Retratos

1 Introdução.


“Há mais coisas entre o céu e a terra, do que pode imaginar nossa vã filosofia.”

William Shakespeare.

De repente, isto passou a fazer muito sentido para mim. Admito, estou assustado ao ver o rumo que toda esta situação me levou. Há dias que não consigo comer direito e dormir virou meu único refúgio, pois na atual situação é apenas nos meus sonhos que eu consigo ser feliz. Minhas olheiras estão cada vez mais profundas e meus colegas de trabalho dizem que ando desatento às minhas funções na empresa. Sempre fui considerado um homem de aparência jovem, acostumei-me a ouvir elogios de que me pareço mais novo do que a idade que realmente tenho, trinta anos. Mas, com as preocupações que o destino me pregou nestes últimos dias, tenho aparentado mais idade. Ontem, voltando da fazenda, estacionei meu carro no precipício de Copervale. Aquele fim de tarde estava muito bonito, o sol brilhava forte dando-me o seu adeus. Era um ambiente convidativo e extremamente poético para um charmoso suicídio. No entanto, eu fui fraco, não tive coragem de me jogar dali. Não sei o motivo de ter tido tanto medo do que viria após a morte, pois, estar em qualquer situação que não seja a atual, seria um paraíso para mim, porque me falta algo, sinto-me incompleto, choro todas as noites na janela do meu quarto e porque tenho certeza que, por alguns, instantes seria levado ao céu. Agora estou na eternidade do inferno.

Explico, eu vivi solteiro até agora perfeitamente bem, tive meus romances, minhas paixões, mas, sendo um homem bem-sucedido, com estabilidade financeira aceitável, acabo por trabalhar demais e não tenho tempo para me aprofundar em um relacionamento sério. O meu pesadelo, então, começou há pouco tempo. Estava ocorrendo uma festa na casa do César, um rapaz de vinte e dois anos lá da empresa. Os pais dele viajaram a trabalho e o garoto ficou sozinho em casa. Por ter se graduado recentemente e estar em seu primeiro emprego, César ainda mora na casa dos seus pais... Quero dizer, morava. Ele chamou alguns colegas da empresa, inclusive a mim, para um pequeno churrasco no quintal do condomínio de luxo onde moravam. Estávamos nos divertindo muito naquela noite quente de verão. Alguns amigos pulavam na piscina, outros conversavam uns com os outros na grama perto da água, segurando suas garrafas de cerveja. Eu havia ido buscar alguns talheres na cozinha, até que o telefone acabou tocando.

— César! O telefone está tocando, cara! – gritei para ele da cozinha, enquanto o via divertir-se lá fora em uma roda de amigos. Ele respondeu de lá:

— Pô, atende aí para mim, Oscar! Meus pais sabem que estou fazendo esta reunião.

Eu confesso ter ficado surpreso com aquilo. É desconfortável você atender a um telefonema residencial em uma casa que nem é sua. Mas, mesmo assim, lhe fiz o favor de atender.

— É da casa dos Polinski?— perguntou a voz do outro lado.

— Sim senhor, aqui é um amigo da família. Quem fala? – questionei.

— Eu gostaria de falar com César Polinski, filho de Branca Polinski e Sebastian Polinski. Aqui é a Polícia Rodoviária de Copervale.

Eu não conhecia os pais de César, mas temi por ele naquele instante. Se a polícia liga para noticiar algo, a notícia não é das melhores.

— Só um momento eu... Eu vou chamar o César. – respondi falando firmemente. Quando fui até o quintal, pedi licença e passei meu braço direito atrás dos dois ombros de César, guiando-o delicadamente até a cozinha. – É a Polícia de Copervale. Eles precisam muito falar com você.

— O que houve, Oscar? – perguntou-me com um olhar assustado. Eu preferi ficar quieto e deixar que ele ouvisse do próprio policial o que eu imaginava que pudesse ter ocorrido.

Ao colocar o telefone no ouvido, a pior notícia que se havia para ouvir por um telefone, César ouviu naquele momento. Seus pais tiveram o carro batido na rodovia por um caminhão que invadiu a contramão. Infelizmente e para a tristeza do pobre César, o óbvio e inevitável acabou acontecendo. Seus pais perderam a vida naquele trágico acidente, ocorrido na autoestrada que ligava Copervale à outra cidade.