Retomada.
3 Capítulo 3
O dia seguinte não prometia ser melhor do que a noite fora. Sofie sabia disso mesmo antes de todo aquele vinho. O sono fora profundo, mas perturbado por sonhos dos quais não tinha lembrança alguma. Dormira pesadamente, mas sabia que não descansara. Um sono forçado, um sono não-natural nunca tinha o mesmo efeito daquele dormido pela mão da natureza. Ela sentia-se cansada, mas a cama também já não lhe oferecia descanso.
Mesmo assim, quando Marie abriu as janelas, Sofie, instintivamente, puxou seu lençol para cima do rosto. Às vezes, era tão difícil levantar... E isso independia do tanto de vinho que tivesse tomado. Então, resoluta, saiu da cama de chofre, mas logo sentiu o frio da manhã e uma tontura a fez parar. Teve vontade de voltar para a cama e fingir que nada tinha para fazer. Entretanto, ela sabia que o dia de hoje não seria melhor.
Marie alcançou a bacia com água fria para que lavasse o rosto. Seu pai dizia que a senhora sua mãe sempre lavava o rosto com água fria. Ela dizia que era bom para a pele e para a mente sonolenta. Sofie achava que a mãe tinha razão, porém, hoje, era preciso mais que água fria para que sua mente se desanuviasse.
- Marie, eu preciso de uma boa refeição, uma refeição quente e cheirosa.
- Há pão doce com ervas recém-saído, peras e maçãs. Uma geléia muito boa e carne de coelho, de ontem, que ainda está bastante boa, senhora.
Marie hesitou um momento mais, queria dizer algo e Sofie encorajou-a:
- Diga-me, Marie, o que é?
- A senhora tomou vinho de sonhos ontem, não foi?
- Precisava dormir...
- Desculpe senhora, mas é melhor tomar a erva da serenidade, o vinho de sonhos apenas lhe embaralha aquilo que deve...
- ...ser visto e sentido. Eu sei. Ontem à noite eu matei um homem, então, eu tinha a minha própria carga de sentimento. Não podia ficar com o fardo de outra pessoa.
- Isso só torna as coisas mais difíceis, minha senhora.
Sofie não respondeu e, dirigindo-se até seu guarda-roupa, pegou um vestido marrom, com pequenas flores azuis bordadas na beira das mangas e da saia. As cores de sua casa, o vestido de sua mãe, o veludo marrom lhe dariam o conforto desejado.
- Senhora...?
- Sim, Marie.
- O nosso ‘hóspede’ fará o desjejum com senhora?
- Sim, Marie, ele é nosso hóspede, de que outra maneira haveria de ser?
- Ele é um homem estranho.
- Tu queres dizer que ele é um homem feio.
- Não senhora, quero dizer que ele, além de feio, é estranho.
A essa altura, Sofie estava com o vestido já no meio das coxas e sua paciência começara a sumir. O movimento de se abaixar para começar a pôr o vestido, mesmo que Marie tivesse acorrido para auxiliá-la, deixara-a tonta. Sofie suspirou pesando as palavras: ela tinha como hábito não brigar com suas criadas. Além disso, Marie sempre a quis bem e não fazia por mal, embora fosse, no mais das vezes, irritante com suas manias.
- Ele é só um homem feio e um tanto... perdido. Talvez um pouco amargurado e culpado.
- Perdido de onde? Culpado de que, minha senhora? – Essa última pergunta estava um tom mais alto do que a anterior; Marie estava preocupada.
- Marie, já está bom. – Sofie desvencilhou-se das mãos da criada e sentou-se defronte à penteadeira. – Faça um coque simples e prenda com a rede de flores azuis.
Marie sabia que, se sua senhora não tinha respondido ou era porque não queria responder ou era porque se irritara com tantas perguntas. Ela ignorou que sua senhora, por sua vez, tivesse ignorado-a e fez o que foi pedido. Sofie deixou o quarto enquanto Marie guardava sua roupa de baixo e terminava de abrir as janelas, apesar do vento de outono.
Sofie aprendera que era preciso deixar o ar entrar para tirar os miasmas da noite, para revigorar o ambiente, assim como a água fria fazia com o rosto e a mente. Além disso, ela gostava do vento de outono, embora esse fosse o primeiro que sentisse. Havia algo de puro nele.
No meio da escada, ela avistou seu hóspede. Ele a aguardara, como cabia a um homem de seu nascimento. Hoje, parecia menos amassado e mais digno. A noite anterior não fora boa com nenhum deles, isso ela lhe concedia. Abrigá-lo é que a incomodava. As pessoas já comentavam o fato de ela ser donzela e evitar os casamentos, agora, se alguém soubesse que havia um estrangeiro em sua casa, não seria poupada dos comentários maldosos e ela sabia que eles viriam. E, para completar toda aquela situação... Ela lera a correspondência sobre Westeros, mesmo quando o pai era vivo, e sabia da fama da casa Lannister. Tyrion sempre parecera o menos ameaçador, mas não sob o mesmo teto de uma donzela. Porém, agora, a esse risco, se somavam seus crimes. Se não fosse a dívida que seu pai tinha com Varys – seja lá que dívida fosse – ela teria se recusado a abrigá-lo. O pai, entretanto, antes de morrer, lhe deixara além dos bens, conselhos, recomendações e regras ainda algumas promessas. Uma, era que deveria sempre ajudar o senhor Varys naquilo que ele pedisse. Até então, tudo que ele pedira eram relatórios sobre boatos, fofocas ou acontecimentos nesse canto perdido de Essos. Mas, ao mesmo tempo, ela nunca soube por qual motivo, eles também recebiam as novidades de Westeros.
- Bom dia, senhora.
- Bom dia, o senhor dormiu bem?
Ele lhe respondeu com a voz mais baixa, enquanto Phillip os observa com desconfiança.
- Não melhor que a sua, pelo que posso perceber.
- Talvez o senhor seja mais observador do que eu imaginava ou mais intrometido.
- As duas coisas costumam se esbarrar e, além disso, o vinho parece ter um efeito muito parecido entre as pessoas que abusam dele.
Sofie fingiu não ouvir a provocação, embora tivesse lhe parecido mais uma constatação paternal. Tudo do que não precisava era de mais um homem dizendo o que ela devia ou não fazer. Para isso havia o meistre, Phillip e toda a sociedade de Bellevue.
Phillip puxara a cadeira para Sofie como sempre e fazia questão de deixar claro o descontentamento com aquele estranho que se sentava à mesa de sua senhora. Sofie fingiu que não viu.
- Senhora, há audiências hoje.
- Eu sei, Phillip.
- Acho que deveríamos começar pelos órfãos...
- Sim, e depois o roubo e mais a querela daqueles dois vizinhos, depois do porto.
- Por que a senhora vai até lá, por que, ao invés, não os faz vir aqui? – Tyrion não parecia se importar que aquela conversa não lhe dissesse respeito.
- Porque não gosto de estranhos em minha propriedade.
- É mesmo? Eu não podia imaginar isso...
- E porque não quero que eles saibam que há um estranho.
- Eu sou pequeno, não iriam me ver, a não ser que quisesse.
- De qualquer modo, eu não os recebo aqui; além disso, se eu fosse o senhor, ficaria mais preocupado com quem quer a minha cabeça.
- Isso é bastante óbvio...
- Não tão óbvio, acho. – Sofie virou-se para Phillip perguntando se havia algo mais. Ele acenou, ainda bastante descontente com aquilo tudo, mas respondeu prontamente.
- E já que estaremos no porto, irei, depois, ouvir os marinheiros, talvez eles tenham notícias de Meeren.
- Meeren? – Sofie ouviu a voz do anão, que soava entre o espanto e a curiosidade, com um descontentamento o qual não fez questão alguma de esconder.
- Sim, a rainha dragão parece encurralada...
- Mas, e os dragões?
- É a pergunta que todos fazem, por isso Phillip vai até lá.
Sofie levantou-se. Comera muito pouco e aquela conversa, logo pela manhã só a dispersara mais ainda. Não podia falar com ele, não ainda.
- Distraia-se com a biblioteca, espero retornar hoje no meio da tarde e, então, continuamos a conversa de ontem à noite. — Sofie sabia que aquelas poucas palavras trocadas não explicavam nada e sentia quase compaixão ao pensar nisso. Ele realmente precisava de mais do que aquele vinho oferecera. Pensando nisso, Sofie sabia que o efeito do vinho de sonhos estava se dissipando e que devia ir. Há muito a ser dito, ela pensou.
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