Retomada.
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Capítulo II
Tyrion pareceu, no início, confuso e bastante desconfiado, porém, logo em seguida, quando Sofie falou, sua expressão transmutou-se em decepção e medo.
- Não é nenhuma grande habilidade saber reconhecer aquilo que se sabe procurar...
Desajeitadamente o anão dirigiu-se para a cadeira, enquanto Sofie acenava para que se sentasse. Sofie esperou que ele se acomodasse enquanto remexia em uma das gavetas de sua escrivaninha e retirava um maço do que pareciam ser cartas.
- Aquilo foi bastante esperto de sua parte, senhora. – Havia cautela em sua voz.
- Agradeça aos Sete a inspiração, porque nem sempre eu sou esperta e nem sempre eu tenho um plano.
- Como soube a meu respeito?
- Sua irmã parece bastante empenhada em achá-lo. Não poupou pergaminhos proclamando as benesses de entregá-lo a ela. Muitas pessoas sabem.
- Então, vai entregar-me?
Sofie sorriu e cruzou as mãos sobre o maço de cartas que agora estava entre eles.
- E por qual motivo eu faria isso, depois de tê-lo salvado, aqui, em Essos?
- Para a senhora mesma obter dinheiro, títulos... Quem sabe a amizade de minha gentil irmã? – Essa última opção foi dita com um tom zombeteiro. Mas Sofie pareceu ofender-se, pois respondeu bruscamente.
- Não preciso dos títulos de Westeros. Quanto à amizade de sua irmã, não creio, pelo que sei, que quisesse ser sua amiga. – A essa última observação, Tyrion esboçou um pequeno sorriso.
Eles foram interrompidos por um fraco bater na porta; era Marie, com a taça. Sofie tinha sua própria taça, que estava ainda na escrivaninha. A criada ainda fez menção de servi-los, mas Sofie a dispensou com um acenar da mão.
Despejou o vinho tinto e seco na taça trazida por Marie, serviu a sua e não pôde deixar de esconder uma expressão risonha ao ver a hesitação do pequeno homem em tomá-lo. Sofie riu:
- Não acha que iria salvá-lo à custa de matar um para envenená-lo na minha biblioteca, ainda mais com vinho da Árvore?
- Talvez vossa senhoria queira me drogar com elegância e fazer coisas indecorosas comigo?
Sofie respondeu com um muxoxo de desprezo e tomou um longo gole do seu vinho. Imediatamente, sentiu a cabeça mais leve e teve certeza que deveria comer algo. Partiu o pão enquanto Tyrion bebia um gole ainda mais longo do que o dela.
- Bem, então, eu acho que devo agradecer por ter salvado a minha vida, mas ainda não sei por que e nem sei a quem devo tal favor.
Sofie terminou de mastigar o seu pão e não se conteve:
- Acho que esqueci a minha educação, não é mesmo?! Talvez eu devesse ter feito isso logo depois de arrombar a sua porta em um prostíbulo e, com sorte, alguns segundos antes do senhor ser apunhalado, não é mesmo?
Sofie escarnecia, Tyrion a observava, ainda curioso e com a testa franzida.
- No fim, parece-me justo – Sofie retomava a seriedade – eu sou Sofie Bellavue, Magíster dessa cidade.
- Magíster... – Ele estava francamente surpreso. – Desculpe-me, mas não existem mulheres com essa posição...
- Não desde que o último dragão desapareceu... Há um longo tempo. É, eu sei. Eu conheço a história da minha família. As mulheres perderam seus poderes e começamos a ser governadas à moda de Westeros. Uma longa noite para nós.
- Isso significa que a senhora...
- Não significa. Apenas calhou de encontrar-me na situação de ser a única pessoa apta a dirigir essa cidade. Os outros eram ou muito jovens, ou muito velhos ou sem condições mentais para o cargo, ou estavam longe quando foi preciso instaurar uma autoridade... Ou eram despojados de honra. Enfim, eu sou o resto, entretanto isso não fará com que exerça minha função com menos dignidade.
Tyrion fez menção de continuar a conversa, mas Sofie sentia a cabeça tonta e o juízo um tanto quanto afetado. De repente, sentiu um cansaço, um cansaço tão grande que poderia atirar-se ao chão e dormir. Ao invés disso, levantou-se e empinou o resto do vinho, serviu-se de mais uma taça e tomou-o todo de uma vez.
- Eu estou exausta e vejo que essa conversa se prolongaria pelo resto da noite. Tudo que tem de saber é que é meu hóspede e eu respeito as leis de hospitalidade – ao contrário de uma certa casa westerosi. Aqui ficará seguro e guardado. Não saia da casa, ao menos, por enquanto. Amanhã é outro dia e, então, conversamos. Devo passar o dia fora e, se quiser, pode vir para cá e ver os livros. Se precisar de algo, peça a Marie.
Nesse momento, ela fez uma pausa e um sorriso cansado lhe passou pelos lábios.
- Quer dizer, ela irá lhe providenciar quase tudo. Não se atreva a incomodar minhas criadas. Entendido?
Tyrion fitava-a com um olhar curioso e quase divertido, a verdade é que aquele discurso o surpreendera.
- Farei o possível para não desagradá-la com minha feia aparência.
Sofie não sabia se ele estava falando dela ou de Marie. Deu de ombros e dirigiu-se para a porta, na passagem, pediu que Phillip mostrasse o quarto e encaminhou-se para o seu próprio. Deixou que Marie lhe despisse e lhe fizesse uma trança e meteu-se embaixo dos lençóis o mais rápido possível. Dormiu quase imediatamente com o vinho de sonhos que tomara.
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