Notas iniciais
Oi, todo mundo!!! Primeiramente, quero pedir desculpas por ter demorado horrores, sei que vocês ficam com uma vontadinha de me matar. Perdoa, gente. Segundamente, vocês sabem que eu demoro, mas não desisto, né? Agradeço a todas vocês que deixaram review no último capítulo e a todas que não desistiram. Muito obrigada, vocês são foda. Com certeza as melhores leitoras. Sem mais delongas, vamos voltar para esse nosso mundo paralelo. Ah, e o que está em itálico é flashback.

Contratos, eu odeio assina-los. Na verdade, odeio lê-los. Muito embora tal função seja designada a uma pessoa especifica, que aliás, ganha muito bem para lê-los e analisa-los, é incrível a capacidade que tal pessoa possuí de deixar passar algo importante. Algo que lá na frente, pode me causar dor de cabeça, me deixar profundamente irritada, e não menos importante, fazer com que venhamos a lucrar menos. Por isso, mesmo que eles já tenham sido lidos, relidos e analisados, preciso revisa-los. Presto o máximo de atenção possível em cada cláusula, cada palavra, cada mínimo detalhe, para que essas palavras bonitas, escritas em um inglês formal e para algumas pessoas, difícil, não me tragam prejuízos futuros.

A verdade é que nunca tive nenhum problema para executar tal serviço, sempre consegui ter o foco e atenção necessários que tal coisa exige. Porém hoje, esse sempre está deixando de existir. No presente momento, estou irritada comigo mesma, na verdade, irritada com minha falta de atenção. Ou, para ser ainda mais sincera, irritada com a Srta. Swan. É impressionante, mesmo estando do outro lado do país, ela tem a capacidade de conseguir me aborrecer.

Entre uma lida e outra desse maldito contrato, minha atenção, meu foco, meus pensamentos, acabam se dispersando para meu celular, bem visível em cima dessa mesa. Busco um sinal, um toque, um vibrar, uma luz, qualquer coisa que me avise que chegou uma mísera mensagem, mas até agora, nada. Perdi a conta de quantas vezes peguei a droga desse telefone para checar se estava com rede, ou se o wi-fi estava funcionando. Todas as vezes constatei que não, o problema não é com o meu celular.

A última mensagem que a Srta. Swan me mandou, foi hoje no período da manhã, mais precisamente as 7:03hrs. Me desejou bom dia, e desde então não falou mais nada. Confesso que além de me irritar profundamente, isso me preocupa um pouco, já que sempre que pode, ela me enche de mensagens, e quando está muito ocupada na parte da manhã, seu horário de almoço, ela intercala entre comer e falar comigo. E depois quando sai do hotel, fica enchendo meu celular de mensagens, até que eu largue o que estou fazendo para responde-la.

Enfim, por algum motivo por mim desconhecido, isso não acontece hoje. Já são 20:15hrs da noite, e nada de a Srta. Swan, me mandar um mísero sinal de fumaça. Então, cá estou eu, divagando novamente, perdida mais uma vez, nas cláusulas desse contrato. É a sétima vez que vou precisar começar a lê-lo de novo.

Irritada, jogo as folhas em cima da mesa, pego minha caneca de café e emborco o resto da bebida. Embriagar-me de cafeína, acho que é o que me resta fazer.

Levanto a mão para a garçonete, que me acena com a cabeça e logo vem ao meu encontro.

— Mais um, por favor. — Peço a ela, que me sorri.

— Preto, sem leite e sem açúcar, correto? — Com a cabeça eu confirmo.

— Correto. – Talvez se encher a cara de café, a cafeína faça seu trabalho, me desperte, me deixe atenta e me ajude a terminar de ler esses malditos documentos.

Sei que hoje é o último dia do ano, sei que a cafeteria vai fechar mais cedo por esse motivo, sei também que uma cama aconchegante e quentinha me espera em casa, assim como uma garrafa de espumante, caso eu aguente acordada até meia noite. Então tudo que eu mais quero é terminar logo e poder ir para casa, além é claro, de querer que a Srta. Swan, me mande um sinal, nem que seja um "olá, você pode me ouvir? Estou em Las Vegas sonhando com o que costumávamos ser".

Solto um suspiro frustrado e novamente pego meu celular. Ligo a tela, abro o aplicativo de mensagens, e vejo que pelo menos um sucesso eu obtive. O "bom dia!", que desejei de volta, foi entregue e lido. Onde quer que ela tenha se metido, ou, com quem quer que esteja, fazendo só Deus sabe o que, finalmente conseguiu um tempo para procurar um sinal para o celular. Ou talvez ele só estivesse desligado e enfim ela resolveu liga-lo.

Bom, isso significa que ela está viva, certo? Então por que continuo preocupada, e agora, talvez ainda mais irritada? Por que ela visualizou, mas não respondeu? Será que está apenas me ignorando, ou está muito ocupada para digitar pelo menos um "boa noite"?

Seis dias é o tempo que estou em Nova York, nesses seis dias, nós temos nos falado constantemente, porém é sempre ela quem chama, quem puxa assunto, quem faz a conversa fluir. Não porque eu não tenho interesse, ou porque quero ignora-la, mas porque não sei com falar, com prosseguir. Então deixo que ela conduza. O fato é que, por um motivo por mim ainda desconhecido, como sabemos, hoje não está acontecendo.

Então mesmo irritada, resolvo dar esse passo, e tentar uma comunicação.

"Você está bem?" É o que eu digito. Olho para mensagem antes de enviá-la, tentado decidir se devo mesmo fazer isso, ou não.

— Com licença. — A garçonete está de volta com o meu café. Isso faz com que eu envie logo a droga da mensagem, e largue o celular em cima da mesa. Ela deposita minha caneca sobre a mesma, me sorri e fica ali, parada, esperando não sei o quê.

— Algum problema? — Lhe questiono.

— Desculpe incomoda-la. — Parece um pouco sem graça. — Meu patrão pediu para avisa-la que devido a data do ano, hoje ficaremos abetos só até as 21:30hrs. — Fala de um jeito acuado, como se de repente, eu fosse lhe morder por causa disso.

— Tudo bem, em menos de uma hora eu termino aqui. — Ela balança a cabeça concordando, pede licença e se retira. Só então levanto a cabeça e presto atenção nas pessoas, ou falta delas, nesse lugar.

Tirando os funcionários, e outra alma solitária, no lado oposto da cafeteria, eu sou a única pessoa aqui presente.

Infelizmente, não tenho tempo de pensar sobre o assunto, de me sentir excluída, triste, sozinha, abandonada. O barulho do sino, chama minha atenção para porta, por onde entra Zelena. Junto com ela, entra o ar frio e congelante, que está fazendo na cidade no dia de hoje. Por último e sem importância, entra sua sombra, também conhecido como seu segurança, que ela gosta de chamar de Robert.

Como o lugar está vazio, não preciso fazer absolutamente nada para que me encontre. Zelena deseja boa noite para uma das garçonetes, aponta com a cabeça para mim e sorrindo, vem praticamente saltitando ao meu encontro.

Não nos vemos desde o dia sucessor ao do evento em Las Vegas. No mesmo dia que cheguei em Nova York, ela viajou para Dubai, e graças aos horários dos nossos voos, não conseguimos nem nos encontrar no aeroporto. Uma coisa muito boa nisso, é que Cora, também embarcou nessa viagem. Já a coisa ruim, é que ela provavelmente também está de volta.

— Você pode me dizer de onde está vindo todo esse frio? — Questiona ao me alcançar. Está encolhida, enquanto esfrega as mãos pelos braços, tentando se aquecer. Seus lábios gelados tocam a pele quente do meu rosto, o que acaba me causando frio também.

— Os meteorologistas explicaram na TV, mas não prestei muita atenção. Só sei que está fazendo mais frio aqui, do que em Marte, que fica muitas vezes mais distante do sol, do que a terra. — Foi a única coisa que minha atenção capturou da TV, enquanto fazia meu desjejum hoje de manhã.

Zelena puxa uma cadeira, e senta-se ao meu lado. Seus braços se agarram ao meu, em busca de calor para aquece-la.

— Tenho que providenciar uma passagem para Marte, então. — É o que me responde, enquanto pega do meu café e emborca. — Ew, falta álcool nesse café. — Reclama ao devolver a caneca para mesa, enquanto faz cara de quem não gostou.

— Zelena, cafés são sem álcool. Aliás, estamos cansadas de saber que você precisa ficar longe de tudo que contém álcool. — Ela me rola os olhos.

— É só um café, mamãe! — Reponde ao levantar o braço, chamando a garçonete.

— Srta. Mills. — Robert, seu segurança no qual eu poucas vezes ouvi a voz, a chama. Como Mills também faz parte do meu nome, levanto a cabeça para encara-lo. Com isso concluo que ele estava mesmo se referindo a Zelena. Eles trocam um olhar significativo, que só é interrompido pela garçonete.

— Um cappuccino com chantilly, por favor. — Ao ouvir o surpreendente pedido de algo sem álcool, eu olho para o segurança, para Zelena e para o segurança de novo. Ele fica desconfortável com tal coisa, e resolve olhar para um ponto qualquer. — O que foi? — Zelena questiona comigo, assim que a mulher se vai.

— Eu quero falar com você... — Olho para seu segurança. — Em particular. — Deixo claro.

— Robert, você pode escolher uma mesa. Peça um café. – Pede gentilmente ao homem.

— Na verdade, Sr. Red, eu vou lhe pedir para que espere Zelena no lado de fora, junto com meu segurança. — Interrompo. — Pode sim pedir o café, mas por favor, nos dê essa privacidade. — Ele assente com a cabeça.

— Você está louca? Lá fora está congelando. — Reclama comigo, saindo em defesa do segurança.

— Tenho certeza que ele vai sobreviver. É preparado para o perigo. — Garanto a ela. — O frio não lhe vence facilmente, vence, Sr. Red? — Questiono. As sobrancelhas arqueadas, enquanto volto a olhar de Zelena para ele.

— De jeito algum, Srta. Mills. — Ah sim, tenho certeza que o tal Robert e Zelena são no mínimo, íntimos. O jeito sem jeito como ele olha e fala comigo, entrega isso.

— Viu? — Questiono com ela. — Não há nada com o que se preocupar. Você vai ter seu segurança forte e saudável de volta, talvez apenas um pouco mais gelado. — Falo com deboche, e pela primeira vez na vida, Zelena não me responde nada. Apenas troca outro olhar com o homem que pede licença e se retira.

— Você não precisava tê-lo expulsado daqui. — Reclama comigo ao soltar-se de mim.

— Desde quando você se importa com isso? — Pego minha caneca e dou um gole no meu café. A sensação do líquido quente descendo por minha garganta, aquecendo todo meu ser, é reconfortante.

— Desde quando existe um frio de congelar lá do lado de fora. — Aponta.

— Tenho certeza que quando entrou, você viu o meu segurança no frio congelante, lá do lado de fora, e não falou uma palavra sequer para defender que viesse para dentro. — Abre e fecha a boca, com certeza não encontrando respostas para meu argumento. — O segurança, Zelena? Sério? Que coisa mais clichê. — Volto a bebericar meu café.

— Não sei sobre o que está falando. — Está sem graça. Seus dedos brincam com o zíper da sua jaqueta.

— A menos que seguranças possuam o poder de te convencer a não beber nada alcoólico, e que você troque olhares significativos com todos eles, como trocou com esse, você está com toda certeza, envolvendo-se com esse aí. — Acuso.

— Não estou. — Sabe quando uma criança é pega no flagra, e para se defender, diz que não fez? Zelena acaba de se comportar igual a uma. Tal coisa me faz rir. Ficamos em silêncio enquanto a garçonete serve seu cappuccino. Assim que ela se retira, resolvo dar continuidade ao assunto.

— Me diz que ele não fala com você quando Cora está presente, por favor. — Agora falo sério.

— Claro que não. Acha que eu sou assim tão ingênua? — Me responde. — E nós não temos nada. Eu só fiquei bêbada naquela noite lá em Las Vegas, ele foi legal comigo. No dia seguinte eu agradeci por isso, e nós começamos uma amizade, ou algo do tipo. — Tenta explicar.

— Amizade de que tipo? — Indago.

— Nós conversamos sobre amenidades, ele me fala sobre a vida dele, eu conto algumas aventuras, as vezes ele janta lá em casa. Ocasionalmente, nos beijamos. – A última frase é resmungada. Acho graça do seu jeito desconfortável.

— Isso que eu chamo de amizade sincera. — Debocho.

— Idêntica a que você tem com a namoradA de Tinker. — Rebate prontamente. Como se de propósito, como se combinado, como se o acaso quisesse rir da minha cara, Emma resolve responder a minha mensagem nesse mesmo segundo.

"Boa noiteee!" É a primeira.

"Sentiu saudades?" É a segunda.

"Espero que sim, porque eu quase morri de saudades". É a terceira.

Antes que apareça uma quarta, resolvo agir. Pego o celular rapidamente e o jogo para dentro do bolso do casaco.

— Você mudou a senha desse celular, não mudou? — Minha irmã questiona. Agora ela quem parece se divertir.

— Mudei. — É tudo o que lhe respondo.

— Ótimo. Continue assim inteligente, e pelo amor de Deus, configure para que essas notificações não apareçam mais na tela principal. — Pede. — Pelo amor de Deus, Regina! Desde quando você resolveu gostar de mulher? — Emenda.

— Desde quando você resolveu gostar de seguranças? — Acuada, falo a primeira coisa idiota que me vem à cabeça.

— A única coisa de errado com ele, é o fato de ser segurança. Ou seja, pobre, obviamente. – Rebate.

— Não existe nada de errado com Emma, absolutamente nada. — Minha resposta a faz rir. O fato é que nem eu acredito no que falei, mas não deixo que ela perceba.

— Além de ser igualmente pobre? Além de ser mulher? Além de ser prostituta? Além de ser namorada da sua melhor amiga? Tirando essas coisas, provavelmente não tem mesmo. – Fala com deboche.

— Ex namorada, ex prostituta. — A corrijo.

— Ótimo, agora falta você resolver apenas dois problemas. Faça com que ela se torne milionária e vire homem. – Agora usa sarcasmo. — Aliás, se você fazer com que ela se torne milionária, talvez mamãe perdoe o fato de ela ser mulher, mas só talvez mesmo. — O jeito como fala essas coisas, me irrita.

— Desde quando ficou assim preconceituosa? Está andando muito com Cora, cuidado, talvez seja contagioso. Aliás, sei que a mulher que você chama de mamãe, também gosta de usar os seguranças para prazeres carnais. Então talvez você já esteja contagiada. – Dinossauro feroz, não é disso que a Srta. Swan, me chama? Resolvo fazer jus ao apelido.

— Pelo menos esses seguranças não são namorados, ou ex namorados, das nossas melhores amigas. – Não se intimida, até porque, sendo minha irmã, Zelena também faz parte da família dos Dinossauros.

— Namorada que só foi tal coisa, porque estava ganhando dinheiro para ser. — A corrijo.

— Isso não muda o que Tinker sente. Você sabe melhor do que eu. — Irritada, aponto com o indicador para a porta.

— Vá embora, Zelena. Pegue seu segurança e volte para Dubai, vá para a Marte, para o inferno. Só saia daqui. — A expulso, o que chama atenção das poucas pessoas que estão no local. Infelizmente, ela não faz. Continua exatamente onde está, me ignora e começa a beber sua bebida estúpida.

Como aparentemente ficará aqui, resolvo então que eu quem vou embora. Os incomodados que se retirem, não é isso? E no momento estou bastante incomodada.

Começo a juntar os papéis, os guardo na pasta em que estavam e coloco na bolsa.

— Eu não sou sua inimiga. — Me fala.

— Tampouco é minha amiga. — É o que lhe respondo, enquanto coloco minhas luvas estúpidas. Faço menção em levantar do lugar onde estou, mas sua mão segura meu pulso com firmeza.

— Eu só preciso de um tempo para digerir. — Começa. — Quer dizer, eu não sou preconceituosa, ou achava não ser. O fato é que quando é com alguém próximo, as coisas mudam um pouco. — Tenta se explicar. — Eu via você com Daniel, e você o amava tanto. E depois eu vi muitos homens durante todos esses anos, desejando você. E mesmo que você e Robin não combinem, eu estava acostumada com vocês dois juntos. – Balança a cabeça negativamente, enquanto parece tentar organizar os pensamentos. — E agora chegou esse furacão, que você chama de Srta. Swan. – Solta com ar.

— É novo para mim também. — Admito, a voz baixa, ainda irritada. Não tenho certeza se quero me abrir. — Eu não escolhi, Zelena. – Sei que Deus sabe que não. — Eu só estava triste, deprimida, depressiva, trancada dentro de mim. De algum jeito, ela entrou, e quando percebi, já tinha acontecido. — Suspiro ao pensar sobre. — Eu perco o sono a noite pensando nisso. – Confesso. — Ela é mulher, foi prostituta, Tinker a ama. E não bastasse todas essas coisas, tem Cora. – Lamento. — Sei que não devo, mas eu não consigo. Eu gosto dela, ela deixa tudo mais leve, me faz ter vontade de abrir os olhos de manhã. Então me diz, como isso pode ser errado? — Tiro os olhos da caneca de café e a encaro. Seus olhos ficam presos aos meus, não sei se está tentando me entender, ou só não sabe o que dizer. — Eu continuo sendo eu, a mesma Regina. — Ela esboça um sorriso e assente.

— Vou lhe contar uma coisa. – Começa. — Sei que nós nunca fomos muito próximas, e seu jeito fechado, colabora bastante com isso. — Concordo com a cabeça. — Mas desde que, por culpa do meu cachorro, o seu gato morreu, e você se machucou. – Aponta para minha cicatriz. — Eu rezei e prometi para Deus, que eu seria uma boa irmã. — Lhe sorrio ao ouvir tal coisa. — Sei que eu falhei, quando Daniel morreu, quando você foi obrigada a abortar, sei que eu falhei. — Discordo.

— Você não tem culpa pela mãe louca que temos, Zelena. – Ela afaga minha mão.

— Eu vi você definhando depois desses acontecimentos. Eu vi você se fechando e fechando. Vi você perdendo sua humanidade, os seus sentimentos. Você não sentia mais, Regina. — Desvio os olhos dos dela. — Lembro que uma semana antes de você ir para Las Vegas, eu estava no Vaticano, e resolvi ir até a Basílica de São Pedro. – Conta. — Você sabe, nossa família nunca foi muito religiosa, eu então, menos ainda. – Sorrimos. — Mas o fato é que eu senti tanta paz naquele lugar, que quando dei por mim, estava lá, sentada em um banco, chorando copiosamente, enquanto falava com Deus. – Ela suspira. — Eu conversei sobre tantas coisas com Ele, você estava incluída. Então eu pedi, pedi para que Ele te ajudasse, para que você encontrasse uma luz, um apoio, um bote salva-vidas. Algo ou alguém, que fizesse com que você sentisse novamente vontade de viver. — Ela me sorri. — Não demorou muito, apareceu essa mulher. – Solta com o ar. — Quando eu cheguei em Vegas que eu olhei para você, eu vi a minha irmã, aquela, de antes das tragédias. Eu vi quem você costumava ser. Eu vejo quem você costumava ser. — Ouvir tal coisa também me faz sorrir. — Claro que eu já fiz uma ligação direta com Deus, e mandei a pergunta "precisava mesmo ser uma mulher?" — Lhe acompanho na risada. — Mas ao mesmo tempo eu fico pensando, papai aturou nossa mãe por toda uma vida, isso já é suficiente para ter ganhado o céu. – Concordo. — Fora tal coisa, ele também foi uma excelente pessoa, nós sabemos que foi. Então ele está por lá, e provavelmente está de acordo com essa mulher na sua vida. – Finalmente conclui.

— Acho que ele está. – Muito embora não consiga visualizar uma aprovação no rosto do meu pai, ao me ver com uma mulher.

— Então eu também estou. – Me diz. — Só preciso de um pouco de tempo para me acostumar com a ideia, mas você tem meu apoio. – Lhe esboço um sorriso.

— Agradeço por você tentar entender. Saiba que você também tem o meu apoio para qualquer coisa, ou pessoa, sendo que não envolva álcool. — Balança a cabeça concordando.

— Eu sei que tenho. — Me sorri. – Agora me fala, quais são os seus planos? — Balanço a cabeça negativamente.

— Eu não sei. Nós não temos nada. — Me lança um olhar duvidoso, o que me faz rolar os olhos. — Quero dizer que não temos um status de relacionamento. Nós ficamos na noite de natal e... — Não me deixa continuar.

— Espera. Você não estava com Robin na noite de natal? Eu vi uma foto que ele publicou no Instagram.

— A foto foi feita no dia anterior. Robin é gay, ele passou o natal com o namorado. — Seus olhos crescem.

— ROBIN É O QUÊ? — O jeito alto como questiona, chama atenção dos funcionários do café.

— Não quer chamar a TV para falar sobre isso, Zelena? — Esbravejo.

— Desculpe. — Agora quase sussurra. — Como assim, Robin é gay? — A palavra gay sai sem voz.

— Sendo. – Dou de ombros. — Se sentindo atraído por outros homens. Gostando de pênis ao invés de vagina. Gay. G A Y. — Soletro a palavra.

— Ew! — Rolo os olhos para a cara de nojo que ela faz. — Você já pensou em quantos... C U S — Ela também resolve soletrar. – Peludos, o pênis dele já esteve? – Indaga e me faz visualizar algo que não precisava. — Aí ele vem e introduz o negócio na sua pepeca. Arrg!!! Você já fez um exame para ver se não contraiu nenhuma DST? — Pelo jeito como me olha, está bastante preocupada.

— Você acha que todo gay, tem DST? – Questiono com incredulidade.

— Eu não sei. Nunca saí por aí perguntando. Mas eu sei onde eles enfiam o negócio. E sei que se o parceiro não fez que a chuca, o negócio pode se sujar de fazes, e isso gera doenças. — Me responde. — Você sabe, quando eles entraram no buraco sem camisinha, se o parceiro tiver alguma doença venérea, o outro vai contrair sim. É um ciclo vicioso. — O jeito como fala é totalmente preocupado. Parece estar prestes a levantar-se daqui, para me arrastar até um médico.

— Isso se chama preconceito.

— Isso se chama realidade, é só você pesquisar no Google. — Me faz rolar os olhos.

— Okay, Zelena. Eu não entendo muito de sexo gay, sou nova nisso, e meu quesito não envolve essas coisas. O fato é que, você não precisa se preocupar. Não acho que Robin seja o que insere o pênis em algum lugar... — Ela não me deixa continuar.

— Mas o rabo que recebe, também pode ser contaminado. — Me faz rolar os olhos.

— Não acho que ele tenha algum tipo de DST, mas de qualquer jeito, nós sempre nos relacionamos com camisinha. — Solta um suspiro de alivio.

— Menos mau. — Parece falar consigo. — Robin gay, como assim? Agora sempre que olhar para ele, vou imaginar ele sentando, e não, não é sentando em uma cadeira. — Continua falando sozinha, quando de repente, me encara. — E você?

— Eu o quê? — O jeito psicopata como me olha, me assusta.

— Você o quê? Você e Emma. Como é... — Ela junta o indicador ao dedo médio, baixa os outros dedos e então esfrega os que sobraram um no outro. — Como é queimar Bombril, pôr as aranhas para brincar, a esfregação, esse negócio todo? — Não sou uma pessoa de ficar constrangida, pouquíssimas vezes isso aconteceu e essa com certeza é uma dessas vezes.

— Pelo amor de Deus, Zelena. — Reclamo e resolvo olhar para outro lado.

— Pelo amor de Deus, o quê? Tenho curiosidade. Sempre que vejo um casal de lésbicas, fico tentando imaginar como é o sexo. E agora eu tenho minha irmã, para me contar em detalhes. Como é? — Insiste.

— Eu não vou falar sobre isso com você. — Respondo. Para me distrair, resolvo beber o resto do café que já deve estar quase frio.

— Por que não? — Bom, existem muitos motivos para eu não falar sobre isso com Zelena, ou qualquer outra pessoa, mas o principal é:

— Porque não transamos. – Respondo com certo desanimo, ao lembrar-me da noite de natal.

Beyoncé — Crazy in Love

Algumas centenas de dólares jogados pelo chão e banco traseiro do carro; dois corpos sobre esse mesmo assento, um sobre o outro, dividindo o mesmo espaço; os vidros do automóvel embaçados; respirações pesadas; corações descompassados, desejo correndo pelas veias; o cheiro dela invadindo minhas narinas; o gosto de seus lábios em minha boca; o rastro dos seus dedos queimando minha pele; o jeito voraz como seus olhos me olhavam; o som da sua respiração; meu sexo pulsando, escorrendo, ansiando por um toque; Beyoncé, sua música lenta e sua voz sensual, praticamente gemendo Crazy in Love...

Queimando, muito embora eu não estivesse pegando fogo, era assim que me sentia, queimando, em ebulição, ardendo de desejo. Maleável, moldável, entregue aquele momento, aquela mulher, assentindo para que ela fizesse comigo, o que bem quisesse.

Meu corpo sedento de desejo, implorando por um contato mais íntimo, tentava de todos os jeitos mostrar que queria mais, que ela podia ir além, muito além. Tudo bem, ela podia continuar com aquela maravilhosa tortura, poderia torturar, demorar o quanto quisesse, mas eu precisava que ela fosse além, que fosse até o fim, que me fizesse gozar. Que transformasse toda aquela sua autopropaganda em realidade.

Gozar, eu precisava, necessitava que ela me fizesse gozar, mas infelizmente, minha vontade de novo não foi atendida, e mais uma vez na noite, ela parou. Os beijos, os toques, as caricias, tudo, absolutamente tudo, foi cessado, ela me deu um sorrisinho, e deitou a cabeça sobre meu peito.

Estava extremamente silenciosa, não me dirigiu uma palavra sequer. Apenas ficou lá, do mesmo jeito, deitada sobre o meu corpo, respirando pesado, me fazendo sentir dor entre as pernas, tamanho era a minha vontade de gozar.

Um pouco irritada, e sem entende porque pela terceira vez na noite, aquilo tinha acontecido, resolvi que precisava questionar.

— Srta. Swan, o que diabos eu estou fazendo de errado? — Minha voz saiu falha. Além de desejo, estava também irritada, tinha vontade de empurra-la para longe, e afastar-me o máximo possível. Que espécie de jogo era aquele afinal?

Ela respirou fundo algumas vezes, seus dedos circulavam preguiçosamente meu braço

— Você não está fazendo nada de errado. — Sua voz saiu tão falha quanto a minha.

— Então por que diabos ainda não tiramos as roupas? — Fui direto ao ponto, o que arrancou dela uma risadinha.

— Você está mesmo pedindo por sexo, Srta. Mills? – Sua pergunta óbvia me fez rolar os olhos.

— Você tem alguma dúvida sobre isso? Estamos parecendo adolescentes virgens, namorando no banco de trás do carro pela primeira vez, que queimam de vontade, mas não sabem exatamente como ir além. – Esbravejo e de novo ela ri.

— Eu não quero transar com você. — — Sua resposta me deixa momentaneamente sem saber o que falar. Como assim, ela não quer transar comigo? Desde que me viu, deixou bem subentendido e entendido o que queria, e agora que pode, não quer?

— O quê? — É tudo que questiono. Ela levanta a cabeça, para que possa me encarar.

— Não foi isso que que eu quis dizer, é claro que eu quero transar com você. Eu quero muito, meu Deus, como eu quero. Meu sexo está doendo tamanha a minha vontade, minha calcinha está um nojo de tão molhada, mas eu não quero que seja aqui, no banco do carro.

— Ótimo, vamos sair desse carro, entrar em casa e subir. Sei que você sabe que a cama que eu tenho, além de ser larga, é bastante confortável. — Me sorri.

— Sempre querendo me levar para o seu quarto, Srta. Mills. — Dá um breve beijo sobre meus lábios. — Você não sabe o quanto essas suas propostas de me levar para a sua cama, me são tentadoras.

— Mas...? — Sei que tem um mas, vejo em seus olhos.

— Eu escolhi esperar. — É o quê? Se tem uma coisa que a profissão dela não permite, essa coisa é esperar. Não que eu esteja com a Emma profissional, mas o corpo é o mesmo, certo? Aposto que não existe uma parte nesse corpo, que ainda esteja esperando. Então o que diabos ela quis dizer com essa frase infeliz?

— O quê? — Minha voz sai mais alta do que eu gostaria, devido minha indignação.

— Eu amo você. — Se declara.

— Ótimo, eu também gosto de você. Agora vamos subir. — Ela ri.

— Eu não disse que eu gosto de você, eu disse que eu te amo, mas vindo de Regina Mills, um "eu também gosto de você", é bastante coisa. — Implica comigo. — Eu não quero que essa noite seja uma despedida, Srta. Mills, e se eu transar com você, é o que vai parecer ser. – Tenta se explicar. — Quero que hoje seja o começo de alguma coisa. Amanhã você vai embora, e se transarmos... não sei, talvez soe com uma aventura, sabe? Aquela coisa de "o que acontece em Vegas, fica em Vegas". Não vamos ter mais nada pendente, você não vai mais ter motivos para voltar. — Balanço a cabeça negativamente, enquanto me pergunto se ela tem a mínima noção do quanto é esse meu gostar. Me pergunto também, se ela prestou atenção em tudo que já lhe falei.

— Não acredito no que acabo de ouvir, Srta. Swan. — Lhe lanço um olhar desaprovador.

— Não fique brava. – Pede. — Olha, se você quiser mesmo, a gente sobe e fazemos o que você quiser fazer. — Lhe rolo os olhos.

— Suas palavras foram broxantes, levaram toda minha vontade de transar com você, embora. — Lhe respondo.

— Eu posso trazer sua vontade de volta. — Não precisava nem me lançar um olhar sugestivo, não existia a menor dúvida de que ela poderia fazer tal coisa.

— Mas eu não quero. – Fui enfática. — Vou ficar pensando que está fazendo isso só porque eu quero, e bom, pelo que eu saiba, eu não estou com a Emma profissional do sexo.

— Não, não pense isso. Meu Deus, é claro que eu quero, eu quero muito. Só não quero mais do que ficar com você de verdade. — Voltei a balançar a cabeça em negativo. A verdade é que Emma não demonstrava o menor medo do que pode lhe acontecer, mas o fato é que eu achei bonitinho o que me disse.

— Okay, vamos esperar então. — Resmunguei a contragosto. — Você acha que com 90 anos, eu ainda vou ter vontade de transar? – Ganhei um tapa no braço.

— Está me dizendo que vou ter que esperar até você completar 90 anos? — Afirmei.

— Estou. Até lá, eu volto a Vegas. – Voltou a me estapear.

— Se não voltar logo, Regina Mills, eu vou até Nova York atrás de você, está me ouvindo? Invado seu escritório, sua reunião, jogo você sobre a mesa e resolvemos ali mesmo. — Arqueei a sobrancelha imaginando tal coisa.

— Não posso dizer que não vou gostar disso, Srta. Swan. – Ganhei um sorrisinho sacana.

— Safada! — Me acusou.

— Sabe, acho que você tem uma imagem muito certinha, sobre a minha pessoa. — Opinei. — Eu posso não ser assim tão certinha entre quatro paredes, Srta. Swan, espero que esse fogo todo que você parece ter, realmente exista. – Ela ficou séria, engoliu em seco, e desviou os olhos. Tive vontade de rir, mas resolvi permanecer séria.

— Desse jeito você me deixa desconfortável. — Resmungou.

— Por quê? Você não se garante? – Provoquei.

— Me garanto. — Respondeu prontamente. — Só não sou uma máquina de fazer sexo. — Continuou.

— Tenho ciência disso. — Lhe assegurei. — Mas além de certa vez, ter ouvido os gemidos que você causou em Tinker, ela fala muito bem sobre seu desempenho, Srta. Swan. Então minhas expectativas são altíssimas. — Continuou desconfortável.

— Do que você gosta? – Resolveu me questionar.

— De gozar. — Respondi prontamente.

— Eu vou fazer você gozar. — A certeza inquestionável que pôs na frase, fez meu sexo pulsar. — Mas na nossa primeira vez, vou fazer com carinho. Aquilo de fazer com amor. — Resmungou com vergonha e bom, me fez rir. Foi bonitinho, eu sei, mas ouvir tal coisa da Srta. Swan, é engraçado.

— Ainda bem que eu não sofro de diabetes. — Fingi cara de nojo, o que a deixou mais envergonhada.

— Está rindo do quê, Palhaça? — Seu jeito sem jeito me faz rir ainda mais.

— Estou rindo de você. — Respondi o óbvio. — Você sabe que não é nada fácil, deixar você sem graça, não sabe? – Me rolou os olhos.

— Eu só deixo você rir de mim, pelo simples fato de eu gostar do som da sua risada. — Sua resposta mexeu com as borboletas do meu estômago. — Vamos esperar? — Questionou ao me beijar.

— Vamos esperar. — Respondi totalmente sem vontade. Minhas mãos prenderam as laterais do seu rosto, e voltamos a nos beijar.

— Terra chamando Regina, Regina por favor, volte. – Zelena estala os dedos na frente dos meus olhos. Balanço a cabeça rapidamente, me livrando das imagens do natal e encaro minha irmã.

— O que foi? – Não sei porquê, mas ela começa a rir.

— Estava tendo uma lembrança pornográfica, safada. – Me acusa injustamente.

— Não, eu não estava. – Afinal, a Srta. Swan, não me deu o prazer de ter lembranças pornográficas. – Só estava pensando. – Conto.

— Uhum... Você estava era em outra dimensão. – Acusa. – No que estava pensando? – Quer saber.

— No motivo por não termos transado. – Resmungo.

— Se isso aconteceu mesmo, estou curiosíssima para saber o motivo. Qual foi? Uma das duas estava menstruada, ou coisa assim? – Nego com a cabeça. – Alguém deu a desculpa da dor de cabeça? – Rolo os olhos e volta a negar. – Ah meu Deus, sua depilação não estava em dia? Regina, pelo amor de Deus, nunca sabemos quando vamos ter uma oportunidade, por isso sempre temos que manter o mato baixo. – Dessa vez, meu rolar de olhos dura mais tempo. – Não foi isso também?

— Claro que não. – Respondo sem paciência.

— Então foi o quê? – Vai lá, Regina. Conta para sua irmã o motivo por não terem transado, vire motivo de piada.

— Nós resolvemos esperar. – Falo tão baixo, que sai quase inaudível.

— Vocês o quê? – Zelena aproxima o rosto do meu, afim de conseguir ouvir, caso eu sussurre de novo.

— Nós resolvemos esperar. – Dessa vez minha voz sai bem audível. Ela olha para mim, enquanto aparentemente tenta assimilar o que eu lhe disse.

— Vocês resolveram esperar? – Questiona e eu afirmo com a cabeça. – Você está querendo me dizer que, você, Regina Mills, minha irmã, que de virgem não tem nem o signo, e uma prostituta, que dispensa qualquer comentário, resolveram esperar? – De novo afirmo, e então ela começa a rir, gargalhar escandalosamente, de novo chamando atenção para nossa mesa. Ela ri, ri, ri, faz uma pausa para respirar, ri mais um pouco, fala palavras que não consigo entender e volta a rir. Está chorando, tamanho é sua crise de riso. – Eu não consigo respirar. – Fala entre as risadas.

— Por mim, você pode morrer sem ar agora mesmo. – Resmungo sem paciência, enquanto ela limpa as lágrimas.

— Desculpa. – Pede ao tentar se conter, mas resolve olhar para mim, e provavelmente minha cara de palhaça, traz sua risada de volta.

— Eu vou embora. – Tento me levantar, mas de novo sou impedida.

— Não, não, fique. Regina, se fosse eu a lhe dizer um absurdo desses você também estaria rindo. – Penso um pouco a respeito e concluo que sim, ela tem razão. – Você está tentando me sacanear, ou isso é mesmo verdade? – Tenta parar de rir.

— É mesmo verdade. – Dou de ombros. – Emma estava com medo de ser uma aventura que acontece e fica em Vegas, então... — Agora recomposta, Zelena volta a enxugar as lágrimas.

— Quantos anos ela tem? – Me questiona.

— 23. – Respondo um pouco sem graça, mas contrariando minhas expectativas, Zelena não parece estar julgando. – Ela tem alguns problemas relacionados a abandono. – Explico e minha irmã assente.

— Os problemas se atraem, não é mesmo? – Sorrio sem humor e acabo concordando.

— Parece que sim. – Coço a garganta, me ajeito melhor na cadeira e resolvo entrar no assunto pelo qual pedi que Zelena viesse a meu encontro. — Agora chega de jogar conversa fora, vamos a um assunto que realmente interessa, a mim e a você... — Ela concorda e espera que eu prossiga. — Cora.

— Graças a Deus, ela ficou em Dubai. Acho que ela estava de olho no dono do hotel em que estávamos hospedadas. – Me conta. — Claro que por interesse. – Fala o óbvio. — Mamãe sabe que é difícil conseguirmos entrar no mercado de lá. Então se ela conseguir hipnotizar algum árabe rico e cafona, nossas chances aumentam. — Algo típico de Cora. Enganar, iludir, e manipular pessoas, para ter mais dinheiro do que já tem.

— Tenho pena desse homem. — Solto com o ar.

— Não seria nada mau um hotel em Dubai para chamar de nosso. — Zelena me faz rolar os olhos.

— Às vezes tenho medo das coisas que você fala, porque algumas, me lembram muito dela. — Me refiro a nossa mãe, o que faz minha irmã me lançar um olhar feio.

— Eu não sou cruel. — Se defende.

— Cruel, não. Mas é deslumbrada e muitas vezes é mesquinha. O que pode lhe levar a crueldade, caso você não se policie. — A alerto.

— Eu só gosto de luxo, que problema tem nisso? — Parece irritada com as minhas palavras.

— Nenhum, sendo que isso não faça você passar por cima das pessoas. — Opino. — E bom, talvez você não goste tanto assim de luxo, afinal, está com um segurança, ao invés de estar em um hotel em Dubai, rodeada de sheiks bilionários. — Balança a cabeça negativamente.

— Eles são cafonas. — É o que me responde. — E eu não estou apaixonada pelo segurança. Só quero usá-lo para fins sexuais. — Se tem uma coisa que Zelena ama nessa vida, essa coisa é bebida. Qualquer tipo, sendo que tenha álcool. Então se ela quisesse mesmo o rapaz, só para fins sexuais, teria o demitido no mesmo minuto em que ele se meteu em sua vida, para de certa forma, pedir a ela que não bebesse. E mais, ela teria dado risada da cara dele, enquanto bebericava sua bebida.

— Zelena, não existe nada de errado gostar de alguém que não seja bilionário, milionário, rico. Não há vergonha nenhuma nisso. – Tento pôr tal coisa em sua cabeça.

— Eu não me apaixono, Regina. Por ninguém que mamãe possa vir a desejar a morte. — Sombria, é desse jeito que sua voz sai. Imediatamente a Srta. Swan vem a minha cabeça e eu sinto um aperto no peito.

— Eu posso confiar em você? — Lhe questiono.

— Mas que pergunta é essa? — Parece um pouco ofendida. — Você tem algum tipo de dúvida sobre isso?

— Responda a minha pergunta, eu posso confiar em você? — Insisto.

— É claro que você pode. — Responde. — Você sabe que acobertei o quanto pude você com Daniel. E aposto que você sabe também, que eu salvei seu celular, e todas as mensagens deixadas por Emma, das garras da mamãe. Se eu quisesse prejudicar você, já teria feito. — Balanço a cabeça concordando.

— Nós precisamos dar um jeito nisso, Zelena. — Toco sua mão.

— Nisso, você quer dizer, nossa mãe? — Afirmo.

— Isso. Temos que reduzi-la a nada. — Talvez tenha sido meu jeito de falar, a raiva que coloquei nas palavras, meus trejeitos, o fato é que Zelena parece um pouco assustada.

— Isso por causa de uma mulher que você conheceu tem pouco mais de um mês? — Nego.

— Não. Claro que tem influência, mas não, não por ela. Por nós. Por mim e por você. E também pelas pessoas que ela já causou mal. Nós precisamos dar um basta nisso tudo.

— É um belo discurso, belo argumento, mas você sabe que não é bem assim. Você sabe que ela me fez assistir ao seu tratamento de choque, não sabe? Com intuito é claro, de me causar medo, de me mostrar o que pode acontecer comigo, caso eu resolva contraria-la. – Faz uma pausa. — Eu não quero que você vá parar lá novamente. Tampouco quero acabar lá também. E você sabe que se ela sequer sonhar com essa conversa, é para lá que vamos. — Medrosa, covarde, conformada, minha irmã é um misto dessas coisas.

— Zelena, nós só temos essa vida, não é justo, não é saudável, não é aceitável, vivermos ela para a nossa mãe. – Tento começar, mas ela não deixa que eu continue.

— Eu gosto da minha vida, e você sabe que incontáveis pessoas gostariam de estar em nosso lugar. — Rolo os olhos pelo pensamento vazio.

— Nenhuma pessoa gostaria de passar por tratamento de choque. Nenhuma pessoa gostaria de transar com homens por obrigação. Nenhuma pessoa gostaria de ser alcoólatra desde a adolescência. Nenhuma pessoa gosta de viver com medo, Zelena. – Talvez minhas palavras tenham soado duras, porém foram necessárias. — Você engana a si mesma, se dizendo que é feliz porque tem tudo que quer, porque é bilionária. Do que adianta todo esse dinheiro, se não somos livres? — Ela suspira, e balança a cabeça negativamente, parecendo um pouco contrariada.

— Por que você põe essas coisas na minha cabeça? — Esbraveja.

— Eu não ponho, elas já estão aí. Como já estavam na minha. Nós só as camuflamos, porque temos medo. — Falo a verdade. — Eu estou cansada de ter medo, Zelena. Você não está? — Tem os olhos fixos em um ponto qualquer, enquanto fica silêncio. Faz o que sempre faz quando está nervosa, ou ansiosa, bate os pés contra o chão.

— Digamos que hipoteticamente, eu esteja, o que você tem em mente? — Questiona o mais baixo possível, aparentemente com medo de ser ouvida.

— Coloca-la na cadeia. – Sou enfática.

— Uhum. Faz um tempo que estou querendo comprar um unicórnio, mas não acho em lugar algum, você por um acaso sabe onde posso encontrar? – Esse é o jeitinho irritante que ela tem de debochar da minha ideia.

— Eu estou falando sério, Zelena. – Me olha um pouco incrédula, como se eu fosse louca ou coisa assim.

— Lembra da última vez que você tentou isso? Você gostou das descargas elétricas, é isso? Quer voltar para lá?

— Dá última vez, ela sabia que eu estava com raiva, que queria me vingar. Agora ela não sabe de nada. – Me sorri sem humor, enquanto me balança a cabeça negativamente.

— Não seja ingênua, Regina. Mamãe está sempre de olho em você, sempre. – É enfática.

— Mas não em você. Com você, ela é mais tranquila. Apesar de você se perder no álcool de vez em quando, ela sabe que você não vai além. Ela te tem como fraca, Zelena. Como alguém controlável, você pode ser o nosso cavalo de Tróia. – Balança a cabeça muitas vezes em negativo.

— Gosto de ser fraca, e controlável, me deixe longe de Tróia. – Me pede. – Nem Aquiles sobreviveu a ela.

— Okay. – Solto com o ar. – Continue sendo feliz na sua infelicidade então. – Esbravejo.

— Você é insuportável. – Me acusa, e tudo que faço é dar de ombros. – Me fale a sua ideia, talvez, e deixo claro o talvez, eu pense sobre isso em casa.

— Meu plano é distrai-la, aborrece-la, bater de frente com ela. Enquanto ela está ocupada comigo, você age. Cora está metida em alguma coisa ilícita, sei que está. Desde que papai morreu, ou até mesmo antes. – Falo sobre minha desconfiança.

— Você não acha que ela tem algo a ver com a morte dele, acha? – Mesmo com medo, sei que está interessada no assunto.

— Talvez. – Se tem uma coisa que eu evito pensar, é nessa teoria. Tenho medo de pensar muito sobre e acabar concluindo que sim, ela matou nosso pai. – Caso ele tenha descoberto algo muito grave a respeito dela.

— E então ela resolveu mata-lo de câncer. – Faz pouco caso da minha desconfiança.

— Nós supomos que ele morreu de câncer. – Mais uma vez, me olha como se eu fosse louca.

— Ele tinha câncer, Regina. Nós fomos ao médico algumas vezes junto com ele. O acompanhamos nas quimioterapias. – Concordo.

— E estávamos junto com ele, quando o médico disse que ele estava curado. Estávamos junto com ele no natal, quanto ele me prometeu a viagem Transiberiana. Você sabe que ele nunca, nunca prometeu algo que cogitasse não poder cumprir. – Faço uma pausa para tomar ar. – Ela mandou você para o Chile, me mandou para o Japão, para resolvermos coisas que qualquer funcionário que entende de administração, poderia resolver. Dois dias depois, ela ligou para dizer que papai teve um mal-estar, e em menos de 24 horas, volta a ligar para informar do falecimento. – Pelo jeito assustado como me olha, sei que está pensando a respeito. – Ela quis enterra-lo tão rápido que quase não chegamos a tempo para o funeral. – Concorda em um fraco balançar de cabeça, enquanto pensa a respeito. Seus olhos assustados me fazem crer que ela sabe que sim, o que eu falo faz sentido.

— Essa doença pode matar rapidamente. Você viu o laudo da autópsia. – Parece tentar convencer a si mesma.

— Você conhece o médico que assinou o laudo? Para começo de conversa, quem disse que realmente existiu uma autópsia? – Questiono. — Quem é capaz de matar fria e calculadamente, é ainda mais capaz de conseguir um laudo falso. – Zelena balança a cabeça em negativo.

— Eu não acredito nisso. Eu não quero acreditar nisso. Pelo amor de Deus, não coloque essas coisas na minha cabeça. Eu fico tão nervosa, que a primeira coisa que me vem em mente é que eu preciso beber alguma coisa para relaxar. – Minhas mãos procuram pelas delas e as afagam.

— Você não pode beber, porque é exatamente isso que ela espera de você. Que você seja fraca, maleável, influenciável. Por isso ela nunca deixou você terminar um tratamento contra o álcool. Ela te quer alcoólatra Zelena, enquanto você está distraída com a bebida, ela faz com você o quem bem quer. – Opino.

— Eu nunca tinha pensado dessa forma. – Parece ainda mais abalada.

— Eu também não. Porém tenho pensado muito nesses últimos dias, e não foi difícil chegar a essa conclusão. – Ela não diz nada. Sei que está imersa em pensamentos. São muitas coisas para pensar, para assimilar. — Você sabe o que Cora costuma fazer com que se opõe a ela. Nesse caso, talvez o câncer tenha sido seu aliado. Foi mais fácil se livrar do problema assim. – Seus olhos procuram os meus.

— Ela amava nosso pai. – Lhe dou um sorriso sem humor.

— Você acha que nossa mãe é capaz de amar alguém, além dela mesma? Ela não me ama, Zelena, ela não ama você, tampouco amava nosso pai. Ela usa as pessoas, e quando as mesmas se voltam contra ela, ela descarta. – Volta a ficar em silêncio. Não lhe falo mais nada, pacientemente, espero seu tempo.

Enquanto ela bebe seu cappuccino, tiro meu celular do bolso e vejo as mensagens da Srta. Swan. Depois de me falar que estava com saudades, perguntou quais eram meus planos para a noite de hoje. Várias mensagens com pontos de interrogações, vieram em seguida. “Está brava comigo?”, foi a última que me mandou. Lhe respondo que agora estou em uma reunião de família e que mais tarde conversamos.

Travo o celular e volto a guarda-lo no bolso. Quando volto a prestar atenção em minha irmã, vejo que ela ainda está olhando para o além.

— Gold. – Ela sussurra.

— Como? – Não estendo o que quis me dizer.

— Gold. – Sua voz se torna mais audível. Tira os olhos do além e me encara. – Se mamãe está metida em alguma coisa ilícita, com certeza essa coisa tem ligação com esse homem. – Penso sobre tal nome e não consigo associá-lo a ninguém que eu conheço.

— Não consigo recordar de ninguém com esse nome.

— Você não o conhece. – Responde prontamente. – Eu só o vi uma vez e foi totalmente por acaso. – Conta. – Era um domingo à noite, eu estava com vontade de beber e não tinha nada em casa. Papai sempre foi amigo de todos os seguranças que tivemos, e todos os seguranças sempre foram amigos dele. Sabia que se saísse para comprar bebida em qualquer conveniência, ele ia acabar descobrindo e eu não queria chateá-lo. – Ela faz uma pausa. – Então lembrei das muitas bebidas que mamãe tem no escritório dela. Lá seria um lugar seguro para beber, sem que ninguém ficasse sabendo. – Concordo com a cabeça. – Então eu fui. Pedi para que o segurança ficasse esperando na recepção, e quando finalmente cheguei na sala, me deparei com Cora e esse homem. – Conta. – Juro para você que eu nunca vi nossa mãe tão sem graça, tão sem reação. Ela até gaguejou.

— Por que você acha que ela ficou desse jeito? – Questiono com curiosidade, enquanto penso sobre o assunto.

— Eu não sei. Quando pensava sobre isso, achava que ele era algo como amante dela e eu tinha quase flagrado os dois. – Suspira. — Mas mamãe não ficaria tão sem reação por esse motivo. – Passa as mãos pelos cabelos. – Depois de tudo que você me falou, penso que talvez eles estivessem conversando sobre algo que mais ninguém poderia saber. Talvez ela tenha ficado com medo de que eu pudesse ter escutado sobre o que conversavam. – Concordo com sua linha de pensamento.

— E você não escutou? – Nega.

— Não. Eu me assustei quando os encontrei lá. Domingo à noite nem você está no escritório. Fora que estava tudo apagado, não existia o menor indicio de que poderia ter alguém por lá.

— E Cora não falou para você o que estavam fazendo? – Indago.

— Fechando um negócio de última hora. Foi o que ela me respondeu. Ah, e eu pude notar também, que ela ficou pouco confortável quando o homem se apresentou.

— Ela não queria que você soubesse quem ele era. – Concluo e ela concorda. – Você acha que eles ainda se encontram? – Afirma.

— Acho que sim. Quando estávamos em Dubai, vi uma chamada perdida no celular dela, e nessa chamada tinha o nome dele. Fora as ligações misteriosas que ela jamais atende na frente de alguém. – Eu mesma já presenciei isso. Cora se retirando para atender o telefone, mas nunca dei importância a tal coisa.

— Então nós temos o nosso ponto de partida. Gold. – Zelena balança a cabeça concordando. – Precisamos tirar Cora de cena por alguns dias, para que possamos achar algumas informações sobre esse homem, e então, começarmos a agir. – De novo ela concorda.

— Ela está em Dubai. – Balanço a cabeça para inocência de Zelena.

— Mas ela tem olhos aqui. Temos que distraí-la. – Minha irmã me sorri.

— É aí que você entra, não é? Você a distraí e eu investigo, não é isso? – Afirmo.

Nossa conversa acaba sendo atrapalhada pelo toque do seu celular. Ela pede um minuto, o tira da bolsa e fala que tem que atender. Menos de um minuto depois, desliga e volta-se para mim.

— Eu tenho uma ideia.

— Que seria? – Não sei porquê, mas seu sorriso me incomoda.

— Ainda hoje você saberá. – É o que me responde ao se pôr de pé. – Não me olhe assim, para que explicar, se eu posso mostrar a ideia, ao vivo e a cores? – Fala em códigos e me deixa sem entender. – O que quer que você esteja fazendo aí. – Aponta para meus papéis. – Termine logo. Espero você na sua casa. – Inclina o corpo para beijar minha bochecha, e sem me dizer mais nada, se vai.

Balanço a cabeça negativamente, e encaro meus papéis. Se antes já estava difícil resolve-los, agora está um pouco pior. Minha cabeça está a mil. Muito pensamentos, preocupações e medos, passam por ela. Agora que Zelena aceitou minha proposta, já não tenho tanta certeza assim se é o certo a se fazer.

Sei que estamos prestes a mexer com uma psicopata, e bom, se tem uma coisa que aprendi vendo filmes sobre tais pessoas é que, mesmo quando a gente acha que está caçando, está na verdade é servindo de caça...

Nunca entendi o gosto de Zelena por rock. Quer dizer, olhando para ela, o jeito como se porta, seus costumes, suas amizades, poderia dizer que Zelena gosta de qualquer coisa, menos de distorções de guitarras, viradas de bateria, e gente gritando, porém, contrariando todas as expectativas, ela gosta.

Segundo ela, “o rock é resistência” só não sei em que parte dessa resistência ela se encaixa, ou talvez tal resistência não seja resistente a Cora Mills. Enfim, muito embora todo o prédio tenha sido construído com isolamento acústico, sempre que entro no elevador, as guitarras gritantes das músicas altas de Zelena, se fazem bem audíveis, coisa que me incomoda.

Minha cabeça dói, meu corpo está tenso, eu estou em estado de alerta. Não consigo desligar da conversa que tivemos mais cedo. Não consigo parar de pensar no que minha mãe pode fazer, caso descubra que será investigada, e consequentemente, não consigo parar de pensar na Srta. Swan e sua filha. Penso que deveria me afastar, mas penso também que o momento de fazer tal coisa, já passou faz um tempo e caso eu faça isso agora, posso fazer com que elas fiquem ainda mais expostas ao perigo.

Levo as mãos as cabeça e puxo meus cabelos, tentando parar de pensar. Concentro-me então na música de Zelena, que conforme o elevador sobe, torna-se cada vez mais audível e insuportável. O pior disso tudo? A música pode ser dela, mas está vindo da minha casa. Ou seja, minha “visita”, infelizmente já chegou, e infelizmente também, está se sentindo mais em casa do que deveria.

Jogo as mãos para dentro do casaco, miro o teto do elevador e bato levemente a cabeça contra a parede, enquanto penso que posso enlouquecer a qualquer momento.

— Eu só queria que essa música parasse. – Resmungo com Deus. É nesse momento que tenho absoluta certeza que sim, Ele pode me ouvir. A música gritante é interrompida antes do seu final, e eu tenho mais ou menos, uns dois segundos de silêncio. Então começa a música seguinte. É nessa música que a sensação de Déjà Vu, toma contada de mim. Tal sensação faz meu coração bater mais apressado, enquanto flashes da noite por mim esquecida, retornam a minha cabeça.

Marilyn Manson — Sweet Dreams

A boate; as luzes da mesma; essa música só que em outro ritmo; a Srta. Swan, o jeito guloso como me olhava; suas mãos em mim; o jeito como dançou comigo; seus lábios na minha pele; seu cheiro; seu sorriso sedutor; sua voz no meu ouvido; o calor da minha pele sentindo seu toque; minha excitação; eu perguntando seu preço. De repente sinto como se nunca tivesse esquecido, está tudo aqui na minha cabeça, nas minhas lembranças, sem faltar nada.

Meu corpo formiga com tais lembranças, meu sexo pulsa, minha boca chega a salivar. Faz frio, muito frio em Nova York, mas no momento sinto que poderia aquecer boa parte da cidade. De repente a música de Zelena não me incomoda mais, eu a inspiro, e espiro lembranças, luxuria, desejo.

O elevador me deixa no hall de entrada do meu apartamento. Tiro meu casaco e o penduro no cabideiro ao lado da porta, faço mesmo com o cachecol que estava envolto em meu pescoço. Jogo minha bolsa e minhas luvas sobre o banco e hipnotizada pela canção, sigo para sala de estar, lugar de onde vem o som.

As luzes do cômodo estão todas apagadas, o mesmo é iluminado apenas pela pouca luz da noite, que atravessa a parede de vidro, por Marilyn Manson, que canta na minha TV, e pelas chamas da lareira. É ali que concentro meu olhar, não exatamente nas chamas, mas na pessoa que está diante das mesmas, de costas para mim.

Sua presença faz meu coração bater freneticamente. Sinto meu estômago agitar, minhas pernas fraquejarem. Está distante de mim, mas mesmo assim, posso sentir seu cheiro. Ele me invade, desperta em mim meu instinto mais selvagem.

Aproximo-me lentamente, com medo de que algum movimento brusco, a faça desaparecer. Medo de que seja apenas uma miragem, ou um sonho bom. Não sei o que ela faz na minha casa, nem como chegou aqui, e a verdade é que no momento, não estou interessada em saber. Se antes só tinha preocupação em minha mente, agora cada parte dela, está ocupada, dominada por essa mulher.

Paro perto da TV, estendo a mão, e com gestos, faço o volume da mesma diminuir, o que com certeza, faz com que ela me note aqui.

— Você está atrasada. – Sua voz se faz audível, e consegue causar ainda mais reações no meu corpo. Se a Srta. Swan, fosse uma droga, seria com certeza a mais letal de todas. Ela causa agitação, euforia, calafrios, excitação, calmaria, tempestades. Ela te envolve e te devora. Você assiste a tudo imóvel, paralisada, hipnotizada, encantada com tudo que ela pode proporcionar.

Devagar, ela volta-se para mim. O tom claro da sua pele e o loiro do seu cabelo, contrastam com a pouca iluminação e a cor preta das roupas que usa. O fogo que agora arde atrás de si, faz-me associá-la a Héstia, a deusa do fogo.

Seus olhos prendem-se aos meus, ela me sorri, e instintivamente, me aproximo. Por algum motivo, ela recua um passo, o que me faz parar.

— Está com medo de mim, Srta. Swan? – Questiono em um tom ameaçador, quase me divertindo.

— Às vezes, posso jurar que vejo o Diabo em seus olhos. – Sua resposta me arranca um meio sorriso.

— Se você teme o diabo, deveria evitar vir até a casa dele. – Faço a advertência.

— Eu não temo, nem tenho medo, porém, algumas vezes me sinto intimidada. – É a resposta que me dá. — Quando você me olha desse jeito, sinto como se você pudesse ver cada pensamento meu, como se pudesse ver minha alma. Seus olhos me desafiam. – Arqueio uma sobrancelha.

— E ao quê? – Questiono com curiosidade.

— A caminhar com você, para o desconhecido. – Ela aproxima-se, sem desfazer-se do contato visual.

— Um pouco sombrio, um pouco poético. – Ela esboça um sorriso. Leva uma mão ao meu rosto e o afaga. Instintivamente, fecho os olhos, enquanto sinto o carinho que seus dedos gelados, fazem em meu rosto.

— É um bom jeito de explicar o amor, um pouco sombrio, um pouco poético. – Compartilha comigo seu pensamento. Abro os olhos e volto a encara-la. – Senti sua falta. – É o que me diz. Não lhe respondo nada. Levo as mãos a sua nuca, e afago o lugar. Meu rosto aproxima-se do dela, seus olhos se fecham e são seguidos pelos meus. Afago seus lábios com os meus, um toque leve, lento, saudoso. Gosto desse contato, da macies dos seus lábios, do jeito como eles encaixam nos meus. Esse é o meu jeito de dizer a ela, que também senti sua falta. Beijo-lhe o canto da boca, a bochecha e sigo até sua orelha.

— Eu desfio você. – Sussurro ao pé de seu ouvido. – Caminhe comigo até o desconhecido do meu quarto. – Disposta a qualquer coisa para persuadi-la a aceita-lo, lanço o desafio.

Notas finais
Agora vai, né não? Se você cara leitora, quer saber se a Emma foi sim, ou claro, pro desconhecido, também conhecido como: quarto de Regina Mills, deposite aqui seu comentário. Conto muito com a opinião de vocês. Próximo capítulo já está sendo escrito. E que venha a guerra (mas antes disso, o amor). Beijos, gente!