Right Here Waiting For You
13 Fix You
Notas iniciais
Dois segundos, foi exatamente por esse longo tempo, que consegui fechar os olhos, tendo como maior objetivo dormir, até alguém que não tem nada de útil para fazer, resolver atrapalhar meu sono. Pois é, não é fácil ser eu. Por algum motivo por mim desconhecido, algum infeliz resolveu deixar o dedo na minha campainha e provavelmente colou ele lá.
Penso em quem pode ser a essas horas da madrugada, e não chego à conclusão alguma. Apostaria na Srta. Swan, se a mesma não tivesse me torrado a paciência no WhatsApp até quase quatro horas da madrugada. Penso também em Robin, mas é pouco provável que seja ele. Se por um acaso ele resolvesse aparecer sem prévio aviso, esperaria amanhecer para bater na minha porta. Por último, penso na minha mãe, mas como ela não se encaixa no perfil “mulher da madrugada”, concluo que também não é ela.
Bom, como só vou saber quem é e consequentemente ter paz quando atender a porta, resolvo fazer tal coisa. Um pouco perdida e cambaleante, abotoo meu jeans, fecho o zíper, passo os dedos pelos cabelos e me arrasto para fora do quarto. Com a ajuda do corrimão desço as escadas, até por fim chegar a porta. Ao abrir a mesma e me deparar com Tinker, me sinto ainda mais perdida.
— Tinker, o que está fazendo aqui? — Será que está procurando a Srta. Swan? Mas não faz sentido procura-la aqui, faz? Dessa vez, tenho absoluta certeza de que ela não está na minha cama.
— Bom dia para você também! — Me deseja sorrindo.
— Dia? — Passo os dedos pelos olhos, enquanto penso no possível sonho que estou tendo.
— Na verdade... — Ela checa o relógio de pulso. — Boa tarde! — Seu sorriso cresce.
— Tarde? – Junto as sobrancelhas, enquanto tento formar um pensamento coerente, algo que não envolva voltar para a cama e continuar dormindo.
— Meu Deus! Você está completamente perdida. — Me acusa enquanto ri.
— Eu só... — Aponto para trás. — Estava tentando dormir. O que está fazendo aqui?
— Bom, pelos seus olhos inchados, os cabelos bagunçados e o semblante perdido e confuso, concluo que conseguiu dormir e muito. — Ainda embriagada de sono, apenas dou de ombros. — Jane, digo, Emma, acabou com você. — Me acusa e volta a rir.
— O quê? — Balanço a cabeça negativamente, tentando acordar desse sonho maluco. Sonhando, essa é a única explicação plausível para o que está acontecendo, já que Tinker está mais de uma semana atrasada quando o assunto é “Jane, digo, Emma, acabou com você”.
— Nós só fomos ao parque e depois fomos jantar. — Me defendo. — E a culpa é sua. – A acuso. — Você não pode marcar com ela e depois simplesmente cancelar. Muito menos me fazer ir em seu lugar. – Reclamo.
— Ela me falou sobre a ida ao parque com Janis, e depois a ida ao parque só com você e falou também sobre o jantar e o vinho. Bebeu demais, não foi? – Parece se divertir com minha confusão. — Regina, não tente acompanhar Emma no que quer que ela resolva beber, porque aparentemente, o corpo dela é imune ao efeito do álcool. — Me aconselha.
— Eu não tentei, eu... — Você não precisa se explicar, Regina. Primeiro, porque não tem o que explicar, não aconteceu absolutamente nada demais. Segundo, Tinker não merece nenhum tipo de explicação, já que praticamente jogou você para um dia com a namorada dela. — O que você quer? — Mudo de assunto.
— Ah, eu nada, mas você sabe, está na hora da reunião com o pessoal de Nova York, e como você já está meia hora atrasada, resolvi vir ver se está tudo bem. — O quê? Já passa das 14:00hrs? Não, Tinker só pode estar de brincadeira. Eu mal fechei os olhos, então não pode mesmo já passar das 14:00. Agarro o pulso dela e prendo os olhos em seu relógio. 14:45hrs é o que marca nele. Balanço a cabeça negativamente, não acreditando no tanto que dormi. Mais de dez horas, dormi mais de dez horas. Não lembro da última vez que consegui dormir tanto tempo assim. — Como eu disse, não tente acompanhar Emma na bebida, a não ser que queira perder a hora todos os dias. — Tinker volta a ganhar minha atenção.
— Cora? — Questiono e pelo olhar de Tinker, concluo que minha querida mãe está no mínimo, furiosa.
— Me deu vinte minutos para achar você, ou você já sabe. — Balanço a cabeça concordando.
— Vá na frente, diga que você me achou e que graças a minha asma, estou atrasada. — Tinker ri.
— Por que você simplesmente não fala a verdade? — Lhe balanço a cabeça em sinal de negativo.
— Algo me diz que ela já não gosta muito da sua "namorada", talvez isso fique um pouco pior, se ela souber que ando gastando meu precioso e rico tempo com a Srta. Swan, então... — Dou de ombros. — Você quem sabe. — Pelos muitos balançares positivos de cabeça, vejo que Tinker está convencida.
— Certo, a sua asma atacou. Você é tão irresponsável as vezes, já disse que não pode de jeito nenhum viajar sem sua bombinha. — Esboço um sorriso.
— Você deveria com certeza investir nas artes cênicas. — Me sorri e empurra meus ombros.
— Anda logo, antes que ela pegue a vassoura e venha para Vegas. — Aponta para mim. — Se quer mesmo que ela acredite na asma, troque pelo menos essa camiseta que entrega o seu amor à cidade. — Ao olhar para minha roupa, balanço a cabeça negativamente.
— Droga! Não tinha planos de dormir no hotel. Ontem antes de ir ao parque, passei em casa para deixar algumas coisas, inclusive minhas roupas. — Tinker balança a cabeça em reprovação.
— Bom, tudo que posso lhe desejar é sorte. E não demore! – Pisca para mim e se vai. Balanço a cabeça negativamente, ao ver que ela está com uma certa dificuldade para andar. Srta. Swan. Acabo tendo que rir, ao lembrar do que ela disse que faria com Tinker.
Fecho a porta e me encosto na mesma, enquanto penso no que fazer. Não tenho tempo de ir em casa, tampouco tenho tempo de descer e ir até uma loja comprar alguma coisa.
Suspiro e miro o sofá, a jaqueta de couro da Srta. Swan jogada sobre ele, é tudo que me resta. Não que trajar tal coisa, seja menos estranho do que andar com uma camiseta de turista, declarando meu amor por Vegas, mas talvez passe mais despercebido.
Sem outra alternativa, visto a jaqueta, a fecho quase até em cima e coloco o tênis. Tênis, outra coisa que “combina” muito comigo. Mas graças ao bom Deus, isso não é problema, já que meus pés não ficarão visíveis aos olhos atentos de Cora.
Pego minha bolsa e sem outra saída, resolvo ir de uma vez. Aperto os botões de todos os elevadores e espero impacientemente algum se abrir. O dos funcionários acaba chegando primeiro, e quando a porta se abre, me deparo com ninguém mais, ninguém menos, do que a Srta. Swan, vulgo a razão dos meus problemas. Traja o uniforme dos funcionários que trabalham nos bares. Calça e camisa social preta. Para o bem dela, resolvo ignorar o TÊNIS, que calça. Seus cabelos estão presos em um rabo de cavalo, alguns fios soltos caem pelo rosto.
Assim que levanta a cabeça e me vê, ela sorri, como se tivesse encontrado um pote de ouro.
— Bom dia! – Deseja alegremente. Não lhe digo nada, apenas entro no lugar e concentro os olhos nos números.
— O que está fazendo aqui? – Questiono.
— Eu trabalho aqui, lembra? – Paciência, Regina, paciência.
— Até onde eu sei, você trabalha em um dos bares, e até onde também sei, não existe nenhum bar nos elevadores. – A ouço rindo.
— Uma criança acabou se perdendo dos pais. Ela tinha uma pulseira de identificação, vim traze-la. – Explica e qualquer bronca que eu tinha pronta, acaba sem sentido. – Agora já pode me desejar bom dia? – Sua frase acaba assim que o elevador se abre. Sem lhe responder ou olhar para o lado, saio do mesmo e caminho em direção a sala de reuniões. – Por um acaso, não me lembro de termos dormido juntas. – Sua espécie de provocação me faz parar, e me voltar para ela, que segura a porta do elevador. Sua cabeça está para fora do mesmo. A fuzilo com o olhar ao caminhar ao seu encontro.
— Como disse, Srta. Swan? – Questiono de sobrancelha arqueada. Enquanto lhe olho sem paciência, ela me sorri.
— Só existiria um motivo para você não me desejar bom dia, caso tivéssemos dormido juntas, então acordaríamos juntas e não existira motivo para esse tipo de saudação. Mas nós não dormimos juntas, dormimos? – Lhe rolo os olhos.
— Boa tarde, Srta. Swan! – A corrijo.
— Ainda não almocei, então para mim, é bom dia. – Me explica. – Gostei da roupa pós balada. – Aponta. – Se eu não conhecesse você, diria que está chegando agora da mesma. – Volto a rolar os olhos.
— Você não me conhece. – Deixo claro. Ela tem o dom de me irritar mais do que qualquer outra pessoa, principalmente quando insinua coisas, como se me conhecesse há muito tempo. Mas o que eu mais odeio mesmo, é o fato de ela realmente parecer me conhecer há muito tempo.
— Dou o meu melhor para tentar conhecer. – Me lança uma piscadela e um dos seus sorrisos galanteadores.
— Não tenho tempo para suas gracinhas agora, Srta. Swan e você, deveria estar trabalhando. – Concorda com a cabeça e libera a porta do elevador.
— Me desculpe, eu só... – Suspira. – Não aguentei dividir o mesmo espaço com você e ficar de boca fechada. – Responde enquanto me sorri, talvez um pouco envergonhada.
— Okay. – Outra coisa que odeio nela é o fato de as vezes ela me deixar sem saber o que dizer.
— Você está bem? – Questiona e volta a segurar o elevador. Por algum motivo em vez de lhe dar as costas e ir para reunião na qual já estou muito atrasada, balanço a cabeça negando enquanto levo as mãos a cintura. – Posso perguntar o que aconteceu? – Dou de ombros.
— Eu dormi demais e graças a isso estou atrasada para uma reunião, o que não me permite ir até em casa trocar de roupa e... – Sorrio ao parar os olhos nela e de novo prestar atenção em suas roupas. – Srta. Swan, me acompanhe até o banheiro.
— O quê? – Me olha sem entender.
— Me acompanhe até o banheiro, Srta. Swan, isso é uma ordem. – Não espero resposta, giro nos calcanhares e começo a andar em direção aos sanitários. Segundos depois, ouço passos atrás de mim.
— O que exatamente estamos indo fazer no banheiro? – Balanço a cabeça negativamente, enquanto tento não sorrir do tom animado que me faz a pergunta.
— Nada que sua mente pervertida possa estar pensando. – Respondo em tom sério.
— Ela não está pensando em nada. – Responde ao me alcançar. Lhe olho pelo canto dos olhos, o que a faz sorrir sem graça e tirar os olhos de mim. – Ou talvez esteja. – Confessa.
— Você não vai ao banheiro com suas amigas, Srta. Swan? – Ironizo a palavra amigas.
— Só com Killian, que não é exatamente uma amiga, apesar de ser. – Tenho vontade de rolar os olhos ao ouvir o nome da tal “amiga”. – As outras com as quais eu acabo indo até o banheiro, não são exatamente amigas, amigas, então sempre acontece uma safadeza ou duas, ou... – Antes que continue com suas perversidades, lhe lanço um olhar nada amigável. – Mas como para tudo existe uma primeira vez, estou indo ao banheiro com uma amiga, amiga, fazer... – Junta as sobrancelhas. – Xixi? – A quantidade de palavras que fala por segundos, me faz rolar os olhos. – O número dois, talvez? – Seu semblante de dúvida acaba me fazendo sorrir. – Já sei! – Aponta para mim. – Vamos fofocar sobre a vida de alguém. Killian e eu sempre fofocamos sobre a vida de alguém quando vamos ao banheiro juntas. – Balanço a cabeça negativamente.
— Tenho cara de alguém que faz fofocas, Srta. Swan? – Seus olhos para em mim por alguns segundos, então ela sorri sem graça.
— Não. – Murmura. Faz silêncio por mais ou menos, milagrosos dois segundos, então abre a boca, com certeza para mais uma besteira. – Okay, se não estamos indo fazer safadezas, nem fazer xixi, nem o número dois, nem fazer fofoca, o que vamos fazer então? – Ao passar em frente ao vestiário, resolvo que para o bem dos meus ouvidos, vamos entrar aqui mesmo. Retorno, abro a porta e estendo a mão para que ela entre. Como já era de se esperar, o lugar está vazio. Jogo minha bolsa sobre um dos bancos, retiro a jaqueta e por fim, a camiseta estúpida de turista.
— Tire a sua camisa, Srta. Swan. – Ordeno ao jogar a camiseta sobre a bolsa. Por algum motivo, ela está em silêncio, quando olho em sua direção para saber qual o problema, vejo seus olhos concentrados em algum lugar que deduzo ser meus seios, ou, o que o sutiã deixa a amostra. – Rum! – Coço a garganta tentando fazer com que tire os olhos de mim. – Algum problema, Srta. Swan? – Questiono ao cruzar os braços sobre o peito. Ela engole em seco, enquanto nega com a cabeça.
— Nenhum. – Responde ao enfim levantar a cabeça e me encarar.
— Então, tire a camisa. – Aponto para a camisa preta que usa.
— Você disse que não vínhamos fazer safadezas. – A voz abalada e um tanto quanto perdida dela, quase me faz sorrir.
— E não viemos. – Esclareço o óbvio.
— Então por que quer que eu tire minhas roupas? – Sua voz continua abalada.
— Eu não quero que tire suas roupas, quero que tire sua camisa. APENAS a camisa. – Resolvo deixar claro. – Vamos trocar, Srta. Swan. Não posso aparecer em uma reunião do conselho, vestindo uma roupa amarrota de turista e que por um acaso, não combina nem um pouco comigo. – Resolvo explicar, talvez desse jeito ela resolva fazer o que estou mandando sem questionar mais nada.
— Certo. – Murmura enquanto tira a camisa social de dentro da calça. Volta a passar os olhos por mim, antes de se concentrar no desabotoar dos botões. Um por um, os desabotoa com uma destreza admirável. É o serviço dela, certo? Quer dizer, ela deve ter desabotoado mais botões em sua profissão, do que eu ganhei dinheiro na minha. Desvio os olhos quando sua pela alva, começa a se fazer exposta. Além de ser deselegante, não acho interessante assistir uma mulher se despir. – Só tem um pequeno problema. – Volta a murmurar.
— Que seria? – Meus olhos param nos seus, ela suspira, se desfaz da camisa e me estende. Não precisa me dizer o problema, já o que o mesmo fica bem visível aos meus olhos, tão visível que é impossível ignorar. E bom, eu não chamaria o problema de pequeno.
— Tinker tem uma pequena mania de roubar minhas peças intimas e as vezes eu não tenho tempo para reavê-las. – Explica. – Como a minha camisa é preta, não existia um problema exatamente, mas como a sua de turista é branca, talvez não seja interessante trabalhar assim, você sabe... – Balanço a cabeça, enquanto meus olhos tentam se concentrar em um ponto qualquer no armário atrás dela.
— Okay. – Coço a garganta enquanto penso no que fazer. – Você usa o meu. – Dou a única solução aparente e fico de costas para ela, para me desfazer da peça que por uma infelicidade minhas mãos não estão conseguindo desatacar.
— Eu ajudo você. – A ouço dizer e não tenho tempo de negar, suas mãos já estão sobre as minhas, pedindo permissão para apossarem-se do meu sutiã. – Posso? – Sussurra, e por algum motivo que sempre acaba me irritando segundos depois, acabo de olhos fechados.
Não estou a vendo, mas tenho certeza que está perto, muito perto, mais do que a ocasião exige para que ela possa me ajudar, mais do que deveria. Não lhe respondo nada, apenas retiro minhas mãos, para que ela faça logo isso.
Milagrosamente ela faz silêncio, enquanto seus dedos roçam casualmente minha pela. Ela desataca com facilidade, os dedos sobem pelas minhas costas, vão até meus ombros onde se prendem as alças do sutiã. Sem pressa, ela os escorregam pelos meus ombros. Suas mãos param na altura dos meus cotovelos e seguram meus braços. Juro que posso sentir sua respiração tocando minha orelha, e infelizmente isso faz meu corpo reagir.
Por frações de segundos, penso em continuar exatamente onde estou, mas ao lembrar onde exatamente estou e com quem estou, tal resquício de pensamento é esquecido. Abro os olhos e dou dois passos à frente, me distanciando dela. Acabo de tirar a peça e ainda de costas para ela, a torno visível para que ela pegue. É o que faz, milagrosamente em silêncio e dessa vez, sem nenhum tipo de aproximação desnecessária.
— A camisa, por favor? – Peço, minha mão estendida.
— Aqui. – Sua voz sai falha, abalada. Coloco a peça, ataco os primeiros três botões e me volto para ela, que está refazendo o rabo de cavalo. Os olhos fixos em um ponto qualquer.
Assim que acaba de ajeitar os cabelos, põe sua jaqueta e só então me encara. Seus olhos um tom mais escuro, a boca entreaberta, o jeito como respira, e o olhar intenso que me lança, me fazem ter certeza que ela gostaria de ter ido além, de ter tirado o restante das minhas roupas e tudo mais. Nunca fui muito boa com essa coisa de flertar, nunca soube de fato quando alguém está ou não interessado em mim, mas ela, ela está, pelo menos nesse momento. Não tenho dúvidas sobre isso, está explicito em seu rosto.
O problema nisso tudo é meu corpo que as vezes reage as suas gracinhas, as suas tentativas de aproximação, aos seus toques, de um jeito que com certeza não deveria. Aparentemente para meu corpo, não é errado sentir-se atraído por uma mulher, o que o faz me trair. Nesse exato momento, ele gosta do jeito como ela me olha, o que o faz continuar pulsando pela mulher parada em minha frente.
— Eu... – Ela dá um passo à frente, enquanto parece procurar palavras. Instintivamente, dou um passo para trás.
— Eu tenho que ir. – Sou mais rápida e graças ao bom Deus, ela balança a cabeça concordando.
— Eu também. – Também concordo. – Então eu vou. – Aponta para trás, onde fica a saída.
— Okay. – De novo concordo, o problema é que ela não se mexe. Como concluo que ela não vai sair de onde está, acabo de atacar os botões, pego minha bolsa, rolo os olhos e resolvo ir. – Volte ao trabalho, Srta. Swan. – Resmungo ao passar por ela, buscando a saída.
— Boa reunião, amiga! E até de noite. – A ouço praticamente gritar tal coisa quando já estou fora do vestiário. Balanço a cabeça negativamente, e acabo sorrindo.
Resolvo esquecer a Srta. Swan e me concentrar na reunião. Como tive uma “crise de asma”, não posso estar muito apresentável. Passo a mão pelos cabelos, os desalinhando. Esfrego os olhos, fazendo com o que sobrou da maquiagem, borre ainda mais os mesmos. E por fim, tiro o broncodilatador da bolsa.
Paro em frente a sala de reuniões e respiro fundo, buscando o máximo de concentração e atenção possível, afinal, preciso convencer o conselho e principalmente minha mãe, de que o motivo do meu atraso, é mesmo uma crise de asma, e não uma mulher de vinte e poucos anos, que resolveu entrar na minha vida sem ser convidada e o pouco tempo que está na mesma, já conseguiu bagunçar muitas coisas.
Sem outra opção, abro a porta da sala, tusso enquanto caminho e faço uso do broncodilatador. Sento-me a ponta da mesa e então levanto a cabeça, tendo o desprazer de ver Cora, na tela.
— Desculpem, estou atrasada. Não tive uma noite nada boa o que me fez ir até o hospital. – Esboço um sorriso falso, tiro os olhos do telão e procuro por Tinker, que se mantém séria, conforme a ocasião exige. – Então, o que eu perdi?
(...)
Sabe quando você tem certeza de que uma coisa não vai dar certo? Que você deve manter distância? Que não deve nem por um segundo cogitar a possibilidade de tentar? É exatamente o que sinto em relação a Srta. Swan e tal amizade que ela inste em tentar ter comigo.
Não devemos, e isso nada tem a ver com o fato de ela ser prostituta, ou ser lésbica. Não, não tem muito a ver com ela, tem mais a ver comigo. Com quem eu acabo sendo quando passo um tempo com ela, ou com sua filha.
O fato é que ambas conseguem a proeza de me fazer esquecer. Esquecer quem eu sou, minhas responsabilidades, de onde venho. E o problema em esquecer, é que isso pode se tornar um ciclo vicioso. Sem que você perceba, você começa a se tornar dependente dessas pessoas, e quando isso acontece, suas fraquezas ficam expostas. Expostas para quem quiser ver, e é exatamente aí que as coisas se tornam perigosas.
Você muitas vezes pode não gostar de quem você é, certo? Mas nem sempre pode mudar isso, não sem fazer estrago na vida de um outro alguém. Digo por experiência própria, por já ter tentado, e por ter falhado.
A vida nem sempre é como desejamos que seja. Querer não é poder. Não precisar se preocupar com suas contas, não significa ter paz. Poder viajar o mundo, não significa se divertir. Resumindo, ter dinheiro não significa poder tudo, ser feliz. A verdade é que, quanto mais dinheiro você ganha, menos liberdade você tem.
Tudo piora quando esse montante que você arrecadou, não é só seu, não foi você quem construiu, mas infelizmente herdou. Então jogam a responsabilidade para cima de você, fazem isso desde quando você é muito jovem para sequer entender o significado de riqueza. Modelam você para que você seja exatamente o que eles querem que você seja. Usurpam sua vida, e esperam que você aceite bem tal coisa e ainda agradeça, afinal, meio mundo daria qualquer coisa para estar no seu lugar.
Tudo bem você escolher outro caminho, seguir outra direção, ser quem você quer ser, se, seus pais não forem loucos. Caso contrário, não existe mesmo uma saída. Okay, sou adulta, vacinada, já não sou mais tão jovem, muito menos ingênua. O que leva nos leva a pergunta: por que eu não dou um basta nisso?
A resposta é simples: porque não é possível. Posso largar meu trabalho, posso me afastar da rede, posso me mudar para o outro lado do mundo. Sim, posso tudo isso. Mas aonde quer que eu vá, não vou conseguir me firmar, não vou conseguir ter alguém, não vou conseguir ter uma vida normal. Minha mãe louca jamais me deixará em paz. Se eu não posso ser feliz com ela, ou para ela, então não serei feliz com mais ninguém. Palavras da mesma, segundos depois de eu fazer um aborto.
Ela destrói tudo, tudo que atrapalhe seus planos, os planos que tem para a família, para os negócios. Ela é impiedosa, mesquinha, cruel. Cora não se importa com nada, tudo que ela quer, é mais e mais poder, e quanto mais o tem, mais louca, mais desumana fica.
Quando era mais nova, mais bobinha, sonhadora, ingênua. Quando acreditava naquelas frases clichês, que diziam que o amor pode vencer qualquer coisa, decidi bater de frente com ela. Tal decisão resultou em uma morte e um aborto. Desde então, aprendi que não, o amor não pode vencer tudo, a não ser que você esteja em Hollywood, dentro de um cenário de algum filme, caso contrário, não tente, não vale a pena.
Sentimentos, qualquer tipo de sentimento bom, qualquer coisa que faça você se sentir humana nem que seja por alguns segundos, são letais. São como armas nas mãos de quem controla sua vida. E é nesse ponto que voltamos a Srta. Swan. Ela e Janis no dia anterior, elas me fizeram fazer isso, me fizeram sentir bem, leve, humana, e não, não foi coisa de segundos. Foram horas.
Primeiro embarquei na felicidade de Janis e no quanto um parque de diversões e um urso de pelúcia, podem fazer uma criança imensamente feliz. Eu não sei, acho que não existe nada mais verdadeiro do que o sorriso, a felicidade de uma criança. Gosto dela, gosto de jeito como me sorri, como chama meu nome, gosto do jeito como conversa comigo, gosto quando se joga para cima de mim e me abraça, gosto até da sua insistência.
Não bastasse a filha, tem também a mãe. E se Janis é insistente, a mãe dela é um milhão de vezes pior. Seria hipocrisia minha dizer que me sinto indiferente quanto a ela. A verdade, a triste verdade é que simpatizo com ela. Apesar de conhece-la há pouco tempo, apesar de termos começado mal, eu realmente simpatizo com ela e gosto de sua companhia. Ainda não acredito que a deixei me manipular, me convencer a ir naquele brinquedo suicida. Acredito menos ainda que me convenceu a abrir os olhos, levantar as mãos, “rir na cara do perigo”, como diria ela. Não bastasse isso, ainda me convenceu a deixar o trabalho de lado, e jantar. Há quanto tempo não deixava o trabalho de lado para apenas jantar? Não faço ideia.
Resumindo, mãe e filha que caíram na minha de paraquedas, trouxeram no dia anterior, os sentimentos bons de volta. De tanto insistirem, me deram algumas horas realmente muito boas.
O problema é que ambas não se contentam apenas com algumas horas boas, não, elas querem mais. Elas querem dias, querem o que eu não posso dar, na verdade, o que eu devo dar. Não devo fazer isso, não se não quero correr o risco de que Cora, saiba sobre elas. Tudo bem, de certa forma ela já sabe, mas tenho certeza que ficarão bem, caso eu não esteja envolvida.
Não quero torna-las armas nas mãos da minha mãe, sinceramente, acho que não suportaria viver tudo isso outra vez. Ou seja, o certo a fazer, é continuar sendo a Regina indiferente.
Só que, infelizmente as vezes, o corpo não obedece a mente, certo? Passei a tarde toda tentando enviar algumas mensagens para a Srta. Swan, para cancelar a tal corrida, mas meus dedos simplesmente ficaram parados, enquanto meus olhos se perdiam no teclado virtual. Resolvi então, deixar para avisa-la assim que chegasse em casa, mas antes de ir para casa, passei em uma das lojas esportivas existentes no hotel, e saí de lá pronta para correr meia maratona. Todo o trajeto foquei na minha casa, mas guiei o carro até o endereço que a Srta. Swan me passou e aqui estou. Estacionada, a esperando chegar. Tentando me convencer a ir embora, enquanto meu corpo continua completamente imóvel, resistente, incapaz de colaborar.
Pulo de susto, quando duas batidas no vidro, me tiram dos meus devaneios. Ao olhar para o lado, vejo o meu problema em carne e osso.
— Boa noite, amiga! – Me saúda ao abrir a porta do carro para mim. Tem um sorriso largo no rosto, o que deixa seus olhos quase fechados. Acabo esboçando um sorriso ao me deparar com tanta empolgação.
— Boa noite! – Resmungo ao sair do carro.
— Uau! Você também é uma mulher Adidas! – Aponta para minhas roupas. Ainda não entendi como, mas em questão de segundos ela sabe exatamente as roupas que uma pessoa está trajando. – Estamos combinando. – Alguma coisa nela, coisa essa muito irritante, me faz revirar os olhos constantemente.
— Acho que deveríamos comemorar tamanha coincidência. – Debocho.
— Sério? – De novo me vejo na obrigação de rolar os olhos.
— Não, Srta. Swan. – Esclareço. – Adidas é uma marca conhecida quando se trata de prática de atividades físicas, não acha? – Ela dá de ombros.
— Você poderia preferir Nike, Puma, Reebok, etc, etc. Mas assim como eu, prefere Adidas. – Balanço a cabeça negativamente.
— Tenho roupas de todos esses que você mencionou. – Na verdade não tenho, mas só para contraria-la resolvo dizer que tenho.
— Chata! – Resmunga e me mostra a língua. – Dureza sua vida de mulher rica, não é mesmo? – Resolve me provocar.
— Na verdade, não é rica, milionária seria a palavra correta. – Decido jogar seu jogo. Ela faz vomitar, então ri.
— Me lembro de certo alguém se gabando ontem à noite, sobre o fato de não ser metida. – Concordo.
— E não sou, caso fosse, não estaria aqui, estaria? – Volta a rir e resolve concordar comigo.
— Não, você não estaria. Você estaria em uma academia de gente milionária, com pelo menos dois personal trainers de pessoas milionárias. Conversando sobre... – Junta as sobrancelhas em sinal de dúvida. – Sobre o que você conversa com seu personal trainer? – Dou de ombros.
— Sobre nada. Ele é pago para me instruir, não para conversar comigo. – Minha resposta a faz rir alto.
— Deus! – Levanta a cabeça, mirando o céu. – Olha a mulher que você me mandou. – Aparentemente reclama com ele e reclama por uma coisa que de fato não aconteceu. Se Deus me mandasse para alguém, esse alguém com certeza não seria a Srta. Swan, seria? Não, não seria.
— Autoescola. – Ela resolve desistir de procurar por Deus e me encara. Pelo jeito que me olhar, tenho certeza que não entendeu o que eu quis dizer. – Não é Deus o culpado por você me conhecer, Srta. Swan. Autoescola, culpe eles e o mal ensinamento que lhe deram. – Mais uma vez em menos de cinco minutos, ela ri.
— Você sempre tem uma resposta para tudo? – Afirmo.
— Sempre. – Sou enfática.
— Okay, desisto. – Levanta as mãos em sinal de rendição.
— Ótimo! Então já podemos fazer o que viemos fazer? – Balança a cabeça afirmando.
— Podemos, mas antes eu tenho uma entrega para você. – Avisa, me dá as costas e atravessa a rua. Senta-se sobre o banco que lá está e bate com a mão direita sobre o mesmo, me convidando a sentar ao seu lado. Com as mãos na cintura, balanço a cabeça em negativo, suspiro, e sem outra opção, tudo que me resta fazer é ir atrás dela.
— Srta. Swan, vamos logo com isso, já é quase meia noite, tenho que trabalhar amanhã de manhã. – Aviso ao sentar-me.
— Não, você não tem. – Me responde despreocupadamente. – Como você mesma jogou na minha cara, você é milionária, além de ser milionária, você é a chefe. Ninguém vai reclamar se você não for, ou se chegar atrasada. – Cora, gostaria de ver a reação da Srta. Swan, se falasse com a minha mãe por cinco minutos, ou se apenas a conhecesse.
— Se eu tivesse esse tipo de pensamento, com certeza não seria milionária. Provavelmente não seria nem rica. – Opino.
— Talvez você fosse uma prostituta suja e vulgar, assim como eu. – Debocha e eu acabo sem saber exatamente o que falar.
— Não foi o que eu quis dizer. – Respondo na defensiva.
— Eu sei. – Sua mão empurra meu ombro. –Só quis deixar você sem graça, é meio difícil fazer isso, então não posso perder as poucas oportunidades que tenho. – Balanço a cabeça em reprovação. – Acho que desacelerar um pouco, não vai fazer de você menos milionária, mas não vou discutir isso com você. Além de inflexível, não tem nem álcool nas suas veias, então sem chances de eu lhe convencer de algo. – Parece estar pensando em voz alta. – Olha... – Põe a mão no bolso e tira do mesmo um papel dobrado. O banco é grande o suficiente para que cada uma de nós, possa ter um espaço pessoal considerável, mas como pelo que tudo indica a Srta. Swan não sabe o significado de “espaço pessoal”, ela invade o meu, fazendo com que seus ombros toquem os meus e sua perna encoste na minha. – Janis quem mandou. – Me entrega o papel. Acabo sorrindo ao ouvir o nome da menina. Ao enfim desdobrar todas as muitas dobras da folha, meu sorriso cresce, quando meus olhos se deparam com o desenho. – Você, ela, eu, Elvis Regina. – A Srta. Swan aponta para cada desenho palito.
— É, eu meio que deduzi, mesmo sem legenda. – Murmuro enquanto ainda observo a arte da pequena Srta. Swan. – Elvis Regina tem cabelos. – Meu dedo para em cima do “panda”.
— Sim. Janis achou injusto só você ter cabelos escuros, então ela resolveu que Elvis Regina lhe faria companhia. – Rio ao ouvir a explicação.
— Me parece justo. – Comento ainda rindo. – E o motivo desses corações ao redor de mim? – Peço explicação.
— Ela gosta de você. Ela é algo como, time da Regina. – Junto as sobrancelhas, tiro os olhos do desenho e encaro a Srta. Swan.
— Em inglês, por favor? – Não faço ideia do porquê, mas ela me sorri sem graça.
— Digamos que... você não gostaria de saber. – Responde também sem graça. Não preciso pensar muito para entender o significado do tal “time da Regina”. Acabo me lembrando do dia anterior, quando a menina me perguntou sobre eu gostar de meninas, além de ter sugerido que se gostasse, eu poderia namorar com a mãe dela. Acabo me perguntando o que se passa por aquela cabecinha, me pergunto também o que elas conversam sobre mim, porque a Srta. Swan acabou de deixar claro que elas fazem isso.
— Entendi. – É tudo que respondo. Ela suspira, escorrega o corpo pelo banco recosta a cabeça no encosto, põe as mãos nos bolsos do short e mira o céu.
— Sabe, uma vez ela me perguntava pelo pai todo o santo dia. Até que um dia resolvi falar a verdade. Falei que o pai dela era muito novo, por isso não queria ter uma filha e foi embora antes mesmo de ela nascer. – Volta a suspirar. – Funcionou, ela nunca mais me perguntou sobre ele e eu achei, na verdade, acho, isso muito bom, porque em todos esses anos, Neal nunca, nunca me procurou, nunca quis saber sobre Janis. – Tira os olhos do céu, e os prende em mim. – Mas desde que lhe contei sobre “gostar de meninas”, ela passou a me cobrar uma outra mãe, e isso quase me faz sentir falta da época que ela me questionava sobre o pai. – Me olha como se de repente, eu pudesse ajuda-la, como eu não posso, como não faço ideia do que falar, fico em silêncio, o que a faz tirar os olhos de mim e volta a prende-los no céu. – É complicado. – Murmura.
— Imagino que seja. – É tudo que posso dizer.
— O que você faria, se estivesse no meu lugar? – Penso um pouco a respeito. Entre contatar o pai idiota e me relacionar com alguém só para fazer a vontade de um filho, provavelmente eu optaria pela opção de sair correndo.
— Eu acho que... – Dou de ombros. – Não sei. É uma pergunta difícil. – A vejo sorrir.
— Você mesma me disse que tem uma resposta para tudo, sempre. – Reviro os olhos ao ouvir tal coisa.
— Eu conversaria com ela, explicaria que para você arrumar uma outra mãe para ela, você tem que gostar dessa pessoa, tem que confiar, ter algumas coisas em comum... criar uma relação. Você não pode simplesmente colocar alguém na vida dela, só porque ela quer uma outra mãe. – Opino.
— Você acha que eu já não fiz isso? – Solta com o ar. – Você sabe, ela é uma criança, então acha que as coisas podem ser do jeito que ela fantasia. E bom, no mundo fantástico de Janis, ela já tem uma escolhida e nós três junto com Elvis Regina e Leão, viveremos felizes para sempre. – Ao deixar tal coisa subentendida, volta a olhar para mim. Não sei se é pelo o que acabei de ouvir, ou se é por ter consciência de quem é essa “escolhida”, o fato é que meu coração está batendo mais rápido, muito mais rápido do que realmente deveria. Pouco à vontade, tiro os olhos da Srta. Swan e miro um ponto qualquer em minha frente. – O que ela definitivamente não consegue entender, é que não depende só de mim. – Tal frase soa tão baixa, que não tenho certeza se ouvi direito, então para o bem de todo o conjunto, resolvo que não, não entendi.
— Não quero me meter... – Antes que consiga concluir o pensamento, ela me interrompe.
— Por favor, se meta. – Pede.
— O pai dela, você deveria procurar um advogado, e cobrar judicialmente o que ele lhe deve. – Sugiro. Ao espia-la pelo canto dos olhos a vejo negando.
— Não. – É enfática. – De jeito nenhum quero colocar Neal na vida de Janis. O que ele deve para ela, é amor, e isso tenho certeza que ele não tem para dar. Então é melhor deixar as coisas como estão. – Conclui. – Até porque, não quero nem pensar em correr o risco de ter que dividir os finais de semana, ou coisa assim. – Dou um aceno com a cabeça.
— Ele poderia ajudar financeiramente, na verdade ele deve. Eu conheço bons advogados, advogados esses que conseguiriam dinheiro, assim como conseguiriam fazer esse tal Neal, continuar bem longe. – Embora continue olhando para frente, sei que os olhos dela estão fixos em mim.
— Tenho certeza que você conhece, e não estou duvidando da capacidade deles. Não quero parecer orgulhosa, na verdade, agradeço a oferta de ajuda, quer dizer... – Está tropeçando nas palavras, além de parecer surpresa. – Wow! Eu não esperava por isso, você... – Lentamente me volto para ela, que acaba me sorrindo, antes de passar as mãos pelo rosto. – Você é uma boa pessoa, sabe? Embora tente não demonstrar. E isso não é um elogio, é só uma conclusão. – Como não tenho o que dizer, dou de ombros. – Existem pessoas bonitas, que a medida que conhecemos, conversamos, descobrindo, se tornam terrivelmente feias. – Volta a me sorrir. – Você é uma pessoa bonita, que quanto mais eu conheço, mais maravilhosa você se torna. – Sussurra o final da frase, enquanto os seus olhos claros e sempre tão expressivos prendem os meus.
— Isso não é verdade. – Resmungo, enquanto ainda a olho.
— Isso é totalmente verdade. – Nego.
— Você sabe que não, já lhe dei provas disso. Até o início da semana passada, você me odiava. – Como ela aparentemente já esqueceu, resolvo lembra-la. Não sei lidar com esse tipo de situação. Temida, odiada, prefiro ser coisas assim, sei lidar com isso, sei como reagir, o que responder. Já elogios, eles me travam, levam minhas respostas embora, de certa forma, me expões.
— Se eu odiasse Las Vegas, fosse heterossexual, tomasse um porre com alguém que até então, nunca tinha visto, e acordasse nua na cama com esse mesmo alguém, provavelmente teria tido a mesma reação. – Sai em minha defesa. – Até porque, ser uma pessoa boa, não significa aceitar tudo numa boa. Se bem que... – Concluo que vai falar uma grande besteira quando seu semblante sério, torna-se leve e ela esboça um sorrisinho sacana. – Se nós tivéssemos mesmo transado, você teria tido uma noite maravilhosa, consequentemente no outro dia, levaria tudo numa boa. – Balanço a cabeça negativamente enquanto sorrio sem humor.
— Sua modéstia, ou falta dela, é nojenta, Srta. Swan. – Faço cara de nojo, ela ri.
— Pergunte a Tinker se não acredita em mim. – Rolo os olhos.
— Tinker... – Lembro dela andando torto durante o dia e balanço a cabeça em reprovação. Resolvo não falar nada, isso não me interessa. – Esqueça. – Ela volta a rir.
— Ah não! Agora continua. Tinker o quê? – Lhe lanço um olhar de censura.
— Tinker estava andando desconfortavelmente a tarde toda, e embora eu não tenha perguntado o motivo e tenha tentado não pensar sobre o assunto, tenho certeza que isso tem muito a ver com você. – Ela gargalha, faz isso por um tempo, e bom, quando dou por mim, já estou contagiada, rindo junto com ela.
— Ela mereceu. – Se defende. – Primeiro, ela cancelou o parque, quando deu certeza que iria. Okay, fiquei feliz por ela não ter ido, assim você foi no lugar dela. – Sua sinceridade as vezes me deixa sem graça. – Até aí, tudo bem. Mas ela me fez terminar a programação com Janis antes do previsto. Me fez tirar minhas roupas confortáveis para pôr uma calcinha fio dental, me fez ter que chamar a vó de Ruby, tudo isso para quê? Para cancelar comigo de novo. – Balança a cabeça negativamente. – Depois que eu deixei você no elevador, ainda precisei esperar mais de uma hora para enfim ver a rainha. – Suspira. – Tudo bem, eu já tinha superado, porque graças a esse cancelamento, você e eu mais uma vez passamos um tempo juntas. E foi muito divertido, fazia um tempo que não me divertia como ontem à noite. Graças a isso, perdoei Tinker e tivemos uma noite de sexo sem aventura. – Já mencionei o quanto a Srta. Swan pode ser detalhista as vezes? – Mas graças a isso, dormi um total de quarenta minutos. Fui para faculdade, consegui me manter acordada e atenta, voltei, cheguei no hotel e quando pensei em almoçar e talvez dormir uns sei lá... – Da de ombros. – Dez ou quinze minutos, Tinker, apareceu, não me deixou acabar de almoçar, e literalmente me arrastou para o seu quarto, como se estivesse correndo o risco de morrer virgem dali uma hora. Sono me deixa de mau-humor. Fome me deixa de mau-humor. Cancelar comigo em cima da hora me deixa de mau-humor. Resumindo, Tinker teve o que pediu. Duro, com força, sem lubrificante. – Enfim, acaba seu relato.
— Poupe-me, Srta. Swan. – Peço, enquanto me pergunto que tipo de ser humano ela é, já que aparentemente, só dorme quando lhe sobra um tempo.
— Desculpa, só estava explicando o motivo de Tinker estar andando, desconfortavelmente? – Ri com a palavra.
— E sentando com uma certa dificuldade. – De novo ela ri. – Não acha que talvez devesse dormir mais? – Não gosto de jeito nenhum, de me meter na vida de alguém. Não gosto de opiar, de sugerir nada. Afinal, cada um sabe da sua vida. Mas a Srta. Swan, ela não colabora, fala umas cem palavras por minuto, e não sei, quando vejo, já estou interferindo.
— Tenho certeza que devo. – Concorda. — Mas você sabe, o dia continua tendo só 24 horas, acaba me faltando horas, definitivamente, preciso de mais. – Solta com o ar.
— Está com o tempo livra agora, poderia estar em casa dormindo. – Balança a cabeça negando.
— Não, não poderia. Desse jeito eu perderia uma das melhores partes do meu dia. – Mais uma vez na noite, consegue a proeza de me deixar sem graça. – Vamos manter isso, por favor. – Sua mão toca a minha. – Tenho certeza que essa parte dos meus dias, vai ser uma das poucas partes em que vou poder ser apenas eu. Sem a prostituta, sem a estudante, sem a bartender, sem a mãe, sem preocupações e deveres. – Dá de ombros. – Só eu. – Suspira e aperta minha mão. – E você, talvez possa ser só você. Sem o mundo de preocupações que eu sei que você carrega nas costas. – Ela está fazendo, de novo está fazendo. Está falando de mim como se me conhecesse. Isso além de me irritar, me deixa angustiada. Ou talvez me irrite, pelo fato de me deixar angustiada. É impossível não pensar em Cora. A última pessoa que fez isso, que decidiu me conhecer, que me fez esquecer quem eu sou, a que lugar pertenço, está sete palmos debaixo da terra.
— Você não sabe de mim, Srta. Swan. – Resmungo ao puxar minha mão para longe da dela.
— Mas eu gostaria de saber. – Balanço a cabeça negando.
— Não, você não gostaria. – A imagem de Cora continua em minha mente. – Mais do que isso, você não deve. Não tente fazer isso. – Me olha sem entender.
— E por que não? – Ela é com certeza é a pessoa mais insistente que já tive o desprazer de conhecer.
— Porque não. Basta você saber isso. – Suspira, tira os olhos de mim e volta a mirar o céu. Minha resposta parece tê-la entristecido, ou algo assim. – Querer ser sua amiga, não significa que eu possa mesmo ser. – Murmuro e imitando ela, escorrego um pouco o corpo pelo banco, para que possa recostar a cabeça sobre o encosto. – Ouça. – Por que você vai fazer isso Regina? Você sabe que isso vai complicar sua vida. Você sabe que pode expor essa garota. Sabe que sua mãe pode tomar plena consciência disso. – Nós podemos fazer isso. Podemos vir até aqui sempre que possível. Mas esse tem que ser o único momento no dia, em que teremos essa certa, intimidade. Durante o resto do dia você é apenas uma funcionária de um dos meus hotéis. Você não pode me chamar para me desejar bom dia. Não pode andar ao meu lado me falando gracinhas. Não pode me entregar desenhos de Janis, nem me trazer recados dela. E eu não posso arrasta-la para o vestiário para faze-la trocar de roupa comigo. No hotel, ou quando alguém estiver por perto, nós no máximo, sabemos o nome uma da outra. – Exponho todos os termos, torcendo para que ela se irrite e resolva ir. – E antes que você fale alguma coisa, isso não tem nada a ver com o fato de você ser prostituta. – Deixo tal coisa bem clara.
Fica um tempo em silêncio. Deixo meus olhos na noite estrelada, enquanto a espero decidir.
Como já mencionei, ela de algum jeito consegue a proeza de me fazer desacelerar, de me fazer desconectar da Regina responsável e centrada que vive e respira trabalho. Isso é terrivelmente, ruim, errado, irresponsável, mas a verdade é que também é muito, muito bom. Como também já mencionei, uma das únicas pessoas que conseguiu fazer tal proeza, está a sete palmos debaixo da terra, exatamente por esse motivo. O que me faz concluir que não, não sou uma pessoa nada boa, sou só alguém egoísta, que no fundo, bem no fundo, gosta de estar na companhia desse ser falante, atrevido, atirado e engraçado, que atende pelo nome de Srta. Swan.
— Mas tem a ver com o que você não quer me falar, certo? – Murmura a pergunta. Apenas aceno confirmando. – Tem a ver com eu não ter onde cair morta e você ter vergonha disso? – Ao ouvir tamanho absurdo, arrumo minha postura e lhe lanço um olhar nada amigável.
— Poupe-me, Srta. Swan! – Peço. – Por que eu estaria aqui, se me importasse com isso? – Dá de ombros.
— Não sei? Por insistência minha? Não sei se você sabe, mas você é um pouco, muito fechada, então é quase impossível concluir qualquer coisa sobre você. – Concordo.
— Honestamente? – Indago de sobrancelhas arqueadas. Afirma a cabeça e ajeita a postura.
— Por favor. – Pede.
— Primeiro, sei que você sabe, mas para que não haja nenhum tipo de dúvida ou mal-entendido: eu não posso ser a mãe da sua filha, porque além de ser heterossexual, isso jamais, em hipótese alguma, seria possível em qualquer parte desse mundo, caso quiséssemos ter paz e vidas normais. – Balança a cabeça concordando.
— Okay, Janis sobreviverá. – Dá de ombros.
— Segundo, sim, tem a ver com você não ter onde cair morta, mas não, o preconceito não é meu. – Penso em como explicar sem ter que entrar em detalhes. – Sabe quando você vê algum filme onde coisas para você, absurdas, acontecem única e exclusivamente por a pessoa ter muito dinheiro? – Ela afirma. – Acredite, não são coisas tão absurdas assim. Pessoas que fazem de tudo, absolutamente tudo, em prol de seus interesses, suas vontades, seus caprichos, existem mesmo, e são mesmo mesquinhas, perigosas, egoístas. – Seu semblante se torna um pouco assustado, o que me deixa um pouco tranquila, já que concluo que ela não é tão inconsequente como pensei que fosse. – E você é jovem, tem uma filha para criar, uma vida inteira pela frente, ou seja, não quer mesmo se meter com esse tipo de gente, quer? – Algo inédito até então acontece, ela parece não achar sua voz para responder, então só usa a cabeça para negar. – Ótimo, com isso concluo que você é mesmo inteligente, Srta. Swan. – Lhe sorrio. – Para continuarmos com a honestidade, preciso dizer que eu no seu lugar, cancelaria qualquer coisa não profissional que você tem comigo, seria muito mais vantajoso para você, sua filha e a segurança de ambas. – De novo ela nega.
— Não posso. – Sua voz sai falha.
— Por que não? – Junto as sobrancelhas.
— Porque eu já estou envolvida, porque eu gosto de você, porque você precisa de mim. – Suas respostas me deixam um pouco sem jeito.
— Não, eu não preciso. Vivi mais de trinta anos sem você. Dou minha palavra que posso continuar vivendo. – Ela me sorri.
— Você precisa de alguém, Regina, antes que acabe louca. – Arqueia as sobrancelhas. – Sem ofensas. – Sorri sem graça, aparentemente pelo fato de dizer que posso ficar louca. – Tudo bem, você sobreviveu seus trinta e não sei quantos lindos anos, sem a minha ilustre pessoa, e sei que pode continuar vivendo. Mas você precisa de alguém. – Opina. – Como já disse, não sei quase nada sobre você, mas isso, isso eu sei. Sou boa estudando mulheres, faz parte do meu trabalho e é meio que automático. – Explica. — Eu vejo isso nos seus olhos, nas suas expressões, nos seus ombros sempre rígidos. – Sua espécie de acusação, me faz olhar para o outro lado. – Não entenda como uma fraqueza. Apesar de ser linda, cheirosa e inteligente, acho que você é humana, carne e osso, como eu. Então sim, você precisa de alguém. Todo mundo precisa. – Sua mão de novo procura pela minha. – Me deixe ser esse alguém. – Pede. — Você não precisa me beijar para isso. Tampouco precisar ser a mãe que Janis resolveu me pedir. Você não precisa ter um script, não precisa ter defesas, não precisa ter sempre uma resposta pronta para tudo. Você só precisar ser você. Isso é a única coisa que eu quero em troca. – Seu ombro cutuca o meu. – Aceito todos os seus termos, porém, todos os dias quando você chegar aqui, você vai deixar a Regina executiva, profissional, chata e sexy trancada lá dentro daquele carro. – Aponta para o mesmo. – E vai se permitir ser você. Sem regras, sem peso na consciência. Okay? – Não lhe respondo nada. Ainda penso a respeito. – Eu não posso me comprometer, se você não estiver comprometida. Não pode depender só de mim, tem que depender de você também. – Respiro a maior quantidade de ar que consigo e o solto lentamente, enquanto concordo com a cabeça.
— Okay! – Sussurro. Ela sorri. – Mas se um dia eu disser que temos que parar, você precisa aceitar. Sem insistir, sem questionar, sem resistir, Okay? – Revira os olhos.
— Por que você faria isso? – Dou de ombros e volto a olhar em outra direção.
— Para a sua segurança talvez. – Sussurro.
— Eu sei me cuidar, Srta. Mills. – Debocha.
— Essa é minha última condição, Srta. Swan. É pegar ou largar e mais uma vez... – Volto a procurar pelos seus olhos. – Eu no seu lugar largaria. – Me olha por alguns segundos, provavelmente tentando descobrir o que não quis lhe dizer. Por fim suspira e me sorri.
— Devo pôr minhas mãos em você e agarra-la ou se eu só disser que estou pegando já serve? – Sua resposta me faz balançar a cabeça negativamente, lhe sorrir sem humor, puxar minha mão para longe da sua e empurrar seu ombro.
— Cale a boca! – Respondo enquanto tento não rir de verdade.
— Você pode gostar das minhas mãos. – Deixa as duas mãos visíveis e me dá tchauzinho.
— Deixe elas longe de mim, Srta. Swan! – Minha ordem a faz rir alto e me apontar o dedo.
— Você está rindo! – Me acusa.
— Não estou. – Negou.
— Está sim. – Ainda ri.
— Você tem noção da quantidade de bobagens que consegue falar em um minuto? – Lhe questiono.
— Às vezes. – Da de ombros. – Você gosta das minhas bobagens. – Usa um tom de voz convencido.
— É você quem está dizendo. – Faço descaso.
— Não tenho intenção de convence-la a admitir isso, Srta. Arrogante. – Seu ombro esbarra no meu. Acaba me arrancando um meio sorriso. – Olhe... – Aponta para a folha em minhas mãos. – Esse é Leão, o único membro da família que você ainda não conhece. – O Leão do desenho se resume em uma bola verde, vermelha, amarela, azul e laranja. E por um acaso, ele está ao meu lado. – Quando ele está feliz, ele fica colorido. Janis disse que algo como: “ele ficou feliz em conhecer Regina”. — De novo acabo sorrindo.
— O que ele é exatamente? – Questiono enquanto ainda olho para o tal Leão.
— Um camaleão. Acho que eu já falei dele para você, lembra? – Tenho uma vaga lembrança do dia em que me ligou e ouvi o amigo extravagante dela gritar, segundo ela por culpa de um camaleão.
— Ew! Vocês têm mesmo um camaleão. – Concluo.
— Claro que temos e não faça ew, para ele. Leão tem sentimentos. – Aparentemente está me dando uma bronca.
— Não costumo me preocupar com o sentimento alheio, Srta. Swan. – Ela ri.
— Eu sei. – Concorda. – Você tem algum bicho de estimação? – Nego.
— Nenhum.
— Eu posso ser seu bicho de estimação, se você quiser. – Ao ouvir tal absurdo, tiro os olhos do desenho e a encaro.
— Qual o seu problema? – Minha pergunta a faz gargalhar.
— Você pode me botar um nome. – Descrente, balanço a cabeça.
— Como, Jane? – Ironizo e ela afirma.
— Pode ser. Posso dar a pata, deitar, rolar, lamber, morder, chu... – Resolvo interrompe-la, antes que piore.
— Basta, Srta. Swan. – Ela ri.
— Posso fazer isso que você está pensando também.
— Sabe o que estou pensando? – Abre a boca para responder, mas não deixo. – Que você poderia ficar quieta por sei lá, um minuto? – Sugiro.
— Você não quer que eu fique quieta. – Reviro os olhos.
— Sim, eu quero. Você não me deixa pensar. – Reclamo.
— Okay, um minuto, eu posso fazer isso. – Concorda e então faz silêncio. Olho para a rua praticamente deserta, para o meu carro estacionado no outro lado, as lojas fechadas e de repente tenho a impressão de que não estou em Vegas. Essa cidade não combina em nada com calmaria e tranquilidade, mas como posso concluir, é possível encontrar essas coisas por aqui.
Ao lembrar do que exatamente vim fazer, balanço a cabeça em reprovação. A tal corrida, ela foi completamente esquecida. Poderia abrir a boca e cobrar a Srta. Swan, não poderia? Mas no momento, não quero correr, me sinto bem, estando exatamente onde estou.
Volto a olhar para o desenho que seguro, de novo para o camaleão. O lanço um olhar desconfiado, e concluo que não, não quero conhece-lo. Além de ser aparentemente asqueroso, provavelmente ele fala também, já que mora na mesma casa de dois papagaios.
— Ele está muito perto de mim. – Resmungo. – Eu não estaria sorrindo desse jeito, caso um camaleão estivesse assim tão próximo.
— Com camaleão ou sem camaleão, você não estaria sorrido desse jeito. – Cantarola a provocação. – Desse jeito. Sem chances. Provavelmente você nem tem os dentes de trás, por isso evita rir. – Continua provocando.
— É uma pena eu não me importar com o que você acha. – Rebato.
— Você vai gostar dele. – Nego.
— De jeito nenhum.
— Vai sim. – Garante. — E aposto que ele vai gostar de você. Ou talvez ele fique com medo. Ou talvez aconteça as duas coisas, igual aconteceu comigo. – Continua tagarelando e tagarelando. Me limito a ouvir e rir das besteiras que fala, enquanto tento não pensar o quanto me sinto bem, estando aqui.
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