Ribelle Amato

11 BÔNUS - Jamie


Notas iniciais
Não sei se já comentei que talvez eu colocaria algum capítulo bônus, com o ponto de vista de um outro personagem, mas se não disse, digo agora. Essa foi uma ideia de Viniaa e eu simplesmente adorei, mas não sei se o capítulo ficou muito bom. Só escrevi no ponto de vista masculino uma vez na vida e mesmo assim, foi um capítulo bem curtinho. Esse primeiro bônus é sobre o que Jamie pensou dos últimos dois ou três capítulos. E sinto muito se não foi muito fiel à sua personalidade e desculpe os erros, mas estou tendo que escrever no WordPad pq meu notebook novo não quer fazer o favor de funcionar o Word normal. E essa porcaria não tem corretor automático e eu tive que confiar no meu próprio vocabulário - que nem sempre é tão bom. Mas enfim, eu espero que aproveitem esse capítulo, foi o maior que eu jpa escrevi! Queria agradecer aos 45 leitores, que mesmo não comentando, espero que estejam lendo e não deixando a fic jogada em uma categoria de acompanhamento.

Bônus — Jamie

EU NÃO CONSEGUIA DORMIR. Talvez até mais do que os outros dias, quando a Rachel ainda estava com raiva de mim, mas o importante é que eu não dormiria tão cedo após ela me perdoar. Eu olhava para o teto, deitado do meu colchão. Havia alguns buracos ali, onde podia-se ver algumas estrelas no céu ao longe. Eu fazia muito isso depois que a conheci.

Ainda não sei bem o que sinto quando ela está por perto, mesmo que a maior parte ela não me veja. Juro que fiquei impressionado todas as vezes em que a via jogando futebol com Peg. Muitas dessas vezes eu queria que ela simplesmente invadir aquele salão de jogos e impedi-las de continuar jogando. Elas poderiam se machucar a qualquer hora, mas Rachel sempre foi cuidadosa para esconder o que faziam e eu não queria arranjar mais briga com ela. Além disso, ela treinava bastante com Peg para mostrar-nos que não era porque tinha um corpo frágil que a Alma que ali habitava era incapaz de tudo.

A mim ela já mostrou e a cada dia que me escondia por aquela abertura, eu torcia para que ela conseguisse com os outros também. Eu não o que é isso, mas me sinto bem estando com ela, mesmo que me doa o coração saber que ela passou um mês sem me dirigir a palavra. Já tive esse tipo de conversa com Brandt, com Jared e até mesmo com Ian, mas em todas elas a resposta que recebi não foi bem a que eu esperava. Não era possível que eu já estivesse apaixonado pela primeira menina da minha idade que me aparecesse aqui – por mais que ela seja forte e durona em certos momentos, e sensível e frágil em outros. Isso mesmo, essa é a teoria absurda dos três. E agora a cada vez que eles me pegam olhando-a, vêm para cima de mim com o mesmo papo.

Tudo bem que ela é linda e sabe responder as provocações de Jeb à altura, mas eu não posso estar apaixonado. Ela disse que perdeu o irmão duas semanas antes de chegar, mas quem garante que ela já não tenha um namorado lá fora, que foi pego também? Mas não posso negar que meu corpo tem tido reações bem estranhas quando estou no mesmo local que ela. Meu coração acelera e minhas mãos começam a tremer e suar frio. De acordo com Ian principalmente, esses são sintomas de cara apaixonado. E Jared concordou, dizendo que quando eu a olhava, ficava com cara de bobo alegre. Eu só senti a necessidade de ser amigo dela, já que seria a única adolescente por aqui e eu poderia ter uma companhia da minha idade, mas me apaixonar por ela já era um pouco exagerado.

O que me traz de volta à hora que talvez eu estivesse errado e aqueles idiotas certos. Eu estava sentado no colchão, de cabeça baixa e ombros caídos. Eu estava bem para baixo por esses dias. Mais do que quando havíamos brigado. Hoje encontrei Rachel e Peg na cozinha e ouvi uma conversa delas. Rachel ainda insistia em me culpar e dizer que não me perdoaria tão fácil. Foi aí que eu desisti de vê-las treinando e hoje não havia ido, preferindo ficar pensando no quarto. E estava pensando, até que senti uma presença – a sua presença – à minha frente. Ela se sentou à minha frente, mexendo nervosamente na manga da blusa preta e de tecido transparente. Pensei ter visto algo rosado na pele do seu cotovelo, mas assim que ela abriu a boca, aquela informação sumiu instantaneamente da minha mente.

Uma pequena esperança cresceu em meu coração.

— Oi. – ela disse timidamente e vi certo receio em seus olhos, mas sorri, sentindo meu coração palpitando.

— Oi. – respondi, segurando o riso. Não sabia exatamente o que pensar sobre ela começar uma conversa depois de semanas com um "oi". Ela mordeu o lábio inferior e de certa maneira isso reverberou nos hormônios do meu corpo (para não dizer coisa pior).

— Bem.. Anh... – ela gaguejou, e eu senti meu corpo se arrepiando. De alguma forma, pareceu algo extremamente sexy. Ela fechou os olhos e pude ouvi-la respirando fundo. – Eu queria pedir desculpas por esse comportamento infantil.

Depois de soltar isso de uma vez, ela colocou as mãos delicadas sobre o rosto, deixando, sem perceber, que os cachos ruivos caíssem pela lateral. Ela era extremamente linda, e parecia não saber disso. Escuto alguns comentários de homens não muito mais velhos que eu – o mais próximo é oito anos mais velhos – que acham ela linda e gostosa. Entrei em briga com todos eles, mas pedi para que ninguém comentasse com ela. Peg diz que eu senti ciúmes e de uns dias para cá eu não duvidei.

— Ei... – chamei, não me aguentando mais e me aproximando dela. Eu a queria perto de mim mais do que eu gostaria de admitir. Queria ela em meus braços, aconchegando sua cabeça em meu ombro e me abraçando forte. Isso foi como um choque para mim, um balde de água fria. Era algo que há tempos eu queria, mas que apenas agora eu tomava consciência. – Rocker... – chamei mais uma vez, tentando conter uma ansiedade de tomá-la em meus braços.

Segurei suas mãos o mais delicadamente possível e afastei de seu rosto, pedindo silenciosamente que ela me encarasse. Ela me olhou, e quando viu que eu sorria, abriu um sorriso lindo e verdadeiro que eu senti meu coração parar repentinamente para logo depois acelerar consideravelmente.

— Por que está me pedindo desculpas sendo que eu fiz algo que não devia? – perguntei e quando a vi abrindo a boca, me preparei para uma frase sarcástica que lhe era tão comum.

— Me desculpe. – ela pediu mais uma vez.

— Só se você me desculpar por ter sido protetor demais. – pedi também.

E então ela fez algo que me assustou completamente. Me assustou e me impressionou. Ela se jogou em meus braços e me envolveu pelo pescoço. Finalmente eu a tinha em meus braços e eu sentia algo diferente se agitando em meu estômago. Fiquei meio atordoado, mas logo a envolvi pela cintura e a trouxe para mais perto, tentando diminuir um pouco da minha ansiedade de tê-la tão próxima a mim, mas não parecia que era algo a ser amenizado. Eu sentia que não podia ser. Rachel parecia saber exatamente o que eu queria, pois deitou a cabeça em ombro, fazendo-me arrepiar por inteiro e a puxei para mais perto, querendo quebrar o máximo que podia com a distância.

— Ah, finalmente se acertaram! – exclamou uma voz na direção da porta, nos assustando ao ponto de ela pular para longe de mim.

Olhei para a entrada do quarto e vi que era apenas Brandt rindo de nós, enquanto entrava no quarto com uma muda de roupa na mão. Eu senti meu rosto queimando, mas rapidamente o desviei para que nenhum dos dois percebesse. Cara, ia ser muito estranho ver um homem corado. É um trauma e Brandt não me deixaria em paz.

— Muito engraçadinho. – ironizou Rachel.

— Na verdade, foi torturante ouvir todos os dois reclamando no meu ouvido. – disse Brandt enquanto se jogava em seu colchonete.

Desviei meu olhar par Rachel e ela fez o mesmo, mas rapidamente desviou seus olhos para as mãos no colo e vi suas bochechas vermelhas. Não me segurei e abri um pequeno sorriso.

— Anh... A-acho que eu vou dormir... – disse ela, indo para o seu colchão e se encolhendo nele, tentando parecer menor do que já sou. – Boa noite, meninos.

Instantaneamente virei-me para Brandt.

— Filho da mãe! Não precisava me fazer passar vergonha! – eu disse, sem me preocupar se ela estivesse ouvindo ou não. Provavelmente não, já que o idiota ria estrondosamente.

— Relaxa, cara, aposto que você adorou saber que ela me consultava quando você não estava. – ele disse e logo depois desviou do travesseiro que eu arremessei em sua direção.

— Gostei sim, mas não precisava envergonhar a gente! – eu disse e logo senti uma travisseirada na cara.

— Sabia que eu e os outros estávamos certos. – ele disse, cruzando os braços sobre o peito e se jogando em seu próprio travesseiro novamente.

— Como assim? – perguntei confuso, tirando o travesseiro da minha cara e o afofando novamente.

— Admita de uma vez que está apaixonado! – ele insistiu e eu desviei rapidamente o olhar para ver de Rachel ouviu, mas ela já dormia em um sono tranquilo.

— Não tenho que admitir nada! – reclamei, deitando finalmente e fingindo dormir.

E horas depois aqui estou eu, pensando e relembrando, até que ouvi barulho de soluços. Olhei rapidamente em volta, mas eu percebi que, com certeza, não era Brandt. Era Rachel, que balançava levemente e soluçava. Corri rapidamente até ela e a balancei apressadamente, receoso do que poderia ser dessa vez. Um pesadelo, disso eu tinha certeza. E eu precisava fazer alguma coisa para que isso acabasse. Ela abriu os olhos marejados e me viu. Quando vi que abriu os olhos, relaxei um pouco, mas não podia deixar de estar preocupado. Rachel se sentou rapidamente e levou uma mão à cabeça, movendo-se de um lado para o outro, tonta pelo pesadelo provavelmente. Suas lágrimas ainda rolavam e eu fui impulsivo. Amparei suas costas e ouvi quando Brandt se remexeu na cama.

— Rocker, você está bem? – perguntou, preocupado, e algo se remexeu no meu peito. Não sabia o que era, mas comparei com o que Peg me descreveu. Ciúmes.

— Pode voltar a dormir, eu cuido dela. – eu disse a ele. Olhei para ele e vi que entendeu o que quis dizer. Não exatamente o que eu queria que ele entendesse, mas parece que deu certo, pois ele logo lançou-a um olhar pesado e voltou a se deitar, de costas para mim e Rachel, como se tentasse nos dar algum tipo de privacidade que o quarto não fornecia.

— Pensei que os pesadelos já tivessem passado. – comentei, depois de algum tempo em que ela ficou tentando recuperar o fôlego. – Depois que... – interrompi-me, sem querer dizer depois que brigamos. – Daquele dia, não acordei mais com você gritando ou se remexendo.

Rachel levantou os joelhos e abraçou as próprias pernas, tentando parecer menor. – Eu tapava a boca uma camisa velha para não te acordar. Parece que me esqueci dela ontem antes de deitar.

Concordei e me aproximei dela, querendo dar um consolo que talvez não conseguisse. Coloquei uma mão sobre seus cabelos e os acariciei, sentindo a maciez sobre meus dedos.

— Eu estava gritando? – perguntou, meio receosa. Meu coração se apertou com a pequena falha em sua voz.

— Não. Eu não consegui dormir, então estava só pensando. Foi quando ouvi um choro fraco e percebi que você estava tendo pesadelos.

Assentiu.

— Acho que está na hora de me contar o que são os pesadelos. – eu disse e esperei uma resposta. Ela respirou fundo, antes de falar. Não a interrompi em qualquer hora.

— Bem... Os pesadelos são sempre os mesmos. – ela começou a narrar. – Sempre o dia em que Matt se foi. Estávamos em um supermercado, coletando suprimentos. Estávamos indo bem, comigo levando o carrinho até o carro dele, até que uma senhora me pediu ajuda com as sacolas, que estavam quase caindo de suas mãos. Quando me virei para ajudar, já que Almas não recusam ajuda, algo deu errado. Não sei exatamente o que aconteceu, mas algo deu errado e quando me virei, dois brutamontes nojentos o seguravam pelos braços.

Ela fez uma careta de repulsa, mas instantaneamente ela se desfez. E eu pude ver algo que doeu no meu peito. Doeu mesmo. Rachel chorava. Foi meio por impulso, e eu não sabia como ela reagiria, mas me aproximei e a envolvi em meus braços, procurando consolá-la de algo que eu também já havia passado. Apenas eu sabia exatamente como ela se sentia.

— E então eu me vi tentada a gritar com aqueles caras para soltarem meu irmão, mas eu não podia. Não podia por causa de uma merda de promessa que eu havia feito a Matt e não poderia quebrá-la, pois eu sempre cumpro com minha palavra. Eu nunca me arrependi tanto de ter prometido algo que eu, naquela hora, não sabia se poderia cumprir. Fiquei parada no lugar, vendo meu único amigo e irmão sendo distanciado de mim. Não podia fazer nada para mudar aquilo, pois eu havia prometido sobreviver longe do nosso esconderijo, pois a Alma poderia muito bem ir atrás de mim.

“Eu ainda esperei duas semanas para que me pegassem, pois não ia conseguir sozinha.” – ela fungou e escondeu um soluço em minha camisa, enquanto eu a puxava para mais perto. – “Ainda acho que Matt está vivo, mas é quase impossível. Depois que ele foi levado, a mulher percebeu meu estado e eu tive que mentir, dizendo que nunca tinha visto um humano sendo capturado. Ela me levou à casa dela e foi quando ela percebeu que algo em Matt me chamara a atenção. Foi a primeira vez que eu chorei. Chorei no ombro dela, dizendo que o humano capturado era irmão da minha hospedeira.

“Você não tem ideia de como isso foi difícil para mim! Essa cena, desde o momento que pegaram Matt até quando eu estava chorando com uma velhinha Alma desconhecida, me persegue. É horrível, eu simplesmente sinto tudo que eu senti naquele dia. Eu nunca mais veria meu irmão, que sempre foi meu porto-seguro. Queria me infiltrar entre as Almas, mas se a que estava hospedada em Matt me visse, saberia que eu era humana. Então eu fugi. Eu me sentia sozinha e desolada, como nunca me senti na vida, com apenas pistas de algo que poderia nem ser verdade.”

— Sei como se sente. – eu disse calmamente.

— Como? – ela perguntou, depois de alguns segundos analisando meu rosto.

Eu queria muito poder dividir isso a alguém, como eu sei que Rachel se sente melhor ao dividir isso comigo. E eu poderia confiar nela. Eu sei que poderia, pois ela não era o tipo de garota que julgava. Ainda mais quando ela passou pelo mesmo que eu passei. Mas essa história não dizia somente respeito a mim. Ou melhor, eu era o que menos importava em tudo o que aconteceu. A personagem principal era Peg, que hoje era melhor amiga de Rachel. Ela que deveria revelar tudo o que aconteceu.

— Isso tem a ver com a primeira vida da Peg aqui na Terra. Talvez seja melhor pedir primeiro a versão dela sobre a história. – eu disse.

— Ela me disse que você que deveria me dizer sobre isso.

Eu olhei para o teto, para os buracos que davam direto para o mundo exterior. Poderia então dizer tudo a ela, mas antes eu me preocuparia com o descanso dela. Rachel acabou de acordar de um pesadelo que a persegue há semanas e provavelmente deve estar cansada.

— Está tarde, não acha melhor você dormir e falarmos disso amanhã? – perguntei.

— Está tentando, por acaso, se esquivar de me contar qualquer coisa que seja? – ela perguntou, fazendo graça.

Ok, tudo bem. Não havia porque mentir sobre isso.

— Estou preocupado em saber se você vai ter uma boa noite de sono. – eu admiti, suspirando, e a vi corar violentamente. Precisei reprimir um sorriso que ameaçava se formar.

— N-não... – ouvi-a tossir minimamente. – Não precisa se preocupar com isso. Não quero ter que voltar aos pesadelos.

Eu poderia arranjar mais algumas desculpas para que não fosse eu a contá-la sobre isso, mas não podia negar que eu também queria isso. Então eu assenti, concordando em lhe contar minha história. Para meu espanto, Rachel se deitou e me olhou em expectativa. Senti meu coração falhar momentaneamente quando me deitei ao seu lado e ela se aconchegou mais perto de mim. Então eu a embrulhei em meus braços, sentindo seu corpo se arrepiar. Queria muito pensar que isso tinha algo a ver com a minha aproximação, mas a noite estava fria e essa podia ser uma reação ao frio.

— Então, o que quer saber primeiro? – perguntei, tentando manter minha voz estável e sem qualquer indício do que sua aproximação podia me causar.

— Bem... Que tal do início? – ela ironizou.

Tenho que admitir: eu adorava seu sarcasmo e sua ironia. Sei lá, era algo tão dela, tão autêntico, que simplesmente atraía-se por si só.

— Bem... Melanie havia conhecido Jared em um dos saques a uma casa de Almas. Eles acabaram se encontrando lá e ele quase a matou...

— Sério?! – ela perguntou, parecendo tão preocupada e imersa na história que eu que me admirei. – Ele é louco, só pode!

Eu ri, baixinho para não acordar Brandt. Foi quando me lembrei de sua existência. Olha, eu sou tão amigo que me esqueço completamente dele. Epa! Tempo demais com Rachel – será que sarcasmo é contagioso? Enfim, eu parei na parte em que eu lembrava que ainda existia um outro ser naquele cômodo fora eu e Rachel naquela bolha particular. Olhei em direção ao seu colchonete e vi que sua respiração não estava muito regular. Eu podia dar um beijo nele por ele estar sendo gente boa em fingir que estava dormindo.

Ignore. Isso foi extremamente gay.

— Isso mesmo. E depois a beijou. – eu disse simplesmente e ela me encarou de olhos arregalados. Duas grandes amêndoas chocolate sendo iluminadas pela luz do luar que entrava por pequenos buraquinhos no teto.

— Como é que é?! – ela perguntou, espantada, com uma voz esganiçada, mas eu rapidamente tampei sua boca, fingindo que era para impedir de Brandt acordar. Ela olhou para ele rapidamente e revirou os olhos. Outro de seus 'gesto-mania'. – Jared fez o quê?! – ela perguntou, acho que apenas para ter certeza.

— Ele a beijou. Acho que por não ver nenhuma outra humana há mais de anos. – eu tentei responder calmamente e sem olhar em sua direção, com medo de que pudesse entender como uma indireta. O que, na verdade, era quase isso. Se ela percebeu, escondeu muito bem. E eu invejava seu jeito de ser, colocando uma máscara ora indiferente, ora sádica, quando não queria que os outros soubessem o que pensava.

— Uau! Isso é desespero – quando ela disse isso, algo em meu peito murchou completamente, mas então ela continuou –, mas eu entendo como ele se sentia. Sempre foi somente eu e Matt. Ver outra humana deve ter sido o mesmo que eu vendo Jeb e Ian vindo me ajudar enquanto eu desidratava no deserto.

— Você o quê?! – foi minha vez de perguntar desesperadamente e tampar minha própria boca em sinal de desculpas quando ela me lançou um olhar repreensivo. – Você estava desidratando?!

— Não parecia, não é?! – ela ironizou, cheia de si. – Atravessar um deserto em uma moto vermelha e o sol torrando não é fácil.

— Realmente não parecia. – eu concordei, tentando lembrar a mim mesmo que já passou e eu não poderia mudar isso.

— Vai, não muda de assunto! – ela pediu, dando um soquinho leve no meu peito. – E depois, o que aconteceu?

— Está mesmo interessada nisso? – perguntei mais uma vez. Eu não achava "minha" história nem um pouco interessante – ainda mais porque não é minha – e ver ela com os olhinhos castanhos brilhando em um tom quase verde seria, no mínimo, estranho.

— É lógico! – ela respondeu rapidamente. – Você não tem noção de como é bom saber que existe alguém no mundo que passou exatamente o mesmo que você.

— Por mais que eu tente negar, concordo com você. – e é uma pena que você não sabe como é bom se sentir diferente com outra pessoa.

Mas é claro que eu não diria isso a ela. Psicologicamente e completamente impossível.

— Agora continue a história que eu quero saber mais! – ela insistiu.

— Ok, eu conto. Depois disso ela a levou até onde eu estava escondido e por muito tempo fomos só três até... – eu parei e ela simplesmente não aguentou esperar.

— Até o que?

— Até que a Mel foi capturada e nela inseriram a Peg. – ela me olhou como se me desculpasse, como se isso fosse, de alguma forma, culpa dela. – Depois de um tempo ela apareceu aqui e todos nós ficamos confusos. Nunca ninguém havia voltado e, por mais que tivéssemos esperanças, éramos realistas.

Eu realmente não queria ter dito aquilo, pois assim que Rachel desviou os olhos dos meus, eu percebi que aquilo não era o melhor a ser dito para alguém na situação como aquela. Eu iria dizer que tudo ficaria bem, mas eu precisava continuar minha história, como ela mesma continuou.

— No início eu fiquei receoso e Jared até mesmo bateu nela por simples preconceito. – eu tentei ignorar a reação de choque dela, mas era meio impossível. – Mas eu sabia que mesmo ela não sendo a mesma, não era má pessoa. Eu e o tio Jeb fomos os primeiros a aceitá-la sendo Peg, não Mel. Ela era ela mesma, uma pessoa, com pensamentos e sentimentos próprios.

— Vocês dois foram os primeiros que me aceitaram... – ela murmurou, deixando um pequeno sorriso escapar pelos lábios.

— Isso mesmo. E, de alguma forma, eu sabia que vocês duas eram parecidas. – e ainda completei. – Parecidas, pois você tem uma personalidade forte demais para uma Alma carinhosa como a Peg.

Nós rimos e ela pediu por mais da história.

— Demorou bastante tempo, mas aos poucos mais gente foi aceitando Peg como uma de nós. Não a viam mais como a Alma no meio dos humanos, que procurava um jeito de nos denunciar. – eu suspirei em meio a enxurrada de lembranças que me pressionavam. – Passaram a vê-la como uma Alma que não segue os padrões e está pronta para lutar ao nosso lado, por algo que é certo.

Ela sorriu, parecendo se lembrar de algo.

— Peg é muito especial, com pensamentos especiais. – ela comentou, sorrindo de uma maneira misteriosa, como se tivesse um segredo que devia ser mantido a sete chaves. E eu tinha uma mínima ideia de que sabia sobre o que ela falava. – Ela se empenha a mostrar aos outros que não é fraca e que está ao nosso, deixando tudo o que conhece para trás.

Com certeza Rachel falava sobre o treino que as duas escondiam, onde ambas queriam mostrar que não eram frágeis como aparentavam.

— E o que mais aconteceu? – ela quis saber.

— Bem, depois de um tempo chegou Sunny no corpo da Jodi.

— Jodi?

— A ex-namorada do Kyle. Enquanto as Almas ainda não invadiram. Tiramos Sunny, como ela havia pedido, mas Jodi não respondeu, então deduzimos que ela foi completamente reprimida. Mas antes disso Ian e Peg se apaixonaram, depois de muito tempo.

Ela sorriu, como se estivesse finalmente saciando sua curiosidade sobre como isso se deu. Consequentemente sorri também.

— Mas e Jared?

— Houve toda uma confusão de quarteto amoroso. Peg amava Ian, mas seu corpo a atraía para Jared. Ian a amava, mas não suportava vê-la com Jared. Jared amava Mel e ela odiava ver Peg tanto com um quanto com outro.

— Tenso. Mas por que Melanie não gostava da Peg com nenhum?

— É meio confuso. Peg que beijava Jared, não ela. E ela também ficaria com as memórias amorosas sobre Ian.

— E como isso tudo se resolveu? – ela me olhou com os olhos brilhando de ansiedade.

— Peg obrigou Doc a retirá-la e matá-la, enquanto Mel voltava a ter seu corpo.

— Ela teve coragem disso?! – ela se remexeu inquieta em meus braços, mas eu não a soltaria por nada nesse mundo.

— Mas como somos humanos, temos nossos erros. – sorri ironicamente para ela. – Arranjamos outra hospedeira para ela. Uma que não acordou.

— Ela não ficou brava com vocês?

— Ah, ficou! – afirmei, lembrando-me da cena. – Mas depois relaxou. Um tempo depois encontramos outra célula de resistência humana, com uma Alma amiga e essa nem é a melhor parte.

— Qual é?

— Você. – eu respondi e ela me olhou de uma maneira diferente. Me arrependi imediatamente e resolvi concertar meu erro. – Nos deu esperanças de que possa haver muito mais humanos do que imaginávamos.

Rachel sorriu, mas pude perceber que foi um sorriso triste, como se não acreditasse no que eu dizia.

— Melhor eu ir, preciso preparar o café. – ela disse, depois de analisar o céu. Levantou-se rapidamente e saiu do quarto, deixando-me sozinho com meus pensamentos e sentimentos.

Juro que um dia essa menina ainda ia me enlouquecer.