esperar aqui. – A ordem que lhe dou, ganha sua atenção.

— Mas eu recebi ordens da Sra. Mills para quê... – Não deixou que termine.

— Sr. Harrison, o senhor é o meu segurança, não o segurança da minha mãe. – Começo. — Eu quem lhe dou ordens e não ela. – O lembro do óbvio. – Eu tenho quase 34 anos, Sr. Harrison, ou seja, faz algum tempo que sou adulta e respondo por mim. – Continuo. – Está vendo o dia horrível que faz na cidade? E o frio? O Sr. Acha que tem alguma alma viva dentro desse cemitério? – Indago. – Com o frio que está fazendo, nem os mortos vão querer levantar do lugar onde estão, para me sequestrar. – Falo. – Então o Sr. vai no máximo, esperar ali... – Aponto para o portão do lugar, onde a limusine acabou de parar em frente. – Na entrada. Porém eu como uma boa patroa, sugiro que espere aqui, no conforto e bem-estar que o carro pode lhe proporcionar. – Como sei que só a sugestão não vai convence-lo, preciso também ameaçar. — Caso o Sr. resolva vir atrás de mim, esse será seu último dia de trabalho. Porém, se o Sr. for esperto e resolver não fazer isso, amanhã reporte a minha mãe que devido ao frio, só deixei as flores e me retirei. – Finalizo. – Estamos entendidos, Sr. Harrison? – Me olha por alguns segundos, até me balançar a cabeça negativamente e resolver me responder.

— Sim, Srta. Mills. – Resmunga. – Esperarei em frente ao portão.

— Eu não sou uma má pessoa, Sr. Harrison. – Pelo menos, não na maioria das vezes. — E tenho certeza de que se o senhor não deixar minha mãe interferir, nós podemos nos dar bem. – Lhe esboço um sorriso, pego o buquê de flores ao meu lado e abro a porta do carro.

O vento congelante que a rajada de ar traz de imediato, quase me faz mudar de ideia. Hesito por alguns segundos, porém o portão do lugar, batendo e batendo, parece me chamar, me convidar para entrar. Mais uma vez decido seguir, encarar.

Só quando meus sapatos afundam na neve, que eu lembro de um pequeno, mas significativo detalhe: estou de saltos. Eu deveria desistir, sei que sim, não estou calçada adequadamente para uma caminhada na neve, mas não desisto. Como já mencionei, o barulho do portão batendo me chama.

Não demora mais do que poucos segundos, para a neve penetrar a meia calça que uso, e levar seu frio e umidade para os meus pés. Meu corpo sente, se encolhe, eu me concentro para absorver e não me dar por vencida.

Puxo meu cachecol, o ajeito, cubro até o nariz. Abaixo a cabeça tentando me proteger do vento, e bastante hesitante, caminhando quase como um ganso, sigo para dentro do lugar.

Nunca gostei de cemitérios, nunca mesmo, desde criança. Não sei dizer exatamente porque, mas sempre tive a impressão que existe algo um tanto quanto sobrenatural em lugares assim. É triste, melancólico e silencioso. Mas é um silêncio diferente. Sempre senti como se lugares assim, estivesse lotado de pessoas que não conseguem se expressar. Algo como, todas estão falando, gritando, mas não sai, não se torna audível. É pesado e um tanto assustador.

As estátuas de anjos que parecem ter vida própria em lugares assim, dão a impressão que me seguem com os olhos. E o sorrisinho dessas coisas? É sinistramente perturbador. Quase tão perturbador, quanto o sorriso de Mona Lisa.

Sinto olhos em mim, muitos olhos em mim, tal coisa me faz olhar ao redor, mas está vazio, completamente deserto.

Meu corpo que antes reagia ao frio, esqueceu tal coisa e agora reage ao lugar. Meu coração bate acelerado, meus ouvidos estão atentos, ligados para qualquer ruído. Minha mente fica me mandando ir embora, meus sentidos estão todos em alerta, preparados para o que possa vir a acontecer.

A neve que afunda debaixo dos meus pés já bastante molhados, me faz pensar que se acontecer alguma coisa, a primeira coisa que devo fazer antes de sair correndo, é abandonar os sapatos por aqui mesmo.

“Você não deve temer os mortos, Regina, eles não fazem mal algum. Os vivos, esses você deve temer”. Era o que meu pai sempre me dizia quando vínhamos até aqui, visitar a mãe dele. Bom, na teoria faz sentido, mas na prática, com esse lugar deserto, com a noite se aproximando, com o frio, o vento e todo esse silêncio que só é quebrado pelo barulho irritante do portão, não me sinto de jeito nenhum segura. Se alguém só sussurrar “buh” perto de mim, juro que saio correndo sem ao menos olhar para trás.

Aperto os passos do jeito que me é possível. Não falta muito, sei disso porque meu pai está enterrado ao lado de minha avó, e bom, a estátua enorme de um anjo, ou uma santa, eu não sei, posta de pé em cima da pequena pedra de mármore de um túmulo, sempre me serviu de referência.

Ao levantar a cabeça para estátua, vejo ao longe, alguém caminhar na direção contrária. Sinto-me um pouco aliviada, ou menos tensa, por saber que não sou a única alma viva a habitar esse lugar.

Ao contrário dos meus passos, o da outra pessoa que constato ser um homem, são largos, firmes e seguros. Ele não demora a se aproximar. Ao passar por mim, levanta a cabeça e me deseja boa tarde. Lhe desejo o mesmo em um resmungo igualmente xoxo.

— Regina?! – A voz familiar que me chama, me faz parar, estagnar. Faz meu coração acelerar. Primeiro penso em fazer de conta que não ouvi, e seguir sem olhar para trás. Depois penso em fazer de conta que não sou Regina, e também seguir. Por último penso que já faz bastante tempo, que mesmo não sabendo como, devo apenas encarar. Está na hora, na hora de encarar todos esses fantasmas do passado. De me resolver com eles. De tentar me libertar de algumas coisas, para poder seguir. Eu já fugi por muito tempo, de muitas coisas, não posso mais fazer. Fugir não vai fazer as coisas voltarem a ser como eram, certo? Fugir não vai trazer ninguém de volta. – Regina, é você? – Insiste. Respiro fundo antes de me voltar para ele.

Tem o corpo protegido por um sobretudo negro, social e elegante. Um cachecol da mesma cor protege do seu pescoço até o começo dos olhos. O que sobra do seu rosto, acaba escondido pelo chapéu que usa.

— Tio Christopher?! – Sim, mesmo ele estando praticamente escondido nas roupas de frio, sei que é ele, mas sem saber exatamente o que dizer, foi a interrogação que acabou saindo da minha boca.

— Estou tão velho assim, que não me conhece mais? – Pelo jeito como questiona, sei que está sorrindo.

Tira o chapéu, baixa o cachecol, e volta a me sorrir.

Sua aparência me surpreende um pouco. Sim, ele aparenta estar bem mais velho do que realmente é. Seus cabelos que um dia foram de um castanho quase negro, agora estão bastante grisalhos. Sua barbara que sempre foi perfeitamente feita, está por fazer. Seus olhos escuros sempre tão cheios de vida, agora parecem um tanto cansados, ofuscados, tristonhos. As olheiras profundas, me fazem crer que ela não dorme direito tem alguns dias. Os ombros curvados para frente, ajudam na aparência velha e cansada. Mesmo assim, eu ainda consigo ver o amigo bonitão do meu pai ali.

— Não, claro que não. – Minto enquanto tento lhe sorrir. — Me desculpe... – Estou um tanto atordoada por esse reencontro improvável. Quer dizer, há quando tempo não o vejo? A última vez foi nesse mesmo cemitério, quando enterramos Daniel. Desde então, eu passei a evita-lo. Sim, ele tentou algumas vezes fazer contato, até o dia em que acho que percebeu que eu não queria tal coisa, então desistiu. – Eu estava distraída. – Tento explicar. Ele concorda enquanto continua me sorrindo.

— Regina, sempre educada e cortês. – Me sinto um pouco constrangida por não ter conseguido ser convincente na mentira. – Como vai você? – Questiona. Penso em algumas respostas, algumas bastante profundas, outras apenas corteses, por fim, resolvo apenas resumir.

— Sobrevivendo. – Solto com o ar. – E o senhor? – Arrisco perguntar.

— Sobrevivendo. – Me dá a mesma resposta. – Seu pai? – Aponta para as flores que carrego.

— Sim. – Confirmo. — Faz um tempo... resolvi tira-lo da geladeira. – Explico.

— Pelo dia que está fazendo, vai tira-lo da geladeira para pôr no congelador. – Sua graça me faz sorrir e balançar a cabeça negativamente.

— Realmente, o dia está de congelar. Achei que eu fosse a única alma viva perambulando por aqui. – Se tivesse sido combinado, não teríamos nos encontrado assim tão facilmente. O que me faz pensar que talvez fosse para nos encontrarmos, certo? Ou talvez tenha sido apenas coincidência mesmo. Eu não sei. Talvez eu esteja ficando louca, dessa vez de verdade. Não consigo tirar o sonho dessa madrugada da cabeça, passei o dia fazendo teorias sobre, tentando entender o que meu pai quis me dizer. Se é que ele quis mesmo fazer isso. Como eu disse, talvez eu esteja ficando louca de verdade.

— Eu sempre venho, quase todos os dias. – Me conta. Ou seja, a teoria que meu pai fez esse encontro acontecer, se desfaz aqui. — Nesses dias encontrei com a sua irmã na saída. – Zelena comentou sobre. Ela estava saindo, ele chegando. Como aparentemente Cora estava esperando no carro, eles apenas se cumprimentaram e cada um seguiu seu caminho. – Além de Daniel... – Ao ouvir o nome do seu filho, não consigo manter os olhos nos dele. – Tenho Alice aqui também. – Me conta e me surpreende. Alice era sua esposa, mãe de Daniel.

— Sério? – Deixo a pergunta idiota escapar. – Eu... eu... – Balanço a cabeça negativamente. – Eu sinto muito, tio Christopher, estou estarrecida. Não sei nem o que dizer. – Sou sincera.

— Eu sei querida, também sou dessas pessoas que não sabem exatamente o que dizer. – Tenta me tranquilizar. – Mas posso ver nos seus olhos que você realmente sente. – Esboça um sorriso.

— É recente? – Indago.

— Um pouco mais de um ano. – Incrédula, volto a balançar a cabeça negativamente. Por quê? É o que me questiono. Por que algumas famílias são assim ceifadas, destruídas? Por que pessoas boas precisam sofrer desse jeito? Tio Christopher é uma excelente pessoa. Eu tenho certeza sobre isso, muita certeza.

Ele foi o melhor amigo que meu pai teve. Era o amigo que meu pai confiava, confidenciava, se orgulhava, contava seus segredos. Acho que o conheço desde sempre. As maiores bagunças feitas por Zelena e eu, quando crianças, foram na companhia desse homem.

Assim como eu, ele detesta minha mãe. Detesta de um jeito que não pode nem vê-la. Era assim antes de Daniel morrer, e acredito que tudo tenha piorado. Certa vez Zelena comentou comigo que quando eu estava internada, ele foi até o escritório, invadiu a sala de Cora, e só não conseguiu a matar enforcada, porque os seguranças chegaram a tempo.

— Por que eu não fiquei sabendo? – Okay, eu fugi dele do jeito que pude, mas estamos falando sobre a morte de sua esposa, certo? Eu não teria fugido disso, teria comparecido e lhe dado suporte.

— Você já tem seus problemas, menina... – Me chama como me chamava quando eu era criança. – E de qualquer jeito, não teria nada que você pudesse fazer.

— Eu... – Continuo sem saber o que falar. – Realmente sinto muito. Eu... sinto muito por tudo. – Esse tudo inclui a morte do filho dele, acho que ele sabe sobre isso. Tio Christopher sempre foi bom de entender as minhas poucas palavras. Na verdade, nós nos parecemos nesse quesito. Somos do tipo que sente muito, mas não conseguimos expor através das palavras.

— Eu sei, eu também sinto. – Me fala.

— Me desculpe, tio Christopher. – Peço. – Me desculpe por tudo. Me desculpe pelo seu filho. Me desculpe por ter fugido do senhor. – Concorda com a cabeça.

— Não é culpa sua. Eu sei sobre isso e Alice também sabia. – Me garante. – Quanto fugir, acho que entendo. – De novo fico sem saber o que dizer, então só concordo com um aceno.

Ele passa a mão pelos cabelos, tirando neve dali, depois disso, volta a pôr seu chapéu.

— Vou deixa-la ir, antes que anoiteça. – Concordo com a cabeça. – Apareça lá em casa, ela continua no mesmo lugar. – Convida. Isso é algo que ele, assim como eu, sabe que não vai acontecer.

— O senhor quem podia aparecer. – Sugiro. – Nós podemos tomar um café. – Além de surpreende-lo, minha sugestão o faz sorrir.

— Sério?

— Nós tomamos café, jogamos conversa fora e de quebra, irritamos minha mãe. – Me balança a cabeça negativamente, mas acha graça.

— Na verdade eu gostaria mesmo de matá-la. – A verdade é que tal coisa não choca ninguém.

— Eu também. Porém, a morte seria muito boa para ela. Então mais do que matá-la, eu quero coloca-la na cadeia. – Falo.

— A cadeia é um bom lugar para ela. Corredor da morte seria melhor ainda. – Opina.

— Tendo em vista que se arrastam anos e mais anos até a execução, acho que concordo com o senhor. – Fico me perguntando, como seria a vida da minha adorável mãe, no corredor da morte? Ela que sempre mandou e desmandou, incapaz de agir, de tentar salvar a própria vida. Sim, com certeza essa ideia me agrada. – Agora eu preciso mesmo ir, tio Christopher, mas me procure. – Insisto. — Continuamos no Empire State, sei que foi proibido de entrar no nosso escritório, mas ligue, peça para falar comigo, eu desço e nós vamos até o café. – Concorda com a cabeça.

— Não trarei problemas para você? – Nego.

— De jeito algum. – Garanto. – Me procure. – Peço de novo.

— Sendo assim, eu vou sim ligar. – Promete e se aproxima. Suas mãos tocam meus braços e os afagam. – Foi muito bom revê-la, Regina! – Agora me sorri.

— Foi muito bom revê-lo, tio Christopher. – Lhe falo o mesmo enquanto também lhe sorrio. – Cuide-se!

— Até breve! – Pisca para mim, e sem me dizer mais nada, tira as mãos dos meus braços, me dá as costas e se vai. O acompanho se afastar por alguns segundos, enquanto penso sobre esse encontro improvável. Nova York é enorme, mas em situações como essa, ela é pequena, muito pequena.

Balanço a cabeça negativamente, e volto a seguir meu caminho. Depois desse reencontro, esse lugar já não me assusta tanto assim. Quer dizer, agora minha atenção está focada nesse reencontro improvável. Me sinto bem por termos nos reencontrado, mesmo que tenha sido aqui.

Tio Christopher é dessas pessoas que com poucas palavras, fazem você se sentir aquecida. Eu não sei, acho que é o jeito como ele olha, como seus olhos conversam. Ou talvez seja por ele ser praticamente um membro da minha família. Meu pai nos falava que eles eram irmãos, só que filhos de pais diferentes.

Cora, meu pai e ele, formaram uma espécie de triangulo, quando eram adolescentes. Às vezes, quando mais jovem, ficava imaginando como teria sido, se tio Christopher quem tivesse ficado com minha mãe. Ficava me questionando se eu existiria. E caso existisse, seria filha de Cora, ou de Henry? Sempre chegava a conclusão, que de Henry. E gostava de tal conclusão.

Primeiro, pelo amor que tenho pelo meu pai. Segundo, pelo ódio que tenho pela minha mãe. No final eu só ficava triste porque assim como meu pai, tio Christopher também não merecia uma vida ao lado de Cora. Provavelmente ela acabaria com ele, igualzinho como fez com seu marido, que teve o triste azar de conquista-la.

Paro de andar, e encaro pequenos túmulos a minha frente. Vejo o de Nilton Hudson, que é o vizinho da esquerda da minha a vó. A direita tinha um espaço vazio, reservado para minha família. Sei que não está mais vazio, está bem visível aos meus olhos, que agora existe um túmulo ali. Sei de quem pertence tal coisa, e esse saber faz meu coração bater descompassado. Respiro fundo algumas vezes, tentando inspirar coragem para fazer o que vim fazer. Sinto a garganta apertar, sinto vontade de sair correndo. Penso em desistir.

— Corajosa e forte. Corajosa e forte. – Murmuro comigo mesma. Respiro fundo mais uma vez, e me volto para a lápide. Meus olhos focam ali, no nome esculpido.

— Hey, pai! – Meus olhos acabam enchendo de lágrimas, enquanto continuam focados ali “Henry Mills, pai querido”. Balanço a cabeça negativamente, não acreditando que ele está mesmo aqui, debaixo de toda essa neve, toda terra. Não acreditando que não existe mais nada dele, nada. Não acreditando que agora o físico, se resume a essa lápide estúpida, com essa frase bastante vaga, quase fria. – Meu desculpe por isso. – Peço. A voz embargada. Livro-me das lágrimas antes que elas possam cair. – Faz muito tempo, eu sei. Me desculpe por só ter vindo agora. – Coço a garganta, tentando recompor minha voz. – Eu sei que você está morto, que você não vai voltar, que você virou história, pó, mas vir até aqui, é meio que ter a confirmação de algo que como disse, eu já sei, mas que ainda não consigo, ou não quero aceitar. – Tento explicar. – É um pouco, para não dizer muito triste, perder pessoas, pai. Sentir saudades. Não ter onde encontra-las, onde busca-las. – Levo a mão ao peito. – Dói aqui. E não existe remédio nenhum, que possa curar essa dor. Às vezes se torna difícil até respirar. — Suspiro antes de continuar.

— Eu tive tantos dias ruins nesses últimos anos, tantos. Foram tantas perdas. Existiram tantos dias que eu me peguei perguntado: como deve ser a morte? Será que é mais dolorosa do que a vida? Do que continuar e continuar? Eu acho que não. – Suspiro. – Eu não vou mentir para você, eu já pensei em desistir algumas vezes. – Admito. – Porém sempre me faltou coragem. Mas eu desejei, desejei muito. Provavelmente a morte não gosta de levar quem quer morrer, ela é um ser um tanto quanto impiedoso, que leva quem gosta muito de viver. – O vento resolve soprar forte, o que faz com que eu me encolha.

— Não fique bravo comigo, só estou sendo sincera. – Sim, na minha cabeça foi ele o responsável por isso, como eu já disse, provavelmente vou acabar louca. Porém quero me apegar a alguma coisa, um sinal, de que ele está realmente me ouvindo e que vai me ajudar.

— Depois que você morreu, tantas coisas aconteceram, tantas. – Solto com o ar. O vapor condensado que sai pela minha boca devido ao frio, me faz parecer uma fumante. – Minha vida saiu dos eixos. A vida de Zelena saiu dos eixos. Cora virou uma verdadeira ditadora. Ela usurpou nossas vidas, do mesmo jeito que ela fez com a sua. – Provavelmente ele sabe sobre isso, mas resolvo contar mesmo assim.

— Lembra sobre aquela conversa que tivemos sobre Daniel? Que você me falou que eu deveria deixar para lá, e não me envolver? – Questiono. — Quando você morreu e tudo desmoronou, ele infiltrou-se e eu não consegui mais nega-lo. – Uso quase um tom de lamento, para contar sobre. — Tudo que eu gostaria de ouvir naquele momento, ele me falou. Me prometeu tantas coisas, dentre elas que ele cuidaria de mim. E naquele momento, eu queria muito ser cuidada, queria muito sentir menos, sofrer menos. – Desabafo. — Eu era uma jovem imatura, que além do pai, tinha perdido o melhor amigo. Você era o único que me entendia, que me conhecia, que não se importava que eu fosse simplesmente eu. Foi desesperador perdê-lo, pai. – Continuo desabafando. – Naquele momento eu precisava de alguém, de algo onde me segurar. Eu só queria tornar a dor mais suportável, sabe? É egoísmos querer não sofrer? Querer conseguir respirar? – Questiono. — Você sabe que eu sempre sofri sozinha, que nunca consegui gritar por ajuda. De algum jeito, Daniel também sabia. – No momento não consigo me importar com frio, nem com a quantidade de neve no chão, ou com o vento, o que me faz desabotoar os botões do casaco, e sentar-me sobre a neve, de frente para a lápide. – Eu não consegui nega-lo naquele momento, na verdade acho que não quis fazer isso. – Minha mão toca a pedra de mármore, a afaga.

— Hoje você deveria ser avô de uma menina, uma pessoinha de oito anos, mas Cora não deixou que acontecesse. – Lágrimas voltam a parar em meus olhos, ao contar-lhe tal coisa. – Eu não tive essa criança, eu não pude tê-la, eu não consegui... – Balanço a cabeça negativamente, e respiro fundo. — Isso ainda me machuca tanto. Por isso que eu já quis desistir da vida. Parar de sentir, sabe como é? Isso me dói, me machuca, me atormenta. – Nesse momento, as lágrimas fogem dos meus olhos. — Eu só... gostaria de voltar no tempo. – Solto com o ar. – Daniel também está morto. Ele também não sobreviveu a Cora Mills. – Passo a mão pelo rosto, tirando as lágrimas dali.

— Eu tinha vinte e cinco anos quando essas coisas aconteceram, oito anos se passaram desde então. Fiquei estagnada durante todos esses anos, quebrada, incapaz. Um corpo são, uma mente morta, destroçada. Alguém irrecuperável... – Meus dedos voltam a tocar a pedra de mármore. — Pelo menos, era o que eu achava. – Esboço um sorriso. – Então eu conheci alguém. – Meu sorriso cresce quando a imagem dela para em minha cabeça. – Um furacão. – Conto. O sorriso ainda nos lábios. – Foi então que comecei a entender algumas coisas. Por exemplo, eu não preciso de alguém que cuide de mim, exatamente. – Falo. — Eu preciso de alguém que esteja comigo, e que ao invés de me consolar e me prometer coisas, apenas deite-se ao meu lado, ouça atentamente todos os meus lamentos e sofra comigo. Alguém que me arranque sorrisos sinceros, quando eu estiver me sentindo a pessoa mais miserável do mundo. Alguém que me abrace e me faça sentir em casa, sem que precise usar palavra nenhuma para isso. – Faço uma pausa para tomar ar. — Alguém não aceite sem reclamar, ou debater comigo, as crises de raiva que as vezes tenho. Alguém que não ache que eu estou sempre certa, que me mostre outras verdades, outros pontos de vista, mas que apesar disso, não tente manipular meus pensamentos. – Volto a suspirar. Dessa vez um suspiro bobinho, apaixonado. –E u não preciso de alguém que junte todos os meus cacos e me deixe intacta novamente, mas sim de alguém que me enxergue assim, cheia de machucados, de cicatrizes, cheia das marcas que a vida deixou, e me aceite. – Meus olhos param de novo no nome gravado na lápide.

— Eu encontrei essa pessoa. Na verdade, ela quem me fez chegar a essas conclusões, sem nunca impor isso. Ela deixa que eu pense por mim mesma, e que tire as minhas próprias conclusões. – Conto. – Esse furacão é uma mulher, pai. O nome dela é Emma. – Deixo um sorrisinho bobo nascer ao pronunciar seu nome. – Eu peço que você não fique chateado por ser uma mulher. Não tinha como eu evitar, juro que não tinha. A Srta. Swan, é alguém totalmente inevitável. – Falo. — No começo eu fiquei assustada, eu fugi e tentei não pensar sobre. Eu achei que fosse uma atração, essas coisas inexplicáveis de pele, porém a insistência dela praticamente me “obrigou” a enxergar que não era só isso. – Tento explicar. — Ela me faz rir. Você não tem noção da quantidade de idiotices que ela pode falar por minuto. Muitas delas não permitem que eu me mantenha séria, nem que eu não role os olhos. – Volto a sorrir. – Ela também me faz sentir. Coisas boas, sabe? Coisas muito boas. Graças a ela, agora eu já não sou mais só dor, eu sou amor também, e esperança. – O vento volta a bater forte, eu volto a me encolher. – Ela me faz ter o desejo de ser livre. E não faz isso para que eu possa ser feliz com ela, ou não só para que eu possa ser feliz com ela. Emma faz porque sabe que é onde eu vou encontrar o melhor de mim, na minha liberdade. – Suspiro enquanto continuo pensando naquele furacão loiro de cabelos bagunçados. – Ela é teimosa. Você não tem noção do quanto ela pode ser teimosa, pai, mas eu sei que você sabe o quanto tal coisa me irrita. A Srta. Swan também sabe, mas ela faz mesmo assim. Ela não se preocupa se vai me irritar ou não, apenas faz o que acha certo, e que se dane a minha irritação. – Balanço a cabeça negativamente. – Eu a amo. – Falo em voz alta, não só para o meu pai, mas para mim também. Essa é a primeira vez que admito tal coisa em voz alta. – Eu amo cada parte dela. Desde a mais brega, até a mais irritante. E eu amo quem eu sou quando estou com ela, quem ela me ajuda a ser. Amo essa pessoa mais leve, ou menos pesada, que estou me tornando. Hoje eu vejo que mesmo cheia de cicatrizes, cheia de medos e traumas, ainda é possível me pôr de pé e lutar, sabe? Emma me ajudou a enxergar isso. – Exponho.

— Ela tem uma filha, Janis. Vai fazer sete anos em abril, dois dias antes do meu aniversário. – Agora é a pequena Srta. Swan, quem faz meu sorriso bobinho aparecer. – Eu amo tanto aquela garota. Ela é tão inteligente, tão linda, esperta e cheia de perguntas. E geniosa. Acho que ela tem potencial para vir a ser mais geniosa do que eu. – Agora estou rindo. – Sabe aquela falta de paciência que eu tenho e que as vezes fazia o senhor reclamar? Com ela eu tenho toda a paciência do mundo. – Isso é um fato. — Nesses dias Janis me disse que quer que eu seja a outra mãe dela. – Não tenho como não continuar sorrindo. – E eu quero tanto, pai, quero tanto ser a outra mãe dela. – Admito o meu querer.

— A princípio eu acho que foi minha curiosidade que me fez aproximar, ou que deixou que ela se aproximasse. Não conseguia não pensar sobre a criança que eu deveria ter, e agora faço associação com uma menina. – Conto. — Eu queria saber o que crianças com idade semelhante pensam, falam, querem. Então eu ficava imaginando como poderia ser. As coisas que eu poderia estar vivendo. – Explico. — Porém agora, não é mais isso. Eu não associo Janis a mais ninguém, a não ser a ela mesma. Ela é única. Eu quero muito ser a outra mãe dela, ajudar a cria-la, educa-la. Eu quero ver essa menina crescer, quero ajudar a torna-la uma mulher espetacular. Meu coração bate apressado quando eu imagino essas coisas. – Faço uma pausa, enquanto tento organizar os pensamentos.

— Infelizmente no meio disso tudo, Cora ainda existe. E eu sei que você sabe que ela não aceitaria esse meu novo romance. Além de não ter onde cair morta, Emma é mulher. – Balanço a cabeça em negativo quando lembro da reunião que tivemos mais cedo. – Hoje ela disse que gostaria de esmagar Emma, como fez com Daniel. Não exatamente nessas palavras, mas disse. Eu fiquei aterrorizada, apavorada. Não sei se meus olhos conseguiram não transparecer o quanto aquilo me afetou. Eu quis sair daquela sala e correr até Las Vegas, só para que certificar se continuava tudo bem com a Srta. Swan e sua filha. – Meu tom de voz sai um tanto aflito.

— Eu não posso perdê-las, pai. Eu não aguentaria mais essa tragédia. Eu não conseguiria carregar mais essa culpa. Os meus ombros já são pesados demais. – Lhe falo. — Existe essa coisa, esse carma, na verdade, essa mulher. Sempre que eu chego muito perto de alguém, esse alguém morre. Foi assim com o meu gato, com o senhor, com Daniel. E ainda teve o aborto. – Reclamo com ele. — Eu temo por Zelena. Temo por Elizabeth. Eu morro de medo por Emma e sua filha. Eu acordo com medo, vou dormir com medo. Eu vivo com medo. – Admito. — Eu aguento qualquer tratamento de choque, qualquer clínica para loucos, juro que aguento, faço sem reclamar, mas mais uma morte... – Balanço a cabeça negativamente. – Isso não acho que seja capaz de aguentar. – Solto com o ar.

— Do que adianta eu ter todo esse dinheiro? Ele não pode me fazer feliz, não pode. Eu falo isso porque já tentei, e acho que só serviu para me deixar mais amargurada, mais magoada. – Essa é a verdade. — Eu daria tudo que tenho para Cora, abriria mão de toda minha herança, daria todos os meus bens, todo o dinheiro, tudo, se em troca ela parasse com isso, com essa doença, essa fixação que tem por mim, pela minha vida. Eu não consigo entender porque diabos ela faz isso. O motivo pelo qual não me deixa em paz. Pelo qual quer me controlar. Não sei nem se existe um motivo, ou se é só ela sendo psicopata. – Divago.

— Enfim, eu sonhei com você, e fiquei com isso na minha cabeça durante todo dia. Conversando com Emma, ela sugeriu que eu tirasse você da geladeira. Então hoje, quase nove anos depois da sua morte, acho que eu vim lhe enterrar. Aceitar. Você não vai voltar. Vir ou não vir até aqui, não vai mudar esse fato. Porém você vai sempre continuar sendo você, e a morte não vai mudar esse outro fato. – Exponho meu pensamento um tanto quanto confuso. — No sonho você disse que eu precisaria ser corajosa, e depois ser forte. – Falo. – Eu não sei o que você quis dizer, mas serviu para me fazer temer ainda mais. Juntando isso, com a reunião que tivemos com Cora, resolvi que além de vir até aqui aceitar sua morte, vim também pedir sua ajuda. – Lhe explico.

— Emma vive me dizendo que Deus existe, já falou sobre acreditar que existe isso de vida após morte ou coisa assim. Então por favor, me ajude. – Não estou pedindo, estou implorando. — Fale com Deus por mim, por favor, faça isso. Peça Ele para me ajudar, pai. Peça que Ele não me tire mais ninguém, diga que eu não posso perder mais ninguém. – Continuo. — Eu sei que não é culpa d’Ele, mas a verdade é que eu tenho medo de abrir a boca e dizer para as pessoas que amo, que eu as amo. Porque sempre que eu faço isso, elas morreram. – Pode ser bobagem? Pode. Mas sim, eu tenho esse medo. Então eu prefiro ser a pessoa insensível, que por não expor o que sente, muitas vezes é vista como fria, do que arriscar.

— Eu nem sei se mereço ajuda, não depois daquele aborto. Não depois de ter concordado com a ideia de Daniel, sobre termos um filho. Foi planejado, acredito que você saiba sobre isso, assim como Deus sabe. – Balanço a cabeça em reprovação, em descrença pelo que fiz. — Que tipo de pessoa merece a ajuda de Deus, depois de planejar um filho e então ir lá e interromper a gravidez? – É o que eu sempre me questiono. — Porém eu sei que todas as pessoas que amo, elas merecem ser ajudadas. Nenhuma delas merece ter a vida interrompida, só porque Cora tem essa fixação, essa coisa por mim. Então peça a Ele, por favor peça a Ele. – Volto a implorar.

— Que esse forte e corajosa do seu sonho, seja para lutar contra a minha mãe, e não para enfrentar outro funeral. Eu sou só alguém errada, quebrada, magoada, querendo ser feliz. Não é pecado querer isso, é? Mas caso eu não mereça, tudo bem, eu entendo e aceito qualquer infelicidade, sendo que, não haja mais nenhuma morte. Por favor, me ajude. – Suspiro e ponho as flores em frente a lápide.

— Eu trouxe lírios, sei que você não gostava muito de amarelo, mas fica bonito e destacado em meio a neve, então não reclame. – Peço. – Zelena se ofereceu para vir junto, mas era algo que eu precisava fazer sozinha. – Lhe falo. – Eu sei que ela vem vê-lo sempre, e que você não precisa que eu lhe fale o quão espetacular ela é, mas mesmo assim, vou falar. Zelena é espetacular, é inteligente, é bem-humorada, linda, e é tão mais forte do que eu. – Esboço um sorriso orgulhoso. — Ela continua cumprindo com a palavra, sobre me brecar em algumas negociações. Isso me irrita tanto as vezes. “Reclame com o papai”. É o que ela sempre me diz. – Rio ao pensar sobre. — Eu não sei, acho que quando pormos um fim nessa história com Cora, ela vai sair do escritório. Ela é tão boa em advogar. Tão boa em defender, ajudar, quem precisa. E isso me lembra tanto você. Você se orgulharia tanto da mulher que ela é. – Conto com orgulho.

— Você sabe que ela é outra vítima da mãe que temos, certo? Se eu me afundei na depressão, Zelena se afundou no álcool. Eu peço desculpas por não ter cuidado dela, como prometi que cuidaria. Mas eu lhe dou a minha palavra que eu vou recupera-la, que vou fazer com que ela se livre do vício, que se recupere dos traumas e que seja feliz. Eu vou voltar a cuidar dela, pai, prometo que vou e eu não vou quebrar essa promessa. – Ao levantar do lugar onde estava, sinto minhas pernas e bunda molhadas. Na verdade, não sinto. Está tudo um tanto quanto dormente. Passo as mãos por elas, limpando qualquer coisa que possa ter grudado. Agora que levantei e que estou molhada, o vento faz com que eu sinta muito, muito frio.

Coldplay — Us Against the World

— Eu tenho que ir. Além de estar anoitecendo, está bastante frio e eu estou consideravelmente molhada da cintura para baixo. Não quero pegar um resfriado, sabemos que minha asma detesta eles, ou seja, eu preciso mesmo ir. – Aponto com o polegar para trás. – Esse lugar continua assustador, você sabia? Espero que você converse com seus amigos fantasmas que perambulam por aqui, e peça a eles para não me assustarem. – Acabo achando graça do meu pedido idiota. Cora nem precisava ouvir tudo que falei, se ouvisse apenas esse pedido, já se convenceria que preciso com urgência, voltar para o lugar dos loucos. – Enfim, novamente, me desculpe ter demorado tanto tempo para vir. E por favor, pai, me ajude a ser corajosa, me ajude a ser forte, me ajude a terminar de uma vez por todas essa história. Eu preciso termina-la, só assim eu vou poder começar a viver. Então por favor, interceda por mim. Amém!

Notas finais
Quem chegou até aqui (hoje estava fácil), tem outro vale capítulo atualizado. Agora tá com vocês manas. Conto com aquele review amigo, tá bem? No mais, boa semana pra vocês. Volto em breve e junto comigo vem a Emma, Janis e a mudança para o frio de Nova York. Beijos e até!