Resumption
34 Capítulo 34
Notas iniciais
Pov – Clarie
Benjamin dorme como um anjo, não se move uma única vez, já Daryl passa o resto da noite olhando de mim para Ben ao meu lado.
Não conversamos muito com medo de acorda-lo, as horas passam lentas, minha mente fica criando imagens de Ben sendo humilhado, maltratado, sendo perseguido por zumbis, chorando, com medo e fome.
Minha pele se arrepia, nem consigo ficar de olhos fechados, não esperava que ele tivesse uma história colorida e feliz, mas nem me passou pela cabeça tanta dor e medo.
Claro que um garoto capaz de acessos de raiva como ele não podia ter muitas coisas boas para contar, mas tudo aquilo? Imagino homens sujos, perigosos, ameaçando o pequeno, falando todos os palavrões e ofensas que ele usa porque é só o que conhece ou conhecia, vou ensinar palavras novas para Benjamin como ensino a contar e ler.
Vou ensinar sobre amor, respeito e proteção, Daryl vai me ajudar e não importa o que nos cerca Ben vai ser feliz, ou o mais perto disso que o apocalipse permite. Eu sou, vivi um tempo na escuridão, mas Daryl acendeu meu caminho, vai acender o dele também.
─É difícil não pensar, nem consigo fechar os olhos. – Ele me olha, me dá um beijo leve e me envolve.
─Muita coisa até para um adulto, muita coisa para qualquer ser vivo. O tipo de pessoa que esse mundo produz, do que elas são capazes, é repulsivo.
─Acho que esse mundo não criou nada, tudo isso sempre existiu, agora as pessoas apenas libertaram o monstro de dentro delas. – Eu concluo, eu passei por coisas ruins, e Daryl, Rick, Maggie, todos nós, mas não nos tornamos monstros, ou ao menos não deixamos que ele nos dominasse.
─Tenho medo. – Ele me diz sombrio. – Medo do que posso ser capaz de fazer se um dia cruzar um desses caras, de me tornar esse mesmo monstro.
─Não vai, não é sua natureza Daryl, se der de cara com um deles, ou todos, sua primeira preocupação será proteger quem você ama e não vingança.
─Quando estava caçando a Beth e o grupo ficou na igreja... Os canibais, Gareth e os outros, eles foram atrás do grupo. Mataram o Bob.
─Eu sei, Maggie me disse que foi horrível, Bob contou que comeram a perna dele diante de seus olhos. – Sinto um arrepio, ele me envolve mais.
─Sim. E o grupo armou uma emboscada, eu não estava, mas foi uma carnificina, essas pessoas, Rick, Mich... Eles não tiveram piedade, a igreja ficou... Encontrei o Grady, Noah contou sobre a Beth e fui buscar o Rick, então quando cheguei lá.
─Sei que a igreja estava coberta de sangue, que o padre Gabriel estava chocado e por isso criou esse problema falando bobagens para Deanna.
─Rick queria chegar no Grady destruindo tudo, eu e Tyreese preferimos um acordo.
─Sei onde quer chegar, não foi sua culpa.
─Talvez, mas penso que não é mais um mundo para piedade, não tem mais espaço para dialogar, esses caras são monstros? OK, eles são, mas se não formos também quanto tempo vamos sobreviver?
─Acho que devemos reagir, sempre, devolver, nunca começar, mas nunca ceder.
─Só quero entender melhor essa história toda, enxergar o perigo, eu não sei, sinto que as coisas.... Não sei, Clarie, falamos em recomeço, mas não sei.
─É sim um recomeço! – Eu digo me encostando em seu peito, olho para a janela e já é dia. Suspiro, que noite difícil. – A história do Benjamin nos perturbou, principalmente você, e acho que ele é o que importa agora, o passo que ele deu essa noite foi grande.
─Pela primeira vez desde que chegou aqui ele se comportou como um menininho apenas.
─Como a gente faz agora? – Daryl sabe como lidar com Ben, ninguém melhor que ele para saber como faço agora.
─Trata ele como o garotinho que é. Acho que foi isso que pediu essa noite, para ser apenas uma criança.
─Que bom! Era só isso que eu queria. – Ele me beija, sinto sua preocupação, sua leve tristeza e espero que Benjamin consiga de algum modo deixa-lo um pouco mais confiante.
Ficamos abraçados, olhando Ben dormir espalhado na cama. Sorrio, os cabelos nos olhos, o jeito que se espalha na cama, um arzinho meigo e carente, de vez em quando uma fúria mal contida, me lembra tanto Daryl que podiam ser pai e filho.
─Ele parece você. – Daryl ri.
─Coitado! – Olho para ele fingindo estar brava. – É sério, o que nos torna parecidos é... Não importa. – Ele olha Benjamin. – Morgan disse que ele é meu filho.
─É o que combinamos, pelo que sei, decidimos por isso.
─Quero que ele seja, gosto como se fosse, nem sei como um pai gosta de um filho, nunca tive um, mas gosto dele.
─Ama? Pai é isso, ama e pronto, protege, deseja o melhor.
─É assim que me sinto, a questão não é como eu me sinto sobre isso e sim ele. Ben deixou bem claro que está aliviado por não ter um pai.
Esse é Daryl Dixon, o cara que amo e que tem medo do amor de um garotinho. Abraço mais ele.
─Aliviado por não ter mais aquele pai, aquela figura o apavora, assim como apavora você. – Ele me olha surpreso. – A história não é a mesma entre vocês, não é como você e o seu pai ou ele e o pai dele.
─Ele não entende isso. A imagem que tem de um pai...
─Você vai mudar isso, aos poucos, quando ele confiar em você. – Ben se mexe tira o cabelo dos olhos e continua a dormir. – Vou ver se ele me deixa cortar o cabelo dele um pouco.
─Não tem nada errado com o cabelo do menino, não transformar o menino num principezinho todo engomadinho.
─Ele que decide Daryl, se ele deixar eu corto, devia cortar o seu também.
─Deixa meu cabelo em paz. – Ele fica sério e sorrio. Benjamin abre os olhos, fecha de novo, então acho que se dá conta que estamos os dois olhando para ele e se senta num susto.
─Dormi aqui! – Diz surpreso. – Nem me levaram dormindo.
─Não. O combinado não era você dormir aqui? – Eu pergunto e ele afirma.
─Eu chorei, tive um pesadelo e contei que tenho oito anos, ainda vou morar aqui? A gente vai ter que contar os dias de novo?
─Não. Você é uma criança Ben. Crianças não podem ficar sozinhas, precisamos cuidar de você, não vamos contar dias, não vai a lugar nenhum e eu e o Daryl vamos cuidar de você.
─Como é isso?
─Vai ver. Agora eu vou preparar o café da manhã, depois tem lição.
─Não tem zumbi nenhum não?
─Foi sonho Ben. – Daryl diz firme e ele acredita. Porque o que Daryl diz é uma lei para Benjamin.
─Tenho que falar com o Rick. – Daryl diz quando fica de pé, Ben salta da cama.
─Vou junto.
─Mas e a lição? Vocês dois não tem uma mini escola? Todas as manhãs?
─Eu não disse que ia ficar perto sempre? E se aparecer zumbi e gente ruim? Você que falou que pode aparecer.
Olho para Daryl meio confuso ao se dar conta que agora tem um pequeno perseguidor, Ben decidido e ao mesmo tempo sem saber o que fazer.
─Eu vou só buscar o Rick, não demoro e não vai estar sozinho, vai ficar com a Clarie. Pensei que podia me ajudar, não gosto de deixar a Clarie sozinha.
─Tá e a gente vai fazendo um pouco de lição.
─Isso.
Ben se tranquiliza, e por fim posso descer para arrumar as coisas preparar um café, Daryl sai pouco depois, passo exercícios para Benjamin, nada novo, acho que ele teve uma noite difícil e ainda está confuso sobre como tudo vai ser agora.
Rick vem com Daryl, Judy está com ele.
─Oi Clarie. – Ele me sorri quando os dois entram na cozinha, sorrio pegando Judith, ela está com o rostinho gelado. – Carl está na aula, Jessie está ocupada e acabei ficando com a Judy.
─Se quiser ela pode ficar comigo. – Ele sorri.
─É bom, está muito frio e tem muito a ser feito, Deanna você sabe, não se recuperou de tudo que aconteceu, Maggie tem aos poucos assumido essa parte, vai entrevistar os três que chegaram, mas eu tenho cuidado do resto.
─E a Carol, não está achando ruim da Maggie e não ela assumir a comunidade a seu lado?
─Não, ainda está fingindo ser a pacata dona de casa que assa biscoitos, não sei o que pensar sobre isso. – Rick me diz aceitando a xicara de café quente que ofereço a ele.
─Estranho demais.
─Sim. Mas afinal porque precisava falar comigo Daryl?
─Vamos lá na sala? – Os dois seguem para sala e olho para Ben encarando o caderno.
─Quando terminar é só me chamar tudo bem?
─Ela devia era ir na aula com o irmão dela, se não nunca vai saber escrever e ler. – Ele me diz olhando Judith.
─Judith é bem pequena ainda, só quando crescer um pouquinho que vai para escola.
─Você gosta mais de criança ou de bebê? – Sorrio, um pequeno ciumento. Penso em Daryl com ciúme de Morgan e depois não posso acha-los parecidos?
─Gosto mais de você Ben. Mais do que todas as outras pessoas do mundo.
Ele sorri, se arruma mais na cadeira. Passa a mão pelo cabelo para tirar dos olhos. Fica tímido com minha resposta.
─Vou terminar minha lição. – Um dia talvez ele me fale sobre sentimentos, por enquanto ele apenas aceita, mas isso já é dizer que de algum jeito gosta de mim.
─Então ele estava com esses lobos? – Rick pergunta surpreso, ele e Daryl sentados, me aproximo, sento na poltrona de Ben. – Acha que eles podem chegar aqui?
─Não, ainda tem mais que quero saber, só não quis forçar muito, foi um momento tenso.
─Claro. Esse lugar tem muitos pontos a ser ajustados. O padre Gabriel por exemplo, ele me preocupa.
─Não confio nele, fez nossa caveira Rick, apurei por aí. – Daryl diz irritado. – Salvamos a vida do maldito, trouxemos ele até aqui e o ingrato acha que pode nos chutar.
─Eu sei, Maggie está lidando com ele, ela é diplomática, acho que pode controlar as pessoas e é confiável. Soube que em algum momento eles expulsaram umas pessoas daqui.
─O Aaron me contou, disse que deixou os caras longe, desarmados, ele acha que não sobreviveram, ele é meio culpado.
─Maggie tentou rever a fita, saber se na entrevista eles deixaram alguma pista, isso já estava me preocupando e agora esses lobos. E se esses caras voltam em busca de vingança?
─Ele morreu. – Benjamin surge na sala, vem devagar, um tanto tímido, se espreme ao meu lado em sua poltrona, se o assunto não fosse sério eu riria.
─Quem morreu Ben? – Daryl pergunta.
─O homem que a Maggie estava vendo na TV, eu vi, ele era um dos lobos, mas morreu.
─Sabe quando ou porquê?
─Ele queria ir num lugar, mas os lobos disseram que era mentira, ele sempre queria, um dia teve uma briga, foi de noite e tinha uma fogueira, eles brigaram e ele caiu no fogo.
─Ele contou que lugar era esse Benjamin? – Rick pergunta e só pode ser Alexandria, de algum jeito deles sabem desse lugar e se juntarem as fotos que Aaron perdeu, então é certo que viriam, encaro Daryl e Rick, a preocupação estampada nos rostos.
─Desculpe, não sei direito, só ficava falando de luz e agua quente e comida. – Ele responde tentando puxar na memória por mais. ─Todo mundo rindo e chamando ele de um monte de coisa.
─Certo, de agora em diante nada de receber pessoas estranhas, vamos triplicar a segurança, ninguém vai mais lá fora se não for num bom grupo. Vamos economizar e organizar. – Rick determina. – Eu vou reunir um grupo e vê o que mais consegue Daryl. – Rick olha em direção a Benjamin, Daryl concorda. – Obrigado pela ajuda Benjamin.
Rick deixa a casa, Judith fica conosco, Daryl se senta, passa a mão pelos cabelos, suspira.
─Está bravo comigo Daryl?
─Não Ben, claro que não, é um bom menino, e ajudou bastante. – Daryl o tranquiliza.
─Vamos voltar para a lição?
─Mas e ela? – Benjamin me pergunta ainda sentado espremido ao meu lado. – Melhor levar ela lá com o irmão, acho que o pai dela esqueceu.
─Não Ben, ela vai ficar um pouco aqui.
─Todo dia?
─Não, só por enquanto. – Judith está sonolenta, se encosta em meu ombro. Eu a faço dormir enquanto Daryl vai com Benjamin para a cozinha, deito a pequena no sofá e vou encontra-los.
Paro na porta quando os vejo rindo juntos, nem sei porque, nem me importa, apenas gosto, nenhum dos dois sorri muito e nem sabia que eram capazes de um pequeno ataque de riso, Daryl tira os cabelos de Ben do rosto.
─Vai pequeno Duende, faz sua lição que sua professora já vem vindo.
─E você fica aqui que é melhor.
─Tudo bem. – Então entro.
─Como está a lição? – Pergunto e os dois se olham cumplices, depois Ben pega o lápis, passa a mão no cabelo para afastar do rosto. – Que acha de cortar o cabelo Ben?
─Cortar? – Ele me olha decepcionado, encara Daryl e sinto seu pedido mudo por ajuda, Daryl me encara com ar vitorioso. – O dele é igual. Vai cortar Daryl?
─Eu não. – Daryl se encosta na pia, me encara escondendo um sorriso, se diverte muito.
─Nem eu. – Benjamin diz confiante. – Vou ficar igual o Daryl, quando tiver dezesseis anos de verdade vou ter uma besta e meu cabelo precisa ficar assim, igual do Daryl.
─É isso Clarie. Perdeu. – Daryl sorri, sorrio de volta, não ligo a mínima, se esses dois podem sorrir juntos também podem ter longos cabelos. Quem se importa?
Uma batida na porta me desperta e aceno para os dois, quando dou as costas a eles sinto uma leve comemoração, caminho sorrindo, acho que essa é a primeira de muitas batalhas que vou perder para esses dois. Quando abro a porta, Denise, Spencer e Amber estavam ali.
─Oi Clarie, atrapalhamos?
─Não, entrem. – Convido dando espaço. – Já se acomodaram? Estão gostando?
─Está tudo bem. ─Daryl e Ben surgem curiosos na sala. –Que bebê linda, é sua?
─Não, é do Rick, conheceram ele?
─A sim, conhecemos ontem. – Denise sorri para Daryl e depois para Ben. – Que menininho lindo esse de vocês.
─Eu não sou um... – Benjamin fecha a cara, mas então se lembra que agora é um menino e se cala.
─Querem um café? – Não sei bem o que eles fazem aqui.
─Isso é mesmo estranho, mas não obrigada, só vim agradecer. – Ela diz sorrindo, o rápido mal estar com Benjamin esquecido.
─Obrigada Clarie. –Amber me agradece tranquila. – Sei me defender, já enfrentei zumbis antes, mas naquele momento foi confuso, John era um amigo querido que fizemos quando tudo começou e ele me ensinou muito, não esperava perde-lo daquele modo, aquilo me abalou e no fim me salvou a vida.
─Não precisa agradecer, estou feliz que estão aqui e seguros.
─Você foi impressionante com aquela lança. – Spencer diz me olhando impressionado. – É muito talentosa, não é o tipo de arma comum as mulheres. Eu até gostaria de aprender um pouco.
Daryl dá um passo para perto de mim, Benjamin olha feio para Spencer e não sei o que esses dois tem na cabeça.
─Sabia que o Daryl é marido dela e ele fica bem bravo se fica falando essas coisas para a Clarie?
Fico completamente constrangida, Spencer parece tranquilo e sorri. Então a porta se abre e Carl entra apressado fugindo do frio.
─Inverno mald.... – Ele para de falar quando vê a sala cheia. – Bom dia. – Ele encara Amber, os dois trocam um sorriso.
─Esse é o Carl, o outro filho do Rick.
─Oi. – Ele diz sem desgrudar os olhos de Amber.
─Como vai Carl? – Ele sorri meio tímido. – Bom temos que ir, só viemos agradecer. –Carl me olha pedindo socorro.
─Não quer ficar Amber, quem sabe joga um pouco com o Carl e o Ben?
─Eu estou fazendo lição, não tenho tempo de ficar de brincadeirinha. – Benjamin responde com sua delicadeza costumeira.
─Eu jogo! – Carl se apressa.
─Há quanto tempo não vejo um desses, é sério? Dá para jogar? – Amber pergunta encarando o aparelho surpresa.
─Vamos Spencer, Amber nos encontra depois. – Denise e Spencer caminham para a porta eu os acompanho, aceno e volto para dentro, Carl e Amber já se acomodavam no chão, não sei onde Enid fica nessa história e não vou me meter nisso, volto para a cozinha com Daryl e Benjamin.
─Eu acho que o Carl quer namorar com todas as meninas do mundo. – Ben diz ajeitando os cabelos e pegando o lápis. Troco um olhar com Daryl, começo a achar o mesmo.
─O problema vai ser se esse Spencer quiser o mesmo. – Daryl diz muito sério e não acredito que isso vai ser um problema com tudo que nos cerca.
Fale com o autor