Notas iniciais
Olá, todo mundo! Ou, olá, quem ainda está por aqui! Sei que demorei bastante, e não vou ficar aqui dando desculpas sobre, até porque, todo mundo quer saber de capítulo e não de desculpas, né não? Só peço que me perdoem. Prometo não demorar mais tanto e adianto que já tem bastante coisas do próximo capítulo prontas. Sobre desistir da fanfic, vocês podem ter certeza que isso não vai acontecer. Não importa quanto tempo demore, não vai acontecer. Essa fanfic vai ser finalizada, tenham plena certeza disso. Combinado? Muito obrigada a todo mundo que passou por aqui e deixou aquele review bacana. Obrigada pelos incentivos, pelo carinho que vocês têm pela história, e por não desistirem. Vocês são as melhores leitoras, obrigada! Alexandra Monte e Lali Mills, muitíssimo obrigada pelas recomendações lindas que vocês deixaram. Adorei o jeito como vocês colocaram as coisas, obrigada mesmo, mesmo! Acho que é isso, né? Vamos então ao que interessa.

Talvez tenha sido pelas 107 mensagens que a Srta. Swan, me enviou via WhatsApp. Talvez, pelas cinco mensagens de áudio que a Pequena Srta. Swan, me deixou no mesmo aplicativo. Talvez, pela solidão, pela falta do que fazer, ou pelas horas que hoje insistiram em se arrastar. Talvez, por tudo o que foi citado. Talvez, por um pouco mais. Não sei, e acho melhor continuar não sabendo. O fato é que aqui estou, parada em frente a porta da Srta. Swan, esperando a mesma ser aberta.

Me incomoda o fato de aqui estar, me incomoda ainda mais o fato de querer estar. Sei que o certo a se fazer, é dar as costas e ir embora o mais rápido possível, antes que alguém apareça, mas mesmo assim, meu corpo recusa-se a tal coisa, então continuo exatamente onde estou.

Sete anos, a última confraternização em que estive por vontade própria foi há sete anos. Coincidência ou não, também foi um dia de Ação de Graças. Meu pai ainda existia, minha mãe ainda tinha total controle sob a minha vida, e eu ainda era a Regina que vivia no país das maravilhas. Amava dinheiro e todas as boas coisas que ele pode proporcionar.

Enfim, a última Ação de Graças da qual fiz parte, estava rodeada por pessoas que sempre conheci, e que consequentemente, sempre fizeram parte da minha vida. Com isso podemos concluir que: em tal ocasião, não estava na casa de uma pessoa praticamente desconhecida, que há menos de um mês, chegou literalmente pela contramão e atropelou meu carro e a minha vida.

Apesar de não ter respondido nenhuma mensagem que a Srta. Swan e sua filha me deixaram, li, reli e ouvi, algumas dezenas de vezes. Foram tantas as vezes que fiz tal coisa, que em certo ponto, a razão foi vencida pela emoção, e tudo aconteceu meio que automaticamente, até o presente momento.

O problema é que ao chegar aqui, a parte emocional pediu arrego. Coitada, está completamente perdida. Há muito tempo eu a mantinha enterrada, bem, bem lá no fundo do meu ser. Na verdade, eu pensei que a mesma estivesse morta há muito tempo, e talvez estivesse mesmo, mas sendo a Srta. Swan, a pessoa irritante que é, conseguiu ressuscitar tal coisa.

Graças a tal situação, estou aqui tentando lembrar o significado de gentil, cortês, educada, e me perguntando o que vou dizer que quando abrirem a porta. “Surpresa”? “Oi”? “Boa noite”? Não, nada disso combina comigo.

Com medo do desconhecido, a emoção me abandonou e voltou para o subterrâneo, me deixando com a razão, que oscila entre me xingar e me mandar fugir.

Odeio, odeio essa situação. Odeio sair da minha zona de conforto. Não gosto da sensação de não saber o que fazer, como agir, o que dizer. Não gosto do desconhecido, e aprendi muito bem a evitar tal coisa. Então um belo dia, fui enviada para essa cidade e Vegas fez sua mágica.

Em menos de vinte dias, quebrei muitos protocolos. Bebi. Quis levar uma mulher para cama, inclusive, ofereci dinheiro para que tal coisa acontecesse. Fiz “amizade sincera” com essa mesma mulher e sua filha. Ri muito. Fui em um mesmo dia a dois parques de diversões. Joguei conversa fora. Me diverti. Me atrasei para uma reunião. Menti algumas vezes. E por último, mas não mesmo importante, escondo da minha melhor amiga que, quis passar a noite com a mulher que ela pateticamente ama.

Sou tirada dos meus devaneios quando ouço a porta sendo destravada. Tal coisa acaba com a possibilidade de ir embora que eu até então ainda tinha. Como coisas ruins sempre podem piorar, quem abre a mesma é o tal Killian.

Faz cara de surpreso ao se deparar comigo, mas tal coisa não dura muito, já que parece mais interessado em me analisar. Me olha de cima a baixo pelo menos umas três vezes. Quando se dá por satisfeito, para os olhos nos meus, leva uma mão a boca e arregala os olhos, fingindo espanto.

— Menina, é mesmo você?! – Sua voz irritante, me faz ter vontade de rolar os olhos. Poderia fazer o que faço bem, ignorar, ou dar uma resposta não muito educada, mas como estou no território dele, resolvo me conter. Aceno, afirmando que sim.

— A Srta. Swan, está? – Ele encosta-se no batente da porta e cruza os braços, dando a impressão de quem quer passar horas conversando.

— Você marcou hora? – A pergunta pertinente dele, me faz respirar fundo em busca de paciência. Afinal, vim até aqui por vontade própria. Acho justo ter como castigo, esse tipo de pessoa. Assim da próxima vez, não existirá motivos para ter próxima vez.

— Tenho cara de quem precisa marcar hora? – Lhe olho com indiferença.

— Já que está perguntando, você tem cara de quem precisa muito, mas muito mesmo, de um orgasmo avassalador. E bom, segundo maiores informações, Emma pode ofere... – Antes que ele possa concluir a frase, a Srta. Swan aparece, o puxa pelo braço e o empurra para dentro de casa, então toma seu lugar.

— Oi! – Me sorri um pouco sem graça. – Desculpe por isso. – Seu polegar aponta para trás, provavelmente para a coisa que ela chama de amigo. – Ele faltou as aulas de adestramento, por isso a falta de educação. – Até acharia graça da piadinha, se não estivesse irritada com o tal Killian.

— Eu quem não deveria ter vindo. – Balança a cabeça muitas vezes em negativo.

— Claro que deveria. Se eu soubesse que era você, não teria deixado Killian atender a porta. – Fala em tom de desculpas.

— O amor está no ar. – O infeliz provoca, fazendo a Srta. Swan me dar as costas e voltar-se para ele.

— Killian, você já bebeu, já comeu, já babou no meu sofá, agora está na hora de você ir para casinha. – A voz dela soa autoritária.

— O quê? Está me mandando embora? – Ele faz drama.

— Pode apostar que sim. – Responde com firmeza.

— Mas... – Tenta continuar, porém é impedido.

— Mas nada. – Sai da frente dele, lhe dando espaço para sair. Como ele continua parado, o puxar pelo braço e o põe para fora.

— Você quer mesmo, mesmo que eu vá embora? – Se faz de vítima.

— Quero mesmo, mesmo, mesmo. – Responde prontamente.

— Oh, mundo cruel! – Lamenta-se enquanto leva a mão a testa. – Oprimido por Donald Trump. Abandonado pelo namorado insensível que optou por passar o dia de hoje com os pais. E expulso pela melhor amiga. Eu não mereço isso, minha Lady Gaga. – Continua se lamentando, enquanto olha para Srta. Swan, com cara de purpurina sem dono.

– Até amanhã, Killian. – Está irredutível.

Em qualquer outra ocasião, eu com certeza teria ido embora. Mesmo o tal Killian, sendo... o tal Killian, ele e a Srta. Swan, parecem muito amigos, ou seja, para evitar qualquer tipo de desentendimento entre eles, o mais correto seria eu me desculpar e ir. Mas se formos ver pelo lado mais correto, eu nem deveria estar aqui. Além é claro de eu não me desculpar. Então como está tudo errado mesmo, confesso que estou quase me divertindo com a expulsão dele.

— Ingrata! – Reclama com ela, que arregala os olhos para ele, aparentemente tentando falar em códigos. Depois de alguns segundos, ela aponta o indicador em direção à rua.

Aparentemente vencido, ele balança a cabeça negativamente, suspira e resolve ir. Como uma criança birrenta, me mostra a língua ao passar por mim. Já que hoje eu com certeza não estou no meu juízo perfeito, resolvo provoca-lo.

— Hey, Killian?! – Chamo e me volto para ele, que para, para me ouvir. – Como você pode ver, não preciso de hora marcada. E se eu fosse você, rezaria para não ser a Srta. Swan, a me dar esse tal orgasmo avassalador, caso contrário, vai ser você quem vai ter que marcar hora para ver a sua amiga. – Pisco para ele, antes de me voltar para a Srta. Swan, que parece muito surpresa com a minha resposta.

— Bruxa! – O ouço resmungar.

— Devo concluir que você só queria provoca-lo, certo? – Como já é de costume, rolo os olhos para ela.

— Existe alguma dúvida? – Ela me dá de ombros.

— Dizem que milagres acontecem. – Tenta.

— Posso lhe garantir que não estamos diante de um, Srta. Swan. — Suspira, e com semblante de desânimo, concorda.

— Me desculpe pelo o que ele disse. – Pede.

— Tudo bem. – A verdade é que ele só disse em voz alta e diretamente para mim, o que 99% das pessoas com quem convivo, falam pelas minhas costas. E não, muito embora eu aprecie pessoas sinceras, isso não muda meus sentimentos, ou falta deles, por Killian.

— Como você está só quatro horas atrasada, concluí que não viria, por isso não me preocupei em abrir a porta. – Continua se desculpado.

— Já disse que está tudo bem, Srta. Swan.

— Certo. – Ao invés de me convidar para entrar, ela resolve imitar seu amigo e encosta-se no batente da porta. Como claramente chegamos ao momento: seja muito indiscreta e olhe a mulher a sua frente sem disfarçar, resolvo que para não me sentir tão desconfortável, farei o mesmo com ela.

Paro os olhos na sua camiseta preta, com a imagem de Janis Joplin, estampada. Desço para jeans preto rasgado e desbotado. Percebo também os pés descalços. Seus cabelos bagunçados que com certeza ainda não foram penteados no dia de hoje, também chamam minha atenção. Os olhos borrados me fazem ter certeza que a maquiagem que sobrou em seu rosto, também é do dia anterior.

Uma bagunça, desse jeito definiria como está a Srta. Swan. Posso dizer que nunca gostei de nenhum tipo de bagunça, mas se por um acaso eu usasse em meu vocabulário a palavra “adorável”, seria desse jeito que definiria sua bagunça. Nunca imaginei que pudesse existir uma bagunça bonita, mas cá estou, olhando para uma.

Vale lembrar que estou pensando a respeito da beleza bagunçada dessa mulher, única e exclusivamente porque hoje, e apenas hoje, não estou no meu juízo perfeito.

— A parte boa dessa história é que você está chegando super cedo para a Ação de Graças do ano que vem. – Sua voz põe fim ao momento: seja muito indiscreta e olhe a mulher a sua frente sem disfarçar.

Lhe dou de ombros.

— Eu posso ir embora. – Ameaço ir, o que a faz pegar meu braço no mesmo instante.

— Nem pense nisso, Srta. Mills. Você pode no máximo se desculpar pelo atraso. – Sugere.

— Talvez pudesse, caso conhecesse a palavra. – Ela sorri.

— Bom, acho que isso é praticamente um pedido de desculpas.

— É você quem está dizendo. – Cada um interpreta do jeito que acha melhor, certo?

— Sabe, eu tenho fé que um dia você vai responder pelo menos uma das várias mensagens que eu te mando. – Lhe lanço um olhar de reprovação.

— Trabalho com estáticas, Srta. Swan, não com fé. Como você trabalha para mim, lhe aconselho a fazer o mesmo.

— Na vida profissional, posso acatar seus conselhos, chefe. Na pessoal, quando se diz respeito a você, prefiro me apegar a fé. – Balanço a cabeça negativamente.

— Quer a minha opinião sincera a respeito? – Ela nega.

— Não, obrigada! – Responde rapidamente. – Gosto muito de me iludir. – Continua. – E bom, como está chegando o natal e como eu fui uma boa menina durante todo o ano, distribuindo vários orgasmos por aí, quem sabe Papai Noel resolve lembrar de mim? – Me pergunto se ela tem noção da quantidade de bobagens que consegue falar em menos de um minuto.

— Você cobrou por esses orgasmos, Srta. Swan. E até onde estou informada, Papai Noel gosta de pessoas altruístas. – Provoco.

— Qual é? Estamos falando sobre o Papai Noel. Sabemos que ele é poderosíssimo, muito mais do que o governo dos Estados Unidos. Ele está infiltrado em cada casa, monitorando tudo. Seus e-mails, suas ligações, seus banhos, até as mensagens enviadas e recebidas via WhatsApp. – Fala quase sem respirar. — Com isso concluímos duas coisas. Primeira... – Me mostra o dedo indicador, fazendo assim o número um. — Se você ignora todas as mensagens como ignora as minhas, você está muito encrencada com ele, Srta. Mills. – O dedo médio se junta ao indicador. – Segunda, ele sabe que eu tenho contas para pagar e que as mesmas não se pagam sozinhas, então... – O monte de bobagens que acabo de ouvir, me faz rir. – Mas, como disse anteriormente, sou uma boa menina, então nós podemos fazer uma troca. Está me ouvindo, Papai Noel? – Não sei quem tem mais problemas. Ela, que parece cada dia mais anormal, ou eu, que vim até aqui para ouvir suas besteiras. — Morena; 1,65m; corpo esbelto; cabelos castanhos escuros, na altura dos ombros; olhos castanhos, intensos e desafiadores; com uma cicatriz acima do lábio superior; boca maravilhosa, pintada de batom vermelho; cheirosa; séria; misteriosa; sexy; executiva. – É difícil alguém me deixar sem graça, ou com vergonha, mas a Srta. Swan, acabou de conseguir tal feito. Não só pelo que falou, mas também pelo jeito como falou.

Não tenho dúvidas que começou como uma brincadeira, pelo menos até a parte dos cabelos. Então seu olhar divertido deu lugar a uma expressão de luxúria. Sua voz tornou-se um tanto lascívia. E no fim, seus lábios esboçaram um sorriso, mas não qualquer sorriso, um sorriso sedutor. Além de me deixar sem graça, tal mudança de comportamento, fez com que algumas partes do meu corpo reagissem de um jeito nada aceitável.

A verdade é que no momento, não sei o que dizer. Não sei se estou com vergonha pelo que ouvi, ou pelo o que o meu corpo está mais uma vez sentindo por essa mulher.

— Você me envia ela, Papai Noel, e eu prometo ser com ela a pessoa mais altruísta de todo o mundo. – Acabo cometendo o erro de parar os olhos nos dela, o que acaba deixando tudo um pouco pior.

A impressão que tenho, é a de que ela vai atacar a qualquer momento. Me sinto como uma preza, algo como, um cordeiro indefeso. Paralisado, não só pelo medo, mas também pela curiosidade. Que sabe que tem que fugir, correr para bem longe, mas vê-se tentado a ficar, e descobrir como é estar à mercê do seu caçador.

Me sinto a pior pessoa do mundo quando isso acontece. Não por aparentemente me sentir atraída por uma mulher, ou talvez também por isso. Mas o que mais detesto nessa situação, é o fato de a Srta. Swan, ser a namorada de Tinker. Okay, é uma farsa, ela está sendo paga para tal coisa, porém os sentimentos de Tinker não são falsos. Ela ama a mulher a minha frente, qualquer um pode ver isso. Como qualquer um pode ver também, que a mulher a minha frente, não ama Tinker. O que não me dá o direito de as vezes me sentir atraída por ela.

A verdade é que a Srta. Swan, é um grande problema. Soube disso desde a primeira vez que bati os olhos nela. É uma daquelas pessoas que você sabe desde o início, que deve se manter afastada. Mas ela também tem algo que hipnotiza, acho que é seu espírito livre, junto com seu carisma, e os olhos sempre tão expressivos. Ela parece tão dona de si, e acho que não existe nada que me fascina mais do que isso. Talvez ela seja uma boa tradução para a palavra proibido. Você sabe que não pode, que deve deixar para lá, ignorar, seguir em frente, mas quando vê, está perigosamente perto demais, e se vê cada vez mais tentada a deixar-se levar.

Ela faz um jogo de sérios riscos. Não sou ingênua, não sou inocente, nem desatenta. Posso não entender absolutamente nada sobre relacionamento entre mulheres, mas sei exatamente o jogo que ela faz, como sei também, que não faz exatamente de propósito.

Sei que ela quer mesmo ser minha amiga, e está empenhada nisso. Não há dúvidas sobre tal coisa, afinal, se não quisesse, teria se aproveitado das circunstâncias na noite em que bebi demais. Porém, ela também quer me levar para cama. O que eu não sei mesmo é o porquê.

Torço para que seja por algo de razão carnal, ou para que tal feito seja mais uma das suas conquistas pessoais. Torço para que ela não tenha nenhum sentimento do tipo amoroso por mim, porque ela não vai conseguir o que quer, ou seja, vai ser a maior vítima do seu próprio jogo.

Se não quero que ela saia magoada, por que não dou um basta definitivo nisso? Porque não sou uma boa pessoa. Sou egoísta, provavelmente egocêntrica. A verdade é que mesmo não devendo, mesmo sendo melhor para mim e principalmente, para ela, não me envolver, eu me envolvi, me deixei levar.

Continuo tendo a mesma opinião, acho que essa tentativa de amizade não fará bem para ambas as partes, mas estar aqui no dia de hoje, nada mais significa do que uma desistência total. Desisti definitivamente da coisa certa.

Gosto dela, de passar um tempo com ela. Acho que gosto até dessa atração física que ela anda me causando cada dia com mais frequência. Gosto também da pequena Srta. Swan. Gosto do que elas me fazem sentir, gosto de rir, de me divertir, de fazer nada de vez em quando. Não lembrava mais do quão boa são essas sensações, e agora que lembro, não quero deixar para lá. Se para ter isso, preciso fazer parte do jogo, então estou dentro.

Desvio meus olhos dos delas, dou um passo atrás, coço a garganta e resolvo fazer o que sei fazer de melhor, ignorar, me fazer de indiferente, disfarçar e fazer de conta que essa troca significativa de olhares, não aconteceu.

— Então, cadê Janis? – Mantém os olhos em mim por alguns segundos, respira fundo e resolve seguir o mesmo caminho que eu.

— Dormindo. – Lamenta. – Mas posso acorda-la. – Discordo com a cabeça.

— Não, não faça isso. Deixe que durma. – Ela me rola os olhos.

— Até parece que você não conhece Janis. O que acha que ela vai fazer comigo, caso acorde amanhã e saiba que você esteve aqui, e eu não a acordei? – Questiona.

— Ela não precisa saber que estive. – Falo o óbvio.

— Killian, você conhece? – Okay, esse foi o jeito sutil dela, de me dizer que o amigo é fofoqueiro.

— Acho que você não escolhe bem suas amizades, Srta. Swan. – Abre a boca, tenho certeza que é para me dar uma das suas respostas engraçadinhas, mas por algum motivo, desiste. O que me deixa curiosa e talvez aliviada.

— O que tem aí nessas sacolas? – Resolve mudar de assunto.

— Nessas... – Levando as que carrego na mão direita. — Vinho. – Lhe entrego as mesmas. Ela confere o conteúdo e então assovia.

— Diria que você trouxe praticamente uma adega. – Debocha.

— Não sei de qual você gosta, então... – Dou de ombros.

— Não estava sabendo que agora você se importa com as coisas que eu gosto. – Está me provocando.

— Sabe como é, já que você me convidou, quis ser cortes e educada. Claro que não teria me dado ao trabalho, se soubesse que você nem me convidaria para entrar. – Tenho vontade de rir ao ver suas bochechas ganhando um tom avermelhado. Ela me olha sem graça, e desencosta-se do batente.

— Me desculpe por isso. – Parece realmente envergonhada. – Entre por favor. – Estende a mão para que eu passe. Como não sei o que fazer, nem para onde me deslocar, entro e paro ao seu lado. – Você quer sentar? – Aponta para o pequeno sofá preto de camurça, que divide a sala da cozinha. Aceno com a cabeça e resolvo fazer o que me foi sugerido.

É raro as vezes que existe silêncio entre nós duas, já que a Srta. Swan fala praticamente 24 horas por dia, mas enfim, estamos vivendo um desses raros momentos, o que na minha opinião é um pouco estranho. O único barulho presente no momento, é o dos meus saltos contra o assoalho de madeira, mas como a distância até o sofá é curta, o silêncio total não demora a voltar a se fazer presente.

Sento-me no canto do sofá, cruzo as pernas, e sem saber o que fazer ou o que dizer, levanto a cabeça e encaro a Srta. Swan, que está de pé, parada em minha frente. Quando penso em perguntar se aconteceu algum problema com a sua língua, ela resolve voltar ao normal e pôr fim ao voto de silêncio. Aponta para as sacolas que tenho na mão esquerda.

— E isso aí, o que é?

— Chocolates. São para Janis. – Arqueia as sobrancelhas.

— Não me diz que trouxe a loja de chocolates? – Parece um pouco preocupada.

— Só alguns. – Aproxima-se, e eu lhe entrego as sacolas. De novo, ela resolve conferir o conteúdo.

— Só estou me certificando que não trouxe junto com TODOS esses chocolates o Willy Wonka. – Muito embora não queira rir da sua piada idiota, acabo rindo.

— Você é ridícula, Srta. Swan. – Acuso.

— E você é exagerada. – Resmunga enquanto balança a cabeça negativamente, aparentemente reprovando meu ato. Já estou pronta para ouvir todas as reclamações ligadas ao meu “exagero”, mas para minha surpresa, não acontece. – Então, qual desses vinhos eu abro? – Lhe dou de ombros.

— São seus, abra o que achar melhor. – Ela ri, me deixando sem entender. – O que foi?

— Devo entender todos esses vinhos como um presente? – Depois de fazer tal pergunta, sai do meu campo de visão, provavelmente está indo até a cozinha.

— Entenda como quiser, Srta. Swan. – Respondo sem vontade, enquanto passos os olhos pela sua sala. Acabo os parando na pequena lareira acesa, ficam fixos no fogo por alguns segundos e então sobem pela parede grafitada.

Acho que é uma das imagens mais conhecidas do mundo, exceto que, não é John Lennon, nem Ringo Star, tão pouco Paul McCartney, ou George Harrison, que estão atravessando a tão famosa faixa de pedestres. Beyoncé, Lady Gaga, Rihanna e Britney Spears, são elas atravessando a rua. Não faço ideia de quem recriou tal obra, mas ter colocado Britney Spears e “esquecido” de Cher, soa quase como uma ofensa. Bom, como a casa não é minha, a sala não é minha, a parede tampouco, resolvo guardar a opinião para mim e seguir em frente.

A parede ao lado de tijolinhos rústicos onde está fixada a TV de pequenas polegadas, também é grafitada, assim como o rack branco e baixo. A mesa de centro, não sei se é rústica por falta de opção, ou de cuidados, mas o fato é que combina com o ambiente. Sobre a mesma, as únicas coisas presentes são, um grande cinzeiro do Darth Vader, um controle remoto, e um porta-retratos que carrega a foto da Srta. Swan e Janis, ambas deitadas sobre a grama, os olhos quase fechados pela claridade, e sorrisos largos no rosto. É impressionante o quanto se parecem. Os cabelos, os olhos, o jeito como sorriem. Não sei por quanto tempo minha atenção fica presa na imagem, o fato é que quando percebo, a Srta. Swan já está de volta, parada em minha frente.

Me sinto flagrada, e acabo ficando um pouco sem graça.

— Não é a nossa melhor foto, mas tem toda uma história envolvida. – Me conta.

— É um belo retrato. – Dou a minha opinião sincera.

— Nesse caso, obrigada! – Me sorri e me estende uma bandeja de café da manhã.

— Não acha que está um pouco cedo para o café, Srta. Swan? – Ela me mostra a língua.

— É seu jantar. Como não temos uma mesa para refeições, temos bandejas. Assim podemos nos ajeitar em qualquer lugar. – Explica. – Você pode também sentar-se no chão e usar a mesa de centro. – Dá outra opção.

— Estou bem assim, obrigada. – Me estende a bandeja, e só a solta quando vê que a mesma está bem posicionada em minhas pernas

— Peru, molho de cranberry e batata-doce com marshmallow. – Pelo jeito como fala sobre o prato, tenho certeza que assiste um desses muitos programas culinários. – Fiquei em dúvida sobre a harmonização do vinho, então pedi ajuda ao Google, ele sugeriu alguns. Bourgogne — Pinot Noir, foi o escolhido, já que você o trouxe na sua adega. – Conclui a apresentação.

— Foi você quem cozinhou? – A verdade é que a comida apresentada tem um aspecto bom, o mesmo vale para o cheiro.

— Sim. A notícia boa é que todos comeram e sobreviveram. A ruim é que como já estava tudo frio, precisei esquentar no micro-ondas. Enfim, provavelmente será a pior comida que você vai provar na vida, mas como você é visita, trate de sorrir e dizer que estava tudo muito bom, obrigada. – Acho graça da preocupação que tem por trás da tentativa de piada.

— Mais alguma observação, Srta. Swan? – Nega.

— Bom apetite, Srta. Mills. – Deseja, e mais uma vez se retira.

Olho para comida desejando que a mesma não seja ruim, ou pelo menos, não seja muito ruim, já que foi me servido uma quantia bem considerável. Como estou sem muitas alternativas, resolvo parar de observar e provar e confesso que acabo surpreendida.

Okay, não é a melhor comida que já comi na vida, mas também passa muito longe de ser a pior. Diria que está muito bom. A carne está macia, mesmo tendo sido esquentada no micro-ondas, e o molho de cranberry está muito, muito bom. Até a batata doce com marshmallow, coisa que não sou muito fã, está saborosa.

— Então? – Ela está de volta, acompanhada não só de uma taça de vinho, como também da garrafa. Deposita o litro sobre a mesa, então senta-se no chão, de frente para mim.

— Está bom. – Respondo depois de dar um gole no vinho. A propósito, outro ponto positivo para ela, ou para o Google. O importante é que a harmonização está perfeita.

— Que resposta mais vaga, Srta. Mills. – Reclama. – Que nível de bom?

— Nível que dá para comer quando é preciso sobreviver. – Minha falsa opinião parece deixa-la sem jeito. – Se você morasse em Nova York, se Elizabeth, minha governanta e também cozinheira, não fosse morrer de ciúmes, se você fosse menos... você. Talvez, e deixo bem claro o talvez, eu viesse a contrata-la para cozinhar para mim, caso todas as suas comidas sejam assim saborosas. Esse é o nível de bom. – Minha resposta com certeza a deixou surpresa, constato isso porque além de estar boquiaberta, seus olhos estão arregalados. Tenho vontade de rir, mas me limito a voltar a comer.

— Isso é sério mesmo? – Mastigo pacientemente, dou mais um gole na bebida, volto a mastigar, e só quando estou devidamente de boca vazia, é que resolvo responde-la.

— Isso é sério mesmo. – Confirmo. – Aparentemente, você cozinha muito bem, Srta. Swan, parabéns. – Elogio. – Caso as coisas não deem certo em turismo e hotelaria, talvez deva investir em gastronomia. – Ela continua surpresa, como se de repente a coisa mais impossível do mundo, fosse ouvir um elogio meu.

— Srta. Mills, é mesmo você, ou algum espírito bondoso se apossou do seu corpo? – Minha resposta é um rolar de olhos. – Okay, entendi. Essa rolada de olhos significa que é mesmo você. – Volto a comer enquanto ouço suas besteiras. – Nesse caso... – Coça a garganta. – Muito obrigada, e caso você desista da governanta, Emma Swan é o meu nome. Limpo, lavo, passo, cozinho, organizo, danço e canto. – Fala quase sem respirar. — Inteiramente grátis, ofereço sexo gostoso. – Claro que ela não deixaria essa parte de fora. – Posso beijar na boca também.

— Sabe o que também você pode fazer com a boca, Srta. Swan? – Minha pergunta a deixa apreensiva. Com certeza está pensando alguma besteira. Ela balança a cabeça em negativo. – Fecha-la. – Sugiro e lhe dou um sorriso falso.

— Posso fazer coisas muitíssimo mais interessantes com ela aberta, Srta. Mills. – Seu tom sugestivo me faz respirar fundo em busca de paciência.

— Onde está seu exótico bicho de estimação? – Não que eu queira vê-lo. Só quero mesmo mudar de assunto.

— Está dormindo com Janis e Elvis Regina, quer conhece-lo? – Nego muitas vezes.

— Não, obrigada! Só queria me certificar que ele está mesmo longe. – Ela ri.

— Quem diria, hein? Regina Mills, a inabalável, com medo de um inofensivo camaleão.

— Pode até ser inofensivo, além de asqueroso.

— Ele não é asqueroso. – O defende. Já eu, me limito a comer. – Vou deixar você jantar em paz, só depois vou acordar Janis. Ela com certeza vai fazer você conhecer o Leão. Quero só ver o que você vai fazer, já que vive fazendo todas vontades dela.

— Se eu fizesse todas as vontades dela, eu viria até sua casa todos os dias, Srta. Swan. Com isso você pode concluir que a amizade entre seu bicho exótico e eu, não vai de jeito nenhum acontecer. – Ela aponta para mim com a mão que segura a taça.

— Ponto para você. – Sorri e então dá um gole no seu vinho, e bom, por algum motivo, acabo esboçando um sorriso.

Como a falta de assunto volta a aparecer, ela estica o braço e pega o controle da TV sobre a mesa de centro. Põe em um canal de clipes músicas e concentra-se nele. Boa parte do meu jantar, ela passa em estranho silêncio, prestando atenção nas músicas velhas, ou pelo menos, fazendo de conta prestar. Às vezes me espia pelo canto dos olhos. Outras vezes cantarola com a TV. E algumas outras, dá pequenos goles em seu vinho. Enfim, o fato é que ela nunca ficou tão silenciosa, como está agora. Acho um pouco estranho e talvez intrigante. Confesso que gostaria de saber sobre o que ela está pensando.

Ela se volta para mim, assim que me ouve juntando os talheres.

— Quer repetir? – Nego.

— Não. Estava realmente muito bom, Srta. Swan, mas estou satisfeita. Obrigada! – Faço menção em levantar para ir até a cozinha deixar a bandeja, mas ela é mais rápida. Em um pulo se põe de pé, e pega o objeto das minhas mãos, além de me olhar de cara feia.

— Seja uma boa visita, Srta. Mills. – Me dá bronca, enquanto retira-se.

— Até onde eu saiba, uma boa visita ajuda com a louça. – Retruco.

— Não na minha casa. – Responde. – E aposto que na sua também não. – Dou um gole na minha bebida, antes de responde-la.

— Não recebo visitas. – Como bebi todo o liquido da taça, me inclino para alcançar a garrafa na mesa de centro. Me sirvo e faço o mesmo com a taça dela.

— Sério? Você é tão simpática, e tão aberta. Na minha imaginação, sua casa vive sempre cheia de muitas visitas. – Sua ironia me arranca um sorriso. – Quantas pessoas saíram vivas do seu calabouço? – Me provoca.

— Está me chamando de bruxa, Srta. Swan? – A ouço rindo.

— Uma linda, cheirosa e sexy, bruxa. – Está de volta a sala. Paga sua taça de vinho e senta-se ao meu lado. – Quando vai me convidar para conhecer sua humilde residência? Se você quiser, pode até me pôr no seu caldeirão, eu não me importo. – Deita a cabeça no encosto do sofá e volta o rosto para mim.

— Nunca. – Respondo sem pestanejar.

— Nesse caso, não me resta outra alternativa a não ser chegar de surpresa. – Insiste.

— Nem tente, não vou estar em casa nesse dia. – Minha resposta a faz rir.

— Eu acampo em frente à sua porta. – Tenta de novo.

— Digamos que você consiga burlar a segurança, e faça tal coisa, eu chamo a polícia. – Seu dedo indicador cutuca meu braço.

— Não chama não. – Está claramente duvidando de mim.

— Chamo sim.

— Você não teria coragem. – Rolo os olhos e a encaro.

— Estamos mesmo falando de mim, Srta. Swan. – Suspira e resolve concordar comigo.

— Okay, você chamaria a polícia. – Admite. – Mesmo assim, vale o risco. – Tenho vontade de sorrir, mas ao invés disso, dou de ombros, fingindo não ligar. – Você decidiu de última hora, certo? – Olho para ela a fim de entender a pergunta.

— Perdão?

— Vir até aqui, você decidiu de última hora. – Explica. Tiro os olhos dela e os concentro na televisão. Aceno com a cabeça, confirmando o que me foi perguntado. – Por que resolveu vir? – Respiro fundo, enquanto penso a respeito.

— Eu não sei. – Solto com o ar. – Só resolvi. – É a melhor resposta que posso lhe dar.

— Melhor do que ficar sozinha, certo? – Concordo.

— Melhor do que ficar sozinha e melhor do que voar até Nova York, e passar uma desagradável noite ao lado da minha mãe. – Admito sem problema alguma.

— Você sempre passa as datas comemorativas com sua família? – Nego.

— Não. Ação de Graças e natal, geralmente fico sozinha. Réveillon, em Londres com Robin. – Conto.

— Enquanto umas vão para Londres só para passar o réveillon, outras vão até o bar da esquina. – Me faz rir.

— Você se diverte? – A questiono.

— Pode apostar que sim.

— Então o bar da esquina é suficiente. – Concluo.

— Você não se diverte? – Arqueia as sobrancelhas.

— Bom, eu fico sentada em um sofá, tomando chá e ouvindo histórias sobre a rainha Elizabeth até dar meia noite. Então desejo feliz ano novo as pessoas envolvidas, me retiro e vou dormir. – Ela faz cara de desânimo.

— É pior do que eu poderia imaginar. – Lamenta. – Todas as suas confraternizações são assim entediantes? – Afirmo com a cabeça. — Você nunca, nunquinha se divertiu em uma? – Volto a afirmar.

— Sim, principalmente nas em que eu era criança. Mas a última da qual participei também foi boa. – Conto. — Meu pai estava inspirado naquela noite, acho que nunca ri tanto em toda minha vida. Lembro de não querer ir embora, para não ter que pôr um fim aquele momento. Enfim, fui a última a sair da festa. Ele abriu a porta para mim, beijou minha testa, e me prometeu que assim que melhorasse, nós dois faríamos a transiberiana. Sem celulares, sem e-mails, sem qualquer tipo de comunicação com o mundo. – A lembrança de suas palavras me faz esboçar um sorriso. – Desde criança eu sempre quis fazer essa viagem, e ela foi adiada algumas dezenas de vezes, até por fim eu desistir. Ele me disse que seria meu presente atrasado de natal. – Balanço a cabeça negativamente. – Nunca aconteceu. Duas semanas depois, ele morreu. – Emborco minha taça de vinho, tentando emborcar também, as emoções que a recordação me trouxe.

— Sinto muito. – Ela sussurra. Sinto as costas dos seus dedos alisarem meu braço, e não faço nada para repelir.

— É, eu também. – Solto com o ar.

Hozier — Take Me To Church

— A vida é uma merda. – Concordo.

— Sim, ela é, Srta. Swan. – Lamento. – Sabe, eu acho que não tem nada a ver com dinheiro, tem a ver com sorte. – Filosofo. Imitando ela, deito minha cabeça no encosto, e viro o rosto em sua direção. – Algumas pessoas nascem com sorte para a felicidade. Não importa o quão pouco dinheiro tenham, elas simplesmente são felizes. – Opino. – Outras, não importa quanto dinheiro tenham, simplesmente não são. – Parece pensar a respeito.

— Não, não tem a ver com dinheiro, nem com sorte, na minha opinião. Tem a ver com você, com as suas atitudes. — Sua voz sai quase sussurrada. — Enquanto você viver para agradar alguém, e não a si, você vai ser uma pessoa perdida, infeliz, provavelmente. Acho que tem a ver com libertar-se. Das pessoas, das opiniões, dos medos, das aparências, do que moldaram você para ser. Sabemos que felicidade é um estado de espírito, mas até onde eu sei, nenhum estado de espírito é feliz aprisionado. – Meus olhos estão fixos nos dela, enquanto penso no que acabou de me falar. Faz sentido, não faz? Minha cabeça concorda.

— Sabias palavras, Srta. Swan. – Ela sorri, desliza os dedos pelo meu braço, seu dedo mindinho engata no meu. – Como é? – Arqueia uma sobrancelha, não entendendo minha pergunta.

— Como é o quê?

— Libertar-se, como é? – Nossos olhos continuam fixos uns nos outros, e talvez seu rosto esteja mais próximo do meu.

— Sabe aquele sentimento bom de alívio, onde você realmente se sente mais leve? – Afirmo com a cabeça. – É assim. Você sente como se de repente, uma carga muito pesada, fosse tirada de cima de você, e você consegue respirar. – Entendo perfeitamente o que quer dizer, mesmo eu nunca tendo sentido essa sensação de alívio.

— Parece ser bom. – Deixo escapar meu pensamento.

— Você não tem ideia do quanto.

— Você não se arrepende desse grito de liberdade? Quer dizer, libertar-se custo um pouco caro para você. – Nega com a cabeça.

— Sim, custou, ainda custa, mas não me arrependo. Só me arrependo de ter ouvido meus pais. De ter sido tão idiota a ponto de tê-los deixado me levar até um pastor, em busca de uma “cura”. Me arrependo de tê-los deixado me tratar como uma pessoa doente. Me arrependo de por um tempo, achar que eu tivesse mesmo um problema. Que pudesse mesmo mudar. – Seu tom de voz continua baixo, mas fala com um tom de ressentimento. – Eu não sou doente, ou se sou, a verdade é que, como diz a música, eu amo ser. Meu Deus, eu sou 120% lésbica, eu amo mulher, amo muito. Não gostar de mulher, isso sim deveria ser pecado. – Seu exagero me faz rir. — Não preciso e não quero nenhum tipo de cura. Eles, os homofóbicos, esses sim precisam. O ódio deles, a repugnância que sentem, o preconceito sem medidas, essas coisas precisam de cura. – Sem saber o que dizer, apenas aceno com a cabeça, concordando. – Janis me libertou, fez eu me aceitar do jeito que eu sou, me fez ver que não era eu a errada nessa história. Costumo dizer que, eu dei a vida a ela, e ela me presenteou com a liberdade. – Faz uma pausa para respirar. – Engravidar me fez ver quem realmente são meus pais. – Finaliza.

— Eles nunca procuraram por vocês? – Questiono.

— Duas semanas depois de Janis nascer. Me disseram que se eu entregasse ela para a adoção, poderia voltar para casa. – Seu tom amargurado está de volta. – Foi a última vez que os vi.

— Admiro a sua coragem, Srta. Swan. – Ela esboça um sorriso.

— Sabe, ter coragem não significa não ter medo. – Seus olhos voltam a ficar fixos nos meus. – Mas as vezes não existe outra saída a não ser enfrentar esses medos, caso contrário você acaba morrendo sufocada por eles. – Sem que eu espere, ela entrelaça seus dedos nos meus, leva minha mão até sua boca e a beija. Só então eu me dou conta do quão próximos nossos rostos estão. Minha mão fechada na dela, essa é a distância que nos separa. — Seja feliz, Regina! – Não sei se meu coração está transtornado pelo seu pequeno ato, pela pouca distância existente, ou pelo jeito como me mandou ser feliz. A possibilidade das três alternativas, também é bastante plausível. – Você merece ser feliz. – Por uns segundos, penso em afastar minha mão da sua e meu rosto do seu, mas ao invés de fazer tal coisa, aperto meus dedos em sua mão e lhe sorrio.

— Meu estado de espírito está feliz nesse momento, Srta. Swan. – As palavras escapam da minha boca, e ao fazerem isso, arrancam dela um sorriso.

— Meu estado de espírito também está feliz nesse momento, Srta. Mills. Está muito, muito feliz. Do tipo: soltando fogos de artifício. – Acabo retribuindo seu sorriso largo, enquanto mantemos esse magnetismo.

A verdade é que eu deveria levantar e ir embora, fugir para longe. Tenho plena consciência disso, mas nesse exato momento, essa possibilidade não é possível. Não tenho tamanha força de vontade. Nesse exato momento, não existe nenhum outro lugar em que gostaria de estar, a não ser aqui, nesse sofá, com essa mulher, na já não tão mais desagradável assim, cidade de Las Vegas.

Notas finais
Por hoje é isso aí. Como vai terminar essa noite, bem, mal, NDA? Sobre os próximos capítulos, DR, Cora, Zelena, uma fugidinha, e quem sabe, um encontro oficial. Como sempre, conto com os reviews de vocês. Bom resto de semana e até breve!