Right Here Waiting For You
19 All I Want for Christmas Is You
Notas iniciais
Não sei foi o espírito natalino (que há muito tempo não encarnava em mim), toda a programação da TV (que eu ando com muito de tempo para assistir), o primeiro natal que não preciso passar com a minha família, com a família de Robin, ou todas as alternativas anteriores, enfim, o fato é que falta pouco para eu me tornar o próprio Papai Noel, sair por aí adentrando chaminés, distribuindo presentes, cumprimentando as pessoas com “Ho, Ho, Ho”, sorrindo e acenando.
Nunca recebi ninguém em minha casa, nem em Nova York, muito menos aqui. Nem no natal e nem em época nenhuma do ano. Está sendo a minha primeira vez. E bom, como estarei recebendo uma criança que acredita em Papai Noel, e tudo mais, não poderia simplesmente deixar a casa sem nenhuma decoração natalina, crianças gostam dessas coisas, certo? Viver o espirito do natal? Pelo menos é o que ouço por aí. Resolvi então chamar um pessoal para decorar minha casa, estão aqui desde ontem de manhã, agora está passando uns minutos das 17:00h, e acredito que estejam perto de finalizar.
Demoraram, eu sei, talvez pelo tamanho da casa, talvez por serem detalhistas, talvez pelas minhas exigências, ou talvez por todas as opções. O fato é que está ficando como esperado, exagerado, como todas as coisas de Las Vegas, mas que enchem os olhos das crianças. Sinto como se a qualquer momento, pudesse ir até a cozinha, e encontrar Papai Noel por lá, tomando um chocolate quente, ou uma taça de espumante.
— Acho que terminamos por aqui. Você gostaria de dar uma olhada, certificar que está do seu agrado? – A garota responsável por toda essa gente transitando na minha casa, é quem me questiona.
— Está perfeito assim, não preciso conferir. – Lhe garanto.
— Quanto as luzes lá fora, quer dar uma olhada? – Volto a negar.
— Vou esperar para vê-las a noite. Só preciso que me dê 100% de certeza, que funcionarão. – Ela me sorri.
— Elas funcionarão. – Me entrega um controle remoto. – Basta apertar esse botão, e a mágica acontecerá. – Pego o objeto da sua mão e lhe sorrio.
— Agradeço, Srta. Baker. – Lhe estendo a mão. – O dinheiro já está na conta, já mandei a foto do depósito para o número que me passou. – Concluo pelo sorriso que me dá, que tal coisa lhe deixou bastante feliz.
— Eu quem agradeço, Srta. Mills, foi um prazer trabalhar para você. – Lhe sorrio e largo sua mão.
— Acompanho você até a porta. – Concorda com a cabeça e sem trocarmos mais palavras, a conduzo até a saída. Leva alguns minutos até ela juntar todo o seu pessoal, eles guardarem todas as coisas no caminhão e partirem.
Caminho para fora da casa, desço as escadarias de acesso, e caminho uma distância suficiente para que possa ver o jardim da casa por completo. Sorrio satisfeita ao concluir que quando todas essas luzes forem acessas, com certeza será mais uma partezinha de Las Vegas, que poderá ser vista do espaço. Estou ficando brega, não estou? Essa cidade está me contaminando com seu mal.
Enfim, o fato é que estou satisfeita com tudo que vejo. As muitas renas, os pinheiros, o trenó, os falsos bonecos de neve, o coral de elfos, está tudo muito bonito, além de exagerado, como já mencionei. Infelizmente, só falta mesmo a neve, e bom, isso não tem como eu comprar.
Não quero me gabar, mas tenho certeza que Papai Noel aceitaria mudar-se do Polo Norte, para cá. Nas horas vagas poderia até gastar um dinheiro em um dos cassinos do meu hotel.
— Se me permite dizer, ficou tudo muito bonito, Srta. Mills. – Estava tão distraída observando tudo, e pensando no dinheiro extra que poderia tirar do bom velhinho, que não percebi a aproximação do sommelier que contratei para deixar as espumantes que a Srta. Swan aparentemente tanto gosta, no ponto adequado.
— Obrigada, Sr. Stewart. – Lhe sorrio.
— A Srta. gostaria de provar? – Carrega um balde com uma espumante sobre uma bandeja, além de taças sobre a mesma, como se de repente tivesse muitas outras pessoas para servir, além de mim.
— Por favor. – Ele me serve.
— Perfeito. – Tão perfeito, que contrariando todas as regras de etiqueta, em outro gole, eu tomo tudo o que tinha na taça. Percebo que ele tenta não rir.
— Gostaria de mais? – Afirmo com a cabeça, e ele volta a me servir. Dessa vez bebo com mais delicadeza. – As garrafas estão todas na adega, na temperatura correta. É só tirar de lá, depositar em um balde com gelo e servir. – Me passa as instruções.
— Obrigada, Sr. Stewart, gostaria de me acompanhar? – Ofereço-lhe para que se sirva.
— Agradeço o convite, Srta. Mills, mas eu não posso. – Okay, fiz mais do que a minha obrigação em oferecer, não tenho que ficar insistindo. – A Srta. tem certeza que não quer que eu mande um garçom? – Indaga.
— Certeza absoluta. – Minha “festa” é particular demais para envolver alguém além de Janis e sua mãe.
— Certo. Então qualquer dúvida, a Srta. pode me ligar. – Concordo com a cabeça.
— Obrigado, Sr. Stewart. O pagamento já está em sua conta, enviei uma foto do comprovante para o seu celular. – “Pagamento em sua conta”, é uma frase que deixa as pessoas felizes, não é mesmo? Mexe tanto com elas que as mesmas nem conseguem disfarçar o sorriso largo.
— Eu quem agradeça, Srta. Mills. – Continua me sorrindo. – Se não precisa mais de mim, deixarei essas coisas lá dentro e seguirei meu caminho.
— Deixe essas coisas comigo, eu tomo conta. – Ele não diz nada, apenas concorda e me entrega. – Tenha um feliz natal, Sr. Stewart. – Lhe desejo.
— Obrigada, Srta. Mills, que você também tenha um feliz natal! – Retribuo o seu sorriso, ele me dá as costas e segue para o seu carro.
Subo as escadas, sento-me no último degrau, ponho a garrafa de espumante ao meu lado, e me sirvo. Penso nas várias regras que estou quebrando ao estar aqui no dia de hoje.
Minha querida família, sabe que estou aqui, obviamente. Achei mais seguro falar essa parte da verdade, do que falar que estaria em Londres com Robin. Claro que Cora só não mandou o pessoal do manicômio vir me buscar, porque acha que passarei o natal aqui, mas na companhia do meu noivo.
Desde que descobri que Robin é de fato gay, posso dizer que nos tornamos bons amigos. Quer dizer, a princípio eu precisei usar as armas que tinha, como por exemplo, chantageá-lo, para que ele falasse a Cora, que sabia desde o início, onde eu estava na noite do evento, mas optou por mentir e falar que não sabia, já que queria me preservar de qualquer tipo de incomodo. Em troca, prometi ficar calada e não contar a ninguém sobre a minha descoberta, além de levar nosso “relacionamento” um pouco mais adiante.
Depois de ambas as partes comprometidas, ele resolveu se abrir comigo. Foi quando me contou que tem um namorado, que percebi que poderia unir o útil ao agradável. Não contei para ele sobre meu envolvimento com a Srta. Swan, é claro, mas falei que gostaria de passar o natal aqui em Vegas, com algumas pessoas, então combinamos que ele também passaria o natal por aqui, com seu namorado. Claro que bem longe da Strip, bem longe dos hotéis, bem longe dos holofotes. Uma casa alugada em um subúrbio, é onde ele está com seu namorado.
Enfim, ontem ele veio até aqui, fizemos algumas fotos perto da árvore de natal, que foi a primeira coisa a ficar pronta, criando assim provas, que passamos o natal juntos. Tomamos uma garrafa de vinho, falamos sobre negócios, ele fez um monologo sobre seu namorado, eu senti nojo quando lembrei das relações sexuais que tivemos, e ele se foi, muito feliz.
Mesmo tendo tudo acertado com Robin, continuo tendo medo. Tenho medo que Tinker descubra alguma coisa, ou desconfie de alguma coisa. Não me sinto nada bem com o que eu estou, de novo, fazendo com ela. Okay, o que ela tinha com a Srta. Swan, não passava de um acordo, um contrato que expirou ontem, mas mesmo assim, não me sinto nada confortável, já que Tinker deixou bem claro algumas vezes, que gosta daquela garota. Também existe o fato de que não aconteceu nada entre a Srta. Swan e eu, tirando o beijo da noite de Ação de Graças, mas eu não sou ingênua e não quero enganar ninguém, sei o significado que tem Emma vir até aqui hoje. Concluindo, Tinker vai sair magoada, se descobrir o mínimo que for, vai ficar muito chateada, muito triste comigo. Provavelmente vai me odiar para sempre. Provavelmente também, vai se juntar a minha mãe para me internar em um lugar de loucos, e vai se certificar para que eu nunca mais saia de lá. Mas ainda o que mais me preocupa em toda essa história, é Cora.
Confesso que tenho sim medo do que ela pode me fazer, mas pior do que isso, tenho muito mais medo, do que ela pode fazer a Srta. Swan, ou a sua filha, caso descubra aonde estou hoje, ou com quem estou hoje. Minha mãe é louca, e me apavora quando paro para pensar, o mal que ela pode causar, caso só sonhe que eu estou prestes a ter um caso homoafetivo com uma prostituta.
Desistir seria mais fácil, não seria? Seria mais seguro para todas as pessoas envolvidas. Seria melhor para a Srta. Swan, para Janis, para Tinker, e para mim também. O fato é que mesmo tendo consciência sobre isso, eu não consigo desistir, não consigo voltar atrás. Quero levar adiante, quero que a minha vontade seja feita, quero me permitir viver essa situação, estar com essa pessoa. Só quando vi que desistir deixou de ser uma opção, foi que percebi o quanto estou envolvida.
Fifth Harmony — All I Want for Christmas Is You
O barulho alto de uma roçadeira, me assusta e me tira dos meus devaneios, quando olho na direção que vem o mesmo, vejo uma coisa amarela, desbotada e amassada, invadir meu campo de visão, então concluo que não se trata de uma roçadeira, e sim da coisa que Emma costuma chamar de carro.
Instantaneamente meu coração é afetado, e não, isso não tem nada a ver com a lata retorcida desbotada móvel, e sim com quem está lá dentro. Eu não estava esperando por elas, não nesse horário.
A Srta. Swan, está muito, muito adiantada. Ainda não estou pronta para recebe-las. Nervosa, olho com cara de reprovação para minhas roupas. Me encontro dentro de um jeans desbotado, a camiseta de amor a Vegas, um cardigan bordo, que graças a Deus está abotoado, escondendo a camiseta que tenho por baixo, e uma bota peluciada preta. Penso em correr para dentro de casa, mais precisamente para meu banheiro, ou meu closet, e só sair de lá, quando estiver pelo menos, um pouco apresentável, mas não dá mais tempo.
Emma estaciona sua coisa bem em frente as escadarias, ao desligar a roçadeira, ele faz um barulho que lembra uma explosão. Então ouço um novo barulho, muito mais agradável, diga-se de passagem. Uma música natalina ecoa de dentro do seu “carro”, e pelo que posso ver, ela, e provavelmente, a pequena Srta. Swan, estão cantando a plenos pulmões. Seus olhos estão em mim, enquanto ela mexe a cabeça no ritmo da música e aponta para mim. Não sei a partir de qual momento comecei a sorrir, mas o fato é que estou sorrindo, não só de felicidade, mas de nervoso também.
Assim que a música chega ao fim, ela se põe para fora do carro. Ao contrário de mim, está muitíssimo apresentável, em um nível que eu não consigo disfarçar que estou admirando. Veste uma meia calça preta, um vestido vermelho, e um trench coat preto por cima. Seus pés estão dentro de um par de scarpins pretos. Óculos escuros, modelo aviador e uma touca beanie cor cinza na cabeça. Ela abaixa os óculos, me sorri e pisca para mim, me fazendo engolir em seco, fazendo meu coração ficar ainda mais apressado, e meu estômago embrulhado, então ela volta-se para sua lata, provavelmente para ajudar sua filha a sair da mesma. Já eu, continuo impactada com a beleza dessa mulher, não só eu (mentalmente), mas meu corpo, principalmente ele, está afetado pela beleza estonteante dela.
Nervosa com a presença dela, ou, nervosa com tudo que a presença dela me causa, emborco minha taça de espumante e então me ponho de pé, para receber minhas adiantadas visitas.
— Papai Noel provavelmente está morando aqui. – A ouço comentar com a filha, o que me faz rolar os olhos. Não seria a Srta. Swan se não implicasse comigo, certo?
A roupa de Janis, parece bastante com a da sua mãe. Meia calça preta, um vestido vinho e um casaco preto por cima. Usa um cachecol snood cinza, e na cabeça tem um boné com o rosto de uma rena desenhado. Acho graça ao vê-la boquiaberta, olhando para todos os lados, aparentemente admirando a decoração natalina. Sua mãe faz exatamente a mesma coisa, mas balançando a cabeça negativamente, ao invés de admirar.
— Durante toda a minha vida, eu acreditei mesmo que Papai Noel morasse no Polo Norte. – Resmunga enquanto sobre as escadas. – E veja só... — Para em minha frente, tira os óculos escuros e me sorri. – Ele esteve todo esse tempo bem aqui do lado, e é uma mulher. – Rolo os olhos para as bobagens que fala. – Com todo respeito, Papai Noel, você é sexy, jamais imaginei que fosse assim. – Aponta para o meu corpo, e com os dedos, faz sinal de Okay, me fazendo rir e balançar a cabeça negativamente.
— Você é ridícula, Srta. Swan, além de exagerada. Por último, mas não menos importante, está adiantada. – Me dá um sorriso bobo.
— Desculpe por isso. Janis quis ir patinar em uma pista de gelo, então saímos mais cedo de casa. Só que nossa desenvoltura em patinar foi tão, mas tão ruim, que resolvemos vir embora, antes que acabássemos perdendo parte da bunda por lá. – Balanço a cabeça negativamente, enquanto dou risada do que me contou.
— Que tipo de pessoa não sabe patinar no gelo? – A provoco.
— O tipo de pessoa que nasceu no deserto. – É o que me responde. Volta a me sorrir, passa o braço em volta da minha cintura e me puxa para um abraço. – Cheirosa como sempre, Srta. Mills. – Um pouco sem jeito pela nossa aproximação repentina e ainda bastante nervosa com a minha visita, retribuo-lhe o abraço. No começo, um pouco hesitante, mas tal coisa se dissipa, quando ela me aperta em seus braços. Suspiro, fecho os olhos e a abraço do mesmo jeito, apertado. O cheiro dos seus cabelos, junto com o cheiro do seu perfume, me invade, me traz uma sensação boa, não sei explicar, mas é como se me sentisse em casa. – Estava com saudades de você. – Ela sussurra. Não nos vemos a quase uma semana, desde a noite no “bar” de seu burro falante. Para que não houvesse problemas com minha mãe, achei melhor me manter o mais afastada possível dela. Pelo menos fisicamente, mas por telefone, nós nos falamos todos os dias, por horas a fio. Na verdade, ela falou, eu mais me limitei a ouvir e rir de suas bobagens.
Ao abrir meus olhos, me deparo com a pequena Srta. Swan, parada ao nosso lado, nos assistindo e sorrindo. Lhe retribuo o sorriso, afrouxo os braços da Srta. Swan, e ganho dela um beijo na bochecha.
— Opa, ficou marcado. – Avisa enquanto tenta limpar.
— Não sabia que era adepta a batons vermelhos, srta. Swan. – Implico com ela, passo a mão onde certamente ela marcou e me volto para sua filha, que continua nos assistindo. – Olá, pequena Srta. Swan! – Como resposta, ela pula no meu colo.
— Olá, Srta. Mills! Estava com saudades de você. – Prende os braços no meu pescoço e assim como sua mãe, também me dá um abraço apertado.
— Eu também estava com saudades de você.
— Por que você não me acordou quando foi lá em casa? – É a primeira coisa que me cobra.
— Eu tentei, junto com a sua mãe. Mas você tem um sono muito pesado. Não conseguimos acorda-la. – Explico. – Será que você pode me desculpar? – Peço. Ela afrouxa os braços do meu pescoço e me encara.
— Na próxima vez, você vai mais cedo? – Me pede.
— Na próxima vez, vou mais cedo. – Lhe respondo sorrindo.
— Então eu posso desculpar. – Assim como sua mãe, ela beija meu rosto, e eu lhe retribuo logo em seguida.- Você mora nesse hotelzão sozinha? – Aponta para minha casa e me faz rir.
— Não é um hotel, é minha casa. E sim, moro aqui sozinha. – Seus olhos crescem e seu queixo caí.
— UAU! – É o que sai da sua boca. – Por que as paredes dela são quase todas de vidro? – Questiona.
— Porque fica mais claro, mais arejado. – Explico.
— Eu gostei de todas essas coisas lindas de natal. – Aponta para algumas. – Nunca tinha visto uma casa com esse montão de coisas, só hotéis. – Parece admirada. – Você é mesmo muito rica. – Seu pensamento alto, me faz rir.
— Obrigada! Fico feliz por você ter gostado. Você sabe, Papai Noel e eu, somos amigos. Ele fica feliz em ver a casa desse jeito. – Seus olhos crescem.
— Você é muito amiga do Papai Noel? – A possibilidade, parece empolga-la.
— Sim, eu sou muito amiga do Papai Noel. — Lhe garanto.
— Você já viu ele e falou com ele? – Afirmo.
— Vi sim. Ele esteve aqui hoje mais cedo, tomando café comigo. – Seus olhos voltam a crescer e seu queixo a cair.
— Ele falou de mim? – Talvez tenha um pouco de preocupação em sua voz.
— Ele falou de você, pequena Srta. Swan.
— Coisas boas? – Seus olhos também parecem preocupados.
— Coisas muito boas. – Solta um suspiro de alivio ao ouvir tal coisa. – Você com certeza foi uma boa garota durante todo esse ano. – Volto a beijar sua bochecha.
— YEAAAAH!!!! – Grita a comemoração, enquanto levanta os braços. – Eu falei para você. – Fala para sua mãe, que nos observa de braços cruzados, tentando não sorrir.
— Ele não falou sobre as desobediências dela também, Srta. Mills? Como dormir depois da hora, fazer corpo mole para fazer o dever de casa, roubar o controle da TV, para assistir coisas proibidas para sua idade, e ser teimosa? – A Srta. Swan me questiona, e a pequena Srta. Swan, me olha apreensiva. Me resta balançar a cabeça afirmando.
— Sim, ele falou sobre isso também. – Conto. – Ele não estava muito satisfeito com essas coisas, Janis, pediu que eu falasse com você, para você rever o que fez de errado e melhorar. – Agora faz cara de triste. Abro a boca para dizer que não é bem assim, que está tudo bem, que Papai Noel é compreensivo, e tudo mais, mas sou impedida pela Srta. Swan.
— Não. – Fala para mim. Não sei como, mas parece saber o que eu diria. – Não faça isso. – Me pede. – Lembre-se, crianças precisam de limites. – Mas é natal, certo? Isso não conta? Penso em argumentar, mas concluo que não deveria fazer isso na frente da garota, então só aceno com a cabeça, concordando.
— Você pode dizer para ele que eu prometo que vou melhorar? – Pede, sua voz tristonha.
— Sim, eu já disse. – Garanto. – Disse que você é uma boa garota, e que no próximo ano, você vai ser ainda melhor e vai parar de fazer essas coisas erradas que a sua mãe citou. – Me esboça um sorriso.
— Obrigada por ter falado com ele. – Me agradece.
— Disponha, pequena Srta. Swan. – Mais uma vez, lhe beijo a bochecha.
— Você também falou com o Papai Noel sobre a minha pessoa? – A Srta. Swan, me indaga, enquanto me lança um olhar nada inocente.
— Sim, eu também falei com o Papai Noel sobre você. – Afirmo.
— E quais são as minhas chances? – Me dá um dos seus sorrisos sedutores. Tento me manter séria, para que ela continue sem saber o quanto esses sorrisos me abalam.
— Eu não sei, Srta. Swan, é complicado, não sei se foi uma boa menina durante o ano. – Ela finge indignação.
— Se eu não fui uma boa menina, então ninguém foi. – Reponde. – E a quantidade de prazeres que eu distribuí por aí? Olha quantas mulheres eu fiz feliz. – Sua resposta me faz rolar os olhos.
— Nesse caso especifico, Papai Noel não está nem um pouco interessado em saber sobre esses prazeres e felicidades, Srta. Swan. – Ela ri.
— Papai Noel é ciumento? – Questiona de sobrancelhas arqueadas.
— Um fato que você precisa saber sobre ele, Papai Noel acha inadmissível, inaceitável, dividir o que é seu. – Respondo com seriedade, os olhos parados nos dela.
— Ué, mas então o Papai Noel é egoísta. Isso não é errado? – É o que a pequena Srta. Swan nos questiona, e bom, sua pergunta nos faz rir.
— Não, ele não é egoísta, mas algumas coisas, ele não aceita dividir. – Respondo.
— E isso não é ser egoísta? – Me lança um olhar de dúvida.
— Nesse caso especifico, não. – Vejo que continua sem entender. – Sabe essas coisas de adulto que você só vai entender quando crescer? – Afirma com a cabeça. – Então, isso é uma dessas coisas. – Parece frustrada.
— Se quando eu crescer, eu não entender, vocês me explicam? – Pede.
— Explicamos, Matraca. – Sua mãe a tira do meu colo e a põe no chão. – Agora vai ali no carro, pega as coisas que trouxemos para Regina. – Ela pede.
— Os presentes também? – Emma nega com a cabeça.
— Não. Só as meias e a câmera. – Janis vai saltitando em direção ao objeto que chamam de carro.
— Os presentes aos quais ela estava se referindo, não são para mim, são? – Questiono com a Srta. Swan, que me dá de ombros.
— Só um ou dois. – Lhe rolo os olhos.
— Eu não preciso de presentes, Srta. Swan. – É sua vez de me rolar os olhos.
— São presentes sentimentais, e não presentes caros. Então você precisa sim. – Confesso que mesmo a contragosto por terem gastado dinheiro comigo, fico curiosa para saber do que se trata.
— Okay, fique sabendo que eu também tenho presentes para vocês. – Aviso.
— Espero que você não tenha nos comprado a lua, ou qualquer coisa exagerada que seu dinheiro permite e que você gosta de comprar. – Deveria me sentir ofendida com isso, mas como é só a Srta. Swan reclamado como sempre, não dou importância.
— Não custou caro. – É tudo que lhe respondo.
— Especifique quanto é caro para você, porque tenho certeza que não temos a mesma opinião a respeito. – Dou de ombros, enquanto olho para um ponto qualquer.
— Mais de cem mil Dólares, dependendo do que se trata, começo a achar um pouco caro. – Bate com a mão em meu braço, enquanto me olha como se eu tivesse falado algum absurdo.
— Você tem noção do acabou de falar? – Parece um pouco indignada. – Tem pessoas que nascem e morrem, sem conseguir juntar isso durante toda a vida, e você vem me falando que, dependendo do que se trata, começa a ficar um pouco caro? Você não tem noção da realidade. – Balanço a cabeça negativamente e a encaro.
— Por que o meu dinheiro parece lhe incomodar tanto? – A questiono.
— Porque eu não quero o seu dinheiro, e quando você inventa de pagar tudo, quando compra todos os balões de um parque de diversões para Janis, quando me traz vinhos caros, chocolates caros para minha filha, quando decora sua nada humilde casa desse jeito, só para nos receber, parece muito que eu estou me aproveitando do dinheiro que tem. – Praticamente faz um discurso.
— Eu conheço as pessoas, Srta. Swan, eu olho para elas, e sei quando estão atrás do meu dinheiro, ou não estão. – Tento tranquiliza-la.
— Seu amor, é dele que estou atrás. – Sua declaração mais uma vez mexe com meu estômago e com meu coração. – Eu não me importo com o seu dinheiro. – Concordo com a cabeça.
— Eu sei. Porém, você não pode me pedir que eu não gaste meu dinheiro com pessoas que eu gosto. Devo guarda-lo para quê? Mesmo que eu gaste muito dele, todos os dias, ainda vou ter dinheiro suficiente para que meus filhos vivam tão bem financeiramente, quanto eu vivo. – Minha resposta não parece satisfaze-la. – Veja bem, eu gosto do seu jeito, de como você demonstra gostar, se importar. Você é sem travas, consegue se expressar muito bem através das palavras. – Suspiro. – Eu não sou assim, para mim é difícil colocar em palavras os meus sentimentos, então eu demonstro com presentes. Eu sei que não é correto, não é a melhor forma de demonstra-los, mas eu peço que você tente entender. Quando você faz cara feia, ou tenta recusar, eu me sinto mal. – Ela suspira, balança a cabeça negativamente, e leva as mãos a cintura.
— Palavras são gratuitas, e podem trazer uma felicidade maior do que o presente mais caro desse mundo. – Balanço a cabeça em sinal de concordância.
— Acredite, eu sei muito bem disso. – Volta a suspirar.
— Eu deveria ter me apaixonado por uma mulher menos complicada. – Me faz rir.
— Eu nem vou entrar nesse mérito, Srta. Swan, até porque sabemos que você também não é uma das pessoas mais descomplicadas do mundo. – Ela também ri.
— Somos um casal e tanto. – Junto as sobrancelhas ao ouvir tal coisa.
— Quem disse que somos um casal? – Lhe questiono.
— Na minha imaginação, nós somos. – Me dá de ombros. – Um casal quente e vulgar na cama, acordarmos as 5h todas as madrugadas, para transar gostoso. Depois ficamos fazendo preguiça e trocando carinhos, até a hora de levantar. – Fala quase sem respirar. — Tomamos café da manhã juntas, deixamos Janis na escola, então cada uma segue para o seu trabalho. Quando você chega em casa, exausta por ter ficado mais tempo do que deveria no escritório, eu estou com a janta pronta, te esperando. – Continua no mesmo ritmo. — Como você é rica, todas as noites tomamos uma garrafa cara de espumante. Depois você ajuda Janis com a lição de casa, já que ela se concentra mais, quando é você quem está por perto. Em seguida ajudo ela com o banho e a coloco para dormir. Encontro você no seu banho e ele se torna nosso, gastamos um tempo lá. – Faz uma pausa maior, para tomar ar. — Seguimos para a cama, você liga a TV e tenta prestar atenção no que está assistindo, enquanto eu fico te beijando. Às vezes você me dá moral, e nós tiramos os pijamas, outras vezes, você não está nem aí para as minhas investidas. Por fim você apaga a luz, manda um: “agora fique quieta, Srta. Swan”, eu puxo você para bem perto de mim, e nós dormimos. Fim! – Não sei em qual parte dessa vida que divido com ela em um mundo paralelo, eu comecei a sorrir, mas o fato é que aqui estou, com um sorriso idiota no rosto, por ter imaginado tudo o que acabou de dizer. – Gostou? – Faço pensar sobre.
— Não tenho certeza sobre essa parte de não te dar moral. – Falo. – Quer dizer, se toda essa sua autopropaganda, sobre o quanto você é boa quando se diz respeito a sexo, for mesmo verdade, a TV do quarto vai se mostrar completamente inútil. – Pelo jeito como me olha, tenho certeza que não estava esperando por uma resposta assim. Estou em dúvida se a deixei sem jeito, ou preocupada. – O gato comeu sua língua, Srta. Swan? – Não posso perder essa oportunidade praticamente única, de provoca-la nesse assunto. Ela até abre a boca para me responder, mas Janis está de volta com as coisas que foi buscar, e sem saber, acabou de salvar sua mãe.
— Você tem uma lareira? – A garota me questiona.
— Sim, apesar de fazer pouco frio nessa cidade, eu tenho uma lareira. Inclusive, já está acesa. – Minha resposta parece anima-la.
— Legal! – Comemora. – Essa é para você. – Me entrega uma meia peluciada vermelha, com a barra em pelúcia branca, nessa barra, tem meu nome aplicado. – E essas são nossas. – Estende para mim mais duas meias iguais, só que com seus respectivos nomes. – Podemos pôr na sua lareira? – Me pede.
— Muito obrigada por isso, pequena Srta. Swan. – Lhe agradeço. – Eu já coloquei as meias na lareira, mas elas não têm nomes, vamos substitui-las. – Balança a cabeça muitas vezes em concordância. – Vamos entrar então. – Convido ao apontar para a porta.
— Mas nós não vamos acender todas essas luzes? – Questiona comigo. Ao perceber que a noite praticamente já ganhou o dia, decido que as luzes já podem ser acesas.
— Faça as honras. – Peço. – Aquele controle ali. – Aponto para o mesmo, que deixei perto da garrafa de espumante. – Ele quem liga tudo, você pode pega-lo e apertar... – Bom, antes de concluir a frase, a pequena Srta. Swan já pegou o controle, e fez com que as luzes fossem acesas. Quase que instantaneamente, Jingle Bells começa a ecoar do coral de Elfos, enquanto coisas que eu pensei que fossem holofotes, fazem espuma voar por toda parte, pegando a mim também de surpresa. Quero retirar a parte em que disse que não tinha como eu fazer nevar, mesmo que de um jeito falso, está acontecendo.
— NEVEEEE!!! – Janis comemora, aparentemente, achando mesmo ser neve.
— E com esse acontecimento, no dia 24 de dezembro de 2017, Regina Mills, fez nevar em Las Vegas. — Emma resmunga, enquanto olha para esse evento histórico. Como neve para mim, não é nenhum evento espetacular, nenhuma novidade, nenhum atrativo, meus olhos oscilam entre mãe e filha.
Janis está encantada, não sei se com a falsa neve, com a música, com as luzes, os enfeites, ou todas essas coisas. Seus braços estão abertos, os olhos fechados, enquanto rodopia e canta a plenos pulmões, a velha canção de natal.
Já a atenção da Srta. Swan, está na neve. Seus olhos claros refletem as muitas luzes de natal. Carrega um sorriso singelo no rosto, com certeza o mais bonito que já vi. Ao me perceber olhando, ela me encara.
— O que foi? – Quer saber.
— Nada, só estou feliz. – Ela me sorri, me puxa para perto e passa o braço em volta do meu pescoço.
— Essa noite está só começando, mas vou usar das palavras que Janis usou quando estávamos vindo: esse vai ser o melhor natal de todos!!! – Exclama, antes depositar um beijo estalado no meu rosto.
— Nós três compartilhamos do mesmo sentimento então. – Passo o braço em volta da sua cintura. – Vamos entrar. – Convido.
— Janis... – Chama pela filha. – Vamos entrar.
— Posso brincar um pouquinho aqui? – Pede.
— Vamos pendurar as meias, fazer nossa foto, depois você volta para brincar. – Sorri e corre ao nosso encontro. Com ela abraçada a minha cintura, caminhamos para dentro, não sem antes a Srta. Swan, pegar a garrafa de espumante que estava ali no chão e traze-la junto conosco.
— A porta da sua casa é muito alta. – Comenta a Pequena Srta. Swan, ao passar pela mesma.
— É um pouco. – Concordo.
— UAU!!! – Pela segunda vez no dia, solta a onomatopeia. Para de andar para contemplar tudo que vê na sala. – Suar árvore é igual à da Kylie Jenner, mas com enfeites vermelhos! – Conta com animação. Não sei de onde ela conhece a Kylie Jenner, e sua árvore, mas tenho muita certeza que o tal Killian, está envolvido nessas apresentações.
— Gostaria de saber, quantos montes de mil, você gastou com essa sua brincadeirinha de natal. – Emma resmunga.
— Nenhum monte, Srta. Swan, trabalho com transferência, não com dinheiro físico. – Dou de ombros.
— Nos padrões Regina Mills, de dinheiro, tudo isso custou caro ou barato? – Penso um pouco a respeito.
— Barato. Confesso que achei que fosse gastar mais. – Não fala nada sobre, só balança a cabeça negativamente.
— Gostei desse tapete peludo, parece bem confortável para deitar, tirar as roupas e... – Antes que termine a frase, cubro sua boca com minha mão.
— Eu já entendi, Srta. Swan, e tenho certeza que você não quer que a sua filha, entenda. – Ri da minha bronca.
— Dormir, era o que eu ia dizer. – Conclui. – E caso minha filha não estivesse ocupada demais, encantada com a casa do Papai Noel, ela falaria para você que gosto de dormir sem roupas. – Bom, sua resposta acaba me deixando um pouco sem graça. – Mas sim, com certeza antes de dormir, eu faria com você, isso que você está pensando. – Antes que eu possa lhe responder, ela afasta-se de mim. Vai até a poltrona vermelha que faz parte da minha decoração, a arrasta para frente da lareira, tira as meias que estavam penduradas sobre a mesma, vem ao meu encontro, pega as meias que trouxeram, e as pendura em seus devidos lugares. – Sente-se ali, Srta. Mills. – Aponta para a poltrona, enquanto ajeita sua Polaroide sobre minha mesa de centro. Como percebe que não me movo, tira a atenção do que faz, e olha para mim. – Pode ser nesse natal ainda. – Volta a apontar. Antes de fazer o que me pede, lhe rolo os olhos. – Janis, sente-se em um braço da poltrona. – Dessa vez, seu pedido é atendido prontamente.
— Por que sua lareira é diferente? – Janis me questiona, enquanto olha para trás, para ver a mesma.
— Porque esse tipo de lareira não agride o meio ambiente. É ecológica. – Tira os olhos de lá e me encara.
— Não entendi nada. – Sua sinceridade me faz rir. – Mas estou preocupada, porque não tem chaminé. Como o Papai Noel vai descer? – Penso um pouco a respeito.
— Em casas que não têm chaminés, ele entra pela janela. Pelo menos foi o que ele me disse. – A princípio não fala nada, só passa os olhos pela casa.
— Mas as paredes da sua casa são todas feitas de vidro, não tem nenhuma janela. – Confesso que não tinha pensado a respeito.
— Eu sei. – Cutuco seu nariz. – Por isso dei uma chave da porta da frente para ele. – Sorri, aparentemente aliviada.
— Parem de tagarelar, olhem para câmera e em pensamento, contem até dez, depois sorriam. – A nossa mais nova fotógrafa, pede, enquanto se ajeita no braço vago da poltrona. Como não tenho muito o que argumentar, faço o que me foi pedido. Repetimos o procedimento de novo, de novo, de novo, mais uma vez e de novo. Fizemos fotos de todos os tipos, na última, elas acabaram parando sobre minhas pernas, abraçadas a mim. Por fim, a Srta. Swan se deu por satisfeita, e foi ser feliz com a sua câmera, longe da minha poltrona.
— Então, pequena Srta. Swan, me diga, o que você quer ser quando crescer? – Ela continua sentada em minhas pernas, nesse momento, faz carinho em meu rosto.
— Uma astronauta. – Abro a boca para incentiva-la, porém, vejo que ainda não terminou. – E uma cientista. – Me entrega o boné que estava usando, mexe a cabeça de um lado para o outro tentando arrumar os cabelos, e se põe de pé. Põe as mãos na cintura e me encara. – E uma diva do pop, como a Queen Bey. – Então caminha como estivesse em uma passarela, mexendo os quadris, passadas largas, cruzando uma perna na frente da outra. Aparentemente está imitando sua diva Beyoncé. Quando chega ao final de sua passarela, ou palco imaginário, joga os cabelos de um lado para o outro e volta-se para mim. – Eu vou cantar no intervalo da final do Super Bowl. – Fala com uma certeza indiscutível. Me resta sorrir e aplaudi-la.
— Janis, não fale essas coisas para Srta. Mills. – A Srta. Swan se mete na nossa conversa para ordenar tal coisa a filha.
— E por que não? – A garota questiona o que eu também quero saber.
— Porque é bem capaz de ela mandar lá para casa um ônibus espacial, um laboratório, a Beyoncé em pessoa para ensina-la, ou todas essas coisas juntas. – Ao ouvir tal coisa, Janis arqueia as sobrancelhas.
— Isso é verdade? – Ela questiona.
— Não, pequena Srta. Swan, isso não é verdade. – Sua cara de descontentamento e seus ombros que caem, me fazem rir. – Mas...
— Sem mas. – Antes que eu possa continuar, sou interrompida pela Srta. Swan. – Janis, o que nós conversamos antes de sair de casa? – A garota suspira, enquanto faz cara de cão perdido na mudança.
— Não seja folgada. – Resmunga.
— Isso mesmo, vejo que você lembra, então não faça. – Emma está aborrecida, vejo na sua testa franzida, no olhar duro que dá a filha e na voz firme. Está exatamente como estava no dia do parque de diversões, quando Janis ganhou todos os balões. Bom, naquele dia eu interferi, e muito embora tenha vontade de fazer o mesmo hoje, concluo que é melhor não. Não posso de jeito algum, tirar a autoridade dela como mãe, muito embora eu ache um absurdo Janis ganhar bronca por esse motivo.
— Desculpa. – A garota volta a resmungar.
— Não tenho problema. – Tento amenizar, e ao fazer tal coisa, também viro vítima do olhar duro da Srta. Swan.
— Tem problema sim. – Esbraveja. – Você já pode ir brincar lá fora agora. – Aponta em direção a saída.
— Chata! – Tenho que me conter para não rir, quando vejo que as feições da pequena Srta. Swan, quando se aborrece, são as mesmas da sua mãe. Na minha opinião, elas já são muito parecidas, mas zangada, Janis fica uma cópia mirim da sua mãe. Chateada, ela sai de cara fechada, resmungando coisas que eu não consigo entender, enquanto sua genitora, acompanha tal coisa com as mãos na cintura, também resmungando coisas que eu não consigo entender.
— Está rindo de quê? – Bom, já que Janis não está mais por aqui, agora eu sou o novo alvo da furiosa. Dou de ombros e me ponho de pé, vou até a mesa de centro, onde pego minha taça de espumante e me sirvo do mesmo.
— Não estou rindo de nada, Srta. Swan. – Dou de ombros, enquanto tento permanecer séria.
— A culpa é sua! – Aponta para mim. Seu jeito todo irritado, estressado, não me deixa permanecer séria.
— Dessa vez, sou inocente, eu não fiz absolutamente nada. – Respondo rindo.
— Mas você iria falar. – Bebo minha espumante, enquanto ela está ali, parada, braços cruzados, olhar irritado, esperando para brigar comigo. Depois de terminar minha bebida, deixo a taça sobre a mesa e lhe dou atenção.
— Srta. Swan, você precisa saber de uma coisa. Sabe aqueles cachorros de raça pinscher? Você me lembra um deles, late, late, late, mas é inofensivo. Se a gente bate o pé, ele já sai de lado. – Minha comparação primeiro a deixa boquiaberta, depois parece irrita-la mais.
— Não tenho culpa se quando você fica brava, se transforma em um dinossauro bravo e feroz, que aterroriza a todos que estão em sua volta. – Rebate como uma criança que acabou de se sentir ofendida. Tal coisa me arranca uma gargalhada.
— Lei da selva, Srta. Swan. É melhor ser temida do que amada, já ouviu falar? – Ela já não parece tão irritada assim, na verdade, parece se esforçar para não sorrir. – Vamos lá, pode rir, eu sei que você quer rir. – Ela rola os olhos. – Seus cinco minutos de irritação já acabaram. Não me deixe preocupada. – Tento de novo, e funciona. Ela descruza os braços e junto com isso, desfaz o bico.
— Suas tentativas de piadas são terríveis. – Resmunga comigo. – Sua sorte é o som das suas risadas, que preenche meus ouvidos de um jeito que é impossível me manter indiferente. – Suas palavras ganham de mim um sorriso. Ganhariam também um suspiro, mas para não parecer tão boba, eu consigo conte-lo.
— Emma Swan não é só sacanagem, é poesia também. – Meu comentário a deixa sem graça.
— É o que acontece quando um pinscher inofensivo, se apaixona por um dinossauro feroz. Ele se declara, e em troca, ouve uma bobagem. – Resmunga e de novo me faz rir.
— Você sabe que eu não sou adepta a palavras bonitas e sentimentais, mas obrigada, Srta. Swan, saiba que pequenos gestos seus, também não passam despercebidos por mim, nem por meus sentimentos. – Me sorri de volta.
— Gosto do seu jeito exótico de deixar subentendido que você também gosta de mim. – Ela pega um cartão ou algo do gênero que tinha deixado sobre a mesa, põe atenção ali por alguns segundos e então me estende o mesmo. – Para você. – Curiosa, o pego de imediato, e acabo esboçando um sorriso ao ver do que se trata. “Natal da família Swan Mills”, é o que está escrito aqui, logo abaixo, tem uma das fotos que acabamos de fazer. A que as duas estão sentadas nas minhas pernas me abraçando, foi essa que ela escolheu. – Para você nunca esquecer de nós, dessa noite, ou algo assim. – Parece um pouco sem jeito. Tiro a atenção da foto e a encaro.
— Tenha a certeza que eu não vou precisar de fotografias para lembrar de qualquer coisa que envolva vocês, essa noite, ou esse último mês, mas obrigada, Srta. Swan, saiba que já tem muito valor sentimental. – Vou até a árvore de natal, onde arrumo um lugar para pôr o retrato. Sorrio abertamente para ele, enquanto o admiro.
— Veja só, o natal faz mágica mesmo, até o dinossauro mais feroz, ele consegue deixar sentimental. – A provocação barata da Srta. Swan, não me abala. Continuo admirando meu presente, sem disfarçar que estou fazendo.
Sabe quando você olha para alguém, e tem a impressão que conhece esse alguém desde sempre? É assim que me sinto olhando para esse retrato. Sinto como se essas duas pessoinhas, fossem velhas conhecidas. Sinto como se elas fossem parte da minha vida, como se já fizéssemos isso há muito tempo.
De repente me dou conta que para nos sentirmos em casa, não precisamos de um lugar físico, uma residência fixa, uma morada, precisamos sim de pessoas. Em casa, pela primeira vez em muito tempo, é assim que me sinto, em casa.
– Se eu soubesse que ficaria olhando para foto o resto da noite, teria deixado para lhe dar bem mais tarde. – A implicância da Srta. Swan, me faz rolar os olhos. Me volto para ela e a vejo sentada sobre o sofá, um braço apoiado no encosto do mesmo, enquanto olha para trás, para ser mais precisa, olha para mim.
— Encha as nossas taças, Srta. Swan. – Lhe peço, enquanto caminho até ela.
— É para já, madame. – Ela ri, enquanto faz o que lhe foi pedido. Penso em perguntar do que está rindo, mas sei que não preciso, ela vai falar. – Eu sou muito rica mesmo... – Ela começa. – Vou beber Veuve Clicquot, jantando pizza. – Balanço a cabeça negativamente para o cardápio que ela escolheu para o nosso natal.
— Continuo achando que devemos substituir a pizza por outra coisa. – Sento-me ao seu lado, e pego a taça que me é entregue.
— Não, vamos manter a tradição, hoje é noite de pizza. – Volto a balançar a cabeça negativamente.
— Nunca ouvi falar sobre essa tradição que envolve pizzas no natal, Srta. Swan. – Ela me dá de ombros.
— Como já lhe falei algumas vezes enquanto debatíamos sobre o cardápio, é uma tradição pouco conhecida, mas podemos chamar de tradição da família Swan. Essa que vos fala foi quem fundou, então vamos respeitar por favor. – Tem como não balançar a cabeça negativamente para esse ser? – Além do mais, seus cardápios com certeza são muito cheios de frescuras, com nomes difíceis, que muito provavelmente, envolvem muitos garfos, facas e colheres. Cada um para comer tal coisa, e todo esse clichê de gente rica. – Tenho certeza que está tentando me provocar, mas o que consegue, é me arrancar um sorriso irônico.
— Veja só, a mulher que faz pouco caso de todas essas coisas, arrotando Veuve Clicquot. – Meu comentário a faz rir.
— Não se pode ser perfeita, Srta. Mills. – Dá de ombros. – Vamos brindar?! – Meio que sugere, meio que questiona.
— E ao que você quer brindar? – Questiono e ela nem pensa a respeito.
— Ao que quer que tenha trazido você para cá. – Estende sua taça.
— Bom, tecnicamente, o avião foi quem me trouxe, mas como não soa muito bem brindar a tal coisa, que tal brindarmos ao acaso? – Me sorri.
— Você está muito piadista hoje, preciso me acostumar com essa versão. – É o que me responde. – Ao acaso. – Junto minha taça a dela, as fazendo tintilar.
— Ao acaso. – E ao professor da Srta. Swan, que não ensinou ela a dirigir corretamente. Claro que essa parte do brinde, faço só mentalmente, porque até eu estou achando que estou piadista de mais. Tenho medo que isso me contamine.
Bom, deixo esse pensamento de lado, faço companhia ao milagroso silêncio que vem da Srta. Swan, termino minha taça, a coloco sobre a mesa e resolvo que está na hora de entrar em um assunto um pouco sério. Não seria sério para qualquer pessoa, mas quando se trata da Srta. Swan e sua aparente aversão aos meus presentes, ele acaba se tornando sério. Coço a garganta chamando a atenção dela para mim, e lhe dou um sorriso simpático, sei que esses sorrisos a deixam mais maleável.
— Então, como está seu humor? – O sorriso que ela me retribuía, imediatamente se desfaz.
— Por quê? – Questiona, enquanto me olha com desconfiança.
— Eu lhe fiz uma pergunta, Srta. Swan, gostaria que me desse uma resposta. — Peço. Ela me analisa por alguns segundos, e tal coisa parece a deixar ainda mais desconfiada. Coça a cabeça, abandona sua taça ao lado da minha e volta a me encarar.
— Por enquanto está ótimo. Feliz e saltitante. – Responde enquanto me analisa. — Por quê? – Tenho quase certeza que ela vai acabar irritada, mas eu sou um dinossauro feroz, certo? Sei que ela pode até não gostar no início, mas tenho quase certeza que depois vai aceitar.
— Gostaria de dar um presente a Janis, porém, quero a sua aprovação antes. – Se ela já estava séria, agora ficou ainda mais. Seus olhos estão presos nos meus, como se tentassem invadir minha mente para saber do que se trata.
— Que tipo de presente? Porque se está pedindo minha autorização, tenho certeza que é algo exagerado. – É o que me responde.
— Não é algo exagerado. — Lhe garanto.
— Como se você conhecesse a palavra limites, para poder me garantir tal coisa. — Parece pensar alto.
— É uma coisa boa, garanto a você. – Ela continua séria, sem nenhum vestígio de brincadeira.
— Tenho certeza que além de ser uma coisa boa, é uma coisa cara. — Conclui, e me faz rolar os olhos.
— Para mim, não é nem um pouco caro. – Agora ela faz vomitar.
— Duvido que exista algo nesse mundo, que você considere caro. Porém, eu sou uma reles mortal, como outra qualquer, caminhando nesse mundo de meu Deus. E eu não tenho nada contra você ser rica, gosto muito de ser tratada a Veuve Clicquot, inclusive, mas acontece que se você começar a tratar Janis com essas coisas absurdamente caras, ela vai pensar que pode ter qualquer coisa, e nós duas sabemos que ela não pode e... — Não deixo que continue seu discurso um tanto quanto moralista, levou minha mão até a sua e a afago.
— Confie em mim, juro que é algo bom, e algo que ela não vai de jeito algum, pensar que pode tudo. — Seus olhos acabam parando no carinho que minha mão faz na sua. Suspira e entrelaça os dedos aos meus.
— Você não comprou o Papai Noel de verdade, as renas dele, ou coisa assim, né? — Me faz rolar os olhos.
— Apesar da sua pergunta ser completamente absurda e sarcástica, não Srta. Swan, eu não comprei. — Lhe asseguro.
— Nem um ônibus espacial, um laboratório, ou a Beyoncé, certo? — Minha resposta é outro rolar de olhos. — Você não trouxe uma piscina de dinheiro para Janis nadar dentro também não, né? — Já para essa resposta, eu não posso rolar os olhos, já que pensei seriamente em tal coisa. Na verdade, até fui ao banco e consegui retirar uma quantia considerável para fazer acontecer, porém, não tenho certeza se farei mesmo, já que visivelmente, isso parece inaceitável para a Srta. Swan. — Ah meu Deus, você fez isso. Eu não acredito que você fez isso, Srta. Mills, você por um acaso tem noção da realidade? – Ah sim, a srta. Pinscher está de volta. Sei que vai latir muitas palavras contra mim, além de fazer outro dos seus discursos. — Janis não vai participar de jeito nenhum dessa ostentação. Já pensou ela contando sobre tal experiência na escola? As professoras vão achar no mínimo, que estou metida com drogas. — Está visivelmente irritada, tão irritada que até solta a minha mão. A verdade é que tal drama, me faz ter vontade de rir, mas como sei que vou irrita-la ainda mais, resolvo permanecer séria, e para deixa-la mais maleável, passo meu braço em volta de seus ombros e a trago para perto. — Eu sei o que você está fazendo, e quero dizer que não vai funcionar. — Acabo sorrindo e beijo seu rosto, o que a faz suspirar. — Nem que você tire suas roupas agora mesmo. — Já não tem mais tanta convicção em sua voz. Volto a beijar seu rosto, faço isso devagar, arrasto os lábios pelo seu maxilar e deposito outro beijo. — Você é o diabo. — Está de olhos fechados, a voz mansa.
— Se você me permitisse tal coisa, Srta. Swan, ficaria lhe devendo um favor. — Sussurro em seu ouvido, o que arranca dela um longo suspiro.
— Eu odeio você. — É a resposta que me dá. Me afasto rindo, enquanto ela permanece de olhos fechados.
— Gostaria de saber se eu tenho a sua permissão. — Fica em silêncio por alguns segundos, volta a suspirar, abre os olhos e me encara.
— Eu não vou participar disso, não vou mesmo. — Me responde. — E se eu tiver algum tipo de problema quanto a isso, eu vou até Nova York, invado sua casa, seu escritório, o lugar que você estiver, e você quem vai resolver. — Esbraveja.
— Acho uma boa ideia, assim resolveremos dois problemas de uma vez só. — Pisco para ela, que abre a boca para me responder, mas acaba não falando nada.
— Esse é o melhor natal de todos! — Janis que até então estava na rua se divertindo com a decoração natalina, corre e pula pela minha sala. — O que vocês acham de fiarmos acordadas, para esperar o Papai Noel? — Dá a ideia. Como a Srta. Swan, está de bico comigo, não responde nada.
— Eu acho que apesar de ser uma boa ideia, não podemos fazer isso. Papai Noel é muito exigente com esse tipo de coisa, ele só passa para deixar o presente, quando a criança está dormindo. — Conto.
— Mas vai demorar muito para chegar amanhã. — Reclama. — Queria brincar com meu presente hoje.
— Não muito. Nós jantamos, você deita, dorme e pronto. Quando acordar já é amanhã. — Tento anima-la.
— Queria que fosse hoje. — Resmunga com desânimo.
— Bom, infelizmente não é hoje, por outro lado, eu tenho um presente de natal para você. — Seus olhos crescem e ela me sorri.
— E você pode me dar hoje? — Afirmo com a cabeça, e seu sorriso cresce.
— Posso sim. — Retribuo seu sorriso.
— Eu não vou mesmo participar disso. — Emma meio que resmunga, meio que esbraveja. Tenta levantar do sofá, mas não permito.
— Fique, não é o que está pensando. — Lhe garanto, o que gera um olhar de dúvida nela. — Levanto-me de onde estou, e vou até a poltrona, minha bolsa está ao lado da mesma. Tiro de lá o presente de Janis, e volto para o lugar aonde estava, ao lado da Srta. Swan. — Venha, sente-se conosco. — Convido Janis, que sorri e joga-se no colo da mãe, ajeitando-se ali. — Você sabe que para ser uma astronauta, uma cientista, ou até mesmo uma diva do pop, você tem que estudar, não sabe? — Afirma com a cabeça. — Estudar muito, e sempre. Fazer as tarefas, não ficar faltando aula, prestar atenção na professora, certo? — Volta a concordar com a cabeça. — Mesmo que você mude de ideia, e queira ser outra coisa, não importa o quê, você só vai conseguir, se você estudar muito, você sabe disso? – De novo afirma com um aceno de cabeça.
— Sim, a Mami sempre me diz essas coisas. — Lhe sorrio.
— Promete que você nunca vai esquecer? — Peço.
— Prometo. — Responde de imediato.
— Certo. Então está aqui o seu presente. — Lhe entrego o envelope. — Eu e sua mãe, quem estamos lhe dando. — Ao ouvir seu nome envolvido no presente, Emma tenta protestar, mas balanço a cabeça, pedindo que não faça.
— É um papel? — Questiona um pouco desanimada, enquanto olha para dentro do envelope, o que me faz rir.
— É uma poupança. — Explico.
— O que é uma poupança? — Me olha com dúvida.
— Vamos colocar desse jeito, agora existe um cofre no banco com o seu nome. Nesse cofre, tem dinheiro suficiente para pagar seus estudos. — Tento explicar. — Quando você tiver completado o colegial, e tiver decidido o que vai querer ser, você vai poder pegar o dinheiro desse cofre, e vai usar para isso. — Ela sorri e olha para mãe, que no momento não sei dizer se está triste, feliz, irritada, zangada. Apenas olha para o além.
— Isso significa que a gente não precisa mais tentar juntar dinheiro para pagar uma faculdade para mim? — Questiona com a Srta. Swan, o que parece a trazer de volta do além.
— Sim, significa isso. — Talvez sua voz tenha saído um pouco embargada.
— Então nós podemos usar os cofrinhos que enchemos, para eu comprar os meus lanches, quando estiver na faculdade. — Dá a ideia.
— Podemos sim. — Janis gruda no pescoço da mãe, a abraçando apertado.
— Obrigada, Mami. — Beija seu rosto algumas vezes, me fazendo sorrir.
— Agradeça a Srta. Mills, sem ela isso não seria possível. — De imediato, a garota pula para o meu colo, e gruda no meu pescoço do mesmo jeito que estava grudada no da mãe.
— Obrigada, Regina! Esse é o melhor papel que eu já ganhei na minha vida. — Conta enquanto me beija e me faz rir.
— De nada, pequena Srta. Swan. — Faço que se ajeite nas minhas pernas e lhe encaro. — Aproveite bem esse presente. — Balança a cabeça concordando. — Quero que você saiba que você é a menina mais linda, inteligente e carinhosa que eu já tive o prazer de conhecer. E que eu nunca, nunca mesmo, vou me esquecer de você. Saiba que mesmo de longe, vou torcer por você sempre, para que você cresça e se torne uma mulher maravilhosa, que realize seus sonhos e seja muito, muito feliz.
— Não faça isso. — Emma me interrompe.
— Isso o quê? — Questiono-lhe sem entender.
— Não se despeça desse jeito. — Sua voz sai falha. — Apenas, não faça isso. – Não sei exatamente o que dizer. A verdade é que estou fazendo exatamente isso. É o certo a se fazer, não só para mim, mas principalmente para elas. Por mais que eu tenha pensado em uma saída, em uma solução para quem sabe, continuarmos nos vendo, eu não a encontro. Okay, a srta. Swan estava certa quando disse que preciso encarar a minha mãe, mas eu sei que tenho que fazer isso sozinha, tenho que deixa-las longe. Desse jeito não existirá um ponto fraco onde Cora possa atacar. Enfim, muitas coisas passam pela minha cabeça, mas resolvo não dizer nada, só balanço a cabeça em concordância.
— Você vai voltar para ver a gente, não vai? — Sua voz chorosa, contagiou a da filha.
— Bom... – levo a mão até os cabelos dela. Meus dedos penteiam uma mecha que está na frente do seu rosto, para trás. – Eu não posso lhe dizer quando eu vou voltar, mas posso lhe dizer que pretendo voltar. Talvez você já esteja crescida e nem lembre mais de mim. – Por fim, cutuco seu nariz.
— Vai demorar muito tempo até eu crescer, volta mais rápido, por favor. – Está praticamente me implorando. Suspiro enquanto penso em uma resposta para lhe dar. Seria injusto eu mentir e dizer que vou voltar, quando não sei se isso será mesmo possível, mas também me parece tão injusto chateá-la.
— Vamos fazer assim, enquanto eu não volto, nós nos falamos por telefone. O que você acha? – É a solução que encontro.
— Você promete que vai me ligar sempre? – Me pede. Seus olhos claros estão marejados.
— Prometo que vou ligar sempre. – Dou minha palavra.
— Jura de dedinho? – Estende o dedo mindinho para mim, me fazendo sorrir.
— Juro de dedinho, pequena Sra. Swan. – Prendo meu dedo ao dela, fazendo o solene juramento. Pelo sorriso que ela esboça, parece que está satisfeita. Sem que eu espere, se joga para cima de mim e me abraça.
— Eu amo você, Srta. Mills. – Se declara enquanto aperta os braços em mim. Sua inesperada declaração, me deixa emocionada, mexe com meu corpo e com a minha alma.
— Saiba que o sentimento é mutuo, Janis. – Retribuo seu abraço do jeito que posso, e enquanto beijo o topo da sua cabeça.
— O que significa isso? – Afasta-se para que possa me encarar. Seus olhos claros estão atentos em mim, esperando uma resposta.
Sabe quando você passa muito tempo longe de declarações, de sentimentos bons, de palavras boas? Você acaba se acostumando tanto com isso, que quando momentos como esse acontecem, acaba se tornando muito difícil, pôr as palavras para fora. Não porque o sentimento não existe, porque ele existe, só é difícil expressa-lo.
— Significa que ela também ama você. – Sou ajudada pela Srta. Swan, que até então, assistia a tudo calada. Não faço ideia do que ela está pensando, nem do que está sentindo. Está camuflando qualquer coisa em seu semblante sério.
— Sim, é o que isso significa. – Concordo. Bom, tal significado arranca da garota um sorriso largo, ela volta a me abraçar e me atingir com um ataque de beijos. Quando se dá por satisfeita, ela pula para o colo da mãe, dá início a um novo ataque na sua mais nova vítima, então se põe de pé, e enquanto sai quicando, avisa que vai brincar mais um pouco na rua, me deixando a sós com a mãe dela.
Como eu não sei o que dizer, acompanho a Srta. Swan, no seu estranho silêncio. Me pergunto se ficou chateada com o presente que dei a Janis, ou se ficou chateada porque não disse com todas as palavras para a sua filha, que também a amo. Talvez tenha sido por essas duas coisas, ou talvez por coisa nenhuma.
Arrisco olhar para ela, seus olhos miram a lareira e refletem o fogo que sai da mesma. Confesso que gostaria de saber o que está pensando, desse jeito poderia iniciar uma conversa sobre o tema. Como não sei, resolvo continuar quieta e esperar que ela dê o primeiro passo.
Estico o braço para alcançar a garrafa de espumante, e volto a nos servir. Tranquilamente, bebo a minha taça, enquanto ela ainda nem tocou na dela. Como esse jogo do silêncio está me deixando desconfortável, largo minha taça e faço menção de levantar para buscar uma nova garrafa de espumante, e é nesse momento que ela resolve pôr fim aos muitos minutos de silêncio.
— Você não precisava ter feito isso. – Sua voz sai um pouco falha.
— Tenho consciência de que não precisava, mas eu quis. – Volto a me acomodar no sofá. — Aceite, por favor, estou dando com a melhor intenção possível. Deixe o futuro de Janis garantido. – Lhe peço, em resposta ganho um longo suspiro.
— Eu ganhei um dinheiro bom com esse contrato com Tinker, pretendia guardar para Janis. — Me conta algo que eu já sei.
— Eu sei que ganhou, e você sabe que esse dinheiro não supriria todo um curso. — Respondo. — Sei que conselhos não deveriam ser dado, mas posso arriscar um? – Ela tira os olhos da lareira e me encara.
— Vá em frente. – Vejo que ela não parece chateada, então resolvo falar.
— Uma vez você me disse que não sabe se quer continuar morando em Las Vegas. Talvez você deva pensar em pegar esse dinheiro, e começar de novo. – Sugiro. — Temos hotéis em muitos lugares desse país, pesquise sobre, não causará problemas se você pedir uma transferência. O mesmo vale para a sua faculdade. – Toco-lhe a mão. — Estou lhe falando como uma amiga, que acima de qualquer coisa, quer o seu bem e o da sua filha. – Dá um pequeno aceno com a cabeça.
— Seria estranho se falasse que tenho medo? Medo de dar esse passo, medo de não dar certo? – Afago sua mão.
— Seria estranho se você me falasse que não tem medo. – Opino. — Todos temos medo de arriscar, Srta. Swan, temos medo do futuro, justamente porque não sabemos o que nos espera lá. Eu mais do que ninguém sei disso, mas você quer saber de uma coisa? — Afirma com a cabeça. — Eu estou apavorada, morrendo de medo que descubram esse nosso encontro, mas mesmo assim, não estou nem um pouco arrependida. Estou exatamente onde queria estar, com quem queria estar. — Ela suspira.
— Obrigada. — Me sorri, enquanto lágrimas represam em seus olhos. — Obrigada pelas coisas que fez por mim, e principalmente, pelo o que acaba de fazer por Janis. Não existem palavras nesse mundo, que possam demonstrar o quanto lhe sou agradecida. — Levo a mão ao seu rosto e enxugo uma lágrima que deixou cair.
— Viva bem a sua vida, e continue cuidando bem da sua filha, essa é a melhor forma de me agradecer. — Concorda com a cabeça, enquanto deixa outras lágrimas fugirem. Sem que eu espere, ela faz o que sua filha fez ainda a pouco, se joga para cima de mim e me envolve em um abraço apertado.
— Eu não quero que você vá embora. — Me pede chorando.
Enquanto uma mão afaga seus cabelos, a outra acaricia suas costas, tentando lhe confortar. O destino é mesmo irônico, não é? Há pouco mais de um mês, se eu pudesse escolher um lugar para jamais voltar a pôr os pés, o lugar seria Las Vegas. E agora me encontro aqui, com pena e pesar de dar as costas para esse lugar e ir embora.
Quando cheguei nessa cidade, estava mentalmente, sentimentalmente, morta. Algo como um desses zumbis de Hollywood, e foi nesse lugar improvável, que encontrei um antídoto para os meus males.
Lembro-me de Tinker, do quão impossível achei que seria listar algumas coisas que me fazem feliz. No presente momento, não preciso pensar muito sobre, para essas coisas virem a minha cabeça:
Parques de diversões me fazem feliz, principalmente quando envolvem apostas bobas em carrinhos de bate-bate, e ursos gigantes no tiro ao alvo.
Rir na cara do perigo, me faz feliz, além de me causa muita adrenalina, e fazer minhas unhas machucarem a mão alheia.
Fugir de eventos nos quais eu não gostaria de ir, me deixa feliz, assim como pode também, me deixar surtada.
Deitar sobre o teto do carro, para observar as estrelas, me faz feliz, e caso esteja em uma boa companhia, me faz também suspirar.
Ouvir música no volume máximo, me deixa feliz, e contrariando as expectativas, quando uma pessoa não muito dotada de afinação, está ao meu lado cantando a plenos pulmões, além de me deixar feliz, faz com que eu me divirta.
Mensagens insistentes que fazem meu celular vibrar sem parar, me deixam feliz e me fazem ignorar as mesmas por um tempo, só para ver quantas mais receberei.
Las Vegas, infelizmente, ou felizmente, me faz muito feliz, por todas as coisas acima citadas, e algumas coisas mais.
Por último, não são coisas, são pessoas, e são as principais responsáveis por essa felicidade:
A pequena Srta. Swan, e toda sua felicidade genuína, toda sua inocência, toda a sua alegria, toda a vida que exala, me faz muitíssimo feliz.
E a Srta. Swan, eu poderia falar muitas coisas dela, já que de uma certa forma, o ciclo da minha felicidade, iniciou-se nessa pessoa irritante que eu odeio gostar, ou que eu gosto de odiar.
Emma poderia ser o nome de um furacão, já que por onde passa, faz bagunça. Foi pensando nisso que concluí, que nem todos precisamos de ordem. Às vezes o que precisamos mesmo, é de alguém que chegue e bagunce, ponha tudo de cabeça para baixo, que tire você da sua zona de conforto, que faça você ver que a vida vai muito além do que você estava disposta a viver, que faça você perceber que todos temos nossas dores, nossos fantasmas, nossos medos, e que ter pena de nós mesmos, não vai consertar tudo, não vai nos curar.
Ao me aproximar dela, sua bagunça mostrou-se fascinante, e sem me dar conta, eu caminhei até o meio desse furacão, encantada, deixei que me bagunçasse também. Desde então, eu já não tenho mais nenhuma certeza sobre toda a minha vida planejada. Eu não faço a mínima ideia do que vou fazer quando voltar para Nova York, mas tenho certeza de uma coisa, a Regina que chegou aqui, não é a mesma que vai voltar para lá. Volto decidida a tornar minha vida, minha de fato, a brigar, parar num manicômio se possível for, para viver o que eu quero viver, ser quem eu quero ser. Eu não quero, não posso mais com o caos da minha vida regrada. Eu preciso dessa leveza, da calmaria, que a bagunça me dá.
Por isso eu preciso ir, para me tornar livre, para me livrar dos medos, para ter confiança em mim mesma, depois disso, sei que posso voltar. Sei também, que a Srta. Swan é jovem, alegre, bonita, extrovertida, e que nesse meio tempo, pode encontrar alguém. Claro que ficaria chateada, mas entenderia. Não posso obriga-la a me esperar, mas também seria injusto firmar qualquer tipo de compromisso com ela, enquanto não me resolver comigo mesma primeiro.
— Eu gostaria de ficar, mas eu preciso ir. — Solto com o ar.
— Eu não quero perder você, e isso soa tão idiota, porque eu nem te tenho. — Está fungando.
— Você tem meus pensamentos, Srta. Swan. Você tem meus melhores sentimentos. E você tem meus sorrisos verdadeiros. — Conto. — Então sim, você me tem. E eu posso lhe garantir que você sempre vai me ter. — Tiro as mãos dela e me afasto. — Olhe para mim. — Peço e sou atendida. — Você está aqui... — Levo a mão sobre o peito. — Nesse coração que mesmo batendo dia após dia, eu achava estar morto. — Toco seu rosto, meus polegares tentam enxugar suas lágrimas. — Ele estava tão sem vida antes de você. Então você surgiu, tão cheia de vida, tão alegre, tão segura de si, tão transparente e ao mesmo tempo, tão instigante... – Lhe sorrio. – E então você o reanimou, e agora além de sangue, ele bombeia também vontade de viver. – Minha confissão a faz sorrir também, o que deixa mais uma lágrima escapar dos seus olhos. – Existe uma revolução acontecendo dentro de mim, e eu devo ela a você, Srta. Swan. Eu devo muito a você, você não faz ideia do quanto. – Está de olhos fechados, suas lágrimas voltam a cair. – E se for mesmo para acontecer, nós vamos acontecer. Aqui em Las Vegas, lá em Nova York, em qualquer lugar do mundo. Saiba que não importa o quão longe eu esteja, o quão fria eu possa parecer as vezes, você vai estar sempre comigo, na minha mente e no meu coração. – Seguro o rosto dela entre as mãos, enquanto meus polegares tentam secar suas lágrimas. – Você sabe, ambos já foram esmigalhados, feitos em tantos pequenos pedaços, que eu achei que jamais voltariam a funcionar. Foi uma grata surpresa quando me dei conta de que você, com toda sua paciência, toda sua determinação, juntou migalha por migalha, e foi colando. – Faço uma pausa para tomar ar. – Não posso dizer que eles estão totalmente prontos, porque não estão. Algumas partes, não dependem de você, dependem de mim. Sou eu quem tenho que colar e sei que quando isso acontecer, eu serei uma pessoa melhor, para mim e para você. – Não me responde nada, só volta a jogar-se para cima de mim e me abraçar. Me envolve em um abraço apertado, e de olhos fechados, a retribuo do mesmo jeito.
Estando no lugar onde estou, sinto que posso vencer o mundo. Me sinto bem, me sinto revigorada, me sinto querida, e me sinto amada. De novo tenho a sensação de estar em casa, de estar segura, tenho a certeza que nenhum mal poderá ser me feito, nenhuma dor poderá me ser causada, sempre que eu estiver aqui, nesse abraço casa, envolta por esses braços, protegida por esse abraço.
— Eu vou esperar você voltar... – Começa, sua voz bastante falha devido ao choro. – E se não voltar, eu você até você. – Continua. – Eu vou grudar em você, mais do que Despacito grudou na mente da humanidade. – Ela me faz sorrir, beija meu rosto e afasta-se só o suficiente para que possa me olhar. — E saiba que eu estou falando muito sério, Srta. Mills. – Tenta se livrar das lágrimas, enquanto me sorri.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Não espero nada menos de você, Emma. – Me olha com surpresa, provavelmente porque acabo de pronunciar o nome dela, sem o Srta. Sem o sobrenome. Muito embora nos meus pensamentos, muitas vezes eu use apenas seu nome, confesso que é um pouco estranho fala-lo.
— Você me chamou de Emma. – Ela me sorri, como se eu tivesse acabado de lhe fazer um elogio e tanto. Finjo descaso e lhe dou de ombros.
— É o seu nome, não é, Srta. Swan? – Agora ela me rola os olhos.
— Tem certeza que você vai mesmo gemer “Oh, Srta. Swan”, ou invés de “Me fode mais, Emma”? – Pronto, a magia do natal, das palavras bonitas, das sentimentalidades, está desfeita, voltamos para a normalidade das perversidades dessa mulher.
— Cale a boca. – Lhe peço, um tanto sem graça, o que a faz rir.
— Por que você não vem calar? – Tenho certeza que isso foi uma sugestão e não faço ideia do porquê, estou pensando sobre.
Meus olhos acabam parando em sua boca, e eu acabo lembrando do quão bom foi beijar ela, e bom, a quem eu quero enganar? Esse é o motivo por ela estar aqui, certo? Todo o resto é um entretenimento.
O fato é que não sei exatamente como aconteceu, mas enquanto pensava, invadi o espaço da Srta. Swan, fechei meus olhos, e no presente momento, meus lábios estão juntos aos dela.
A ouço suspirar, sinto seus dedos emaranharem meus cabelos, sinto também o bater forte do meu coração, e a fraqueza em minhas pernas. Movo os lábios contra os dela, sentindo de novo a macies, a suavidade, a delicadeza com que me retribuem. Apesar da intensidade, eles movem-se lentamente, se descobrindo, ou redescobrindo, explorando, se entregando conhecendo-se, se perdendo e se encontrando.
Timidamente, a ponta de sua língua contorna meus lábios, tentando descobrir se pode ir além. Respondo levando a mão até a sua nuca, a trazendo mais para mim, tentando tornar nosso contato ainda maior. Ela suspira, aperta os dedos em meus cabelos, sua língua então, ocupa minha boca, e é retribuída da mesma forma, tornando nosso contato ainda mais íntimo, mais quente e avassalador...
— Eeew, eew, ew!!! Que nojento! – Tudo o que eu estava sentindo, todas as reações que o beijo trocado estava causando em meu corpo, todo o calor desse clima natalino, absolutamente tudo, vem abaixo quando a voz da pequena Srta. Swan, faz-se audível aos nossos ouvidos. Nesse exato momento, penso que Papai Noel poderia muito bem presentear-me com um buraco, para eu pôr minha cabeça dentro, mas como eu sei que não vai ser possível, me limito a esconder a rosto no vão do pescoço da Srta. Swan, e deixar que ela resolva o resto.
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