Resumption
57 Capítulo 57
Notas iniciais
Pov – Carl
Poderia ficar aqui dentro para sempre. Não sinto a menor vontade de ir lá fora encontrar pessoas. Mas Judy não está disposta a colaborar comigo e resmunga esgotada de seus brinquedos.
─Vamos lá espertinha. Só uma voltinha para aproveitar o sol. Depois voltamos.
Coloco ela no carrinho e deixo a casa. Tem uma pequena movimentação de pessoas envolvidas no trabalho de fazer esse lugar funcionar. Quero tanto me encaixar em qualquer coisa e não ser só um garoto tolo que cuida da irmã e pensa bobagens. Sei se sou capaz de ir lá fora. De ter um trabalho aqui dentro e tem tantas senhoras que poderia cuidar de Judy.
Estou cansado de ser um menino. Não tenho mais idade nem tamanho para isso. Só não sei como fazer os outros enxergarem isso e tenho medo que descubram do jeito mais difícil. Quando estivermos em perigo real.
Do que serviram todos os ensinamentos do meu pai, Michonne, Daryl? No fim eu ainda sou o garoto que anda por aí levando recados e cuidando de bebês.
Vou empurrando o carrinho pelas ruas procurando o sol para Judy, ela vai emitindo sons que deixam claro sua alegria. A pobrezinha não tem razão nenhuma para ficar enclausurada comigo. Já teve que ser corajosa tantas vezes. Merece um pouco de momentos de paz e tranquilidade.
Penso no tempo que achei que a tinha perdido. Na dor que foi aquilo. No presente de foi tê-la de volta. Judy está sempre ressuscitando. É uma lutadora como Daryl diz. Venceu a morte muitas vezes e sinto um pouco de vergonha de me sentir tão fraco.
Sinto vergonha de uma cicatriz no rosto ter tanto poder sobe mim quando convivi com gente como Hershel que perdeu uma perna, mas não a força de viver.
Jessie se aproxima sorrindo. Gosto dela. Acho que é uma mulher aprendendo a ser forte. Tem dois filhos. Está indo bem. Acontece que no fundo prefiro Mich. Ela já é o mais perto que tenho de uma mãe e não queria perde-la como sei que vai acontecer se meu pai e Jessie engatarem um romance.
Mich vai se afastar. Eu sei disso porque tem algo entre eles e está longe de ser amizade como a dela com o Daryl.
─Cada dia mais linda essa garotinha. – Jessie se abaixa na frente do carrinho para beijar Judy. – Dá uma saudade de quando os meus eram assim. – Ela se ergue e me sorri. – Tudo bem com você? – Afirmo com um sorriso forçado no rosto. É estranho que ainda conservamos essas manias todas. Sorrir sem vontade para ser social. Mentir que está tudo bem quando somos perguntados. Todo mundo ainda faz isso e é uma bobagem.
─Vim dar uma volta com ela. – Como se ela não tivesse notado. Jessie mantem o sorriso. Meu olhar varre o ambiente e vejo Amber passar um quarteirão a frente. Deve estar indo para casa. Será que a raiva já passou? Sinto urgência em falar com ela.
─Pode ir Carl. Olho um pouco Judy, dou uma volta com ela e depois você a pega lá em casa.
Acho que todo mundo sabe que estou meio enrolado com Amber. Que mal tem em tentar. Não pedi a Jessie, ela se ofereceu. Quem sabe é um sinal.
─Obrigado. Não demoro. – Deixo as duas e apresso meu passo. Me controlo para não correr como se estivesse sendo perseguido. Chego a casa dela quando Amber se aproximava da porta. – Amber!
Ela para. Demora uma eternidade para se virar enquanto continuo a caminhar em sua direção. Seus olhos são duros. Mas ela me espera. Sinto que está disposta a me ouvir. Mesmo que não esconda a raiva que sente de mim. Essa garota nunca esconde nada mesmo.
─Podemos conversar um momento? ─Tento não parecer desesperado. Não sei se consigo.
─Não quero conversar com você. – Ela diz sem me olhar quando me aproximo.
─Tudo bem. Fico grato se apenas me ouvir.
Com um suspiro de resignação ela se senta nos degraus olhando o horizonte. Me sento a seu lado. Não sei como falar com ela. Como explicar toda confusão da minha cabeça.
─Se vai ficar mudo vou entrar! – Ela reclama e no fundo gosto do jeito forte que ela tem.
─Não sabia nada do futuro quando o apocalipse começou. Eu me dividia em ficar apavorado e curioso. Achei primeiro que acabaria logo. Depois que me dei conta que não. Eu fui vivendo um dia de cada vez esperando a morte sempre por um triz.
Olho para ela. Amber é tão bonita. Ela não me olha de modo algum. Ainda está séria. Mas me escuta e me basta, nem sei o que quero. No fundo só quero me livrar mesmo de tudo que anda apertando meu peito e me tirando o sono. Melhor continuar.
─Eu era um garoto bem chato. Hora minha mãe era um monstro e meu pai um herói. Hora meu pai era um babaca e minha mãe uma chata. O tempo todo ela estava gritando por mim. Eu estava sempre fazendo bobagem. ─Penso nos dias inocentes em que vivemos na fazenda de Hershel e que eu atirava pedras em zumbis atolados curioso sobre o que eram aquelas coisas e até onde podiam ir. ─ Culpava os dois por tudo e quando ela morreu eu era um péssimo filho. Me arrependi um pouco ou muito de não ter aproveitado mais minha mãe. Ela estava só perdida e assustada como todo mundo.
─Entendo isso. Tenho mãe.
─É você tem. Eu não tenho mais. Atirei na cabeça dela depois de ver a Maggie abrir a barriga dela e tirar a Judy. Fiquei lá. Me enfiei lá naquele buraco escuro da morte da minha mãe e nunca mais saí.
─Não pode.
─Não. Acontece que não esperava por um lugar como esse. Por pessoas como essas. Já olhou para essas pessoas? – Ela afirma. Não me olha. – Eles não têm a menor ideia do que é o apocalipse. Gosto daqui. Meu pai vai fazê-los enxergar.
Eu não estou dizendo nada que realmente quero. Suspiro. É tudo difícil demais. No fundo quando não tinha esperança de um futuro era melhor. Eu não tinha que lidar com nada disso. Uma cicatriz era coberta pela poeira das ruas e ninguém se importava com nada que não fosse achar algo para comer.
─Não sabia que tinha um lugar onde se podia viver e fazer planos. Não sabia que um dia eu podia me ver interessado em uma garota.
─Está aqui para se desculpar por gostar da Enid? Não precisa. A vida e as escolhas são suas.
─Disse que podia me ouvir. – Reclamo. Já é difícil falar e ela ainda fica tirando conclusões.
─Quer que fique sentada aqui ouvindo seus sentimentos por aquela idiota? O que? Está com medo de não sermos mais amigos? Pois é isso. Não somos. Não sei ser diferente. Não finjo que está tudo bem quando não está. A droga do mundo acabou. Não tenho mais que ser gentil com ninguém. Eu não quero ficar perto de você! – Ela explode irritada. A garota se irrita que é uma beleza, mas com ela tudo é real. Vivo. Honesto. Sem meias palavras. Sem esconder nada.
─Não gosto da Enid desse jeito! Gosto de... Eu quero ajudar ela. Não sei porque. Talvez por que se pareça comigo.
─Vi como pretende ajuda-la. – Amber me olha pela primeira vez. Está triste e no fundo gosto de saber que ela sente algo por mim. Seus olhos voltam para o horizonte.
─Viu. Pena que não ouviu. Disse a ela que somos só amigos. Que não penso nela desse jeito. Deixei tudo claro com Enid. Ela me beijou.
─E não fugiu.
─Não. Fiquei atordoado. E confesso que confuso também. Já estava antes. E aquele foi o momento que entendi como me sentia. Por que quando ela me beijou eu pensei em você.
Espero por alguma reação. Só silencio e olhos distantes.
─Mich me disse que talvez não acreditasse, mas que com o tempo veria que não tenho nada com a Enid e talvez me desse uma chance. Eu vou esperar por isso. Se não estiver disposta vou entender. Mas isso também não vai me atirar para Enid porque não quero. Não gosto dela. – Não ganho um olhar. – Gosto de você.
Também não vou implorar. A vida já é uma merda sem que tenha que me humilhar. Fico de pé e caminho para longe. Disse o que estava entalado e precisava soltar. Agora se ela quiser me dar uma chance que me procure.
A droga do mundo realmente acabou e se ela não tem que fingir sentimentos eu também não. Caminho para casa de Jessie. Ela estava na varanda com Judy.
─Deu tudo certo? – Ela me pergunta quando ergo minha irmã nos braços.
─Mais ou menos. – Não quero falar sobre isso com ela. Jessie não é Michonne e não pode ser. – Obrigado Jessie. Desculpe incomodar você.
Coloco Judy no carrinho que ainda estava na calçada e sigo com ela para casa. Por hoje chega de encarar pessoas. Meu pai estava saindo quando chego.
─Como estão as coisas?
─Indo pai. Depois falamos. Eu vou entrar. – Ele aceita. – Se vir a Mich diz para ela vir comer aqui de noite.
─Entendi. Prefere falar com ela.
─Pai não é....
─Eu sei. Está tudo bem. Não estou reclamando nem cobrando. Fico feliz que tenha ela. Eu vou encontra-la e convidar. Sabe que ela vem quando precisam dela.
─Obrigado. – Nos olhamos. Ele nem consegue cuidar dos próprios sentimentos. Como vai me ajudar a resolver os meus? Até o Daryl que sempre pareceu um cofre de banco de tão fechado conseguiu resolver seus sentimentos e meu pai não. E pelo visto estou indo para o mesmo caminho. Quando descubro como me sinto perco a garota. Tomara que ele tenha mais sorte.
Entro quando finalmente ele me deixa sozinho e coloco Judy no sofá. Ela está sonolenta depois do passeio e quando começa a cochilar eu me atiro no outro sofá. Enfiando de novo na minha maldita e solitária escuridão.
Pov- Benjamin
Aceno para Ron quando ele caminha com a mãe dele para casa. Acho que minha mãe que vem me buscar. Meu pai está machucado ainda. Olho para a esquina e vejo ele vindo. Fico esperando ele chegar. Gosto que ele é meu pai. Acho que todo mundo queria ser filho dele. Meu pai é muito forte e esperto.
─Pronto para ir pequeno duende? – Ele me pergunta e gosto quando ele brinca assim comigo. Faço que sim. – Que bom. Então vamos.
─Você já sarou pai? – Acho que agora não vou mais ficar olhando a febre dele. Eu gosto de cuidar dele.
─Sim. Só preciso ficar de olho se não tenho febre. – Sorrio. Eu que vou fazer isso. – A doutora que falou.
─Tá bom. Eu olho então. – Ele concorda enquanto a gente vai caminhando para casa. Esse lugar é bem legal. Ando nas ruas sem zumbis com pai e mãe e até comida. Ainda bem que eles foram lá me buscar naquela casa.
Minha mãe está na sala quando eu chego. Com cara de que chorou e penso se meu pai fez alguma coisa que ela ficou triste com ele. Então ela sorri para a gente e acho que ele já pediu desculpa.
─Que saudade! – Ela fala para mim. Acho que fica mesmo. Porque eu fico um tempão na escola todo dia. Fico esperando ela me pedir um abraço. Pode ser que ela não queira então eu espero. – Que acha de um abraço e um beijo.
Abraço ela. E beijo. Meu pai não pede essas coisas. Eu daria se ele pedisse.
─Oi mãe.
─Tudo bem na escola? – Faço que sim. – Com fome? – De novo faço que sim.
─E tenho uma lição bem difícil para fazer. Chama redação.
─Nossa. Será difícil mesmo. Vamos almoçar primeiro?
─É. Vem pai.
Os dois toda hora se olham. Meu pai beija a mão dela e ela fica com cara de choro. Fico quieto. Os dois olham para mim e não lembro se fiz alguma coisa feia. Acho que não.
─Eu vou fazer minha lição. – Aviso quando acabo de comer.
─Vamos conversar um pouco, Ben. – Meu pai me pede e senta no sofá com minha mãe. Eu sento na minha poltrona. Fico com um pouquinho de medo de um dos dois brigarem comigo. Não lembro mesmo de nada errado. – Eu e a Clarie temos uma coisa boa para contar para você.
─Que coisa? – Ele disse boa. Passo a mão no rosto para tirar o cabelo do olho.
─Ben. A Clarie está esperando um bebê. – Meu pai diz e fico olhando eles.
Um bebê na barriga dela como a Maggie. Agora eles vão ter um filho de verdade. Por isso que é boa. Agora o bebê vai morar no meu quarto e não vou mais ficar aqui. E nem chamar eles de pai e mãe.
Não vou ter pai, nem mãe, nem poltrona e quarto. Não vou ter nada e eles vão ficar com um bebezinho como a Judith que só fica parada e vão só querer o bebê e vou ficar na rua e ter que fazer coisas ruins.
Fico com raiva. Muita raiva que me enganaram. Me deixaram ficar e arrumaram outro filho de verdade para eles. Sinto minha garganta arder. Meus olhos também e não sei como que eu faço para isso passar.
─Odeio casa pequena! – Grito com eles. – Odeio tudo! Esse bebê é um idiota! Não quero nunca ver a cara dele! Quero morar numa casa grande! Vocês são burros demais. Burros e esse bebê ai também. Não vai saber fazer nada. Nem correr e um zumbi vai vir e comer ele e vão ficar sem nada! Burros!
A garganta dói de tanto que grito e subo correndo porque a minha mãe está chorando e não gosto quando ela chora. Me fecho no quarto. Não vou abrir a porta coisa nenhuma para me mandarem embora.
Me deito na cama e não consigo parar de chorar. Nunca mais vou na escola. Todo mundo vai dizer que sou mentiroso que falei que era filho do Daryl e da Clarie e agora não sou mais.
─Ben! – Meu pai bate na porta. – Abre! – Não respondo. – Benjamin abre a porta! – Ele está bravo comigo e não sei não se ele não vai me bater. – Abre!
─Não abro Daryl! – Digo chorando. Não vou mais chamar ninguém nunca mais de pai. Nunca mais.
─Ben essa porta não vai me impedir de entrar. Abre. – Me sento na cama. Ele vai me bater eu acho. Porque gritei com a Clarie e xinguei o filhinho dele. Olho a janela. Abro ela e olho para baixo.
Eu sou bem esperto. Não sou sem graça que nem o bebezinho burro deles. Consigo descer. Empurro um pouquinho o negócio que fica o abajur e subo na janela. Passo para o outro lado. Ele não está me chamando mais. Então eu me apresso.
Começo a andar devagar pelo telhado e chego na beiradinha. Me sento e começo a escorregar. Meus olhos ficam embaçados porque tem lágrimas e não vejo nada direito. Nem sei se está muito alto. Me seguro numas plantas e desço. Quando acho que está perto do chão eu pulo e era alto. Dói um pouco quando eu caio.
─Machucou? – Ergo a cabeça e meu pai está lá de braço cruzado me olhando. Nego com um pouco de medo dele. – Onde pensa que vai?
─Eu vou achar uma casa grande para morar. – Digo tentando secar as lagrimas. Ele é muito... eu nem sei.
─Não. Você vai entrar agora. É uma criança e não pode andar por aí sozinho.
Fico de pé. Não queria mesmo ir em lugar nenhum. Limpo a calça um pouco. Rasgou no joelho e gostava dela porque foi ele que me deu. Meu joelho está ralado e sangrando um pouco. Arde.
Ergo mais uma vez meu olhar sem saber o que fazer. Ele ainda está do mesmo jeito me olhando e não sei está bravo ou não.
─Para dentro Benjamin. Nunca mais faça isso ou tranco sua janela para sempre. Você tem lição para fazer.
─Nunca mais vou naquela escola estúpida! Acho tudo uma merda! Quero que essa porra toda se foda! – Grito mais uma vez.
─Eu não. Eu quero que essa porra toda de certo porque tenho dois filhos para criar e um deles anda precisando lavar a boca suja. Agora entra. Vá fazer escândalo dentro de casa. ─Não me mexo do lugar. – Vou ter que carrega-lo para dentro no colo?
Eu queria. Queria ser eu na barriga da Clarie para nunca me mandarem embora. Fico olhando para o chão. Não sei mais se estou com medo dele porque acho que ele é bom e nunca me machucaria. Daryl anda até mim e quando penso que ele vai me puxar ou me empurrar para dentro como as pessoas faziam comigo antes ele me pega no colo.
Eu já sou um pouco grande, mas adoro ficar no colo dele. Então me encosto em seu ombro e não consigo mais guardar o choro.
─Machuquei meu joelho! – Conto para ele chorando quando a gente vai entrando.
─Eu sei. Sua mãe vai cuidar disso.
─Vou pegar um remedinho para o joelho. – Minha mãe diz e nem sabia que ela estava perto. Ele me põe na minha poltrona, mas agora acho que vai ser do filhinho. – Deixa eu ver isso.
Minha mãe se ajoelha no chão e pega um algodão, molha num remédio e começa a passar no meu joelho. Ela assopra para não arder e mesmo assim tem um monte de lágrimas saindo dos olhos dela.
Fico com um pouco de vergonha. Eu sempre faço coisas feias e ruins. Não sou um menino bom e por isso que eles vão ter um para eles.
─Está ardendo? ─ Ela tem uma voz bonita e sempre fico calmo quando ela fala comigo bem direitinho sem brigar.
─Quando assopra não dói. – Ela fica assoprando até terminar e então me olha. Fica de pé. E vem com a mão para tocar em mim. Mas me afasto. Estou triste que vou embora.
─Queria assoprar para sempre Ben. Para nunca nada doer em você, mas não posso. As vezes dói um pouco. Outras vezes dói muito, mas sempre. Sempre mesmo e isso eu juro. Sempre passa. O tempo faz parar de doer.
Fico olhando para ela e penso se vai parar de doer ir embora e acho que não.
─O bebê que eu tenho aqui dentro nunca vai ser devorado por um zumbi. ─ Ela chora bastante. Meu pai se aproxima dela. Eu estou fazendo ela chorar e ele precisa cuidar dela. ─ Porque ele tem um irmãozinho que é muito corajoso e vai cuidar dele. Você não sabe ainda Ben, mas ama esse bebê. Ama muito e vão ficar juntos para sempre.
Fale com o autor