Ribelle Amato

10 Capítulo 9 - Entendida


Capítulo 9 – Entendida

ACORDEI COM ALGUMA COISA ME BALANÇANDO apressadamente. Abri os olhos, que estavam meio embaçados pelo que me pareceu lágrimas, e vi Jamie sobre mim, olhando-me atônito. Quando viu que abri os olhos, relaxou um pouco, mas ainda parecia preocupado. Sentei-me rapidamente e me senti tonta. Levei uma mão à cabeça para me estabilizar e com a outra sequei as lágrimas que insistiam em continuar a cair. Jamie amparou-me pelas costas enquanto eu tentava me equilibrar e reestabilizar. Ouvi Brandt revirando-se na cama e se sentando ao ver nós dois acordados.

– Rocker, você está bem? – perguntou, preocupado.

– Pode voltar a dormir, eu cuido dela. – prometeu Jamie e eu me senti instantaneamente melhor. Ainda não sei como consegui ficar quatro semanas sem me dirigir a palavra a ele e ainda assim ele tentava me ajudar de qualquer maneira.

Olhei-os de relance e vi que um olhar de entendimento surgiu na expressão Brandt; um entendimento longe de meu conhecimento, mas no momento estava me concentrando em manter minha respiração o mais normal que conseguia. E então Brandt lançou-me um olhar pesado, tentando garantir que eu ficaria bem e voltou a se deitar, de costas para mim e Jamie, como se tentasse nos dar algum tipo de privacidade que o quarto não fornecia.

– Pensei que os pesadelos já tivessem passado. – comentou Jamie, depois de algum tempo em que fiquei tentando recuperar o fôlego. – Depois que... Daquele dia, não acordei mais com você gritando ou se remexendo.

Levantei os joelhos e abracei minhas pernas, tentando parecer menor. – Eu tapava a boca uma camisa velha para não te acordar. Parece que me esqueci dela ontem antes de deitar.

Ele concordou com a cabeça e se aproximou mais de mim. Colocou uma mão sobre meus cabelos e começou a acariciar meus cabelos, que provavelmente estavam extremamente embaraços.

– Eu estava gritando? – perguntei, meio receosa.

– Não. Eu não consegui dormir, então estava só pensando. Foi quando ouvi um choro fraco e percebi que você estava tendo pesadelos.

Assenti, sem saber o que dizer.

– Acho que está na hora de me contar o que são os pesadelos. – ele disse.

Olhei bem para seus olhos azuis e respirei fundo para não me perder em sua imensidão. E então eu contei. Contei como foi saber que nunca mais poderia ver meu irmão mais velho. Como jamais poderia dizer-lhe o quanto ele era importante para mim. Como pensei que nunca mais teria em quem confiar. Como eu pensei que talvez pudesse me infiltrar entre as Almas, mas que se a Alma que estava em Matt me visse, saberia que na realidade eu era uma humana. Contei como eu não sabia o que fazer, como se senti sozinha no mundo, com apenas algumas pistas e dicas para o que talvez pudesse ser uma célula de resistência humana. Como eu me senti em meio à possibilidade daquilo ser apenas suposições vagas e sem qualquer finalidade.

Em certo momento eu senti as lágrimas voltando a embaçar minha visão enquanto soluços tomavam caminho de dentro de mim. Jamie me abraçou e me embalou, tentando me ajudar a sufocar os soluços para não acordar Brandt – isso se ele já voltou a dormir. Mas se não, ele estava sendo decente em não dizer nada e fingir que dormia.

– Sei como você se sente. – disse Jamie.

Eu ia discutir, dizendo que ele não tinha ideia de como não é ter ninguém nesse mundo. Mas algo em seus olhos me fez recuar e ceder. – Como? – perguntei.

Ele pareceu desconfortável, mas vi em seus olhos a necessidade de contar para alguém e simplesmente não aguentar mais segurar isso para si mesmo.

– Isso tem a ver com a primeira vida da Peg aqui na Terra. Talvez seja melhor pedir primeiro a versão dela sobre a história. – ele disse.

E então veio um clique na minha mente, lembrando-me de palavras semelhantes ditas pela Alma.

– Ela me disse que você que deveria me dizer sobre isso.

Ele olhou para o teto, para os buracos que davam direto para o mundo exterior.

– Está tarde, não acha melhor você dormir e falarmos disso amanhã? – perguntou ele.

Pensei e analisei meu subconsciente por alguns instantes.

– Está tentando, por acaso, se esquivar de me contar qualquer coisa que seja? – perguntei.

– Estou preocupado em saber se você vai ter uma boa noite de sono. – ele admitiu, suspirando, e me fazendo corar violentamente.

– N-não... – tossi, tentando afastar a gagueira repentina. – Não precisa se preocupar com isso. Não quero ter que voltar aos pesadelos.

Ele assentiu e eu me deitei, olhando-o à espera de sua história. Ele se deitou ao meu lado e eu me acomodei mais perto dele, tentando expulsar o pouco frio que fazia. Para minha surpresa — e para uma reação exagerada do meu coração -, ele me embrulhou em seus braços e começou a falar como ele e Melanie fugiram, anos atrás, durante a invasão. Prestei bastante atenção em cada palavra durante horas, enquanto observava a claridade, aos poucos, ir penetrando pelos buracos no teto.

~*~

– Então quer dizer que sua primeira vida aqui foi no corpo da Melanie? – questionei Peg assim que entrei na cozinha naquela manhã.

Devo admitir que não era nada do que eu esperava. Na verdade, eu não sabia o que esperava, mas pode ter certeza que não era aquilo. Jamie e eu ficamos as últimas horas conversando sobre tudo o que passamos até aquele momento. Não sei bem o que senti quando ele disse se sentiu extremamente feliz quando me viu. Alguma coisa se mexeu dentro de mim, mas ainda não sei o que pode ser — ou talvez tenho até medo de descobrir. A única coisa de que tive certeza quando ele me disse isso, foi que o sentimento que aflorou dentro de mim me fez muito bem.

Peg virou-se para mim, meio assustada e meio descrente.

– Quer dizer que finalmente se acertaram? — esquivou-se da minha pergunta com outra, mas eu não sou boba.

– Você não respondeu a minha pergunta. — observei.

– E nem você a minha. — disse ela, arqueando a sobrancelha e voltando-se para a bancada e amassando a massa.

– Sim, resolvemos.

– Sim, ela foi minha última hospedeira.

Claro, tentei não assustar como fiz na noite passada, mas ao que parece, não deu muito certo. Era um pouco estranho minha melhor amiga ter vivido no corpo da minha outra melhor amiga.

– Vai me contar tudo não é? — perguntou ela, olhando-me com os olhinhos brilhando.

Juro, se eu não soubesse que ela era uma Alma milenar, eu podia compará-la com uma adolescente. Tive que segurar a risada que queria escapar por meus lábios.

– Conto sim, Peg. Mas só quando formos treinar.

Ela fez um bico tão fofo que tive que reprimir a vontade de apertar sua bochecha.