Ribelle Amato
9 Capítulo 8 - Perdoada
Notas iniciais
Capítulo 8 – Perdoada
— OI. – ELE RESPONDEU E, pelo movimento dos lábios, percebi que tentava segurar o sorriso.
Mordi meu lábio inferior, evitando ao máximo sorrir também.
— Bem... Ahn... – amaldiçoei-me silenciosamente por estar gaguejando. Fechei os olhos e respirei fundo. Quem sabe se eu não tivesse que encarar esses olhos azuis hipnotizantes eu pudesse arranjar coragem para falar. Não sei de onde eu tiraria essa coragem, mas eu estava disposta a descobrir. Apertei ainda mais os olhos e soltei de uma vez. – Eu queria pedir desculpas por esse comportamento infantil.
Depois de falar, coloquei as mãos sobre os olhos, para evitar ver qualquer reação sua, positiva ou negativa. Estava morrendo de vergonha, não sou muito acostumada a pedir desculpas, para quem quer que seja – nos últimos anos não havia muitas pessoas a quem eu pudesse ofender – ainda mais quando eu achasse que não sou eu quem deveria estar me desculpando. Mas não pude nem mesmo ouvir nada, pois ficamos em completo silêncio durante alguns minutos e a cada segundo que se passava eu sentia que as células do meu corpo ficavam cada vez mais tensas.
— Ei... – chamou, com a voz que eu há muito queria ouvir perto de mim, mas que só tomei consciência agora. – Rocker... – chamou mais uma vez, segurando meus pulsos delicadamente e distanciando-os do meu rosto para que eu o encarasse.
Ele sorria, e isso acabou com todas as minhas defesas, fazendo-me sorrir também. Eu não tinha ideia de que aquele sorriso torto me faria tanta falta.
— Por que está me pedindo desculpas sendo que eu fiz algo que não devia? – perguntou e eu abri a boca para lhe dar a resposta sarcástica perfeita que eu daria a Jeb, mas algo me impediu. Ele não era Jeb. Eu o conhecia bem apenas de tê-lo observado, mas isso não queria dizer que tinha intimidade com ele.
— Me desculpe. – pedi mais uma vez, tanto por ter sido infantil há um mês quanto por pedir desculpas e de repente vi que era idiotice pedir desculpas por ter pedido desculpas.
— Só se você me desculpar por ter sido protetor demais e tido coisas que não era meu lugar falar. – ele respondeu.
Não sei o que deu em mim nessa hora, mas acho que também nem pretendo saber. Joguei-me em seus braços e o envolvi pelo pescoço num abraço apertado. Eu não fazia ideia de que um dia eu iria sentir tantas coisas se remexendo dentro do meu peito com um simples abraço. Era algo completamente diferente de abraçar meu irmão, pois eu sabia que ele iria me abraçar de volta, mas quando abracei Jamie, senti que não importava se fosse retribuído ou não. Eu sentia que queria abraçá-lo e foi exatamente isso que fiz, sem todo o receio que eu teria se estivesse em mim.
Ele pareceu meio atordoado inicialmente, mas logo envolveu minha cintura fortemente e me puxou para mais perto. Senti que algo se remexeu novamente dentro de mim, mas eu estava com a mente tão aérea que nem mesmo fiz esforço para tentar imaginar o que poderia ser. Eu simplesmente não tinha forças para isso, pois percebi que estava cansada emocionalmente. Também não queria me soltar daquele abraço que de certa maneira me fez bem. Então eu só deitei minha cabeça em seu ombro e fechei os olhos, sentindo seu perfume em minhas narinas. Ele me apertou um pouco mais contra si e permanecemos assim durante um bom tempo.
— Ah, finalmente se acertaram! – exclamou uma voz atrás de mim, nos assustando e me fazendo pular para longe de Jamie, envergonhada.
Olhei para a entrada do quarto e vi que era apenas Brandt rindo de nós, enquanto entrava no quarto com uma muda de roupa na mão. Fechei a cara e fingi estar irritada, quando na verdade estava feliz por ter me acertado com Jamie.
— Muito engraçadinho. – ironizei.
— Na verdade, foi torturante ouvir todos os dois reclamando no meu ouvido. – disse ele enquanto se jogava em seu colchonete.
Desviei o olhar para Jamie, desconfiada, e ele pareceu fazer o mesmo; instintivamente, olhei para minhas mãos no colo. Senti minhas bochechas esquentarem e percebi que provavelmente estava corada, o que não era nada bom.
— Anh... A-acho que eu vou dormir... – disse, indo para o meu colchão e me encolhendo nele, tentando parecer menor do que já sou. – Boa noite, meninos.
Fechei os olhos e nem tinha percebido antes o quanto eu estava cansada, pois só ouvi Jamie ralhando com Brandt enquanto este ria e logo depois caí no sono. E então novamente, o mesmo pesadelo me perseguiu.
Parada. A única coisa que eu podia fazer era permanecer parada em gente ao mercado enquanto via dois brutamontes arrastando meu irmão para longe de mim. Esse era nosso código para caso ele fosse pego. Ninguém poderia ver que os reflexos desbotados em meus olhos castanhos eram lentes feitas sob medida para nos infiltrarmos.
Acontece que só conseguimos um único par de lentes e Matthew insistia sempre que eu que deveria usá-la, pois eu era menina e mais jovem, tinha mais prioridade e toda aquela palestra de duas horas que, na moral, você não entende uma única palavra?
Pois foi na única vez que resolvi ouvir os sermões de Matt que me ferrei por causa disso. Eu que deveria estar sendo arrastada dali, não ele. Eu que deveria ter sido fraca e pega, para que me implantasse uma Alma nojenta e sanguinária que eu faria de tudo para nunca descobrir a existência dele. Eu que deveria estar lá para morrer, não ele; afinal ele sempre foi melhor em tudo, tinha certeza que seria melhor para sobreviver sem mim do que eu sem ele. Eu que deveria estar no lugar dele, para que parasse todo aquele aperto e dor que eu sentia no coração por vê-lo sendo levado de mim e não poder fazer nada.
Levantei minha cabeça e assim que encontrei o olhar implorante de Matt, soube que só havia uma coisa que poderia fazer: ficar... E depois fugir. Fugir para um lugar onde a Alma que seria inserida em seu corpo não descobrisse. Um lugar que nem mesmo ele conhecesse.
E então nunca mais nos veríamos.
Ele abriu a boca e sussurrou o “adeus” que revivi milhões de vezes depois daquele dia. E então os dois Buscadores o levaram de mim, deixando-me completamente desolada. Eu queria chorar, mas sabia que não podia, então apenas fiquei olhando-o ir embora, estática. Assim que ele foi colocado no carro preto, próprio dos buscadores, pude deixar que as lágrimas se espalhassem por meu rosto. Mas eu havia esquecido que ainda não estava sozinha.
— Tudo bem, querida? – perguntou a Alma que estava ao meu lado, acompanhando a prisão do meu irmão. Respirei fundo, tentando me acalmar e procurando uma mentira razoável para a gentil senhora que amparou meu braço, provavelmente achando que eu não conseguiria permanecer em pé sozinha. O que não era mentira. – O que houve, querida?
— E-eu... – gaguejei, ainda meio instável emocionalmente. Limpei a garganta rapidamente e tentei parecer mais apresentável para uma situação provavelmente comum às Almas em geral. – Me desculpe, senhora, é que eu nunca presenciei uma captura de humanos antes. – menti descaradamente e sem qualquer remorso, já acostumada a isso. – Sou nova aqui na Terra.
— Oh, meu bem, venha comigo. Vou te dar um copo com açúcar.
Como eu não tinha aonde ir, acompanhei-a até onde me pareceu ser a sua casa, há dois quarteirões do supermercado onde estávamos. Levou-me até a sala, que era cheia de móveis claros e foi por uma porta lateral, onde deduzi ser a cozinha. Se fosse antes da invasão, eu me sentiria desconfortável na casa de um estranho, mas as Almas eram gentis e não me machucariam – não enquanto eu estivesse protegida pelas lentes. Mas eu não podia estar sempre com ela e me infiltrar ali. Mais cedo ou mais tarde eles perceberiam que era um disfarce e eu seria presa e, mais tarde, sucumbida por outra Alma. Nosso plano – meu e de Matt – era usarmos as lentes para conseguir mantimentos mais facilmente.
— Aqui. – anunciou a senhora, que aparentava ter uns sessenta anos, entregando-me um copo de água com açúcar. – Você conhecia aquele rapaz? – ela perguntou tão de repente e rezei para que minha expressão não estivesse tão surpresa. – Pela sua reação, deduzi que poderia ser um conhecido de sua hospedeira.
Reprimi um suspiro de alívio. Ao menos ela não havia percebido nada de errado comigo. Respirei fundo e resolvi falar.
— Era o irmão dela. – murmurei e ela me envolveu em um abraço, permitindo-me chorar por minha própria tragédia.
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