Notas iniciais
Boa noite, boa noite, boa noite! Como estão vocês? Eu também tô bem, obrigada! Antes de mais nada, venho através desde, agradecer. É repetitivo, eu sei, mas eu vou sempre agradecer, então né, é isso aí. Primeiro, obrigada a todas que dedicaram uma hora, ou provavelmente duas, para ler o último capítulo que ficou quase a versão simplificada da bíblia. Segundo, obrigada que foi além, e além de ler deixou aquele review bacana, aquele review amigo, aquele incentivo. Obrigada a quem favoritou! Obrigada a quem chegou agora e está dando uma chance pra fanfic. E obrigada quem chegou têm anos e já perdeu as contas de quantas chances deu. Enfim, todas recuperadas da montanha russa do último capítulo? Preparadas para a próxima? Gente, eu achei que aquele seria o maior capítulo da fanfic, até eu terminar esse de hoje, e bater um novo recorde. Peço desculpas pela imensidão dele, por não conseguir conter meus dedos e escrever como se não houvesse amanhã. E sugiro que vocês deitem, ou procurem uma poltrona bem confortável, porque o caminho até chegar ao final desse capítulo, é longo. Aviso importante: o capítulo não contém tapas na cara.

Eu odeio aquele idiota, odeio. E não é só ódio, é nojo, desprezo, repulsa, repugnância. Eu o abomino, sinto pesar em saber que sou sua filha, saber que tenho o DNA dele, os genes dele. Tenho pavor em pensar que herdei alguma coisa desse infeliz, pavor de ter um pai monstro.

Queria ir atrás dele, queria socar a cara daquele infeliz até descontar todo meu ódio, até descontar todas as surras que ele deu na minha mãe, até descontar todas as vezes que ele gritou e assustou minha irmã, até descontar todos os chutes que ele deu no meu cachorro. Queria que ele provasse do próprio veneno, queria vê-lo engasgado com o próprio sangue. Queria ouvi-lo me pedindo para parar, como muitas vezes minha mãe fez. Cada dor, cada sofrimento, cada terror causado, eu queria que voltasse para ele.

Dizem que o mundo dá voltas. Dizem que o que aqui se faz, aqui se paga. Falam sobre a lei do retorno. Mas será mesmo que isso existe? Quando eu penso sobre meu pai, ou qualquer outro animal do tipo dele, eu fico me perguntando isso.

Eu era uma criança, quando ele começou a bater na minha mãe, quando começou a ofende-la, a ameaça-la, a assusta-la. Desde então já se passaram muitos anos e ele nunca, nunca foi punido. Minha mãe nunca teve coragem de ir até a delegacia denuncia-lo, nunca me permitiu fazer o mesmo, e quando eu fui expulsa de casa, ela preferiu ficar com o espancador.

Minha mãe também nunca se formou no colegial, nunca pôde sair de casa desacompanhada, nunca pôde ficar na casa de uma amiga, nunca conseguiu conhecer o significado de: caminhar com as próprias pernas. Ela foi criada praticamente dentro de uma igreja. Foi ensinada que a mulher nasceu para servir o seu marido. Falaram para ela que o casamento é para sempre, não importa o que aconteça. Lhe disseram para obedecer sem questionar, lhe disseram para nunca levantar a voz, nunca levantar os olhos.

Minha mãe conheceu o meu pai dentro de uma igreja. Controverso, não? Porque esse homem que deveria ser de Deus, fez da vida dela um inferno durante todos esses anos. Porém, o que ela poderia fazer a respeito, se o casamento é para sempre? Como ela questionaria, se não podia? Como poderia pensar em uma saída, se durante toda sua vida foi educada para que não existisse saída?

E aí você vai me dizer que nós estamos no século XXI, e eu vou responder que sim, nós estamos, e que no século XXI, existem muitas minhas mães espalhadas por aí. Algumas com motivos semelhantes, outras com outros motivos, outras já até morreram, mas todas com algo em comum: o marido agressor que prometeu ama-las e respeita-las.

Onde está a lei do retorno para esses maridos? Onde estão os vizinhos que ouvem os gritos, ouvem as agressões, ouvem as ameaças, mas são da política que diz: em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher? Por que se calam? Por que não ajudam? Por quê? Onde estão as leis? As nossas leis? As leis que deveriam proteger essas mulheres? Onde estão? Por que elas existem, mas muitas e muitas vezes não são aplicadas?

Sabe o que é mais estranho do que existir mulheres que ainda não denunciam seus agressores em pleno século XXI? É ainda existir agressões. É existir agressões. Agressões.

Eu deveria ter denunciado, mesmo contra a vontade dela, eu deveria. Mesmo depois de ter sido expulsa de casa, eu deveria. Mesmo magoada, chateada, ferida, eu deveria. Mas eu não fiz. Eu fui o vizinho da política que não se mete na briga de marido e mulher. Eu fechei os olhos, cobri os ouvidos e não ajudei. Não ajudei alguém que por ter sido criada para a ignorância, nunca soube como se ajudar, nunca pensou que podia aceitar ajuda.

Agora estou aqui, andando eu, o arrependimento e a culpa, de um lado para o outro nessa sala minúscula, enquanto espero alguém resolver algo que eu já deveria ter resolvido há muito tempo. Torcendo para que ela fique bem. Para que Anna fique bem. Torcendo para que elas se recuperam de todos os danos causados, e sigam.

Eu queria soca-lo, por todos os motivos que eu já citei, e também para quem sabe, me sentir menos culpada, menos pesada, menos o vizinho mudo. Eu queria. Queria.

Depois de uma tarde inteira, a porta de casa finalmente é aberta. Por ela entra Zelena. Um semblante sério, pesado. Troca um breve olhar comigo antes de fechar a porta atrás de si e caminhar em minha direção.

Minhas pernas fraquejam, meu coração acelera. Tenho medo do que ela tem para falar, medo do que posso ouvir. Tenho medo de ouvir que minha mãe agora faz parte da estática de mulheres mortas. Esse é um daqueles momentos da vida em que a gente não quer ouvir, mas não existe essa opção. É algo que você precisa fazer.

Ela para diante de mim, suas mãos tocam meus braços e os afagam. Um gesto que me fala que ela sente muito.

— Então, o que aconteceu? Como minha mãe está? Cadê Regina? – Disparo as perguntas. Me pergunto por que diabos Regina não está aqui? Ela deveria estar, não deveria? Se não está, é porque algo não deu certo. Regina não está porque ficou para resolver alguma coisa. E eu só consigo pensar no pior.

Zelena esboça um pequeno sorriso, solta um suspiro cansado e aponta para o sofá.

— Vamos sentar. – Eu não quero sentar, eu quero saber o que aconteceu, eu preciso saber, mas no momento, não acho minha voz para falar isso. Deixo que me puxe pela mão, e me leve até o sofá. Ela se acomoda, cruza as pernas, volta a suspirar, e me analisa. — Como você está? – Pergunta em um tom calmo, baixo e talvez um tanto preocupado. Sua mão sua afaga minhas costas.

— O que aconteceu? – Volto a questionar. — Foi algo grave, não foi? – Sua mão agora agarra minhas mãos tremulas.

— Regina pediu para me certificar de como você está, antes de te falar as coisas. – Começa e faz meu coração bater ainda mais apressado. — Mas não se preocupe, na medida do possível, está tudo bem. – Tenta me tranquilizar e acho que consegue. Quer dizer, posso concluir que não aconteceu o pior, tal coisa faz com que eu volte a respirar.

— Estou morrendo de ansiedade, preocupação e ódio. – Conto. — Eu já olhei algumas vezes para essa porta, tentada a levantar daqui e ir atrás daquele infeliz. Só não fui, porque sua irmã me fez prometer que não iria. – Acho que minha voz está mais tremula do que minhas mãos.

— Vamos por partes. – Solta com o ar. – Me ligaram do hospital, falando o que tinha acontecido com a sua mãe.

— Por que ela não ligou para mim? – Interrompo.

— Porque aparentemente ela sabia, ou imaginava que o seu pai concluiria que você tinha deixado um número, um endereço ou algo do gênero. Então ela deixou esse número visível, para que ele pudesse destruir, e escondeu o meu. – Volta a afagar minhas mãos. – Sua mãe estava quase incomunicável com o mundo. Ela não podia ter um celular, não tinha um telefone fixo. Não tinha uma amiga. Não tinha um computador, notebook, tablete... Qualquer contanto com a internet então, acho que ela não sabe nem o que é isso. – Balanço a cabeça negativamente, e mais uma vez na tarde, me pergunto como eu deixei isso acontecer? Como permiti que chegasse nesse extremo?

— Então, como aconteceu? – Quero saber.

— Sua irmã estava chorando, querendo atenção da sua mãe, que estava fazendo o almoço. Seu pai chegou em casa e irritou-se pelo almoço que ainda não estava pronto, e pelo choro de Anna. – Sorrio sem humor. Era exatamente do mesmo jeito comigo. Eu não deveria ter mais de cinco, seis anos quando começou, mas lembro perfeitamente de como acontecia. Do que vinha junto com a irritação. — Ele gritou com a menina, ela assustou-se e correu para mãe. Irritado com toda a situação, ele foi até elas, puxou sua irmã que estava agarrada nas pernas da sua mãe, e acabou a derrubando. – Fecho as mãos em punho, ao ouvir tal coisa. Se ele bateu na criança, eu vou atrás desse infeliz e vou mata-lo, juro que vou. – Aparentemente ele tentou ir para cima da menina e sua mãe conseguiu fazê-lo desistir, quando contou que hoje elas estariam deixando ele. Ao falar tal coisa, ele desistiu da sua irmã e partiu para cima de Mary. Acho que você não precisa saber sobre as agressões físicas cometidas. – Deixo uma lágrima solitária cair e rapidamente me desfaço dela. Eu não tenho esse direito. Chorar? Não, eu não mereço. Não quando eu pude evitar e não fiz.

— Eu quero saber. Eu preciso saber, por favor, me conte. – Peço. Ela suspira.

— Regina me pediu para que... – Volto a interrompe-la.

— Eu resolvo com ela depois, me fale, eu tenho esse direito. – Insisto.

— Para que você quer saber? Para que quer sofrer, se martirizar com isso? – Dispara as perguntas. — Porque eu sei que é o que você vai fazer. A culpa não é sua, Emma. Assim como não é da sua mãe. – Balanço a cabeça discordado.

— Minha mãe cresceu na ignorância, Zelena, e viveu nela a vida inteira, mas e eu? Eu deveria tê-la arrancado de lá há anos. Só que eu não fiz. De novo tive a oportunidade de fazer na tarde em que fomos lá, de novo não fiz. Eu deveria... deveria ter trazido Anna, deveria. Sei que se eu tivesse feito isso, minha mãe teria vindo atrás. – Zelena discorda. Olha para mim com compaixão, compaixão essa que eu não mereço.

— Você sabe que você seria presa por isso, certo? – Questiona. – Sua mãe não faria nada a respeito, mas tenho certeza de que o seu pai iria até a delegacia, e acusaria você de roubo. – Fala. – Você poderia dar queixa, falar sobre ele quase ter te enforcado, falar sobre as ameaças, mas mesmo assim, você não teria o direito de ter roubado, por assim dizer, a criança. Você acabaria presa, porque legalmente, não é desse jeito que se resolve. – Expõe seu ponto de vista, sua opinião de advogada. – Legalmente, eles são os pais dela e não é tão simples assim tirar uma criança dos pais. – Finaliza.

— Eu deveria ter tentando. Deveria ter feito alguma coisa. – Levo as mãos aos cabelos e os puxo, tentando extravasar minha frustração, a raiva que estou tendo de mim.

— Você tentou, você fez. Você ofereceu ajuda, você disponibilizou a sua casa. Você se disponibilizou para arcar com as despesas financeiras. Você a incentivou. Você pediu. Eu estava lá, eu vi. – Tenta em vão, me defender.

— Por que essa história de caiu das escadas? Ela ainda não quer denuncia-lo, quer? – Porque se for isso, eu vou até aquele hospital e se for preciso amarra-la, amordaçá-la para traze-las para cá, eu farei.

— A princípio, ela não queria. Estava bem assustada, apavorada. Eu estava trabalhando em convencê-la quando Regina chegou lá, e com menos de cinco minutos de conversa, fez sua mãe mudar de ideia. – Regina, sempre Regina. Eu não sei mais nem o que dizer, ou o que pensar sobre ela. Só sei que vou ser eternamente grata a quem quer que tenha colocado essa mulher na minha vida. Eternamente. – Não demorou muito, dois policias estavam lá, tomando depoimento.

— E onde ela está? E Anna, como está? E David? – Faço as perguntas todas de uma vez.

— Minha irmã está no hospital, sua mãe não quer passar a noite lá, então Regina vai assinar um termo de responsabilidade, para poder liberá-la. – Conta. — Anna está bem, assustada, mas bem. Está na ala infantil, em observação. Mais pelo fato de a sua mãe estar internada e a criança não ter com quem ficar, do que outra coisa. – Responde mais uma pergunta. — O seu pai? – Respira fundo. — Eu deixei elas no hospital e acompanhei os policiais até a delegacia, falei sobre o que ele tinha feito com você, sobre as ameaças que ouvi. Só não incluí a arma que Regina apontou para ele, já que sua mãe já tinha feito o mesmo. – Concordo com a cabeça. — Amanhã você precisa ir até lá e dar seu depoimento e denunciá-lo. – Volto a concordar. – Enfim, ele está foragido. Os policiais foram até a casa dele e não encontraram ninguém. Vizinhos falaram que o viram saindo com uma mala. Então concluímos que ele fugiu. – Claro que ele fugiu, claro que fez isso. Que homem covarde que bate na mulher uma vida toda, vai ficar em casa e esperar que a polícia venha atrás dele, para que quem sabe, ele comece a pagar pelo que fez?

— Covarde! Maldito covarde! – Esbravejo.

— Eles vão encontra-lo. Ele vai pagar por tudo que fez. – Tenta me animar, enquanto volta a afagar minhas costas.

Balanço a cabeça negativamente e a encaro. Está preocupada comigo, vejo em seus olhos. Nesse momento, não lembra nenhum pouco a Zelena cheia das gracinhas, das risadas. A mulher de ar superior, despreocupada, que gosta de exalar sua riqueza. No momento parece uma pessoa de carne e osso, preocupada, talvez um pouco assusta e que se importa. Por algum motivo, ela se importa. E eu lhe sou grata por se importar. Por se preocupar. Por ajudar.

— Obrigada, Zelena! Eu de verdade não sei como agradece-la. Eu vou lhe ser grata pelo resto da minha vida. – Me sorri.

— Para isso servem os amigos, e é isso que somos, não é? – Retribuo seu sorriso e confirmo com a cabeça.

— É isso que nós somos. Conte comigo, para qualquer coisa. Não importa o que seja, me chame. – Pelo jeito como faz pensar sobre, sei que a Zelena engraçadinha, está prestes a dar as caras.

— Nada que envolva bebidas alcoólicas, certo? – Me faz balançar a cabeça negativamente.

— Você merece coisas boas, Zelena. Muitas coisas boas. Uma vida de coisas boas. Então não, nada que envolva bebidas alcoólicas. – Faz cara de pesar.

— Bebidas alcoólicas são coisas boas, mas enfim, eu entendi o que você quis me dizer. – Suspira antes de continuar. — Você pode não saber, mas você já me ajuda. Você dá um tipo de sexo a minha irmã, que deixa ela radiante. Só falta ela saltitar de felicidade. Até simpática e com uma certa paciência ela fica. – Ao ouvir tal coisa, acabo rindo. – Mais do que amigas, nós somos cunhadas. – É o que me fala.

— Mais do que amigas, nós somos cunhadas. – Concordo.

— Mais do que minha amiga e cunhada, você é minha sexóloga. – Balanço a cabeça negativamente. Com certeza a Zelena engraçadinha voltou a habitar esse corpo, junto com ela veio a Zelena curiosa. E bom, eu poderia insistir no assunto da agressão, mas talvez seja bom para mente, tentar desfocar um pouco disso.

— Então, é o seu segurança? Ele quem lhe fez ter interesse em questionar e buscar respostas para todas as perguntas sexuais que me faz? – Questiono e vejo que ficou pouco à vontade, quando ela desvia os olhos dos meus.

— É complicado. – Tira a mão das minhas costas, encosta as costas no sofá, descruza as pernas para cruza-las para o outro lado, e descansa as mãos sobre as mesmas.

— Vá em frente. – Incentivo. – Sou uma boa ouvinte. – O que mais fiz na minha ex profissão, além de sexo, foi ouvir. — E também boa em entender coisas complicadas. – Lhe garanto.

— Certo. – Solta com o ar. – Eu gosto dele... – Começa. – Não do mesmo jeito como Regina gosta de você e vice-versa. Não é assim patético, nem poético, nem romântico. – Faz careta. – Eu gosto dele, existe uma camaradagem, mas só. – Concordo.

— Okay, prossiga. – Peço.

— Eu não sei o quanto Regina já falou de mim para você, ou se já falou... – Respira profundamente. – O fato é que eu já troquei sexo por negócios, por assim dizer. – Conta. — Quando faltava aquele pequeno empurrão para fechar um acordo, eu era esse empurrão. – Tem vergonha em sua voz. Seus olhos estão baixos. – Desde que Regina descobriu sobre, ela não deixou mais que acontecesse, porém, até descobrir, foi um tempo significativo. – Não digo nada, apenas desvio os olhos dela e espero seu tempo. Espero que continue. Se quando você se prostitui porque “quer”, já é difícil, imagino o quão doloroso, complicado e abusivo é, quando você faz por obrigação. Zelena era uma “acompanhante” de luxo, foi isso que Regina me deixou subentendido no natal e é isso que Zelena está me contando agora. – Enfim, não existia nada de bom nesse tipo de sexo, era nojento, asqueroso, repugnante. – Resolve continuar. — No final, depois de tomar banho e quase arrancar minha pele fora, eu sempre acabava tomando uma garrafa de Vodka para absorver. E nos dias que sucediam, eu tomava mais Vodka para esquecer. – Fala. — Foi desse jeito que eu virei alcoólatra. Sempre que por uma infelicidade, certas coisas param na minha cabeça, eu sinto desejo de me afogar no álcool. — Quanto mais eu sei da história delas, mais eu detesto Cora, mais eu desejo que ela pague por todo o mal que causou. Que tipo de mãe submete uma filha a esse tipo de coisa? Cora não é ignorante, ela estudou, é instruída, é milionária, por que diabos ela faz isso? Uma vez quando Regina me falou que a mãe é psicopata, eu não acreditei. Hoje eu sei que ela realmente é. Não é só um jeito de falar. – Claro que eu já me relacionei com alguns homens por vontade própria, já senti prazer e tudo mais, porém Robert é diferente, ele é atencioso, preocupado, entende? – Afirmo com um aceno. Ele se preocupa em satisfaze-la sexualmente, foi o que quis dizer. – Isso me faz ter vontade de... agrada-lo? – Fica visível a vergonha nas suas últimas palavras, como se de repente, fazer tal coisa, ou ter vontade de tal coisa, fosse proibido, ou errado.

— Devo concluir que você sente essa vontade porque você se sente bem com ele, certo? Ele deixa você a vontade, além de lhe satisfazer. – Afirma.

— Me sinto muito, muito bem, do tipo, alguém que acabou de descobrir o quão bom pode ser o sexo. Robert é muito atencioso e meu Deus, ele faz umas coisas que... – Como é uma Mills, não termina seu pensamento, porém eu sou uma boa entendedora.

— Vamos por partes, primeiro, você pode olhar para mim, pelo amor de Deus! Você está com vergonha de falar sobre sexo com uma ex prostituta? – Sorri um pouco sem graça, mas faz o que pedi, tira os olhos do ponto qualquer à sua frente e me encara. – Muito bem, não existe nada de errado, muito menos de vergonhoso, em você querer “agrada-lo”. Nada de errado em você ter vontade de fazer coisas com ele, que você não fez com outros, ou que fez obrigada. – Lhe falo o óbvio, que para ela, não parece tão óbvio assim. — Quando você for para cama com ele, deixe Zelena Mills, de fora e vá sem identidade. Faça tudo o que você tem vontade de fazer. Não se preocupe de jeito nenhum em parecer vulgar, ou suja, ou o que quer que você tenha em mente. Deixe seus instintos guia-la, entregue-se. – Incentivo.

— Regina faz isso de deixar quem ela é de fora? – Continua com vergonha, o que a faz escolher as palavras e falar em um tom de incerteza.

— Sim, ela faz. Regina tem outros tipos de problemas, outros traumas, na cama ela não tem nenhum. Na cama ela faz o que tem vontade de fazer. – Não sei nem se poderia estar falando sobre isso, mas não estou expondo, certo? Apenas respondendo que Regina não tem nenhum problema quando o assunto é sexo.

— Como você faz? Como consegue fazer com que ela faça isso? – Parece bastante curiosa.

— Existe desejo sexual, existe química e existe confiança, mas quem faz é ela, não eu. Ela se entrega do mesmo jeito que eu me entrego. Sexo é uma entrega, Zelena. Não só de corpo, mas de alma, de mente. – Tento explicar. — Não existe um manual para sexo, você só tem que se entregar, e deixar que seus instintos te guiem. – Provavelmente quando me pergunta sobre a irmã, pensa no que viu e ouviu, e talvez ache que precisa fazer igual. — Sexo bom vai além de sexo sujo, cara cunhada, então você não precisa gostar de palavrões, tapas e esse tipo de coisas. Você tem que focar no que você gosta, no que você acha que pode gostar e fazer, só isso. – Balança a cabeça positivamente muitas vezes. Aparentemente está fazendo algumas notas mentais.

— Mesmo que tais vontades não sejam condizentes com a pessoa que eu devo ser, certo? – A pergunta me faz rolar os olhos. Se formos colocar na balança, eu não sei se Regina e Zelena têm mais traumas, ou mais dinheiro.

— Eu tenho vontade de matar a sua mãe com as minhas próprias mãos. Enforcar aquele pescocinho, até ela por um acaso, parar de respirar. – Compartilho com ela meu pensamento. – Eu não sei exatamente a pessoa que essa mulher criou você para ser, mas a partir do momento que ela fez de você, uma acompanhante de luxo, ela caiu em contradição. Essa é minha opinião. – Sou sincera e vou direto ao ponto, sem rodeios. Ela concorda com a cabeça.

— “Às vezes precisamos fazer alguns sacrifícios para um bem maior”. É o que ela costumava me dizer. – Recita a frase da infeliz.

— Se existir uma próxima vez, mande ela fazer tal sacrifício. – Fico me perguntando o quando tudo isso começou? Será que Cora foi sempre assim, ou existiu algum gatilho? Por que ninguém nunca se importou o suficiente com elas, para interferir? Porém, quem sou eu para julgar quem não interferiu, certo? Eu sou apenas o vizinho que não se mete na briga de marido e mulher.

— Quais os seus planos, para quando toda essa história com a sua mãe finalmente terminar? – Mudo um pouco a direção do assunto. Como uma pessoa que nunca teve de fato sua liberdade, sei que vai ter problemas para me falar sobre, já que provavelmente, não tem ao certo um plano.

— Eu não sei... – Dá de ombros, enquanto pensa. – Organizar seu casamento com Regina. – Me faz sorrir, além de me fazer balançar a cabeça em descrença. O plano que tem para quando tudo isso chegar ao fim, não é nem para ela e sim para a irmã.

— Okay, e depois disso? Me fale algo que não envolva Regina. Algo seu, que você quer. – Tento de novo e de novo ela para e pensa.

— Depois que minha mãe matou o gato de Regina, eu fiquei com medo de ter animais de estimação. Aceitei que meu cachorro fosse doado, com medo de que ela pudesse mata-lo também. – Conta. – Sei que é bobagem, que agora eu tenho uma casa só minha, e que Cora evoluiu, agora mata pessoas e não bichos de estimação. Mas enfim, ficou esse trauma, então acho que quando tudo acabar quero ter um cachorro. – Sorri enquanto pensa sobre.

— Um cachorro grande, pequeno, médio? – Questiono, incentivando assim, que continue a planejar.

— Grande. Um Border Collie. Não. Um Akita Inu. – De novo sorri. – Eu colocarei o nome. Você e Regina não poderão nem opinar, vocês não são nada boas em dar nomes a animais de estimação. – Acabo sorrindo também.

— Um Akita. – Concordo. – Então talvez você queira uma casa. – Semeio uma ideia. — Não que a mansão que vocês chamam de apartamento, não seja grande, mas uma casa tem todo um espaço externo. – Concorda com a cabeça.

— Uma casa. – Seus olhos ganham brilho. — Uma casa em algum lugar da Califórnia, de frente para o mar. – Me sinto satisfeita ao ver os planos brotando. — O primeiro andar vai ser de garagem para os carros, a lancha, os jet-skis. – Coisas básicas, encontramos em qualquer casa por aí. — No segundo andar vai ficar a cozinha, e a sala de estar. – Quando Zelena e Regina falam sobre casas, podemos imaginar os cômodos do tamanho de um campo de futebol, ou algo parecido. Então nessa cozinha e sala de estar, vai caber muitas casas inteiras. E não, não estou julgando, apenas comentando. Essa é Zelena, e eu não a imagino, nem desejo que seja diferente do que é, exceto pela parte do sexo. — No terceiro andar, vai ficar o meu quarto e dois quartos de hóspedes. – A casa acabou de ser criada nos planos, e eu já estou desejando ser convidada para habitar um quarto de hospedes desses. — Na parte externa, uma piscina com borda infinita, de frente para o mar. E uma outra casa, menor, a casa da piscina. Nela vai ter uma área de festas. Que desperdício, minhas festas serão regadas a drinks sem álcool. – Nessa altura dos planos, está mais falando consigo mesma do que comigo. — Uma cadeira de balanço na varanda, onde eu vou me sentar para ler alguma coisa e ver o sol se pôr ao lado do meu cachorro. – Sua mão agarra meu braço, me olha com empolgação. — Eu vou abrir um escritório de advocacia, mas só vou trabalhar a tarde, vou ajudar mulheres como a sua mãe, e não vou cobrar um centavo por isso. – Seus olhos continuam brilhando. Aquele brilho que costumamos encontrar no olhar de uma criança, quando ela deseja muito uma coisa. Existem lágrimas ali. Provavelmente lágrimas de esperança, de felicidade. Lágrimas de quem acabou de expor pela primeira vez para si mesma, a vida que quer ter. – Mas antes disso tudo, eu vou fazer uma dessas viagens humanitárias. Eu vou ajudar quem eu puder ajudar, eu gosto de ajudar. Fazer isso pela sua mãe, me lembrou o quão gratificante é, o quanto eu gosto disso. Eu queria ter feito isso quando terminei o colegial, mas fui impedida. Agora eu vou fazer. – Fala com certeza na voz, enquanto sorri.

— São ótimos planos, Zelena! Desde o cachorro, passando pela casa, o escritório e a viagem humanitária. Obrigada por tê-los compartilhado comigo, e principalmente, por ter feito isso com você. – Lhe agradeço.

— Eu sei. Eu só tenho boas ideias. – Ah é, sempre muito modesta.

— As de teor sexual, você já pode começar a pôr em prática. – Incentivo ao voltar ao assunto.

— Eu vou. Hoje mesmo. Quando chegar em Nova York. – Pelo jeito como fala, parece estar bem certa sobre. – Caso ele já não esteja dormindo. – Agora parece um pouco frustrada. – Não faço ideia do horário que vamos sair daqui. – Pensa alto.

— Regina falou que o último voo, sai no começo da noite. – Concorda com a cabeça.

— Sim, como já é quase começo da noite, essa missão foi abortada. Não vai dar tempo. – Ah sim, está praticamente se lamentando. Não posso julgá-la, certo? Ela tem sexo esperando em casa. – Acabamos fretando um voo. – Me sinto culpada por tal coisa, mas sei que se for falar sobre, ela vai rolar os olhos e me lembrar de todo o dinheiro que tem, igualzinho faz sua irmã. Então nem vou começar. – Preciso avisar Tinker sobre essa mudança de planos. – De novo pensa alto. Tira seu telefone da bolsa e concentra atenção nele. – Então, vocês conversaram? – Questiona comigo, enquanto digita.

— Conversamos. – Suspiro.

— E que suspiro frustrado é esse? – Continua com atenção na tela.

— Sabe quando você tem certeza que uma coisa não vai dar certo? – Indago. – Eu tenho certeza que isso não vai dar. Tinker vai me usar, para tentar se vingar de Regina. – Exponho minha opinião. Na verdade, nem é uma opinião, é um fato.

— Não acho que podemos culpa-la por isso. – Trava a tela do celular e me encara. – Não é a primeira vez que acontece. – Outra.

— Eu queria sonhar com esse tal de Daniel, só para poder dar na cara dele. – Compartilho com ela meu desejo secreto e a vejo rir. – Eu estou falando sério, eu detesto esse cara. – Continua rindo.

— Somos duas então, Swan, Emma Swan. – Será que eu ouvi direito? Foi isso mesmo que ela falou? Além de mim, existe outra mulher nessa história que não gosta de Daniel? Obrigada, Deus! Obrigada por nunca me deixar sozinha!

— Você também não gosta dele? – Preciso ouvir de novo, preciso mesmo.

— Eu também não gosto dele, na verdade, não gostava, agora ele está morto, mas você entendeu. – Concordo com a cabeça.

— Fale logo o motivo. – Peço. – Meu Deus, não acredito que encontrei alguém que compartilha do mesmo desgostar. – Comemoro.

— Ele ficou com Tinker porque o caminho até ela era mais fácil, mas gostar, inicialmente ele não gostava de nenhuma das duas. – Estava me preparando para toda uma história, detalhes, horas de explicação, não uma frase.

— Só isso? – Questiono reclamando. – Eu esperava um pouco mais de você, Zelena. – Continuo reclamando.

— O que você quer que eu fale, meu bem? – Lhe dou de ombros.

— Sei lá, de repente você pode me contar essa história. Me entretenha, aposto que Regina mandou você me entreter. O resumo que você acabou de fazer, não me entreteve nem um pouco. – Agora ela está balançando a cabeça negativamente, enquanto ri.

— Você é muito descarada, garota! – Acusa a minha inocente pessoa. – Por que você não pergunta para sua mozão? – Quer saber.

— Porque eu não gosto de ouvir minha mozão falando sobre esse idiota, ela fica toda... – Procuro uma palavra para definir. – Ew! – Faço cara de nojo e de novo minha cunhada acha graça.

— Ciúmes? – Questiona ao arquear uma sobrancelha.

— Ciúmes. – Admito sem problema algum.

— Ele está morto. – Me lembra de algo que já sei. Como se fosse proibido sentir ciúmes, só porque o infeliz morreu. É errado? Não é. Então eu sinto mesmo, e daí?

— Mesmo assim, ela continua o amando. – Lamento.

— Eu não tenho mais tanta certeza sobre isso. – Parece pensar alto. – Mas mesmo que ame, agora ela também ama você. – Ao ouvir tal coisa, meu coração acelera, e minhas borboletas, começam com as bobagens de sempre.

— Como você sabe?

— Eu sei quando a minha irmã está amando. – Dá de ombros. – E posso lhe garantir com 100% de certeza que ela está. – Esse 100% de certeza, me faz sorrir bobamente. Se Zelena está falando, então é porque é, certo? Elas são irmãs, elas se conhecem. E eu gosto de ser iludida. – Ela vai falar. Quando ela estiver pronta para verbaliza, principalmente para ela mesma, ela vai falar. – Balanço a cabeça concordando.

— Às vezes quando olho nos olhos dela, mesmo que não abra a boca para falar, ela me fala. – Faz cara de nojo.

— O amor nos faz falar umas coisas tão bregas, não faz? Ew! – Claro que sendo uma Mills, Zelena com toda certeza também não é uma fã do romantismo, provavelmente nem sabe o que é isso. Foi criada para matar os príncipes e não para ser beijada por eles.

— Você vai me contar a história dela com Daniel, ou não? – Mudo de assunto e de novo ela acha graça.

— Vamos lá então... – Parece organizar os pensamentos. – Já que você quer uma história detalhada, vou começar falando sobre meus pais. – Concordo. — Meu pai e o pai de Daniel, estudaram juntos no colegial. Eles eram algo como, melhores amigos. – Conta. – Melhores amigos que coincidentemente, acabaram apaixonados por uma mesma mulher, minha mãe... – Okay, Cora disputando o amor das pessoas é algo que não consigo nem imaginar. Porém também não consigo imagina-la adolescente. Naquele tempo provavelmente ela era menos psicopata, certo? Talvez fosse até um pouquinho simpática. Ou talvez tenha sido bruxa desde sempre, e jogou um feitiço para cima dos homens. – Infelizmente, papai levou a pior e conquistou ela. – Põe infelizmente nisso. Coitado de Henry Mills. Me pergunto quantas vezes na vida, ele desejou o poder de voltar no tempo. – Inicialmente, isso acabou os afastando um pouco, mas você sabe, homens não são de ter muita dor de cotovelo, rancor, ou mágoa, então não demoraram a retomar a amizade. – Volto a concordar. – Só que se tornou uma amizade a distância, porque o tio Joseph terminou o colegial e mudou-se para o Canadá. – Continua. – Quando ele vinha para os Estados Unidos, sempre ia lá em casa, nos trazia souvenirs, brincava conosco, e nos contava sobre o filho. Sempre nos convidava para ir até o Canadá, conhecer a família dele. Papai sempre dizia que nos levaria, mas mamãe nunca deixou que acontecesse. – Faz uma pausa para tomar ar. – Regina tinha acabado de completar 20 anos, quando tio Joseph voltou para os Estados Unidos, para Nova York. Ele e a família. Meu pai quis comemorar aquilo indo a um jogo dos Reds, time pelo qual os dois sempre foram fanáticos. Foi nesse jogo que Regina e Daniel, se conheceram. – Eu já não simpatizava muito com esse time, agora que sei que foi em um jogo deles que os dois se conheceram, tudo ficou pior. Secretamente, eu com toda certeza do mundo, serei uma torcedora dos Yankees. – Nesse tempo minha irmã e Tinker já eram melhores amigas, unha e carne, metades da laranja. Uma não vivia sem a outra, ou seja, Tinker também foi a esse jogo. – Agora ela rola os olhos. – Sabe esses jovens cafajestes que jogam gracinhas para cima de todas as mulheres? – Afirmo com a cabeça. – Esse era o jovem Daniel. – Agora me sinto na obrigação de também rolar os olhos. – Houve interesse das duas pelo idiota. Regina mesmo, só faltava sair coração pelos olhos quando ele sorria para ela, ou contava alguma bobagem. Sabe como é, virjona se encanta com pouco. – Contenho minha vontade de fazer cara de nojo e apenas volto a concordar com a cabeça. – O problema é que, minha irmã sempre foi fechada. Nunca foi de demonstrar muito facilmente qualquer sentimento. Já Tinker, sempre foi Tinker. – Não preciso de explicações sobre. – Enfim, no final daquele jogo, os três trocaram telefones, e ele falou que ligaria para combinarem algo. E foi o que fez, ligou para as duas, e combinaram de sair. – Esperto, concluo que o tal Daniel, era esperto, e muito provavelmente, interesseiro. – Eu não sei falar para você, em qual das duas ele teve interesse primeiro. Como disse antes, na minha opinião, nenhuma. Tenho em mente que para ele, sairia no lucro ficando com qualquer uma das duas. – Como eu bem observei, interesseiro. Zelena acabou de deixar claro tal coisa. — Como a personalidade de Tinker a ajudou nesse ponto, ele ficou com ela nesse encontro a três. Que na verdade foi a quatro, já que eu precisei ir junto. Fora os seguranças. – Eu nunca, nunca, nunca mesmo, cismo com alguém à toa, então tinha muita certeza que não era só ciúmes. – Enfim, eles começaram a namorar. Ele começou a frequentar os mesmos lugares que frequentávamos. Passou a fazer parte do nosso círculo social, e nós passamos a conviver bastante com ele. – Faz uma pequena pausa. — Em alguma parte dessa história, ele se encantou de verdade pela minha irmã. Muitas vezes ficava perceptível que ele estava com Tinker, mas os olhos estavam em Regina, as vezes era até incomodo. Não sei se Tinker estava tão apaixonada que não percebia. Ou percebeu e decidiu torna-los muito amigos, para tentar acabar com uma possibilidade de interesse. Não sei. – Se foi a segunda opção, Tinker com certeza é tão culpada, quanto os dois. Quem em sã consciência percebe tal coisa e ao invés de conversar com as pessoas envolvidas e expor o problema, resolve aproximar os “problemas” e fazer de conta que todos são amiguinhos? — O fato é que ela os aproximou ainda mais, e ao torná-los próximos, ela os tornou íntimos, os tornando íntimos, ele começou a insistir, insistir e insistir. – Bom, com isso nós podemos concluir que minha falsa namorada sabe melhor do que ninguém, destruir relacionamentos. — Em um final de semana em que Tinker foi viajar, ele inventou uma desculpa qualquer para não acompanhá-la e ficou. Bateu lá em casa em um sábado de madrugada, e Regina deixou que ele subisse até o quarto, o resto eu imagino... – O resto eu prefiro não imaginar. Tenho nojo de pensar sobre. Tudo bem que ela não tinha uma bola de cristal, não podia ver que existia uma criança, que morava do outro lado do pais, e que dali alguns anos, se tornaria adulta e se relacionaria com ela, mas né? É terrível imaginar a pessoa que você ama, se envolvendo com outra pessoa, mesmo que tenha acontecido antes de você. – O que quer que tenha acontecido, durou aquela noite. Acho que foi um presságio, sabe? – Não sei se essa última frase é um pensamento alto, ou se está falando comigo. – Porque na segunda-feira seguinte, nosso pai foi ao médico, levar o resultado de alguns exames, e recebeu a notícia sobre o câncer. – Conta. — Nós sempre fomos muito apegadas a ele. Henry Mills, além de nosso pai, foi também nossa mãe. Ele nos criou, nos deu afeto, carinho, atenção, amor. – Sorri ao falar sobre o homem. – Cora nunca teve paciência. Ela só sabia distribuir broncas e castigos. – Como era de se imaginar, não é mesmo? — Regina conseguia ser ainda mais apegada. Acho que pelo histórico de asma, onde ele era quem cuidava dela. Ele quem corria com ela para o hospital, quando ela tinha crises. Ele passava noites acordado, cuidando, velando o sono, se certificando que estava tudo bem. – Sorrio ao ouvir sobre esse amor entre pai e filha. — Regina idolatrava o papai. Para ela, ele era uma espécie de super-herói, mesmo depois de crescida. Sabe aquele olhar de admiração, encantamento, adoração? – Afirmo com a cabeça. — Era desse jeito que ela olhava para ele. – Fala. – Enfim, com a notícia da doença, ela deixou de lado a paixão por Daniel, e focou única e exclusivamente no nosso pai. Foram três, quase quatro anos dedicados a ele. Ela não perdeu uma consulta médica, um exame, uma quimioterapia, nada. Onde ele ia, ela estava, virou praticamente uma sobra dele. – Parece achar graça da situação. – Foi aí que ela apreendeu e criou gosto pelos negócios. Regina é uma excelente diretora executiva. Ela coordena e fecha negócios como ninguém. Para ela, não existe negociação perdida. E você vê que ela faz com paixão, com vontade. Você vê nos olhos dela. Foi papai quem a ensinou. – Elogia a irmã. – Quando mamãe meio que me obrigou a também começar a frequentar o escritório, ele me chamou e disse algo como: Zelena, se você não criar gosto por nada do escritório, tudo bem, papai entende. Mas mesmo assim, você vai ficar responsável por frear a sua irmã. Nunca deixe a ambição dela, cega-la a ponto de querer comprar algo que nos deixará sem capital, e provavelmente nos levará a falência, só porque a outra pessoa não quer vender. – Ela ri. – Algumas vezes eu ainda passo trabalho com isso. Preciso recorrer ao que ele disse, para faze-la parar. – Sorrio ao pensar sobre. Parar Regina é algo bastante complicado, provavelmente a única arma que acaba sobrando para Zelena, é mesmo esse pedido do pai. – Então, depois que ele morreu, ela ficou inconsolável, e quem foi que lhe ofereceu o ombro amigo para que ela chorasse? – Questiona.

— Daniel. – Cutuca os ombros nos meus.

— Ponto para você, gênio. – Debocha e me faz rolar os olhos. – Regina não teria se envolvido com ele se papai não tivesse morrido. Ela também meio que viu aquilo como um pressagio e afastou-se. Nunca namorou ninguém, mas conheceu outros homens, ficou com alguns. Guardou o que sentia por ele, e seguiu. Mas a morte do papai a fragilizou de um jeito... – Balança a cabeça negativamente. – Daniel se aproveitou disso, aproveitou-se da tristeza dela, do momento de “fraqueza”, das brigas com a mamãe que se tornaram frequentes, e aconteceu. – Conta em tom de lamento. – Eu não faço ideia do que ele falava para ela, mas ele a convencia a qualquer coisa. Ele a afastou de todo mundo, era algo meio doentio, perigoso. Ele a afastou dos poucos amigos que ela tinha, a afastou de mim, não deixou que ela tentasse se explicar com Tinker. Eu não sei o que ele fez com ela, mas foi quase como uma lavagem cerebral. – Meus olhos crescem enquanto ouço essas coisas. Nunca imaginei Regina vivendo esse tipo de relação, como Zelena bem observou, doentia. Provavelmente não se deu conta do que estava acontecendo, estava tão perdida, tão desolada com a morte do pai, que não se deu conta. É a explicação que encontro. – Mamãe que no começo, quando ele namorava com Tinker, no máximo o suportava, quando não estava o olhando como se ele fosse um inseto, passou a odiá-lo. – Pelo que sei da mulher, ela não precisa de muito para odiar alguém, imagina então quando esse alguém, passa a controlar a filha dela. – O auge de tudo foi quando Regina contou que estava grávida. Aproveitou também para dizer que estava saindo da empresa e de casa, que estava indo morar com Daniel e seus pais. Eu acho que nunca vi minha mãe tão possessa, quanto naquele dia. – Faz uma pausa para tomar ar. — “Essa criança não vai nascer, nem que eu tenha que tirá-la do seu ventre com minhas próprias mãos”. Ela não simplesmente falou, ela prometeu. – Aponta para o braço. – Meus pelos ainda arrepiam quando lembro sobre isso. – No momento eu estou sem palavras para dizer qualquer tipo de coisa, então só balanço a cabeça, concordando nem sei com o quê. – E aí aconteceu, em menos dois meses, não existia mais Daniel, e nem gravidez. – Ela suspira. – Não sei se deveria ter sido eu a lhe contar toda essa história, mas é isso, agora você sabe. – Finaliza.

— Eu não sei o que dizer... – Começo. – Nunca imaginei que a relação deles tivesse sido desse tipo. – Confesso. – Regina não parece a Regina que eu conheço, na parte que envolve esse idiota. – Zelena concorda.

— Como eu disse, ele aproveitou-se da tristeza dela. Provavelmente de alguma forma, ele a convenceu que seria ele a pessoa responsável por tapar o buraco que papai deixou na vida dela. – Penso um pouco a respeito e concluo que faz sentido. Concluo também que um dia, devo falar com ela a respeito. Ouvir a versão dela. Saber o que pensava e essas coisas.

— Por que diabos Tinker a culpa? Por que depois disso tudo e depois de todo esse tempo, ela ainda não conseguiu perdoar? – Me dá de ombros.

— Pelo mesmo motivo que Regina agiu do jeito como agiu, ela o ama. – Fala o obvio. Agora preocupada, eu a encaro.

— Você acha que eu estou fazendo algo do gênero com ela? – Balança a cabeça negativamente.

— Não, Swan, Emma Swan, você não está. – É enfática. – Você e Regina estão em um relacionamento saudável. – Segura meu queixo, e me faz balançar a cabeça de um lado para o outro. – Tirando a parte onde vocês se estapeiam. – Resmunga depois de analisar meu rosto e solta-lo. – Acho que você está me fazendo conhecer a melhor versão da minha irmã. A versão que acima de tudo, está lutando por ela mesma. – Ao ouvir tal coisa, sinto-me aliviada. – Regina ama você de um jeito saudável, de um jeito que faz bem a ela. Orgulhe-se disso, ao invés de sentir ciúmes daquele idiota. – Depois de ouvir tudo o que ouvi, talvez a partir de hoje, eu comece a enterrar esse cara.

— Sabe o que eu acho? – Nega com a cabeça. – Causando a morte dele, sua mãe o tornou uma espécie de Deus, ou um mártir. Regina não teria ficado com esse cara por muito tempo, ela iria cair na real. Hoje em dia eles no máximo, se veriam nos dias que ele viesse buscar a criança. – Zelena balança a cabeça muitas vezes em concordância e sem que eu espere me abraça e me aperta.

— Alguém que pensa exatamente como eu, obrigada por isso, Deus! – Comemora e me faz rir. – Nós achamos exatamente a mesma coisa. – Me solta e resolve apertar minha bochecha. – Você está saindo melhor do que a encomenda, cunhadinha linda. – Lhe rolo os olhos e faço com que solte minha bochecha, que já sofreu muito no dia de hoje.

— Zelena, eu sou tão melhor que a encomenda, que você nem sequer se lembra que tem um cunhado real oficial, pode me falar. – Ela ri.

— Você é minha preferida, porém Robin tem um espacinho no meu coração, ele sabe falar sobre moda como ninguém. E os vestidos lindos que ele traz da Europa para mim? Amo! – É minha vez de rir.

— Robin é tão viado que eu não consigo nem sentir ciúmes. — Agora ela gargalha.

— Eu sou muito cega mesmo. Isso nunca sequer tinha passado pela minha cabeça. Eu só achava que ele tinha bom gosto. – Balanço a cabeça em descrença. – Mas agora faz total sentindo.

— Quando ele e Killian se falarem, vão com toda certeza do mundo, começar uma amizade sincera. Algo como, melhores amigas. – Concorda com minha opinião.

— Vai ser hilária essa amizade. Prevejo muitas crises de riso.

— Regina vai amar! – Falamos juntas exatamente a mesma coisa, o que nos faz gargalhar.

— Você tem que parar de chama-la de sapatão e derivados. – Peço em meio aos risos.

— Eu sei, mas é mais forte que eu. – Também ainda ri.

— Ela vai acabar acertando um celular na sua cabeça. – Sabe quando você começa a rir por algo que nem graça tem, e depois não consegue mais parar? Somos eu e Zelena nesse momento.

Rimos tanto que nem ouvimos Killian abrir a porta de casa. Ele e Janis caminham até nós. Janis ri conosco, sem ao menos saber o motivo. Já meu amigo viado, me olha sem entender, já que quando saiu daqui, há pouco para ir buscar minha filha, eu estava bastante chateada.

— Do que estamos rindo? – É ele quem questiona.

— Robin. – Zelena responde.

— Quem é Robin? – Janis pergunta ao sentar-se sobre as minhas pernas. Me abraça e depois beija.

— É um bofe mais viado do que euzinha aqui. – Killian responde. Ele senta-se ao meu lado, só que no braço do sofá. Afaga meus cabelos, antes de beijar o topo da minha cabeça.

— O que é isso de viado que vocês ficam falando as vezes? – Junta as sobrancelhas ao me questionar tal coisa.

— O mesmo que gay. Meninos que gostam de meninos. – Explico.

— Ah tá. – Dá-se por satisfeita. – Cadê Regina? – Me questiona.

— Resolvendo algumas coisas. Daqui a pouco, estará aqui. – Respondo.

— Por que vocês saíram cedo hoje de manhã? – Faz mais uma pergunta. – Nem esperaram eu acordar. – Reclama.

— Porque tínhamos coisas para resolver no trabalho, não podíamos esperar. – É a resposta que posso lhe dar. Graças ao bom Deus, a resposta a satisfaz, então pelo jeito como encara Zelena, sei que a próxima pergunta vai ser para ela.

— Você não ia me buscar na escola? – A cobrança faz a ruiva achar graça.

— Meu Deus! Essa menina é ariana, não é? – Questiona comigo.

— É. – E as vezes isso me tira do sério.

— Nesse caso, sinto em lhe dizer, mas caso ainda não saiba, você terá mais uma ariana em sua vida. – Conta a novidade. Algo que na verdade eu já suspeitava.

— Sério? – Afirma. – Por isso que ela nunca quis me falar sobre. – Resmungo.

— Nem o Google quis contar isso para nós. – Foi uma das primeiras coisas que Killian quis saber sobre Regina Mills, quando admiti que estava apaixonada. O signo dela. Claro que pesquisamos no Google, mas não tinha informação sobre o nascimento dela lá. – De que dia ela é? – Ele questiona.

— Sete de abril. – Wow! Por dois dias, ela e Janis não comemoram o nascimento na mesma data. – E você, matraca ariana, que dia nasceu? – Como só sabe do dia exato do aniversário, quando o mesmo está chegando, ela olha para mim, me pedindo ajuda.

— Cinco de abril. – Conto. – Bem pertinho de Regina Mills. – Pelo sorriso enorme que abre, parece que tal coisa a deixa feliz.

— Legal! – Exclama.

— Legal porque vocês não estão na pele da sua mãe. – Killian opina.

— Estou em dúvidas se devo rir ou sentir pena. – Zelena debocha.

— O que tem de ruim essa coisa de ariana? O que é ariana? – Janis dispara as perguntas. Penso em um jeito simples e não confuso de explicar.

— Existe doze meses, certo? – Afirma com a cabeça, mesmo não tendo muita certeza sobre. – Para cada um desses doze meses, existe um signo. Depois seu tio explica o que é signo. – Antes que me pergunte sobre, resolvo já responder. – O seu é áries, que é o signo de boa parte das pessoas que nascem no mês de abril. Usamos a palavra ariana para quem é do signo de aries. Entendeu? – Pela cara de interrogação e pelo jeito como coça a cabeça, não.

— Mais ou menos. – Responde. – É ruim ser essa coisa? – Parece preocupada.

— Quando você é teimosa, impaciente, ansiosa e se irrita por nada, é ruim. – Respondo. – Mas a sua coragem, sua inteligência, seu entusiasmo, sua honestidade, sua generosidade, fazem eu não ligar quase nada para as coisas não muito boas. – Ela me sorri.

— Tudo bem eu ser dessa coisa de áries então? – Retribuo o sorriso.

— Tudo bem, tudo muito bem. Não imagino você sendo de nenhum outro signo. – Beijo-lhe o rosto.

— Tudo bem Regina também ser? – Claro que ela também se preocupa com a mulher que também lhe roubou o coração.

— Provavelmente o signo de áries foi criado, porque alguém em algum lugar, previu que um dia Regina viria a existir. – Zelena nos faz rir.

— O que isso significa? – Janis quer saber.

— Significa que tudo bem ela também ser desse signo. – Respondo.

— E por que você não foi me buscar com o tio Killian? – Como teve suas dúvidas respondidas, volta a pergunta que originou todo o assunto. Zelena pondera antes de responder.

— Porque eu acabei tendo um imprevisto, precisei resolver alguns problemas, o que não me deixou chegar a tempo para fazer isso. Você pode me desculpar, pequena Regina? – Pede.

— Posso, mas só se você não estiver mentindo. – Nos faz rir.

— Eu não estou, juro que não. – Zelena quando olha para Janis, parece um emoji com olhos de coração.

— E o que você foi resolver? – A nova pergunta, faz a ruiva tirar os olhos da minha filha e me encarar, me pedindo ajuda, ou permissão.

— Você lembra que dias atrás eu contei a você que fui na casa da sua avó? – Começo e ganho a atenção dela.

— Sim.

— Lembra que eu lhe contei que agora tenho uma irmã? – Afirma com a cabeça. – E lembra também que eu contei que sua avó estava resolvendo umas coisas lá na casa dela, e talvez depois elas viessem morar aqui? – De novo afirma. – Zelena foi ajudá-la a resolver essas coisas. – Conto.

— E resolveu? – Questiona.

— Resolveu. Zelena resolveu e agora Regina foi busca-las. – Explico da melhor forma que a ocasião permite.

— Elas vão morar com a gente para sempre? – Não sei dizer se a notícia a agradou ou não. Está camuflando qualquer sentimento sobre, e sendo apenas investigativa.

— Para sempre não. Só até nos mudarmos para Nova York. – Falo.

— Tá. – É tudo que responde.

— Só tá? – Afirma.

— Só. – Dá de ombros. – Por que Regina foi buscar elas e não foi me buscar? – Acho graça ao entender o motivo da sua falta de palavras e interesse pelo assunto.

— Ciúmes... – Killian cantarola.

— Porque sua avó acabou caindo das escadas e se machucou feio. Tão feio que acabou indo parar no hospital. – Gostaria de contar a verdade, porém não acho que deva fazer isso. Não ainda. – Por isso Regina foi busca-la. – Agora parece um pouco preocupada.

— E ela está bem? – Quer saber.

— Não muito, mas nós vamos cuidar dela e ajudá-la a ficar bem, certo? – Concorda.

— Certo. Temos que ensinar ela a tomar cuidado com as escadas, porque até chegar lá no térreo tem muitas. – Sim, ela está preocupada. Gostaria de dizer que as escadas existentes nesse prédio, são inofensivas, porém, de novo esbarro no não poder.

— Vamos ensina-la. – Prometo.

— Por que adultos são assim tão desastrados? – Hoje ela tirou o dia para conversar perguntando. Não faço ideia de quantas perguntas já fez, desde que chegou. – Minha avó, caiu das escadas. Você, está sempre com roxos. Até a Srta. Mills, machucou o pescoço. – Bom, a dúvida inocente da minha filha, ou, os comentários dela sobre adultos desastrados, divertem Zelena e Killian.

— Não existe uma resposta para adultos serem desastrados, eles simplesmente são. – É a melhor explicação que posso dar.

— Depois você diz que eu quem não presto atenção por onde ando. – Me olha com reprovação e me faz rir também.

— Eu queria tanto que você nunca crescesse, Janis. – Compartilho meu pensamento, meu querer.

— É, eu sei. Você vive me dizendo isso. Mas eu quero crescer logo, para saber de todas as coisas que eu não posso, porque não sou adulta. – Responde o que sempre responde quando exponho esse desejo.

— O que você mais quer fazer quando crescer, além de saber sobre essas coisas de adultos? – Zelena questiona com ela que suspira, leva a mão ao queixo, junta as sobrancelhas e pensa a respeito.

— Acho que ir ao show da Beyoncé, bater cabelo igual o tio Killian me ensinou. – A resposta faz a ruiva gargalhar.

— Você é muito fã dela? – Questiona.

— Siiim!!! – Responde com empolgação.

— Então quando você se mudar, e a Beyoncé fazer um show por Nova York, eu vou levar você. – Promete e faz Janis quicar sobre as minhas pernas.

— É sério? – Continua quicando, enquanto bate palmas.

— Claro que é sério. Você não precisa ser adulta para ir a um show da Beyoncé. – Zelena está quase tão empolgada quanto a minha filha. Provavelmente hoje, fundarão um fã clube de duas pessoas, na verdade três, porque eu também quero.

— Você me deixa, Mami? – Seus olhos pidões me encaram.

— Adianta eu dizer que não? – Se Zelena me chamar, até eu vou quicar de empolgação. – Claro que eu deixo. – Minha resposta positiva, a faz levantar os braços em comemoração.

— YEAHHH!!! EU VOU BATER CABELO COM A BEYONCÉ!!! – Comemora ao levantar os braços e então pular para o colo de Zelena, que ri de tal comemoração.

— Enquanto umas vão se mudar para Nova York, e vão bater cabelo com a Bey, outras vão ficar em Las Vegas, assistindo a um show dela, pelo DVD pirata que comprou no camelô. – Killian se lamenta em um resmungo. — Para mim não vai sobrar nada, oh mundo cruel! – Bato com as mãos sobre as pernas, o chamando para sentar e ele faz.

— Você pode ir comigo, viado. Eu já te chamei. – O primeiro a saber da novidade, foi Killian. Quando eu ainda estava lá em Nova York. Primeiro ele ficou enciumado, já que segundo ele, Regina Mills acabou com nosso caso de amor impossível. Depois ele ficou triste, porque é bastante apegado a Janis. Então ficou feliz por mim, e começou a me mandar links de lugares para alugar por lá.

— Meu amor, e eu vou sobreviver de quê? – Questiona comigo.

— Do mesmo que você sobrevive aqui, sua arte. – Killian é um ótimo grafiteiro. É com o que ele trabalha, é como ele ganha dinheiro. É bastante conhecido e procurado aqui em Las Vegas. Tenho certeza que também se sairia bem em Nova York.

— Minha pele linda vai ressecar demais naquele inverno rigoroso. – Dá outra desculpa. – E eu não vou saber lidar com o jeito Frozen dos homens de lá. – Continua. – A única dureza que eu gosto em um homem, é a que ele coloca dentro de mim. – Graças ao bom Deus, Janis está entretida com Zelena e o plano sobre o show, ou seja, não ouviu tal coisa.

— Sabe qual o seu problema? Você está insistindo na dureza de um homem que não quer nada de muito sério com você. – Falo a verdade. Tenho certeza que esse é o único motivo para ele não querer ir comigo.

— Eu sei. – Que bom que ele sabe. – Mas ainda não sofri o suficiente para conseguir larga-lo, estou em busca da humilhação. Se comigo aqui, já não está dando certo, imagina comigo do outro lado do pais. – Solta um suspiro frustrado.

— Você já pensou que lá no outro lado do país, você pode encontrar alguém que você goste mais do que gosta desse cara, e que esse alguém pode gostar de você de volta? – Volta a suspirar enquanto pensa a respeito.

— Um Frozen, duro por dentro e por fora para chamar de meu... – Está compartilhando o pensamento. – Nova-iorquino, cheiroso, bem vestido, cara de homem mau, barba por fazer, com uma pegada forte... ai... – Se abana. — Só de pensar, Killian Jr. fica todo animado. – Ao ouvir sobre Killian Jr. o empurro para que saia de cima das minhas pernas, mas ele nem se move. – Está feliz de pôr essas ideias na minha cabeça, sapatão? – Reclama comigo. – Eu vou tentar pela última vez por aqui, Okay? Se não der certo, eu vou atrás de você e do meu homem Frozen. – Me promete.

— Eu ainda não parei para pensar em como vou viver sem você, sabia? – Killian tornou-se mais do que um amigo, ele é minha família, é a família da minha filha. Fico triste por deixa-lo, por não convencê-lo a vir comigo. Foram tantas vezes que tivemos apenas um ao outro, que até perdi as contas, então é difícil “dar as costas” para ele.

— Shiu! – Cobre minha boca com sua mão. – Não comece com isso, eu fico emotiva. – Concluo que fica mesmo, ao ver as lágrimas que meu comentário trouxe aos seus olhos. – Se a sua felicidade está lá, é lá onde você deve estar. Por enquanto eu acho que a minha está aqui, então é aqui que preciso ficar. – Balanço a cabeça concordando. – Não importa o quão distante estejamos fisicamente, você sabe que vai sempre poder contar comigo, não sabe? Você e esse bolinho que eu vi crescer. – Afirmo.

— Eu sei. – Garanto. – E você sabe que vai sempre poder contar comigo, certo? – Também questiono.

— Claro que sei.

— Você sabe também, que esse bolinho que você viu crescer, vê em você uma figura paterna, certo? – Lágrimas voltam a encher os olhos dele.

— Você não vai me fazer chorar, Emma Swan. – Pisca algumas vezes, livrando-se das lágrimas insistentes. – Não comece a se despedir desde agora e cuide muito bem do meu bolinho, caso contrário irei até Nova York, só para puxar os seus cabelos, além de levar a lista telefônica, para acertar na sua cara. – Ameaça e me faz rir.

— Eu vou cuidar. Você sabe que devido as circunstâncias, vou começar a cuidar melhor do que cuidava aqui. – Ele concorda.

— Ótimo! Espero que o leão não adestrado que você chama de Regina Mills, faça o mesmo. – Como se combinado, o leão não adestrado abre a porta de casa assim que a frase de Killian chega ao fim.

Meu coração bate apressado ao vê-la com minha irmã nos braços. Tem um semblante tranquilo, e a respiração um pouco cansada, provavelmente por ter subido todas as escadas com a criança no colo.

Usa meu jeans azul escuro, e minha camisa social branca por dentro da calça. O scarpin alto em seus pés, e o casaco chique e quente que carrega sobre os ombros, pertencem a ela. Não sei como ela consegue ser tão linda, parecer sempre tão superior. Sempre de queixo erguido, postura perfeita, jeito elegante e sensual.

— Essa cena me faz imaginar sua mulher chegando em casa num futuro acho que não muito distante, carregando nos braços a filhinha de vocês. – O comentário de Killian faz meu coração bater ainda mais apressado, e minhas borboletas reagirem, gostando muito de tal imaginação. – É duro ter que admitir, mas você tirou na sorte grande. Esse diabo em pele de gente é linda e poderosa. Ela faz roupas simples tornarem-se elegantes. – Faz outro comentário.

Meu diabo em pele de gente me esboça um sorriso, enquanto caminha ao meu encontro. Passos firmes, seguros e ao mesmo tempo, graciosos. Sussurra alguma coisa com Anna, o que faz com que a menina esconda o rosto no vão do seu pescoço.

— Pare de babar! – É o que Killian me fala, ao sair de cima das minhas pernas.

— Mary Margaret está no carro, alguém precisa ajudá-la a subir as escadas, ela não tem condições de fazer isso sozinha. – Pelo jeito como falta tal coisa olhando para o meu amigo, o diabo está ordenando que ele faça isso.

— Alguém, prazer. – Levanta a mão se apresentado, e então bate em retirada, indo em busca da minha mãe.

— Hey! – Agora seus olhos param em mim. Se Killian ela olhou com cara de poucos amigos, para mim ela sorri.

— Você demorou. – Janis é mais rápida que eu, e rouba a atenção da minha mulher.

— Hey, babe! – Para Janis ela abre um sorriso ainda maior. Além de chama-la de babe! Regina chamou Janis de babe, isso mesmo, babe. Apelido pelo qual a chamei de manhã e ela debochou e me mandou não chamá-la disso. — Demorei? – Ela é tão bobinha por Janis, me pergunto se um dia vai ser igualmente bobinha desse jeito por mim.

— Sim. E vocês foram trabalhar muito cedo hoje de manhã. – Reclama. Ao fazer tal coisa, consegue a atenção de Anna, que curiosa, levanta a cabeça para procurar por Janis.

— Vocês foram mesmo. – Zelena debocha ao se pôr de pé. – Hey, Anna! Como você está? – Não ganha resposta. – Tudo bem agora? – Insiste. – Você quer um colo dessa tia aqui? – Oferece ao estender o braço. Minha irmã nada responde, mas inclina-se para que Zelena a pegue.

Os braços de Regina ficam disponíveis por no máximo, meio segundo, então Janis pula para eles. Fazendo com que o casaco da Srta. Mills, vá ao chão.

— Desculpe, nós precisamos sair cedo. – Pede enquanto ajeita minha filha em seu colo. Beija-lhe o rosto e é imediatamente correspondida. – Como foi o dia de aula? – Questiona.

— Foi legal. Teve educação física e aula de música. – As aulas preferidas dela. – E eu prestei atenção em tudo, você também pode ver na minha agenda. – Regina ri.

— Eu confio em você, não preciso conferir na agenda. – É a resposta que dá. – Anna está curiosa, acho que quer conhece-la. – Conta a Janis, que resolve prestar atenção na tia. Se olham por alguns segundos, e aparentemente acabam envergonhadas. – O que você acha de se apresentar? – A Srta. Mills incentiva. – Ela está um pouco triste, não teve um bom dia hoje. – Conta. – Você é uma criança tão alegre, acho que pode deixa-la um pouquinho feliz. O que você me diz? – Tira os olhos da tia e volta a encarar Regina.

— Acho que eu posso tentar. – Concorda. – Ela está triste porque a mamãe dela caiu das escadas? – Quer saber.

— Sim, ela ficou bastante assustada com isso. – Fala. – Acho melhor você não falar sobre essas coisas com ela, combinado? – Pede gentilmente, enquanto de novo beija o rosto de Janis.

— Combinado. – Concorda. – Você acha que ela vai gostar de conhecer meu camaleão? – Regina parece incerta.

— Acho que sim, se você não tirá-lo da gaiola. – Tenho vontade de rir. Não tirá-lo da gaiola, tem mais a ver com o medo da Srta. Mills, do que com a minha irmã.

— Não vou tirar. – Ah é, parece que Regina tem mesmo o dom do convencimento sobre a minha filha quase sempre tão teimosa. – E vou mostrar também o Elvis Regina, o que você acha?

— Eu acho uma ótima ideia. Depois você me fala o que ela achou. – Minha namoradinha é beijada e abraçada, e retribui do mesmo jeito, antes de pôr minha filha no chão.

Janis vai em busca de Anna, que foi carregada por Zelena, provavelmente até a sacada. Tiro os olhos da garota para encarar a mulher da minha vida.

— Olá de novo, Srta. Swan! – Me sorri. Lhe sorrio de volta e me ponho de pé. Não respondo nada, apenas a abraço, de novo desejando morar nos braços dessa mulher. Ela me traz tanta confiança, tanta segurança, tantos sentimentos bons. Quando eu estou com ela, sinto como se nada pudesse me atingir, me machucar. Regina é meu tranquilizante, a pessoa que traz paz para o meu espírito. Não importa o quão miserável eu esteja me sentindo, quando para em seus braços, eu consigo desacelerar. – Está tudo bem agora. – É o que me fala, enquanto me aperta em seu abraço.

— Obrigada por tudo! – Solto com o ar.

— Você não tem que me agradecer por nada. – Sua voz sai baixa, terna.

— Sim, eu tenho, como eu tenho. Obrigada por se importar. – Ela suspira, afaga minhas costas e então desfaz-se do abraço. Suas mãos seguram as minhas e as apertam.

— Então nesse caso eu preciso agradece-la pelo mesmo. – Fala e eu nego.

— Não, você não precisa. – De novo me sorri.

— Está vendo? Nós não precisamos de agradecimentos. O que eu faço por você, você faria por mim e vice-versa. – Se ela não fosse Regina Mills, me falaria que isso significa amor, ou qualquer outro tipo de coisa considerada por ela brega. Como ela é Regina Mills, apenas pisca para mim.

— Okay, então não obrigada, mas obrigada. – Me rola os olhos e me faz ter vontade de beija-la. Minhas mãos vão até sua cintura, e eu a puxo, juntando seu corpo ao meu.

— Está mais calma? – Sua mão toca meu rosto e o afaga, enquanto isso seus olhos atentos me analisam.

— Estou. – Falo. – Quer dizer, boa parte do dia eu passei preocupada, entre muitas outras coisas, mas Zelena chegou, e digamos que ela é boa na arte de distrair, então consegui espairecer. – Explico e ela concorda com a cabeça.

— Ela é. É praticamente um remédio natural para curar a ansiedade. – Pela certeza como me conta tal coisa, concluo que já usou algumas vezes tal remédio natural.

— Como está minha mãe? – Indago.

— Agora eu sei de quem você herdou tanta teimosia. – Começa desse jeitinho. – Sua mãe deveria ter ficado no hospital, mas insistiu tanto, que no final, acabei assinando um termo de responsabilidade para traze-la para cá. – Meio que faz uma reclamação. – Ela fraturou duas costelas. Está cheia de hematomas e dores por todo o corpo. Tem que esperar o olho desinchar, para saber se vai precisar de cirurgia. – Fala praticamente sem respirar. – Ela não está bem, mas também, não está correndo nenhum risco. Porém, devido as dores, deveria ter continuado internada. – Explica. – Agora não está sentindo muito, porque foi medicada, acho que algo como morfina, porém quando o efeito passar, tenho receio que você precise leva-la de volta ao hospital.

— Provavelmente o medo que sente por aquele infeliz, fez com que não quisesse ficar lá. – É a conclusão que chego. — Zelena me falou que ele fugiu. – Afirma.

— Sim, mas não se preocupe, o que sobra de agressividade para o seu pai, falta de inteligência. Não vai demorar até a polícia encontra-lo. – Me garante. – E agora você vai ter os seguranças. Você sabe, eu mesma não pude providencia-los, por um motivo chamado Cora, mas Zelena resolveu com Tinker. – Conta a novidade. — Amanhã na primeira hora, estarão batendo na sua porta. – Eu não gosto dessa história de seguranças. É estranho pensar que alguém que eu nem conheço, vai virar praticamente minha sombra, porém depois dos últimos acontecimentos, acho que por ora, vai ser bom, ou menos ruim.

— Queria que fosse você a minha segurança. Para eu fazer amor com segurança. – Primeiro ela rola os olhos, depois começa a rir.

— Que tipo de cantada de pedreiro foi essa, Srta. Swan? – É o que me questiona ao arquear uma sobrancelha.

— Você não gostaria de ouvir minhas piadas de pedreiro. – Respondo rindo.

— Se são ainda mais ruins do que essa que acabei de ouvir, não gostaria mesmo. Não me conte. – Lhe mostro a língua.

— Chata! – Não deixo que me responda, trato logo de lhe roubar um beijinho.

— Shiu! A casa está cheia, comporte-se. – É o que me pede, antes que eu consiga transformar o beijinho em pelo menos, um beijo.

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— Estou comportada e não tenho culpa se a sua boca é muito beijável. – Suas mãos vão até meus lábios, passa os dedos ali, provavelmente limpando o que borrou.

— Então a minha boca é muito beijável? – Afirmo muitas vezes.

— Você não faz ideia do quanto. Quis beija-la desde a primeira vez que parei os olhos nela. – Não fala nada, só sorri. – Por falar nisso, gostei dessas roupas, casual quase chique. Seu ar de mulher rica e fatal dentro delas, aflorou ainda mais e deixou você mais irresistível do que já é. – Meu elogio sincero, a faz me rolar os olhos. Regina não se dá bem com elogios, eu já percebi, mas como eu posso não elogia-la? Exatamente, não posso. Ela é tão maravilhosa, que deveria receber elogios de hora em hora.

— Talvez eu compre um jeans ou dois, então. – É o que me fala.

— Com isso nós concluímos que você não quer que eu resista. – Ou seja, ponto para mim.

— Não quero. – Afirma. – Não quero nem um pouco. – Ah é, provavelmente minhas borboletas construíram um monumento em homenagem a essa mulher.

Penso em tentar beija-la de novo, porém, Killian chega exatamente nesse momento.

— Mais uma princesa salva, por esse príncipe pouco provável. – É desse jeito que os anuncia. Como estou de costas para ele, provavelmente achou que não o ouvimos, e teve receio que minha mãe pudesse ver algo que viesse a não gostar.

— Quem diria que no final das contas, seu burro falante tem a força de um homem – É o que Regina resmunga, ao afastar-se consideravelmente de mim.

Ao me voltar para eles, encontro com minha mãe nos braços do meu amigo. Seu rosto inchado, principalmente na parte de onde uma vez, existiu seu olho esquerdo, me assusta, e me faz sem querer, recuar um passo.

Seu semblante é de quem está sentindo dor, dor do tipo que é quase impossível de suportar, mas mesmo assim, levanta um braço e tenta me sorrir. Além de sentir o coração acelerar, e de novo as pernas amolecerem, ao olhar para o estado dela, sinto raiva.

Novamente sinto raiva daquele infeliz. Novamente sinto vontade de sair atrás dele, de caça-lo, de esfolar bastante a cara dele, até torna-la irreconhecível.

— Fique calma! – Regina volta a se aproximar, só para me murmurar tal coisa.

Ficar calma, como eu posso ficar calma, vendo o estado que aquele boçal, deixou a minha mãe? Existe mesmo essa possibilidade? Como alguém pode fazer isso com uma pessoa, Deus? Como alguém tem essa coragem, esse sangue frio? O que diabos passa pela cabeça de um agressor? Por que eles fazem isso? E de novo, por que diabos você nunca fez nada a respeito, Emma?

— Onde você gostaria de acomodar-se, princesa? – Killian questiona com a minha mãe, enquanto troca olhares com Regina. Provavelmente a mandando me manter calma, ou coisa assim.

— No sofá está ótimo. – Sua voz quase não sai, fica perceptível nela, a dor que sente.

Regina volta a pedir que eu fique calma, antes de ir até o mesmo, ajeitando nele algumas almofadas para que sirvam de apoio. Com todo cuidado, Killian a carrega até lá, e tenta senta-la.

Sua feição de dor cresce consideravelmente, ela choraminga de olhos fechados, reclama, se contorce. Me deixa preocupada, agoniada e sem saber o que fazer.

— Sentada não vai dar. – A frase sai praticamente chorada. Agarra-se a Killian, como se ele pudesse livra-la das dores.

Com cuidado e agilidade, Regina o ajuda a deita-la. Ajeita as almofadas debaixo dela, enquanto a chama de teimosa, e lhe aconselha a voltar para o hospital.

— Melhor? – Questiona com ela que tenta lhe sorrir.

— Melhor. – Responde. – Obrigada! – Agradece.

— Então... – A Srta. Mills volta-se para Killian. – O que você acha de irmos até a sacada, ver o que as crianças e Zelena estão aprontando? – Seu convite cortês, simpático e educado, nada mais significa do que dar privacidade a mim e minha mãe.

— Menina, não é que você sabe ser simpática? – O viado implica com ela. – Se eu não fosse viado, até eu me apaixonaria. – Pega no braço de Regina, que devido as circunstâncias, não responde meu amigo como com certeza gostaria de responde-lo. Antes de irem, ela junta o casaco que ainda há pouco, deixou cair.

Balanço a cabeça negativamente, enquanto os assisto ir.

Minha mãe coça a garganta, roubando para ela, minha atenção. Levo as mãos a cintura e balanço a cabeça negativamente, enquanto analiso o seu estado. Ele quase a matou, aquele infeliz, quase a matou. Ela me olha esperando que eu fale alguma coisa, mas o que falar?

Como começar? E o que dizer? Devo dizer que sinto muito? Devo dizer que vamos dar um jeito? Devo pedir alguma coisa? Devo prometer alguma coisa? É só a minha mãe, eu sei, mas foram anos sem nos vermos, sem nos falarmos.

Faz muito tempo desde que ela me abandonou, e que de certa forma, eu fiz o mesmo com ela. Faz muito tempo desde que desistimos uma da outra. Agora somos quase desconhecidas, então não sei se tenho mais intimidade para falar tudo o que penso.

— Como você está? – Ainda sem saber como começar, o que questionar, questiono algo obvio aos olhos.

— Um pouco quebrada. – Tenta fazer graça de uma situação que não tem graça alguma.

Me aproximo, puxo a mesa de centro para perto do sofá e sento-me de frente para ela. Volto a balançar a cabeça negativamente. Sim, com toda certeza do mundo, ela não deveria ter saído do hospital. Mal pode se mexer.

Não tem muitas partes do seu corpo expostas, mas as que estão, estão machucadas. Vejo hematomas nas suas mãos, um olho inexistente, a boca arrebentada e escoriações no pescoço. Mesmo que Zelena tenha tentado me poupar sobre as agressões cometidas, eu posso imagina-las, quase as visualizo. Ele poderia tê-la matado, está bem visível nas marcas que deixou.

— Eu não consigo olhar para você, sem sentir vontade de ir atrás daquele infeliz, e arrebentar a cara dele. – Falo entre dentes.

— Isso não resolveria nada. – Começa. – Eu continuaria do mesmo jeito, quebrada. Você continuaria do mesmo jeito, magoada comigo. Sua irmã continuaria do mesmo jeito, assustada. Seu pai continuaria do mesmo jeito, agressivo. – Continuo sem saber como reagir, o que falar. Gostaria de lhe perguntar, como nos tornamos duas estranhas? Mas não acho que deva fazer isso, não hoje. Mesmo tendo nos tornado isso eu gosto dela, me preocupo com ela, me sinto culpada de vê-la assim. Mesmo tendo nos tornado isso, ela continua sendo minha mãe, me criou do jeito que pôde, do jeito que soube. Mesmo tendo nos tornado isso, ela é a primeira lembrança que tenho da vida.

— Eu deveria ter feito alguma coisa. – Lamento-me.

— Você tentou, querida. Não dependia de você. – Me olha com carinho, como costumava me olhar sempre que eu tentava encoraja-la, ou ajuda-la.

— Você deveria ter vindo embora conosco naquele dia. – Compartilho mais um pensamento e ela concorda.

— Sim, eu deveria. Eu deveria ter ido embora com você, há anos. – Mais uma vez, esbarro em não saber o que dizer.

— Como nós deixamos as coisas chegarem nesse ponto, mãe? – Não me responde nada e eu também não estou esperando que responda. Tampouco tenho uma resposta para isso. Foram sucessivos erros, não só dela, como meus também. – Eu só quero que você me prometa que nunca mais, nunca mais mesmo, você vai sequer pensar na possibilidade de conviver novamente com aquele animal. – Provavelmente estou ofendendo os animais, ao comprara-lo a um. Um merda, é isso que ele. Escroto, boçal, um projeto de gente que não deu certo.

— Eu lhe prometo. – Me estende a mão. Pondero um pouco, e um tanto hesitante, eu a pego. Sua mão está fria e suada.

— Está com frio? – Nega.

— Nervosa e com um pouco de dor. – Responde enquanto me olha um tanto quanto emocionada e afaga minha mão. Não sei o que se passa pela cabeça dela, o fato é que me olha como costumava me olhar, quando eu lhe dava algum tipo de orgulho.

— Você quer que eu te leve até o quarto? – Ofereço. – Lá você pode se acomodar melhor. – Volta a negar.

— Não. Me deixe ficar um pouquinho aqui, mal os conheço, mas já gosto dos seus amigos. As meninas com as implicâncias uma com a outra, me distraíram um pouco na tarde de hoje lá no hospital. – Se refere as irmãs Mills como meninas. Para mim, de meninas elas não tem nada. São mulheres fatais e perigosas. – O menino alegre, ele também me fez rir enquanto subia as escadas comigo no colo e me falava sobre você. – Menino alegre. No dia de hoje, nasce um novo apelido para Killian. – Sei que vou me distrair com todos quando eles voltarem para sala. – Concordo, assim como entendo que precisa de distração.

— São ótimas pessoas, ótimos amigos. – Os elogio.

— Regina Mills não é só uma amizade, é? – Vai direto ao ponto, como costumava fazer quando eu estava em casa. Não que ela me perguntasse sobre relacionamentos, principalmente mulheres, mas quando queria saber de qualquer coisa, era bem direta.

— Eu não sei sobre o que você está falando. – Ao tentar sair pela tangente, falo a primeira coisa idiota que me vem à cabeça. Provavelmente meu jeito um pouco sem graça a faz achar graça.

— Eu prestei atenção em vocês duas, naquele dia lá em casa, quando estávamos na cozinha. E hoje quando entramos, vocês estavam bem próximas. Eu não entendo nada sobre essas coisas, mas eu ainda conheço você, Emma. Então além dessas coisas, eu posso ver nos seus olhos, no jeito como você se porta perto dela. – Por que mães tem esse superpoder um tanto quanto irritante de simplesmente saber? Elas olham para você e acontece, elas sabem. Sabem quando aconteceu alguma coisa. Sabem quando você não está bem. Sabem quando você está apaixonada. Sabem. – É ela o seu relacionamento complicado? – Questiona. A princípio não respondo nada, não sei se devo. Devemos manter em segredo, não é isso? Não que minha mãe vá sair por aí falando, até porque ela tem vergonha da parte em que envolve eu gostar de mulheres, mas... – Okay, você não precisa falar se não se sente bem com isso. – Seus dedos continuam afagando minha mão.

— Sim, é ela. – Psicologia reversa sempre funcionou comigo, infelizmente. E também tem a parte onde minha mãe, a preconceituosa, está interessada em saber sobre meu relacionamento homossexual, e de um jeito onde quer saber porque tem interesse, e não para me criticar, ou me levar para uma cura.

— Acredito que aquele anel de noivado que ela carrega no anelar, não seja seu... – Acredita certo.

— Não, não é meu. Não é minha noiva. – Conto. – É tudo muito complicado, talvez um dia eu tente te explicar. – Concorda.

— Você a ama? – Faz uma nova pergunta.

— Sim, eu a amo. – Respondo sem pestanejar. – Amo muito. – Sorrio ao pensar sobre, e acabo contagiando minha mãe.

— Por isso você está indo para Nova York. – Não pergunta, faz uma conclusão.

— Por isso também. E por Janis, quanto mais eu penso, mais eu concluo que não quero que ela cresça aqui. – Conto. – Eu amo Las Vegas, mas quando paro para pensar, essa cidade me trouxe mais coisas ruins do que boas. – Suspiro. – Eu não sei... vejo Nova York como um recomeço, uma oportunidade. – Explico.

— Depois de tudo que lhe fiz, não me sinto no direito de sequer opinar a respeito, mas eu desejo que suas escolhas lhe façam muito feliz. Que você seja muito feliz com as pessoas que você ama, Emma. – Aperta minha mão. – E Regina Mills, ela é brava, mete medo, intimida, mas é uma boa pessoa. – Acabo tendo que rir, ao concluir que Regina assustou minha mãe.

— Ela é uma excelente pessoa. – Suspiro bobamente ao falar tal coisa.

— Eu nunca tinha visto você assim... – Ela ri e tal coisa parece causar-lhe dor, o que a faz fechar os olhos e fazer caretas. – Eu não posso rir. – Lamenta-se ao voltar a abrir os olhos. – O fato é que eu nunca tinha visto você assim, com esse jeito apaixonado. – Nem eu. É algo tão novo, que ouvir tal coisa, me deixa até sem graça.

— Mami!!!! – Janis vem correndo em minha direção, e faz com que o assunto morra. – Tio Killian está implicando com Regina, e Regina está implicando com tio Killian. A outra Srta. Mills, disse para eu vir contar tudo para você. – Balanço a cabeça negativamente, ao ouvir a fofoca sobre as minhas “crianças”. Janis estava tão concentrada em me falar tal coisa, que nem percebeu minha mãe aqui.

— Então você é a Janis. – Ao ouvir o comentário, a garota tira os olhos de mim, e volta-se para a sua avó. A princípio fica em silêncio, provavelmente assustada, ou impactada com o que vê. Então esboça um sorriso e afirma.

— Então você é minha avó? – Sua incerteza sobre, a faz questionar ao invés de concluir.

— Então eu sou a sua avó. – Afirma. — Quando esses machucados sararem, eu vou ficar mais apresentável. – Promete. – Você é linda! – Sorri para Janis enquanto lágrimas acabam escapulindo pelo olho bom que lhe sobrou. – É a cópia da sua mãe, quando ela tinha sua idade. – Olha para mim. – É impressionante, posso jurar que estou vendo você quando tinha essa idade, até a voz é igual. – Sobre isso, eu não posso ter certeza, mas se minha mãe está dizendo, então deve ser mesmo. – Ela é linda, Emma, perfeita. – Se derrete. — Eu lhe agradeço, por a ter escolhido. – Deixa mais algumas lágrimas caírem. Não lhe respondo nada, primeiro, porque não tem muito o que responder. Segundo, a presença de Janis, me impossibilita de falar o pouco que eu gostaria.

— Entendi foi nada. – O comentário da garota, nos faz rir. – Dói muito esse machucado? – Aponta para onde deveria existir um olho.

— Dói um pouquinho. – Responde. – Estou tomando alguns remédios para não doer muito. – Explica.

— Sem remédios dói? – Faz mais uma pergunta.

— Sem remédios dói muito.

— Então eu não vou deixar você esquecer. – Se compromete e ganha um sorriso.

— Obrigada por isso, Janis! É muito gentil da sua parte. – Agrade.

— De nada. Se você quiser, eu posso lhe emprestar Elvis Regina para ajudar a cuidar de você. – Oferece sua pelúcia de estimação.

— É um animal de estimação? – Minha mãe me questiona, me lançando um olhar de interrogação.

— É um urso de pelúcia, praticamente do tamanho dela. – Conto.

— Regina ganhou para mim no parque de diversões. – Fala com orgulho. – Ela acertou todos os tiros do tiro ao alvo. – Consegue se orgulhar ainda mais.

— Parece que Regina é uma ótima atiradora. – Pensa alto. Provavelmente está lembrando de quando Regina pegou sua arma de verdade, e quase fez do meu pai, seu alvo.

Bom, ao falar sobre Regina, Janis parece lembrar do que veio fazer na sala, então volta-se para mim, provavelmente para voltar ao assunto.

— Tio Killian e a Srta. Mills estão se implicando e agora ela quer ir embora. – Reclama comigo. – Você tem que ir lá brigar com ele, eu não quero que ela vá embora. – E quem quer, não é mesmo? – Merida disse que você é a única que talvez possa resolver isso. – Infelizmente nem eu sou capaz de resolver esse problema.

— Janis, ela não vai embora por culpa do tio Killian, ela vai, porque ela precisa ir. – Explico. – E eu espero que você não faça a mesma birra que fez da última vez, Okay? – Me olha um pouco contrariada. – Você deixa ela triste quando fica insistindo em algo que ela não pode. – Preciso lembra-la sobre isso. Suspira antes de me responder.

— Mas eu não gosto quando ela vai embora. – Reclama. – Quando nós vamos nos mudar?

— Não sei, preciso resolver umas coisas aqui primeiro. Quando der, nós nos mudamos. – Minha resposta vaga a faz bufar. Abre a boca para reclamar, porém sou mais rápida. – Sem mas, Janis. – Volta bufar e resolve também bater o pé.

— Chata! – Me faz rolar os olhos.

— Você não quer brigar comigo hoje. – Sua birra faz com que eu comece a me irritar.

— Não, ela não quer. – Sua salvadora já surge falando. Vem ao nosso encontro, para ao lado de Janis e troca um olhar rápido com ela, a fazendo desistir da discussão. – Não é isso, pequena Srta. Swan? – Janis afirma com a cabeça, enquanto dá a mão para a Srta. Mills.

— É. – Seu “é” sai completamente contrariado, mas saí. Não sei como a Srta. Mills consegue, o fato é quase sempre, consegue dobrar a teimosia da minha filha, usando uma, no máximo duas frases para isso.

— Agora você vai me levar até seu camaleão, para que eu possa me despedir. Decidi que gosto mais da companhia dele do que dá de Killian. – Acabo tendo que rir ao ouvir tal coisa.

— Mas você já quer ir? – Questiono.

— Eu preciso ir. – Me corrige.

— Se o voo é fretado, vocês podem ficar um pouco mais. – Peço enquanto faço cara de cão que caiu da mudança.

— Espero que não tenha sido esse o motivo pelo qual você estava brigando com a sua filha. – Me dá bronca.

— Ai, desse jeito dói, Srta. Mills. – Faço cara de dor, o que a faz me rolar os olhos. Continua com cara de poucos amigos.

— Era por isso sim! – Janis me acusa.

— Era mesmo. – Até minha mãe, resolve me entregar.

— Como quer que sua filha não insista no assunto, se você dá exemplo contrário? – Está mesmo nervosinha.

— Devemos discutir sobre? – Questiono na defensiva.

— Se você não quer perder tal discussão, não. – É a resposta que me dá.

— Tudo bem então, me desculpe ter insistido. – Peço. – É uma pena você ter que ir embora, mas eu entendo. – Quase, bem quase, consigo vê-la sorrir, mas, tratando-se de Regina Mills, consegue evitar tal coisa. – Talvez antes de ir, você queira conversar comigo, a sós, só um pouquinho, sobre negócios? – Agora não consegue mais evitar de sorrir.

— Negócios? – Questiona de sobrancelha arqueada.

— É mentira da Mami, aposto que ela quer conversar sozinha, só para pode beijar você. – Bom, enquanto eu não consigo evitar de gargalhar, Regina fica bastante sem graça com tal comentário. – Foi o tio Killian quem falou. – Ela dá de ombros.

— Eu. Odeio. O. Tio. Killian! – Fala pausadamente, com os olhos parados em mim. Reclamando comigo. Esbravejando comigo.

— A Merida também falou. – Janis a atualiza.

— Eu vou matar ela. Vou fazer picadinho de Zelena. – A ameaça da Srta. Mills, diverte a garota.

— Eles estão mentindo? – Questiona com Regina, que acaba sem resposta, o que de novo me faz rir.

— Não. – Respondo. – Mas eu realmente quero conversar também. – Explico.

— Okay, Janis, você vai me levar até o camaleão ou não? – Regina Mills muda o foco do assunto.

— Vou, mas você tá brava? – Questiona enquanto analisa sua defensora. Sim, ela está. Provavelmente porque Janis deu com a língua nos dentes na frente da minha mãe, quando elas tinham combinado que ninguém poderia saber sobre esse segredo, porém, não vou interferir, vou deixar que se resolvam.

— Nós conversamos lá no quarto, pode ser? – Mesmo brava, continua com um tom calmo e terno. Algo que só Janis mesmo para arrancar de uma Srta. Mills irritada.

— Okay. – Responde com desconfiança, antes de seguir com Regina para o cômodo.

— Não foi só da mãe que ela roubou o coração... – Minha mãe conclui, e ganha minha atenção.

— Não foi. Janis foi a primeira conquistada. – Conto.

— Ou foi a primeira a conquista-la? – Questiona.

— Eu acho que foi mútuo. – Opino. – Elas apenas se apaixonaram. – Concorda com a cabeça.

— Eu não sei o que dizer... – Está obviamente referindo-se a Regina e eu.

— Você continua achando errado. – Concluo e ela nega.

— Como eu poderia achar errado, se faz você feliz? – Não sei se questiona comigo, ou com ela, mas sei que há alguns anos, ela achava bastante errado, independente de qualquer felicidade.

— Porque você foi educada assim, cresceu ouvindo isso, e continuou ouvindo durante sua vida. Então eu tento não julga-la por achar errado. – Explico.

— Não vou mentir, me incomodaria se eu visse vocês se beijando... – Começa um tanto hesitante. – Isso é preconceito, eu sei e peço desculpas. Sei que tenho que trabalhar nisso. – Fala. — Agora, errado? – Suspira. – Quem sou eu, para achar errado? Será que é mais errado do que eu ter abandonado você e a sua filha recém-nascida? – Nega com a cabeça. – Não, não acho que seja. Eu ainda estou tentando entender, sabe? Mas errado, não é mais isso que eu acho, querida. – Me sorri. – Eu queria poder voltar no tempo. Não para levar-lhe a igreja, mas para lhe acolher, do jeito que você merecia ser acolhida. – Ao ouvir tal coisa, sinto minha garganta apertar.

— Tenho fé que um dia além de aceitar, você vai conseguir entender, mãe. – Minha voz acaba saindo embargada.

— Eu vou, tenho certeza que vou. Provavelmente a Srta. Mills, roubará o coração dessa Swan aqui também. – Me faz sorrir.

— Na verdade se ela fosse roubar algo seu, roubaria seus bolos. – Meu comentário a faz rir, o que de novo a faz sentir dor.

— Quando você for para Nova York, vou mandar por você, um bolo só para ela. – Se Regina ouve isso, vai querer que eu me mude amanhã. – Enquanto essa mudança não acontece, vou ensina-la a fazer um bolo tão bom quanto o meu. – Se compromete.

— Desse jeito eu vou acabar na cozinha todos os dias. O tamanho daquela mulher, não corresponde ao tamanho do seu estomago. Quando está de bom-humor, Regina transforma-se em um monstro guloso. – Lhe conto.

— Assim você pode conquistar o estômago dela também. – Pisca para mim.

— Pelo amor de Deus! – Killian já chega sendo Killian. – Elas já se conquistaram mais do que deveriam, chega! Senão não vai sobrar amiga para mim. – É o que o escandaloso fala.

— Nem irmã para mim. – Zelena que veio para sala com ele, faz o comentário.

Tem minha irmã aninhada em seus braços. Desconfio que Anna nem saiu dali desde o momento em que foram para a sacada.

É engraçado que mal se conhecem, mas é perceptível o quanto Zelena gosta da menina, e o quando a menina gosta de Zelena. Ela parece tranquila nos braços da ruiva, que por sua vez, parece feliz tendo a garota aninhada em seu colo.

— Vou ficar de olho, para que você não leve embora. – Implico com a ruiva que sorri.

— Eu amo crianças!!! – Nem tinha percebido. — Mas amo só a parte boa, amo ter a opção de devolvê-las as mães, quando começam a chorar. – Me faz rir. – Pelo menos mais uns cinco sobrinhos, eu quero ter. Deem um jeito. – É o que me fala.

— Boa sorte em convencer sua irmã. – Desejo. – Primeiro, a ter cinco filhos. Segundo, a carrega-los no ventre. – Regina é traumatizada com essa história, tenho certeza que ainda vai ponderar muito, antes de enfim se decidir. Acredito que consigo convencê-la a pelo menos um, mas cinco? Consigo ouvir perfeitamente sua voz de deboche me perguntando se ela tem cara de Angelina Jolie.

— Você pode ajuda-la com isso, não seja malvada. – Killian quem fala.

— No máximo mais um, eu carrego. Os outros quatro, são com a Srta. Mills. – E tenho dito. Metade da minha gravidez, eu passei vomitando. E outra metade eu passei comendo e chorando. Então não acho que tenho condições para mais cinco.

— Meu amor, você não vai ter saco para aturar um mês da gravidez de Regina, imagina nove. E depois mais nove, depois mais nove, e depois mais nove. – Zelena parece ter bastante certeza no que diz. – Ela vai ter um e então você vai implorar para ela, para que você tenha os outros quatro. – O jeito como me conta, como me dá essa certeza, me deixa assustada e faz Killian rir.

— Viado! Agora já estou torcendo para sua irmã ter os cinco. Quero ver Emma se lascando. Só para eu rir e poder falar que eu avisei desde o começo que essa mulher é o diabo em um corpo de pessoa. – Isso porque segundo a vã filosofia, nós somos amigos.

— Você tem que parar de implicar com ela. – Falo a ele, que leva as mãos ao peito e faz cara de desacreditado.

— Euzinha? Ela quem implica comigo, viado! Eu sou uma fada inocente, que só ataca quando é atacada. – Zelena ri. Já minha mãe, por motivo de dores, tenta não fazer o mesmo.

— Converse com ela e se revolvam. – Não peço, ordeno. – Fale tudo que você tem para falar, e depois ouça tudo que ela tem para dizer. No final, como duas pessoas civilizadas, apertem as mãos e se entendam. – Me olha contrariado.

— Ela não gosta de mim. – Reclama comigo.

— Porque desde que se conheceram, tudo que você fez, foi implicar com ela. – Respondo o obvio.

— Zel, Zelena, Zeleniha, você pode pedir paz em meu nome para sua irmãzinha, por favor? – Recorre a Zelena que é claro, nega.

— Meu amor, se eu fosse pedir algo a Regina, esse algo seria a parte dela da nossa herança. – É a resposta debochada que dá. – O máximo que eu posso fazer a respeito, é marcar uma reunião e me certificar que ela não vá armada. – Me faz rir.

— Chata! Eu pensei que fossêmos amigas. – Reclama.

— E somos. Mas se você quer trégua, você quem tem que pedir por isso. Nenhuma amiga pode fazer por você. – Sensata, é isso que minha cunhada é. – Porém, vai ter que ficar para uma próxima vez, agora nós precisamos ir embora. – Solto um suspiro de lamento, ao ouvir tal coisa. Se até Zelena está falando, é porque está mesmo na hora.

— Por que vocês não deixam para mais tarde? – Peço.

— Porque são cinco horas de voo até lá. Até saímos do aeroporto e chegarmos em casa, vai quase mais uma hora, ou seja, sem chance de eu deitar para descansar minha beleza antes da meia noite. Fora que amanhã precisamos estar cedo no escritório. – Me responde. Fora também o encontro sexual que está esquecendo de expor.

— Okay, é um bom motivo. – Mas mesmo assim, continuo frustrada.

— Sua filha consegue disfarçar melhor a cara de insatisfação. – Me fala ao entregar minha irmã para mim. – Vou até o carro, buscar os presentes de Janis e já volto para despedida. – Avisa.

— Que presentes? – Quero saber. Até o exato momento, não estava sbeando sobre isso.

— Não faça essa cara, não é a Beyoncé, ainda. – Me faz rolar os olhos. – O presente é para Janis, mas você quem vai ter que ler, são os livros do Harry Potter. Regina comprou e esqueceu no carro. Então encarou o burro de carga que vos fala, de ir até lá busca-los. – Rum! Vindo de Regina e seu exagero, os livros até que são bem aceitáveis. Então vou dar uma chance e não vou reclamar. – Já volto! – Avisa e agora vai.

Beijo o topo da cabeça da minha irmã, enquanto a ajeito em minhas pernas e mentalmente me lamento por elas terem que ir.

Não é fácil a vida da mulher sapatão. Quando não está sofrendo por amor, está sofrendo por distancia, o que no final das contas, dá no mesmo, mas enfim, o sofrimento nunca acaba.

— Mamãe, nós vamos morar nessa casa? – A voz tímida e baixa de Anna, questiona.

— Por enquanto vamos. – Responde. – Tudo bem? – Afirma com a cabeça.

— Eu não quero voltar para casa nunca mais. – Pede, o tom de voz tristonho.

— Nós não vamos mais voltar. Vai ficar tudo bem, Okay? Mamãe logo vai melhorar. – A menina concorda com a cabeça.

— Por que o papai é mau? – Questiona e antes que nossa mãe abra a boca para dizer que não é bem assim, resolvo tomar frente e responder.

— Porque ele é. – Falo. Ela levanta a cabeça, para que possa me olhar. – Não existe uma explicação para isso, mas ele é mau. Ele não gosta da sua mãe, nem de você, nem de mim, e nem dele mesmo. Por isso ele bate. – Continuo. – Eu prometo para você, que você nunca mais vai ter que vê-lo, combinado? – Sua resposta é um balançar de cabeça. – Eu vou cuidar de você e da nossa mãe, Okay? – De novo concorda com a cabeça. – Nós vamos fazer muitas coisas de irmãs, vamos nos divertir muito, você vai ser uma menina muito feliz e vai esquecer de todas essas coisas ruins. – Sorri ao ouvir minhas promessas.

— Nós vamos andar de avião? – Afirmo.

— Nós vamos sim. – Dou minha palavra.

— E nós vamos na casa dessas moças? – Provavelmente as moças são Regina e Zelena.

— Vamos, nós vamos fazer uma bagunça na casa delas. – Ela ri.

— Obrigada, Emma! – Me agradece e me faz esmaga-la em um abraço.

— De nada, Anna! – Ouço Killian fungar.

— Eu sou um viado emotivo, não posso com essas coisas. – Fala. – Sabe, uma vez eu ajudei a cuidar de um bolinho. Fisicamente, você me lembra muito dela. Agora eu me comprometo a ajudar a cuidar de você também, e fazer com que você se torne uma criança feliz e sem preocupações. – Está ajoelhado, segurando-se em minha perna, enquanto fala com ela. – Você aceita ser minha amiga? – Pede e ganha um balançar positivo de cabeça. – Aceita? – Tenta fazê-la falar.

— Sim. – Responde timidamente.

— Obrigado então, amiga! – Agradece. – Amanhã nós vamos tomar um chá juntos, para comemorar essa amizade. – Ela acha graça. – Hoje nós podemos pedir uma pizza, o que você acha? – Anna eu não sei, mas eu particularmente acho que devo parar com essa “dieta” de pizzas, e voltar para os jantares leves.

— Enquanto vocês debatem o cardápio, eu vou até o quarto falar com Regina. – Me ponho de pé e espero Killian fazer o mesmo. – Cuide delas. – Peço a ele ao entregar-lhe Anna.

— Pergunte a ela se podemos assinar um tratado de paz. – O viado me pede.

— Vou no máximo avisa-la que você quer conversar com ela. – Me mostra a língua. Lhe retribuo do mesmo jeito, antes de dar-lhe as costas e ir em busca das minhas mulheres.

Pelo tom despreocupado que ouço de Janis, e pelo tagarelar também despreocupado de Regina, concluo que a conversa séria, já acabou. Paro no batente da porta, para observa-las. Janis está deitada sobre a Srta. Mills, que tem os olhos fechados e as mãos nos cabelos da minha filha. A garota também está com os olhos fechados, e tem um sorrisinho bobo no rosto. Se antes parei para observa-las, agora estou parada as admirando.

O que Killian falou mais cedo, quando Regina chegou com Anna nos braços, acaba parando na minha cabeça. Não consigo não sorrir imaginando. Não consigo não desejar muito que tal coisa aconteça. Eu quero dividir a maternidade de Janis com ela, e quero que ela divida comigo, a maternidade de todos os filhos que quiser ter. Eu quero uma família com ela. Quero um casamento com ela. Quero me amarrar a ela, de todas as formas possíveis. Ai como eu quero.

— Eu queria que você não fosse embora. – Janis insiste, e bom, eu queria que ela pudesse convencê-la.

— Eu queria não precisar ir. – Responde. – Mas eu preciso. – Pelo tom como responde, fica perceptível que está tão chateada quanto nós, sobre o fato de ter que ir.

— Você vai me ligar? – Regina sorri, provavelmente comparando a garota a mim.

— Todos os dias, prometo.

— Eu vou esperar. – Avisa.

— Pode esperar. – Fala. – Não esqueça de prestar atenção nas aulas. – Pede.

— Não vou esquecer. – Promete.

— E você tem que parar de tentar arrumar briga com a sua mãe, dona encrenqueira. – Ao sair a meu favor, ela me faz sorrir.

— Eu não arrumo briga. Ela quem briga comigo. – Se defende e me faz balançar a cabeça em discordância.

— Você tem que obedecê-la. – Isso, isso, ela tem que me obedecer e sem reclamar. É isso, só isso, apenas isso. – As coisas que ela fala para você, são para o seu bem. Ela nunca vai falar nada, que não seja para o seu bem. – Sinto vontade de pular nessa cama e beijar essa mulher linda que graças a Deus eu posso chamar de minha.

— Eu sei, mas as vezes ela me chateia. – Reclama. – Deve ser porque eu sou essa coisa de ariana que eles estavam falando. – Seu comentário faz com que Regina dê risada. Tenho que me segurar para não fazer o mesmo. – Eles falaram que você também é isso. Então as vezes minha mãe também te irrita? – A Srta. Mills ainda ri.

— Às vezes... – Começa. – Quando ela muito teimosa, ela me irrita. – Conta. – Quando ela se encosta no batente da porta para ouvir a conversa alheia, também. – Depois de falar tal coisa, ela abre os olhos e eu sou pega no flagra. – Que coisa feia, Srta. Swan! – Me acusa e faz com que Janis também abra os olhos.

— Você diz que é feio ouvir atrás da porta. – A garota me dá bronca. Tecnicamente, eu não estava atrás da porta, certo? Mas resolvo não falar nada. Apenas levanto os braços.

— Okay, eu sou culpada. Realmente é feio ouvir a conversa alheia. Será que vocês podem me desculpar? – Peço.

— Se Janis desculpar, eu também desculpo. – Regina responde.

— Por favor! – Peço a minha filha, que me sorrir.

— Tudo bem, nós desculpamos. – Responde.

Saio do lugar onde estou e vou até elas. Sento-me na beirada da cama e inclino o corpo para beijar o rosto de Janis.

— Obrigada por isso, arianas irritadas! – Agradeço. – Segundo maiores informações, teremos um aniversário duplo em abril, procede? Fontes confiáveis me falaram que seu aniversário é dia Sete. – Ela rola os olhos.

— Zelena sempre se metendo onde não é chamada. – Seu comentário me faz rir.

— Janis faz dia cinco. – Falo.

— Dias diferentes, festas diferentes, babe! – Usa de deboche para pronunciar o babe. – Vamos dar um festão no seu aniversário. – Isso fala olhando para Janis, que agora está sentada sobre a sua cintura. – E depois daremos um festão no meu. Quero comemorar todos os últimos anos não comemorados. – Tratando-se de festa, posso perceber que ela se parece com Zelena. Gosta de ostentar e não faz questão de disfarçar.

— Uhu!!! – Janis levanta os braços em comemoração.

— Ainda bem que vocês sempre pedem minha opinião. Obrigada por isso. – Debocho, o que faz a Srta. Mills me mostrar a língua.

— O que você acha da ideia, Srta. Swan? – Agora acabo tendo que rir. Acho que na festa de Regina, eu só vou passar raiva, devido as circunstâncias, mas também acho que posso aguentar. Como ela falou, faz algum tempo que não comemora a data, então não vou ser a do contra. Quero que comemore e se divirta.

— Acho que já vou começar a juntar dinheiro, para comprar meu vestido chique e caro, que usarei na ocasião. – Respondo.

— Eu posso resolver isso. – Tinha certeza que me falaria tal coisa.

— Eu sei, e agradeço, mas dispenso. Gosto de fazer surpresa. – Seus olhos param nos meus, enquanto ela me analisa. Nesse exato momento, não sei o que está pensando.

— Não me surpreenda muito, Srta. Swan. – Pede. – Não me faça demonstrar ciúmes da pessoa que publicamente, não é minha. – Bom, pelo que acabo de entender, Regina já está sabendo sobre Tinker.

— Odeio quando vocês começam a falar coisas que eu não entendo. – Janis reclama conosco. Lhe sorrio, a tiro de cima de Regina e a coloco no chão.

— Eu preciso falar um pouquinho a sós com a Srta. Mills. – Explico a ela.

— Mas daqui a pouco ela já vai embora. – Meio que reclama.

— Por isso eu preciso falar com ela, coisas de adultos. – Me rola os olhos e continua exatamente no mesmo lugar.

— Mas eu cheguei primeiro. – Paciência, Emma, paciência. Você pode, você consegue, você é capaz.

— Janis, eu estou lhe pedindo, mas se você preferir, eu posso mandar. – Tento de novo.

— Pequena Srta. Swan? – Regina ganha sua atenção. – Zelena provavelmente já está ali na sala com os seus presentes. Por que você não vai até ali abri-los, enquanto eu e sua mãe conversamos? – Pede. – Eu não vou embora antes de me despedir de você, e saber o que achou dos presentes. – Promete. Janis suspira e mesmo contrariada, concorda com a cabeça.

— Feche a porta. – Peço a ela, que se vai sem me olhar, e nem me dizer mais nada. Ela não fecha a porta, ela bate à porta, e ao fazer isso, ela me irrita ao extremo.

— Eu vou lá conversar com essa menina malcriada. – Esbravejo e tento ir, mas Regina me segura pelo braço. Está nitidamente tentando não rir.

— É desse jeito que você fica quando eu atiro coisas? – Me pergunta.

— Sim. – Respondo. – Mas infelizmente eu não posso pôr você de castigo. – Agora ri sem disfarçar.

— Deixe a bronca para depois, e aproveite esses últimos minutos comigo. – Ela e Janis são cúmplices, então sei que esse pedido, também é para livrar minha filha do castigo.

— Às vezes eu odeio você, sabia? – Afirma com a cabeça enquanto ainda ri.

— Sabia. – Responde sem se abalar.

— Então, como você já deve estar sabendo, Tinker aceitou nos ajudar. – Como não temos tempo, não posso fazer o charme que gostaria.

— E por que essa cara de desânimo ao falar sobre? – Quer saber.

— Porque ela vai fazer de tudo para irritar você, eu sei que vai. E esse de tudo, inclui me usar para fazer ciúmes. – Concorda.

— Acredito que isso vá mesmo acontecer. – Continua sem se abalar.

— E acredito que você descontará a irritação por esse ciúme em mim. – De novo concorda.

— Provavelmente eu farei isso.

— Eu não concordo com isso, não concordo em forjarmos namoro, mas vou fazer porque você é chata e fica dizendo que é a melhor maneira. – Falo. – Porém, quando você me chatear por motivos de ciúmes, você quem vai vir se desculpar. – Exijo. Ela está sorrindo.

— Me parece junto. – É o que me fala. – Devo levar flores, ou a Lady Gaga, talvez? – No momento, está se divertindo com a situação, quero só ver se vai achar assim tão divertido, quando acontecer.

— Deve me levar a sério. – Reclamo com ela.

— Eu não quero passar meus últimos minutos aqui, discutindo com você por algo que ainda nem aconteceu, Srta. Swan. – É o que me fala. – E sobre leva-la a sério, você sabe que eu a levo muito. – Me faz suspirar. – Agora venha aqui, me dê um abraço, seja brega e se despeça. – Pede e instantaneamente, eu acato.

— Não vá embora!!! – Imploro ao me jogar para cima dela. – Eu vou morrer de saudades!!! – Beijo-lhe o pescoço, e escondo meu rosto ali, inspirando o máximo que posso do seu perfume, que já é tão meu.

— Para com isso, eu preciso ir, Emma! – O tom de lamento com que me pede para parar, deixa bastante claro que está mesmo indo porque precisa fazer isso.

— Depois desses dias juntas, me diz como eu vou conseguir dormir sozinha? – Meus lábios voltam a tocar seu pescoço.

— Do mesmo jeito que você dormiu antes de ontem, quando eu fui dormir em casa. – Responde.

— Eu rolei muito na cama até conseguir dormir, e mesmo assim, no outro dia, eu já estava com você novamente. – Continuo com meus lamentos.

— Vamos pensar pelo lado positivo, eu vou ter novamente uma cama para chamar de minha, onde eu não vou ser espremida em um espaço minúsculo que caso eu calcule mal, posso acabar no chão. – Debocha e me faz rir.

— Você reclama, mas bem que gosta. – Essa é a minha opinião e nada além dela importa.

— Além de ser muito espaçosa, você também é muito convencida. – Seus dedos alisam minhas costas. Sua voz baixa e calma me traz tranquilidade, e o aconchego dos seus braços, me faz sentir em paz. Quando falo que poderia ficar desse jeito para sempre, acho que realmente poderia.

— Além de espaçosa e convencida, eu também sou muito apaixonada. – Levanto a cabeça para olha-la. Em momentos assim juro que posso ver em seus olhos, minha vida todinha. – Como você consegue? – Questiono.

— Consigo o quê?

— Me mostrar tanto, sem me falar nada. – Sussurro. Seus olhos me sorriem junto com seus lábios.

— É um mérito seu, não meu. – Também sussurra. – Então a pergunta seria... – Leva a mão até meu rosto, seus dedos tiram alguns cabelos dali. – Como você consegue fazer com que eu faça isso? – Retribuo o seu sorriso bobo, recosto minha testa na dela e fecha os olhos.

— Eu só... amo você! – Respondo. – E acho que seus olhos me dizem que você me ama de volta. – Compartilho o meu achar. A princípio não diz nada, só continua mexendo nos meus cabelos, os tirando das laterais do meu rosto e colocando para trás das orelhas.

— Com isso nós podemos concluir que além de ser muito espaçosa, convencida e apaixonada, você também é uma excelente observadora, Srta. Swan! – Sua voz que não passou de um sussurrar, causa impacto imediato em todo meu corpo. Estamos em um daqueles momentos que provavelmente é possível ouvir meu coração batendo.

Regina Mills acabou de deixar subentendido, ou bastante entendido que me ama. Regina Mills, disse que me ama. Não com essas palavras, mas ela disse. Regina Mills, me ama! Ah Deus! Ainda bem que eu estou deitada, caso não estivesse, provavelmente minhas pernas não teriam aguentado tanto. Se antes minhas borboletas habitavam só meu estômago, ao ouvirem tal coisa, elas alçaram voo e agora eu juro que posso senti-las em todas as partes do meu eu.

Volto a encontrar com a imensidão dos seus olhos, quando abro os meus. Antes que eu possa responder, falar alguma coisa, expressar minha felicidade, suas mãos que seguram meu rosto, o puxam, acabando com a pequena distância que existia entre nossos lábios.

A suavidade como seus lábios tocam os meus, o cuidado com o qual seus dedos afagam meu rosto, os sentimentos que me monstra nesses pequenos, delicados e tão singelos atos, me mostram que sim, ela realmente me ama.

Se mais cedo tudo que essa mulher exalava era desejo e perversidades, agora ela exala amor, carinho, bem-querer. Quantas mulheres cabem dentro dela? Quantas eu já conheci, e quantas ainda vou conhecer? Ela é uma Regina quando acorda, e outra completamente diferente quando vai dormir. A Srta. Mills, é uma dessas pessoas inexplicáveis, indecifráveis.

Ela me leva do céu ao inferno só para depois me puxar para o céu de novo. Ela me irrita e minutos depois, me faz ama-la ainda mais. Num minuto ela pode ser o mais rigoroso inverno, só para no minuto seguinte ser o mais belo dia de verão. Do mesmo jeito que traz a tempestade, ela vem e faz calmaria. Eu nunca sei o que esperar dela, nunca, Regina Mills é surpreendente, e isso me fascina, me encanta.

Ela é tantas coisas, tantas poesias, tantas canções de amor, tantas cartas escritas a mão, tantos finais bregas e felizes. Dentre todas essas coisas, ela é o amor da minha vida, eu sei que é. Tenho essa certeza todas as vezes que meus olhos param nos dela. Não sei explicar como, não sei dizer o porquê, tudo que eu sei é que quando eu olho dentro dos olhos dela, essa certeza vem.

Infelizmente três batidas na porta, estouram nossa bolha de amor, levam embora nosso mundo paralelo e junto com ele, meus pensamentos bregas. É frustrante quando a realidade chama, ou nesse caso, bate na porta.

Muito sem vontade, meus lábios abandonam os dela, e eu levanto a cabeça, procurando a pessoa responsável pelas batidas. Zelena espia pelo pedacinho que abriu e nos sorri. Aquele tipo de sorriso de quem sente muito, mas precisa interromper.

— O avião já está pista. – É tudo que fala. Não faz nenhuma graça, nenhum tipo de piada, nenhuma provocação. Só volta a nos sorrir e fecha a porta.

Suspiro frustrada e volto a deitar a cabeça no vão do pescoço da mulher que é o amor da minha vida.

— Por que você ainda nem foi e eu já estou com saudades? – Questiono. Será que se eu começar a chorar, ela fica?

— Porque além de sermos bregas, tem o agravante de estarmos apaixonadas. – Solta com o ar, enquanto afaga meus cabelos. – Infelizmente, você precisa sair de cima de mim, Srta. Swan. – Penso em insistir mais um pouco, mas penso também que isso pode deixa-la triste. Como falei, ir é algo que ela precisa fazer, não é um querer. Resolvo colaborar com ela, e consequentemente comigo, e faço o que me pediu. Saio de cima dela e me ponho de pé.

Ela passa as mãos pelo rosto, pelos cabelos, suspira e senta-se. Volta a passar as mãos pelos cabelos, tentando ajeita-los. Passa os dedos em volta dos lábios, limpando o que o beijo trocado borrou, e então se põe de pé. Ao me encarar, ela balança a cabeça negativamente.

— Não me olhe assim. – Pede. – Eu preciso ir. Não iria, se não precisasse. – Concordo com a cabeça.

— Me desculpe. Eu não vou mais insistir, mas eu não consigo olhar como se não me deixasse triste, vê-la indo. – Esboça um sorriso.

— Vamos pensar que não vai ser por muito tempo. Trinta, quarenta dias, passam rápido. – Pelo jeito como fala, tenho certeza que está tentando se convencer também.

Vai até o criado mudo, onde está a gaiola do meu camaleão, com o mesmo dentro. Apoia as mãos nos joelhos e abaixa um pouco o corpo, para que possa olha-lo.

— Tchau, bicho feio e asqueroso! – Se despede. – Vejo você em Nova York. E eu lhe aconselho a ir bem agasalhado. Bichos do deserto não costumam se dar bem com frio. – Ela está mesmo provocando meu camaleão? Balanço a cabeça negativamente para tal coisa. Tem como não amar essa mulher? Não, não tem.

— Promete que não vai desistir de mim? – Agora ela ajeita a camisa dentro da calça, depois calça os scarpins que estavam ao lado da cama. Só então vem ao meu encontro, repousa as mãos na minha cintura, e faz aquela conexão de olhos.

— Eu não vou desistir de você, Srta. Swan. – Faz a promessa. – Eu vou lutar por mim, por você, e por essa coisa de família, que você anda planejando. – Me faz sorrir e sorri junto comigo. – Agora eu preciso mesmo ir. – Seus lábios procuram os meus, e me dão um breve beijo. Afasta-se para ir, mas acabo lembrando de algo e a impeço.

— Espera!

— Emma! – Meu nome sai em tom de reclamação.

— Antes de você ir, eu tenho um último pedido. – Arqueia uma sobrancelha, como sempre faz quando tem dúvida.

— Que seria? – Tiro meu celular do bolso da jaqueta, destravo a tela e abro o aplicativo de músicas. Rapidamente procuro por uma que me faz pensar muito nela e coloco para tocar. Jogo meu telefone sobre a cama e de novo me volto para ela.

Elvis Costello — She

— Dança comigo? – Peço ao lhe estender a mão.

— Dançar? – Agora me lança um olhar de reprovação. – Eu tenho um avião para pegar, Srta. Swan. Avião esse que está me esperando na pista. – Me fala o que eu já sei. – É um caminho longo até chegar em casa, e já está um tanto tarde. – Lhe dou de ombros.

— Você dança, depois você vai, prometo. Não vai lhe custar mais do que cinco minutos. – Agora me balança a cabeça negativamente.

— Dançar, aqui, no seu quarto, agora?

— Dançar, aqui, no meu quarto, agora. – Confirmo. – Uma última dança, aqui, nessa cidade onde tudo começou. Nesse quarto, onde eu tantas vezes sonhei dormindo e acordada com você. Uma última dança, antes de apagarmos as luzes desse palco chamado Las Vegas. Uma última dança, para recordarmos quando os dias não nos forem favoráveis. Para nos lembrarmos quando tudo parecer difícil. Uma última dança, para que eu nunca sequer cogite a possibilidade de esquecer o caminho que me leva até você, Srta. Mills. E para que você nunca esqueça o caminho que traz você para mim. – Lhe sorrio e volto a lhe estender a mão. – Você dança comigo, por favor? – Balança a cabeça em negativo e então retribui meu sorriso e pega a mão que lhe foi oferecida.

— Será um prazer dançar com você, Srta. Swan!

Notas finais
Aqui na torcida para que vocês tenham conseguido chegar até aqui. Quem conseguiu, parabéns e obrigada! Vai ganhar um vale próximo capítulo hahahah. Como sempre, agora eu conto com vocês, com as opiniões, com os comentários. As ameaças eu estarei encaminhando para o advogado. Por hoje é "só isso, manas", agora vamos nos ver em Nova York, vocês já arrumaram as malas? Se não fizeram, corre lá. Boa semana para vocês, e até breve! Beijos