Right Here Waiting For You
12 Only Girl
Notas iniciais
Convencer Regina Mills a vir em um parque de diversões comigo, foi fácil, facílimo, moleza, perto de convence-la a ir comigo em um dos brinquedos, considerados por ela, Kamikazes. Precisei insistir muito. Não, muito não é a palavra. Muito eu precisei insistir para traze-la ao parque.
Não sei, acho que não existe palavra para expressar a quantidade de insistência para arrasta-la até um mísero e inocente brinquedo. Bom, claro que só o meu papo de boa moça não a convenceu, precisei ir mais baixo, usar as poucas armas que tenho. Tive que cobrar a aposta que ela perdeu.
Claro que ela protestou muito, já que a aposta envolvia uma roda gigante e não um brinquedo Kamikaze. Claro que ela disse que não iria. Claro que disse que iria contatar seus advogados na Alemanha, mas a verdade é que ela não gostou nem um pouco, quando propositalmente, eu disse que ela não cumpria com sua palavra.
Ouvir tal coisa foi quase como uma ofensa, o que a fez deixar o medo de lado e encarar. Para não dizer que sou uma pessoa má, deixei com que ela escolhesse o brinquedo. Ela ficou empacada pelo menos uma meia hora, tentando escolher o menos pior. Por fim optou pelo X-Scream, então cá estamos e confesso que aqui estando, já não acho a ideia de aqui estar, assim tão boa.
A verdade é que estou com medo, muito, muito medo. Estamos a mais de cem metros do chão, no primeiro carrinho do brinquedo, e a única coisa que posso ver a frente, é nada, nada além da cidade lá embaixo. A impressão que tenho é que despencaremos a qualquer momento.
– Como você está se sentindo? – Questiono com ela. Meu coração bate alucinado, minhas mãos tremem junto com meu corpo todo. Imagino que ela provavelmente está pior, bem pior do que eu, já que existe o pequeno detalhe que envolve medo de altura.
– Estou sentindo que se eu sair daqui viva, eu vou matar você, Srta. Swan. – Sua ameaça soa apavorada. Ao olhar para o lado, vejo ela de olhos fechados, tentando se agarrar o máximo possível ao pega mão do brinquedo. Mesmo nervosa, com medo, e talvez um pouco apavorada, acabo rindo e levo minha mão até a dela. Seu medo é tamanho que sua mão fria e suada, agarra-se a minha, como se eu pudesse salva-la das sensações.
– Abra seus olhos. – Peço. – Você está perdendo a vista maravilhosa. – Ela balança a cabeça, negando meu pedido.
– A única vista maravilhosa que quero ter, é a do chão debaixo dos meus pés. – Me faz rir de novo. Sua mão aperta com tanta força a minha, que sinto suas unhas cortando minha pele.
O brinquedo que nos joga para trás sem prévio aviso, nos faz gritar muito.
– Abra os seus olhos Srta. Mills. – Volto a pedir, enquanto rio de nervoso. Sim, eu tenho esse pequeno problema, geralmente quando estou nervosa começo a rir.
– NÃO! – Grita.
– Eu também estou com medo, tanto medo que talvez tenha até borrado minha calcinha. Mas sabe o que eu sinto também, estando aqui nesse lugar, tendo essa vista? – Ela nega com a cabeça. – Eu me sinto livre. – Conto. – Abra seus olhos, sinta-se livre junto comigo. – Volto a pedir. Ela demora alguns segundos até por fim, abrir um olho e me espia, o que me faz sorrir. – Agora abra o outro. – Incentivo e de novo ela faz. – Agora, olhe a sua volta. – Com certo receio, ela tira os olhos dos meus, e olha para frente. Infelizmente o brinquedo volta a funcionar, nos impulsionando para frente, de novo nos fazendo gritar e fazendo as unhas dela irem mais fundo na minha mão.
– Eu odeio você, Srta Swan. – Seus olhos estão fechados de novo.
– Abra os olhos agora, veja a cidade lá em baixo. Nós não vamos cair, prometo para você que não. Abra seus olhos, confie em mim. – Aperto sua mão suada, tentado de alguma forma lhe passar a tranquilidade que nesse momento nem eu tenho. Ela volta a abri-los e faz o que eu lhe sugeri, observa a cidade abaixo de nós. Seus olhos refletem as luzes de Vegas. Lhe sorrio, tiro os olhos dela e decido também admirar a vista. — Levante os braços. Vamos fazer como o Simba, vamos rir na cara do perigo. – Incentivo ao levantar sua mão junto com a minha. – Regina... – Lembro que não posso chama-la assim. — Srta. Mills. – Me corrijo. – Solte a sua outra mão daí e levante o braço. Acredite em mim, não é a sua mão agarrada aí que está nos mantendo em segurança. – Ela não me ouve, ou faz não me ouvir, sua mão continua exatamente no mesmo lugar, o que me faz desistir. Provavelmente ela já extrapolou o limite de coragem do dia. – É incrível, não é? – Questiono e com o canto dos olhos a vejo concordando. – Eu já não lembro dos meus problemas, nem do motivo de ter estado de mau humor boa parte do dia. Eu mal lembro de quem eu sou. Tudo que consigo sentir é uma adrenalina filha da puta correndo por minhas veias, e uma vontade enorme de viver. – Volto a olhar para ela, e me surpreendo ao ver seu outro braço levantado. – E você, como se sente? – Seus olhos continuam na cidade lá embaixo.
– Como... – Sussurra e por algum motivo esboça um sorriso. – Como alguém normal. Eu me sinto como... alguém normal. – Seu sorriso cresce. Não faço ideia do que ela quer dizer com isso, mas constato que ela no mínimo se sente bem. Tira os olhos da cidade abaixo de nós e me encara. – Eu rio na cara do perigo, Srta. Swan. – Está sorrindo.
– Nós rimos. – Não consigo não sorrir também.
– Nós rimos. – Concorda.
Sabe quando você sente muita, muita, muita vontade de abraçar uma pessoa? É assim que me sinto agora. A Regina linha dura me atrai, faz meu estômago revirar, me faz suspirar, imaginar. Mas essa Regina, essa Regina um pouco menos preocupada, um pouco mais aberta, um pouco feliz, ela me faz ter vontade de sorrir, de cuidar, de conversar por horas a fio. Nunca entendi exatamente o significado de “querer guardar em uma caixinha”. Pelo menos nunca tinha entendido até o presente momento.
Esqueço de qualquer coisa quando o brinquedo volta a nos jogar para trás. Mais uma vez, ela grita. Mais uma vez, suas unhas vão mais fundo na minha pele. Mais uma vez, engulo a dor, para que ela não solte sua mão da minha.
Enfim paramos na plataforma, somos definitivamente, duas sobreviventes. O barulho da proteção sendo destravada a faz abrir os olhos. O garoto que cuida do brinquedo avisa que todos podem sair, mas ela continua imóvel. Tem a cabeça baixa, enquanto respira fundo. Está aparentemente se recuperando, voltando a ser a mulher durona.
– Nós sobrevivemos. – Aviso a ela, que levanta a cabeça e me encara.
– Eu preciso de um momento. – Pede e eu concordo.
– Você quer sua bombinha? – Só agora é que lembro da Asma dela. Talvez não tenha sido boa ideia força-la a entrar no brinquedo. Ela respira fundo e nega.
– Só preciso de um momento. – Balanço a cabeça em concordância.
– Senhoritas.. – O garoto meio que nos pressiona para que saiamos.
– Ela precisa de um momento. – O aviso.
– Ela vai vomitar? – Regina balança a cabeça negando.
– Ela só está se recuperando, já vamos sair. – Ele me lança um olhar nada amigável.
– Não sei porque pessoas sem coragem, insistem em vir até aqui. – O ouço resmungar. Ouvir tal coisa me irrita, e quando algo me irrita, não consigo simplesmente ignorar.
– 99,9% das pessoas que vem até aqui, perdem a coragem quando sentam a bunda em qualquer um desses brinquedos, não importa quanta coragem possuam. E é graças a essas pessoas, que você tem um emprego. Então sugiro que cale a sua boca e espere ela se recuperar. Até porque, você é pago para isso. Seu serviço consiste em se certificar que as pessoas estão em segurança, apenas isso. – Esbravejo contra ele, fazendo com que Regina tire os olhos do além e os concentre em mim. Aparentemente está surpresa com a bronca que dei no inconveniente. – O quê? – Questiono com ela, que balança a cabeça.
– Nada. – Responde. Quando sua mão solta a minha, sinto uma sensação de alivio na região onde suas unhas machucaram. Cuidadosamente, ela sai do brinquedo. Faço questão de sair do meu lugar sem pressa alguma, só para provocar o idiota.
Quando finalmente saio, vejo Regina com as mãos apoiadas sobre os joelhos, e o corpo curvado para frente. Paro em frente a ela e a imito, para que possa ver seu rosto.
– Você está bem? – Seus olhos saem do chão e param nos meus.
– Eu ainda quero matar você, Srta. Swan, ou ao menos, machuca-la. – Resmunga, me fazendo rir e lhe mostrar a mão que ela machucou.
– Olha, suas unhas cortaram minha mão. Então sorria, você já me machucou. – Seus olhos estão no pequeno estrago que suas unhas fizeram.
– Sinto muito. – Desculpa-se, aparentemente está envergonhada pelo que fez.
– Tudo bem, você não tem raiva tem? – Minha pergunta quase a faz sorrir.
– Raiva se passa através de saliva, Srta. Swan, e não, embora talvez possa parecer, eu não tenho raiva. – Esclarece com a voz firme de sempre, me fazendo sorrir.
– Então nesse caso, você pode morder também. – Balança a cabeça negativamente e dessa vez acaba sorrindo.
– Você é tão patética! – Me acusa, de novo me fazendo sorrir.
– Faz parte do meu charme. – Lhe pisco. Ela rola os olhos e arrumar sua postura.
– Eu realmente sinto muito pela sua mão. – Dou de ombros e a imitando, arrumo minha postura.
– Tudo bem, ela vai sobreviver. Mas, se um dia... – Resolvo deixa a gracinha de lado, o que a faz arquear uma sobrancelha.
– Se um dia?
– Deixa para lá. – Peço.
– Se está preocupada em falar mais uma idiotice, não se preocupe, eu aguento. – Garante, o que me faz sorrir. Ela quem insistiu, certo?
– Se um dia você for ter um caso lésbico ou for se masturbar, sugiro que dê uma diminuída considerável no tamanho das unhas. – Como eu previ, meu conselho a deixa bastante sem graça. Antes que ela me dê uma patada, ou resolva querer ir embora, resolvo mudar de assunto. – Vem, quero mostrar uma coisa. – Convido, e como ela não se mexe, não veja outra saída a não ser puxa-la pela mão, a rebocando daqui. Como ela ainda está abalada pelo brinquedo, me deixa guia-la.
– Srta. Swan, não há acordo, nem aposta perdida no mundo, que vá me fazer botar a bunda em outro desses brinquedos praticamente suicidas. – Me avisa enquanto tenta fazer com que paremos de andar.
– Eu já fiz você ir em um brinquedo, você tem noção do tamanho dessa vitória? Então não tenho mais nenhuma intenção quanto a isso, você e sua bunda podem relaxar. – A tranquilizo. Ela resmunga algo que não consigo entender e então se limita a me acompanhar sem dizer mais nada. Quando percebe que estamos deixando para trás a área do parque, e indo em direção a um lugar com uma quantidade bem reduzida de pessoas, ela para e me faz parar.
– Onde estamos indo, Srta. Swan? – Me lança um olhar desconfiado. Penso em responder alguma gracinha do tipo, “ali no escurinho dar uns amassos”. Ou, “procurar um quarto”. Mas enfim, resolvo dizer a verdade.
– Ali perto dos binóculos. – Aponto para o lugar, que está bem próximo de nós. – Vamos observar a cidade, dessa vez, sem adrenalina. – Explico. Como ela não diz nada, concluo que tudo bem, podemos ir, então volto a puxa-la.
Paramos em frente ao parapeito do observatório. Jogo meus braços para cima do mesmo, apoiando meu corpo nele. Já Regina se mantém mais atrás, em uma distância segura da proteção, tal coisa me faz rir, desencostar e me voltar para ela.
– É seguro, Srta. Mills. – Garanto e lhe estendo a mão para que se aproxime. Ela me olha desconfiada, então olha para o lugar, fica nas pontas dos pés para tentar espiar mais além, volta a olhar para mim, ignora minha mão estendida, e dá uns passos à frente, anulando a distância que existia entre ela e o parapeito. Ainda de costas para cidade, me encosto na proteção, cruzo os braços e prendo os olhos em Regina, que tem os olhos na cidade iluminada. – Admita, Vegas a noite é linda. – Peço, enquanto admiro a cidade que reflete nos olhos dela.
– Alguma coisa de bom, esse lugar tinha que ter. – Sei que esse é o jeito “carinhoso dela”, de concordar comigo. Desencosto da proteção e um pouco hesitante, me ponho atrás dela, com o corpo a centímetros do seu.
O vento que bate me faz fechar os olhos e respirar fundo, sentindo o cheiro dos cabelos dela, misturado com o cheiro do perfume. Fecho minhas mãos, contendo a vontade de leva-las até a cintura dela e puxa-la para mim.
– Reza a lenda, que se você fechar os olhos, abrir os braços e sentir o vento bater, você vai se sentir com a Rose se sentiu no Titanic. – Conto.
– Mentira, não há nenhuma lenda assim. – Fala com convicção, me fazendo rir.
– Podemos tentar. – Sugiro.
– Não, não podemos. – Me corta.
O silêncio volta a se fazer presente, e o vento a bater mais forte. É como se ele estivesse me desafiando, ou incentivando a fazer o que eu quero fazer. O cheiro dela me invade, não me permite pensar com clareza, o que me faz fraquejar, deixar a razão de lado e avançar. Dou um passo à frente, fazendo com que meu corpo toque suas costas, o que enrijece o corpo dela no mesmo momento.
Sem querer que ela saia, mas também temendo assusta-la, levo minhas mãos até as dela e as pego um tanto quanto hesitante, lhe dando espaço para que se desfaça do contato quando quiser.
Para minha felicidade e para loucura do meu estômago e também do meu coração, ela deixa as mãos inertes, mas repousadas sobre as minhas e continua exatamente no mesmo lugar, sem se mexer um centímetro sequer.
– Come Josephine, in my flying machine... – Sussurro ao pé de seu ouvido, enquanto ainda hesitante, abro seus braços junto com os meus. — Going up, she goes! Up she goes! – Continuou sussurrando, arrancando dela um audível suspiro. – Tudo bem? – Volto a sussurrar.
– Sim. – Também sussurra.
– Seus olhos estão fechados, Rose? – Sua resposta é um balançar afirmativo de cabeça.
Cheia de coragem, resolvo ir um pouco além e apoio meu queixo em seus ombros. Meus olhos se concentram em seu rosto. Os olhos fechados, a respiração pesada, a postura rígida. Tensa, ela está com toda certeza muito tensa com toda essa nossa aproximação. Só não sei exatamente o motivo. Não sei se está assim porque tem medo do que eu posso de repente fazer. Se está assim, por talvez lembrar de algo que aconteceu na noite da bebedeira. Ou, por último, mas não menos importante, porém não muito provável, por de uma certa forma, eu talvez atraí-la. Bom, o fato é que jamais saberei a resposta.
– Então os abra. – Peço, enquanto entrelaço meus dedos aos dela. Ela não diz nada, não se move, apenas continua respirando pesadamente. Seu corpo continua tenso, seus ombros rígidos. Ela com certeza sabe o quando estamos próximas, o quanto meus lábios estão perto do seu rosto, provavelmente por isso, seus olhos continuam fechados. – Relaxa Srta. Mills, pense em mim como alguém que você gostaria que estivesse aqui no meu lugar junto com você. – Sugiro. Tiro os olhos dela e olho para frente.
Ela respira fundo, seus ombros talvez se tornam um pouco menos rígidos, seus olhos enfim estão abertos, focados sempre em frente. Devagar, abaixo nossos braços os fechando contra o corpo dela em um abraço apertado.
– Balance yourself like a bird on a beam, in the air she goes; there she goes! – Sussurro a parte seguinte da música, e então me calo. Me limito a dividir o silêncio com ela.
Silêncio, nunca gostei de tal coisa, sempre me pareceu algo assustador, agoniante. Mas estando aqui, com ela em meus braços, admirando a cidade abaixo de nós, tal coisa já não parece mais tão assustadora e agoniante assim. Dividir o silêncio com ela é algo bom, me sinto bem, tão bem que provavelmente passaria o resto da noite aqui, exatamente desse jeito.
Para minha surpresa, ela recosta a cabeça em meus ombros, ao olha-la, vejo que seus olhos estão novamente fechados. Está mais relaxada, não completamente, mas com certeza está mais relaxada.
Não faço ideia de em quem ela está pensando, mas tenho certeza que está longe. Tenho certeza que em seus pensamentos, não sou em quem está aqui com ela. Ela não pode estar pensando no tal noivo que nem a satisfazer sexualmente, satisfaz, pode? Não, provavelmente não. Não sei quem é o sortudo dono dos seus pensamentos, mas enfim, talvez não seja tão sortudo assim, caso fosse, teria ela para si.
Infelizmente, dois adolescentes acabam se aproximando, Regina não demora mais do que dois segundos para entender que o comentário deles sobre “duas lésbicas gostosas se pegando”, foi feito para nós, o que a faz se afastar de mim quase na velocidade da luz.
Irritada pelo comentário, e mais irritada ainda por eles terem destruído meu momento, me volto para os dois.
– Algum problema? – Esbravejo contra eles.
– Nenhum, viemos assistir ao beijo. – A resposta consegue me irritar ainda mais, e me faz ter vontade de pular no pescoço do infeliz.
– Então que tal você chamar sua mãe? Diga que estou esperando. – Minha resposta faz o sorriso que eles têm no rosto, desmanchar.
– Pronto, virou homem. – O outro me provoca, o que me faz perder o pouco da paciência que eu ainda tinha. Dou alguns passos à frente, indo em direção a eles.
– Eu não preciso ser homem para dar um jeito nos dois. – Ameaço, e antes que consiga me aproximar mais, meu pulso é seguro por ninguém mais, ninguém menos do que Regina.
Ela lança um olhar tão irritado para os dois, que sem precisar abrir a boca para falar uma palavra, consegue fazer com que eles se afastem. Quando eles já estão consideravelmente longe, ela tira os olhos dos dois e os para em mim, me analisa por alguns segundos, e solta meu pulso.
– Sinto muito. – Me desculpo.
– E sente muito pelo quê? – Parece em dúvida.
– Pelo que eles falaram. – Esclareço. – Eu odeio isso! Odeio! Odeio homens! Odeio essa vontade ensandecida deles de verem duas mulheres juntas, como se fosse algo de outro mundo. Odeio vê-los abrindo a boca só para falar merdas. Para eles tudo se resume a sexo. – Balanço a cabeça negativamente. — Duas gostosas se pegando. – Tento imitar a voz do infeliz. — Nós não estávamos fazendo nada demais. – Me olha um pouco surpresa, aparentemente pelo meu surto com os garotos.
– Ninguém disse que estávamos. – Responde tranquilamente. Se ela não fosse Regina Mills, diria que está quase se divertindo com a situação.
– Eu só estava abraçando você. Você não precisa ser lésbica para deixar outra mulher abraçar você. – Me defendo.
– Ninguém disse que eu preciso. – Continua tranquilamente.
– Você não é lésbica. – Ela quase sorri, provavelmente pela minha preocupação.
– Não, eu não sou. – Concorda.
– Mas eles... – Aponto em direção ao lugar para onde eles foram. – Eu só odeio mesmo homens. – Solto com ar.
– Okay, você odeia homens, entendi. – Tenta me tranquilizar.
– Eu não queria beijar você nem nada assim. – Na verdade queria, mas não aqui e nem agora, mas ela não precisa saber disso, certo?
– Não achei que quisesse.
– Eu gosto de você. – Pelo jeito que seus olhos crescem, concluo que ela entendeu errado. – Não, não de um jeito amoroso. – Faço careta só em pronunciar a palavra. – Eu não sei, não tenho muitos amigos, não costumo confiar muito nas pessoas, mas eu gosto de você. – Coço a cabeça, pensando em como explicar. – Eu acho que nós nos parecemos no quesito de não confiar muito nas pessoas. Talvez seja por isso que eu gosto de você. – Pelo jeito como me olha, espera que eu continue meu pensamento confuso. — Eu sei como é isso, também sou insegura, também não confio. Talvez não pareça, mas eu também mantenho as pessoas a uma distância segura de mim. – Suspiro. – Você é um mistério, talvez você seja indecifrável. Mas isso, essa parte de não ter muitos amigos, de manter as pessoas distantes, essa parte eu realmente entendo e me identifico. E eu realmente gostaria que fôssemos amigas. – Passo as mãos pelos cabelos, enquanto penso em como me expressar. – Tipo você e Tinker, ou você e Janis. Você confia em Janis, e quando você confia em alguém, você deixa de lado a sua máscara de indiferença e se torna uma pessoa maravilhosa. – Opino. — O que eu quero dizer é, eu gostaria que fôssemos amigas de verdade. – Tropecei nas palavras para dizer algo que já disse. Às vezes não é fácil ser eu. — Eu sei que as coisas não começaram nada bem entre nós, então tudo que eu menos preciso é que alguém venha com gracinhas para cima de nós, tentando deixar tudo ainda mais complicado do que já é. – Durante toda minha explicação confusa, seus olhos não saíram dos meus. Me olha de um jeito indecifrável, como me olha a maioria das vezes, escondendo qualquer tipo de sentimento atrás de sua máscara de indiferença.
– Acabou? – É tudo que me pergunta.
– Sim. – Solto com o ar.
– Ótimo. Agora me leve ao restaurante desse lugar. Estou faminta. – Abro a boca para perguntar se ela ouviu tudo que acabei de dizer, mas acabo desistindo, porque sei que se fazer tal coisa, vou acabar brigando com ela também.
– Siga-me. – Resmungo de mau humor.
– Srta. Swan? – Faz eu me voltar para ela. – Eu não estaria aqui, nem teria ido ao parque de diversões com você e sua filha, ou na sua casa, caso me importasse com sua opção sexual e os comentários que certos idiotas podem fazer sobre ela. – Surpresa por ouvir tal coisa, balanço a cabeça concordando. Talvez esse seja o jeito de ela me dizer: !Okay, se estou aqui é porque quero tentar ser sua amiga, ou pelo menos, colega. Então deixe os idiotas para lá”.
– O que significa isso exatamente? – Acabo perguntando, o que a faz rolar os olhos. Por um segundo penso que vai me explicar, mas só por um segundo mesmo.
– Significa que eu estou com fome, Srta. Swan. – Reclama ao passar por mim. Não me resta fazer nada a não ser suspirar e ir atrás dela.
(...)
– Diga-me Srta. Swan, com que frequência vem a esse lugar? – Me questiona enquanto passa os olhos pelo cardápio.
– Três a quatro vezes por mês. Tenho algumas clientes que gostam daqui. Uma em especial, ama a comida desse lugar e como ela não gosta de jantar sozinha, as vezes me chama só para jantarmos. – Arqueia as sobrancelhas, aparentemente surpresa com a pequena história da minha cliente solitária.
– Então, que prato me sugere? – Seus olhos voltam para o cardápio.
– Isso depende. Você gosta de carne, ou seu estômago é fresco demais para isso? – Tira o cardápio da sua frente e me encara.
– Meu estômago é um monstro carnívoro. – Sua resposta completamente séria, acaba me fazendo rir.
– Okay. – Coço a garganta e folheio o cardápio em busca das carnes. – Então eu sugiro, ou o bife australiano com cebola caramelizada e chimichurri, ou o bife Nova York com molho de pimenta. Esses dois são os melhores. – Ao tirar os olhos do cardápio e encara-la, a vejo sorrindo. – O quê? – Indago com desconfiança.
– Você não sabe falar Nova York. – Implica comigo.
– Você quem não sabe. – Rebato, enquanto tento não ser contagiada pelo seu sorriso perfeito. – Seu sotaque faz jus a dona metida que ele tem.
– Eu posso ser muitas coisas, Srta. Swan, mas metida não é uma delas. – Sua resposta me faz balançar a cabeça em concordância.
– Arrogante? – Tento de novo. Tira os olhos de mim e voltar a prestar atenção no cardápio.
– Arrogante serve. – Murmura, e bom, dessa vez acabado não conseguindo evitar sorrir.
– Então Srta. Arrogante, posso escolher seu prato? – Peço. Ela suspira, fecha o cardápio e volta a me encarar.
– Espero que você tenha bom gosto. – Abro a boca para responder que sim, que tenho muito, muito bom gosto. Que o problema é que as vezes a carne que desejo, não está disponível, mas enfim, resolvo deixar para lá, porque talvez dê a entender que não me refiro só a carnes do cardápio.
– Ellen! – Levanto minha mão, chamando a garçonete que está consideravelmente próxima de nós.
– Quem é vivo sempre aparece! – Me saúda ao parar ao meu lado.
– É o que dizem. – Respondo sorrindo.
– Você precisa aparecer mais vezes, fico impressionada em como suas companhias fazem bem aos olhos. – Pelo canto dos olhos, vejo Regina lhe lançar um olhar incrédulo.
– Sabemos que eu tenho um excelente gosto. – Lhe lanço uma piscadela.
– Percebemos que sim. – Da uma olhada nada discreta para Regina, que faz não perceber. Ao imaginar as coisas que ela deve estar pensando, acabo tendo que rir.
– Vamos querer um bife australiano com cebola caramelizada e chimichurri e um Nova York com molho de pimenta, e por favor, capricha na pimenta. – Ela sorri e concorda com a cabeça enquanto anota.
– E para beber?
– A mesma cerveja de sempre. – Peço.
– Eu quero o vinho que sugere o acompanhamento do prato Nova York. – A voz de Regina soa mais como uma ordem do que como um simples pedido, tal coisa faz Ellen tirar os olhos das anotações e olhar em direção a dona da voz.
– Então cancele minha cerveja, vou acompanha-la no vinho.
– Okay. – Tira os olhos de Regina, e volta a prestar atenção nas anotações. – Um australiano com cebola caramelizada e chimichurri, um Nova York com molho de pimenta, e uma garrafa de Steele Cabernet Sauvignon, é isso? – Confirma comigo.
– Exatamente. E água, traga água também. – Faz a última anotação, me sorri e se vai. – Ela fala Nova York exatamente como eu falo. Você não pegou no pé dela por causa disso. – Comento com Regina que sorri sem humor, enquanto guarda seus óculos de grau na caixa do mesmo.
– Se eu fosse pegar no pé dela, começaria falando que ela não foi nada profissional. Existe limites entre clientes e funcionários. Ao referir-se a mim como companhia que faz bem aos olhos e me olhar como se eu fosse um pedaço de carne, ela ultrapassou todos esses limites. – O jeito sério e um tanto quanto indignado com o qual me conta tal coisa, me faz rir alto.
– Você não tem noção do quanto a sua beleza, junto com essa sua cara de má, e seus olhos um tanto quanto desafiadores, causam nas pessoas, tem? – Questiono ainda rindo. – Deixa eu contar algo para você, porque tenho certeza que você não sabe. – Ela presta atenção em mim, parece curiosa. – Você é a tradução de: mulher fatal. – Meu esclarecimento a deixa sem jeito e faz desviar seus olhos. Não me responde nada, apenas guarda a caixa dos óculos na bolsa e tira de lá, a bombinha de asma. Inala uma vez, e alguns minutos depois, faz o mesmo procedimento. – Há quanto tempo você tem asma? – Questiono com curiosidade.
– Desde que me conheço por gente. – Me responde.
– Você tem muitas crises? – Guarda a bombinha e me encara.
– Pelo menos uma vez no ano, acabo parando no hospital. – Conta com certo tom de lamento.
– Gripes não são bem-vindas. – Não faço uma pergunta, faço uma afirmação e ela concorda.
– Nem um pouco. Gripes, fumaças, poeiras. É uma lista longa. – Solta com o ar.
– Você já fumou? Quer dizer, aquele dia lá em casa você disse que gostava do cheiro. – Antes de me responder, revira os olhos.
– Estamos em um interrogatório, Srta. Swan? – Sorrio e balanço a cabeça negando.
– Só estamos tentando saber um pouco sobre você. – Esclareço.
– Não estamos em um encontro. – Faz questão de me lembrar.
– Eu sei que não, mas isso não me impede de ser curiosa. Você não é curiosa? – Ela balança a cabeça negando.
– Não.
– Nem um pouquinho? – A careta que faço, quase a arranca um sorriso.
– Não. – Volta a responder.
– Ah, corta essa! Todo mundo é curioso, nem que seja minimamente. – Mais uma vez na noite, me revira os olhos.
– Eu não sou todo mundo. – Me responde.
– Nossa, que resposta de mãe, Srta. Mills. – Esboça um sorrisinho. — Confesso que esperava mais de você. – Abre a boca, com certeza para me dar uma de suas respostas nada simpáticas, mas sou salva por Ellen, que está de volta.
– Com licença. – Sorri para Regina, que responde ao seu sorriso fechando a cara, o que deixa a mulher muito sem graça. O metre que a acompanha, mostra a garrafa para Regina, que acena com a cabeça.
Com maestria e habilidade, ele se desfaz do lacre, da rolha e de todo o trambolho envolvido na história de abrir uma garrafa de vinho. Serve uma pequena quantidade na taça da pessoa arrogante a minha frente. Ela segura a taça com perfeição, os olhos estão concentrados no líquido. Traz a taça quase a boca, inspira o aroma que vem da bebida, e só então prova. Fica com o líquido alguns segundos na boca, antes de toma-lo e enfim consentir para que seja servido.
– Me pergunte alguma coisa, vai. – A incentivo, ganhando sua atenção.
– Não tenho nada para perguntar. – Me responde. Talvez ela até tenha, mas sei que não vai fazer, enquanto eles estiverem aqui. Então espero que nos sirvam, deixem a água e se retirem para continuar a conversa.
– Já pode perguntar agora. – Insisto assim que voltamos a ficar sozinhas.
– Por que turismo e hotelaria? – Enfim questiona.
– Essa é fácil. – Respondo sorrindo. — Porque como você sabe, essa cidade vive de turismo e está repleta de hotéis. Porque eu me comunico bem com as pessoas, e gosto de saber sobre lugares, e de falar sobre lugares. E também porque hotéis existem em todos os lugares do mundo, então se um dia eu quiser ir embora daqui, sei onde procurar emprego. – Explico. Seus olhos permanecem em mim, enquanto ela parece processas minha resposta. Pela ruga que se forma em sua testa, sei que quer me perguntar mais coisas, e fico feliz com isso.
– Pensei que gostasse de Vegas. – Comenta.
– Eu gosto.
– Então por que pensa em ir embora daqui? E não me diga que não pensa, porque caso não pensasse, não teria comentado sobre. – Já mencionei o quanto ela é esperta? Pois é, além de ser linda, cheirosa, e ter uma risada gostosa, ela também é esperta.
– Porque eu não sei se quero que Janis cresça aqui. – Admito. – Aqui as coisas vêm e vão fácil, entende? Vegas encanta, fascina. É muito fácil se perder por aqui. – Suspiro. — Eu não quero que isso aconteça com ela, não quero que ela se encante com certas coisas, não quero que vá pelo caminho mais fácil, não quero que ela corra o risco de ser quem eu sou. – Dou de ombros e desvio os olhos dos dela. Sei que não faz por mal, mas me sinto julgada sempre que me olha desse jeito.
– Meu pai fumava. – Murmura, e ganha minha atenção. – Tenho vívidas lembranças de quando era criança. Ele subia para o telhado porque sabia que lá, eu não conseguiria ir atrás dele, já que sempre tive medo de altura. Então eu sentava na soleira da janela do meu quarto, e nós nos falávamos por walk talk. O que ele não sabia é que o cheiro da fumaça ia longe. – Ela sorri, provavelmente está lembrando. – Enfim, cheiro de cigarro me faz lembrar dele. – Acho que essa é a primeira vez que me conta algo sobre sua vida, estando praticamente sóbria.
– Ele morreu? – Afirma e desvia os olhos dos meus.
– Infelizmente. – Sussurra.
– Sinto muito. – Ela concorda com a cabeça e esboça um sorriso tristonho.
– Eu também.
– Mas pelo menos você tem boas lembranças, certo? Quando eu penso no meu pai, tudo que sinto é... – Procuro uma palavra para me expressar. – Magoa, rancor.
– Pensei que não guardasse magoas. – Está com certeza se referindo a conversa que tivemos na sacada da minha casa.
– Não costumo guardar, mas tem certas coisas.... – Suspiro. – Tem certas coisas que eu acho que são imperdoáveis. – Ela balança a cabeça, aparentemente concordando comigo.
– É estranho, não é? – Sussurra. – Quer dizer, é estranho que as pessoas que deveriam ter essa ligação com você... que segundo a lenda, deveriam amar você incondicionalmente, são apenas... estranhas. – Balanço a cabeça concordando, enquanto penso sobre o assunto.
– Sua mãe? – Indago. — Pelo que pude perceber, você se dava bem com seu pai. E eu meio que ouvi a você falando no telefone com a sua mãe no dia da reunião, então... – Ela afirma sem problema algum.
– Sim, minha mãe. – O jeito com o qual pronuncia a palavra “mãe”, deixa bem claro o quanto deve ser difícil a convivência entre as duas.
– Acho que temos mais uma coisa em comum. – Compartilho meu pensamento.
– Acho que temos. – Concorda.
– Talvez minha mãe possa chamar a sua, para que façam parte do mesmo clube de bruxas. – Meu comentário a faz rir, me mostra todos os dentes.
– Talvez seja uma boa ideia, mas só quando eu for embora. Assim não corro o risco de encontrar com ela por aqui.
– Quando você for embora, acho que vou sentir sua falta. – Não acho, tenho certeza, mas fica menos brega pôr o “acho” na frase. Bom, ela não diz nada, faz que nem ouviu, e resolve dar atenção para a sua taça de vinho. – É nessa parte que você me diz que acha que vai sentir minha falta também. — Balança a cabeça em negativo, põe sua taça sobre a mesa e me encara.
– Não posso dizer isso. – Sua resposta me faz fazer cara de dor.
– Ai essa sinceridade! – Reclamo. – Tudo bem, temos tempo, garanto que até o final desse mês que você vai passar aqui, posso fazê-la mudar de ideia. – Lhe lanço uma piscadela, o que a faz revirar os olhos. – Você ainda vai me convidar para visitar você em Nova York. – Me lança um olhar incrédulo, enquanto balança a cabeça negativamente.
– Não seja pretensiosa, Srta. Swan, o máximo que com certeza vou fazer, é mandar um e-mail, perguntado por Janis. – Rio.
– E-mail? Corta essa! As pessoas não se comunicam mais por e-mail, Srta. Mills. Eu sei que você tem um lindo aplicativo de mensagens instantâneas. Até mandei a foto da minha ID para você através de tal aplicativo, e muito embora você não tenha me respondido, sei que recebeu. Os dois risquinhos azuis compravam isso. – Rola os olhos.
– Sim eu recebi. – Confirma algo que eu já sei.
– Você sabe, além de receber, você pode também enviar. Então um, valeu, obrigada, Okay, serviria como resposta, sabe? – Visivelmente está tentando não sorrir.
– Os risquinhos azuis servem como resposta, sabe? – Rebate. Antes que eu possa continuar nosso joguinho de provocações barata, o celular dela começa a tocar. Pela foto que aparece, junto com o nome, vejo que se trata de ninguém mais, ninguém menos do que o noivo vacilão.
– Preciso atender. – Resmunga em tom de desculpas. Como não tenho nada para dizer a respeito, só concordo com a cabeça.
Emborco minha taça de vinho, enquanto a ouço saudá-lo. Não é simpática, mas é educada. Não ri, mas as vezes sorri. Não fala nada muito amoroso, mas diz que também tem saudades. Não diz que ama, mas lhe promete um tempo só com ele, assim que voltar para Nova York. Fala que está jantando, fala onde está jantando, mas não menciona o nome, a presença da minha humilde pessoa.
Entediada, volto a encher minha taça de vinho. Tento prestar atenção em outra coisa, mexo um tempo no meu celular, esvazio a taça, volto a enche-la e Regina continua no telefone.
O casal está há mais de dez minutos falando única e exclusivamente sobre negócios. Negócios, esse assunto a faz falar com empolgação, até com uma certa felicidade. Pelo que eu entendi, estão para fechar a compra de algum hotel em Londres, pelo que eu entendi também, graças a ela, conseguiram um desconto considerável em tal compra. Com o dinheiro do desconto que ela ganhou, eu, minha filha e meus netos, viveríamos tranquilamente umas sete ou oito vidas.
Minha atenção se perde dela e dos negócios, quando Ellen surge com nossos pratos. Ajeita tudo, nos deseja bom apetite, volta a encher minha taça, se vai, e Regina continua no celular. Não me irrito fácil, na verdade quase nunca me irrito, mas ela, seu noivo e seus negócios, estão começando a me irritar.
Não sei que horas são, mas sei que já passa da meia noite, então porque diabos estão tratando de negócios? Por que não resolvem o que tem para resolver amanhã pela manhã? O que adianta conversar sobre isso agora? Ricos e suas manias estranhas de querer acumular cada vez mais dinheiro.
Bato meus dedos impacientemente sobre a mesa, tentando ter a atenção dela, mas ela está alheia. Tenho dúvidas se ela percebeu que já trouxeram a comida. Ver, sei que ela viu, associar as coisas, isso eu já não sei.
Bom, como nunca tive medo da morte, nem de ser muito machucada, ou mordida, resolvo que está na hora de encerrar a ligação. Debruço meu corpo sobre a mesa, estendo o braço e sem que ela espere, lhe roubo o celular. Encerro a ligação, lhe devolvo o aparelho e volto a postura inicial. Só então arrisco olhar para ela, que tem os olhos furiosos presos em mim.
– O que diabos acabou de fazer, Srta. Swan? – Esbraveja. Tenho certeza que está se controlando para não gritar.
– Você tem dinheiro suficiente para viver quantas vidas mais ou menos? Cinquenta? Sessenta? – Balanço a cabeça em reprovação. – O que um hotel a mais, ou um hotel a menos, vai mudar na sua vida? – Continuo. – Você vai ficar mais milionária ou menos milionária se deixar para resolver isso amanhã de manhã? – Abre a boca para me responder, mas não deixo. – Você pode deixar os seus hotéis, o seu legado, os seus milhões um pouco de lado e jantar comigo, por favor? – Peço, ainda usando o tom de bronca. – Afinal, é você quem está com fome, foi você quem quis jantar. – Aponto para o prato em sua frente. – Seu estômago monstro carnívoro vai reclamar, caso a comida esfrie. – Mal acabo a frase e o maldito celular volta a tocar. Ela tira os olhos de mim, olhar para o celular, para mim e depois para o celular.
– Okay. – Resmunga, aparentemente concordando comigo, mas sem deixar de olhar para seu noivo pateta que aparece na tela.
– Me dê. – Peço ao estender a mão. – Estou confiscando, só vou entregar quando o jantar chegar ao fim. – Pelo jeito que me olha, sei que vai reclamar. – Me dê. – Volto a pedir. Ela bufa, e muito, muito a contragosto, me entrega o aparelho. Rejeito a ligação, deixo o celular de lado e a encaro. – Obrigada pela compreensão, Srta. Mills. – Volta a bufar, rola os olhos e resolve fazer o que faz de melhor, me ignorar.
Concentra atenção em seu prato, observa a comida por alguns segundos. Segura os talheres com uma leveza, uma sutileza, uma classe, de causar inveja e vergonha a qualquer mero mortal. O jeito como leva o garfo a boca, como mastiga lentamente, a expressão de satisfação. Me pergunto se essa mulher já fez algo mal feito na vida dela. Concluo que não.
Oh Deus, talvez eu esteja fodida!
O que você está fazendo, Emma? Por que diabos está prestando atenção nisso? É só uma pessoa comendo. Não tem nada de gracioso, nisso. Pessoas comem a toda hora. Só que algumas tem menos classe, outras tem mais e outras Regina Mills. Qual o seu problema? Tratamento, talvez esteja na hora de você pensar em se tratar. Isso não pode ser normal.
Balanço a cabeça negativamente, tentando me livrar dos meus pensamentos insanos, paro de babar na mulher que está apenas jantando e resolvo interagir.
– Então? – Questiono com ela, que tira os olhos do além e me encara. Balança a cabeça afirmativamente algumas vezes.
– Bom. – Responde. – Muito bom o molho chimichurri. Quase tão bom quanto ao que comi no Uruguai. – Não sei exatamente o que isso significa, mas pela sua cara de satisfação, é coisa boa.
– Como eu nunca estive no Uruguai, esse é o melhor molho chimichurri que eu já provei. – Ela me sorri.
– Muito bom, Srta. Swan. – Seu elogio, meu estômago. Minha Nossa Senhora! Talvez eu precise levar esse estômago em um médico.
– Agora prove esse. – Corto um pedaço da minha carne, mergulho no molho de pimenta, me debruço sobre a mesa e estico o braço, levando o garfo até sua boca. Pelo jeito como me olha, reprova o que estou fazendo, mas não reclama, apenas faz o que lhe sugeri.
Assim como fez com sua carne, concentra sua atenção na degustação. Dessa vez me obrigo a olhar em outra direção, para não correr o risco de admira-la MASTIGANDO.
– Bom também. – Opina. – Esse molho também é muito bom, não é muito forte, mas também não é fraco. – Balanço a cabeça concordando.
– Na medida. – Falamos juntas, o que a faz sorrir junto comigo.
– Gosto do gosto de barbecue que tem no final. – Comento e ela concorda.
– Sim, acho que ele é quem faz a diferença. – Pega sua taça e leva a boca, e para não ficar admirando, resolvo fazer o mesmo.
– Então. – Coço a garganta e no mesmo momento em que ela, devolvo a taça a mesa. – Quer ficar com o meu, ou vai continuar com o seu? – Olhar para o meu prato, em seguida para o dela e volta a me encarar.
– O seu está muito bom, mas ficarei com o meu. – Balanço a cabeça concordando.
– Nesse caso, bom apetite. – Esboça um sorriso e concentra-se em seu prato. Para que não corra o risco de voltar a admira-la comendo, resolvo também me concentrar única e exclusivamente no meu prato.
Enquanto jantamos o celular dela volta a tocar mais três vezes. Na primeira, ela tenta reclamar e reaver o aparelho, mas como fico irredutível, ela faz algo que provavelmente não está acostumada a fazer, se dá por vencida. Então nem se abala com a segunda e terceira tentativa.
Ao consultar as horas e vê que passa da uma da manhã, fico um pouco incrédula com a ligação que recebeu, mais as que não pôde atender. Está certo que era seu noivo, mas sério que alguém liga para falar sobre trabalho em plena madrugada? Pior, a última ligação não era dele, mas pelo jeito que ela olhou para o nome que piscava na tela do celular, tive certeza que também era alguém querendo falar sobre trabalho.
Desde que bati meus olhos nela, soube que ela é uma dessas mulheres que vive para o trabalho, mas não imaginei que fosse tanto assim. Pensei que ela tivesse seus momentos de lazer, mas agora tenho certeza que não tem. Não faço ideia de quanto tempo ela está trancada nesse mundo dos negócios, mas posso apostar que é muito. Tanto que ela visivelmente prefere falar sobre negócios, do que jogar conversa fora, fazer piadas, rir.
Acho isso um pouco triste. Quer dizer, do que adianta ter muito dinheiro e ser assim? Não sei muito sobre a vida dela, na verdade, sei quase nada, já que ela é extremamente fechada. Mas ela não parece ser alguém feliz. Os ombros quase sempre rígidos me fazem crer que ela tem aquela sensação de carregar o mundo nas costas. Me pergunto o motivo de ela ser assim. O motivo de ter ficado assim. Porque a Regina mais leve que ela trancou dentro de si, com toda certeza do mundo, um dia existiu, e por algum motivo, um dia deixou de existir.
– O que aconteceu com você? – Acabo murmurando meu pensamento, e infelizmente ela ouve.
– O quê? – Levanta a cabeça e me encara. Lhe sorrio e balanço a cabeça em negativo.
– Nada. Só estava pensando alto. – Explico. Seus olhos curiosos continuam em mim. – Nada que você me falaria. – Esclareço, o que a faz desviar os olhos e voltar a comer. Junto meus talheres dou um gole na minha água e penso em algo para conversarmos. Repasso algumas cenas da nossa noite em minha cabeça, até que acho algo. – Você gosta de Rei Leão? – Mastiga lentamente, engole, bebe um pouco do seu vinho, depois a água e só então resolve me responder.
– Existe alguém que não gosta? – Responde com outra pergunta.
– Acho que não. Rir na cara do perigo as vezes é bom, não é? – Pensa um pouco a respeito.
– Raramente. – Responde enfim.
– Hoje foi bom? – Afirma.
– Embora eu tenha sentido vontade de matá-la, confesso que foi. – Sua confissão me arranca um sorriso amplo.
– Olha! – Mostro minha mão para ela. – Vou fazer uma tatuagem da marca que suas unhas deixaram na minha mão. – Ela rola os olhos, pega sua garrafa de água, e passa o plástico suado no sangue já seco do machucado, tentando lavar.
– Eu realmente sinto muito. – Resmunga enquanto olha o pequeno estrago que fez, depois de passar o guardanapo ali. Infelizmente todo o cuidado que teve com minha mão, durou quase nada, então suas mãos já estão bem distantes de novo, o que me faz suspirar e recolher a minha.
– Não se preocupe. Já me deixaram marcas piores. – Conto.
– Imagino que tenham deixado. – Concorda.
– Tinker, meu Deus! Ela tem fixação em deixar marcas. Meu pescoço, você não tem noção. Às vezes me sinto como prostituta de vampiro. – Meu comentário traz a risada gostosa dela. – Sua amiga é louquinha, Srta. Mills e quem sofre sou eu. Janis já nem pergunta mais onde machuquei o pescoço, para ela esses hematomas já fazem parte de mim.
– Tinker sempre gostou de deixar sua marca. – Não ri mais, porém ainda sorri.
– Acredite, eu sei. – Não fala mais nada, junta seus talheres e termina seu vinho. – E você, também é fã de marcas? – Só quando pergunto, é que me dou conta de que já perguntei. – Quer dizer, nós podemos falar sobre isso? – Pergunto na defensiva, com medo de ganhar uma de suas patadas.
– Não, eu não sou fã de marcas. – Responde tranquilamente.
– Nem de deixar, nem de receber? – Revira os olhos.
– Nem de deixar, muito menos de receber. – Ótimo! Maravilhoso! Por que todas as mulheres não são assim?
– Seu noivo é uma pessoa de sorte. – Não fala absolutamente nada a respeito do meu comentário, o que me faz concluir que chega desse assunto. – Então... – Coço a garganta. – Você gosta de Rei Leão, eu gosto de Rei Leão, Janis ama Rei Leão. Como eu estou lhe devendo uma maravilhosa banana Split, o que você acha de qualquer dia desses ir lá em casa cobrar sua dívida e de quebra participar de uma sessão cinema? – Sugiro e convido ao mesmo tempo.
– Quem sabe? – É tudo que responde.
– Quem sabe é sim? – Questiono, cheia de esperança.
– Quem sabe é quem sabe, Srta. Swan. – Reviro os olhos, jogo minhas mãos para cima da mesa e por impulso agarro as dela.
– Alguém já disse que você é uma pessoa muito difícil, Srta. Mills? – Pergunto enquanto aperto suas mãos.
– Acho que você já disse uma vez ou duas. – Debocha ao se desfazer as minhas mãos.
– E eu já disse que sou uma pessoa insistente? – Sorri sem humor.
– Você não precisa dizer, eu vejo. – Sua resposta me faz sorrir. – Mas sim, você já disse. – Lhe mostro a língua.
– Chata! – Faço uma falsa reclamação.
– Você vai querer sobremesa? – Nego.
– Não. Já está tarde para qualquer tipo de comida, não deveria nem ter jantado. – Na verdade se não fosse Regina a minha companhia, não teria jantado.
– Não janta tarde? – Arqueia uma sobrancelha, parece curiosa.
– Não. Não janto tarde, não assalto a geladeira, nem nada dessas coisas. Não por não ter fome, mas pelas muitas calorias a mais que tais coisas geram. – Explico.
– Você não tem cara de quem segue regras. – Ainda me analisa, parece admirada, o que me faz rir.
– Mulheres são exigentes, Srta. Mills, e graças ao meu trabalho escravo, junto com a faculdade, meu tempo na academia foi consideravelmente reduzido. – Explico.
– Faz sentido. Menos a parte do trabalho escravo, se tal coisa envolve o hotel. – Dou risada.
– Como estou falando com a dona do mesmo, prefiro não comentar a respeito. – Ela esboça um sorriso.
– Você é esperta! – Aponta para mim.
– Eu sei, você já me disse isso. – Nada diz, resolve beber o resto do vinho em sua taça. Está consideravelmente mais falante, o que me faz crer que o vinho já está cumprindo seu papel. – E você, janta sempre assim tarde? – Nega com a cabeça.
– Geralmente não janto, mas sempre que janto, faço antes das 19:00hrs. – Arqueio as sobrancelhas ao ouvir tal coisa.
– Como assim você não janta? – Da de ombros.
– Perco o apetite sempre que algo me incomoda. – Explica. – Em Nova York as coisas são mais... – Pensa em uma palavra. – Pesadas. Todos os dias acabo me estressando com alguma coisa, acabo também ficando no escritório até mais tarde. Quando chego em casa, Elizabeth já está dormindo, e tudo que eu mais quero é dormir também. – Volto a arquear as sobrancelhas.
– Elizabeth? – Não consigo conter minha curiosidade.
– Minha governanta. – Claro, claro que ela tem uma governanta. Seria estranho se não tivesse. – Na verdade minha cozinheira também.
– Você tem uma casa parecida com essa de Vegas? – Nega.
– Moro em um apartamento. – Sua resposta me surpreende. Pela casa nada modesta que tem em Vegas, imaginei que tinha algo umas três vezes maior em Nova York.
– Desculpe, a visão que eu tenho de um apartamento é algo com no máximo dois quartos, uma cozinha conjugada, um banheiro e talvez uma varanda. – Ela sorri. – Seu apartamento não é assim, é? – Nega.
– É um pouquinho diferente. – Imagino o tamanho desse pouquinho.
– Um pouquinho? – Me serve mais vinho e em seguida se serve.
– São três suítes, mais o quarto da governanta. Uma cozinha, uma sala de jantar, uma sala de estar, um escritório, uma sacada e mais a cobertura. – Talvez meu queixo esteja caído.
– Um pouquinho. – Debocho. – Deixe-me adivinhar. Esse belo condomínio de luxo, sim, porque você certamente mora em um, fica em Manhattan. Upper East Side, provavelmente. – Sorri e assente.
– Sim. – Assovio.
– Sua riqueza me enoja. – Meu comentário a faz balançar a cabeça concordando.
– A maioria das vezes faz o mesmo comigo. – Pelo tom que faz tal comentário, não tenho dúvida de que está falando sério.
– Além de governanta, você tem mais o quê? – Aproveito esse raro momento em que ela não está se importando em falar sobre sua vida, graças a esse maravilhoso vinho, para tentar saber mais sobre ela.
– Motorista, segurança, nutricionista, personal trainer, personal stylist, etc, etc. – Você não poderia estar mais ferrada, Emma, não mesmo. Esse mundo dela, você não conhece, nunca esteve. Talvez seja mais fácil conhecer a lua, Marte, Saturno, do que conhecer o mundo de Regina Mills. A verdade é que você nem quer conhecer o mundo dela, apesar de todo o dinheiro, não parece um lugar muito agradável de se estar. Então você deveria desistir, jogar a toalha, bater em retirada. Por que diabos você não quer fazer isso? Por que quanto mais você sabe, e quanto menos gosta do que sabe, mais se interessa, mais quer saber? Por que você não considera nem que seja minimamente a possibilidade de desistir? – Me tornei menos interessante agora, Srta. Swan? – Debocha enquanto me analisa.
– Na verdade não. Só mais complicada. – Balança a cabeça negativamente, enquanto me assiste emborcar o vinho.
– Acha que toda essa complicação vale mesmo apena? Existem mulheres muito mais interessantes e menos complicadas para você conquistar e levar para cama. – Ao ouvir tal coisa, meu coração bate mais forte. De todas as coisas que estava preparada para ouvir, essa com certeza não eram uma dela.
– Eu não quero levar você para cama. – Respondo na defensiva. – Você já está bêbada. – Sorri sem humor e nega.
– Não, não estou bêbada, estou no máximo, um pouco alterada. – Me esclarece. – Desista, Srta. Swan, além de não valer a pena, você não vai conseguir. – Puxo a maior quantidade de ar que consigo e solto lentamente pela boca.
– Okay, talvez eu queria leva-la para cama. – Admito. – Mas não é só isso, e acredite, seria muito mais fácil se fosse só isso. Para falar a verdade, se fosse só isso, eu já teria feito. Naquela noite, no seu quarto. – Suspiro. – Meu Deus! Sinceramente, eu ainda não sei como consegui resistir. – Ela desvia os olhos. – Eu não sei o quanto você lembra, nem estou aqui para lembra-la, mas eu juro para você que poderia ter acontecido facilmente. E juro também que só não aconteceu, porque eu não quis que acontecesse. – Da um leve aceno de cabeça, aparentemente acreditando em mim. – Eu realmente quero ser sua amiga, como esclareci quando estávamos ali em cima. Eu não insistiria nisso se quisesse só sexo, Srta. Mills. – Da um gole em seu vinho e volta a me encarar.
– Por quê? Não faz sentido você querer minha amizade. – Balanço a cabeça, reprovando o que ouvi.
– Por que não? Como eu já disse, você e eu temos em comum esse negócio de não confiar nas pessoas. Você é uma mulher inteligente, misteriosa, instigante. Eu gosto de pessoas que fogem da normalidade. Gosto de pessoas assim, indecifráveis. E Janis, Janis gostou de você de cara, isso acontece poucas vezes, então tenho certeza que vale muito a pena insistir nessa amizade. – Ela suspira, termina o vinho, mais uma vez suspira e volta a me encarar.
– Você não vai me levar para cama. – Sorrio. Tenho quase certeza que esse é o jeito dela de me dizer: Okay, vamos tentar ser amigas, Srta. Swan.
– A não ser que você me peça. – Levanto as mãos, prometendo tal coisa.
– Eu não vou pedir. – Me garante, o que de novo me faz sorrir. Já que nos tornamos oficialmente amigas, resolvo provoca-la.
– Okay, você não vai pedir. Então sugiro que pare de beber, porque tenho certeza que a Regina que toma conta desse corpo quando você bebe demais, vai com certeza pedir. – Minha resposta a deixa sem jeito, o que me faz rir. – Mas eu não posso culpa-la, afinal, não sou de se jogar fora. – Revira os olhos ao ouvir tal coisa.
– Já lhe explicaram o significado de modéstia, Srta. Swan? — Provoca.
– Sim, algumas vezes. Assim como me explicaram o significado de realidade. – Balança a cabeça negativamente.
– Você é impossível. – Resmunga, enquanto levanta a mão, chamando Ellen. – A conta, por favor! – Pede. Como Ellen já percebeu que Regina Mills não foi premiada com a graça da simpatia, não diz absolutamente nada. Só vai atrás do que lhe foi pedido.
– Deixa que eu pago. – Aviso e mais uma vez a vejo revir os olhos.
– Claro, porque cem ou duzentos dólares a menos, vai fazer muita diferença na minha vida. – Ironiza.
– Hey, você foi metida agora! – Reclamo.
– E você orgulhosa. Se quiser mesmo que essa coisa de amizade funcione, melhor eu deixar claro que sempre serei a pessoa responsável por pagar a conta. – Não gosto muito de ouvir tal coisa.
– E eu, vou contribuir com o quê? – Da de ombros.
– Continue com suas idiotices de sempre, é duro admitir, mas infelizmente, elas realmente me divertem. – Aí estômago, amanhã mesmo procuraremos um médico. E você coração, fique na sua. Cardiologistas custam caro. Meu Deus! Será que a doença do estômago é contagiosa? E será que existe remédio para isso?
(...)
– Eu já disse que posso muito bem dirigir seu carro até o hotel, Srta. Mills. – Regina decidiu que bebemos o suficiente para não dirigir. Então estamos plantadas na calçada da Strip tem mais de cinco muitos, esperando um táxi.
– Você não está bem para dirigir nem quando está sóbria, imagina com um pouco de álcool em suas veias. – Debocha. Ah sim, ela com certeza já bebeu demais. Está até tentando fazer piadas.
– É uma reta sem fim, juro que consigo. – Dou minha palavra.
– Não. A Strip é movimentada demais e as pessoas que estão nela, não tem culpa nenhuma do quão mal você dirige. – Está claramente me provocando.
– Bêbada! – A acuso ao empurrar seu ombro.
– Não estou bêbada. – Rebate meu empurrar de ombro.
– Claro que não. Você é sempre assim simpática, e cheia de gracinhas. – Debocho e infelizmente ela me premeia com seu silêncio. O vento que bate a faz abraçar-se ao corpo e esfrega as mãos nos braços, em uma tentativa de se aquecer. Sorrio com a cena.
Ela é tão baixinha, miúda e apertável. Tenho vontade de abraça-la para aquece-la, mas sei que isso é demais para esse início de amizade, então só tiro minha jaqueta e ponho sobre seus ombros.
– Provavelmente o inverno de Vegas, não é tão frio quanto de Nova York, mas é frio. Então a aconselho a começar a carregar casacos consigo. – Meu conselho a faz rolar os olhos.
– Não estou com frio. – Resmunga.
– Não, imagina. – Paro em sua frente e seguro a jaqueta. – Ponha os braços. – Peço e sem reclamar, ela faz. – Você é tão pequena, que em você a jaqueta ficou até que comprida. – Comento enquanto fecho o zíper.
– Ou seja, talvez essa camiseta que você estava usando como um vestido, servisse em mim como um vestido. – Sua provocação me faz lhe lançar um olhar incrédulo.
Como estou de saltos e como o tamanho dela não ajuda muito, tem que inclinar a cabeça para me olhar. Tenho vontade de rir de seus olhos pequenos e brilhosos. Ela está com certeza bêbada, não como estava na noite da boate, longe disso. Está uma bêbada controlada, mas está.
– Gostou do meu vestido, Srta. Mills? – Nega.
– Não! – Seu não emburrado me faz rir.
– Gostou sim. – Meu indicador cutuca seu nariz.
– Não! – Volta a negar.
– Nem um pouquinho? – Insisto.
– Desista, você não vai me ouvir admitindo. – Sua resposta de novo me faz rir.
– Isso já não é uma admissão? – Questiono ainda rindo.
– Nem um pouco.
– Okay. Então vou fazer de conta que você não gostou. – Ela concorda com a cabeça.
– Faça! – Resmunga a resposta e mais uma vez na noite, preciso conter a vontade de abraça-la. Ela está tão perto, está tão à vontade, tão espontânea. E eu, eu estou tão ferrada.
Ao levantar a cabeça para tentar fugir da tentação, vejo um táxi se aproximando, o que me faz levantar a mão para o mesmo e fazer sinal para que pare.
– Até que enfim! – Exclamo. Junto minha mochila, minha bolsa, penduro cada uma em um ombro e estendo a mão para Regina, que me assiste completamente imóvel. – Vem! – Convido e superando todas as expectativas que eu não tinha, pega minha mão. Pela primeira vez, sua mão não está inerte, ela fecha os dedos nas costas da minha mão e vai além, me sorri.
Momentaneamente fico sem reação, é muita coisa para processar. Minhas pernas talvez estejam um pouco bambas e meu corpo, tudo que tem nele, até os pentelhos depilados, são contagiados pelo meu estômago.
– Vai ficar aí parada, Srta. Swan? – Como continuo imóvel, ela toma frente e me puxa pela mão. Infelizmente a solta assim que entra no táxi. Da ordem ao taxista de onde ele deve nos deixar, e vai além, resolve conversar com ele. Gostaria muito que a bebida a deixasse simpática única e exclusivamente comigo, mas como posso concluir, ela com certeza fica assim com todos que lhe dirigem a palavra.
Me limito apenas a ouvir. Eles tagarelam sem parar sobre alguns lugares de Nova York, os quais eu não conheço, nem nunca ouvi falar. No final da nossa pequena viagem que durou um pouco mais do que cinco minutos, ela se despede e paga cem dólares pela corrida que custou quinze.
O taxista nos deixa em frente as fontes do Bellagio. Como se programado, assim que saímos do carro, começa o show das fontes. Não importa quantas vezes eu já tenha visto isso, continuo achando fascinante. As luzes, a música, a água que parece dançar em sincronia com tudo. Na verdade, está tudo está sincronizado para que isso realmente aconteça, não é algo causal, sei disso, mas acho maravilhoso mesmo assim.
Ao olhar para o lado, vejo que os olhos de Regina também estão presos na dança das águas.
– Nunca vou me cansar de assistir isso. – Comento com ela.
– É triste admitir, mas é realmente bonito. – Sua admissão sai sussurrada.
– Bonito e todo seu. – Ela esboça um sorriso.
– Todo não, apenas metade. – Apenas. Fala como se fosse supernormal. Como se qualquer reles mortal, pudesse ser dono da metade do Bellagio.
– Você tem noção de que é dona do Bellagio, certo? Ou uma das donas, tanto faz. – Atravesso a rua ao seu lado. Ela tem as mãos dentro do bolso da minha jaqueta e como sempre, a cabeça erguida, os olhos focados sempre a frente.
– Tenho, Srta. Swan. Quando o compramos, fiquei mais de uma semana sem dormir, pensando em tal feito. Apesar de não gostar dessa cidade, admito que esse hotel é algo como uma obra de arte. – Concordo.
– Acredito que essa obra de arte tenha custado muito caro. – Penso alto.
– Muitíssimo caro, mas em pouco mais de dois anos, ele se pagou. – Assovio ao ouvir tal coisa.
– Uau! E você ainda não gosta dessa cidade. Você tem uma máquina de fazer dinheiro aqui. – Ela ri.
– Se formos contar com o cassino, tenho bem mais do que só uma máquina de fazer dinheiro. – Concordo.
– Faz sentido. – Ao entramos no hall do hotel, percebo muitos olhares curiosos concentrados em nós duas. As pessoas costumavam gostar de mim por aqui, até eu também me tornar uma funcionária. Funcionaria namorada da chefe, desde então, passaram a me ignorar e me olhar de cara feia, pelo menos a maioria.
Tenho certeza que tudo vai ficar um pouco pior agora que estão me vendo com a temível Regina Mills. Além de ser namorada de Tinker, sou amiga da “bruxa”. Essa será a fofoca de amanhã.
– Ignore! – A ouço murmurar.
– Como? – Vira o rosto em minha direção.
– Ignore eles, os comentários, as gracinhas e provocações. Quanto mais você tentar se explicar, quanto mais querer ser amiga deles, mais vão falar e ignora-la. Então abstraia, não ligue. Até porque, você não precisa agrada-los. Se quiser se firmar aqui, faça seu trabalho bem feito, só isso. Não se preocupe quanto ao resto. – Balanço a cabeça muitas vezes, concordando com seu conselho. Me sinto feliz com isso, feliz por ela ter de certa forma, se importado.
– Obrigada! – Me sorri e volta a focar a frente. Caminhamos em silêncio até o elevador mais próximo, infelizmente, sei que nos despediremos aqui.
Encosto-me na parede, ficando ao lado dela, que está voltada para mim.
– Então, você quer que eu suba e lhe acompanhe até sei lá onde está indo? – Sorri e nega.
– Estou indo até o escritório. E não, é melhor você não subir, Srta. Swan. – Sim, com certeza é melhor, mesmo sendo pior.
– Somos amigas? – Pensa um pouco a respeito, e tal coisa me deixa ansiosa.
– Acho que... – Suspira e assente. – Somos amigas. – Me esqueço por um momento do lugar em que eu estou e levanto os braços para comemorar.
– Obrigada, amiga! Juro que você não vai se arrepender. – Aperto as bochechas dela, que ri, e se desfaz das minhas mãos. – Obrigada por hoje, pelo Elvis Regina, pelos muitos balões e pelo jantar. Janis se divertiu, eu me diverti. – Sorri e concorda.
– Eu também me diverti, Srta. Swan. – Não consigo achar uma palavra para expressar o quanto ouvir tal coisa saindo da boca dela, me deixa feliz.
– Já arrumou um calçadão para correr? – Questiono ao lembrar do dia da nossa reunião, quando Tinker a mandou fazer tal coisa.
– Ainda nem procurei. – A porta do elevador se abre, e instantaneamente ela entra. Seguro a porta, para que possamos terminar nossa conversa.
– Eu conheço um. Arrume uma roupa de ginástica, amanhã à noite nós vamos correr. E eu não aceito um não como resposta, amiga. – Ela nega.
– Amanhã à noite você tem compromisso com a sua filha. – Me lembra de algo que eu já sei.
– Até as 23:00hrs que é o máximo que ela aguenta acordada. Depois estou livre. – Balança a cabeça negativamente.
– Quer correr de madrugada, Srta. Swan? – Dou de ombros.
– Não existe hora para correr, mas de qualquer jeito, estamos em Vegas, aqui tudo é possível. Só arrume uma roupa adequada para tal coisa, o resto combinamos amanhã. Okay? – Revira os olhos.
– Boa noite, Srta. Swan! – Se esquiva.
– Okay? – Insisto.
– Você está trancando o elevador. – Reclama.
– Okay? – Me lança um olhar irritado, tira minha mão da porta e me empurra para trás.
– Boa noite, Srta. Swan! – Suspiro e desisto. Jogo as mãos para dentro dos bolsos da calça e assisto as portas do elevador se fechando, levando embora Regina Mills.
Recosto as costas na parede e miro o teto. Bato minha cabeça contra a mesma algumas vezes, enquanto mais uma vez me pergunto o que está acontecendo comigo.
Ao perceber que estou sendo observada, resolvo agir como uma pessoa normal. Respiro fundo pensando no que fazer, então lembro de Tinker e resolvo procurar por ela. Tiro o celular da bolsa e vejo que tenho mensagens. Abro o aplicativo tendo certeza que são mensagens de Tinker, então quando vejo que a mensagem é de Regina Mills, minhas pernas fraquejam.
Não é grande coisa, na verdade tudo que escreveu se resume a uma única palavra. Uma palavra linda, maravilhosa, bela. Minhas mãos estão um pouco tremulas, o sorriso em meu rosto não pode se tornar mais amplo e meus olhos, meus olhos não conseguem desfocar da pequena mais significativa palavra “Okay”.
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