Right Here Waiting For You
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Notas iniciais
Quarenta míseros minutos, quarenta minutos. Eu poderia começar de qualquer jeito, mas nenhum explicaria melhor o mau-humor terrível, que assola meu ser nessa manhã fria, pálida, e sem vida de janeiro. Quarenta minutos foi o tempo que eu consegui dormir. Isso porque eu arredondei, então talvez tenha sido um pouco menos. Foram cinco horas de voo, mais uma hora até chegar em casa, e outra hora que eu perdi com a Srta. Swan no telefone. Tirando isso, ainda existe o fato de o fuso horário de Nova York, estar três horas à frente do de Las Vegas. Enfim, mesmo com todas essas horas perdidas, na teoria eu ainda teria quatro horas para dormir, na teoria.
Desde que meu pai morreu, eu nunca, nunca mesmo, sonhei com ele. Nunca. Até é claro, a última madrugada. Tal sonho me incomodou, me angustiou e de certa forma, me atormentou de um jeito, que foi impossível voltar a dormir depois dele.
Não é nenhum tipo de novidade o medo que tenho das coisas que estão para acontecer. Na verdade, o medo que tenho das consequências de tais coisas. E depois de tal sonho, esse medo conseguiu se tornar ainda mais intenso.
Sabe quando você tem certeza absoluta que algo não vai terminar bem? Eu tenho essa certeza. Para não desistir de tudo, gosto de pensar que a tenho, única e exclusivamente pelo meu medo. Porém no fundo, no fundo eu sei que não é só isso. No fundo eu sei que é a minha intuição gritando, girando as sirenes de alerta, me avisando.
Às vezes eu me sinto exausta, mentalmente exausta. Minha mente e meu coração travam essa batalha exaustiva. Por dentro eu sou um completo caos. Por dentro minha mente me manda parar, enquanto ainda posso fazer isso. E também por dentro meu coração me manda seguir, me manda lutar. Por mim, pela minha irmã, por todos que morreram, por ela. Pela mulher que me salvou de mim mesma, e me fez voltar a vida.
É nessa parte que fica confuso, porque minha mente que também gosta dela, quer que eu pare para protege-la, quer que eu não siga em frente, para protege-la. Enquanto meu coração diz que o melhor jeito de protege-la, é agindo. Ele me manda agir.
Têm dias que eu tenho vontade de bater com a cabeça em algum lugar, até de repente, conseguir parar de pensar. Eu queria parar de pensar. Queria ser capaz de dar esse alivio para minha mente.
Ela me ama. Além de sua boca me verbalizar isso constantemente, seus olhos também me falam, o jeito como ela me sorri, também me fala. Eu não faço ideia do porquê, mas ela me ama. E sempre que ela abre a boca para me dizer tal coisa, meu coração estúpido dispara. E as tais borboletas que provavelmente existem mesmo no estômago dos apaixonados, elas agitam lá dentro. Meu corpo vibra a cada nova declaração. Minha alma se alegra. E a minha mente, ela se sente incapaz de negar essa mulher, seus cuidados, seu amor e seu carinho. Mesmo querendo, é impossível. Eu não posso mais, tornou-se mais forte do que eu.
Tal coisa faz de mim uma egoísta, certo? Não só isso, uma junção de coisas, de fatos. Tinker é um desses fatos. De novo, aconteceu. Eu me apaixonei pela pessoa dela. E tudo bem, eu sei que Emma não sentia nada. Nada que a prendesse nesse relacionamento, quando o acordo entre elas, chegasse ao fim. Porém, Tinker sentia, então eu errei. Mas ao contrário do que aconteceu com Daniel, eu não vi acontecendo. Eu não me encantei à primeira vista. Eu não consegui ver que poderia terminar apaixonada. Juro que não.
Okay, mentiria se falasse que não existiu uma atração física, porém por um tempo eu pensei que fosse só isso, atração física. Eu podia lidar com isso, certo? A Regina bêbada, com certeza não podia, mas a Regina não bêbada, conseguia lidar com tal coisa. Porém a Regina não bêbada não conseguia lidar com todo o resto.
Eu sempre fui muito cobrada, desde criança. Como me portar, como me sentar, como me expressar. O que deveria falar, e o que de jeito algum, deveria. O que eu podia, e o que era expressamente proibido. Depois vieram as cobranças pelas notas, por não ter nada além de A nos meus boletins, pelas atividades extraclasse.
Poucas vezes foi me perguntado: o que você quer? Nunca levei a menor vocação para dança, mesmo assim, fiz anos de aulas de balé. Equitação, eu fiz também. Esgrima, eu também fiz. Golfe, tênis. Aulas de espanhol, francês e até mandarim. Quando enfim alcancei a adolescência, comecei a bater pé e fazer birra, o que levou muitas dessas aulas embora. Então começaram as cobranças pela profissão.
Cora não aceitou nenhuma que não pudesse se encaixar na empresa. Quando meu pai saiu a meu favor, ela o convenceu que mais tarde eu poderia fazer outro curso, mas primeiro, deveria me dedicar a empresa. Sabemos que esse mais tarde nunca existiu. Porém, não reclamo dessa parte, porque se eu tenho uma certeza na vida, é a certeza que eu nasci para fazer isso. Eu não faço por dinheiro, eu faço por amor, por paixão. Acho que esse foi o único fio que restou entre mim e a minha sanidade nesses últimos anos. Foi o que me manteve viva, me deu um certo ânimo para continuar.
Enfim, mesmo depois de bem crescida, muitas coisas continuaram me sendo negadas e muitas outras continuaram sendo impostas. Por muito tempo eu aceitei sem pensar a respeito, o que quase não me fazia reclamar sobre. Então meu pai morreu, minha mãe tornou-se pior do que já era, se autoproclamou dona da vida das filhas e as coisas começaram a desandar.
Não sei o que aconteceu entre Daniel e eu, na verdade, até pouco tempo, eu sabia, ou achava que sabia. Agora meus pensamentos estão mudando um pouco. Às vezes eu acho que ele me manipulava. Zelena tinha me falado isso há muito tempo, eu nunca sequer cogitei pensar sobre a hipótese, até que nesses dias, me peguei pensando. Cora nunca me deu a possibilidade de escolha, nunca. Daniel me dava, mas as escolhas sempre acabavam sendo direcionadas a coisas que ele fazia gosto. Eu gostaria que existisse a possibilidade de falar com ele, para poder perguntar algumas coisas, esclarecer outras, eu não sei. E a verdade é que também não sei se realmente gostaria de saber. Não saber, talvez faça eu não me sentir decepcionada, nem enganada.
Enfim, toda essa divagação para me levar de volta a Srta. Swan. De novo: eu não imaginei que pudesse acontecer. Não mesmo. Além de ser “namorada” da minha amiga, ela era totalmente o avesso de mim, totalmente. Se não fosse por Tinker, nossos mundos nunca teriam colidido. Tirando todas essas coisas, falo com sinceridade, jamais me vi com outra mulher.
Então eu não lidei com a possibilidade de me apaixonar por ela. O dia do parque de diversões, eu fui por pura obrigação, fui para fazer um favor. Mas ao contrário do que eu imaginava, eu me diverti, eu ri, eu brinquei e no final daquilo tudo, quando me dei conta, eu não sabia onde tinha deixado a Regina pesada. Ela não estava mais lá. O mesmo aconteceu naquela noite, no parque de diversões para adultos, seguido do jantar.
Sabe quando você consegue aliviar o peso do mundo que você carrega nas costas? Foi o que aconteceu naquele dia. Que mal tinha naquilo, certo? Se a amizade dela, me fizesse sentir assim por alguns dias, então por que não? Depois eu iria embora, e tudo voltaria ao normal. Era para ser assim. Era.
O que eu não tinha entendido naquele dia, era o porquê daquilo, o porquê de deu me sentir daquele jeito. Hoje eu sei a resposta: Emma foi a primeira pessoa depois do meu pai, que me deixou ser eu. Que não se importou com isso. Que aceitou que eu fosse apenas, eu. Em monto algum ela me disse “faça isso”, “não faça isso”, “seja assim”, “não seja assim”, “isso você pode”, “isso você não pode”. Ela me ajudou a me conhecer, ou me reconhecer. Ela me ajudou a recuperar a Regina. Não a Regina milionária, não a Regina executiva, não a Regina responsável, não a Regina irresponsável. Apenas a Regina, crua.
“Abra seus olhos, sinta-se livre junto comigo”. Foi o que ela me disse quando estávamos naquele brinquedo Kamikaze, onde fui praticamente obrigada a ir. “Abra seus olhos, sinta-se livre junto comigo”. Essa frase me mudou, ou talvez, me despertou. Fez com que eu abrisse mesmo os meus olhos, que durante anos, permaneceram fechados.
Emma foi a primeira pessoa que conseguiu me mostrar, como é ser livre. Que gosto tem a liberdade. E não, eu não estou me referindo ao brinquedo estúpido que quase me matou do coração, ou não apenas a ele. Ser livre é ir a um parque de diversões e se divertir. Ser livre é se achar a praticamente a melhor atiradora de elite, quando você ganha no tiro ao alvo, uma pelúcia gigante. Ser livre é fazer uma criança sorrir. Ser livre é rir na cara do perigo. Ser livre é desafiar o perigo. Ser livre é continuar amando o seu trabalho, mas saber a hora de deixar ele um pouco de lado, apenas para apreciar o jantar, o vinho, a companhia. Ser livre é não ter hora estipulada para jantar, não ter hora estipulada para ir dormir, não ter hora estipulada para ir correr. Ser livre é ir a um cinema drive-in, em plena madrugada. Ser livre é deitar sobre o teto do carro e observar as estrelas. Ser livre é poder faltar a um compromisso. Ser livre é poder ir onde você quer ir, estar com quem você quer estar. Ser livre é conseguir respirar, conseguir se sentir feliz, conseguir suportar a dor e seguir, mesmo depois de todas as cicatrizes, depois das várias feridas expostas, que a vida te fez.
Foi sendo livre que eu me apaixonei por ela. Foi sendo quem eu sou, quem eu sou de verdade. Foi deixando todas as regras, todas as etiquetas, todos os não poderes de lado. Emma me mostrou como é ser livre. Sem expectativas, sem cobranças, apenas livre. Sendo livre, eu me apaixonei e hoje eu tenho certeza que não, não teria como não me apaixonar, tampouco teria como nega-la. Pouco me importa a profissão que ela teve. Pouco me importa ela ser mulher. Pouco me importa ela ser lá de Marte e eu ser de Vênus. Pouco me importa. Tudo que eu quero pelo resto da minha vida é abrir os olhos e sentir-me livre junto com ela. Por isso mesmo com medo, mesmo meu eu estando em guerra, mesmo temendo ficar louca, eu me recuso a desistir.
Gosto de pensar que um dia, esses míseros quarenta minutos dormidos, e todas as horas não dormidas, valerão a pena. Preciso pensar nisso, me apegar a isso. Não tenho onde me agarrar, a não ser a coisas que ainda nem aconteceram. Aos planos para o futuro. As coisas que eu quero, as coisas que Emma quer, as coisas que Zelena quer. É o que me faz seguir, planos para um futuro.
Ter o meu futuro ameaçado pelo sonho que tive com meu pai, me faz temer ainda mais, torna meu mau-humor um pouco pior, faz eu ter vontade de sair correndo, de me esconder. Como eu disse, eu só queria não pensar. Tenho vontade de puxar os cabelos, mas nesse exato momento, se eu fazer isso, vou acabar chamando a atenção de todas as pessoas que circulam por aqui, então respiro fundo, e tento parecer uma pessoa normal. Uma pessoa milionária, feliz, que pode ter tudo que quer e que não tem nenhum tipo de problema. Enquanto por dentro tudo desmorona e eu tento me segurar em algum lugar, por fora eu faço de conta que está tudo bem, tudo normal. Por fora eu tento demonstrar que o furacão Emma Swan, não bagunçou a minha vida, ao passar por ela.
Por fora também tento não demonstrar muita irritação com os elevadores, que provavelmente para me irritar, tirar de mim o pouco da paciência que tenho para o dia de hoje, resolveram fazer greve, parar em algum lugar, subir e descer, mas não chegar ao térreo.
— Bom dia, flor do dia! – Sou surpreendida e tirada dos meus devaneios por Zelena, que além de me chamar de flor do dia, beija meu rosto e sorri para mim, como se de repente, estivéssemos em um lindo dia de verão, saindo para férias e não no frio intenso que anda fazendo nessa cidade, prestes a encontrar com nossa amável mãe para bater boca com a infeliz, entre outras coisas.
— O que ele tem de bom? – Questiono em um tom ríspido, tom de alguém que não está com vontade alguma de conversar. – Está um frio de congelar. Está nevando. São 09:00hrs da manhã. E nós estamos prestes a encontrar com nossa amável mãe. – Reclamo. — Então de novo, o que ele tem de bom? – Preciso descontar minha noite mal dormida e meus medos, em alguém, e no momento, esse alguém é Zelena.
— Ihh, acordou azeda! – Faz careta para mim. — Para você, eu não sei, cara irmã, mas para mim, começou muitíssimo bem, e nem nossa mãe, ou o frio, ou a neve, ou o horário, vão me fazer achar o contrário, obrigada! – Ah é, meu mau humor não a abala. Não a faz perceber que eu não estou para conversas. Não nada. Tais coisas servem para me irritar e aborrecer ainda mais. Enquanto eu, que gostaria muito, muito, de ter dormido pelo menos por uma hora, não consegui por motivos de ansiedade e medo do futuro. Zelena, que poderia ter dormido, não fez tal coisa por motivo de sexo. Seu ótimo humor, suas olheiras, o sorrisinho bobo na cara e o comentário sobre o sexo que faria, junto com seu segurança estúpido lhe esperando ao lado do elevador na noite de ontem, deixam bem claro tal coisa. – O que você queria hora daquela da madrugada? – Gruda em meu braço, afim de tentar se aquecer, ou nos aquecer. Bom, eu queria alguém para contar sobre meu sonho, para me fazer esquecer, para me convencer que ficaria tudo bem, mas Zelena atendeu o telefone quase gemendo, o que me fez encerrar a ligação no mesmo segundo.
— Nada. – Ao me chamar de flor do dia, e falar sobre como essa manhã infernal, está maravilhosa, ela conseguiu me deixar mais mal-humorada, ou seja, não quero conversar.
— Mas todo esse mau-humor já é abstinência da mozão? – Sua pergunta impertinente me faz inspirar profundamente, e soltar o ar lentamente. Não preciso abrir a boca para responde-la, aposto que o olhar nada amigável que lhe dou, reponde por mim. – Pode admitir, não é feio sentir saudades. – Respire, Regina, continue respirando fundo. Provavelmente sua irmã não está lhe provocando, apenas achando que é isso mesmo, e você é muito culpada por tal achar. Você quem se tornou essa coisa... essa coisa... brega. Cheia de sentimentos. Essa coisa que fica cheia de bom-humor, quando está perto da mulher que você deu título de amante. Então respire, e aguente. Você merece, e você sabe disso.
— Todo esse mau-humor se chama sono, Zelena, sono. Você sabe o que é isso? Você sabe a quantas noites eu não durmo direito? – Esbravejo com ela. Para não correr o risco de estapeá-la até tirar o sorrisinho idiota que carrega, resolvo descontar minha raiva e frustração, no botão do elevador. – Qual o problema dessa porcaria hoje? – Reclamo enquanto continuo apertando. – Vários, vários elevadores, e nenhum deles, chega ao térreo. – Reclamo. – E todas essas pessoas estúpidas? – Aponto para os turistas que já chegam cedo por aqui. – Por que diabos eles não vão fazer bonecos de neve lá fora, congelar, tirar foto dos taxis, sei lá... qualquer coisa que os deixe longe, e não os façam trancar os elevadores do meu local de trabalho? – Continuo esbravejando.
— Irmã, você sabe assim como eu, que os elevadores dos turistas, fica ali do outro lado da catraca, ou seja, a culpa não é deles. Então pare de latir contra os mesmos, está chamando atenção. – Zelena quase sussurra, enquanto sorri gentilmente em direção ao grupo de infelizes e acena simpaticamente. – São 102 andares, Regina, você sabe que as vezes demora um pouquinho. – Até os elevadores está defendendo, ao invés de ficar do meu lado. De me falar que sim, eu tenho razão em reclamar pela demora. – E quanto as noites, bom, eu estive com vocês nos últimos dias, e em nenhum deles, seu humor, ou falta dele, estava sequer parecido. E sabemos que você mal dormiu... – Finaliza cantarolando a última frase.
— O que você quer para me deixar em paz? – Volto ao tom ríspido e tento controlar ao máximo, minha vontade de gritar. Já Zelena, me dá de ombros.
— O que eu quero, você não pode me dar. – O jeito como fala tal coisa, deixa bem claro o que ela quer. Oh, Deus! Não tinha outro dia, ou melhor, outra madrugada para Zelena ter passado transando? Tinha mesmo que ter antecedido ao infernal dia de hoje?
— Poupe-me! – Solto com o ar.
— Você fica tantas vezes irritadinha ao dia, que não demora muito, vai ter que recorrer a cirurgias plásticas ou Botox, para se livrar das linhas de expressões que o seu estresse gratuito, faz com que se formem diversas vezes ao dia. – Zelena quer mesmo testar até onde vai a minha paciência. Desde quando meu rosto tem marcas de linhas de expressão? Isso mesmo, ele não tem. Quando tal coisa vier a acontecer, espero que seja para estampar a frase: não me irrite! E não, eu não vou recorrer a nada para tirar tal marca de expressão. – Desfranze esse cenho agora! – Me ordena.
— Vá para o inferno, Zelena! – Minha voz quase berrada, volta a chamar atenção das pessoas. Tenho vontade de gritar para que elas façam a mesma coisa. Tiro o braço da minha insuportável irmã do meu e me afasto.
Resolvo que vou esperar outro elevador, outro longe dela. A ouço resmungando alguma coisa enquanto me afasto. Alguma coisa essa que para o bem da minha paciência ou do que resta dela, resolvo não prestar atenção, para não entender.
Paro em frente ao novo elevador escolhido, e mesmo que ele já tenha sido chamado para descer, meus dedos batem algumas vezes ali também. Gosto de descontar a raiva em alguma coisa. Como não tenho um celular no momento, meu alvo é esse botão. É uma pena que não exista a opção de atira-lo contra alguma coisa.
Como, como eu vou sobreviver a esse dia sem gritar, ou atirar alguma coisa em alguém? Como? Como deixar o pessoal de lado e ser profissional, quando o sono, junto com o sonho que tive, ficam me atormentando? Onde buscar paciência suficiente para a reunião que me aguarda? Para enfrentar Cora sem surtar? Não é fácil ser eu, não é mesmo.
Pelo canto do olho, espio a irritante da minha irmã se aproximando, porém, dessa vez, parece que o universo conspira a meu favor, e faz com que o elevador finalmente chegue ao térreo. Espero a meio dúzia de pessoas lerdas e felizes saírem do mesmo e entro. Digito rapidamente o andar do escritório e aperto o botão para que a porta feche rapidamente. Infelizmente, mais rapidamente que a porta, é a mão de Zelena, que impede tal fechamento. Antes que eu consiga esbravejar, latir contra ela, gritar, gritar muito, seu celular se faz visível ao meu campo de visão. Swan, é tudo que meus olhos capturam.
— Alguém com uma voz arrastada de sono, quer lhe desejar bom dia! – A irritante me fala, enquanto com um sorriso ainda mais irritante, me sorri. Não falo nada, só estendo a mão para pegar o celular, enquanto meus olhos se mantêm fixos no sobrenome exposto na tela, porém Zelena não deixa que eu faça.
— Pelas escadas, irmã. – Aponta em direção a porta que dá acesso as mesmas. – Primeiro, meu telefone não funciona direito dentro dessa caixa de metal. Segundo, você não vai ter nenhum tipo de privacidade para um dialogo dentro do elevador. Terceiro, você precisa se acalmar, antes de enfrentar a mamãe. – Faz toda uma explicação desnecessária.
— São mais de vinte andares. – Ela não quer mesmo que eu suba todas essas escadas, não pode querer. Enquanto ela transava, eu estava na academia, correndo, suando, tentando espairecer. Não preciso mesmo dessas escadas.
Minha mão de novo tenta lhe tirar o telefone, de novo sou impedida.
— Fique com o elevador então, eu fico com a minha sexóloga, preciso contar algumas coisas para ela. – Depois de falar tal coisa, me dá um sorriso, me dá também as costas e se vai. Eu vou matar ela, juro que vou. Zelena não sobreviverá ao dia de hoje.
Contrariada, possessa, pensando em como matá-la Zelena, eu balanço a cabeça negativamente, praguejo algumas muitas coisas, e antes que o elevador consiga mais uma vez fechar, minha mão o impede.
Marcho em passos largos atrás da minha irmã petulante, passo por ela e então paro em sua frente.
— Me dê! – Exijo ao estender a mão, enquanto meus olhos a fuzilam, ameaçam.
— Olha, não é que ela desistiu do elevador e optou por você? – Fala com a Srta. Swan, enquanto seus olhos me provocam. Ri de alguma idiotice que Emma provavelmente lhe fala. – Vou passar para ela, mais tarde eu lhe mando umas mensagens para contar sobre a madrugada, Okay? – Agora elas são melhores amigas. Melhores amigas com dicas sexuais. Rolo os olhos enquanto espero minha vez de quem sabe falar com a Srta. Swan, já que o sexo de Zelena parece um tópico mais importante. – Okay, eu mando. – Não sei o que exatamente vai mandar, pelo jeito como vai amizade, talvez mande um nude, ou um vídeo do sexo. – Okay. – Agora concorda com a cabeça. – Vou passar para o leão, beijos e boa sorte! – Depois de despedir-se da melhor amiga e desejar-lhe sorte, finalmente resolve me estende o celular. – Se você atirá-lo contra qualquer coisa, juro que vou arrebentar essa sua cara. – Ameaça ao solta-lo para que eu pegue.
A ignoro, abro a porta das escadas, e entro, sem esperar que a irritante faça o mesmo.
— Oi! – Sei que minha saudação sai seca, sem emoção, sem paciência, mas é o que temos para agora.
— Hey, babe! – Sua voz arrastada e bastante rouca de quem acabou de acordar, me saúda e me faz rolar os olhos. – Como você está? – Agora ela está bocejando.
— Não me chame de babe! – Esbravejo com ela e a ouço rir.
— Bom dia, Elsa! Como está o tempo aí em Nova York? Você só está fazendo nevar, ou seu coração de gelo já congelou a cidade toda? – Não se abala com minha irritação, muito pelo contrário, resolve tirar com a minha cara. — Let it go, let it go, can't hold it back anymore. Let it go, let it go, turn away and slam the door... – Sua voz falha e sonolenta, cantarola a musiquinha idiota de Frozen e me faz bufar e de novo rolar os olhos.
— Se eu pudesse congelar alguma coisa, Srta. Swan, eu congelaria suas idiotices. – Minha voz continua ríspida. A risada que me dá, me faz concluir que minha irritação não está a abalando.
— É uma pena você estar longe, Regina Irritada. Pensar no sexo que poderíamos estar fazendo para acalma-la, me faz pulsar. – É a resposta cretina que me dá.
— Se você tentasse estapear a minha cara hoje, Srta. Swan, eu esfolaria a sua. – Minha ameaça a faz rir alto.
— Sabemos que isso é uma inverdade. – Fala cheia de sim. E para não ter que de repente concordar, resolvo mudar de assunto.
— Você não deveria estar dormindo? – Questiono. – Se não houve mudança no fuso horário de ontem para hoje, passa um pouco das 06:00hrs em Las Vegas.
— Eu estava, mas Zelena ligou, pedindo minha ajuda. E de qualquer forma, já estava quase na hora de eu acordar. – Esclarece. Por alguns segundos, sua voz preguiçosa e tranquila, me faz esquecer minha irritação e suspirar, enquanto desejo estar do outro lado do país. – O que você tem? – Quer saber.
— Nada. – Repondo o que respondi para minha irmã insistente. – Praticamente não dormi, o que me deixou de mau-humor. – Explico.
— E quase não dormiu por quê? Você estava caindo de sono. Acho que até chegou a dar algumas cochiladas enquanto estávamos ao telefone. – Provavelmente tal coisa aconteceu mesmo. Eu estava muito, muito, querendo e precisando dormir, porém também não conseguia, ou não queria desligar para fazer tal coisa.
— Tive uma espécie de pesadelo, ou foi um sonho... – Continuo confusa sobre. – Enfim, depois disso não consegui mais dormir.
— Conte-me sobre. – Pede, a voz continua sonolenta e rouca. Sou capaz de apostar que está de olhos fechados, escondida até o topo da cabeça debaixo das cobertas.
— Sonhei que estava em meu quarto dormindo e que ao sentir a presença de alguém, acabei acordando. Ao abrir os olhos, meu pai estava sentado ao pé da cama, me assistindo. Ele sorriu para mim, me disse que eu precisaria ser corajosa, e depois iria precisar ser forte. Então ele voltou a me sorrir, afagou minhas pernas e eu acordei de verdade. – Conto meu longo sonho.
— Você sonhou com papai? – Constato que a porta que tentei fechar na cara de Zelena, não causou efeito desejado, por isso ela já está atrás de mim, e pior, de ouvidos na minha conversa. Não resolve nem disfarçar, ao me questionar tal coisa. Por alguns segundos, desisto da minha subida, me volto para ela e estendo o braço, pedindo que ela vá na frente.
— Você me prometeu privacidade nas escadas. – Resmungo com ela. – Então me deixe sozinha. – Peço.
— Mas... – Tenta começar, porém não deixo.
— Sem mas. – Ordeno. – Eu quero a privacidade prometida. – Minha exigência a faz rolar os olhos.
— Você vai me contar sobre esse sonho depois? – Pede.
— Você já ouviu, mas se você me der privacidade, quando meu bom-humor voltar, posso pensar a respeito. – Prometo. Resmunga um “Okay” e reclama sobre meu mau-humor, então passa a minha frente, e resolve acelerar sua subida.
— Srta. Swan? – Chamo. Penso que talvez tenha voltado a dormir.
— Estou aqui. – Responde. – Seu sonho arrepiou até os meus pentelhos depilados. – Ao ouvir tal comentário, balanço a cabeça negativamente. Os comentários totalmente inesperados que saem dessa boca, continuam me surpreendendo e muitas vezes, me deixando sem acreditar no que ouvi.
— Isso que eu chamo de comentário pertinente. – Minha indignação a faz rir.
— Me desculpe. – Pede. – Você me falou que ontem no avião, você e Zelena falaram sobre seu pai. Provavelmente isso ficou no seu subconsciente e você acabou sonhando com ele. – Compartilha seu pensamento. Algo que eu também já pensei. Provavelmente foi o que realmente aconteceu. O problema é o pequeno resquício irritante de incerteza, que está me tirando a paz. Paz essa que eu já nem tenho.
— É. Provavelmente foi isso. – Concordo ainda sem muita certeza.
— Se provavelmente foi isso, porque seu tom de voz me diz que não é exatamente isso que você está pensando? – Questiona em tom investigativo.
— Porque minha mente atormentada fica insistindo em me dizer que talvez tenha sido um aviso, um presságio, algo assim. – Claro que eu não admitiria tal coisa para ninguém, só que Emma não se encaixa nesse ninguém. Ela tem uma coisa, algo irritante, que simplesmente sabe. Sabe quando algo me incomoda. Chegamos a um ponto que ela não precisa nem me ver, basta estar me ouvindo.
— Se realmente fosse isso, você não acha que ele teria sido mais claro? – Põe a dúvida na minha cabeça. – Se fosse um aviso, eu acho que ele teria alertado você. Acho que ele teria sido mais específico. – Opina. – Ele não faria toda uma viagem do céu até a terra, para ser assim tão econômico nas palavras. – Claro que ela tinha que terminar com uma idiotice, para me fazer rolar os olhos e me arrancar um sorrisinho.
— Estava fazendo sentido, até você chegar na última frase. – Ela ri.
— Sabemos que a última frase foi só para descontrair. – Me fala. – Você tem saudades dele, Srta. Mills, juntado isso com a conversa que você teve com Zelena, fez você sonhar. – Sua voz calma, preguiçosa, e cheia de certeza, está quase me convencendo sobre. – Por que você não vai até o cemitério e faz uma visita a ele? – Me sugere. Suspiro ao pensar a respeito.
— Eu não sei... Eu nunca fui até lá. – Conto. – Depois do sepultamento, não voltei mais lá.
— Entendo. Talvez esteja na hora de você ir. Já faz algum tempo, você não acha?
— Não sei se estou preparada. – Essa é a verdade.
— Do que você tem medo? – Quer saber.
— De constatar que ele está morto, mesmo eu sabendo que está. – Confuso, mas é isso.
— Eu acho... – Faz uma pausa para bocejar. – Eu acho que isso não muda o fato de quem ele é e continua sendo para você. As lembranças, os ensinamentos, os cuidados, o carinho, o amor, tudo isso permaneceu. Nada disso está morto. Você só não pode mais vê-lo, mas a essência dele, o que ele significa para você, ainda vive. – Opina. – Seu pai era seu melhor amigo, Regina. Talvez esteja na hora de tira-lo da geladeira. Não acredito que ele vá lhe fazer mal. – Suspiro enquanto penso sobre. Não sei como ela, consegue, mas ela simplesmente consegue. Consegue me acalmar, consegue me desacelerar, consegue melhorar meu humor, consegue desanuviar, me fazer pensar.
— O que eu faço com você, hein?
— Bom, já que você está me perguntando, eu voto na opção de casar e ter filhos. – Sua resposta me faz sorrir.
— Me parece justo, Srta. Swan, me parece justo. – Minha voz sai cansada, pelas muitas escadas que já subi. Faço uma pausa na subida, para que possa tirar o casaco. Além de deixar minha voz cansada, as muitas escadas serviram para me aquecer.
— É muitíssimo justo. Injusta é toda essa saudade que eu já estou sentindo. – Reclama. – Eu já sinto tanto sua falta.
— Eu também sinto a sua. – Penduro o casaco no braço e retomo a caminhada.
Faz silêncio. Provavelmente está triste, ou chateada pela distância. Por todos esses dias que passaremos sem nos ver. Por todos os medos que mesmo ela não admitindo, eu sei que tem. Como não sei exatamente o que dizer para conforta-la, resolvo mudar de assunto.
— E a sua mãe, como passou a noite? – A primeira resposta que me dá, é um longo suspiro.
— Com dor. – Parece que falar sobre saudade, a deixou um pouco tristonha. – Teve febre de madrugada, mas de jeito algum, me deixou leva-la até o hospital. – Reclama. – A mediquei e fiquei um tempo com ela, até a febre baixar. – Conta. – Ela e Anna ficaram no meu quarto, com a cama. Janis está no colchão de ar na sala. Para mim sobrou o sofá. Minhas costas já estão reclamando. – Se lamenta. – Saudades da sua cama quase sem fim, e dos seus travesseiros de plumas de ganso. Suas mordomias são tão boas as vezes. – A frase final soou como um pensamento alto.
— Minhas mordomias estão todas aqui, com saudades, esperando por você.
— O que eu quero mesmo, é a dona delas. Se eu estiver com a dona, aceito até dormir no chão seco e sem travesseiro. – Suas palavras bregas, agitam minhas borboletas.
— Okay, você dorme no chão e eu fico com a cama então. Graças a Deus vai sobrar espaço para mim. – Ela ri.
— Você é tão, mas tão romântica, Srta. Mills. – Debocha.
— Não tenho culpa se você passou para o lado brega da força, Srta. Swan. – Provoco.
— Você tem sim, tem muita culpa. Eu olho para você, ou falo com você e essas coisas simplesmente criam vida própria e saem da minha boca. – Explica.
— Tenho percebido. Talvez seja esse o efeito que causo nas mulheres. — Faço pensar sobre, o que a faz gargalhar.
— Srta. Mills! Você ainda nem se formou uma sapatão, e já está falando esse tipo de coisa? – Se faz de indignada. – Quando estiver formada, vou ter que tomar cuidado e ficar de olho em você. – Sua preocupação me faz rir.
— Não é algo com o qual você precise se preocupar, Srta. Swan. Eu falei que talvez seja o efeito que eu cause nas mulheres, não ao contrário. A única mulher que causa efeito em mim, muitos efeitos, é você mesma. – Agora ela suspira. Um dos seus suspiros bobinhos.
— Alguém foi bem brega agora, obrigada aos envolvidos. – De novo me faz rir. – Queria tanto estar aí... – Parece que voltaremos ao assunto saudades. – Assistindo você, abraçando, beijando. Queria estar junto. – Quando fala assim, ou quando me pede para não ir, ou quando me olha com olhos pidões, sinto meu peito apertar. Gostaria muito, muito, muito mesmo de fazer essas suas vontades, mas esbarro no não poder. Isso me deixa de mãos atadas, sem saber exatamente como proceder.
— Você quer usar minhas milhas e vir? Ou eu posso fretar um voo. – Ofereço e sugiro. Ela suspira, faz silêncio, volta a suspirar.
— Quero, claro que eu quero. Usufruiria dessa parte do monte de dinheiro que você tem, sem reclamar, mas sabemos que eu não posso. – Se lamenta. – Primeiro, eu tenho minha mãe, que está impossibilitada de se mexer. Então eu tenho Anna também. Tenho Janis. Tenho aulas. Tenho um trabalho. Mesmo que eu não tivesse nada disso, você tem sua mãe. Aposto que ela não deixaria passar, essas minhas visitas frequentes. – Bom, se a Srta. Swan, que é a parte coração da nossa relação, está dizendo isso. Eu que sou a parte razão, apensar de ficar chateada com toda a distância e tudo que ela nos traz, concordo com tudo que foi dito.
— Vamos tentar pensar e nos convencer que não faltam muitos dias. – É a sugestão que dou.
— Mas nós sabemos que isso não é verdade. – Reclama. – E também tem o fato de não sabermos quando vamos realmente ter um momento só nosso. – Expõe seu medo. – Quando você vai conseguir escapar, para nos vermos. – Continua.
— No dia que você chegar. – Prometo. – Não exatamente durante o dia, mas a noite. Nós vamos ter esse momento só nosso. – Não faço ideia de como vou fazer para que aconteça, mas vou. Não é apenas um desejo, uma necessidade dela, é minha vontade também.
— Você vai passar a noite? – Pede.
— Vou. – Volto a prometer.
— Obrigada por isso! Me sinto um pouco menos aflita. – Me faz sorrir.
— Agora que você deveria se sentir aflita. – Advirto. – Depois de passar todos esses dias sem você, você vai ter um fogo alto para aparar, Srta. Swan. – Meu aviso a faz rir.
— Eu gosto desse fogo, gosto muito. Gosto de me queimar nele, até extingui-lo. – É o que me fala. – Vá preparada para não dormir, Srta. Mills, porque eu irei preparada para o mesmo. –Sua voz sugestiva faz meu sexo pulsar. Ah Deus! Essa mulher me tornou um ser sedento por sexo. Quanto mais ela me dá, mais eu quero. Quanto mais ela se afunda, mas desejo que ela continue e continue e continue. Eu não sei o que aconteceu comigo, como eu me tornei essa pessoa, mas a verdade, é que quero que continue desse jeito.
— Okay. Estarei preparada para o evento. – Prometo. – Agora antes que essa conversa, faça com que fiquemos apenas na vontade, eu vou encerrar a ligação. Incontáveis degraus depois, cheguei finalmente ao meu destino. – Conto. – Estou parada em frente a porta do meu andar.
— Nós temos que ensaiar conversas com esse teor, Srta. Mills. Vai ser desse jeito, que vamos aliviar nossas vontades durante esses dias. – Não é um aviso, é uma sugestão. Parece que não é só literalmente na cama, que ela quer mandar, mas sim em tudo que envolva sexo, mesmo que a distância. – Mas agora eu serei uma boa amante e me comportarei, sei que você tem uma Cora Mills pela frente. – Finaliza o pensamento sobre.
— Agradeço a compreensão, Srta. Swan. – Debocho e ela ri. – Mas sim, eu preciso entrar. Se ainda não chegou, ela já deve estar chegando. – Lamento sobre. – Nos falamos a noite?
— Claro que nos falamos a noite. Você prometeu, não só para mim, como para Janis também. – Sua espécie de cobrança, me faz sorrir.
— Você sabe que eu cumpro com minhas promessas, então eu ligarei. – Falo.
— Não espero nada menos de você. – Sua provocação me faz rolar os olhos.
— Tenha um bom dia, Srta. Swan! – Desejo.
— Um bom dia para você, Srta. Mills! Até de noite. Amo você! Beijos! – Não espera uma resposta, apenas desliga. A declaração que fez, me faz suspirar, e meu corpo reagir. Sorrio simpaticamente para o celular de Zelena, então o jogo para minha bolsa. Respiro fundo algumas vezes, arrumo os cabelos, a postura e abro a porta que dá acesso ao escritório.
Caminho em passos largos, firmes, decididos. Cabeça levantada, olhos atentos em tudo e todos ao meu redor. Minha presença chama atenção, traz um certo nervosismo, isso acontece desde quase sempre acho. Não sei exatamente porque, ou sei, mas enfim, essa sou eu, nunca soube ser simpática ou muito cuidadosa com as palavras, o que sempre amedrontou as pessoas.
Bom, como meu humor deu uma boa melhorada, desejo bom dia a quem encontro pelo caminho. Se tal coisa causa estranheza até em mim, deixa meus funcionários um pouco pior. A verdade é que eles não sabem como reagir a isso. Então alguns olham ao redor, provavelmente achando que estou falando com outro alguém. Outros olham surpresos, outros assustados, e outros meio que gaguejam.
Acho graça de tal coisa, o que me faz sorrir e bom, e se desejar bom dia, já causa estranheza a eles, tudo piora quando eles me veem sorrindo.
— Bom dia, Srta. Lucas! – Ainda estou sorrindo quando chego a sala de espera da minha sala, onde fica a mesa da minha secretária. Devido a todas as escadas que subi, minha voz ainda está um tanto ofegante.
— Bom dia, Srta. Mills. – Me dá um sorrisinho nervoso. – Seu café. – Me estende o copo do mesmo, vejo sua mão um pouco tremula. – Preto, extraforte, sem açúcar. – Todos os dias temos exatamente esse mesmo “diálogo”.
— Obrigada! – Faço o que também raramente costumo fazer, agradeço. Sendo ela uma de minhas funcionárias, também tem dificuldades para lidar com isso. – Como está a agenda para hoje? – Como ela é uma mulher esperta, e visivelmente tem bastante medo de mim, já estava com a agenda aberta, esperando minha chegada.
— As 10:00hrs tem a reunião com o pessoal de publicidade e propaganda, sobre a campanha para reservas diretas. – Concordo com a cabeça. – As 11:00hrs o pessoal do marketing vai juntar-se a vocês, para debaterem sobre as suítes 100% veganas. – Volto a concordar. – Meio dia tem sua hora de almoço. Seu noivo ligou, pedindo para que eu agendasse o almoço com ele. – De novo concordo. – E disse que não está conseguindo ligar no seu celular, pediu que a Srta. retornasse à ligação. – Se antes de Emma, eu já quase não lembrava que tinha um noivo, agora com Emma, eu esqueci completamente.
— Prossiga. – Peço.
— As 14:00hrs tem a reunião com Zelena e os outros diretores, sobre os prejuízos que o hotel na Venezuela, vem trazendo. – Respiro fundo ao ouvir tal coisa.
— Nós precisamos vender esse hotel. Aquele ditador maluco está afundando o país, e consequentemente o hotel está indo junto. Quantas vezes vou precisar falar sobre isso? – Em voz alta eu esbravejo o meu pensamento.
— Hã... eu não sei? – Ao me responder tal coisa, me faz concluir que acha que estou debatendo com ela.
— Mais o quê? – Indago.
— Bom, na pauta dessa reunião, vocês também debaterão sobre como e quando será comemorado os 30 anos da rede. As promoções e campanhas publicitárias que farão a respeito. – Sabe o que existe de mais estressante em ser a CEO de uma empresa de grande porte? Eles põem você em todos os tipos de reuniões. Pouco me importo em como e quando será comemorado, é só me dizer quando e onde, que estarei lá, mas não, por algum motivo que já tentaram me explicar e eu fiz questão de nem ouvir, eu tenho que estar presente. Sorrir, acenar e opinar. Isso me traz dinheiro? Não, não traz. Muito pelo contrário, me traz gastos. Então não, não me chamem para esse tipo de reunião.
— Algo mais? – Nega.
— Pediram para reservar a tarde toda para essa última reunião. – Solto um suspiro frustrado. Paciência, Regina, paciência. Nem tudo são só negócios. Depois desses trinta anos, você faz um negócio bem grande, e difícil, só para relaxar. Você vai merecer isso, sabe que sim.
— Continue. – Solto com o ar.
— Seu celular, Srta. Mills, muitas pessoas então tentando ligar no seu celular e não estão conseguindo. Ninguém quis deixar recado, só pediram para retornar. Eu deixei a lista com os nomes sobre sua mesa. – Balanço a cabeça concordando.
— Ainda tem mais isso. – Me lamento. – O que mais?
— Por enquanto, é só isso. – “Só”, ela tem a infelicidade de usar o “só”, como se fosse só mesmo. Como se eu não fosse perder meu dia, meu tempo, minha paciência, com tudo que tenho para fazer no dia de hoje. Penso em debater sobre esse só, na verdade, esbravejar seria a palavra. Mas resolvo não ser Elsa com ela também. Sei que não merece e sei que só vou assusta-la, o que vai fazer com que ela faça algo de errado. É o que sempre acontece, quando desconto algo nela.
— Okay, pronta para as anotações? – Rapidamente pega sua caneta, outra agenda já aberta e afirma com a cabeça.
— Mude a reunião das 10:00hrs para as 11:00hrs e a das 11:00hrs para o meio dia. – Peço. – Vou entrar em uma reunião com a minha mãe e provavelmente vai se estender um pouco. – Fora que depois de tal reunião, tenho certeza que vou precisar espairecer. – Reserve uma mesa no Eleven Madison Park, para as 20:00hrs. Depois ligue para Robin, cancele o almoço e fale sobre o jantar... – Antes que possa continuar, ela resolve me interromper.
— E se as reservas já estiverem esgotadas? – Sabe quando alguém questiona você com medo? Essa é a Srta. Lucas. Ela sempre faz isso, sempre. O que as vezes me faz achar graça, e outras vezes me irrita.
— Eu sei que você vai dar um jeito. – É a resposta simpática que lhe dou. Não fala nada, apenas me dá um sorrisinho também nervoso enquanto assente. Tenho certeza em que momentos assim, quando lhe peço o “impossível”, ela me xinga muito mentalmente. — Quero um buquê de lírios amarelos para o final da tarde. Impecáveis, por favor. – Continuo. – E um celular, eu preciso de um celular, já para o começo da manhã.
— Que tipo de celular, Srta. Mills? – Indaga enquanto termina suas anotações.
— O melhor. – É a resposta que lhe dou. Levanta a cabeça, e arrisca olhar para mim.
— O melhor de qual marca? – Tenta de novo.
— Qual a melhor marca existente? – É só um celular, e eu quero o melhor. Me pergunto por que estou sendo questionada sobre?
— As pessoas mais jovem, acham que é o IPhone, da Apple. – Começa. – As não tão jovens, costumam dar preferência para os Galaxys, da Samsung. – Bom, pelo que parece, temos aqui uma conhecedora de celulares. Se nada der certo na empresa, posso lhe fazer uma carta de recomendação para alguma loja de celulares.
Apoio minhas mãos sobre a mesa e lhe arqueio uma sobrancelha, meu ato parece assusta-la, o que a faz jogar o corpo um pouco para trás.
— Eu tenho cara de jovem, ou não tão jovem, Srta. Lucas? – Minha pergunta a faz engolir em seco. Seus olhos não conseguem se manter nos meus, eles fogem. Seus dedos circulam inconscientemente a página da agenda. Toda a situação, todo seu nervosismo, me deixam com vontade de rir.
Eu não estou sendo brava, não estou mesmo. Acho que nem de mau-humor, estou mais. Estou tentando ser simpática desde o momento que cheguei, mas mesmo assim, todos continuam com medo de mim. Como se eu fosse mesmo o diabo.
Ao pensar sobre, algo acaba parando na minha cabeça. Se todos temem a mim, o que pensam sobre a minha mãe? Como eles conseguem “conversar” com ela? Será que alguma empresa de fraldas descartáveis patrocina nossos funcionários e eu não sei? Porque provavelmente eles devem urinar nas calças, quando precisam se dirigir a Cora.
Eu não sou tão ruim assim. Okay, algumas vezes já descontei minha raiva em quem não merecia, em quem não tinha nada a ver com assunto. Sim, já aconteceu. Foram raras as vezes, mas aconteceu. Tirando essas vezes, eu nunca fui de ser muito simpática, mas também não destratei. Enfim, um dia pretendo descobrir porque me temem tanto. Se for por algo que eu seja culpada, talvez eu pense em me retratar.
— De... de... de... – Não consigo aguentar, acabo mesmo rindo ao ouvi-la gaguejar. Bom, se ela já estava assustada, minha risada serviu para deixar tudo pior. Talvez ela esteja prestes a levantar daqui e sair correndo.
Lhe balanço a cabeça negativamente.
— Respire, Srta. Lucas. – Peço. Ela assente e faz. – Tudo bem? – Afirma com a cabeça.
— De jovem. A srta. tem cara de jovem. – Responde enfim. Tal resposta me deixa satisfeita.
— Então me compre o IPhone. O melhor IPhone. – Concorda com a cabeça. – Na verdade... – Acabo lembrando de Emma e do seu aparente amor pelos IPhones. – Compre dois. Um você manda embrulhar para presente. – Volta a concordar com a cabeça.
— De que cor, Srta. Mills? – Agora eu lhe rolo os olhos.
— Eu sou uma jovem que gosta de preto, Srta. Lucas, apenas preto. – Não sei se minha resposta a deixa mais nervosa do que já está, ou se a envergonha. Talvez seja as duas coisas.
— Mais alguma coisa, Srta. Mills? – Seus olhos voltam a concentrar-se na folha da agenda. Parece que ela acha mais seguro desse jeito.
— Sim, algo pessoal. – Meu tom de voz fica mais baixo. – Sofás, eu quero que você faça uma pesquisa na internet sobre sofá. Sofás confortáveis, muito confortáveis. Sofás onde duas pessoas possam dormir confortavelmente, e não acordem no outro dia com dores nas costas. – Mesmo que não me olhe, ouve com muita atenção e me dá mais um balançar de concordância com a cabeça.
— Preto? – Arrisca perguntar.
— Preto ou cinza. Mande os links para o meu e-mail pessoal, depois eu decido.
— Okay.
— Depois disso você por um acaso, só por um acaso mesmo, quando lhe sobrar alguns minutos livre, vai ficar curiosa sobre as Maldivas, e vai checar se recebemos alguma proposta por lá. – Levanta a cabeça e de novo tenta me encarar.
— Só por um acaso, Srta. – Concorda comigo.
— Apenas por isso. – Lhe dou um meio sorriso simpático e vejo estampado na cara dela, que de novo, não sabe como reagir.
— Porque eu sou curiosa. – Me dá a desculpa que dará para quem quer que lhe venham perguntar o interesse sobre.
— Além do mais, sua chefe detesta lhe ver sem fazer nada. – A ajudo. Não responde nada, só concorda com um aceno. – Minha mãe já chegou? – Mudo de assunto. Volta a desviar os olhos dos meus.
— Sim, Srta. Está na sala dela. – Conta.
— Quando Tinker chegar, deixe que entre. Fora isso, não deixe que ninguém nos interrompa. – Peço. – Não passe nenhuma ligação, não nada. A menos que o mundo esteja pegando fogo, e você precise nos avisar sobre, não nos chame. – Meu tom sai sério e autoritário. Vejo que tal coisa, faz parte do medo dela. Enfim, concorda muitas vezes com a cabeça. Provavelmente aliviada com o pedido para não interromper, nem chegar perto de um lugar onde minha mãe e eu, estejamos presente. – Okay, mais alguma coisa pendente? – Nega, depois afirma, depois nega de novo.
— Nada que seja da minha conta, Srta. Mills. – Responde em fim.
— Fale logo, Srta. Lucas! Aproveite o bom-humor que sabemos que não costumo ter. – Incentivo.
— Certo. – Continua sem olhar para mim, mas seu indicador, aponta em minha direção. – Desculpe por isso, Srta. Mills, mas eu vivo um poliamor... – Junto as sobrancelhas ao ouvir sobre. Não faço a mínima ideia do que está querendo me dizer.
— Traduzindo para o inglês? – Peço.
— Um relacionamento a três. Eu, mais uma mulher e um homem... – Explica e se eu já não estava entendendo nada, ficou um pouco pior depois de tal explicação.
— Okay, e o que eu tenho a ver com isso? – Por isso eu não gosto de ser simpática. Porque diabos ela está me falando sobre?
— Nada, srta. Mas é que John, que vive nesse relacionamento comigo e com Lucy, ele gosta de deixar marcas... – Me sinto na obrigação de interrompe-la mais uma vez.
— E por que diabos eu estou sabendo sobre isso? Não me leve a mal, Srta. Lucas, mas eu não tenho nada a ver com sua vida pessoal. Vamos ser profissionais, apenas isso. – Meu tom de voz não é mais simpático.
— Certo. – Concorda com a cabeça.
— Mais algum assunto profissional a ser tratado? – Nega.
— Não, srta. – Sua voz sai tremula. Lhe balanço a cabeça negativamente, e dou-lhe as costas para me retirar, porém sua coragem vence seu medo e ela resolve continuar.
— Uma vez eu vim trabalhar com um hematoma exposto no meu pescoço e a Sra. Mills achou tal coisa repugnante, ela quase me demitiu por isso. – Ao ouvir tal coisa, desisto de ir e me volto para ela. — Eu sei que a Srta. é filha dela e que de jeito algum eu deveria me meter nisso, mas pelo jeito como ela me olhou e falou comigo, faz com que eu sei lá... – Talvez ela tenha um treco, um enfarto, um desmaio, antes de terminar o pensamento. – Talvez sugira que a srta. tente esconder esse hematoma ainda um pouco visível no seu pescoço? – Termina a frase sem respirar, os olhos na agenda, onde risca freneticamente a mesma. Ela está com medo, está com vergonha, está com muitas coisas, tantas coisas que fica quase impossível expor todas.
Emma! Em horas assim, eu sinto vontade de matá-la. Eu estava tão atordoada com o sonho que tive, que quando me olhei no espelho de manhã, acho que não vi nem meu reflexo, ou seja, o hematoma passou totalmente batido. O casaco que tirei para subir as escadas, também camuflava um pouco tal coisa. Porém, não gostaria de arriscar, ou seja, preciso esconder bem escondido tal hematoma, antes de encarar minha mãe.
— E o que você sugere que eu faça a respeito, Srta. Lucas? – Lhe questiono. Já que ela apontou o problema, pode apontar também uma solução. Pelo menos é o que espero.
— Hã... eu... eu... – Volta a gaguejar. Então com a mão pede que eu espere. Arrasta sua cadeira de rodinhas, até o fim do balcão, onde abre uma gaveta e puxa sua bolsa. De novo arrasta a cadeira, agora para o lugar onde estava. Tira uma echarpe vermelha de seda ali de dentro e me estende. – Eu poderia dá-la a Srta. mas acredito que a Sra. Mills, se estiver nos assistindo pela câmera de segurança, vai achar entranho. Então talvez você queira compra-la? – Meio que sugere, meio que questiona. Por um motivo que quase me irrita, continua com medo de olhar nos meus olhos.
— Você é esperta, Srta. Lucas... – Jogo minha bolsa em cima da mesa dela, e junto também jogo o casaco que carregava. Tiro minha carteira da bolsa, enquanto continuo falando com ela. – Mas o fato de que não consiga me olhar nos olhos, enquanto fala comigo, me irrita um pouco. – Resolvo lhe falar tal coisa, para quem sabe, ela tentar trabalhar nisso.
— Desculpe, eu estou um pouco... – Nervosa é a palavra que não consegue pôr para fora.
— Se eu souber que estão de fofoquinhas por aí, falando sobre isso, vou concluir que foi você, quem deu início as fofocas. Você não quer me ter como inimiga, quer? – Tiro os olhos da carteira e a encaro. Juro que posso ver suor se formando em sua testa.
— Tudo que eu sei é que eu comprei uma echarpe e me arrependi, Srta. Mills. A mesma já estava a alguns dias na minha bolsa. Como estou precisando de dinheiro para viajar no final de semana e como por algum milagre divino a Srta. chegou de muito bom humor para trabalhar, eu resolvi arriscar a sorte e lhe ofereci. Seu bom humor lhe fez comprar. – No final de sua história que me contou sem respirar, ela tenta me sorrir.
Tiro cem dólares da carteira e lhe entrego.
— Para você ver, como uns dias longe da minha mãe, me deixam de bom humor. – Retribuo seu sorriso, mas o meu ao contrário do dela, não é nervoso.
— Eu não tenho troco para tanto. – Está hesitando tirar o dinheiro da minha mão. Parece surpresa com a nota de cem.
— Eu não quero troco, Srta. Lucas. – Respondo ao lhe rolar os olhos.
— Mas a echarpe custou 20 dólares. – Sua honestidade junto com hesitação em pegar o dinheiro, me fazem concluir que provavelmente, minha secretária é uma pessoa correta, desse tipo que não costuma se corromper.
— Parece que esse tempo em que passou em sua bolsa, fez com que ela valorizasse. – Falo enquanto ela continua parecendo não achar certo aceitar tal coisa. – Apenas aceite... – Penso em chama-la pelo primeiro nome, e então me dou conta que não faço ideia sobre. Busco ajuda no crachá de identificação, pendurado em sua camisa. – Ruby Lucas. – Não sei porque diabos, me ouvir falar seu nome a deixou ainda mais nervosa e sem graça.
Aparentemente não está achando sua voz para me responder, então apenas balança a cabeça concordando e tira o dinheiro da minha mão.
Pego minha aquisição de cem dólares, e a ajeito do jeito que gosto em meu pescoço. Tiro o casaco de cima da mesa e o ponho. Devolvo a carteira para dentro da bolsa, penduro a mesma no ombro, ajeito os cabelos e volto minha atenção para a Srta. Lucas.
— Então, como estou? – Questiono com ela, que assistiu a todo o processo sem ao menos piscar.
— Linda e cheirosa! – O elogio que me faz, por algum motivo que fico sem entender, faz com que seu rosto ganhe um tom forte de vermelho. Ela abre e fecha a boca algumas vezes, aparentemente querendo se justificar pelo elogio. Como se de repente, tivesse me falado algo proibido e eu fosse lhe fazer algum mal a respeito. – Quer dizer... – Lhe balanço a cabeça em negativo, enquanto de novo tento não rir, já que tal coisa, parece deixa-la mais nervosa.
— Eu não mordo, Srta. Lucas. – É o que lhe falo. – Tenha um bom dia! – Desejo ao dar um tapinha sobre a mesa, e lhe dar as costas, rumando até a sala de Cora Mills.
— Boa sorte! – A ouço murmurar quando paro em frente a porta da minha amada mãe. Respiro fundo em busca de paciência e concentração. Deixo a Regina com sentimentos, apaixonada por outra mulher e pela sua filha, na porta, incorporo a Regina insensível e sem me anunciar entro.
Dizem que bruxas, seres do mal, esse tipo de “gente”, são adeptos a cor preta, minha mãe é prova viva que tal coisa, é uma inverdade. Ela gosta de branco.
O chão da sua sala, é de mármore branco. As paredes são todas brancas. As cadeiras, os sofás, sua poltrona. Amarelo queimado foi a cor que ela escolheu para o pequeno contraste. Então sua mesa é dessa cor. Assim como o tapete, e o pequeno bar. Tirando isso, e os muitos quadros abstratos espalhados pelas paredes, tudo é branco. Não gosto dessa, não em grande quantidade, como essa sala.
Acho frio, acho sem vida, acho apático, acho um tanto quanto, assustador. Faz muito tempo que sua sala é desse jeito, assim como sua casa, mas mesmo assim, não consigo me acostumar. Meus olhos não gostam, eu não gosto. Não sei explicar como me faz sentir, mas o fato é que definitivamente, não gosto. Branco de jeito algum me remete paz, pelo contrário, branco é caos.
Então para mim, vilões nunca usaram preto. Branco é cor deles. Branco é o que me aterroriza. Branco é o que me faz sentir vontade de sair correndo.
Eu não faço ideia de quem é o presidente Snow de quem Zelena tanto fala, mas pelo o que ela me diz, ele também é adepto a cor, e pelo o que também me diz, Cora e ele, poderiam com facilidade destruir o mundo.
Bom, minha amável mãe está em sua mesa. Usando um dos seus muitos terninhos brancos, os óculos de grau quase na ponta do nariz, e a falsa atenção em algo que digita no notebook. Por fração de segundos, seus olhos param em mim, então me ignora e volta a fazer o que estava fazendo.
Zelena que já está na sala, ao contrário da Zelena saltitante e sorridente que estava me tirando a paciência minutos atrás, agora ela parece tensa, nervosa. Coisa que acontece frequentemente, quando está ao lado de Cora. Ela simplesmente não consegue relaxar e ser quem ela costuma ser, mas quem consegue, não é mesmo?
— Hey, irmã. – Tenta me sorrir ao me saudar.
— Bom dia, Zelena! – Agora que meu mau-humor se foi, consigo desejar tal coisa. Toco-lhe os ombros e sento-me ao seu lado, de frente para o diabo.
— Robin ligou, está tentando falar com você. – Como eu estou com seu celular, concluo que tal ligação já tinha acontecido quando estávamos no térreo à espera do elevador. Devido a minha falta de humor, não teve uma oportunidade para falar sobre.
— Ah sim, já resolvi. Iremos jantar. – Cruzo minhas pernas, e descanso as mãos em cima das mesmas, enquanto me volto para minha irmã. Como a reunião só começa, quando Cora decide tal coisa, resolvo que vamos jogar conversa fora, fazer de conta que ela não está aqui, que sua cara de poucos amigos, não nos incomoda. Resumindo, resolvo irrita-la.
— Depois do jantar você vai passar lá em casa e deixar as roupas que ele trouxe para mim. – Não é um pedido, é praticamente uma ordem.
— Depois do jantar nós passamos lá. – Infelizmente levarei Robin junto, pelo simples motivo de manter as aparecias. Graças a Deus depois disso, ele vai dormir no quarto de hospedes e eu na minha cama. A melhor parte de descobrir que Robin é gay, é que não precisamos mais tentar nada relacionado a sexo.
— E se nós pegássemos um cinema? – Me sugere.
— Ah não! Vai estar fazendo muito frio na rua, é muito empenho sair. Vamos assistir algo em casa mesmo. – Peço.
— Okay. – Concorda. – Vou comprar suco de uva, para bebermos como vinho. – Me faz sorrir.
— É uma boa ideia. Continue assim comportada. – Incentivo. Ela também sorri e não fala mais nada a respeito.
— Você acha que o hotel de Manhattan, vai ficar pronto antes do aniversário da rede? – Temos vários hotéis na cidade, mas o que Zelena se refere, é o que mandamos construir. Um hotel com trezentos quartos, e com tudo que há de mais tecnológico, novo e atual no momento. Um hotel para ninguém achar um defeito, um hotel para os mais afortunados de dinheiro. O mais elegante, moderno, sofisticado e caro, que teremos.
— Se entregarem no prazo prometido, com certeza irá. – Respondo.
— Não tem porque não fazermos a festa de trinta anos nele, você não acha? – Questiona. – Além de tudo, ele será a nosso hotel-sede. – Bom, não é uma simples pergunta. Já está me vendendo sua ideia, para que eu concorde na reunião que teremos a tarde.
— É só uma festa, Zelena, mas se você faz questão, tem o meu voto. – Dou de ombros.
— Por isso que você é a minha irmã preferida. – Seu comentário idiota me faz rir.
— Como se você tivesse outra, não é mesmo? – Mesmo visivelmente nervosa, ela também ri. – Por falta de opções, você também é a minha irmã preferida. – Falo. – Tão preferida que eu acho que você deveria me representar nesse tipo de reuniões chatas sobre eventos, festas e inaugurações. Não acredito que eu vou perder uma tarde com isso. – Me lamento.
— Não posso, porque senão eu não vou ter o seu voto e nesse caso, seu voto é muito importante, porque muitos puxa-sacos, irão atrás de você. – Bom, não posso dizer que isso é uma inverdade. Realmente acontece.
— Você terá o seu lugar então. – Pisco para ela. – Agora um assunto muito mais sério do que festas, nós precisamos vender o hotel da Venezuela, Zelena. Não adianta postergar ainda mais. Se não o vendermos logo, não vamos recuperar nem o dinheiro da compra. – Dou minha opinião. A mesma que já dei alguns meses atrás e a maioria, incluindo Zelena, defendeu a ideia de esperarmos.
— Segundo os relatórios atuais, as despesas continuam crescendo. Não gostaria de vende-lo, mas infelizmente, estou começando a achar que vai ser preciso. Aquele país virou terra de ninguém. – Sinto vontade de lhe rolar os olhos, por só agora está concordando com o que eu também já tinha falado.
— Apresente os números, acho que dessa vez, ninguém vai se opor. – Concorda com a cabeça.
Inclino o corpo para frente, e puxo o telefone fixo da minha querida mãe, que resolve acompanhar com os olhos, tal coisa. Faço de conta que ela não está aqui, enquanto disco o ramal da minha secretária, que atende antes que o primeiro sinal termine.
— Srta. Lucas, é Regina. Fale com Marcus, peça para ele checar se há algum interessado no hotel da Venezuela. Caso haja, peça que ele entre em contato com os prováveis compradores e agende uma reunião para ouvirmos sobre as ofertas. – Peço.
— Sim, Srta. – Responde, agora com uma voz simpática e tranquila. Provavelmente é a minha presença física que assusta as pessoas.
— Obrigada! – Agradeço antes de desligar e devolver o telefone para o lugar de onde tirei. Os olhos de Cora continuam em mim, aparentemente, tentam me intimar, mas não conseguem. Muito pelo contrário, além de olha-la nos olhos, sem temer, eu lhe esboço um sorriso debochado.
— Então, você vai continuar aí escrevendo a sua fanfic... – Aponto para o seu notebook. – Ou nós vamos conversar? – Questiono. – Eu não tenho o dia todo. – Retribui o meu sorriso debochado, com um sorriso igualmente debochado.
Tira seus óculos e os coloca sobre a mesa, então encosta-se na sua poltrona, cruza as pernas e olhar de mim para Zelena e vice-versa.
— O que vocês estavam fazendo em Las Vegas? – Sua pergunta me faz respirar fundo em busca de concentração, para que eu não inicie a conversa brigando.
— Eu já lhe respondi isso ontem. – Solto com o ar.
— Eu quero saber sobre o assunto particular. – Tenta de novo.
— Ele não diz respeito a você. – Rebato. Zelena intervém, toca meu pulso e me faz encara-la.
— Nós podemos falar, você sabe que quando Tinker chegar, ela vai fazer isso. Ou seja, de um jeito ou de outro, ela saberá. – Mesmo nervosa, mantém o tom de voz calmo.
Não lhe respondo nada, apenas lhe dou de ombros, dando permissão para que conte. Como se eu não me importasse com tal coisa. Como se fosse realmente um favor, que fui prestar a Tinker.
— Tinker nos pediu para que a namorada dela venha trabalhar aqui. – Zelena conta, e faz com que meu coração dispare. Okay, por fora eu consigo disfarçar, me manter calma, apática, fazer de conta que não estou nem aí, mas por dentro, por dentro as palavras de Zelena trazem desordem, medo, pavor.
Agora é oficial, não tem mais volta. Agora a mulher que minha mãe não faz questão nenhuma de lembrar que conheceu, vai ganhar toda a sua atenção. Vai deixar de ser alguém insignificante, vai passar a ser vista com outros olhos.
Meu estômago revira, eu sinto vertigem e vontade de vomitar.
— O QUÊ? – Sua pergunta sai quase gritada. – Tinker ficou louca de vez? – Diminui minimamente o tom. – Uma prostituta... – Isso ela fala quase sem voz, com medo que alguém ouça. – Trabalhando aqui no escritório, na sede da empresa, convivendo conosco? – Sinto-me um pouco aliviada, ao concluir que Cora está preocupada com a empresa, com a reputação da mesma e coisas do tipo. Ou seja, aparentemente, ela não ligou a Srta. Swan, a minha pessoa.
— Ex prostituta, mamãe. Ela não é mais isso. – Zelena sai em defesa de Emma. Já eu, infelizmente não posso abrir a boca para fazer o mesmo. Eu nunca fiz o tipo que defende funcionário, sempre fiquei quieta em casos assim, e deixei que outras pessoas resolvessem, ou seja, seria estranho eu sair em favor da Srta. Swan.
— Minha filha, você não é mais inocente. – O comentário da minha irmã, ganhou toda a atenção da nossa mãe. – Então você deve saber que não existe ex prostituta, como não existe ex viciado, nem ex padre. Se ela foi, se ela ainda é, se está dando um tempo em ser, pouco importa. Isso acompanhará ela pelo resto da vida. – Esbraveja com Zelena.
Penso em respirar fundo, desejo respirar, mas evito, tal coisa chamaria sua atenção para mim. Penso em levar as mãos até os encostos de braços da cadeira, e descontar a raiva pelo o que ouvi ali, mas também chamaria sua atenção. Então tento permanecer do jeito que estou.
— Mãe, Tinker pediu porque foi gentil... – Zelena tenta de novo. – Você sabe que ela também é dona de uma parte da empresa, ou seja, se ela resolver exigir, ao invés de pedir, nós vamos ter que acatar. E caso não façamos, ela vai pedir ajuda ao pai, e você sabe, ele não gosta de você. – Os olhos furiosos desse ser maligno em forma de gente, ficam em Zelena por alguns segundos, não sei o que tenta descobrir, ou se está mesmo fazendo isso. Como Zelena fisicamente não parece se intimidar, ela desiste e resolver os parar em mim.
— Você concordou com isso? – Me questiona.
Lhe dou de ombros enquanto tento ser mais indiferente possível.
— O que você queria que eu fizesse? – Indago. – Zelena tem razão, se não aceitarmos por bem, teremos que aceitar por mal. Não acho necessário arrumar uma briga, causar transtorno e desconforto por causa de uma vaga de emprego. – Respondo.
Me balança a cabeça negativamente, e faz comigo o que estava fazendo com minha irmã, tenta me intimidar com seu olhar de desconfiança.
— Qual de vocês duas é amiga dessa prostituta? – Questiona enquanto ainda me analisa, me testa, tenta pegar alguma coisa. Ela acha que está sendo passada para trás, vejo em seus olhos isso.
— Defina amiga. – Peço. Ela bufa.
— Eu vou definir melhor. – Pelo jeito sarcástico como fala e me olha, tenho medo do que vou ouvir. – Eu amo, Nova York, sabem por quê? – Não nos deixa responder. – Porque é minha cidade, eu sei de tudo que acontece aqui. – Tenho medo que as batidas altas do meu coração, entreguem o quão nervosa estou com tais palavras. – Então eu vou refazer minha pergunta... – Avisa. – Qual de vocês duas recebeu essa prostituta aqui, no último dia do ano? – A pergunta me faz ter vontade de escorregar as costas pela cadeira e procurar um lugar para me esconder. Tenho vontade de levantar daqui e sair correndo. Me esconder. Eu não sei.
Ela sabe da visita, claro que ela sabe, ela sempre sabe o que acontece ao redor, mesmo que não esteja presente. A verdade é que imaginei que iria saber, mas no momento, o pânico me faz travar, me deixa sem saber o que fazer ou falar. Todas as respostas que param em minha mente, me parecem suspeitas. Claro que parecem, mesmo que não sejam, para mim são, já que eu sou “culpada”.
— Eu! – A voz de Zelena além de me salvar, rouba a atenção de Cora para ela. – Eu a busquei no aeroporto. Tinker nos pediu. Como Regina estava enrolada com alguns contratos, eu fiz. – Zelena que até há pouco, estava nervosa, parece ter superado tal coisa, e agora está encenado melhor do que muitas atrizes ídolas da Srta. Swan. – Eu a busquei e a levei até lá em casa. A noite Regina foi até lá também, e nós assistimos pela televisão, a Big Apple anunciar o ano novo. – Continua. – Ela ficou em um quarto de hospedes e no outro dia, fomos até a casa de Regina. Emma precisa de um lugar para morar, tentei convencer minha irmã a alugar a casa onde moramos até a adolescência, até levamos ela lá para conhecer, mas Regina como é apegada a essas sentimentalidades, acabou optando por não alugar. Levamos ela para conhecer alguns pontos da cidade, e no primeiro dia útil do ano, eu a trouxe até aqui, para conhecer o escritório. – Zelena contou tudo que eu tenho certeza que Cora está sabendo. Contou sem que ela precisasse questionar, o que deve ser bom. Só que no momento, eu não consigo não me sentir desesperara. Estou esperando pelo pior. Esperando ela me apontar o dedo e dizer que sabe sobre tudo. Dizer que sabe sobre a Srta. Swan e eu, e lançar suas ameaças de mortes. – Então Tinker me pediu que fossemos até Las Vegas, que gostaria de conversar sobre a namorada, e queria fazer isso pessoalmente. Como final do ano, as coisas por lá são agitadas, ela não pôde vir até nós. Por isso também não pode acompanhar Emma até aqui. – Finaliza. Estamos sendo analisadas, medidas, encaradas de novo. Por fim balança a cabeça em negativo e volta a encarar minha irmã.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Qual o problema de vocês duas? – Questiona. – Vocês estão saindo, socializando, com uma prostituta, é isso mesmo? – Seu tom de voz aumenta, assim como a irritação. – Vocês já pararam para pensar no que a mídia de Nova York pode falar sobre isso, caso descubram quem é essa mulher? Porque sim, uma hora isso vai vir à tona. – Meus olhos acabam parando na parede atrás de Cora, mais precisamente no único quadro não abstrato e não assustador visualmente, dessa sala. O quadro com a foto da nossa família. Papai, Cora, Zelena e eu.
Meu pai, meus olhos para nele, junto com minha atenção. Tal coisa traz novamente a minha cabeça, o sonho que tive. Corajosa, primeiro eu preciso ser corajosa, foi ele quem disse. Eu preciso ser, preciso sair dessa situação de pavor onde me encontro, e reagir, ou agir. Seja corajosa, Regina, seja corajosa. Pessoas dependem disso, você depende disso.
— Emma é a namorada de Tinker, é isso que a mídia de Nova York e todos do país que se interessam pela vida social da nossa família, sabem. – Zelena responde.
— Eu não me importo com o que venham a pensar. – Ao opinar sobre, ganho a atenção das duas. – Eu sou a CEO de uma rede de hotéis, ponto. Eu não me importo com fama, não me importo com mídia, não me importo com os outros. Eu não sou famosa, você... – Aponto para minha querida mãe. – Não é famosa. – Agora aponto para Zelena. – Tampouco você, que vai a festas de pessoas que são de fato famosas, e fica fotografando e fazendo caras e bocas com elas. – Continuo. – Eu não me importo em ser vista na companhia de uma prostituta, que por um acaso, é namorada de uma das sócias da empresa. Eu não devo nada a ninguém, pago minhas contas, pago meus impostos, ajudo no crescimento do país, eu não devo nada. – Esbravejo contra minha mãe, que tem os olhos fixos em mim. De novo está me estudando, tentando me amedrontar, tentando pegar alguma coisa. Como eu já disse, ela sabe, sabe que tem alguma coisa. Quase posso ver as engrenagens do seu cérebro girando, e girando, tentando ligar os pontos.
— A última vez que Tinker resolveu inserir alguém muito inferior no nosso círculo social, não acabou bem. – Fala com voz sombria, um tanto ameaçadora. Está tentando me amedrontar.
— Fale isso para ela, não para mim. – Respondo sem demonstrar qualquer tipo de emoção, sentimento. – Eu não vou ficar contra Tinker, não por esse motivo. – Aviso ao dar-lhe de ombros.
— Desculpe, mãe, mas eu estou com Regina nessa. – Zelena de novo ganha nossa atenção. – Prostituta por prostituta, temos que nos lembrar que as vezes eu também acabei sendo uma. – Sinto o impacto das palavras de Zelena me atingirem. Algo como, uma tapa na cara.
Sim, foi o que ela foi algumas vezes. Foi o que nossa mãe fez dela algumas vezes. Mas tal coisa nunca foi colocada com essas palavras. Sempre quando mencionado o assunto, usamos palavras mais sutis, ou deixamos subentendido. Zelena nunca tinha colocado desse jeito, nunca.
Ouvir minha irmã falando que foi uma prostituta, me dói. Dói porquê de jeito algum, isso precisava ter acontecido. Meu Deus! Nós temos dinheiro, muito dinheiro. Nunca, nunca nos faltou nada, não ficaríamos mais ricas, ou menos ricas, pelos negócios onde Cora empurrou Zelena para fechar.
Dói porquê ela é minha irmã, é uma das primeiras lembranças que tenho da vida. A bebê recém-nascida, com uma cabeleira ruiva, os olhos arregalados bem azuis, no colo do meu pai, olhando com curiosidade para mim. Eu prometi que cuidaria dela, eu não conseguir cumprir, não como deveria.
Dói porque essa é uma das vezes que a verdade dói, uma das vezes que a gente prefere não ouvi-la. Porque a verdade pode ser muitas coisas, pode ser nobre, pode ser digna, pode ser sublime, o que não quer dizer que é bonita, que não machuca. E se ela machuca em mim, eu imagino que o que faz com Zelena, é dilacerador.
— As pessoas com quem Zelena saiu para fechar os seus negócios, também um dia podem vir a falar publicamente sobre esse assunto, você já pensou sobre isso? – Questiono com Cora. – Já consigo enxergar as manchetes... – Minhas mãos enquadram o título invisível a minha frente. – Cora Mills, a cafetina da própria filha. – Lhe provoco. Funciona, ela se enfurece. Suas mãos chocam-se contra a mesa, mas não me assustam.
— BASTA! – Grita.
— Regina! – Temendo por mim, Zelena volta a tocar meu pulso. Seus olhos me dizem que fui longe demais.
— Sabe o que faltou para você, pobre menina rica? – Seu tom de voz sai quase gritado, vejo que se esforça para não gritar de fato. – Algumas surras, quando você era criança. Você cresceu uma garota mimada, cheia de si. Prepotente, arrogante, que se acha a dona da verdade. Tendo as vontades feitas pelo papai. – Cospe as palavras contra mim. – Você não sabe o que é gerir uma empresa. Você ganhou seu cargo, quando nós já éramos quem somos. Você não sabe dos sacrifícios que precisam ser feitos para levantar um império. – Minha resposta para suas palavras irritadas, é um sorriso debochado. Esse sorriso serve para enfurece-la ainda mais. Ela volta a chocar as mãos contra a mesa, se põe de pé, apoia as mãos sobre a madeira da mesa e inclina o corpo para frente, tentando aproximar-se de mim, para talvez me intimidar, ou amedrontar. – Tire esse sorriso de deboche do rosto, antes que eu meta a mão na sua cara. – Me ordena e ameaça.
Me ponho de pé também, e a imito, apoio minhas mãos sobre a pesa e inclino meu corpo para frente. O que faz meu rosto aproximar-se perigosamente do dela.
— Regina! – Zelena tenta intervir de novo, me afastar, mas não deixo, não me mexo, continuo exatamente no mesmo lugar.
— Primeiro, eu não ganhei o cargo, eu lutei por ele e consegui tira-lo de você, que agora faz de conta que é uma presidente cheia de afazeres, quando na verdade tudo que você tem, é mesmo o título. – Respondo de dentes trincados, os olhos estreitos. – Segundo, não foi você quem construí um império, foi meu pai. Tudo que temos, tudo que somos, temos que agradecer ao trabalho duro dele, ao dinheiro dele, ao suor dele. Você foi desde sempre a esposa interesseira, que mesmo não levando a mínima vocação para ser mãe, resolveu fazer isso, para que esses filhos, lhe amarrassem a ele, assim seria difícil ele deixá-la. Fora a herança que veio junto conosco. – Continuo. – Terceiro, quando você submeteu Zelena ao que submeteu, você já tinha um império para chamar de seu, você já tinha seus milhões. Bilhões, se formos contar com o patrimônio da rede. Ou seja, você foi sádica, cruel, baixa. Sua ganancia quem levou sua filha a prostituição. Então você é sim, uma cafetina, mamãe. – O mamãe como sempre sai irônico.
Ela afasta-se, penso que vai recuar, mas apenas faz isso para diferir um tapa na minha cara. O barulho do mesmo, ecoa pelo lugar. Não me movo, não falo nada, não me expresso. Continuo no mesmo lugar, olhando para ela com cara de nojo, de repulsa e ódio.
— Deve ser horrível, não deve? – Indago. – Ser você? Ter uma vida tão patética, tão vazia, tão sem nada, que você precisa controlar a vida das suas filhas, para sentir alguma coisa aí dentro? – Aponto para onde deveria existir um coração. — Você pode construir o maior império do mundo, Cora Mills. Você pode se tornar a mulher mais rica de todo o globo. Mesmo assim, de amor, você vai ser sempre pobre, miserável. Você nunca vai ser amada, nunca. – Cuspo as palavras enquanto fuzilo esse ser miserável com os olhos. — O seu dinheiro pode comprar praticamente tudo, mas e sentimentos? Sabe o que as pessoas sentem por você? Nojo. É isso que lhe aborrece, não é? Nunca ter sido amada? – Ela não estava esperando ouvir isso, esse tipo de coisa, vejo em suas feições, que não estava. Parece quase acuada. — Eu desprezo você! Eu tenho nojo de você! Tenho vergonha de ter você como mãe! Para mim, você é o ser mais horrível, mais asqueroso, que já pisou na terra. Eu odeio você. – Cuspo as palavras, o meu ódio, meu rancor. — Odeio o que você fez com a nossa família. O que você fez com a minha irmã. O que fez com meu pai. O que fez com Daniel. O que fez comigo. Você pode passar toda a sua vida me controlando, mas você pode ter certeza de uma coisa, você nunca, nunca vai ter o meu amor. Eu nunca amei você, nem quando eu era criança, e você pode ter certeza que eu nunca virei a ama-la. – Pelo jeito como me olha, sei que atingi um ponto fraco. Talvez o único que ela tenha. Quem ganhou o tapa na cara fui eu, mas ela, ela ganhou um soco no estômago, sem que eu precisasse usar de força física para tal coisa, vejo isso nas lágrimas que enchem seus olhos. Cora Mills tem lágrimas, quem seria capaz de imaginar tal coisa? – Eu preciso pesquisar mais sobre psicopatas, dizem que eles não amam, mas aparentemente, existe o desejo de serem amados. – Desdenho, pisoteio. A atinjo. Me aproveito desse raro momento de fraqueza. Eu deixei essa mulher muda, sem saber ou sem ter o que falar. No momento, nem mais raiva posso ver em seus olhos, se ela fosse realmente humana, diria que quase posso ver dor.
— Você me conhece, você sabe quem eu sou e do que sou capaz. – Começa. – Você acha que você teria mesmo conquistado esse cargo, caso eu não estivesse de acordo com isso? – Indaga, a voz baixa, porém dura. Passa as mãos pelos olhos, livrando-se das lágrimas antes que as mesmas possam cair. – Você acha que você poderia simplesmente ir e vir, se eu não estivesse de acordo com isso? Você acha que você teria saído daquele lugar de loucos, se eu não estivesse de acordo com isso? – Seu tom de voz cresce, qualquer olhar de dor, se vai. – Não me desafie, Regina. Não teste minha paciência, não faça isso. Eu posso destruir você em um piscar de olhos. – Ameaça, seu olhar agora é sombrio assim com o tom de voz.
Eu lhe balanço a cabeça negativamente.
— Você não entende, não é? Você não pode destruir algo, que você já destruiu, mãe. Você me destruiu, você acabou com a minha vida. Você não me deu nem chance de ter onde me agarrar quando me arrastou para aquela clínica de aborto. – Esclareço. — Você pode me trancar, me prender, tirar de mim o direito de ir e vir. Você pode me mandar para tratamentos de choque. Você pode me bater. Você pode até me matar. Eu não tenho mais nada a perder, então eu não tenho o que temer. – Na verdade, sabemos que não é bem assim. Foi, até Emma e sua filha caírem de paraquedas na minha vida. Agora eu tenho muito, muito a perder. É o que minha mente fica me gritando. Se sirenes de alerta, existissem dentro da mente, as minhas estaria todas ligadas, gritando, piscando as luzes vermelhas, me mandando calar a boca e recuar.
Eu deveria calar a boca, mas eu preciso ser corajosa, eu preciso ser, agora eu tenho que ser. A partir do momento que entramos aqui e ela ouviu sobre Emma, a opção de voltar atrás, deixou de existir. Então eu preciso dar o melhor de mim e lutar.
Nunca blefei tão alto na minha vida, como estou fazendo agora, mas também posso dizer que nunca fiz isso com tanta convicção, tanta certeza. É assim que mentirosos, enganam o polígrafo, não é? Acreditando nas próprias mentiras? Essa sou eu agora.
— Ainda lhe restam algumas pessoas. – O jeito maquiavélico como fala tal coisa, me faz estremecer. – Alguns parentes... – Ao falar tal coisa, passas os olhos pela minha irmã. Sim, Zelena, ela acabou de deixar subentendido que pode fazer algo contra a minha irmã, sua filha. Ela acabou de ameaçar Zelena. Ela fez isso. Tudo bem me ameaçar, isso é aceitável, nós sempre batemos de frente. Nunca nos demos bem. Mas Zelena? Que sempre lhe foi obediente, sempre fez suas vontades? Que tipo de ser humano é essa mulher? Estou estarrecida, incrédula, não conseguindo acreditar, digerir, aceitar o que acabei de ouvir. – Elizabeth... – Continua e de novo eu estremeço. Se eu tive uma mãe na vida, posso dizer que essa mãe foi Elizabeth. Cora sabe disso, sabe do meu carinho, do meu apresso por ela, o que a faz se tonar um alvo também. Ameaçando as pessoas que me restaram, é isso que está fazendo. – E eu tenho certeza que posso descobrir mais pessoas. – Não sei se essa parte é blefe, ou ela realmente suspeita que existe alguém, não sei. No momento me encontro atordoada para pensar sobre, para continuar essa briga. Eu não posso com ela, Deus, eu não posso com ela. Como eu posso declarar guerra a alguém que não tem escrúpulos. Que acabou de ameaçar a própria filha e a mulher que nos criou?
— Qual o seu problema com Regina? – Zelena questiona. A voz magoada, um pouco embargada. Ao olhar para ela, vejo tristeza, chateação. Vejo lágrimas em seus olhos. – Eu sei que você não me ama, e também não ama minha irmã. Eu sei que você não é capaz de amar. Porém, você tem uma fixação por Regina, que eu não entendo. – Ao contrário de Cora, Zelena não se importa em deixar as lágrimas caírem. – Se amor, respeito, admiração, é o que você quer dela, não é desse jeito que você vai conseguir. Jamais será. Você pode matar a mim, a Elizabeth, a toda cidade de Nova York. Você pode causar o apocalipse. Pode restar apenas Regina e você no mundo e mesmo assim, você não vai conseguir, porque você está fazendo do jeito errado. – Opina, enquanto continua deixando as lágrimas caírem.
— Eu quero ser temida, meu amor, não amada. – É a resposta que dá a Zelena.
— Se essa fixação existe mesmo, eu quero que você saiba de uma coisa... – Volto a ganhar sua atenção. – A partir do momento que você causar a morte de alguém com quem eu me importo, você vai ter que lidar com a minha morta também, mãe. – Aviso. – Eu juro para você, que eu me mato. Eu vou até o 102º andar desse arranha céu e eu me jogo de lá. – A certeza que lhe dou sobre isso, faz com que os olhos dela cresçam. Aparentemente ouvir tal coisa a surpreende, ou a assusta. – Antes disso eu envio uma carta para impressa, para mídia, para que o país inteiro saiba, o mundo inteiro saiba, quem é você e como você dizimou a sua própria família. E mesmo que você negue e dê fim em todas as provas, quem parar para pensar sobre, vai achar um pouco estranho, você não acha? – Indago. – Ter sobrado só você, da nossa família?
— Eu acharia estranhíssimo. – É desse jeito que Tinker se anuncia. – Eu mesma me encarrego de contar por aí, as muitas coisas que vi e que ouvi dessa mulher. – Não olho em direção a ela, mas a ouço se aproximando de onde estamos. – E caso você resolva que a morte também virá a me cair bem, meu pai pode falar por mim. – Para ao meu lado, pisca para mim e volta a dar atenção para minha mãe. – Você sabe, ele te odeia tanto quanto eu. – E desse jeito, Tinker finaliza sua entrada um tanto quanto triunfal.
Beija a minha bochecha, então vai até Zelena e faz o mesmo. Por um minuto esqueço que me odeia, que está apenas encenando. Tenho vontade de lhe sorrir, de conversar, espairecer com ela depois daqui, mas então tudo volta a minha cabeça e eu me sinto triste, frustrada. Ela não está sendo minha amiga, está defendendo a pessoa que ama e que eu lhe tirei.
Depois de cumprimentar minha irmã, volta para perto de mim e senta-se na cadeira ao lado da minha.
— Então, quem é o alvo da vez? – Questiona com minha mãe, enquanto lhe sorri. – Regina, por que você não senta? – Me pede. Balanço a cabeça concordando com tal coisa e faço. – Ah! – Bate com a mão na testa. – E antes que eu me esqueça, feliz ano novo, Cora, querida! – Deseja com deboche, enquanto lhe dá um sorriso falso. – E obrigada por ter feito eu me deslocar até aqui, para resolver uma coisa que eu só pedi ao invés de exigir, por pura educação. A administração do Bellagio, agradece. – Cora detesta Tinker, detesta e não faz nem questão de disfarçar. Seus olhos furiosos, ameaçam minha ex amiga, gritam com ela, desejam matá-la. Porém machucar Tinker, não é assim tão fácil. Ela sabe que seria um tiro no próprio pé. Ou seja, não tem o que fazer.
Minha mãe também volta a sentar-se, cruza as pernas, respira fundo e massageia as têmporas. Então volta a encarar Tinker.
— Por que diabos, você quer mandar a sua prostituta para o outro lado do pais? – Ao contrário do jeito como se porta, sua voz não demonstra sua irritação. Usa um tom calmo, baixo, cordial.
— Minha namorada! – A corrige. – Eu não vou permitir que você chame ela de prostituta. – Avisa. A voz exigente, o semblante bastante sério.
— E não é o que ela é? – A pergunta sai com sarcasmo.
— Era, não é mais. – Esclarece. – E mesmo que fosse. Mesmo que fosse a prostituta mais suja, mais imoral, mais vulgar, mais barata de todo o mundo, ainda assim, ela teria mais caráter do que você. – Defende a Srta. Swan, e não, não está de jeito algum atuando ao fazer isso. Está sendo sincera. Está defendendo com o amor, com o carinho que tem por Emma, eu sei que está. Sinto um pouco de inveja, talvez ciúmes da situação. Gostaria muito de ser eu a defende-la, a falar essas coisas, mas infelizmente a situação não deixa que eu sequer abra a boca. Emma é a namorada de Tinker, é assim que minha mãe deve pensar. É assim que a sociedade deve pensar. Eu fico apenas nos bastidores, escondida atrás dos panos.
— Por que você quer mandar sua namorada para o outro lado do pais? – Refaz a pergunta. Por algum motivo, resolveu não rebater.
— Las Vegas é uma cidade turística no meio do nada, só isso. – Começa. – Sim, existe diversão garantida, festas, noitadas, bebedeira. Só que meu relacionamento, não é mais isso. Existem sentimentos, muitos sentimentos. – Meu estômago revira ouvindo essas coisas. – Nova York também é turística, eu sei, mas nós sabemos que não é apenas isso. Tudo acontece aqui, as oportunidades são melhores, mais amplas aqui. Nova York é mídia é arte, é moda, tecnologia, assim como também é finanças, comércio, educação. – Expressa-se com uma facilidade invejável. – Emma tem uma filha, que futuramente, será como minha filha também. Irei adota-la, dar-lhe meu sobrenome, ajudar a cria-la. – Okay, Tinker está cumprindo bem seu papel de namorada, está fazendo isso com louvor e precisa mesmo fazer, porém ouvir tudo isso me deixa incomodada, provavelmente, enciumada. São coisas que eu quero fazer, mas por enquanto coisas que só são possíveis na minha imaginação. Nunca foi tão difícil ouvir algo e ter que permanecer indiferente quanto a isso. Como se o assunto quase estivesse me entediando, quando na verdade é o assunto que mais me interessa. – E eu não preciso nem abrir a boca para falar que aqui, as opções no tópico educação, são muitíssimo mais amplas, preciso? – Minha mãe balança a cabeça negativamente, por algum motivo, ela está descrente.
— Você não enxerga que essa mulher está lhe usando para usufruir do seu dinheiro? – A primeira resposta de Tinker é um sorriso.
— Você também era uma ex prostituta quando se casou com tio Henry? Porque qualquer um que junte um mais um, sabe que foi isso que você fez com ele. – A resposta ousada de Tinker, acaba fazendo com que eu deixe escapar uma risadinha, que não passa despercebida por minha querida mãe.
— Me respeite, garota, me respeite! – Não pede, exige.
— Você me desrespeita quando questiona a minha vida pessoal. Quando faz drama por suas filhas irem ao meu encontro, e se disponibilizarem a me ajudar. Quando julga alguém que você sequer conhece. Quando por sua causa, eu tenho que me deslocar até aqui, para lhe explicar algo que eu não preciso, já que suas filhas podiam muito bem fazer isso. – Fala em um tom sério, quase bravo.
Minha mãe balança a cabeça concordando, enquanto junta as mãos e as descansa sobre a mesa.
— Você quer que eu seja sincera com você, Tinker? – Usa um tom simpático.
— Por favor...
— Emma... – Ao pronunciar o nome da minha amante e parar para pensar não sei o quê sobre ela, faz com que meu coração volte a acelerar. E tenho certeza que causa a mesma reação em Tinker. – Swan. É isso? Emma Swan? – Acho que com medo de que sua voz acabe falhando, minha ex amiga confirma com um aceno de cabeça. – Eu recordo dela, daquela noite do evento no Bellagio... – É desse jeito que começa e esse começo aumenta ainda mais minha frequência cardíaca. Cora sorri, um sorriso diabólico. Suspira e passa os olhos por nós três. — Emma Swan, me lembra daquele outro pobre, como era mesmo o nome? – Agora seu sorriso torna-se debochado. Ela me encara, e faz silêncio por alguns segundos, antes de continuar. – Daniel. – Pronuncia o nome com desdém. Seus olhos desafiam os meus, me ameaçam e zombam de mim. Gostaria de ser brava, de extravasa, gritar com ela e ordenar que fique longe da Srta. Swan, porém de novo esbarro no não poder. Sei que estou sendo testada, observada. Ela quer descobrir se Tinker está mesmo falando a verdade, se nós estamos mesmo falando a verdade, ou se existe outro motivo para o meu interesse em Las Vegas, sei que quer.
— Dificuldade para lembrar o nome das pessoas que você mata, mamãe? – Questiono, enquanto devolvo a ela o sorriso de deboche.
— Tenho dificuldade para lembrar de nomes de insetos. – Responde prontamente. – O fato é que essa mulher, me faz recordar dele. É igualmente pobre, parece ser igualmente petulante. E tem o agravante de ser prostituta e lésbica. – Volta e encarar Tinker e balança a cabeça em negativo para ela. – Os anos passam e você continua fazendo péssimas escolhas, querida. Emma Swan é outro inseto que eu gostaria de esmagar, então se você não quer que nenhum acidente aconteça, não deixe que Regina lhe roube a namorada também. – Meu corpo sente o impacto da ameaça que ela faz. Sinto minhas pernas amolecerem, sinto o soco no estômago ser retribuído. De novo tenho vertigem, de novo quero correr até o banheiro e vomitar. Sinto vontade de correr até Las Vegas, para me certificar que a Srta. Swan está bem. Sinto que essa história de jeito nenhum pode acabar bem.
— Você sabe que durante os dias que passou por lá, eu bem que tentei empurrar uma mulher para Regina? – Não sei como, mas Tinker consegue manter a mascará e continuar, como se de repente a ameaça não tivesse a atingindo, como sei que atingiu. – Mas nesse ponto ela é muito careta, talvez tenha herdado isso de você. – Continua. – Enfim, Cora, querida, se você soubesse as maravilhas que aquela mulher faz na cama, você quem tentaria rouba-la de mim. Mas graças a Deus, com você eu não preciso me preocupar, aposto que Emma iria preferir ir para cama com o próprio diabo. – Lhe sorri sarcasticamente e então volta-se para mim. – E eu não preciso me preocupar com você, preciso, Regina? – Não precisa me olhar por mais de um segundo, para que seus olhos gritem comigo e me mandem reagir e ser convincente, bastante convincente.
— Isso é mesmo uma pergunta séria? – Faço cara de interrogação e descrença. Cara de alguém que não acredita que está mesmo sendo questionada sobre tamanho absurdo.
— Só para deixarmos claro. Você ouviu o que sua mãe disse.
— Nem que só existisse mulheres andando sobre a terra. – Respondo. – Você sabe o que eu penso a respeito da sua namorada, ou seja, se depender de mim, ela está a salvo. – Minhas palavras saem firmes, cheias de certeza. Nem parece que aconteceu de novo. Que estamos encenando, para que minha mãe não descubra que sim, que eu já fiz tal coisa.
— E você, Zelena? – Agora encara minha irmã, que acha graça.
— Meu amor, nada contra a sua namorada, eu até a acho divertida, mas eu gosto mesmo é de pênis, então não. – Lhe garante.
— Não canso de dizer, vocês deveriam conhecer as maravilhas que um sexo lésbico pode proporcionar. – Gostaria de abrir a boca para concordar e até fazer propaganda, porém eu preciso me portar como uma fada heterossexual, tão heterossexual que não faz nem ideia de como pode ser o sexo entre duas mulheres.
— Agora que sabemos que Regina e Zelena, não serão um problema, vamos falar sobre você. – Volta-se para minha mãe. – Se você mexer com ela, se você ameaçá-la, se você sequer olhar torto para ela, eu vou atrás de você. – Ao chocar as mãos contra a mesa, e inclinar o corpo para frente, como um animal quando resolve ameaçar outro, acaba aparentemente pegando Cora desprevenida. O semblante simpático e despreocupado de Tinker se desfaz, e transforma-se em um semblante irado, ameaçador. Tem os trincados, maxilar rígido, os olhos estreitos. Tenho certeza que a qualquer momento pode pular por cima dessa mesa e agarrar o pescoço de Cora. – Eu vou acabar com você. – Tira o celular da sua bolsa e o choca contra a mesa. – Hoje eu estou um passo à sua frente. – Aponta para o telefone. – Caso aconteça alguma coisa com Emma, ficou gravado nesse celular, a ameaça que você sutilmente fez. Fora o que você deixou subentendido sobre Daniel. – Pelo semblante surpreso de Cora, ela jamais cogitou a possibilidade de que Tinker pudesse estar gravando. Na verdade, eu também não imaginei isso. E também não passou pela minha cabeça, que eu poderia ter feito o mesmo. – E não pense que eu esqueci o passado. – Antes que minha mãe resolva talvez tentar roubar-lhe o telefone, Tinker o pega e volta a guarda-lo. – Eu lembro todos os dias do que você fez. Eu vou pega-la, Cora! Mais cedo ou mais tarde, eu vou pega-la, e você vai pagar por tudo, juro que vai. – Finaliza a ameaça.
— Conte comigo, para o que precisar. – Falo ao tocar seu braço.
— Eu conto. Nós ainda vamos visitar sua mãe na cadeia, Regina, você pode anotar isso. – Não sei mais se está interpretando, ou sendo sincera. O fato é que tal frase, soou quase como uma promessa.
— Você acha que eu tenho medo das suas ameaças? – Questiona com Tinker, que resolve lhe sorri.
— E você acha que eu tenho das suas? Não sou eu quem deve a justiça, quem tem o rabo preso. – Pisca para minha mãe.
— Muito menos eu. – Olha para Tinker como se ela fosse louca, lunática. Como se tivesse lhe falado inverdades, absurdos. – Eu poderia processa-la, querida. Por injuria e difamação. Acusar alguém de assassinato, é algo bastante grave. – Sinto o sangue ferver nas minhas veias ao ouvi-la falando tal coisa, enquanto esboça um sorrisinho debochado.
— Você é louca, doente, psicopata. – Tinker praticamente vocifera. – Você se acha indestrutível, não acha? – Questiona. – Quais crimes mais você cometeu, além de Daniel? Tio Henry, talvez? Mais o quê? Mais quem você matou? Mais o que você esconde? – Dispara as perguntas. Cora sorri e levanta as mãos em sinal de inocência.
— Eu não faço ideia sobre o que você está falando, mas estou começando a me sentir ofendida. Acho que você e Regina conviveram por muito tempo no final do ano, e resolveram conspirar contra mim. – Se faz de inocente, pelo menos nas palavras. Única e exclusivamente, porque sabe que a conversa está sendo grava, mas o jeito como nos olha, entrega a pessoa que é. Praticamente debocha de nós.
— Por Deus! — Zelena que tinha se limitado ao silêncio, agora tem a palavra. – Eu não aguento mais ameaças. Não aguento mais esse clima tenso, nervoso, não aguento. Eu preciso... – Beber. Não finaliza, mas eu sei que é o que ela quer. E sei que preciso ficar de olho. Depois de tudo que ouviu de Cora, sei que se tiver oportunidade, vai afogar suas magoas no álcool. – Nós podemos por favor encerrar essa reunião? – Nos pede.
— Olhar para a cara da sua mãe, também me faz mal. Minha gastrite ataca. – Tinker conta. – Então, se estamos resolvidas, Cora, querida, eu também gostaria de encerrar. – Cora faz silêncio. De novo passa os olhos por nós três. De novo balança a cabeça em negativo. De novo suspira.
— Quando a sua namorada nos dará o prazer de a termos conosco? E que cargo ela pretende ocupar? – Usa de sacarmos.
— Não temos uma data exata, mas algo em torno de trinta, quarenta dias. Zelena me falou que você demitiu a secretária dela no final do ano, e que ela ainda não encontrou outra. – Sorri para minha mãe. – Bom, acho que encerramos aqui a busca, certo Zel? – Todas nos voltamos para Zelena que temos olhos fechados, enquanto massageia as têmporas.
— Certo! – Responde. – Emma parece eficiente e focada. Tenho certeza que vamos nos dar bem. – Continua de olhos fechados massageando as têmporas.
— Eu sou contra. – Estranho seria se Cora fosse a favor. – Podemos encaixa-la em outro lugar, longe de Zelena ou Regina. – Tenho vontade de rolar os olhos, tenho vontade de mais uma vez me exceder, tenho vontade de pular por cima dessa mesa e enforca-la, porém, continuarei só na vontade.
— Vamos votar. – Tinker sugere. – Quem concorda que Emma, seja a secretária de Zelena, levanta a mão. – Me sinto quase como no jardim de infância, quando as votações eram feitas desse jeito. – Minha ex amiga é a primeira a levantar sua mão. Zelena, deixa a massagem nas têmporas de lado, abre os olhos e também levanta sua mão. Então os olhares param em mim. Abro um sorriso debochado para mim mãe e pisco para ela. Meus atos dizem a ela que sim, que vou concordar só para contraria-la.
— Sinto muito, mamãe! – Falo com deboche, e então também levanto minha mão.
— Três contra uma, ganhamos! – Tinker levanta os braços comemorando. – Emma é a nova secretária de Zelena.
— Uhu! – Minha irmã faz uma falsa comemoração, enquanto levanta seus braços e os agita no ar.
— Não é inteligente da parte de nenhuma das três, bater de frente comigo. – Mais uma vez, o tom de ameaça na voz da minha queria mãe, está de volta.
— Você já parou para pensar que nem tudo gira a sua volta? – É Zelena quem me surpreende e lhe questiona. – Nem tudo é para provocar você? Nem tudo é para bater de frente com você? – Dispara as perguntas. – Não faça tempestade em um copo d’água, mamãe! – Pede ao se pôr de pé. Caminha em direção a parede de vidro fumê, a princípio, penso que só quer espairecer, olhar para fora do lugar, mas então seus pés a levam até o pequeno bar que Cora tem em sua sala. Seus dedos passam pelas garrafas de whisky. – Você tem coisas mais importantes com o que se preocupar... – Ela pega um copo, junto também pega uma garrafa e serve-se.
— Não faça isso! – Peço a ela enquanto me ponho de pé. Me ignora, faz de conta que não me ouviu e volta-se para nossa mãe.
— Como planejar a minha morte, por exemplo. – Sugere. – Ou a de Elizabeth... – Continua. – Ou a da própria Regina. – Mágoa, rancor, raiva, tristeza, é possível encontrar muitas coisas no semblante e na voz de Zelena. – Sabe o que é mais triste nisso tudo? – Questiona com Cora. Lágrimas acabam nublando seus olhos claros. – Você nunca nos deu nada, muito pelo contrário, você só nos tirou, e mesmo assim, mesmo assim, a pessoa patética que eu sou, ainda consegue sentir amor por você. – Silêncio, a sala é tomada por um silêncio ensurdecedor.
Cora não diz absolutamente nada, provavelmente está surpresa, por ouvir algo completamente inesperado. Confesso que eu estou igualmente surpresa, por depois de tudo que nossa mãe lhe fez, ela ainda conseguir nutrir um sentimento bom.
Além surpresa, estou também preocupada. Na verdade, no momento estou mais preocupada, já que ela está prestes a alimentar seu vício e quando tal coisa acontece, fica quase impossível para-la.
Zelena deixa as lágrimas caírem, enquanto mantém os olhos fixos em um ponto, que deduzo ser nossa mãe. Ela ergue seu copo de whisky e nos sorri.
— Saúde! – Deseja.
— Zelena! – Tento de alguma forma, intervir. Ela cheira o líquido, e vejo que tal ato, lhe dá prazer. Seus olhos brilham, os lábios tocam o copo, eu continuo pedindo para que não faça. Tinker faz o mesmo. Cora permanece muda.
Contrariando nossas expectativas, Zelena para e não entorna.
— Só por hoje! – Acho que é isso que a ouço murmurar, então afasta o copo dá boca, volta a sorrir e em uma atitude completamente inesperada, ela o atira em direção da nossa mãe, em um piscar de olhos, faz o mesmo com a garrafa que estava em suas mãos.
— VOCÊ NÃO MERECE O MEU AMOR! – Vocifera. A atitude inesperada, deixa Cora assustada, completamente assustada com tal reação, tão assustada que seu rosto empalideceu.
Olha para Zelena como se não pudesse acreditar, que minha irmã fez mesmo isso. Que atirou mesmo algo em direção sua direção, e que além de disse, gritou. Nunca, nunca mesmo, algo sequer parecido, tinha acontecido. Zelena nunca foi agressiva, pelo menos não com a nossa mãe. Mesmo na sua pior bebedeira, na pior fase do alcoolismo, ela nunca chegou perto disso.
— Encerramos aqui essa reunião! – É o que diz, antes de nos dar as costas e se retirar. Faço menção de seguir atrás dela, sei que em momentos assim, ela vira uma bomba relógio e não é porque não bebeu, que não vá, ou não esteja indo fazer isso agora.
— Deixa comigo! – Tinker pede ao afagar meu braço e sair atrás dela.
Balanço a cabeça negativamente, e me volto para minha mãe, que ainda não se recuperou do susto. Está estática, acho que nem piscando está. Não sei se pelo ataque de Zelena, ou se por ter ouvido da mesma, sobre o suposto amor.
— Está feliz? – Questiono com ela. — Você acaba de magoar novamente, a única pessoa que aparentemente, ainda se importa com você. – Não deixo que se recupere, não espero que me responda, não nada. Imitando minha irmã e Tinker, eu também lhe dou as costas e sigo para fora da sua sala.
Florence and The Machine — Times Like These
Faço questão de descontar toda minha raiva, minha angustia, minha frustração, na porta que eu esbarro sem dó, nem piedade, causando assim um estrondo enorme.
Levo as mãos a cintura, suspiro e olho para o teto, tentando falar com Deus, com o universo, ou com o dono do meu avatar.
— Eu odeio a minha vida! – Solto com o ar. – Então pare de ferrar com ela, apenas pare! – Bom, seguindo o esperado, o teto não me responde, não reage, não manda um sinal, não tem piscar de luzes, nada. Isso não deve ser um bom sinal, deve? – Você vai ficar louca, Regina. – Resmungo ao balançar a cabeça negativamente, e voltar a minha postura correta.
Percebo que meu pequeno ataque de raiva, ganhou a atenção da Srta. Lucas, e de um funcionário qualquer, que está conversando com ela, o que me faz lançar um olhar nada amigável para os dois.
— Algum problema? – Os questiono. O funcionário qualquer nem responde, apenas bate em retirada. Já a Srta. Lucas, como não tem como fugir, apenas balança a cabeça negando. – Cora... – Aponto em direção a porta que acabei de “fechar”. – Ela quem vocês deveriam temer. Ela pode matar, de verdade. – A Srta. Lucas encolhe-se em sua cadeira, com a minha aproximação. – Descubra para onde Tinker e Zelena foram, e me avise, estarei esperando impacientemente na minha sala. Fora isso, não me perturbe. – Ordeno. – E me consiga outro café, eu esqueci o meu aqui. – Aponto para o mesmo, que ainda está em cima da mesa dela.
Não é fácil ser eu, de jeito algum, é fácil ser eu. Eu trocaria meus milhões por paz de espírito e liberdade, trocaria sem nem pensar sobre. Porém como essa possibilidade não existe, preciso lutar para conseguir. Deus queira que eu consiga, que eu vença, que me liberte, que nos liberte.
Meu pai, eu preciso mesmo visita-lo, preciso atualiza-lo sobre a minha vida e preciso pedir, pedir para que ele interceda por mim e me ajude. Contra Cora, toda ajuda é bem-vinda. Em tempos assim, toda ajuda é bem vinda, Se o diabo é aliado dela, então eu estou indo em busca de Deus e eu vou fazer essa aliança, e não, não importa o quão doida eu esteja parecendo agora. Corajosa e forte, não isso? Eu vou fazer a minha parte, juro que vou. Não espero nada menos dos meus aliados.
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