Ricordare è Vivere
33 Caindo a Ficha
Notas iniciais
Sara entra na sala usando roupas limpas. Os cabelos ainda úmidos e o curativo na mão denunciam que tentou, ao menos fisicamente, cuidar de si. Jim está sentado no sofá com uma caneca de chá fumegante em uma bandeja.
JB (gentilmente):
— Fiz chá de camomila. Acho que ajuda... ou pelo menos engana.
Ela sorri de leve, pega a caneca e se senta ao lado dele.
SS: Obrigada... por tudo.
SS (voz embargada):
— Eu só queria... comemorar dois anos com o homem que amo.
Fiz tudo com carinho. Planejei cada detalhe. Queria ver o sorriso dele.
E no fim... eu estava sozinha. Com a comida fria e a cama arrumada demais.
[Ela respira, solta o ar com dor.]
SS: Ele mentiu pra mim, Jim. De novo.
Não é nem só por ter ficado com a Heather... é o fato de esconder, como se eu não tivesse direito de saber.
Como se... minha dor fosse menos importante que a dela.
JB (com empatia):
— Ele errou feio. E não é a primeira vez que você paga por isso.
Mas você é forte, Sara. Sempre foi.
SS (olhando para o nada):
— Eu não quero ser forte o tempo todo.
Só queria alguém ao meu lado. Sincero. Alguém que escolhesse ficar.
Brass coloca a mão sobre a dela com delicadeza.
JB: Você merece isso.
E se ele for esse alguém... vai ter que provar. Com atitudes, não palavras.
E se não for...
— (faz uma pausa e sorri triste)
— ...você ainda vai ser a mulher incrível que sempre foi. Só que livre.
Silêncio confortável por alguns segundos. Sara segura a caneca com as duas mãos, como se buscasse força no calor que dela emana. Jim a observa, respeitando seu tempo.
JB (com voz suave):
— Sei que sua mente deve estar um turbilhão agora.
Se quiser desabafar, sou todo ouvidos. Sem julgamento, sem conselhos prontos. Só eu e você.
Sara inspira fundo. Seus olhos começam a marejar, mas ela segura as lágrimas.
Ela está sentada no sofá com a caneca de chá nas mãos. O olhar perdido denuncia o cansaço emocional. Jim permanece ao seu lado em silêncio respeitoso. Então, ela suspira fundo e começa a falar, sem encarar diretamente o detetive.
SS (voz embargada):
— Jim… quando conheci o Grissom, eu já estava totalmente desacreditada em romance. Amor então... achava que era só coisa de livro ou de filme.
Namorei um cara chamado Adam Rusty... Peguei ele com duas mulheres na cama.
Quando apareceu no meu apartamento como se nada tivesse acontecido... eu briguei com ele. Resultado: apanhei.
Naquela hora, me vi na cena que mais me marcou na infância — meu pai batendo na minha mãe.
Ela pausa, traga o ar devagar, como se revivesse a dor.
— Tive certeza que não queria isso pra mim. Terminei ali mesmo. Só fui reencontrá-lo anos depois, quando estava andando na rua com o Grissom.
Depois do Adam, decidi que não levaria nenhum relacionamento a sério. Só que…
— (sorri brevemente com tristeza)
— …dei de cara com aquele supervisor de olhos azuis.
Ela finalmente olha para Jim, os olhos marejados.
— Me apaixonei na hora. Mas olha... não sei se tem mulher nesse mundo que aguente tudo o que Grissom já me fez.
Depois de anos me negando, ele resolveu que era hora de ficarmos juntos. Eu estava tão feliz…
E aí, do nada, ele decide passar 30 dias fora — sem nem me falar antes.
Na época, achei que era a primeira vez que ele me ignorava... mas eu estava errada. Era só o começo.
[Ela engole em seco.]
— Descobri que enquanto eu quase morria... ele estava com ela. Com a Heather.
Nunca tinha ouvido falar dela até esse caso.
Quem me contou foi a Catherine — e fez questão de destacar como eles tinham química.
Jim respira fundo, mas permanece quieto. Sara continua.
— Voltei do hospital e dormi direto. Mas quando acordei… fui até a lavanderia.
A roupa dele — a do plantão — estava lá, no varal.
Ele não veio pra casa como disse. Estava com ela.
A funcionária não mentiu. Ele é que tentou esconder.
[Sara deixa escapar uma lágrima.]
— E agora… nesse caso… me doeu o jeito como ele estava.
Vi nos olhos dele o sofrimento por ela…
Jim, sangrava ver isso. Parecia que tudo que vivi até aqui era uma mentira.
Cada descoberta, uma facada. Cada silêncio, um adeus disfarçado.
[Ela se inclina para frente, como se não conseguisse sustentar o próprio corpo.]
— Se ele tivesse me contado... qualquer coisa. Se dissesse: “Sara, estou indo atrás de um palpite”, ou que precisava ajudar uma velha amiga...
Eu entenderia. Eu juro que entenderia.
Mas ele mentiu.
— Combinamos de comemorar nosso aniversário de namoro durante o plantão...
E ele optou por passar a noite com ela.
— Quando voltei ao laboratório, só se falava em como ele combinava com a Heather.
Cada vez que ouvi, me senti um lixo.
E o pior: ele veio até mim e disse que era bobagem minha.
Que eu precisava agir como adulta…
Disse que só estava ajudando uma amiga…
[Ela finalmente ergue a cabeça, com os olhos firmes — agora, mais dor que lágrima.]
— Jim... esse homem me mostrou o que é o sentimento amor.
O que é ter uma família.
Mas hoje... ele me tirou tudo isso.
[Ela faz uma pausa longa.]
— Lembra do depoimento do Dr. Lury?
O Grissom disse que tinha medo de que tirassem tudo dele...
Mas foi ele quem tirou tudo de mim.
— Me deu uma vida.
E num piscar de olhos... me tomou.
[Ela aperta os lábios, quase sem voz.]
— Juntando tudo, hoje eu entendo: ele não me ama.
Talvez tenha ficado comigo por pena da minha história.
Grissom nasceu pra ser livre. Pra voar sozinho.
[Ela respira fundo, o olhar se perde novamente.]
— Apesar de tudo... vou amar esse homem pro resto da minha vida.
Jim observa Sara em silêncio por alguns segundos após o desabafo. Visivelmente tocado, ele se inclina um pouco para frente, tentando encontrar as palavras certas.
JB (baixando o tom):
— Eu... não sei nem o que dizer.
Sara, eu realmente acredito que aquele cabeça-dura te ama. Só que, no impulso de ajudar, ele... enfiou os dois pés pelas mãos.
Sara dá um meio sorriso dolorido e se levanta, ajeitando o casaco.
SS: Pai... obrigada por me ouvir. De verdade. Você é uma das melhores pessoas que surgiu na minha vida.
Ela se aproxima e dá um beijo leve na testa dele, como uma filha se despedindo de um pai. Jim segura sua mão, preocupado.
JB: Sara, você tá falando como se não fosse voltar…
SS (com a voz baixa, contida):
— Jim… estou pensando seriamente em não voltar mesmo.
Ainda não decidi.
Essa viagem... vai me ajudar a pensar. Colocar tudo em ordem aqui dentro.
Ela toca o peito, indicando o coração. Jim se levanta, nervoso.
JB (quase implorando):
— Sara, pensa direito, por favor. Não faz isso no calor da dor. Não joga fora tudo o que vocês construíram…
SS (virando-se com os olhos marejados):
— Eu estou pensando.
E... eu amo você!
Antes que ele possa responder, ela abre a porta e sai, deixando Jim ali, parado, com o coração apertado e um nó na garganta. Ele passa a mão no rosto, visivelmente afetado.
Momento atual com Grissom na casa do capitão
Jim e Grissom estão sentados frente a frente. O ambiente está carregado de tensão. O capitão conta sobre o depoimento de Laís e todo o resto.
JB (sério, direto):
— Então me diz… me diz que aquela mulher não falou a verdade quando disse que você passou a noite com a Heather... em outro momento, não nesse de agora.
[Grissom fecha os olhos por um segundo, exausto.]
GG (baixo, mas firme):
— É verdade, Jim. Eu passei a noite com a Heather. Mas eu posso explicar…
JB (explodindo):
— Explicar o quê? Que você vem transando com ela e não é de hoje, é isso??
GG (gritando de volta):
— EU NÃO TRANSEI COM ELA!
MERDA, VOCÊ PODE ME ESCUTAR POR UM INSTANTE?
Jim o encara, respirando fundo. Grissom se recompõe e continua, aflito.
GG: Naquele dia… levei a Heather pra casa. Ela tava devastada pela história da filha. Eu ajudei ela a tomar um chá…
Ela me pediu pra ficar até pegar no sono.
Me recostei na cama. Ela me abraçou e… eu não soube como tirar ela dali sem parecer cruel. Eu estava sem jeito, só isso. Acabei pegando no sono também.
[Ele esfrega o rosto com as mãos, envergonhado.]
GG (mais baixo):
— Quando acordei… estava abraçado com ela. Saí correndo, desesperado. Me senti um lixo.
Cheguei em casa, lavei a roupa. Não queria que a Sara visse, que desconfiasse.
Mas eu juro por tudo que é mais sagrado, não aconteceu nada, Jim. Ela é só uma amiga!
JB (com amargura):
— Uma amiga com quem você já teve relações.
E que, toda vez que chega perto, você entra em transe. Fica... catatônico.
GG (defensivo):
— Eu transei com a Heather anos atrás, foi um momento isolado.
A única mulher por quem eu sinto desejo… é a Sara.
Jim se levanta. Vai até uma gaveta, pega o celular, volta e se senta com calma. Olha diretamente para Grissom.
JB: Eu pedi pra Sara conversar comigo. Ela precisava desabafar… e eu gravei.
Grissom o encara, desconfiado. Jim dá play. A voz de Sara preenche a sala.
Grissom fica imóvel. O som da voz dela o atinge como um soco. Ele fecha os olhos, visivelmente afetado. Estava atento a cada palavra que Sara falava e aquilo foi horrível. Se sentiu um monstro. Jim para a gravação.
Jim observa Grissom em silêncio. De repente, vê algo raro: lágrimas escorrem no rosto do supervisor. Grissom não tenta esconder.
GG (voz embargada):
— Brass… não tem coisa pior do que perceber que você é o responsável pelo sofrimento da mulher que ama.
Eu… eu amo a Sara. Muito.
E sou um completo babaca. Estamos juntos há dois anos… e eu nunca disse isso a ela. Nunca falei “eu te amo”.
Ela tem razão.
Ele passa a mão no rosto, limpando as lágrimas com pressa, sem sucesso.
GG (num sussurro):
— Eu fiz com ela o que mais temia que fizessem comigo…
[Pausa. Ele ergue os olhos, confuso.]
GG: Aliás… como ela sabia disso?
JB (baixo, como quem entrega algo delicado):
— Naquele dia… ela estava atrás do vidro.
Ela viu você se abrindo com o Drº Lury.
Ela ouviu cada palavra.
Grissom se curva na cadeira como se tivesse levado um golpe no estômago.
GG (quase num soluço): Meu Deus... Eu sou um idiota completo.
Jim se aproxima e põe a mão firme no ombro do amigo.
JB (com firmeza e compaixão):
— Gil, escuta. Esses últimos dias foram duros pra todo mundo.
Ela tá machucada, sim. Mas você também tá.
Vai pra casa. Dorme um pouco. Põe essa cabeça no lugar.
Amanhã… amanhã você tenta conversar com ela.
GG (ainda em conflito):
— Mas... e se for tarde demais? Eu preciso falar com ela, Brass. Não posso deixar que tudo acabe assim!
JB: Hoje não, Grissom. Você não tá pronto.
Nem ela. Vai descansar. Respira.
Se ainda for amor — e é — ela vai te ouvir.
Grissom se levanta devagar. A dor estampada no rosto. Olha para Jim e assente, resignado.
GG (baixo): Obrigado...
[Ele sai. Jim o observa indo embora. Quando a porta se fecha, o capitão sussurra para si mesmo, com pesar:]
JB: Só queria poder dizer que ela ainda tá na cidade… mas não é a verdade.
Interior do avião ...
Sara sentada junto à janela. Fones no ouvido. Olhar distante. Uma lágrima solitária escorre no rosto enquanto a cidade desaparece sob as nuvens.
A porta se fecha com força. Grissom entra e Hank, no canto da sala, apenas levanta os olhos. Não abana o rabo. Não vai até o tutor como de costume. Fica ali, observando, quase julgando. Grissom percebe o olhar.
GG (tentando sorrir):
— Até você, Hank?
O cachorro desvia o olhar. Grissom suspira, joga as chaves em cima do balcão e caminha até a mesinha de centro.
Sobre ela, um pequeno pacote embrulhado com cuidado. Há também uma garrafa de whisky. Ele a pega sem cerimônia e gira a tampa, bebendo direto do gargalo.
Senta-se pesadamente no sofá. Com uma mão trêmula, rasga o papel do presente.
É um livro: As Aventuras de Sherlock Holmes. Em seguida, nota que dentro há um estojo aveludado. Quando o abre, encontra um cordão simples com um pingente de cowboy — discreto, mas cheio de significado.
Ele para. Respira fundo. Então vê o bilhete dobrado.
Lê em voz baixa, entre um gole e outro:
GG (voz embargada):
— "Eu descobri que era amor quando a palavra 'muito' passou a ser pequena para definir a intensidade do meu amor por você. Escolheria estar com você mesmo se tivesse outras mil opções. Parabéns pra nós por mais um ano juntos. Eu te amo. – Sara."Ele fecha os olhos. A dor é quase física.
GG (com voz quase inaudível):
— Sara... eu vou te provar que te amo... nem que seja a última coisa que eu faça...
Ele vira o resto da garrafa e a solta. O vidro rola até o tapete. Grissom tenta se levantar, mas os pés falham. Cai de lado no sofá. Fica ali, rendido à dor, ao álcool, à exaustão.
Hank se aproxima devagar. Deita-se ao lado dele, encostando o focinho em sua perna.
Laboratório Criminalístico de Las Vegas | Início do turno
Nick chega com o copo de café em mãos, checando o relógio.
NS: Gente... cadê a Sara e o Grissom?
Catherine, já folheando relatórios, responde sem levantar os olhos.
CW: Sara pediu uma licença ontem à noite. Grissom... bom, até agora nada.
Nick ergue as sobrancelhas, preocupado. Catherine pega o telefone, disca para o supervisor. O celular toca até cair na caixa postal. Ela suspira fundo.
CW: Certo, vamos dividir os casos. Nick, você fica com nesse aqui comigo — é o do armazém. Enquanto eu ligo para Jim e peço para ele verificar o Grissom.
A loira então faz a ligação...
JB: Grissom não apareceu e também não atende? Isso não é nada bom. Eu vou até a casa dele, Cath.
Brass estaciona. Vai até a porta e bate. Escuta Hank latindo atrás da porta. Bate algumas vezes, sem resposta.
JB (alto): Grissom? É o Jim! Abre a porta!
Nada. O latido de Hank fica mais inquieto. Brass pega a chave reserva debaixo do vaso e entra.
A sala está um caos. Garrafa vazia no chão, cortinas semiabertas. Grissom está caído no tapete, de bruços, abraçado a uma garrafa de whisky.
JB (assustado):
— Griss!! Pelo amor de Deus, Grissom!
Brass se ajoelha, dá leves tapas no rosto do amigo até ele murmurar algo ininteligível.
JB: Levanta, homem! Que porra é essa?
Brass praticamente carrega Grissom até o chuveiro. Liga a água fria e o coloca embaixo.
GG (despertando aos poucos):
— Merda, tá gelada...
JB (frio): É pra te acordar. Jesus, Grissom, o que aconteceu com você?
Cozinha | Momentos depois
Grissom, agora com uma toalha nos ombros e expressão devastada, segura uma xícara de café forte enquanto Hank repousa ao seu lado.
JB (duro, mas preocupado):
— Amigo, pelo amor de Deus. Por que beber desse jeito?
GG (voz rouca): Preciso responder? Liguei pra Sara vinte vezes. Vinte. Ela não atendeu nenhuma. Ela não fala comigo. Eu... eu a perdi, Jim.
JB: Eu te disse pra dar um tempo. Você devia ter me escutado.
GG (abatido):
— Vou tentar falar com ela depois do turno...
JB (suspira):
— Grissom... a Sara pediu uma licença.
GG (surpreso):
— O quê? Como assim? Eu... eu não fui comunicado.
JB: Você estava ocupado demais com Heather. Ela falou direto com a Catherine.
Grissom fecha os olhos, respira fundo e passa a mão pelo rosto.
GG: Merda, Jim. Você sabe pra onde ela foi?
JB (frio, firme):
— Sei. Mas com todo carinho que tenho por você... nesse momento, meu apoio vai pra Sara. E ela me pediu pra não contar.
GG (implorando):
— Por Deus, Jim. Só quero falar com ela...
JB (olhos nos olhos):
— Dê um tempo. Respeite a dor dela. Ouviu o desabafo... viu o quanto ela tá magoada. Agora é hora de focar no trabalho. De reconquistar com ações, não com desespero.
Grissom assente, derrotado.
GG: Não sei se consigo... mas vou respeitar.
São Francisco
O vento leve do fim da tarde acaricia os cabelos de Sara enquanto ela caminha pelas ruas familiares de São Francisco. Cada passo parece mais pesado, como se o coração estivesse sendo arrastado junto.
Depois de conversar com Paola e confirmar a visita à clínica para os próximos dias, Sara sentiu que precisava respirar, fugir por um instante das lembranças que a perseguiam desde Vegas. Sem pensar muito, seus pés a levaram até aquele lugar — onde tudo começou.
A paisagem continua a mesma. A vista para a baía, a brisa salgada, o som distante da cidade misturado ao canto dos pássaros.
Ela se aproxima da árvore onde havia se encostado naquele dia especial, tantos anos atrás.
SS (sussurrando, olhando para o céu):
— Achei aquele dia o mais lindo da minha vida...
Nunca alguém tinha sido tão educado... tão gentil... comigo.
Aquele beijo... foi tão simples e tão cheio de significado.
Ela suspira e toca a casca da árvore, como se procurasse gravar na pele a última memória de um amor que parecia desabar.
SS:
— É... foi bom enquanto durou.
A dor da saudade é silenciosa, mas cortante. Sara se permite fechar os olhos e recordar: o toque das mãos dele, a forma como ele a ouvia, os momentos de riso tímido, as discussões bobas, os olhares cúmplices.
E agora, tudo isso parecia distante demais, como um livro que ela esqueceu de terminar.
Encostada à árvore, com os braços cruzados e os olhos marejados, ela se entrega às lembranças.
Mais do que tristeza, sente frustração.
Mais do que raiva, sente a dor de quem acreditou — e apostou tudo.
SS (com a voz baixa):
— Talvez eu não tenha sido suficiente. Ou talvez ele nunca tenha deixado ela realmente ir...
O tempo passa devagar.
Ela permanece ali, como se precisasse esvaziar o coração antes de seguir.
E no meio da dor, um fio de força começa a emergir.
Porque apesar do que perdeu, ela ainda é ela. E sempre será.
Las Vegas
O silêncio no laboratório era estranho. Para Grissom, parecia ainda mais pesado que o normal. Nenhum barulho de centrífuga, nenhuma piada vinda da sala de DNA, nenhum comentário solto de Hodges pelo corredor.
Apenas o som da porta de seu escritório se fechando lentamente atrás dele.
Ele se jogou na cadeira, soltando um suspiro profundo. Diante dele, uma pilha de relatórios aguardava análise.
Sem pensar muito, começou a ler, revisar, assinar.
Pela primeira vez em muito tempo, não procrastinou. Em poucas horas, adiantou o equivalente a dois dias de trabalho.
Mas nada disso era concentração de verdade.
Cada frase que lia, cada palavra escrita, voltava a se misturar com outra voz — a dela.
“Fui feliz o tempo que ficamos juntos e desculpa ter te forçado a um relacionamento comigo...” “Você me esqueceu. Nem lembrou que eu existia...” “Deixou de comemorar o aniversário de namoro para ficar com Heather.”Ele parou de digitar. Apertou os olhos, tentando afastar a dor que essas palavras traziam. Mas não havia como.
Doía.
Porque Sara estava certa.
Ele não era bom com emoções. Sempre preferiu o silêncio, os insetos, os fatos. Mas com Sara... ela era diferente. Ele se permitiu amar. Se permitiu construir algo que nunca tinha sonhado ter. E agora tinha destruído tudo com sua cegueira.
Ele olhou para a foto em preto e branco de um besouro emoldurada na parede — um presente dela.
Fechou os olhos e a imagem dela veio viva: o sorriso meio torto, a forma como o cabelo caía no rosto quando ela estava concentrada, o olhar firme e ao mesmo tempo vulnerável.
E a dor que ele mesmo plantou ali.
GG (baixinho, para si mesmo):
— Como eu fui idiota...
Ela me avisou tantas vezes que só precisava de presença... de atenção.
Bateu o punho levemente sobre a mesa. O peso da culpa era mais sufocante do que qualquer caso que ele já havia trabalhado.
Talvez não houvesse como reverter.
Mas talvez ainda houvesse tempo de pedir perdão... de mostrar que ele estava disposto a mudar.
Ele pegou o celular, olhou a tela por alguns segundos.
Pensou em ligar.
Mas sabia: ela não atenderia agora.
E talvez ela realmente estivesse certa ao dizer que ele fez sua escolha.
Fechou os olhos.
Solitário em seu escritório, rodeado por evidências e silêncio, ele entendeu:
Nada daquilo importava se ela não estivesse mais por perto.
CORREDOR PRINCIPAL DO LABORATÓRIO CSI
A movimentação foi imediata assim que Lady Heather atravessou a porta da recepção.
Apesar da elegância discreta — vestido sóbrio, maquiagem leve, postura impecável — o impacto da presença dela era inegável.
A recepcionista sequer conseguiu disfarçar o espanto. Heather apenas sorriu e perguntou com naturalidade:
LH: O supervisor Grissom está disponível?
Foi o suficiente para o burburinho se espalhar como pólvora.
Hodges, que sempre teve uma queda por fofocas com teor escandaloso, disparou corredor adentro, animado como criança no recreio.
DH: (ofegante)
— Vocês não sabem quem veio visitar o namorado!
CW: (ergue a sobrancelha)
— Bom... não sei quem está namorando, portanto não sei quem é a visita.
DH: (faz um suspense dramático)
— Lady Heather acaba de entrar para ver o Grissom.
NS e CW: (em uníssono) QUE???
DH: (com sorriso de canto)
— Saiam daí e vejam com seus próprios olhos...
Eles não precisaram andar muito. Ao abrirem a porta, a viram vindo calmamente pelo corredor.
CW: (cruzando os braços)
— Como vai, Heather? Vejo que está... bem.
LH: (gentil, com um leve sorriso)
— Estou bem, sim. Obrigada por perguntar, Cath.
Vim falar com o Grissom... ele está na sala dele?
CW: (fria, mas educada)
— Sim, está. Tenho certeza que o Hodges não se incomodaria de acompanhá-la, né, David?
DH: (ajeitando o jaleco)
— Claro que não! Imagina...
(sorri forçado)
— Queira me acompanhar, Lady Heather.
Ela assentiu levemente com a cabeça e seguiu com a elegância de sempre, deixando um rastro de tensão por onde passava.
CW: (sussurrando para Nick enquanto observam Heather se afastar)
— Depois o Grissom não sabe por que perde tudo que tem de bom...
Heather seguia ao lado de Hodges, impecável como sempre, enquanto os dois desapareciam no corredor que levava ao escritório do supervisor.
Cath e Nick ficaram paralisados, trocando olhares de puro espanto, tentando processar o que estavam vendo. O silêncio entre eles dizia mais que mil palavras... até que:
Sofia Curtis se aproxima, segurando uma pasta de relatórios, com a expressão intrigada.
SC: (arqueando uma sobrancelha)
— Uma vez o Grissom me falou que estava saindo com alguém...
(pausa dramática)
...mas jamais imaginei que esse alguém fosse você sabe quem. A famosa Dominatrix.
NS: (ainda encarando o corredor)
— Nem eu imaginava também... e olha que trabalho com ele há anos.
CW: (mordendo a ponta da caneta, sarcástica)
— E pensar que a Sara ainda tentava defender ele. Pobre garota...
Grissom estava absorto em um relatório de toxicologia quando ouviu batidas na porta seguidas da entrada animada de Hodges, praticamente saltitando.
DH: (com um sorriso exagerado)
— Grissom, fiz questão de trazê-la pessoalmente! Uma visita ilustre merece tratamento à altura, não acha?
Grissom ergue os olhos lentamente e, ao ver Heather Kessler ao lado de Hodges, seu semblante se contrai num misto de surpresa, constrangimento e alerta.
GG: (frio, direto)
— Hodges...
A simples menção do nome, seca e carregada de significado, foi o suficiente para David entender que sua presença ali já não era mais necessária.
DH: (engolindo em seco)
— Tá... já vou indo então... bom papo pra vocês...
Ele sai rapidamente, fechando a porta com cuidado.
Heather, por sua vez, avança sem cerimônia até a frente da mesa de Grissom. Ele empurra o relatório para o lado e cruza as mãos, encarando-a.
GG: Como vai Heather?
LH: Bem, graças a você. Vim aqui lhe agradecer por tudo. Jerome e eu nos acertamos, entramos num acordo de guarda compartilhada da Alysson, estou muito contente.
GG: Fico feliz por você e não precisa agradecer, não foi nada demais.
LH: Ao contrário de mim vejo que você não esta bem. As coisas com Sara não saíram como pensava?
GG: Não! Sara terminou nosso relacionamento e no momento não quer ver minha cara de jeito nenhum.
LH: Como assim? E o trabalho? Vocês precisam se falar?
GG: Ela pediu uma licença. Eu só tenho medo que ela não volte. Não sei como vou ficar sem ela. Brass falou para dar um tempo pras coisas acalmarem, mas isso esta me matando. Errei com ela em várias coisas e quero reparar meus erros, quero provar que posso ser o homem certo pra ficar ao lado dela. Eu a amo muito!
LH: Grissom, o Brass esta certo! Sara esta ferida, dê tempo para ela. Você não tem ideia de onde esteja?
GG: Imagino que tenha ido para São Francisco, mas com certeza a amiga dela não vai confirmar.
LH: Tenha a certeza e vá atras dela, mas chegue devagar. Demonstre os seus sentimentos, fale. O tempo que você a procura será o tempo que ela vai ter para se acalmar. Tenho um compromisso e preciso ir. Desejo uma boa sorte para você !!
GG: Obrigado!
Heather se despede com um leve aceno de cabeça e sai pela porta com a mesma serenidade que chegou. Grissom fica sentado, ainda absorvendo a conversa. A presença dela trouxe um alívio inesperado: não só pela gratidão expressa, mas pelas palavras finais — um incentivo para não desistir de Sara.
O tempo passava, mas para Gil Grissom, tudo parecia parado. As manhãs eram silenciosas. A barba por fazer começava a pesar no rosto, revelando a exaustão emocional.
No laboratório, o clima havia mudado. A ausência de Sara Sidle era sentida por todos — mesmo que ninguém ousasse falar muito sobre isso.
Catherine passa por Grissom analisando lâminas ao microscópio. Ela para, hesita, e depois puxa conversa com cuidado:
CW: Grissom... quer almoçar comigo hoje? Só conversar, sem pressão.
Ele não tira os olhos da lente.
GG: Tenho muito trabalho, Catherine. Fica pra outro dia.
Ela suspira. Era a segunda vez que tentava quebrar a muralha. A primeira ele disfarçou com um “tenho um laudo pendente”. Agora, só o silêncio e a sombra dele permaneciam ali.
CW (murmurando ao sair):
— Você vai acabar se perdendo...
Brass entra no laboratório para tratar de outro caso. Ele troca cumprimentos com Nick e Greg, mas ao ver Grissom, muda imediatamente a postura. Não faz brincadeira, nem sequer tenta iniciar uma conversa pessoal. Fala apenas o necessário, profissionalmente.
GG: Brass... como vai?
JB (curto):
— Ocupado. Como todos aqui.
(guarda a prancheta)
— Te vejo por aí.
Grissom percebe que Jim Brass está evitando qualquer assunto que envolva Sara. Era como se houvesse um pacto de silêncio.
Em SF os amigos de Sara estavam fazendo de tudo para deixa-la alegre e ela estava bem, se divertindo.
Gil Grissom e Catherine Willows analisavam evidências de um crime complicado. A concentração era total… até que, entre slides e comparações, Catherine resolve tocar no assunto que já estava preso na garganta.
CW (sem tirar os olhos do monitor):
— Gil… você tem notícias da Sara?
Grissom parou por um segundo, seu corpo congelou imperceptivelmente. Fingiu olhar com mais atenção para um fragmento de vidro, como se estivesse completamente focado.
CW (continuando, agora olhando para ele):
— Ela me disse que havia recebido uma notícia ruim… algo relacionado à mãe. Foi por isso que pediu a licença.
(pausa)
Será que ela está bem?
A informação caiu como um raio sobre ele. Grissom não sabia disso. A expressão dele, por mais que tentasse esconder, denunciou sua surpresa — e o aperto súbito no peito.
GG (tentando soar neutro):
— A notícia ruim era sobre a mãe dela?
(finge um tom casual)
Não sabia disso… E, pra ser honesto, também estou sem notícias.
O Mario, comentou que iria precisar viajar pra a Itália, e… não tenho conseguido falar com ela por telefone.
(pausa sutil, olhando para o chão)
Mas deve estar tudo bem. Se não estivesse… ela teria nos avisado, certo?
O tom era calmo, mas a mão dele tremia ligeiramente ao pegar o próximo envelope de evidência.
Catherine observou por um momento, desconfiada — não dele, mas da situação toda.
CW (com um meio sorriso triste):
— É… deve estar tudo bem.
(guarda o slide)
Só espero que ela volte logo. Tá fazendo falta aqui.
Grissom não respondeu. Apenas assentiu com um movimento quase imperceptível da cabeça.
Mas por dentro, mil perguntas gritavam.
Por que ela não me contou isso? Ela estava sofrendo e eu nem percebi?
O que mais eu deixei de enxergar?
Grissom voltou para sua sala com um único foco: não ia mais esperar. O diálogo com Catherine, a revelação sobre a mãe de Sara, o vazio crescente… tudo o levou a essa decisão.
Sem pensar duas vezes, digitou uma solicitação interna de transferência temporária, ativando o nome de um CSI nível 03 de Los Angeles que já havia demonstrado interesse em trabalhar em Las Vegas. O currículo era sólido, e ele confiava que daria conta da sobrecarga que ele e Sara deixariam temporariamente.
Em seguida, foi até a sala de Ecklie.
GG (bate à porta com firmeza):
— Conrad, posso falar com você?
CE (sem tirar os olhos da tela):
— Claro, Grissom. O que deseja?
GG (direto, determinado):
— Tenho um problema pessoal urgente pra resolver e preciso tirar minhas férias. Já entrei em contato com um CSI nível 03 de L.A. que vai suprir minha ausência e a da Sara. Ele está empolgado pra atuar aqui.
Ecklie parou e olhou bem para Grissom.
CE:
— Não pode esperar a Sidle voltar?
GG (sincero, porém firme):
— Conrad, é urgente. E, além disso, tenho férias acumuladas. Se eu não tirar agora, o RH vai começar a cair em cima de você.
CE (bufa, mas convencido):
— Bom, isso é verdade…
(pausa, levanta as sobrancelhas)
— Para quando está marcando o início?
GG: Final do turno.
CE (surpreso com a urgência):
— Rápido assim?
(pensa um segundo, depois assente)
— Tudo bem, Grissom. Liberado. Boa sorte… seja lá o que for resolver.
Grissom agradeceu com um aceno de cabeça, já se virando para sair.
Grissom entrou apressado na sala, já separando seus pertences e organizando as pastas para deixar tudo em ordem para o CSI substituto. Ligou para Catherine.
GG (rápido):
— Cath, pode vir aqui um instante?
Em menos de dois minutos ela já estava encostada na porta.
CW (curiosa):
— Que foi agora? Você parece elétrico.
GG (fechando uma gaveta):
— Estou tirando férias. Falei com o Ecklie, já está tudo aprovado. O substituto chega amanhã de manhã.
CW (erguendo as sobrancelhas):
— Ué?! Férias assim do nada? O que está pegando, Gil?
GG (pegando a mochila):
— Só preciso resolver algo pessoal.
CW (encarando-o): Algo sério?
Grissom apenas olhou, respirou fundo e saiu sem responder. Catherine entendeu o silêncio e balançou a cabeça, torcendo para que desse certo o que quer que fosse.
Já a caminho de seu carro, Grissom ouve passos se aproximando rápido. Era Jim Brass, com as mãos nos bolsos e o rosto preocupado.
JB:
— Gil! Vai atrás da Sara, não é?
Grissom se virou, já com a chave na mão e a expressão determinada.
GG:
— Vou sim, Brass! Ela precisa de mim… e eu não vou abandoná-la dessa vez. A Cath me disse que ligaram sobre a mãe dela… provavelmente pediram visita.
(pausa)
— Isso é pesado demais. Preciso estar com ela.
JB (tentando ponderar): Mas, Gil…
GG (interrompendo, firme):
— Mais nada, Jim!
(aproxima-se um passo)
— Agora preciso ser o parceiro dela. O homem que ama ela.
JB (resignado, porém sincero):
— Boa sorte. Você vai precisar…
Grissom deu um leve sorriso e apertou o ombro do amigo, entrando em seu carro. Enquanto o motor era ligado, sua mente já estava em São Francisco.
O supervisor deixou Hank com a babá, pegou sua mala e partiu para o aeroporto onde conseguiu logo voo para SF.
Em São Francisco
CASA DE PAOLA – FINAL DA TARDE
Sara estava na sala, tentando transmitir segurança à amiga.
SS (com um sorriso forçado):
— Amiga, fica tranquila que vou ficar bem! É só uma visita rápida.
Paola cruzou os braços, preocupada.
Paola:
— Sara, a última vez que você foi sozinha, você ficou mal. Espera o Fred chegar, que eu vou com você.
SS (balançando a cabeça):
— Amiga, até esperaria, mas tenho hora marcada. Fique tranquila, beijos!
Sara pegou sua bolsa e saiu rapidamente.
Assim que Sara entrou num táxi, outro carro parou na porta. Paola atendeu a campainha, esperando ver a amiga de volta.
Paola (surpresa):
— Amiga, que bom que voltou...
(olha melhor)
— Grissom?!
Grissom entrou, um pouco tenso, tentando explicar a situação.
GG: Como vai, Paola? Imagino que queira me matar, mas de verdade preciso muito falar com Sara.
Paola suspirou, olhando para ele com um misto de reprovação e urgência.
Paola:
— Grissom, você adivinhou. Quero mesmo te matar!
(pausa)
Mas agora preciso de você urgente. Sara foi para a clínica visitar a mãe sozinha e você sabe que não dá certo isso.
(entrega um papel)
Toma aqui o endereço da clínica.
Grissom pegou o papel, determinado.
GG: Vou para lá agora, obrigado, Paola.
Paola (olhando firme nos olhos dele):
— Faça a coisa certa, Gil.
Sara está sentada na cadeira da recepção, as mãos entrelaçadas no colo, respirando fundo para controlar o nervosismo. Seu olhar vagueia pela porta que dá acesso às alas internas, esperando o médico responsável liberar sua entrada.
De repente, a porta se abre e o médico aparece, com um semblante sério, porém gentil.
MÉDICO:
— Como vai, Sara? Desculpe a demora.
— Você está sozinha? Não gostaria de ligar para alguém que possa acompanhá-la durante a visita?
Sara abre a boca para responder, hesitando.
SS: Não, doutor, eu...
Antes que termine, uma voz firme e acolhedora vem por trás dela:
— Ela não está sozinha, sou o acompanhante dela.
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