Resumption
5 Capitulo 5
Notas iniciais
Pov – Clarie
Não sei porque ele me salvou e me trouxe de volta, talvez seja apenas para limpar sua consciência. Olho todas aquelas pessoas, agora entendo porque estavam sujos, cansados e abatidos. A vida aqui fora não é fácil.
Talvez a dureza das ruas tenha despertado nele a pena necessária para me trazer de volta. Achei tão mais fácil simplesmente caminhar para bem longe a acolher a morte. Me senti como um velho elefante que se afasta da manada na hora da morte para não perder a dignidade. É mais fácil quando não tem ninguém assistindo. Ele disse que eu tinha que me defender, mas não sei fazer isso e aceitar a morte foi mais convidativo.
Estar aqui fora não é nada fácil, falta quase tudo, comida, água, higiene, abrigo, mas sobra humanidade, companheirismo.
Definitivamente mesmo com todos os percalços ainda parece mil vezes melhor que o hospital, ao menos até agora. Ainda não fui cobrada pela proteção, nenhum homem pareceu interessado em mim como os policiais naquele inferno protegido que era o Grady.
Eles começam a dividir os esquilos, a pequena criança fica com a maior parte, depois o garoto, algumas pessoas recusam, Daryl, Rick, Glenn e Maggie, Carol caminha até mim, me oferece um pequeno pedaço, nego, ela não insiste.
Continuo ali isolada à espera do que eles querem fazer, o tempo todo meu olhar se divide em observar Daryl e caçar a proximidade dos zumbis.
O tempo vai passando, as pessoas terminam de comer e se colocam de pé, são dois carros, claro que se apertarmos cabemos todos, mas fico pensando se é uma viagem possível até Richmond, talvez eles façam diferente.
Noah da indicações em um mapa, conversa com alguns deles, Daryl se mantem afastado, acho que está mesmo muito triste com a perda de Beth, do modo como ela se referiu a ele eram muito amigos, dá para ver como dói mais nele e na irmã Maggie.
Sinto pena de saber que as duas se quer puderam se abraçar, suspiro encolhida no canto até que alguém decida o que devo fazer.
Um barulho nos arbustos desperta o grupo, um zumbi sai por entre as árvores, me ponho de pé no mesmo instante, não tenho ideia do que se faz, Sasha caminha despreocupada, acerta a faca na testa do morto-vivo.
Queria ser forte como aquelas mulheres, queria ter vida e escolhas, queria estar morta talvez.
─Pessoal. – Rick convida as pessoas a se reunirem, parece que as decisões já estavam tomadas.
As pessoas se aproximam, fico onde estou, não acho certo me meter na decisão do grupo, estou apenas seguindo com eles como um favor que nem mesmo compreendo.
─Como vai ser? – Daryl pergunta.
─Não acho boa ideia irmos todos, vou com Glenn, Mich, Ty e Noah. Acho que é mais seguro, ficam com o rádio, qualquer problema vão nos encontrar, se der certo avisamos, se der errado...
─Minha família está lá, vai dar certo, tínhamos muros.
─Nem sempre as coisas são como queremos Noah! – Michonne avisa, conheço os nomes de todos, vejo como interagem, como são próximos, mas não acontece comigo.
Tenho medo de todos eles, medo do momento em que vão me exigir pagamento pelo que fazem por mim.
─Acho que podemos ir seguindo mais um pouco, ficamos no meio do caminho a espera de vocês. – Carol anuncia e todos concordam.
Tudo definido o grupo se divide, Maggie e Glenn trocam um longo abraço, um beijo leve e penso em como deve ser bom ter alguém assim, uma pessoa realmente próxima, alguém com quem dividir os medos, as pequenas vitórias.
Meu olhar busca o de Daryl, não sei porque, ele me olhava, seus olhos eram de um azul limpo, mas tinha ali um mundo de dores que iam além da morte de Beth, talvez viesse de antes do fim. Beth falou sobre como ele era fechado, da vida difícil de antes do apocalipse.
Desvio meus olhos e assisto o carro partir, seguimos viagem, umas horas depois paramos. Carol fala com Rick pelo rádio, ficamos então a espera de notícias, me sento isolada mais uma vez.
Procuro por Daryl, ele está próximo, mais uma troca de olhares e fico me sentindo ridícula, o que ele vai pensar? Toda vez que me olha estou olhando para ele.
Maggie se senta ao meu lado, me oferece uma garrafa de água que preciso aceitar porque não posso sobreviver de outro modo, ainda não tenho certeza se quero viver, mas enquanto não me decido preciso de ajuda.
Tomo uns goles e fico em silencio.
─Como foi para ela? – Ela me pergunta, pela visão periférica vejo que Daryl me escuta, sempre quis contar a eles como ela era forte, era uma boa oportunidade.
─Beth sempre foi muito forte. Enfrentou todas aquelas pessoas, ficou de pé, lutou, acreditou, me deu esperanças, tirou Noah de lá, eu iria com eles, mas na hora... – Me calo, aquela parte da história prefiro não contar. – Eles foram sem mim, então ela foi pega, estava de volta, mesmo assim ficou firme e jurou que iria tentar de novo, queria encontrar vocês, disse que não ia desistir, que se nada desse certo iria para Richmond.
─Mas deu tudo errado.
─Coisas ruins aconteciam lá, Dawn era a grande responsável, quando ela acertou a Dawn queria destruir o sistema, queria dar uma chance aos outros. Ela tinha isso não é? Pensava nas pessoas, ela parecia ser o tipo que não se deixava contaminar pelo apocalipse.
─Essas coisas ruins aconteceram com ela?
─Eu... Dawn descontava sua raiva em Beth algumas vezes, por isso as marcas no rosto. Sei que não é grande coisa, mas Beth não se dobrava.
─É sim grande coisa, gosto de saber que ela não desistiu. E você? – A pergunta de Maggie me pega desprevenida, não quero contar o quanto fui covarde, muito menos as coisas que me aconteceram, pelo meu olhar ela se dá conta. – Desculpe, não precisa contar.
─Obrigada! – Digo sem encarar Maggie.
Fico mais uma vez sozinha, queria ser capaz de me defender para não me sentir tão inútil e dependente.
Carol avisa que Rick está perto de Richmond, a hora da verdade se aproximando, se não tiver nada lá o que eles farão? Será que vão seguir juntos mesmo assim? E eu, faço o que?
Ainda esperamos notícias de Rick, rezo para dar certo, olho para o bebê tão pequeno no colo do irmão, como aquela coisinha tão linda e delicada pode estar ainda viva?
Um grupo de zumbis se aproxima, pouco mais de dez deles, meu coração bate fora do ritmo, o grupo apenas se reúne e caminha para eles. Carl abraça mais a irmã.
Sinto medo, eles parecem não se abalar, corpos vão caindo em sucessão, onde aprenderam tanto? Um dos zumbis consegue passar pelo bloqueio sem ser visto, caminha para Carl e Judy, o garoto parece prestar atenção na briga mais adiante e não o vê.
Não tenho armas, não sei matar essas coisas, só o que tenho é minha carne e talvez isso o satisfaça.
─Carl! – Eu o chamo quando paro em sua frente à espera da mordida, o corpo ergue os braços e abre a boca faminto. Encaro seus olhos mortos, suas roupas apodrecidas assim como seu corpo, o demônio que agora reside naquele corpo não tem piedade, só fome.
Seus dentes podres vêm em minha direção, as mãos geladas envolvem meus braços e não me movo, só conheço essa maneira de salvar as duas crianças, entregando meu corpo em lugar do deles, felizmente os mortos não fazem distinção.
Quando a boca se aproxima vejo a ponta de uma flecha surgir na testa do zumbi, como se estivesse surgindo de dentro para fora, o aperto em meus braços afrouxa e ele despenca, só então enxergo a flecha vinda da nuca.
Daryl abaixava a besta, nossos olhos se encontram e os dele estavam cheios de raiva, a sua volta muitos corpos. Carol corre em nossa direção, pega Judy do colo de Carl.
A menina chorava e o garoto estava paralisado, trocamos um olhar.
─Obrigado. – Ele diz num fio de voz.
Balanço minha cabeça em resposta, suspiramos aliviados, então sinto uma mão envolver meu braço, olho assustada apesar do calor que vem dela, dou de cara com os olhos frios de Daryl.
─Vem comigo! – Ele me arrasta, eu o sigo completamente assustada, o coração saltando de um modo apavorado.
─Daryl. – Carol o chama, ele se vira sem parar de andar.
─Ela não pode continuar assim, tem umas casas um pouco ao sul, não demoro.
Ele me solta e apenas continuo a segui-lo, olho para ele a cada passo, mas sou completamente ignorada. O que ele quis dizer com, ela não pode continuar assim?
Vou pulando por sobre troncos de árvores, escorregando em barro, o terreno é irregular e só dificulta meu caminhar, uns minutos depois eu estava suja de barro, os tênis estavam cobertos por uma crosta de terra.
─Vi uns telhados a pouco, tenho certeza que deve ter algo que te sirva.
Não respondo nada, mas fico grata. As casas surgem finalmente, lembravam cabanas de filmes de terror, três casas de madeira uma ao lado da outra.
Daryl ergue a besta já com uma flecha no gatilho, se põe na minha frente e empurra a porta da primeira casa, não sei de onde vem tanta coragem.
─Fica atrás de mim. – Obedeço. Entramos lentamente, o cheiro de mofo é a primeira coisa que me dou conta, vamos seguindo cômodo por cômodo, não é grande, mas parece limpa, então ele baixa a besta, estamos num quarto.
Daryl abre gavetas e as portas do guarda-roupa.
─Espero você lá fora, encontre algo para vestir e calçar, qualquer coisa é melhor do que ficar por ai com esse pijama azul irritante.
Ele me deixa sozinha e fico ali, de pé, perdida no meio daquelas coisas estranhas, roupas e sapatos de desconhecidos, objetos pessoais, fotos, perfumes, suspiro. Acho que agora é assim que se vive.
Tomo coragem para remexer os objetos, encontro algumas calças jeans, ponho na frente do quadril, deve servir.
Tiro a calça e experimento a primeira, a calça é escura e cola em meu corpo, tento a outra, mas é tão apertada quanto a primeira, não faz diferença, fico com o jeans claro mesmo. Abro umas gavetas e encontro camisetas, pego a primeira que vejo, visto e ela também fica um pouco justa, mas que droga de mulher magra era aquela?
Tem sapatos espalhados por todos os lugares, encontro botas de cano longo, do tipo que se usa quando se monta a cavalo, espero que ao menos os pés sejam como os meus.
Elas me servem, talvez um pouco grandes, mas um par de meias grossas resolve o problema e me deixa mais protegida.
Aproveito para colocar nos bolsos da calça uns elásticos de cabelos. Me olho no espelho, é estranho me ver assim, há mais de um ano só o que visto são as roupas do hospital que agora estão no chão do pequeno quarto e vão ficar ali apodrecendo para sempre.
Mordo o lábio um pouco assustada com a ideia de encarar Daryl. Abro a porta e ele me encara, sinto um leve choque ao me olhar, devo estar ridícula, me sinto como aquelas garotas gostosas que andavam pelas ruas de Atlanta desejando chamar atenção com calças justas e blusas apertadas, desesperadas por assobios e palavras gritadas.
─Só encontrei isso. – Me explico, ele olha para meus pés.
─Sabia que botas não faltariam num lugar como esse. – Daryl puxa sua faca da cintura, dou uns passos para trás na mesma hora.
Me dou conta que estamos em segurança e sozinhos. Daryl percebe meu medo, para um instante.
─Precisa ter uma arma. – Se explica e afirmo, então ele volta a se aproximar, prende a faca em minha cintura. – Vamos embora.
Sem esperar por agradecimentos ou qualquer coisa caminha para a porta e deixamos a cabana de volta ao grupo. Sigo ao seu lado e é mesmo mais fácil caminhar.
─Obrigada.
─Não agradeça, se jogou na frente de um zumbi para salvar Judy e Carl, estou fazendo isso pelo Rick, é o que ele faria em gratidão. Foi estúpido e desnecessário, Carl tinha uma arma e sabia se defender de um único e lento zumbi, mas isso não diminui o que fez.
Me sinto mesmo uma idiota, estúpida e magoada, porque ele não podia ser mais gentil? Baixo a cabeça e continuamos caminhando.
─A faca... Ela vai ficar comigo?
─Sim, e serve para se defender, não precisa virar almoço de zumbi na primeira semana.
─Isso não faz muita diferença para mim e não deve fazer nenhuma para você, então não se importe muito.
Daryl para de caminhar na mesma hora, me encara tão furioso que me dá medo, fico em silencio, os olhos arregalam.
─Sabe quantas pessoas eu perdi desde que essa droga começou? Tem ideia do quanto essas pessoas lutaram?
Fico muda olhando para ele, me sinto mais uma vez estúpida. Acho que nunca vou parar de me sentir assim diante dele.
─Beth queria estar aqui, não foi isso que disse? Que ela nunca desistiu? E diz que não se importa de viver ou morrer? – Ele estava tão perto de mim que eu podia enxergar cada detalhe do rosto, fico ali entre assustada e encantada. – Não vai dizer nada? – Seu tom era firme, mas ele não gritava.
─Eu não sei o que quer de mim, não sei me defender, eu... não consigo matar essas coisas.
─Aprenda, honre as pessoas que perdeu pelo caminho, as que lutaram para estar viva.
Ninguém fez isso por mim, nunca estive aqui fora, os policiais não se importavam comigo, só queria o que eu podia oferecer em troca, não perdi ninguém. Não para o apocalipse.
Um zumbi surge ele vem com uma perna pendurada, metade do rosto faltando, as roupas rasgadas deixavam o peito a mostra e eu podia ver as costelas a mostra, o corpo era magro e penso na fome e no sofrimento que passou para terminar daquela maneira degradante.
─Zumbi! – Aponto para ele que se vira, o corpo caminhava para nós, ele olha de mim para ele.
Caminha com passos decididos, segura o corpo pelos braços, o zumbi gruia desejando sua carne de modo desesperado.
─Venha! Acerte a cabeça. – Ele me manda e demoro a me mover, Daryl não pode estar falando sério. – Anda. A faca na cabeça.
─Não consigo. – Cada parte de mim tremia sinto todo meu corpo reagir a ideia de fazer aquilo.
─Agora Clarie, ele não pode tocar você, toque de uma vez. – Pego a faca presa em minha cintura e caminho com passos incertos, a faca mal se mantinha entre meus dedos.
Ergo a faca e acerto a cabeça do corpo em movimento, ela encontra resistência e faço força, sinto os ossos se rompendo depois a faca encontra o cérebro e o corpo enfraquece Daryl solta e ele cai, a faca segue presa a cabeça.
Daryl tira a faca e me olha, passa a lamina no corpo estendido limpando, depois me entrega.
─Se não for capaz de manter a faca na mão, de que serve?
─Desculpe.
Ele revira os olhos e apenas se põe a caminhar. Eu faço o mesmo, não paramos até estarmos de volta ao grupo, a recepção não é das melhores.
─Rick entrou em contato. Não tem nada, estávamos a sua espera, vamos nos encontrar com eles e depois decidimos o que fazer. – Carol comunica e um longo silencio se abate sobre todos.
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