Resumption
10 Capitulo 10
Notas iniciais
Pov – Daryl
Ela se importa, disse com todas as letras e isso explodiu algo dentro de mim, talvez as lágrimas, talvez as palavras ditas de modo claro, cheias de inocência, ou os olhos cheios de tanta verdade.
Não me dei conta do que estava acontecendo até já tê-la em meus braços e depois de sentir seus lábios o mundo mudou, de um modo que nunca vou conseguir compreender.
Um sentimento confuso me domina, começa com desejo e se mistura com algo mais terno, faz meu coração saltar fora do ritmo e isso me confunde, eu não queria estar aqui, não queria toma-la em meus braços, me envolver, as pessoas morrem, e não tem nada a ser feito.
Seus lábios são macios e eu não consigo me afastar, de voraz o beijo fica suave, ela tem as mãos espalmadas em meu peito, sinto seu corpo colado ao meu e sua respiração acelerada. Não sou um garoto dado a rompantes, mas simplesmente não resisti a Clarie e fiz o queria fazer desde que ela chegou.
Mergulho mais fundo naquela emoção, vasculho sua boca conhecendo seus encantos, ela se deixa envolver, não me repele.
É a mulher mais delicada que já vi, noto isso no modo como se deixa envolver, na voz, no olhar, na delicadeza do corpo e seus movimentos, Clarie é encantadora de muitos modos e eu não estava preparado para isso, não com a rudeza desse novo mundo.
A imagem do Grady toma minha mente e penso nas coisas que ela viveu ali, nas palavras de Noah, aquilo me dá um clique, eu não podia me comportar assim, ela não merecia que a toma-se nos braços desse modo brusco, não depois das coisas que passou, sem aviso eu me afasto.
─Isso não é um pagamento pela proteção, pelas coisas que te ensinei lá fora. – Aviso um tanto confuso, as palavras saindo atropeladas pela tensão.
Sua expressão se transforma no mesmo instante, uma tristeza toma seu olhar, me sinto confuso quando as lagrimas surgem mais uma vez. O que afinal disse de errado?
─Eu sei disso. – Ela me diz num fio de voz, depois baixa o olhar, não consegue mais me encarar, procura o trinco da porta e vejo sua mão tremula. – Acha que era assim que me comportava quando um deles... – Ela engole um soluço, abre a porta. – Não participava daquilo, só não conseguia me livrar.
Seguro seu braço, acho que só por instinto mesmo, não sei muito o que dizer, se sou responsável pelas lagrimas, apenas não quero que chore, que se afaste.
─Não pensei sobre isso, não quis dizer isso.
─Imaginei que todo mundo sabia, só achei que... Não achei nada.
Ainda seguro seu braço, ela ainda olha para o chão e simplesmente quero abraça-la, não é o certo a fazer, o certo e deixar que vá para longe, eu tenho meus planos e eles não incluem uma garota, principalmente essa garota que pede tanto quanto não tenho nada.
─Noah não espalhou isso como pode parecer, falou apenas comigo, eu perguntei. – Ela me encara, talvez descobrir que me importei tenha esse efeito. – Queria entender você.
─Porque? – Sua curiosidade é justa, mas não sei como responder e apenas dou de ombros, resmungo qualquer coisa que ela não compreende porque não faz sentido.
Fico de novo preso naquele olhar doce e cheio de suplicas, mais uma vez me aproximo dela, passo meu braço por sua cintura, mais uma vez ela apenas cede, e de novo eu tomo seus lábios e parece que sempre vou fazer isso.
Seus braços passam por sobre meus ombros, sinto seus dedos afundarem em meus cabelos, mais uma vez não sei como chegamos a isso, escuto os passos do grupo voltando da festa, vozes abafadas vindas de longe e me obrigo a solta-la.
─Vamos treinar mais amanhã, melhor descansar.
Eu digo ao mesmo tempo que caminho para as escadas da varanda. Escuto a porta da sala se fechar, dou de cara com Rick, Judy estava em seus braços.
─Onde vai? – Ele me questiona, tento pensar em qualquer coisa, me sinto ainda um pouco fora de mim, com um pouco de Clarie impregnado em meus pensamentos e ações.
─Uma última volta... Só garantindo mesmo.
─Sem a besta? – Mich questiona e me sinto completamente estúpido, nunca na vida me esqueci dela, olho de um para o outro enquanto o resto do grupo vai passando por nós despreocupados.
Sem dizer qualquer coisa e aguentando a troca de olhares de Mich e Rick dou meia volta, subo os poucos degraus de dois em dois e pego a besta esquecida na varanda, desço mais uma vez quando parte do grupo invadia a casa.
─Não demoro. – Balbucio quando passo por eles sumindo em meio a escuridão.
Caminho pelas ruas tranquilas e silenciosas de Alexandria, nos primeiros minutos apenas fico revivendo aquele momento, sentindo de novo as mesmas emoções que me dominaram, desejando trazer Clarie de novo para meus braços.
Refreio o desejo de busca-la para caminhar comigo, aquilo é ridículo. Domino meu desejo, procuro usar a razão e sei que ela é uma moça delicada, que precisa de cuidados, eu não sirvo para ela, não tenho parada, mas quem serve?
Ninguém. Ela precisa de alguém forte que a mantenha viva. Quem se atiraria para a morte apenas para mantê-la viva? Eu.
Claro que faria isso, sem nunca me arrepender, me encosto numa arvore, respiro o ar da noite, caço nos bolsos um cigarro amaçado, acendo e puxo a fumaça com força.
Clarie domina todos os meus pensamentos, devia ficar longe dela, mas não consigo, definitivamente não sei fazer isso. Ela me invade a mente nos momentos mais estranhos.
Um zumbi surge e só o que penso é se vai chegar perto dela, sinto sede e quero encontrar água para ela, se está calor quero uma sombra para que Clarie descanse um momento.
Os portões de Alexandria se abriram e só imaginei uma bala atravessando seu corpo. Isso deve ser algum tipo de doença mental, que outra explicação pode haver para tanta fixação?
Começo a caminhar de volta, fico feliz que em alguns dias vou pegar a estrada mais uma vez, quem sabe uns dias fora apaguem essa confusão que me encontro.
Até partir vou deixa-la pronta para se defender, Rick assumiu a segurança do lugar e confio nele, mas isso não quer dizer que ela não possa ficar em risco, preciso dividir meu tempo em consertar a moto e treinar Clarie.
Eric gostou dela, vai ficar sozinho, ele sabe se defender, talvez possa fazer companhia a ela, acho que nunca conheci alguém mais sozinho e isolado que eu, mas Clarie tem esse talento para a solidão.
Subo mais uma vez os degraus, arrumo a besta nas costas, como fui me esquecer dela? Nunca em nenhum momento desde que o apocalipse nos atingiu isso aconteceu.
Abro a porta com cuidado, o grupo já está mais confiante e agora boa parte das pessoas dorme nos quartos, eu prefiro um lugar no chão perto da janela, sempre alerta é o meu lema, ou era até essa mulher surgir.
Não devia, mas procuro por ela, está deitada no chão perto da parede, podia estar numa cama ou no sofá em que Noah dorme feito uma pedra, garoto folgado, devia ter cedido o lugar.
Olho mais uma vez pela janela, depois me estico no chão com a besta ao meu lado, uso um braço para esconder o rosto e evitar olhar para ela, não dura muito, sinto que ela se movimento e não resisto a um olhar.
Clarie me encarava, não desvia quando nos olhos se encontram, tem toda uma sala vazia entre nós, mas é como se estivesse ao meu lado, ficamos nos olhando, até que aos poucos seus olhos vão pesando e ela os fecha, ainda fico ali, encarando seu rosto suave enquanto ela dorme.
Me obrigo a fechar os olhos e descansar um pouco. Logo o burburinho de gente andando me desperta, meus olhos vão direto para onde Clarie dormia, ela não está mais lá. Me sento passando a mão pelo rosto.
Rick veste os trajes de policial, aquilo é estranho demais para mim.
Ele e Mich saem em rondas, ando pela casa e encontro Clarie na cozinha, Carl estava sentado com Judy no colo e ela alimentava a pequena.
─Está adorando essa papinha não é? – Sua voz é suave, os três me olham quando sigo até uma cafeteira elétrica e me sirvo de uma xicara de café fresco.
─Isso é muito esquisito! – Digo em voz alta.
─Não mais do que o chuveiro quente. – Carl completa. Meus olhos cruzam com os dela e definitivamente eu não consigo esconder que quero ficar sozinho com ela de novo.
─O que vai fazer depois de alimenta-la? – pergunto e ela dá de ombros.
─Ainda não tenho um trabalho como os outros.
─Então vamos mais uma vez lá fora, mais tarde tenho que consertar uma moto.
Ela me sorri, um sorriso tão amplo e simples que preciso me concentrar muito para não devolver com um sorriso ainda maior.
─Obrigada Daryl. – Não respondo, acho estranho quando as pessoas ficam me agradecendo seja por que for.
─Te espero na varanda, leve sua lança. – O sorriso ainda dança quando deixo a cozinha. – E aí? – Digo quando encontro Rick e Carol na varanda, eles acenam.
─Acabo de pegar uma arma para treinar uns tiros lá fora. – Carol me diz e assinto. – Rick vai conosco.
Sei que não é nada disso, há muito que Carol aprendeu a atirar e ficou boa nisso.
─Vamos, Mich fica fazendo rondas enquanto isso e Sasha está na torre caso precisemos de cobertura.
─Espere a Clarie. – Os dois me olham. – Ela não tem nenhum treinamento, estou apenas... É só uma ajuda. – Me explico sem muito sucesso, Carol tem aquele olhar condescendente que sempre me lança, como uma mãe zelosa, reviro os olhos, arrumo a besta nas costas e finalmente Clarie surge com sua lança pendurada nos ombros.
─Boa arma. – Rick comenta quando caminhávamos os quatro para o portão.
Mais uma vez sair não é problema, uma mulher cuidava dos portões e apenas os abre quando passamos. Seguimos pela mata até uma velha cabana caindo aos pedaços. Rick procura mais uma vez por uma arma que deixou ali e desapareceu.
─Pode ter sido encontrada por acaso. – Carol comenta enquanto ouvimos um zumbi gemendo ao longe.
─Talvez estivesse sendo vigiado. – Eu comento porque acho muito mais provável. – Só não sei se alguém de Alexandria ou qualquer coisa aqui fora.
Um silencio nos abate, o zumbi ainda está longe eu comunico quando Carol abre a bolsa, tira uma arma para Rick, me oferece outra.
Eles me pediram para tentar, estou tentando, não tiro minha atenção das pessoas, mas estou tentando.
─Estou bem. – Aviso para depois receber o olhar confuso dos dois. – Me pediram para tentar.
Eles aceitam aquilo, eu sei que Alexandria não tem a menor chance sem nós, eles vêm apenas dando sorte, mas agora estamos aqui, vamos cuidar das coisas, mas isso não significa que precisamos sair por aí atirando em todos.
Carol pega a dela. Está tudo acertado entre a gente, ninguém além de nós e Clarie sabe sobre as armas, vamos deixar o grupo tentando e isso é bom. O zumbi começa a se aproximar.
─Deixa. – Carol pede disparando meia dúzia de tiros antes de acertar a cabeça e o zumbi cair. – Disse que vinha treinar e não posso voltar com o pente carregado.
─Então foi bom termos cruzado com ele.
─Melhor voltarmos.
─Vou andar mais um pouco por ai com a Clarie.
Eles acenam e caminhamos paro um momento para investigar o corpo, apenas uma curiosidade mórbida, uma marca em sua testa me chama atenção.
─Ei Rick, o que acha que é isso? – Um W cravado na testa parece nos despertar curiosidade. O que pode ser aquilo? Me lembra gado marcado com o símbolo da fazenda. Nos olhamos um momento antes de seguirmos caminhos diferentes.
─As coisas não são tão boas quanto parecem. – Clarie comenta e afirmo.
─Nem perto disso.
Caminho um tempo com ela ao meu lado, dou uma dica ou outra, nenhum dos dois fala sobre a noite passada. Fingimos que não aconteceu, mas o fato é que algo está entre nós, uma energia, eletricidade talvez, mas fingimos não perceber.
─Eu não devia matar zumbis? – Sorrio meio de lado.
─Ainda não surgiu nenhum Clarie, não vamos caça-los, isso é fato.
Ela morde o lábio inferior, não é proposital, mas a imagem me remete ao beijo e paro de caminhar no mesmo momento. Nosso olhar se encontra mais uma vez. Os lábios me convidam mesmo que ela não queira. Dou uns passos até ela.
Que droga Daryl Dixon, não faça isso de novo. Digo quando mais uma vez volto a beijar Clarie.
─Me leva com você? – Ela me pede quando me afasto um instante.
─Não. – Aquilo é uma loucura, só quero que viva, como posso justo eu coloca-la em risco.
─Por favor. Me leva com você.
─Não está pronta, é perigoso, não vou fazer isso.
─Eu não sei o que fazer em Alexandria. Aquele lugar não é para mim. Não me importo mesmo se der errado, não vou culpar você.
Me afasto um pouco irritado, ando de um lado para outro enquanto ela me olha.
─É egoísta! – Eu a acuso. – Não se importa de morrer, mas eu me importo, quero que fique viva, e não vou carregar o peso de ter levado você para a morte.
─Desculpe. – Ela me diz com os olhos tristes. – Está certo, sei que sem estar pronta vou ser apenas um peso. Não devia ter pedido nada.
─ Não é sobre pedir coisas, seu um peso ou nada disso, eu me preocupo com você, mais do que com os outros, apenas isso. Acho melhor voltarmos para Alexandria.
─E não pode ficar?
─Vou fazer essa primeira viagem Clarie, ver com é estar lá fora com Aaron, se me acostumo, se nos entendemos, serão poucos dias, quando voltar me decido.
─Quanto é poucos dias para você? – Ela me pergunta quando retomamos a caminhada.
─Duas, três noites.
─Então se tiver uma quarta noite posso me preocupar?
─Não pode se preocupar nunca.
Um zumbi caminha cambaleante, ela me olha pedindo autorização, preparo a besta, faço um movimento permitindo que ela chegue perto, ela mantem a fica de couro ainda no ombro, mas segura sua lança no centro, é instintivo, não foi treinada, mas está aprendendo a usar aquele objeto de sua própria maneira.
─Cuidado.
Ela se aproxima, enfia a lança na cabeça do zumbi, a ponta atravessa seu cérebro, ela puxa de volta, junto com o metal vem partes de seu cérebro morto. Ele cai, mas a força do movimento a desequilibra e ela cai por sobre o corpo, rola para o lado e logo se põe de pé.
─Está bem? – Detesto que ela faça isso, sempre fico tenso, não ligo quando é qualquer outra mulher do grupo, mas quando Clarie fica tão perto de um zumbi meu coração parece querer sair pela boca.
Queria que ela nunca tivesse que fazer, preciso de todo auto controle do mundo para não passar em sua frente todas as vezes. Se permito que faça isso é com o único objetivo de mantê-la viva.
─Você está mesmo certo. Sou um desastre, não estou pronta para droga nenhuma.
─Vai aprender. – Tento animá-la.
Aponto o caminho a frente e depois de uns minutos avistamos os portões de Alexandria, seguro Clarie pelo braço, ela me olha sem entender.
─Não vai ser tão ruim.
─Deanna não me deu um trabalho Daryl, não te parece estranho?
─Vou falar com o Rick sobre isso, e com a Carol, talvez eles descubram qualquer coisa.
Ela afirma, afasto uns fios de seus cabelos que escapam do rabo de cavalo, ela segura minha mão quando pretendia afasta-la. Ficamos nos olhando, depois que passarmos pelo portão sei que não vou ter mais oportunidade de sentir seus lábios e mesmo sabendo que é errado eu a tomo nos braços outra vez.
Me sinto inteiro quando faço isso, e também mais a vontade para envolve-la, acho que o mesmo acontece com Clarie, ela encosta seu corpo ao meu, uma de suas mãos repousam em meu peito, mas a outra afunda em meus cabelos, tenho uma mão em sua nuca, a outra a prende pela cintura e se não fosse os gruídos de um daqueles infelizes nunca mais nos separaríamos.
─Vem! – Digo me afastando e puxando ela pela mão, até aquilo é bom, meus dedos entrelaçados aos dela. Mas logo nos soltamos e o portão é aberto. Passamos para dentro. – Vou ficar na garagem do Aaron, consertando a moto, quer ir ficar comigo?
Isso Daryl, assim mesmo que se afasta uma pessoa, chamando ela para te acompanhar a cada passo que dá. Me recrimino mentalmente, mas então ela afirma com olhos brilhantes e mesmo sem sorrir sei que gostou do convite e então já estou satisfeito.
Ela se senta num banco e fica me olhando remexer em peças, Aaron disse que a garagem ficava aberta e que podia apenas me instalar e trabalhar, uns minutos depois, talvez pelo barulho, nossa presença é denunciada e Eric surge ao lado de Aaron pela porta da cozinha.
─Ei, está aqui também e nem veio me dar um oi? – Eric comenta, Clarie sorri, acho que esperava que ela sorrisse apenas para mim, aquilo me incomoda um pouco e mais uma vez naquele dia interminável me sinto ridículo. – Vem Clarie, enquanto o Daryl trabalha me ajuda com o almoço.
Ela se ergue, me olha e depois segue até ele.
─Quando estiver pronto Clarie vem te chamar Daryl. – Os dois somem já entretidos em alguma conversa.
─Ele é muito expansivo, isso é o que mais assusta os moradores de Alexandria. – Aaron o justifica. Afirmo sem desviar meus olhos das peças. – Vou dar uma volta, nos vemos no almoço.
─Certo.
Trabalho por quase duas horas sem nem sinal de Clarie, a conversa deve estar mesmo boa. Evito pensar a respeito, mesmo irritado por ela ter vindo para ficar comigo e acabar com Eric trocando receitas na cozinha.
Escuto vozes na frente da garagem, caminho para ver do que se trata.
─Falei com minha mãe que você podia quem sabe sair comigo nas rondas, foi por isso que ela ainda não te deu um trabalho.
Eiden estava de pé, na frente de uma Clarie completamente tímida, olhando para o chão e visivelmente incomodada.
─Não estou pronta. – Ela balbucia.
─Mas eu cuidaria de você é claro, seria bom para nos conhecermos, meus pais são os lideres por aqui e você teria boas vantagens.
─Clarie! – Eu chamo e sinto seu alivio ao me ver na porta da garagem.
─Vim chama-lo para o almoço. – Ela se aproxima muito rápido buscando minha proteção, encaro firmemente aquele garoto tolo que se acha dono do mundo porque acredita ter uma posição superior.
Achei que esse tipo de gente e comportamento tinham acabado junto com o mundo, mas basta erguer uma parede e junta uma dúzia de pessoas e ai está de novo a luta de classes e os abusos.
Aquele idiota não tem ideia de quanto odeio aquilo, vivi uma vida toda me sentindo um idiota esquecido por Deus naquela sociedade medíocre que vivíamos, olhando os ricos e poderosos, sendo invisível, mas agora não sou mais invisível e não é a primeira vez que aquele garoto tenta me tirar do sério, ele já teve problemas com Glenn e agora mostra de novo suas garras.
─Pense nisso Clarie. – Ele diz acenando quando sente o clima pesado. Some com passos rápidos.
─Isso responde porque não te deram um trabalho.
─Vou embora se tiver que ficar perto dele.
─Não vai fazer isso, não se preocupe.
─Não mesmo. – Eric surge pela porta da cozinha. – Falo com Deanna se for preciso. Vim ver o porquê da demora. Vamos, esqueçam Eiden, ele é só um garoto mimado.
Nos sentamos mais uma vez em torno de uma mesa, dessa vez, Clarie está ao meu lado e Aaron e Eric sentados juntos. Eles servem um coelho assado, batata cozidas e uma salada.
Me lembra os bons tempos da prisão.
─Clarie tem muito talento para culinária Daryl. – Eric comenta sorrindo.
─Só ajudei um pouco.
─Como vai o conserto? Acha que tem chance de ficar pronta até semana que vem?
─Não falta nada, já sei o que fazer, vou trabalhar todos os dias e ela ficará muito boa.
─Está triste Clarie? – Eric pergunta, estava claro que falar sobre minha partida a magoava e eu não entendia porque aquilo trazia tanto medo a ela.
─Eu queria ir junto, o Daryl não deixou.
Aaron e Eric trocam um sorriso, resolvo ignorar aquilo e comer, a comida está mesmo muito boa, melhor que o espaguete. Eric mais uma vez desembesta a falar. Não presto mais atenção, até que o assunto passa a ser Clarie.
─Eu sei que vai se sentir sozinha, será a primeira vez que Aaron vai sem mim e acredite, estou com medo de como vai ser isso. – Eric comenta. – Claro! – Ele da um tapa na testa de modo suave, todos olhamos para ele. – Porque não pensei nisso antes? Vem ficar aqui comigo até eles voltarem.
─Os dois sozinhos? – Eu e Aaron dizemos ao mesmo tempo, um silencio constrangedor recai sobre o ambiente, Eric sorri para Aaron, segura sua mão.
─Vou ignorar isso. – Brinca sorrindo. Aaron se dá conta do constrangimento e sorri de volta. Clarie está corada e não me olha, mais do que depressa me concentro na comida.
Me ergo assim que termino, não sei ser cheio de frescuras, se já comi não tem porque ficar ali sentado jogando conversa fora.
─Vou voltar para o trabalho.
Aviso para os olhares de todos.
─Eu... eu lavo a louça, assim você descansa Eric. – Clarie diz começando a recolher os pratos.
─Nada disso Clarie, eu e o Aaron cuidamos disso, vá fazer companhia ao Daryl, afinal foi para isso que veio.
Ela solta os pratos, saímos os dois pela cozinha, finalmente ela se senta no banco em que devia ter passado umas horas comigo, pego uma das peças que devia limpar e testas antes de encaixar na moto.
Ficamos os dois em silencio, não é um silencio ruim, não é constrangedor, ao contrário me enche de paz, ela está por perto, está segura, isso me tranquiliza para trabalhar sem medo, busco seu olhar, são lindos e ternos olhos me acompanhando. O que afinal está acontecendo comigo? Desde aquele beijo não consigo mais ficar longe dela.
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