Retratos

2 O triste entardecer.


Chovia demais no funeral dos pais do César. Havia muitos amigos queridos da família e parentes para a última despedida. Eu estava camuflado no meio de tantas pessoas debaixo dos seus guarda-chuvas pretos, era apenas mais um ali no meio daquela multidão. Estava com os olhos fixados nos caixões que desciam lentamente para suas covas, quando minha visão tangente notou, distante daquele grupo de pessoas, um alguém parado em um dos caminhos de paralelepípedos que dividia o gramado. Parecia estar olhando firmemente para mim, quando resolvi desviar meus olhos do caixão e depositá-los sobre aquela figura distante, constatei que realmente ela me encarava. Era uma jovem, que aparentava ter os seus dezenove anos. Não pude deixar de notar o quão bonita ela era. Diferente das demais garotas que habitavam esta região. Por Copervale ter herdado a genética dos seus colonos europeus, é muito comum por aqui às pessoas terem suas peles exageradamente alvas, cabelos claros e olhos da cor do mar ou de esmeraldas. Mas aquela garota parada ali em frente, era diferente de qualquer outra que eu já havia visto pessoalmente. A pele era amorenada, o rosto, ao mesmo tempo em que fosse delicado, sabia ser exótico com seus lábios carnudos e olhos grandes de cor âmbar. Os cabelos chegavam até as costas formando cachos espessos e balançantes. Seu corpo era magro, a cintura bastante fina. Como dizia o meu avô, um verdadeiro corpinho de violão. Ela exalava delicadeza e feminilidade no seu olhar, bem como em suas atitudes.

Ao notar que eu a percebi me observando, ficou constrangida e acenou discretamente com a cabeça como se dissesse “Meus pêsames”. Seu olhar me passava uma tristeza, como se quisesse demonstrar para mim que entendia pelo que eu estava passando. Talvez pensasse que eu estivesse sofrendo por algum familiar meu ter falecido.

Deu meia volta, seguiu seu caminho segurando um ramalhete de flores em uma mão e um guarda-chuva transparente na outra. A blusa regata que usava era de cor branca e se encaixava formosamente bem em suas curvas destacando-as, harmonizando-se com o jeans escuro que cobria suas pernas. Nos pés, charmosas botas de salto alto a faziam caminhar elegantemente em direção a uma lápide muito distante do local onde eu e os demais familiares de César nos encontrávamos. Eu confesso, fiquei encantado com tanta delicadeza. É o tipo de beleza que não se vê muito por aqui e, quando uma pessoa tão bela permite que meus olhos a contemplem, é impossível não ficar extasiado.

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Abri meus olhos e tudo o que vi foi a luz do poste iluminando o meu quarto escuro através da janela. Levantei-me sentindo aquele vazio dentro de mim evoluindo a cada segundo. O relógio, sobre o criado mudo, marcava 4 horas e 33 minutos da manhã. Senti que o meio das minhas pernas se encontrava molhado, mais propriamente minha cueca. Acendi o abajur e notei que além do meu membro estar firme e volumoso embaixo do tecido, aquele líquido era puro sêmen. Esta foi a segunda noite após o funeral dos pais de César e eu já havia, de certo modo, me esquecido daquela jovem que vi no cemitério. Porém, naquela noite, infelizmente ou felizmente voltei a me recordar dela. Ela me visitou em um sonho, onde tivemos uma transa extremamente deliciosa. Parecia ser tão real e tão intenso. Pude sentir o quão sedosa era a pele morena e como eram macios e cheirosos os cachos que lhe enfeitavam o rosto. Seu beijo era incrivelmente arrebatador através dos lábios carnudos e doces, e ela sabia exatamente como me levar à loucura. O momento de gozar talvez tenha sido o mais real de todos, pois senti a intensidade do ápice e isso refletiu na vida real. Entretanto, acordar daquele sonho fez eu me sentir triste, solitário. Um nó corroeu minha garganta àquele momento. Olhei em volta de todo o quarto sentindo-me muito só. Pela primeira vez em minha vida, percebi o quão triste é a solidão e não ter alguém para estar comigo como parte de mim e me ter como parte sua.

Com os olhos marejados, tomei um banho e procurei não ceder àquele choro que insistia em sair. Eu não poderia deixar que aquilo me dominasse, sendo que era sentido por alguém que eu nem sequer conhecia.

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Você já teve um sonho bom que acabou afetando seu humor durante o dia inteiro, mesmo estando ciente de ser apenas um sonho? Se sim, então você já tem uma pequena noção do que estou passando. Digo pequena porque não foi apenas uma única noite. Já foram cinco noites seguidas com sonhos diferentes, com a garota do cemitério. Se nos dois primeiros dias eu consegui ficar bem, no terceiro acabei desabando. Isto só tem feito eu me sentir mais solitário e sozinho a cada noite que passa. Não, eu não estou apaixonado por alguém que eu só vi uma vez, mas é que... Eu não sei explicar. O modo como aquela garota tomou conta da minha mente está me fazendo enlouquecer. Se existe um Deus e ele tem o controle de tudo, apenas peço que Ele me impeça de sonhar novamente com ela. Pois acordar e ver que não posso tê-la ao meu lado faz as coisas serem... Serem bem difíceis.

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Ontem, no domingo, pela manhã foi onde resolvi pôr um ponto final nesta história. Percebi que estava indo além do meu controle, quando voltei a fumar e a única coisa que meu corpo recebia era café preto.

O dia amanheceu bonito ontem. Após um longo banho para tirar o odor de cigarro do meu corpo, resolvi me vestir com dignidade. Pois, desde o terceiro dia dos sonhos, descuidei da minha aparência e higiene pessoal. Resolvi usar minha camiseta polo favorita, uma vez que ela sempre me faz sentir bonito. Ela é preta e realça bastante o peitoral largo, os ombros bem desenvolvidos que tanto suei na academia para ter, quando vaidade era uma prioridade na minha vida. O jeans claro se ajustou bem às minhas pernas grossas e longas e uma pomada nos cabelos fez eu me sentir com uma aparência agradável, se comparado ao modo em que me encontrava nos últimos dias. E sim, eu fiz a loucura de, àquela manhã, ir até o cemitério. Foi idiotice, eu sei. Eu precisava encontrá-la, contudo, honestamente eu não esperava que ela correspondesse àquilo que eu estava sentindo. Eu precisava apenas dizer a ela o quanto aquele encontro no funeral dos Polinski me afetou durante a semana. Não precisaríamos nem ter nada... De repente, só o fato de poder ver o rosto dela novamente já me deixasse satisfeito.

Estar naquele cemitério fez eu me sentir feliz, após tantos dias tristes. Parecia que ali era o único fio de esperança que eu tinha de vê-la novamente e, por isso, uma pequena felicidade tomava conta de mim. Esperei sentado no meio-fio dos caminhos de paralelepípedos entre os túmulos, em frente à sepultura dos pais de César. Ali era mais próximo da entrada do cemitério e ficava mais fácil para eu ver quem entrava e quem saía. Mas, depois de uma hora e meia, ela não entrou, não veio prestar suas homenagens para sei lá quem fosse como fez naquela manhã chuvosa.

Levantei-me triste daquele meio-fio, com as mãos nos bolsos da calça, fui caminhando em direção ao caminho reto que me levaria à entrada do cemitério. Todavia, ao fazer a curva, meus olhos espontaneamente se viraram para os túmulos que ficavam mais no interior do cemitério. Túmulos estes em que se encontrava um dos túmulos o qual aquela garota levou seu ramalhete de flores. Minhas pernas começaram a me levar até lá. Nunca fui curioso, mas aquela realmente poderia ser minha chance de conseguir encontrá-la. Poderia procurar pelo sobrenome do falecido na internet e finalmente poder entrar em contato com ela.

Com passos intranquilos, corri em direção àquela lápide enterrada na grama.

— É agora, Oscar! É agora ou nunca que você poderá por um ponto final nessa loucura. – disse a mim mesmo, percorrendo os olhos esperançosos à lápide. Mas quando cheguei lá, a respiração ofegante ficou ainda mais intensa e meu sorriso esperançoso aos poucos foi desaparecendo, enquanto meu olhar transformou-se num olhar confuso. – Que... Loucura é esta? – Pensei comigo mesmo, abaixando-me e ficando de cócoras diante da lápide.

Eu não quis acreditar no que vi. Era loucura demais. Aquilo seria fisicamente impossível. A menina do guarda-chuva transparente que me olhou naquele dia no funeral e passou a me infernizar nos meus sonhos... Era nada mais e nada menos que a moça da foto que se encontrava estampada naquela lápide.

Fiorella Diop, filha e esposa amada.

Era o que estava escrito embaixo da sua fotografia. Levantei sentindo minha visão fosca, devido às lágrimas que começaram a invadir meus olhos. Um arrepio, um calafrio, uma sensação de medo tomou conta de todo o meu corpo. Senti uma tontura leve, que foi tornando-se suportável. Passei a querer ir embora dali o mais rápido possível. Se, há alguns momentos, eu queria encontrá-la, tudo o que eu desejava agora era exatamente o contrário. Quando dei meia volta, me deparei com um velhote parado atrás de mim.

— Você tá bem, moço? – perguntou com uma voz grossa e rústica. Segurava uma pá cujo cabo estava apoiado no ombro direito. Ele ergueu um pouco o rosto, para poder olhar melhor para mim. – O senhor se levantou assustado, parecia um gato escaldado.

Engoli a saliva e balancei a cabeça em tom negativo:

— Quem é essa garota? – inquiri apontando para a lápide atrás das minhas pernas. – Ela morreu?

— Viva é que ela num tá, né moço?

— Não! – exclamei, alterado. – Eu quero dizer... Ela morreu esta semana?

— Claro que não moço. O senhor não viu a data de falecimento dela ali não?

Rapidamente voltei-me para a lápide e meus olhos marejados leram a data de falecimento daquela garota. Eu não era nem nascido quando aquela garota faleceu. Mas que diabos? Como eu a vi ali, em pé no cemitério me olhando e segurando um guarda-chuva transparente? Que confusão é esta, meu Deus? Se eu já me encontrava perdido e confuso, agora estava ainda mais.

Corri para minha casa para tentar esfriar a cabeça. O caminho de volta, no entanto, foi conturbado, quase bati o carro em alguns momentos e ouvi buzinas me chamando a atenção o tempo todo.

De todo modo, agora eu ao menos sabia o seu nome. Pesquisei por ele na internet, acabei encontrando um endereço que ficava na região rural de Copervale. Pensei comigo mesmo que não tinha nada a perder se conseguisse mais informações indo até aquele local. E se não conseguisse... Tudo o que eu desejaria era não ter mais aqueles sonhos.

Dirigi pela rodovia que descia para o interior da cidade. O cigarro acabou virando meu melhor amigo. Fumei um atrás do outro àquela manhã. Mesmo com o endereço em mãos, encontrei dificuldade para localizar a residência da família Diop. Após uma bela estradinha de asfalto estreita e rodeada de árvores, bem lá no final, pude ver a fachada de uma mansão antiga e modesta. Na verdade, estava mais para um casarão de luxo de algumas décadas atrás. Porém, mesmo parecendo antigo, era muito bem cuidado e preservado. Estacionei o carro na grama bem aparada e pude avistar alguns cavalos pastando em um local cercado com cercas de madeira pintadas de preto, dispostas perfeitamente. Seja quem fosse o dono daquele lugar, era alguém muito organizado.

Retirei os óculos escuros e olhei para o topo do casarão dos Diop, me dirigindo em passos lentos até a varanda da frente. Meu coração palpitava como eu nunca havia sentido palpitar antes, uma intuição me disse que naquela casa eu poderia descobrir o motivo de estar tão envolvido com aquela garota. Apertei a campainha, uma voz rouca disse, com dificuldade, de lá de dentro que eu aguardasse. Apreensivo e tentando fazer com que o tempo passasse logo, fiquei a olhar rapidamente para os lados admirando a beleza daquele terreno no campo. Foi então que, após alguns segundos, pude ouvir o barulho daquela porta rangendo. A entrada da frente tinha duas portas, uma de madeira e a outra feita com uma tela com furos minúsculos, para evitar que insetos entrassem. As duas se abriram, e de dentro da casa surgiu um senhor de muita idade. Caminhava dificultosamente apoiado em uma bengala do lado direito e vestia um elegante suéter listrado. Ao contrário dos demais velhinhos, tinha muito cabelo. Eram escorridos, bem lisos, finos e extremamente brancos. Ele ergueu seus olhos para poder me ver melhor através das lentes dos seus óculos e notei que estava prestes a dizer um “Pois não?” que foi interrompido por um:

— Senhor amado! – disse com uma expressão de choque.

Olhei em volta de mim para ver se encontrava algo de anormal, mas tudo o que vi foi nada. Voltei a olhá-lo, ele continuava a me olhar com seus olhos esverdeados expressando surpresa. Na verdade, parecia mesmo era estar vendo um fantasma.

— Está tudo bem com o senhor? – perguntei posicionando minha mão no seu ombro. Ele olhou para minha mão, então levou sua mão até meu pulso segurando forte, como se quisesse se certificar de que eu realmente era real. Foi quando notei que seus olhos se encheram d’agua, me deixando sensibilizado.

— Menino... Quem é você? – perguntou com a voz embargada.

— Meu nome é Oscar... – respondi calmamente, percebendo que ele se encontrava emocionado. – Eu não sei exatamente o que vim fazer aqui. – confessei sentindo um nó na garganta. – Mas eu preciso... – não me contive. O choro veio à tona, acabei desabando na frente daquele senhor enquanto falava. – Eu sinto que a resposta para o que eu quero está aqui. – expus com dificuldade, soltando alguns suspiros.

Quando menos percebi, ele me abraçou. Encostou a cabeça no meu peito, chorava como uma criança. Mas o que está acontecendo? Meu Deus, eu preciso de uma explicação para isso. Dizia eu, para mim mesmo mentalmente.

— Eu preciso lhe mostrar algo, me acompanhe, filho! – convidou o velhinho, agora mais calmo e após ter-se apresentado com o nome de Henrique.

Subimos por uma escadaria grande que nos levou até o andar superior e posteriormente a uma escadaria mais estreita e menor, que nos levou até o sótão.

— Me desculpe a poeira. – disse ao notar que comecei a espirrar. – É que faz muito tempo que não subo aqui, tenho dificuldade em subir esta escada. A diarista vem semanalmente limpar a casa, mas eu não permito que ela suba para limpar aqui.

— Mas por quê? – perguntei, observando que havia muitos lençóis cobrindo objetos em formatos retangulares e quadrados. Aquilo foi mais uma estratégia da minha parte para ganhar sua confiança e finalmente buscar informações sobre Fiorella Diop.

— Era aqui que minha falecida esposa costumava ficar. Ela adorava pintar. – explicou caminhando até uma janela de madeira, empurrando-a para cima para que o ar entrasse. – Ela passava a maior parte do tempo aqui.

— Com que idade sua esposa morreu?

— Na época ela tinha dezenove anos e eu vinte e dois. Uma epidemia de tuberculose se alastrou por toda Copervale e ela acabou pegando a doença.

— Deve ter sido muito triste para o senhor.

— Graças a Deus nós já havíamos tido um filho. Tive que ser forte para poder dar forças a ele.

— E o que a sua esposa costumava pintar? – indaguei, apenas para dar seguimento à conversa e chegarmos à resposta que eu procurava. Eu realmente não tinha curiosidade alguma em saber o que a falecida esposa do senhor Henrique pintava. Mas após eu lhe perguntar aquilo, um silêncio desconfortável surgiu naquele sótão. Seu Henrique, que até então estava organizando pequenos objetos para disfarçar a bagunça, se aquietou e veio caminhando até a mim.

— Você realmente quer saber o que ela pintava, filho?

— Ah... Não é tão necessário. – ofereci-lhe um pequeno sorriso e lhe dei as costas caminhando em direção à saída do sótão. Mas então me lembrei de que ele tinha algo para me mostrar. Parei de andar, ficando ainda de costas para Seu Henrique que, imagino eu, ficara a me olhar. – O senhor disse que havia algo a me mostrar. – falei, olhando fixamente para a porta de entrada do sótão.

— Descubra as telas.

Naquele momento eu senti que estava prestes a descobrir o que estava por trás daqueles sonhos. Estariam naquelas telas, pintados os lugares, os detalhes, as sensações passadas para a ponta do pincel, que tive durante aqueles sonhos? Minhas mãos se esticaram até o lençol branco. Quando o puxei, uma pequena nuvem de poeira acumulada se movimentou diante dos meus olhos, abanei aquilo com as mãos até a pintura na tela ficar visível. Aquela mesma sensação sentida no cemitério horas antes, então, tomou conta de mim. A diferença é que agora eu não senti medo, como senti no cemitério. Entretanto, o que eu pensei que poderia ser a resposta para os meus sonhos, fez com que mais questionamentos surgissem. Como era possível que Fiorella estivesse morta há tanto tempo, se ainda assim eu a vi em carne e osso no cemitério? Ou pior, como era possível que naquela tela pintada por ela, estivesse o meu retrato?

— E este não é o único. – disse Seu Henrique, descobrindo as demais telas pelo sótão. Eram mais de doze telas, todas pintadas com o meu retrato. Era exatamente o meu rosto que se encontrava naquelas pinturas. Como se eu tivesse conhecido Fiorella Diop e tivesse posado para que ela me pintasse. Em cada retrato, eu estava numa posição diferente e com expressões díspares. Em alguns, eu me encontrava sorrindo, de um modo radiante e feliz. Noutros, meu olhar estava enigmático e, por vezes, sério, mas nunca triste. Seu Henrique então deu um sorriso e falou de um jeito descontraído:

— Eu morria de ciúmes. Perguntava a ela quem era o rapaz dos retratos, ela me dizia apenas que era alguém das suas pinturas. E ela... Tinha um cuidado maior com estas obras, do que com as demais.

— Eu ainda não compreendo, Seu Henrique. – olhei para ele sentindo que meus olhos novamente estavam marejados. Eu estava emocionado e ao mesmo tempo confuso. – Como isto é possível?

— Acredite, filho, estou ainda mais confuso do que você. Já havia até mesmo me esquecido destes retratos. Mas quando lhe vi lá na entrada... Foi inevitável conter a emoção e não me lembrar de Fiorella.

Descemos para o andar debaixo. Tomei um chá junto com Seu Henrique, na sala com decoração tradicional e luxuosa. Grande parte dos móveis eram brancos e tinham pequenos detalhes dourados. Conversamos muito àquela tarde. Fiorella e Seu Henrique se conheceram na adolescência, casaram-se com muita reprovação da parte da família dele, por ela vir de uma origem pobre e por sua cor de pele. Naquela época, os jovens casavam-se muito cedo, por isso, eles tiveram um filho tão precocemente. Ela estava pronta para viajar para Londres, frequentar uma faculdade de artes poucos dias antes do diagnóstico de tuberculose chegar. Pintar era a vida dela, algo que fazia com muito gosto, muito carinho.

Naquela tarde, junto de Seu Henrique, eu não obtive a resposta que eu gostaria, pude conhecer um pouco mais sobre Fiorella Diop. Mas... E aqueles sonhos? E quem diabos foi a pessoa que eu vi no cemitério?

— Eu preciso ir. Preciso descansar, o dia teve muitas surpresas. – anunciei, ainda na varanda da frente, despedindo-me de Seu Henrique.

— Você é um homem bom, Oscar. Volte mais vezes, é bom ter alguém para conversar.

— Tudo bem, Seu Henrique. Em breve estarei de volta. – prometi lhe dando um aperto de mãos. A minha resposta eu não consegui, mas meu coração agora estava mais calmo e quieto. Isso por si só já era um grande alívio.

Quando dei meia volta e comecei a descer os degraus da varanda, outro veículo aproximou-se da casa. Eu não dei muita importância, pois me encontrava cansado demais. Apenas queria ir embora e descansar depois daquele dia tão confuso. Contudo, para chegar até o meu carro, eu precisava passar pelo veículo que havia acabado de aparecer. Andei tranquilamente pela grama, enquanto quem dirigia o veículo abria a porta e saía do carro. Pude então, ver uma moça de cabelos lisos e em um tom castanho claro, de costas para mim trancando a porta do automóvel.

— Oi, vô! – festejou ela, empolgada, com a voz alta, para Seu Henrique que estava na varanda da casa. Ao virar-se de frente para mim segurando as chaves do carro em sua mão, minhas pernas travaram. Eu parei de andar e fiquei a observá-la, estando pasmo ao vê-la vindo em minha direção. Aquela menina era idêntica à Fiorella Diop, a única diferença é que seus cabelos eram lisos. Ela veio aproximando-se de mim, com um sorriso inocente e jogando alguns fios de cabelos para trás. – Oi! – Disse para mim, com o sorriso mais lindo que eu já vi em toda minha vida.

— Oi. – respondi com um sorriso, enquanto ela deu uma pequena risada. – O que foi?

— Nada, é só que... Engraçado. Eu tenho a sensação de te conhecer de algum lugar.

— Eu também tenho essa sensação. – redargui percebendo como seus olhos eram semelhantes aos olhos de Fiorella, de cor âmbar. E agora com o sol de fim de tarde iluminando aquela jovem, pude notar o quão belos eram aqueles olhos. Ela apenas sorriu e saiu caminhando pela grama extensa em direção ao seu avô, que estava na varanda da casa lhe esperando. Ela então passou a andar de costas em direção a casa, enquanto falava para mim:

— Talvez me conheça dos seus sonhos. – soltou, virou-se novamente pondo-se de frente para a casa, e correu feliz até Seu Henrique como se sentisse saudades e quisesse abraçá-lo. Ela flertou comigo. Aproveitou-se do meu encantamento por sua beleza, e talvez fosse mais sarcástica e cruel se descobrisse sobre meus sonhos.

Por fim, voltei para casa tendo conhecimento sobre Fiorella, mas ainda assim sentindo-me vazio e incompleto. É muito triste saber que eu poderia ter tido a chance de realmente conhecer o que é o amor, junto dela. Ontem a tarde, ao voltar daquela fazenda, me sentei na rocha do penhasco de Copervale, onde refleti enquanto o sol se punha. Pude então chegar à conclusão de que, se por um lado é triste não poder ter Fiorella nos meus braços, por outro, tive conhecimento de que a minha ligação com a jovem de olhos de cor âmbar, ultrapassa a linha do plano físico. Talvez isso tenha me dado forças para seguir em frente, e não ter cometido à loucura de jogar-me do penhasco. Afinal, quando nosso destino é ficar ao lado de alguém que amamos, isto se cumpre. Mesmo se isto não for nesta vida.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!