Resumption

9 Capitulo 9


Notas iniciais
Oi gente! Acho que dessa vez me empolguei um pouco, deve ter ficado grande, Espero que gostem.

Pov – Clarie

Deanna me convida a sentar, a câmera apontada para mim me causa constrangimento, a sala elegante também não facilita minha tranquilidade. Ela tem um sorriso suave e premeditado no rosto.

─Sinta-se à vontade Carie, é só uma conversa informal.

─Estou bem. – Minto muito mal pelo modo como ela me encara, torço os dedos que descansam sobre minhas pernas.

─Então, me conte, como chegou ao grupo?

Não sei porque tenho que abrir minha vida a essa mulher desconhecida, eu desvio meus olhos, eles seguem para a câmera e desvio mais uma vez.

─Eu estava em Atlanta, num hospital, quando começou tudo, minha mãe estava internada lá, ela morreu, a cidade caiu e um grupo de policiais e um médico mantiveram o Grady, ou uma pequena parte dele.

─E como chegou ao grupo do Rick? – Ela insiste.

─Eles foram salvar uma garota, Beth Greene, irmã da Maggie, o resgate infelizmente não deu certo, mas Rick disse que estava disposto a levar quem quisesse partir com ele, aceitei a oferta e estou com eles desde então. Umas semanas apenas.

─É estranho que tenha preferido as ruas, tendo policiais e recursos.

─Não é estranho, é particular. – Ela sorri quando me forço a responder olhando em seus olhos, é um jeito de deixar claro que não quero falar sobre isso.

─Claro, pretende ficar? Rick decidiu que o grupo vai ficar, você fica conosco?

─Fico com eles. – Acho que é bom deixar isso claro, que estou com eles e que a decisão deles será a minha.

Ela compreende, seu olhar penetra de um modo que parece nos conhecer por dentro, me incomoda muito tanta exposição.

─Todos aqui tem um trabalho, mas não sei como encaixar você em qualquer um deles. Acho que parece ainda muito fechada, parece um pouco com Daryl Dixon, eu pude notar que ele parece ser seu protetor, percebi que se coloca na sua frente. Vou pensar em algo para você, por enquanto conheça o lugar e as pessoas.

─Obrigada! – Deixo a sala na mesma hora.

A conversa com Deanna fica reverberando em minha cabeça por todo o dia e a noite, mesmo quando ela vem nos ver sinto seu olhar pairar sobre mim e detesto aquilo.

Não quero ser a protegida de Daryl Dixon, não quero ficar nas mãos de Deanna ou qualquer outra pessoa, quero ser dona das minhas escolhas, quero poder viver sem o medo me sufocar.

O grupo está mesmo eufórico com a chance de voltar a ter uma vida, adoram o banho quente, as roupas novas, a oportunidade de viver em comunidade, não sei como se pode voltar ao que éramos antes.

Peço a Daryl para me ensinar a ser forte, tomar coragem para parar diante dele e pedir algo assim foi difícil, mas consigo, é hora de me esforçar, ser corajosa, não consigo achar esse lugar seguro.

Sinto meu coração saltar quando ele toca meu braço em direção aos portões, o aperto entorno do meu braço é firme, mas não agressivo, gosto de me sentir protegida por ele, os outros parecem não me dar qualquer importância, quase não me notam, mas Daryl é diferente e gosto de estar perto dele, isso só torna tudo ainda mais perigoso.

─Vamos ver se consegue usar a faca, depois vamos pensar em uma pistola.

─Armas de fogo?

─Sim! – Ele me diz sem desviar a atenção do caminho.

─Acho que não consigo...

─Quer aprender ou não? – Ele para um momento para me olhar, meu coração acelera, um pouco por medo dele. Daryl tem tanta força, olho para ele e vejo uma muralha em todos os sentidos.

─Eu quero, mas eu tenho um pouco de medo.

─De viver? De não conseguir?

─De errar... de decepcionar você, eu tenho medo de tantas coisas, sou feita de medo.

Ele continua parado, apenas me olhando, acho que minha honestidade o assusta, Daryl desvia os olhos um momento.

─Está ai dentro, tudo que precisa. – Um zumbi se aproxima, os gruídos chegam primeiro, olho em volta e o vejo surgindo por entre as arvores.

─Um zumbi. – Aviso para o caso de ele não ter percebido.

─Eu sei, e você também sabe, isso é bom, escutou seus passos?

─Não. Eu ouvi os gemidos, odeio esse som, não conhecia antes de estar com vocês, assistia pela janela do quinto andar do Grady o caminhar, mas não ouvia, não sentia o cheiro quase nunca, acho que não me acostumei como vocês.

O zumbi está um pouco mais perto, Daryl olha uma vez, acho que calcula os riscos porque se volta para mim sem sair do lugar.

─Não se acostume, essa é sua primeira lição, nunca se acostumar, esse é o jeito de percebe-lo e tentar alguma vantagem.

Afirmo com um movimento de cabeça, engulo em seco quando ele tira minha faca da minha cintura e me entrega, depois ergue a besta.

Com um movimento de cabeça me manda avançar em direção ao zumbi, minhas pernas bambeiam, acertei um uma vez, mas não corria risco, ele o segurava pelos braços.

─Sabe que tem que acertar o cérebro, sabe que não pode deixar que a boca dele chegue até você, cuidado com arranhões.

Damos meia dúzia de passos para trás com a proximidade esfomeada dele.

─Daryl! – É quase um gemido, tenho vontade de me esconder atrás dele.

─Anda Clarie, ele não pode te ferir, eu estou aqui.

Podia chorar só com aquelas palavras, meu coração se enche de um sentimento que nem conhecia, ele está aqui e nada pode me ferir, um tipo de coragem me invade e dou três passos em direção ao monstro.

Os braços do zumbi grudam nos meus e me impedem de reagir, sinto sua boca vindo em minha direção, me afasto, com o pé eu tento empurrado, caímos os dois e uma flecha atravessa seu cérebro, me arrasto para longe dele.

Daryl retira a flecha de sua cabeça e me olha, me ponho de pé tentando me refazer do susto, sabia que ele depositava mais confiança em mim do que eu merecia.

─Desculpe.

─Vem, vamos continuar.

─Posso correr, tenho folego, isso pode ajudar.

─Não. Isso não pode ajudar, não pode viver correndo, precisa aprender a atirar e a matar zumbis.

─Armas me dão aflição. – Minha memória volta para o Grady, para as vezes que tentei me recusar e tive um cano de pistola na têmpora.

─Armas salvam sua vida Clarie, quer viver? – Ele para de andar mais uma vez. – Precisa decidir.

─Eu não encontro razão. – Sou mais uma vez honesta com ele, por um motivo qualquer não consigo mentir quando estou diante dele.

Vejo um lampejo de qualquer coisa em seu olhar, uma raiva, indignação, me sinto envergonhada, queria que ele sentisse orgulho de mim, mas só consigo causar revolta, Daryl dá uns passos em minha direção, fica bem perto de mim.

─Viva pelos que morreram tentando. – É um bom motivo. Queria muito que fosse o bastante. Sinto seus olhos fixarem nos meus, eu poderia viver por ele, apenas para esperar por esses momentos em que posso estar perto dele.

Sua mão toca meu cabelo escuro, engulo em seco um tanto confusa, gosto de sentir aquela proximidade, confio nele ao mesmo tempo tenho medo.

─O tempo todo eu penso no quanto é injusto eu estar aqui.

─Faça valer a pena. – Ele me diz se afastando, tremo de medo da vida que está por vir.

─Vou me esforçar, prometo.

Seguimos pela floresta, gosto dos sons dos galhos secos e folhas quando pisamos, gosto de estar apenas assim, caminhando em silencio ao lado de Daryl, ele quase não fala, eu menos ainda, mesmo assim é melhor que estar em qualquer outro lugar, com qualquer outra pessoa.

Vez por outra ele faz algum comentário, me mostra algo relevante sobre a floresta, os perigos, o que posso conseguir dela para sobreviver.

─Você fica mais calmo aqui, solto na floresta.

─Não gosto daquelas frescuras todas. – Ele diz sem me olhar, os olhos fixos no terreno irregular. – Consegue perceber as pegadas? Nota que são diferentes?

Não vejo muito, apenas as folhas mais espalhas, a terra meio arrastada.

─Posso ver que aqui os pés se arrastavam na maior parte das vezes, e as pegadas não parecem ter um padrão.

─Viu que não é difícil, olhe as minhas pegadas, vê as botas? Se olhar para as suas verá que são mais leves, pode até sentir o tamanho da pessoa.

─Isso é incrível! – Fico pasma com o número de coisas que aprendi numas horas na floresta.

─Vem. – Ele me aponta o caminho a frente, sigo logo atrás dele. – Espere.

Ele exige diminuindo os passos, procuro ficar mais atenta, prestar mais atenção nas coisas a minha volta, então vejo um corpo dilacerado no chão, nos aproximamos, era quase um esqueleto, roupas rasgadas, o rosto corroído, a mão se ergue enquanto a boca abre e fecha.

─Não foi há muito tempo.

─Parece que está ai há anos. – Eu aviso com o rosto demonstrando minha total repulsa.

─foi devorado por muitos zumbis, por isso está nesse estado. Vai, acerta a cabeça.

Quero recusar, mas ele está fazendo tudo que pode por mim, então eu obedeço, a faca já está em minha mão, me dobro evitando aquela mão de dedos podres que se desespera ao sentir minha aproximação, não devia, mas sinto pena.

Cravo a faca em sua testa, preciso fazer um grande esforço, e quando ela volta ainda trás sangue e miolos, sinto ânsia, mas respiro fundo.

─Aprenda a respirar pela boca se isso te incomoda tanto. – Ele percebe meu desespero. Antes de me erguer algo de metal brilha refletindo o sol, está sob o corpo, fico curiosa, toco a haste de metal gelado, ergo um pouco o corpo e puxo.

Uma lança de um metro com duas pontas bem talhadas lembrando as flechas de Daryl surge. É leve e está suja, entrego a Daryl que a examina.

─Está em bom estado, é leve, bem afiada, uma boa arma.

─Não o salvou.

─Enfrentei um homem dentro de um tanque de guerra, ainda assim eu o venci, uma arma é apenas uma arma, depende de como a utiliza. – Ele me estende a lança. – Leve com você, é melhor que usar essa faca, com a lança não precisa chegar tão perto.

Pego de volta a lança duas pontas era uma boa coisa, o ruim seria carregar, mas depois eu podia pensar em algo para prender a arma.

Continuamos a caminhar, eu já sentia o cansaço, mas nunca diria a Daryl, caminharia até morrer sem nunca reclamar.

Vamos seguindo em frente, eu agora carregando a lança na mão, de pé ao meu lado alcançava minha cintura, fico pensando se aquilo não era um aviso, um presente, quem sabe o universo cansado de assistir todas as minhas desgraças tinha se decidido por me dar uma chance?

─Saia agora mesmo! – O tom de Daryl, o modo como ele aponta a besta em direção a vegetação seca me assusta, então escuto passos e Aaron surge com uma mochila e uma arma. – Porque está me seguindo?

─Percebe a diferença entre um zumbi e uma pessoa. – Daryl não responde, apenas o encara. – Também sabe a diferença entre as pessoas boas e as más.

─Não existe mais essa diferença. – Ele responde, então me olha, Aaron faz o mesmo, mas seu interesse é em Daryl e ele se volta para ele.

─Existe sim, Rick não é bom nisso, mas você é, você pode reconhecer. – Seu olhar recai sobre mim, como se o fato de eu estar ali fosse a confirmação disso. – Estou caçando coelhos, posso seguir com vocês?

Daryl me puxa para perto dele, depois olha para Aaron se decidindo.

─Pode vir comigo, mas fica perto, e não faz barulho. – Ele avisa por sobre o ombro enquanto me puxa para segui-lo.

Aaron não entende muito o que significa não fazer barulho, vai conversando enquanto Daryl observa a natureza e seus sinais.

─Sei que se sente melhor aqui, que é difícil para você se acostumar. – eu sigo atenta a conversa, ou monólogo, Daryl não responde embora esteja ouvindo. – As pessoas têm medo de você, elas têm medo de mim também, todo mundo tem medo.

─Conheci pessoas que não tinham medo de nada.

─Tinham medo sim, todos temos medo. As pessoas têm medo de mim por motivos diferentes, o medo encolhe a mente.

─Por aqui. – Daryl me ajuda a saltar uns troncos de arvore.

─Deanna vai dar uma festa hoje, para receber vocês, deviam tentar ir, vocês dois, deixar as pessoas conhecerem vocês, o medo diminui quando a pessoa o conhece.

Paramos quando um belo cavalo surge, era negro e pastava tranquilo e livre, seu porte e força me emocionam, paraliso diante da imagem.

─Esse é o Buttons, as crianças o viram uma vez e deram esse nome a ele, há meses tento pega-lo para levar para dentro, ele sempre foge. – Aaron pega uma corda, me dá pena pensar que eles desejam prendê-lo. Daryl pega a corda. – Já fez isso antes?

─As pessoas do meu grupo já fizeram.

Assisto Daryl se aproximar do cavalo, falar com ele, sinto o quanto o animal está confiante, sente que Daryl não quer fazer mal, acho que suas almas se reconhecem.

Mas quando estava prestes a conseguir o que queria o cavalo relincha, se ergue e galopa em fuga quando um grupo de zumbis surge nos cercando, Aaron começa a disparar, Daryl usa a besta, fico no meio deles, confusa, sem saber como agir, vejo Aaron cair, um zumbi segurando seu pé enquanto outro avançava sobre ele.

Fico hipnotizada assistindo a cena, vejo Daryl correr para ajuda-lo, só nesse momento me dou conta que um zumbi avançava sobre mim, sem pensar eu uso a lança que mantinha na mão, atravesso o cérebro daquela coisa vestida de trapos que me ameaça, sinto um par de mãos geladas se fechar em torno do meu braço, de modo automático uso o outro lado da lança para detê-lo, os dois caem quase ao mesmo tempo.

Me vejo de pé, a lança erguida na horizontal na altura do meu pescoço, dois corpos caídos um de cada lado, o sangue nas pontas das lanças, a respiração ofegante. Procuro por Daryl, ele estava de pé, ao seu lado Aaron, os dois me olhavam espantados.

─Conseguiu. – Daryl balbucia me fazendo sinal para me juntar a eles, depois corremos os três em busca do cavalo. É tarde quando o encontramos, ele está cercado, os zumbis o derrubam enquanto se deleitam com sua carne, meu coração se destroça, sinto como se aquele animal apenas tivesse desistido. Alguém um dia o domou, depois disso ele não pode mais se defender, minha visão embaça pelas lagrimas e fico olhando enquanto Daryl e Aaron acabam com os zumbis.

É bonito o que os dois fazem, enfrentar os zumbis apenas para dar ao cavalo uma morte digna.

─Faça o que tem que fazer. – Daryl pede a Aaron, posso ver o abatimento no rosto de Aaron, depois vamos andando, de volta a Alexandria, meu coração tão apertado que chega a doer.

Aaron se afasta assim que passamos pelo portão, sigo ao lado de Daryl em silencio.

─Não vai se render como ele não é? – Digo quando chegamos na varanda, ele ergue o olhar para me encarar. – Buttons... Ele é como você, selvagem, sei que não consegue ficar aqui da maneira que eles esperam, que é livre e se for diferente vai acabar se rendendo.

─Não aceito cabresto, pode ficar tranquila.

Afirmo deixando Daryl ali e entrando, algumas pessoas estavam de volta a casa, entre ela Rick e os filhos.

─Onde esteve Clarie? – Maggie me pergunta.

─Lá fora com Daryl. – Ela olha a lança ainda na minha mão. – Encontramos.

─Boa arma, vem, eu te ajudo a limpar e achar um modo de prende-la, quando sair lá fora, é claro, não é boa ideia aqui dentro.

─Porque? – Ela me olha. – Maggie porque temos que aceitar tudo aqui, e se algo der errado, se alguém fizer algo ruim com alguém?

─São boas pessoas Clarie, vem. – Ela me ajuda com um cordão de couro que prendemos no meio da lança, depois fechamos como uma alça, posso levar no ombro e usar quando necessário. – Ficou ótimo. Agora precisa de um vestido para a festa.

─Não vou.

─Claro que vai, todos vamos, mesmo o Daryl deve ir. – Ela me sorri, seu olhar tem muitos significados, mas apenas desvio os meus olhos não quero falar sobre isso. Sinto como se não dizer mantenha as coisas adormecidas. – Aqui.

Ela me estende um vestido, nego e era sorri. Remexe mais uma vez o guarda-roupas, tira outro, esse é mais discreto, simples, me parece mais adequado, estico o braço para recebe-lo.

Acho que posso dar um jeito de sair sem ser vista, ficar uns minutos para não decepcionar ninguém.

Depois de tomar banho vestir a roupa que Maggie me ofereceu e escovar os cabelos me sento na cama, definitivamente não quero ir. Pelo silencio da casa já foram todos.

Me obrigo a caminhar em direção a casa de Deanna, subo os degraus, escuto o burburinho de conversas lá dentro, algumas risadas, não entendo aquilo, me sinto deslocada, olho para o vestido pouco acima dos joelhos, as sandálias de salto alto, esse mundo que eles tentam inventar não existe.

Não me sinto em condições de participar daquela farsa, dou meia volta, se tiver consequências aceito. No meio da escada vejo Daryl sair de trás de uma árvore.

Nos olhamos e meu coração dispara, ele está bonito, limpo, com uma camisa escura e o colete que completa seu visual e é sempre tão charmoso.

─Desistiu? – Ele me pergunta, afirmo, termino os degraus e paro na frente dele.

─Você também. –Daryl dá de ombros, desvia o olhar, me sinto ridícula ali de vestido diante dele, imagino que ele deve estar me achando meio idiota com essa roupa no meio do apocalipse. – Eu... – Vejo que seu olhar percorre meu corpo, fico corada, meu coração acelera e me condeno. – Maggie achou que eu devia me vestir assim, estou ridícula, eu sei.

─Não. Está... está bom, ficou... – Ele aponta para mim, olha mais uma vez e depois nos olhamos. – É melhor irmos.

Caminhamos lado a lado de volta para casa, ou o que quer que aquele imóvel que dividimos com um grupo de pessoas signifique.

─Daryl! – Aaron surge numa varanda.

─Pensei que estaria na festa. – Daryl responde.

─Eric não podia ir, então ficamos, ainda bem.

─Porque me disse para ir?

─Disse para tentar. Tentaram, está tudo bem, venham jantar, temos espaguete, vamos? – Troco um olhar com Daryl, nenhum dos dois muito á vontade com o convite. – Venham, está ótimo, Eric vai adorar te ver Clarie, ele está encantado com a nova amiga.

Entramos, o sorriso de recepção de Eric me tranquiliza um pouco, nos sentamos em volta de uma mesa bem colocada, fico de frente para Eric e Daryl, começo a comer um pouco, o sabor é ótimo, decido me concentrar na comida enquanto Eric desanda a falar, boa parte da conversa não faz sentido para mim, até que ele sugere que Daryl estaria nas ruas, paramos todos de comer, sinto medo só de pensar a respeito.

─Não falou com ele ainda? – Eric pergunta constrangido. Aaron nega.

─falou o que? – Daryl larga o garfo.

─Pode vir comigo um momento? – Aaron o convida se erguendo. – Eric faz companhia a Clarie, ele vai adorar isso.

Daryl me olha como que esperando por minha concordância, afirmo sem outra alternativa. Os dois somem pela cozinha, encaro Eric, ele tem que me contar.

─Aaron não quer que me arrisca mais lá fora, então decidiu convidar Daryl para ser o novo recrutador.

─Ele não quer arriscar sua vida e decidiu arriscar a dele?

─Ele sabe se virar docinho, e dá para ver que não vai seguir como um homem do lar como os que vivem aqui, fingindo que nada está acontecendo, Daryl sabe o que fazer lá fora, sabe a diferença entre as pessoas, não vai por a comunidade em risco trazendo gente que não presta.

─Isso é... é... E se ele não aceitar? – Nem me imagino aqui dentro desse lugar sabendo que Daryl está nas ruas correndo todo tipo de perigos apenas para Eric ficar seguro.

─Acho que no fim ele vai gostar da ideia, pode sair, ficar um tempo lá fora, depois voltar, descansar uns dias, caçar, dormir, não é tão ruim.

Me calo, fico de pé, o vestido gira com o movimento e me sinto ridícula, quero ir embora, vestir minhas velhas roupas. Eric fala um pouco como era quando ele e Aaron estavam lá fora, não escuto metade do que diz, minha mente longe pensando que Daryl aceitaria.

─conversaram? – Eric pergunta quando os dois retornam. Aaron afirma e caminho para porta ao lado de Daryl, nos despedimos e deixamos a casa.

Fico em silencio no pequeno percurso até nossa casa. Um nó na garganta me impedindo de perguntar qual tinha sido sua resposta, todos ainda estavam na festa quando chegamos. Daryl se encosta na grade da varanda, ele realmente odeia aquele lugar.

─Aceitou não é? – fico feliz que a escuridão da noite talvez esconda minhas lágrimas. – Eric me disse sobre o convite, vai embora?

─Porque está chorando?

─Eu não estou chorando. Aceitou ou não?

─Não sei ficar preso aqui, é um modo de ajudar.

─É um jeito de arriscar sua vida! – meu tom é duro, não quero admitir que estou chorando, mas passo a mão no rosto para secar as lágrimas, ele se aproxima.

─Não tem lugar seguro, nem mesmo aqui dentro. Porque está chorando afinal?

─Já disse que não estou chorando. ─Um soluço escapa em meio as palavras.

─E o que é isso? – Ele chega perto de mim, passa a mão pelo meu rosto secando as lágrimas que rolam.

─Quem se importa?

─Quem se importa se estou aqui ou lá fora? – Daryl rebate.

─Eu me importo, não quero que vá.

Me arrependo no mesmo instante, meus olhos seguem de encontro aos dele, são profundos, cheios de medo e angustia, de esperança também, um mundo de coisas que queria desvendar, sua mão volta para meu rosto, seca mais lagrimas, depois seus dedos caminham para minha nuca, não sei quem se aproxima de quem, não sei se me inclino a espera do beijo, ou se ele avança, apenas acontece.

Os lábios de Daryl cobrem os meus, são a princípio duros, o beijo parece voraz, sua língua pede passagem, seu corpo se cola ao meu e seus braços me envolvem de modo possessivo, perco o ar e as forças, estremeço em seus braços, não é como no Grady e as investidas daqueles policiais, quero aquilo, não tenho qualquer repulsa. Caminhamos eu acho, quando me dou conta meu corpo está apoiado na parede ao lado da porta.

Ele se afasta um segundo para respirar, seu rosto ainda colado ao meu, então volta a me beijar, dessa vez seus lábios são suaves, o beijo é terno, gentil, quero que dure para sempre.

Notas finais
Espero os comentários!!!!!!!!!!! Beijos