Resumption

4 Capítulo 4


Notas iniciais
Oiee! Estão curtindo o carnaval? Eu não gosto muito de sair de casa nesses dias, então vou aproveitar para escrever. Espero que gostem.

Pov – Daryl

Carregar o corpo sem vida daquele anjo em direção a Maggie foi o momento mais dolorido de toda minha vida, não existe qualquer razão para continuar, não importa o quão bom e esperançoso você possa ser, a morte te alcança, as coisas saem do controle e não resta nada além de lágrimas e dor.

Beth era a parte boa em mim, só ela podia enxergar isso e agora que se foi levou com ela tudo que era vivo dentro de mim.

Maggie soluça encolhida ao lado do tumulo da irmã, se ao menos eu pudesse me dobrar em dor, mas nem isso, como sempre Daryl Dixon tem que ficar de pé.

O campo verde e o cipreste onde enterramos Beth e seu coração puro vai ficar vivo em minha memória para sempre. As pessoas vão se afastando cada um seguindo para um canto diferente onde pode se entregar a dor.

Não deu certo, tentamos ser cordiais e não deu certo, sinto o peso das escolhas dobrarem meus ombros, é muito para carregar sozinho, por mais que Tyreese se sinta como eu ainda é pesado demais.

Devíamos ter feito diferente, entrado, matado e partido, quis evitar mortes, bobagem, não tem como evitar, se alguém vai morrer decido que de agora em diante serão os inimigos.

Não vou mais ser complacente, chega disso, de agora em diante eu acabo com qualquer um que entrar no meu caminho. A morte vem fácil e não vou esperar sentado.

Temos dois carros, tudo que levamos quando deixamos a igreja e um grupo de mortos de fome cansados e sem direção. Só queria não ter nada além de mim para cuidar, assim podia apenas deixar a morte chegar, nunca esperei tanto por ela.

Carol se senta ao lado de Tyreese, ela está viva, nem isso aplaca minha dor.

Vejo Rick conversando com Glenn e Noah, não quero participar de qualquer decisão, só quero que o tempo passe de uma vez e eu possa arrumar essa dor junto com as outras.

Me encosto em uma arvore, observo o ambiente e me lembro da fazenda, do começo do apocalipse e de como éramos tolos achando que tudo aquilo logo acabaria.

Meu olhar se encontra com o da garota nova, são olhos expressivos que no momento derramam lágrimas e sei que são sinceras, ela esteve com Beth, então só pode sentir falta.

Alguém disse seu nome, mas não me lembro, não importa, só quero que permaneça o mais distante possível. Suas roupas de hospital e aquele rosto suave e perdido me lembra a inocência de Beth e quero esquecer toda a culpa de tê-la deixado morrer.

─Clarie! – Noah dá uns passos em direção a ela, é um bonito nome, ele estica uma garrafa de água, a última que temos, ela aceita, umedece os lábios apenas e devolve. – Beba mais.

─Tem uma criança, eu não quero! – Ele insiste.

Ela nega, e Noah aceita a garrafa de volta, talvez eu possa me embrenhar na mata e caçar um pouco, ficar sozinho, qualquer coisa que me afaste desse lugar.

Um zumbi sai por detrás das árvores, caminha trôpego em direção a Clarie, ela fica de pé, da uns passos para trás, os olhos apavorados, nenhuma defesa, apenas passos incertos sem desviar os olhos.

Não quero mais cuidar de ninguém, não quero ter mais nenhuma vida dependendo de mim, ela tropeça num galho de arvore, cai sentada, se arrasta para trás sem nem pensar em se defender, acertar o maldito zumbi.

Me ergo trazendo a besta comigo, todos estão tão envolvidos em sua própria dor que ninguém nota o momento de pânico no novo membro do grupo, acerto o zumbi com o cabo da besta uns segundos antes de ele abocanhar os sapatos de Clarie.

São tênis completamente inapropriados, tudo nela é inapropriado para o apocalipse, é como se ela tivesse acabado de cair no apocalipse, como se fosse seu primeiro dia nesse mundo morto.

Olho para baixo, ela ergue o olhar, os olhos apavorados movem qualquer coisa dentro de mim, não quero sentir isso, não quero sentir nada.

─Obrigada. – Sua voz é suave, mesmo com o pavor que imprime na palavra.

Com a mão livre eu a ponho de pé, é leve o braço delicado, minha mão quase se fecha em torno do musculo pequeno.

─Sem armas, nem mesmo uma faca? Como espera sobreviver? Acha que sempre vai ter alguém para matar zumbis para você?

Meu tom é ríspido, quero deixar claro que ela não pode contar comigo.

─Não...

─Essas pessoas tem a própria vida para cuidar, faça o mesmo.

Dou as costas a ela, Judith é o único bebê do grupo, todos os outros sabem se defender, ela que se vire. Protegemos alguém, arriscamos tudo e no fim o que temos é isso, apenas mais um corpo enterrado numa porcaria de cova rasa.

Olho para a sepultura de Beth, me lembro da funerária e do momento em que demos as mãos pensando em Hershel, será que existe um paraíso onde gente como eles podem se reencontrar?

─Daryl. – Rick se aproxima de mim com Judith no colo.

─Noah quer ir para casa, Richmond, Beth pretendia seguir com ele, leva-lo para a família, ele falou sobre muros.

─Quer fazer isso? – Pergunto sem conseguir olhar para ele.

─Quero, pode ser um lugar, se eles conseguiram vamos ter muros e proteção, um lugar para recomeçar.

─Não tem nada para recomeçar, mas aceito o que quiser, estou com você, sabe disso.

─Vamos tentar então. Partimos quando amanhecer, acho que ninguém tem condições de mais nada hoje. Abraham está acendendo uma fogueira.

─Vou caçar, tentar achar agua, volto quando amanhecer, se não chegar podem partir, encontro vocês.

─Daryl...

─As pessoas precisam comer, Judith precisa.

Rick toca meu ombro, pego minha besta e entro pela floresta. Preciso de solidão e silencio, a besta está armada, carrego um galão vazio, nem água temos para começar a viagem até Richmond.

Escuto passos, não os arrastados como de costume, aguço a audição, nada dos gruídos de sempre, armo a besta, fico pronto para o ataque. É como vai ser, atirar antes, perguntar depois.

Os passos se afastam, sigo na mesma direção, talvez eu queira arrumar problemas, talvez queira apenas pensar em qualquer coisa que não seja a merda toda que temos vivido.

Os galhos vão quebrando em baixo dos meus pés, quem quer que caminhe na minha frente não é bom em ouvir os sinais, já devia ter fugido ou me esperado.

A pessoa não tem direção definida, vai apenas se enfiando mais na mata, ziguezagueando perdido. Talvez precise de ajuda, quem sabe está ferido?

“Ainda existem pessoas boas”.

Não Beth, não existem, os bons estão mortos e agora você sabe disso.

Agora o barulho de água correndo se mistura com os passos e fico em dúvida se vou em busca de água ou se continuo a seguir quem quer que caminhe pela floresta.

Me decido por seguir mais um pouco, ao menos enquanto a água não ficasse distante. Uns passos depois o som de passos acaba, paraliso, ajeito a besta, é hora de descobrir quem sigo a quase meia hora.

Me surpreendo quando chego a uma pequena clareira, Clarie estava sentada sob uma arvore, o rosto encostado nos joelhos dobrados enquanto ela soluçava.

Fico um momento confuso sobre o que se passa, ela estava com o grupo e deixou a todos? Porque alguém faria algo tão estúpido? Se prefere seguir sozinha eu que não vou impedir, se nem mesmo se deu ao trabalho de agradecer a ajuda o problema é dela.

Dou um passo para trás decidido a buscar água e voltar para o grupo, talvez caçar um esquilo ou qualquer outra coisa.

Um tipo de culpa me domina, não quero deixar a garota ali para ser devorada, não quero isso para ninguém. Me viro mais uma vez e o que vejo é Clarie fechando os olhos a espera de um zumbi que se aproxima.

Minha flecha atravessa o cérebro no infeliz que cai diante dela, com o susto ela fica de pé, me olha chocada.

Nossos olhares se cruzam, de novo aquela coisa querendo viver dentro de mim.

─Vamos! – Devia ser um convite, soa como uma ordem, ela continua colada ao chão enquanto caminho até minha flecha, quando puxo do cérebro esbugalhado do zumbi ela não esconde a repulsa.

Quem ainda sente qualquer coisa vendo isso? Ela parece ter vindo de outro mundo.

─Tenho que encontrar água e voltar. Vai ficar aí parada? – Seu olhar que repousava sobre o corpo do zumbi me alcança.

─Estava certo, não sei me defender, vocês têm uma criança, eu não quero ficar...

─Anda logo, não tenho o dia todo, vai escurecer e quero caçar.

Escuto os gruídos se aproximando, que coisa irritante, puxo Clarie pela mão, ela se põe a andar ao meu lado, me afasto dela e seguimos lado a lado em silencio.

Assim que me afasto dos zumbis me concentro no que vim fazer. Caçar.

Acerto um esquilo, sigo até ele e retiro a flecha, prendo o bicho e continuo a caminhar, Clarie tropeça, cai, mas logo se ergue, a calça de tecido fino rasga no joelho.

─Precisa de sapatos mais fortes, esses tênis escorregam muito caso precise correr.

─Só podia usar isso no hospital.

Quero falar sobre aquele lugar, saber como foi com Beth, se sofreu, mas não consigo.

Ela tropeça mais uma vez. Dessa vez estou perto e seguro seu braço impedindo que caísse. Ela me agradece com o olhar.

Alcanço o rio, mergulho o galão e retiro a água limpa, enquanto faço isso ela lava o rosto e toma um pouco de água, bebo também depois de encher o galão, é hora de ir e me ponho a caminhar, dessa vez não preciso convida-la, ela apenas me acompanha calada.

─Está cansada, vamos parar um pouco, já escureceu.

─Parar? Aqui? Na floresta?

─Sim. Acendo uma fogueira baixa e descansamos um pouco.

─Os zumbis... Eles virão.

─Aqui, em outro lugar, eles estão por toda parte.

─Beth disse que era um grande caçador.

─Ela falou de mim?

─Disse que podia encontra-la, estava certa.

Acendo o fogo sem estender o assunto. Me sento em silencio e ela faz o mesmo, mas não relaxa um segundo, o tempo todo olha em volta, nem acredito que está viva.

Os olhos estão tão assustados que sinto pena, ela se aproxima do fogo, torce os dedos, morde o lábio. Escuta barulho e se coloca de pé. Faço o mesmo já com a besta em punho.

Dois deles se aproximam, saindo do meio dos arbustos, eles vêm em nossa direção, Clarie instintivamente se aproxima de mim, a noite está escura demais.

─Melhor irmos.

─Vão nos seguir.

─São lentos. – Toco seu ombro e ela obedece e caminha ao meu lado.

Uma hora de caminhada e uma cabana surge, tenho meia dúzia de esquilos, um galão de água e está mesmo escuro, não é boa ideia seguir andando.

Bato na porta de madeira úmida e envelhecida, escuto um longo momento, nada de sons no interior do lugar, abro a porta e entro antes dela, está tudo cheio de pó, tem um buraco no telhado, os móveis estão molhados.

─Descansa ai em algum lugar.

Clarie se senta no chão encostada na poltrona, me atiro na cama, o colchão está ensopado e fedendo a podre, mas o que não está? Apoio a cabeça com os braços e fico olhando o céu estrelado pela fresta aberta pelo tempo e descuido.

Adorava ficar nessas cabanas na floresta quando ainda tínhamos mundo, era bom não ter nada para pensar, não ter medo ou preocupações, apenas matar o tempo e ouvir a noite.

Agora tudo se foi, cada dia é pior que o outro e você só quer que chegue logo ao fim, nem posso condenar a garota por não se mover em busca de ajuda. Ela queria ser devorada, eu não deixei.

Me movo na cama e ela se encolhe no chão, é visível que está com medo de mim, finjo não perceber.

Quando volto a ficar imóvel ela relaxa, quando os olhos se fecham e a cabeça começa a pender para o lado se apoiando na poltrona eu fico a observa-la, é jovem, mais velha que Beth, mas ainda sim, jovem, e bonita, muito bonita, parece delicada demais para esse mundo.

Fecho os olhos porque não quero ficar pensando sobre ela, por alguns minutos não quero pensar em coisa alguma.

─Daryl. – A voz suave vem de longe, não reconheço. – Daryl! – Abro os olhos num sobressalto.

Demoro uns segundos para compreender o que se passou, então tudo faz sentido, Clarie está de pé me olhando, parece assustada, a noite tinha perdido força e o dia estava prestes a raiar.

─Estão arranhando a porta. – Corro para porta, pelo barulho tem pelo menos uma dúzia deles.

─Droga! – Olho em volta, logo a droga da porta vai ceder, Clarie nota meu objetivo e empurra a poltrona de madeira, encosto na porta, se a porta cair ainda assim temos uma pequena vantagem.

─Tem uma janela! – Ela diz correndo para janela de madeira na lateral, abro e logo uma mão avança, pego minha faca, seguro a mão e me debruço encontro o corpo logo abaixo, enfio a faca no crânio logo a baixo o corpo cai, olho em volta, os outros se concentram na porta, temos uma chance, alguns caminhavam ao longe vindos em nossa direção atraídos pelo frenesi dos mortos tentando arrombar a porta.

─Vem! – Eu a convido, salto na frente, os mortos na porta percebem. – Anda! – Ela titubeia um instante, eu a puxo pelos braços, Clarie vem em minha direção, cai sobre mim e logo se ergue assustada. – Vamos sair daqui.

Corro com ela logo atrás de mim, a água que consegui ficou para trás, os esquilos ainda estão comigo, presos a ela, nem vi quando pegou. Quando paramos de correr ela me estende.

─Pensei no bebê, me esqueci da água.

─Tudo bem.

─Falta muito para chegar? Seus amigos não estão preocupados com você?

─Não. – A resposta básica esclarece todas as questões, eles não estão preocupados e estamos perto.

─Obrigada. – Ela me diz quando avistamos o grupo reunido ao lado dos carros, todos prontos para partir.

Dou de ombros, não foi grande coisa, não vai acontecer de novo, ela fica com o grupo e outro se responsabiliza por ela, talvez Rick, ele convidou ele protege, quero distância.

─Estamos de partida! – Rick me avisa quando me aproximo, as pessoas olham de mim para Clarie. – Não vi que a levou. – Rick comenta.

─Esquilos! – Estico para ele, não conto sobre encontra-la perdida depois de deixar o grupo, não sei porque.

─Melhor fazer isso antes de irmos. – Carol pega da mão de Rick.

─Glenn e Abe conseguiram água.

─Que bom.

Me afasto de todos, sento no capô do carro enquanto os outros se mantêm reunidos, tiro o lenço do bolso e começo a limpar minhas flechas, varro o ambiente em busca de Clarie, ela está parada no meio da rua, o olhar perdido, de novo é aquela coisa estranha dentro de mim.

Glenn faz a guarda do ambiente um pouco mais ao longe, do outro lado estão Rosita e Abe, Rick reunido com Carol preparam os esquilos. Judy deve estar dentro do carro.

Volto minha atenção as flechas, temos que montar uma estratégia para ir até Richmond, é tolice seguirmos todos, se não tiver nada lá será um desperdício de combustível e recursos.

Tento evitar, mas meus olhos caçam mais uma vez Clarie, ela examinava os braços arranhados, os joelhos sujos e a calça rasgada, seu olhar cruza o meu mais uma vez, devia desviar, mas não consigo, eles me deixam curioso sobre quem ela é.

Acho estranho me sentir assim, não costumo me perguntar esse tipo de coisa sobre quem quer que seja, mas Clarie me intriga, seu despreparo, sua inocência, o medo que parece sentir de tudo e todos, o isolamento, fugir sozinha sem aviso e completamente desarmada.

Quem é essa mulher, onde estava até chegar ao hospital? Porque foi a única pessoa a preferir nos acompanhar se todos os outros ficaram com a segurança dos policiais?

Ela mantem meu olhar, parece presa em meus olhos assim como eu nos dela, me faz pensar se está assim como eu se fazendo perguntas.

Sinto certo perigo, não posso me aproximar muito, não quero mais uma vez acabar carregando a culpa e a dor, o melhor a fazer e manter uma boa distância.

Volto para minhas flechas, no momento só quero mesmo partir desse lugar e nunca mais voltar, seguir o mais longe possível da Geórgia, deixar para trás de uma vez a perda de todos que um dia eu me importei.

Notas finais
Próximo Pov vamos ver as impressões de Clarie sobre Daryl. Beijos!!!