Resumption
8 Capitulo 8
Notas iniciais
Pov – Daryl
Eu quase beijei a garota, inacreditável, o que eu tenho na droga da cabeça? Ainda bem que me dei conta a tempo, desde quando tenho esses momentos?
Me sento no galpão com minhas fechas para limpar, decido que o melhor meio de lidar com essa mulher é me manter bem distante, não vai se repetir, não vou me sentir responsável por alguém e mais uma vez perder.
Eu estou sozinho agora, absolutamente sozinho e é exatamente assim que vou continuar. Não importa o quanto eu a ache bonita e delicada, não vou cuidar dela, mesmo sabendo que é indefesa e precisa de proteção para sobreviver. Não sou o único capaz aqui, se não fizer outro fará, quem sabe o Rick?
O grupo quer partir para essa tal de Alexandria com Aaron, não seria má ideia, se for um bom lugar pelo menos ela fica segura e posso seguir com minha vida sem ficar com essa mulher na cabeça.
Partimos em dois carros, um deles um traler, Rick vai na frente com Mich, Glenn e Aaron, o restante de nós vai seguindo no traler.
O caminho parece tranquilo uma boa parte da estrada, Abraham dirigia com Rosita a seu lado, Carl cuidava de Judy e me sento nos fundos, é a coisa mais difícil do mundo evitar os olhos de Clarie, toda vez que olho para ela nossos olhares se encontram.
Parece que ela sente meu olhar e me encara todas as vezes, isso é ridículo, preciso ser mais firme, me concentro em ignora-la quando a noite começa a cair.
Penso nas fotos que vimos do lugar, se for mesmo como se apresentou então talvez ela possa seguir uma vida normal.
Com a noite tingindo o céu de negro me ponho mais atento, não se sabe quando uma maldita horda pode nos encontrar. Aqueles malditos adoram tomar a estrada numa procissão de corpos e fome.
─Está com a sua faca? – Não resisto a questionar Clarie, ela me olha um pouco espantada, não nos falamos desde que voltamos da ronda.
─Aqui. – Ela me mostra a faca presa a cintura.
─Devia ter uma pistola também.
─Não sei atirar. – Reprimo uma promessa de ensina-la, me calo voltando a atenção a estrada quando um solavanco e uma brecada violenta me tiram no eixo.
Corro para frente a tempo de assistir o carro de Rick sair estrada a fora atropelando dezenas de corpos, zumbis voavam pelos ares quando Abe dava marcha ré se afastando da horda que tomava a estrada.
─Merda! Merda! – Ele repetia. – Está vendo eles?
─Passaram, parece que conseguiram, vamos pegar algum desvio.
Pegamos uma pequena estradinha lateral, passamos por uma construção quando um sinalizador brilha no céu.
─Ali! – Aponto e Abe acelera, será que são eles? Aquilo parece ser estranho, fico atento.
Chegamos ao local e um homem preso sobre uma roda e começando a se cercar de zumbis gritava por socorro.
Eu e Abe damos conta dos zumbis, tiramos o homem ferido de baixo da roda, a perna estava fraturada.
─Sou Eric, viram o sinalizador? Estou esperando alguém, não estou sozinho.
─Clama ai irmão, só estamos ajudando. – Abe se pronuncia, levamos o homem para dentro da construção, Maggie com seus conhecimentos médicos faz uma atadura na perna.
─Rick deve ter visto o sinalizador, deve estar a caminho. – Digo pegando a besta, melhor sair e espera-los lá fora, torcer para terem visto já que não foram eles a disparar o sinalizador.
─Aaron, Aaron está com ele, com Rick, sou Eric, estamos juntos nessa missão, ele falou de Alexandria não foi?
─Então ele disse a verdade. Está apenas com uma pessoa.
Maggie sorri segurando a mão de homem que suava um pouco talvez pela dor.
Deixo o pequeno grupo reunido, sigo para a porta, alguém precisa estar lá para receber Rick e os outros, pouco depois escuto o assobio de Rick eles se aproximam e entramos todos de volta para construção.
Aaron corre para ver o amigo, ficamos reunidos a espera do dia amanhecer.
─Vou dar uma olhada na porta. – Aviso no meio da madrugada, Clarie se ergue no mesmo instante, desvio meus olhos quando ela se aproxima de mim com aquele ar inocente.
─Posso ir? – Devia dizer não, pretendia fazer isso, era o certo, mas tudo que consigo fazer é afirmar com um movimento de cabeça, ela me segue.
Saio primeiro vasculho a frente do lugar com os olhos, tudo parece bem e deixo que ela saia. Clarie aspira o ar com força, depois solta lentamente.
─Queria um pouco de ar. Estava sufocada lá dentro. No Grady às vezes eu fugia uns minutos para o terraço.
─Se visse onde vivemos... Por muito tempo moramos numa prisão.
─Eu sei, tornaram o lugar um lar seguro e um dia um inimigo surgiu e derrubou tudo.
─Me esqueço que conheceu Beth.
─Você amava Beth? – Ela cospe as palavras que eu não esperava, sou forçado a olhar para ela, minha resposta parece importar, demoro um tempo me decidindo se quero falar sobre isso com alguém.
─Muito, mas não como está pensando, ela era um anjo que me iluminava o caminho, me ensinou coisas.
─Queria ter tido mais tempo com ela.
Ela diz decepcionada, eu também queria, todos queríamos, mas ela está morta, acabou e por alguma razão que ainda não compreendo quero seguir em frente, não queria antes, mas agora quero.
─Vamos entrar, aqui fora os zumbis logo vão nos perceber.
Ela me atende prontamente, nos reunimos mais uma vez com o grupo, aceno para Rick avisando que tudo estava bem, ele descansava em frente a porta que se encontrava Aaron e o amigo Eric.
─Eu sinto muito Daryl. – Clarie me diz sentando ao meu lado, fala sobre Beth, assinto fechando meus olhos. Eu também sinto.
Pegamos a estrada logo que amanhece, no caminho percebo que Eric e Aaron são mais que amigos, não que isso me importe, nunca fui de cuidar da vida dos outros, mas devo admitir que são corajosos.
Clarie faz companhia para Eric uma parte do caminho, escuto uma conversa fluir entre eles mesmo sem entender direito do que se tratava, mas acho que é a primeira vez que a vejo realmente confortável com alguém.
Espero que ela não esteja se iludindo, o cara não está sozinho, me incomoda pensar que ela pode ter algum interesse por ele, mas me calo, não é da minha conta e não tenho que sentir porcaria nenhuma sobre isso.
Clarie leva analgésicos para Eric, escuto mais alguns minutos de conversa abafada, então ela volta a se juntar ao grupo, olha em volta e se senta ao meu lado.
─Está se iludindo, o cara não está sozinho se não percebeu. – Mas que coisa estúpida, não posso mesmo ter acabado de dizer isso, só o olhar de espanto que ela me lança é o bastante para me sentir ridículo, felizmente falei baixo e mais ninguém ouviu.
─Eu sei. – Ela me responde olhando para os próprios pés.
Está triste com a ideia? Não se importa? Como vou saber se não posso ver seus olhos? Me concentro na janela, é o melhor a fazer depois de me comportar como um perfeito imbecil.
Noah se aproxima, se senta próximo a Clarie, não os vejo muito juntos, deviam se apoiar, mas conversam pouco, não sei porque, nem quero saber. Isso só significa que nos próximos minutos vou perguntar, parece que alguém destravou a droga da minha língua.
─Vai ficar em Alexandria? – Noah questiona Clarie, ela ergue o olhar para encara-lo, parece não ter entendido nada. – Se o grupo decidir não ficar lá. O que vai fazer?
─Seguir com eles eu acho, se me aceitarem é claro.
Noah afirma com um gesto de cabeça, se ela quisesse ficar enquanto nós decidíssemos partir o que eu faria? Provavelmente nada, talvez resmungasse uns dias mas seguiria em frente, é isso que faço, convencido disso me distraio mais uma vez com a paisagem.
Paramos na estrada por um momento, estamos próximos e Rick quer ter certeza de como vai ser chegar lá, se não estamos caindo numa emboscada, nos juntamos a ele, apenas eu e Abe, o restante fica nos carros.
─Aaron, sabe no que está se metendo? – Rick questiona com o olhar cético.
─Sei, não é uma emboscada, na verdade estou arriscando muito mais que vocês, temos crianças, comida, plantações, animais. Vocês são um grupo forte.
─Que fique bem claro que somos, isso significa que se achar que está nos enganando...
─Não estou. – Os olhos de Aaron fixam em Rick, sei que ele diz a verdade, acredito que seja um bom homem. – Agora se pudermos seguir, imagino que o Eric deve estar com muita dor.
─Foi avisado, não vamos ter piedade.
Voltamos para a estrada, o dia estava quente, e fico pensando que já passou da hora de acharmos um lugar seguro para Judy, ela precisa de paz para crescer, temos lutado por ela dia e noite e está na hora da pequena saber como é ter uma vida.
Carl carregava a irmã, trocamos um olhar, ele parece cético sobre segurança, não sei se um dia pode se acostumar a viver em casa com crianças e vida normal.
Os carros param finalmente. Descemos diante de grandes portões, a entrada parece segura. O lugar não deixa nada a desejar as fotos que Aaron nos mostrou.
Preparo minha besta enquanto o grupo se prepara para entrar, penso em Terminus, mas nem tudo pode ser como lá, nem todos são ruins, ainda existem pessoas boas. Ela me disse e acredito ou quero desesperadamente acreditar.
Não por mim, mas pela minha família, um mundo de coisas invade minha mente quando vencemos a distância até o portão.
O começo de tudo na velha pedreira, meu irmão, a fazenda, Hershel, a vida na prisão, Beth, as ruas, e agora estamos aqui, perdemos tanto, ganhamos quase nada, quase nunca.
Quem sabe aqui é o lugar onde vamos recomeçar, é disso que todos nós precisamos, de um recomeço.
Acerto uma marmota que pensava em interpelar meu caminho, nunca se pode desperdiçar comida, não nesse novo mundo onde tudo é risco.
O portão corre para o lado e entramos, o lugar lembra um subúrbio classe alta, diferente de tudo que vivi antes do mundo acabar.
Grama, ruas limpas, casas grandes, bem cuidadas com portas e janelas inteiras, nada de sangue, restos de corpos, nem mesmo o cheiro característico da morte que sempre nos perseguiu parece presente.
Eu não quero ser responsável por Clarie, isso eu já decidi na minha cabeça há muito tempo, mas quando me dou conta estou na frente dela, protegendo sua vida com a minha, estivemos em Terminus, a qualquer minuto atiradores podem surgir e mesmo sem admitir eu não consigo evitar protege-la.
─Vocês vão falar com a Deanna, assim podem se decidir. – Aaron comunica.
─Quem é Deanna? – Abraham questiona e ele sorri, Aaron tem um jeito tranquilo de controlar as coisas, isso parece bom, acalma os ânimos.
─Uma espécie de líder, que tal começar por você Rick?
Rick acompanha Aaron, ficamos na espera de sua volta. Meu olhar o tempo todo acompanha Clarie, fico preocupado com ela sozinha com essa tal de Deanna, talvez eu deva ir primeiro para sentir o ambiente.
Quando Rick retorna parece tranquilo.
─É só uma conversa mesmo, vai lá. – Ele me pede e sigo de muito má vontade.
A sala é elegante, cheia de objetos caros, livros, sofás macios, caminho de um lado para outro muito pouco confortável, odeio toda aquela pompa, e não gosto nada desse jeito gentil e politico que essa tal Deanna quer imprimir em todos os seus gestos e falas.
─Pode sentar senhor Dixon.
─Estou bem. – Aviso sem olhar para ela e muito menos para a câmera estúpida que ela me aponta.
─Você quer ficar aqui Daryl? – Não, definitivamente eu prefiro uma cabana no meio do mato, mas não é sobre mim, faz muito tempo que não é sobre mim, é sobre minha família, por eles permaneço, por Rick que me deu isso quando não tinha nada além de uma raiva sem fim de tudo a minha volta.
─O menino e o bebê precisam disso, então tanto faz.
─Por que segue com eles se é tão fechado? – Ela escolhe cada palavra.
─Porque precisam de mim, porque me importo.
─Todos aqui tem um trabalho, vou pensar em algo para você, descobrir o que mais vai fazê-lo feliz.
─Que seja. – Decido que chega de conversa, me retiro sem esperar convite, ela não vai me tratar como um desses psicólogos que ficam tirando tudo das pessoas.
Quando Clarie vai ao encontro de Deanna eu fico bem atento, Rick segue com Aaron para conhecer o lugar que nos foi destinado, depois retorna e demora mais de uma hora para todos passarem pela tal entrevista.
─Precisam entregar as armas, ela ainda pertence a vocês, mas só podem usar quando saírem lá fora. Aqui não é permitido andar armado.
Minha besta fica no mesmo lugar, não vou me separar dela por nenhuma razão, todos começam a dispensar suas armas.
Seguimos para uma das casas que nos foi destinada, começava a anoitecer, estou curioso sobre Clarie e o que ela disse na tal entrevista.
─Vamos ficar todos aqui na sala, montar guarda. – Rick comunica e todos começam a se arrumar pelo chão da sala.
É estranho ver Rick sem a barba de cabelos cortados, me lembra tanto o começo de tudo, faz esse lugar parecer possível.
Noah se afasta do grupo, segue para a cozinha e vou a seu encontro, eu devia evitar, mas não consigo não saber porque eles não são unidos.
─Confiante? – Ele me pergunta quando me aproximo.
─Nunca! – Digo decidido, não tem como sentir confiança, já passamos por muitas coisas. – Você e a Clarie não são próximos. Não gosta dela?
─Ela é boa moça, era gentil com os doentes e os feridos que chegavam no hospital. Foi comigo quando cheguei. – Ele me mostra a perna que manca.
─Sei, e mesmo assim... – Deixo as palavras no ar.
─Eu era faxineiro, vi muitas coisas, sobre como ela era tratada, acho que ela tem um pouco de vergonha de mim, e devo fazê-la se lembrar das coisas que passou, então eu não forço nada, mas se está preocupado com a Clarie, não tenho nada contra ela, apenas não somos próximos.
Afirmo, podia negar a preocupação, mas não teria efeito, está claro que me preocupo, que fui claro na pergunta apenas para saber a opinião dele sobre ela, para saber se ela corria risco perto dele.
Volto para sala, Clarie está deitada num canto, meio longe de todos, os olhos fechados, parece abatida, as coisas que ela pode ter passado naquele inferno fantasiado de hospital me vem a mente e sempre me deixo contaminar pelo ódio.
Acho que depois de passar por algo assim ninguém nunca mais confia, acho que você se quebra para sempre.
Deanna nos faz uma rápida visita, gosto desse lugar, mas ainda não confio nela, de jeito nenhum, ela diz estar tentando me entender, não dou ouvidos, me mantenho firme no propósito de ignorar esse lugar e a chance de viver em paz. Isso nunca acontece.
O grupo dorme mal, eu não durmo um minuto se quer, a mente trabalhando sem parar, quase sinto falta dos gruídos e cheiros. É estranho estar longe do apocalipse.
Penso em como são fracas e indefesas todas essas pessoas, no quanto somos úteis aqui.
Assim que acorda me coloco na varanda, penso no mundo lá fora e não sei se posso viver como eles querem, preso aqui.
O grupo começa a dispersar em busca de conhecer o lugar, não saio do lugar, não quero conhecer porcaria nenhuma.
─Eu e a Lori costumávamos visitar lugares como esse, buscando algo para nós. – Rick me conta parado de pé na varanda.
─Você está aqui agora. – Ele afirma, depois desce os degraus em busca de Carl e Judy. Carol surge na varanda, limpa e bem vestida, me arranca risos.
─Você está ridícula! – Brinco com ela.
─Ainda não tomou banho? Vou te dar um banho de mangueira quando estiver dormindo. – Ela me diz antes de ganhar as ruas, ignoro seu comentário.
Não me decidi sobre coisa alguma e não vou me comportar como eles, todos arrumadinhos fingindo que encontramos o pote de ouro no fim do arco-íris, para mim ainda estamos no meio da tempestade.
Clarie fica de pé na minha frente, ainda como antes, as mesmas roupas, botas e cabelos presos, nossos olhos se encontram.
─Pensei que ia estar como os outros, toda engomadinha.
─Me ensina? – Ela me pede firme.
─Ensinar o que?
─Me ensina a ser forte.
─Esse lugar parece seguro Clarie, vai ficar bem.
Ela me encara os olhos são delicados e suaves, a pele é clara, a boca é bonita e não devia ficar pensando nessas coisas.
─Cedo ou tarde vão me cobrar pela proteção, quero pagar com a minha coragem, não com...
Clarie desvia os olhos, deixa as palavras morrerem nos lábios, seus olhos estão marejados, ela respira fundo, prende o ar um instante enquanto assiste um pequeno grupo de mulheres caminhar despreocupadas pelo meio da rua.
─Você é corajosa, ainda está aqui.
─Por puro asar.
Odeio quando ela faz isso, menospreza a própria vida como se não tivesse valor. Me ponho de pé, pego seu braço puxando-a pela varanda em direção aos degraus.
─Se acha isso então vamos ver o que é capaz de aprender. – Ela me segue obediente. – É bom que já descobrimos se estamos livres ou presos aqui dentro. Vamos lá fora.
Estamos livres, eu descubro isso quando chego no portão e o rapaz o abre sem fazer perguntas, parece surpreso, acho que ir lá fora não é costume do grupo, mas é meu e espero que aprendam isso.
Clarie me segue sem medo, a confiança que deposita em mim me assusta um pouco, mas vou fazer valer a pena.
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